27 Setembro 2009

Blogosfera mutilada


Parece que quanto mais informadas e participantes, menor capacidade demonstram as pessoas para a isenção, a análise fria e o julgamento crítico, reflectido e inteligente. Neste particular, falharam todos, sobretudo os blogues de coloração partidária. Uns, por quererem ver Juno quando havia Ferreira Leite: outros, por se espolinharem vergonhosamente aos pés de Sócrates com o mais que evidente propósito de demonstrarem serviço num momento de luta pela sobrevivência do líder socialista. A demissão da inteligência, a mercenarização e a partidarização da blogosfera é uma contradição. Mais, é uma vergonha, pois se escravos sempre houve, escravos voluntários e entusiastas é coisa que revolve o que de mais elementar a natureza humana possui. A blogosfera é uma brincadeira. Nela participa-se como num jogo, com parada e resposta, confronto de ideias e muita subjectividade. Ao presumir-se uma instituição, enganando, torcendo, tomando-se de ódios incendiários e adulação abjecta, a blogosfera passa a fazer o papel do galego que outrora se contratava para os ajustes de contas. Os partidos não querem sujar as mãos; os blogues fazem o trabalho sujo. Excepções há e devem ser respeitadas, pois também os blogues podem ter a sua dose de entusiasmo e compromisso. Infelizmente, limito esse grupo a dois ou três.
A blogosfera portuguesa saiu mais suja destas semanas que um limpa chaminés. É tempo de tomar uma barrela e voltar a recompor-se.

26 Setembro 2009

A raleficação


Aceito de barato que os tempos são outros, que as vontades e os modos são diversos. Sou, decididamente, um imobilista, mas depois do que aqui dissemos anteontem a respeito das elites que temos e merecemos, foi-me indicada reveladora imagem da queda. Eu nada sei dos futebóis, mas sei do poder tremendo de condicionamento que exerce sobre metade da população, da intocabilidade, impunidade e tirania dos seus animadores. Podia ser um mundo à parte, uma subcultura, um enclave, mas tornou-se no todo desde que Portugal decidiu que preferia ser uma "potência da bola". Estas coisas pagam-se e aqui está o resultado: um dirigente desportivo palitando os dentes em plena tv. Portugal segue, eufórico, o caminho que leva ao esplendor do reles.

25 Setembro 2009

A minha veia de arúspice: reflexão pré-eleitoral

Se a distância e a absoluta incapacidade de sentir a política algo me permite, essa será certamente a possibilidade de seguir os assuntos caseiros com a mesma imparcialidade que sigo a situação em Vientiane, em Timphoo ou Dhaka. Ler o que dizem os políticos, ver as fotografias das jornadas da campanha, desemaranhar o difícil-fácil dos opinadores cativos - sempre os mesmos - e interpretar os silêncios, os arroubos, a publicidade gratuita e o insulto pago que por tantos blogues perpassa, esse tem sido o meu pequeno trabalho. E posso dizer-vos que no domingo haverá surpresa que não guardo. É um atrevimento, mas vou expandi-lo. O PS vai ganhar, mas o tandem que se anuncia não se vai realizar. É mais improvável o BE no governo que a abertura do Metropolitano em Alcochete. O que se vai passar ? O PSD vai ter problemas, pois habituou-se ao parricídio (agora matricídio) dos seus caudilhos mal sucedidos e nos próximos tempos arrastar-se-á penosamente. A grande surpresa da noite vai ser Portas. Goste-se ou não é, com Sócrates, do que os portugueses gostam. Quase arriscaria um resultado e, se acertar, pedirei alvíssaras ou crio Combustões: sondagens & estudos de opinião sem inquérito.

O próximo governo será monocolor, com o não do PSD, o não mas não há outro remédio do PP, o eterno não do PC e a abstenção crítica do BE. Vamos ter Sócrates por mais quatro anos. O sonho não comanda vida.


