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A justa homenagem a Tom

Não sei o que meu amigo (da postagem anterior) diria disto: nesta noite, por um breve momento – creio -, sonhei que ouvia Tom Jobim entoar ao piano o tema Ana Luíza, a segunda faixa do disco Matita Perê, de 1973. Na verdade, é uma parceria com Paulo César Pinheiro. Assistindo ao noticiário no início da tarde, veio-me a informação de que Tom nasceu no dia 25 de janeiro, há 84 anos. Coincidência? E mais: até onde sei, a faixa é um tanto pofética: sua segunda esposa possuía prenome Ana, e a filha que brotou dessa união foi chamada Maria Luíza. Se meu amigo estiver lendo essa postagem, sua energúmena tremedeira terá início. Pois é.

Em antigos papos com amigos, chegou-se à conclusão (se é correta não sei) de que a obra de Tom Jobim – vastíssima – tem três pontos altos: além de Matita Perê, os discos Urubu, de 1975, e Terra Brasilis, de 1980, compõem a tríade orquestral de um dos grandes músicos pós-Villa Lobos, que resolveu, por conta e risco, entregar-se às inovações rítmicas e a buscar contornos em outros gêneros musicais. Estou ouvindo agora Mantiqueira Range, de seu filho Paulo, e percebo isso. No disco há jazz e há samba, mas não pense que se trata de um disco bossanovista. Ao contrário.

O disco foi gravado nos esteites. Claus Ogerman, que também regeu a coisa toda, cuidou dos arranjos, mas Tom, claro, deu os pitacos necessários, principalmente no que diz respeito às entradas percussivas de Airto Moreira. Um grande disco – talvez o seu melhor, mas isso realmente não importa. O que importa, de fato, é o que Tom Jobim nos proporcionou ouvir, e qualquer coisa que eu diga, qualquer pretensa informação, soará inútil. O que soa bem é o tom.

Gustave Doré no Além (com maiúscula porque a coisa é séria) e meu amigo médium que não crê em coincidências

Pois é: estou de volta, após uma semana de hedonismo comedido que se resumiu a família e a boas companhias numa terra/praia onde os argentinos têm vez e voz: Trancoso, um quase paraíso – deve ter sido, há 30 anos, antes da febre turística – ao sul da Bahia. Mas nem só de argentinos se faz a terra. Há gente perambulando em várias línguas – a portuguesa local, inclusive. Vale a pena conhecer. Eu não conhecia, embora tenha estado, há mais de 20 anos, nos arredores: Arraial d’Ajuda e Porto Seguro. Mas como não tenho qualquer afinidade com Pero vaz de Caminha, nem com qualquer outro cronista de viagem, paro por aqui.

Um querido amigo ligou-me ontem, sábado, para me dizer que Salvador Dali, Edvard Munch e Gustave Doré morreram no mesmo dia: 23 de janeiro. Esse meu amigo é médium, ou pretende ser. Segundo ele, coincidências não existem no plano da mediunidade – ou seja: tendo sido os três senhores citados grandes artistas plásticos, deve haver uma explicação ectoplasmática para que tenham se dirigido ao mundo espiritual neste simbólico dia. Se bem que em anos bem distintos. Gustave Doré – meu preferido dentre os três – morreu 21 nos antes de Salvador Dalí nascer, e quando o norueguês Munch era apenas um garoto de 20 anos. Mas meu amigo insiste que isso é pormenor.

Pois então acredito, com uma certa dose de ceticismo, que Gustave Doré deve estar-se divertindo no tal universo de que meu amigo fala. É até possível que ele, meu amigo, acredite que não é capricho do destino o fato de Doré ter-se dedicado a ilustrar A Divina Comédia, clássico do post mortem criado pela mente brilhantemente perturbada de Dante Alighieri. Que outro artista poderia tê-lo feito com tanta propriedade?, poderia perguntar meu amigo, com aquele olhar dúbio de quem quer fazer nascer pulga atrás de minha orelha. Eis do que Gustave Doré foi capaz:

 

E edição que possuo de A Divina Comédia tem dois volumes, encadernados ambos, sexta edição da mineira Villa Rica, 1991. Há uma pequena nota informando que monsieur Doré criou 136 ilustrações para a obra, iniciadas em 1857 e finalizadas onze anos depois. É obra de fôlego e de gênio. Pouco de diz sobre um dos dois pontos altos da edição, mas talvez nada haja para ser dito. Apenas observar a perfeição do traço, a angústia dos rostos e o horror do que é humano. Em minha pífia opinião, Doré imortalizou-se ao ilustrar Inferno, a primeira das partes do famoso livro de Dante. Não há o que rivalize com isso.

