Se a distância e a absoluta incapacidade de sentir a política algo me permite, essa será certamente a possibilidade de seguir os assuntos caseiros com a mesma imparcialidade que sigo a situação em Vientiane, em Timphoo ou Dhaka. Ler o que dizem os políticos, ver as fotografias das jornadas da campanha, desemaranhar o difícil-fácil dos opinadores cativos - sempre os mesmos - e interpretar os silêncios, os arroubos, a publicidade gratuita e o insulto pago que por tantos blogues perpassa, esse tem sido o meu pequeno trabalho. E posso dizer-vos que no domingo haverá surpresa que não guardo. É um atrevimento, mas vou expandi-lo. O PS vai ganhar, mas o tandem que se anuncia não se vai realizar. É mais improvável o BE no governo que a abertura do Metropolitano em Alcochete. O que se vai passar ? O PSD vai ter problemas, pois habituou-se ao parricídio (agora matricídio) dos seus caudilhos mal sucedidos e nos próximos tempos arrastar-se-á penosamente. A grande surpresa da noite vai ser Portas. Goste-se ou não é, com Sócrates, do que os portugueses gostam. Quase arriscaria um resultado e, se acertar, pedirei alvíssaras ou crio Combustões: sondagens & estudos de opinião sem inquérito.
O próximo governo será monocolor, com o não do PSD, o não mas não há outro remédio do PP, o eterno não do PC e a abstenção crítica do BE. Vamos ter Sócrates por mais quatro anos. O sonho não comanda vida.
SócratesOs portugueses gostam dos chefes, sobretudo daqueles que não abandonam o campo de batalha em vésperas do encontro decisivo. Ao contrário de Cavaco, que deixou o comando a Nogueira quando as fileiras começavam a abrir brechas; ao contrário de Guterres que não queria ir a votos e empandeirou o posto a Ferro Rodrigues como se de uma cadeira de lona se tratasse, Sócrates tem um estômago de couro e uma cabeça blindada. Nunca ninguém foi tão insultado, acusado de ditador, objecto de averiguações e de caricaturas como Pinto de Sousa. É um erro, mas aconteceu. Se olharmos para o passado remoto, da monarquia liberal ao salazarismo, verificamos que é nos mais insultados e caricaturados que população se revê. Salazar poderia ter ganho eleição sobre eleição democrática se o tivesse compreendido. Afinal, gostar do poder afiança segurança psicológica àqueles que não o têm. Se Sócrates gosta desse afrodisíaco, se não quer distribuir responsabilidades e diz que tem as alvas de luz imortal ao alcance da [sua/dele] vista e as roxas névoas despedaçam e quase já doira o sol de Portugal, porque razão irá o português votar numa senhora que só promete sangue, suor e lágrimas ?
Manuela Ferreira Leite
O português não gosta da verdade dos números e de projecções económicas. Depois de quase trezentos anos de crise, desde que se esgotaram as pepitas de Minas, a crise é natural. Depois, em tempo de crise, sonha-se, vai-se ao cinema, ao futebol, fazem-se planos para o futuro. O grande erro de Ferreira Leite foi o de querer ensinar macroeconomia e finanças públicas a um povo que confunde a política económica com a velha como falsa ideia da dona de casa, num tempo em que a dona de casa quer um carro, cartão de crédito e só quer cozinhar depois do dia 20, quando se acabou o dinheiro e há que fazer o arroz com a corda dos chouriços.
Depois, Manuela tem três grandes defeitos. É mulher, é uma senhora e não pode ser fotografada em discotecas e na praia. Os portugueses, secretamente, continuam a fazer seperação diática. Uma mulher pode ser responsável, mas o chefe tem de ser homem. É uma senhora e aqueles que não são nem senhores nem senhoras vêem-na como a patroa. No tempo do igualitarismo, para se ser mulher, tem de se usar saia-saco e ter aquela queixada que não lembra a "outra senhora". Vivemos no tempo das queixadas e das figuras bruegelianas, mesmo que a saia-saco exiba o Armani. Finalmente, como não é uma Rute Marlene ou uma Tânia Vanessa, não se deixa ver, não partilha intimidade, não sabe falar de futebol. É uma desgraça.
Portas
Portas é um portento. O homem não pára. Há anos que está na guerra. Dizem que é implacável, que só tem uma ideia fixa, que nele nem amigos nem inimigos podem confiar. É o maquiavélico puro, mas a acção política depende destes homens quem nunca se quedam, que perdem aqui e assomam ali. O PP é Paulo Portas. Justiça lhe seja feita, não precisa de amigos nem muletas. Com os seus 10% é, certamente, o melhor político da praça, pois esses dez por cento são dele, só dele e qualquer outro que queira o partido terá de os reconquistar um a um. Talvez Portas nunca venha a ser ministro, nem primeiro-ministro, mas passou a ser indispensável para qualquer arranjo que viabilize um governo, seja do PS, seja do PSD.
Louçã
A direita devia pagar para o continuar a ter como líder da burguesia que gosta de brincar às revoluções. O homem é desagradável, moralão impenitente, sentenciador e tem um rosto que não compagina com as tão requeridas prendas de telegenia. Com aquele ritus que só lembra um cura de aldeia, não agrada, pois não é beijocável. Depois, é o típico burguês, intello e cheio de si, olha com altaneira condescendência para o povo, que vê como uma criança cega a quem quer levar a luz. Não sabe brincar à democracia e isso paga-se caro.
PC
Do PC não falo, pois não é coisa política, mas algo que se movimenta nos arcanos, misto de Igreja Velha Lusitana e Igreja Adventista. É uma seita. As seitas resistem a tudo e só a biologia as mata.