Sócrates
Os portugueses gostam dos chefes, sobretudo daqueles que não abandonam o campo de batalha em vésperas do encontro decisivo. Ao contrário de Cavaco, que deixou o comando a Nogueira quando as fileiras começavam a abrir brechas; ao contrário de Guterres que não queria ir a votos e empandeirou o posto a Ferro Rodrigues como se de uma cadeira de lona se tratasse, Sócrates tem um estômago de couro e uma cabeça blindada. Nunca ninguém foi tão insultado, acusado de ditador, objecto de averiguações e de caricaturas como Pinto de Sousa. É um erro, mas aconteceu. Se olharmos para o passado remoto, da monarquia liberal ao salazarismo, verificamos que é nos mais insultados e caricaturados que população se revê. Salazar poderia ter ganho eleição sobre eleição democrática se o tivesse compreendido. Afinal, gostar do poder afiança segurança psicológica àqueles que não o têm. Se Sócrates gosta desse afrodisíaco, se não quer distribuir responsabilidades e diz que tem as alvas de luz imortal ao alcance da [sua/dele] vista e as roxas névoas despedaçam e quase já doira o sol de Portugal, porque razão irá o português votar numa senhora que só promete sangue, suor e lágrimas ?
Manuela Ferreira Leite
O português não gosta da verdade dos números e de projecções económicas. Depois de quase trezentos anos de crise, desde que se esgotaram as pepitas de Minas, a crise é natural. Depois, em tempo de crise, sonha-se, vai-se ao cinema, ao futebol, fazem-se planos para o futuro. O grande erro de Ferreira Leite foi o de querer ensinar macroeconomia e finanças públicas a um povo que confunde a política económica com a velha como falsa ideia da dona de casa, num tempo em que a dona de casa quer um carro, cartão de crédito e só quer cozinhar depois do dia 20, quando se acabou o dinheiro e há que fazer o arroz com a corda dos chouriços.
Depois, Manuela tem três grandes defeitos. É mulher, é uma senhora e não pode ser fotografada em discotecas e na praia. Os portugueses, secretamente, continuam a fazer seperação diática. Uma mulher pode ser responsável, mas o chefe tem de ser homem. É uma senhora e aqueles que não são nem senhores nem senhoras vêem-na como a patroa. No tempo do igualitarismo, para se ser mulher, tem de se usar saia-saco e ter aquela queixada que não lembra a "outra senhora". Vivemos no tempo das queixadas e das figuras bruegelianas, mesmo que a saia-saco exiba o Armani. Finalmente, como não é uma Rute Marlene ou uma Tânia Vanessa, não se deixa ver, não partilha intimidade, não sabe falar de futebol. É uma desgraça.
Portas
Portas é um portento. O homem não pára. Há anos que está na guerra. Dizem que é implacável, que só tem uma ideia fixa, que nele nem amigos nem inimigos podem confiar. É o maquiavélico puro, mas a acção política depende destes homens quem nunca se quedam, que perdem aqui e assomam ali. O PP é Paulo Portas. Justiça lhe seja feita, não precisa de amigos nem muletas. Com os seus 10% é, certamente, o melhor político da praça, pois esses dez por cento são dele, só dele e qualquer outro que queira o partido terá de os reconquistar um a um. Talvez Portas nunca venha a ser ministro, nem primeiro-ministro, mas passou a ser indispensável para qualquer arranjo que viabilize um governo, seja do PS, seja do PSD.
Louçã
A direita devia pagar para o continuar a ter como líder da burguesia que gosta de brincar às revoluções. O homem é desagradável, moralão impenitente, sentenciador e tem um rosto que não compagina com as tão requeridas prendas de telegenia. Com aquele ritus que só lembra um cura de aldeia, não agrada, pois não é beijocável. Depois, é o típico burguês, intello e cheio de si, olha com altaneira condescendência para o povo, que vê como uma criança cega a quem quer levar a luz. Não sabe brincar à democracia e isso paga-se caro.
PC
Do PC não falo, pois não é coisa política, mas algo que se movimenta nos arcanos, misto de Igreja Velha Lusitana e Igreja Adventista. É uma seita. As seitas resistem a tudo e só a biologia as mata.