Meu amigo certamente não sabe para onde foram os fantasmas de Dalí e de Munch. Talvez estejam sendo admoestados por maus atos em vida; talvez já tenham retornado ao mundo dos vivos, habitando carnes que ignoram a arte e a plástica. Mas o espírito inquieto de Gustave Doré – diz meu amigo – levará alguns séculos até que possa encontrar um receptáculo adequado que continue a operar a genialidade do ilustrador. E que tal esta abaixo, do Canto V, em que o rei criminoso Minós mostra sua força?

AQUI se pode vislumbrar a grandiosidade dos desenhos de Gustave Doré. Ilustrações de Gargantua, de Rabelais, ou de Paradise Lost, de John Milton, sem contar as inacreditavelmente belas imagens que ele criou para as fábulas ditas infantis: Cinderella, Bela Adormecida, Chapeuzinho. É gênio mesmo. E, segundo meu amigo, não pode estar neste mundo.

Atividades suspensas: 1 semana apenas

O IPSIS LITTERIS fará um breve recesso por motivo de enorme força: uma viagem merecida de 1 semana a Trancoso, BA, antes de seu editor-chefe (eu, no caso) ser obrigado a retornar à extenuante labuta de salas de aula. As atividades do blogue estão momentaneamente suspensas, assim como os comentários a esta postagem – que, aliás, não merece comentário algum. Mas afirmo, como uma ameaça: eu volto.

Abraços.

FG

A aventura literária #11

Philip Roth, circa 1970

“(…) E assim terminou. Não se chegara a nenhuma conclusão. Todos tinham dito o que tinham a dizer? Não, e ao mesmo tempo é claro que sim. Em todo o estado, naquele dia, tinha havido quinhentos funerais como este, rotineiros, normais e, tirando os trinta segundos inesperados proporcionados pelos filhos – e tirando a ressurreição efetuada por Howie, com tamanha precisão, do mundo inocente que existia antes da invenção da morte, a vida perpétua naquele éden criado pelo pai, um paraíso com apenas cinco metros de fachada e doze de profundidade, disfarçado de joalheria tradicional -, nem mais nem menos interessante que os outros. Por outro lado, é justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade da morte que avassala tudo. Minutos depois, todos já haviam ido embora – cansados, chorosos, deixando para trás a atividade menos atraente a que se entrega a espécie humana – e ele ficou só. É claro que, tal como ocorre quando qualquer pessoa morre, embora muitos estivessem sofrendo, outros permaneciam indiferentes, ou se sentiam aliviados, ou então, por motivos bons ou maus, estavam na verdade satisfeitos.” (Homem Comum, 2006)

A cara do jazz #5

Sonny Stitt - 1973 - I cover the waterfront (Cadet)

Sonny Stitt, Cadet Records, 1973

Panem et circenses ou considerações pertinentes (?) acerca de Ronaldinho e de seu retorno à terra brasilis

Leio que um bando de papalvos rubro-negros manifesta-se, via tuíter, com o objetivo de sensibilizar o craque Ronaldinho Gaúcho a vestir o uniforme flamenguista na próxima temporada. É patético, mas complementa a cobertura jornalística exagerada em torno da transferência do jogador que, descartado pela Europa por motivos variados – o principal é a falha no rendimento profissional -, passa a ser considerado, em terras brasileiras, um semideus da bola. Não é, definitivamente. E, nos áureos tempos, com exceção do que jogou em algumas partidas pelo Barcelona, não sei se chegou a ser.

Já afirmei, numa postagem, o óbvio. Um jogador profissional brasileiro que atue nos gramados europeus só retorna ao Brasil porque os grandes clubes do velho continente não vêem serventia em seu futebol. Com Ronaldinho Gaúcho não é diferente. Vai fazer 31 anos. Se estivesse em plena forma, e atuando satisfatoriamente, já não valeria o investimento por mais dois ou três anos. Na Europa, claro. No Brasil, com essa estrutura subdesenvolvida, vale muito porque turbina outros interesses.

Outro Ronaldo – dito Fenômeno – multiplicou as finanças do Corinthians. Trouxe know-how de marketing e mostrou que é possível fazer dinheiro com uma marca forte. É só ter organização. Nem é preciso uma façanha de proporção bíblica para despertar no torcedor a paixão pelo clube. Ronaldinho Gaúcho vem pelo mesmo caminho, creio eu. Torna-se, com o perdão da hipérbole, uma usina capaz de atrair torcedores e – mais importante! – investidores. Dizem que vai para o Grêmio gaúcho – um retorno às origens. Não deveria. Rio de Janeiro e São Paulo são cidades em que o marketing funciona melhor.