24 Setembro 2009

As comemorações republicanas


E eles insistem.

Quantas pessoas andam "metidas" na política ?

O Professor António Marques Bessa, das melhores cabeças portuguesas, infelizmente tão pouco lido, defendeu há cerca de quinze anos tese de doutoramento com o título Quem Governa: uma análise histórico-política do tema da elite, notável e exaustivo estudo cujo compêndio devia figurar em qualquer estante culta. Marques Bessa corta cerce com a velha Filosofia Política, especulativa e fascinada pela intemporalidade, incapaz de se perspectivar face à história. Colocando as ideias em circunstância, exibindo enciclopédico conhecimento que quase esgota o vasto reportório bibliográfico publicado no Ocidente nos domínios da Antropologia Política, da História das Ideias Políticas e da Sociologia Política, não deixa de apontar a metafísica e a axiologia como molduras e marcadores anteriores à acção política, mas aborda o jogo político como resultante da luta pelo poder. Na tradição maquiavélica, o poder entendido como fim para quem o busca, rompe com todas as hierarquias axiológicas e é, para todos os efeitos, um monstro cego de valores animado pela vontade de poder. Assim, a elite política deixa de ser considerada valorativamente, mas sim como um grupo de homens (e mulheres) inteiramente dedicados e profissionalizados na busca do poder e distribuição dos privilégios que o mesmo proporciona. Elite não quer dizer inteligência, preparação e serviço à comunidade, mas brutal determinação em atingir o poder e mantê-lo a todo o custo, mesmo que esse custo seja a perda da comunidade que a elite diz servir.

O tema é interessante, pois em vez de colocar a elite como um corpo social exemplar, Bessa categoriza-a na sua mais profunda e inquietante dimensão animal. "Eles" estão no poder e "nós" não estamos. "Eles" dominam e apenas nos pedem o voto ou o assentimento para que nada se altere. "Eles" têm um número, uma estrutura de rendimento e formas de enriquecimento, "eles" têm uma cultura de corpo, "eles" reagem com violência quando posta em causa a sua ascendência. "Eles" são sempre poucos, muito poucos, têm clientelas - não excessivamente numerosas, pois os meios são escassos - podem manipular a lei e os tribunais, o ensino e a comunicação social, nomeiam e demitem as chefias militares e policiais, concessionam obras públicas, premeiam agentes económicos em detrimento de outros, favorecem as suas regiões e depauperam aquelas que lhes são hostis.

A elite tem de mostrar força, tem de amedrontar e simular omipresença para impedir que outros lhe tomem o lugar. Assim, estratifica-se internamente a elite política em elite governamental, elite local e favorecidos. O dinheiro, as possibilidades de ascensão e apossamento de lugares a todos premeia de forma diferenciada, mas é melhor fazer parte da elite que não o fazer. A elite é reduzida. Em regimes ditatoriais, é muito pequena, mesmo que se mascare por detrás de um mar multitudinário. Nestes regimes, aqueles que estão com o poder não correm riscos: a polícia não os prende, os tribunais não os punem. Contudo, salvo em casos extremos, estas ditaduras impõem uma regra de moralidade em tudo que ao Estado e seus servidores respeita. Nas ditaduras, roubar o Estado é um crime e mesmo o mais alto escalão inibe-se de dar largas à veia cleptomaníaca com medo de ser afastado do poder. Nas democracias, contudo, sobretudo naquelas em que afloram mais claros sintomas de degenerescência da nobre ideia de soberania popular, o poder da elite não conhece limites. São milhares de indivíduos ocupando lugares, do topo à base da organização do Estado, posto que a impunidade assume contornos que nenhuma instituição pode impedir.

A elite nos sistemas de pluralidade política é uma elite dividida; logo, há que dar lugar aos que estão no governo e aos que, não o estando, também estão "metidos" na política. Explica-se, assim, que uns e outros invoquem pactos de regime sempre a situação piora, sempre que uma crise económica sacode da letargia quem não "está na política". Nestes momentos, a elite dividida invoca coligações, arcos constitucionais e grandes consensos.