Todo essa discussão acerca do retorno de Ronaldinho Gaúcho aos campos brasileiros provoca uma questão já antiga: seria realmente o Brasil uma potência futebolística? No apogeu de seu valor comercial, o craque vive na Europa e lá joga; assim que é desvalorizado, e que não interessa mais a um grande clube, retorna, com falsa pompa, ao país que o gerou. Não seria natural que uma potência futebolística conseguisse manter seus craques em terreno doméstico?

É claro que sempre há quem diga que os clubes brasileiros não têm dinheiro para manter aqui seus craques. Mas não é exatamente isso que caracteriza uma potência? Já ouvi dizer que o Brasil é um celeiro de craques. É mesmo, mas, e daí? Os bons jogadores, ávidos por uma carreira de sucesso, optam – quando podem, claro – por jogar num outro continente, seja ele Europa ou qualquer outro. Aqui não ficamos, dizem. Sem contar que, atuando em outras canchas, as chances de convocação para o selecionado tornam-se muito maiores.

Enfim, é esperar para ver como termina a novela e como começa outra: convencer o torcedor de que o que vale ainda é o pãozinho quente e o circo lotado.

Onde estão as mulheres #11

Sharon Stone & Isabelle Adjani, Diabolique, 1996

No canto direito #14: Nelson Freire

O último prêmio da mega-sena foi dividido entre 4 bilhetes. Teoricamente, quatro brasileiros que entraram 2011 tendo a certeza de que não somente Deus existe, como também está de olho neles. Se existe um brasileiro feliz, além dos sortudos aos quais o Todo-Poderoso deu uma canja, esse brasileiro chama-se Nelson Freire, o extraordinário pianista a quem, oficialmente, por decreto do punho de Sarkozy, será concedida a Ordre National de la Légion d’Honneur, a mais importante condecoração francesa.

Tenho alguns bons discos de Nelson Freire, os quais ouço com menos freqüência do que deveria. Mas a notícia de que o governo francês reconhece o talento e o trabalho desse pianista animou-me a retomar certas audições. Nesse momento em que escrevo ouço o inacreditavelmente ótimo Brahms The Piano Concertos, gravações ao vivo sob a direção do milanês Riccardo Chailly. Depois, será a vez dos Noturnos de Chopin, numa gravação bacana da Decca, cedê duplo com esta cara aí:

Então, como justa homenagem, reservei, para o Canto Direito, alguns vídeos em que o chevalier mostra por que é um dos grandes instrumentistas da atualidade. Primeiro, Nelson Freire ainda novo, executando a Rapsódia Húngara, de Franz Liszt. O segundo vídeo, uma gravação de 1965, traz o pianista massageando as vértebras de Sergei Rachmaninov. O último vídeo, infelizmente um tanto artesanal, mostra Freire numa atuação recente, de 2009, em terras paulistas, dialogando com Frédéric Chopin no scherzo n°1. Sensacionais as imagens e, principalmente, o som. Parabéns, Cavaleiro!

Fala, Cacaso!

Nem é preciso dizer muito de Cacaso, ou Antonio Carlos Ferreira de Brito, poeta, professor de literatura, voz profunda daquela geração que se autodenominou mimeógrafo – ou marginal. Vivo estivesse, Cacaso teria 66 anos, e muito provavelmente produzindo alta e potente poesia, principalmente aquela feita de poucos vocábulos, carregada de intensa ironia crítica, como Descartes, abaixo:

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho

E ponto.

Em tempo: Cacaso morreu num dia 27 de dezembro, há 23 anos. Esta postagem, como forma de homenagem, deveria ter vindo ao mundo há cinco dias.

Justiça (indicação literária um tanto óbvia) para os últimos dias de 2010

Rubem Fonseca já foi melhor. A Grande Arte é seu apogeu, no romance. A Coleira do Cão é seu grande volume de contos, de histórias curtas que revelaram o realismo cru e coloquial das cidades grandes do início dos anos 70. Gosto de Os Prisioneiros e tenho certa simpatia – mas nada tão intenso – pelo romance Bufo & Spalanzani. À parte minhas preferências, e elas nada significam para Rubem ou para qualquer pessoa que não seja eu mesmo, ele continua a ser um dos mais lidos. É um best-seller indiscutível e eu diria até justo. E por falar em justiça, aí vai a sugestão literária para estes últimos dias de 2010:

Muita gente leu. Até o vestibular federal local já fez uso das histórias cheias de sangue, humor cáustico, sexo cru e linguagem veloz. É claro que os contos Passeio Noturno (em duas partes) são o ponto alto da coletânea – mais até do que a história que intitula o livro. Enfim, é bom lê-lo.

FELIZ ANO NOVO a todos!