Resta-nos perguntar quantas pessoas fazem parte dessa elite. Ora, pelos meus cálculos grosseiros, quadros superiores dirigentes, cargos de nomeação e confiança política, assessorias ministeriais, dirigentes de fundações públicas, empresas tuteladas ou com forte presença do Estado, eurodeputados, deputados e respectivos secretariados, mais representantes locais (juntas de freguesia e assembleias municipais), com o seu séquito de estipendiados e amigos perfarão cerca de 80.000 ou 90.000 pessoas, ou seja, aproximadamente 1% da população "metida na política". O número parece coincidir com os dados facultados pelos partidos políticos.. Os seus militantes cumpridores, isto é, com situação regularizada, somados os filiados de todos os partidos, quase coincidem com aquele número. É estranho, mas é assim.
É por isso que os comícios me enchem de pavor. Ao ver aqueles milhares de pessoas agitadas e barulhentas, só penso quantas querem um lugar nas sortes da lotaria eleitoral. Não há almoços grátis. Se ali estão - excepção feita aos sempiternos bem intencionados - é por alguma razão. Adivinhem qual !

23 Setembro 2009

Elucidário para uma campanha eleitoral

22 Setembro 2009

Declaração de voto

EU NÃO VOTO
Como servidor do Estado, só conheço um patrão; como português, só tenho um partido; como homem livre [sem seita, lóbi, templo ou partido] mantenho-me longe de todos os fogos emocionais, passageiros e condenados ao desencanto. Tenho as minhas predilecções, mas o regime - todo o regime, incluindo aqueles que o dizem contestar, da esquerda à direita - precisa de uma valente reprimenda. Se me fosse possível auscultar o coração e a inteligência dos portugueses - e gente tão boa, sã e capaz ainda temos - penso que não erraria ao afirmar que este é o sentimento geral daqueles que não fazem, não vivem da política e percepcionam-na com crescente enfado, senão desprezo. Assim, não. As coisas têm de mudar. É tempo da inteligência impugnar a boçalidade, do conhecimento vencer o amadorismo, do fulanismo e capelismo mão-estendida se vergarem perante o espírito de serviço. Tudo o resto são cartazes, volantes, estribilhos e diabo a quatro. Nunca em tempo algum, gente tão pequena, tola e irrelevante teve, como hoje, o monopólio da vida pública. O Portugal Contemporêneo de hoje é bem pior que o de O. Martins, com a agravante de não existir um Rei, que era, digam o que disserem, o grão de mostarda que fazia a diferença.
Partidos já há muitos. Faltam é as ideias e faltam os homens que façam suas as bandeiras de empresários e trabalhadores e, juntos, sem cálculo e reserva, deixem seguir o coração e restituam aos portugueses o orgulho de o serem. Portugal não precisa de programas, mas de orgulho, amor-próprio, unidade de destino e recobro da memória que se perdeu na fornalha das trivialidades medíocres e das "novas ideias" que são sempre velhas desculpas para não perseverar.
Portugal precisa, desesperadamente, de monarquia.

21 Setembro 2009

Os sentimentos tudo sobrelevam: o herói do dia e o herói de sempre


A saga do menino birmanês terminou em vitória. Filho de imigrantes indocumentados, gente pobre fugida à tirania birmanesa, Mong Thongdee ganhou há semanas o concurso público para o melhor avião origami. A final asiática teria lugar no Japão, mas o rapaz não podia abandonar solo tailandês pois era, tecnicamente, um apátrida. Foi uma campanha impressionante de apoio ao garoto, com intervenção das mais altas instâncias e com direito a um encontro com o primeiro-ministro. Depois, tudo acabou em bem. Foi-lhe concedido o passaporte, o rapaz foi e venceu. Regressou hoje a Banguecoque com as palmas da vitória e no aeroporto foi recebido como um herói tailandês. De camisola com as cores nacionais e exibindo sobre a cabeça o retrato do Rei, mostrou aos thais que este país multiétnico foi e é, enquanto existir monarquia, uma lição para todos quantos confundem nação e etnia. As cataratas de lágrimas que fizeram as manchetes dos jornais transformaram-se em largo e orgulhoso sorriso. O Rei, tocado, deu instruções para que ao rapaz fosse atribuída bolsa de estudo até à conclusão do ciclo escolar que terminará dentro de quinze anos, quando Mong concluir o mestrado. O poder tem de ser, sempre, paternal !

Desde a madrugada de hoje, uma multidão compacta aguarda pacientemente em frente de um hospital de Banguecoque o relatório da equipe médica que assiste o octogenário Rei Bumiphol, a braços com enfermidades que acometem pessoas da sua idade. Os livros de boas-melhoras não chegam para tantos milhares de súbditos de todos os estratos e condições que, de joelhos, fazem orações pedindo a recuperação do monarca. O Rei continua a ser o "nosso Capitão", o "nosso herói" (Praehk), o "Senhor da Vida" (Chao Chiwit). Os tempos passam, mas revejo nestas tocantes mostras de fidelidade tudo quanto viandantes do passado registaram sobre esta relação de amor familiar entre o Rei e o povo. O poder tem de ser, sempre, amorável.

Há tempos, um amigo disse-me que os thais só aceitariam um presidente se este tivesse, reunidas, as qualidades do Buda, a força dos Fantastic Five e a longevidade de uma tartaruga; ou seja, essa pessoa jamais existirá.

20 Setembro 2009

Golpes de Estado que não metem medo a ninguém

Passamos a vida a gabar golpes de Estado e governos militares do passado: a passagem do Rubicão por Caio Júlio, o 18 de Brumário de Bonaparte, a Gloriosa Revolução de 1688, o início da "revolução" de 1820, mas quando nos aproximamos da época presente, a mais pequena alusão a um fenómeno que existe desde sempre gela-nos o raciocínio. É o grande tabú, pois a regime algum se pode dizer que um dia morrerá.
Aqui evocou-se ontem o golpe de Estado que em 2006 encerrou a era Thaksin. Por maior respeito que possamos ter pelo "civilismo" e pela ordem constitucional, há momentos excepcionais em que às Forças Armadas é pedido protagonismo que impeça a manutenção de regimes que perderam o respeito pelos cidadãos e transformaram-se em agentes de divisão e conflito, quando não em verdadeiras escolas de crime que atentam contra o Bem Comum. Há golpes de Estado higiénicos, como há golpes de Estado nefastos. Lembro quão benéficos foram os golpes de Estado turco de 1982, o golpe de Estado de De Gaulle em 1958 e, até, alguns golpes sul-americanos que impediram a consumação da castrização então em crescendo.
Contudo, há golpes de Estado absolutamente nocivos, como o dos Coronéis Gregos de 1967 - que destruiu a monarquia constitucional - o de Jaruzelsky de 1981 e todos quantos a CIA concebeu no Sudeste-Asiático ao longo da década de 60. Ou seja, golpes de Estado que cumpram objectivos de uma potência estrangeira, enfraquecendo o Estado, ofendendo os objectivos permanentes da defesa da ordem pública, da paz social e da integridade territorial são condenáveis, pois contrariam os fundamentos teórico e prático que explicam a existência e necessidade de um Exército. Golpes de Estado que visem restabelecer o império da lei e da justiça, as liberdades da cidadania (que não devem ser limitadas aos direitos políticos de participação) e a unidade do Estado são, em suma, o último argumento do interesse nacional. Neste particular, as Forças Armadas alemãs teriam chamado a si o supremo interesse nacional se tivesse vencido o golpe de Estado contra Hitler em 1944. Aqui, o golpe de 2006 foi a ultima ratio e, como se vê, foi absolutamente indispensável para encerrar um sombrio período.


กรมหลวงนราธิวาสราชนครินทร์ = Krom Luang na Naratiwad Rajchana Karin

O busílis da coisa


19 Setembro 2009

O esfarelamento de um mito


Foi hoje a enterrar, sem pompa nem circunstância, o mito Thaksin. O homem que quis todo o poder e sujou a democracia a tal ponto que foi necessário um golpe de Estado para impedir danos maiores à Tailândia, não conseguiu reunir mais de 20 mil pessoas numa patética sessão espírita em que a ideia chinesa de um ditador providencial se associou a outras evocações, igualmente sinistras, que os thais há muito repudiaram. Estavam previstas duzentas mil pessoas, segundo os arautos da "comunicação social" ocidental, sempre ansiosa, sempre comprometida com todas as "causas" que cheirem a amanhãs ridentes. As camionetas chegaram pela madrugada, regorgitantes de pobres camponeses trazidos dos feudos onde um voto vale um saco de comida, uma T-shirt ou um cupão de 20 litros para o gasóleo. Para os caciques, antes havia motorizadas, televisores a cores ou jipes. O dinheiro, dizem os entendidos, está a acabar, pois Thaksin terá perdido mil milhões de dólares ao longo de um negro ano financeiro e já não tem o poder que tinha para manipular, pagar, obrigar e até ameaçar os reticentes. O dia foi de absoluta normalidade. Os tailandeses preferiram um dia de compras ou lazer e viraram, definitivamente, as costas ao plutocrata. Os que compareceram à manifestação, os indefectíveis, mostraram a que ponto a mutação que se operou no campo "vermelho" é espelho do desnorte. Agora, os "vermelhos" de Thaksin são verdadeiramente vermelhos: são comunistas. Ora, o comunismo foi aqui derrotado militarmente em finais da década de 1970 e é uma doutrina que os thais instintivamente abominam e repelem, porquanto coloca em causa os fundamentos desta politéia: o budismo e a monarquia.

As coisas acabam sempre bem, dizia um jornalista na tv. O que Thaksin melhor podia fazer era regressar, ser ordenado monge e passar uns bons anos na reclusão espiritual de um mosteiro entregue à meditação e à leitura do Tripitaca. O "PREC" acabou há muito e não há UDP ou POUS locais que contrariem o irreversível curso da reposição da normalidade.


Faz hoje três anos que as Forças Armadas recorreram ao veto nacional contra um governo cleptocrático e ilegitimado pelos actos. Ou não são as Forças Armadas, em todas as constituições, o garante da unidade do país e da defesa do Estado ?

18 Setembro 2009

As sombras de Deus

Sultans, Shamans & Saints: Islam and Muslims in Southeast Asia, de Howard M. Federspiel

Resistiram à passagem dos séculos. Viram chegar e partir portugueses, holandeses e britânicos, foram suseranos e vassalos, travaram entre si lutas intermináveis ou submeteram-se aos bugis, aos sultões do Achém ou aos reis do Sião. São as "Sombras de Deus", título que pediram de empréstimo ao califado Abássida, mas exprimem a continuidade de uma tradição pré-islâmica "indianizada" que vê nos rajás e sultões homens dotados de poderes sobre-humanos. Cercam-se da regália dos antigos reis javaneses, ostentam coroa, ceptro, espada cerimonial e são acompanhados pelo guarda-sol dourado próprio dos reis budistas da Tailândia e Camboja. São os sultões de Pahang, Terengganu, Perlis, Kedah, Perak, Kelatan, Johor, Selangor e Negri, que integram a Federação da Malásia. Os ocidentais menos avisados não compreendem o milagre desta longevidade, neles identificando um arcaísmo condenado ao desaparecimento. Contudo, no Sudeste-Asiático, um rei não é tido como uma mera instituição política, mas como agente angariador da benevolência divina. Estão no lugar que ocupam pois, sem eles, toda a comunidade política se desmoronaria. Aceitaram o protectorado britânico, como antes haviam enviado anualmente a Banguecoque o tributo de bunga mas. Depois, quando chegaram os japoneses - o maior flagelo da história cotemporânea asiática - foram despojados de tudo e quase assassinados, até que o ocupante se deu conta da importância destas figuras reinantes. Quando, no imediato pós-guerra, o comunismo se espalhou pela região graças ao apoio das comunidades chinesas migrantes, coube-lhes insuflar o espírito de resistência e apelar à guerra santa contra os mandatários de Pequim. Hoje são o maior dique à propagação do fundamentalismo islâmico.

Apsaras

Em pleno jardim da Universidade de Chulalongkorn. Rosamunde, de Schubert. Figuras esguias em plena luz volteando. Depois, o envergonhado riso de uma das Apsara.


Rosamunde (Schubert)

16 Setembro 2009

Um pouco de autarcia não faz mal a ninguém


น้ำผึ้งสวนจิตลัดดา = Nam Pheun Suan Chithlada quer dizer em português mel do pomar do palácio real de Chithlada. Durante séculos, a apicultura foi uma das mais nobres actividades profissionais do Sião. Os apicultores eram tão respeitados que lhes era dispensada a prestação de quaisquer corveias. Porém, em finais do século XIX, com a invasão de produtos estrangeiros - que também desbarataram as produções locais de sedas e tecidos, ourivesaria, cerâmica e utensílios - o mel desapareceu dos mercados. A Índia britânica, as Índias Orientais Holandesas e a Indochina Francesa encontraram no Sião um frágil concorrente, levando os ofícios à falência. O mel, que fora um dos principais condimentos gastronómicos da cozinha thai, passou a ser produto raro e inacessível.
Nos anos quarenta, o actual Rei criou nos terrenos adjacentes ao palácio de Chithlada uma exploração agrícola-piloto e aí desenvolveu ao longo de décadas - em estrito espírito cooperativo - a sua teoria económica da auto-suficiência, hoje gabada por todos, porquanto não estribada no proteccionismo. A experiência foi bem sucedida e aplicada um pouco por todo o país.
Hoje, para quem quiser o mel barato e sem outra "marca" que as armas reais - símbolo de qualidade - vai ao bazar e compra uma bisnaga de Suan Chithlada (0,60 Euro).
É assim que se protege o povo, se dá trabalho aos produtores e se garante a liberdade económica de um país. Se nos lembrarmos de Portugal, fazia falta um Pomar Chithlada em Lisboa. Só de pensar que as prateleiras dos mercados portugueses estão cheias de lixo espanhol, francês e holandês dá-me uma dor de coração. Por cada prateleira de produtos estrangeiros, há uma exploração portuguesa em risco.

Coisas que aprendi com a vida


O mundo pertence aos tolos, pelo que nunca devemos revelar metade daquilo que sabemos.

O mundo está cheio de grandes homens que nunca demonstraram aquilo que valem, pelo que demos subentender que tais propaladas qualidades se limitam à capacidade de vergarem a espinha e de servirem a um senhor que os fez importantes.

O mundo está cheio de projectos e ideias que raramente se aplicam; quanto mais se invocam os valores e a coerência das ideias, mais atropelos se cometem contra aqueles que não têm nem projectos nem ideias.

Pior que os medíocres são os puros; em nome das suas monomanias são capazes de matar, torturar e flagelar as suas vítimas enquanto exibem profunda consternação pela teimosia com que estas lhes resistem.

Por detrás de qualquer ideia peregrina há, escondido, um chão propósito. A mentira e a dissimulação colam-se como um luva aos mais altos propósitos. Mentir por princípio e enriquecer como fim são leis invioláveis da vida social.

As pessoas gostam de pequenas coisas, lugares-comuns, meias-tintas e ramerrão que não anda nem deixa andar. Nunca faças nada que coloque em risco a mediocridade santificada. Se o fizeres, és um um desmancha-prazeres, um provocador ou um marginal.

Quanto mais vulgar e maldosa uma ideia, mais aguerridos seguidores se congregam em torno da sua bandeira. Que eu saiba, as ideias mais populares são aquelas que pedem vingança, morte, anulação da diferença e não as que exigem aprimoramento, superação e emulação.

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