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29.9.09

Arrows of desire #2


(Guido Reni, São Sebastião, Musei di Strada Nuova, Génova)
Isto é importante: a iconografia de uma «quase-morte» é aceite por quase todos como a iconografia de uma «bela-morte». Sebastião não morreu trespassado pelas flechas dos legionários romanos. Providencialmente, foi salvo por Santa Irene, boa católica e hábil enfermeira, como já não as há. O mártir finou-se mais tarde, e de maneira mais poética: foi morto à paulada e o seu corpo encontrou finalmente a paz no meio do esterco da Cloaca Maxima. Nas pinturas de Reni, o corpo de Sebastião atinge-nos, pois, desse lugar ambíguo «entre-duas-mortes» e a sua lividez falseia, em concomitância, a irrelevância da vida e a certeza da morte.

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28.9.09

Arrows of desire


(Guido Reni, São Sebastião, Museu do Prado, Madrid)
É possível que a tensão homoerótica no(s) «São Sebastião» de Guido Reni seja tão profunda e dilacerante que não poucas vocações heterossexuais se arruínem por motivo tão simples como a observação da(s) obra(s) num catálogo barato de museu. Afinal (o facto é incontroverso), o adolescente Mishima experimentou o seu primeiro orgasmo, que suponho compensador (e não o são todos?), quando contemplou, aprazido e de olhos em bico, uma das sete telas que Reni destinou ao santo trespassado. Reni gostava pouco de fêmeas – o que explica muita coisa. Viveu 55 anos com a mãe e, depois da morte desta, não mais permitiu que uma filha de Eva lhe lavasse a roupa interior. Daí ao torso marmóreo de Sebastião, vezes sete, e ao desvario dos cabeleireiros com o «coitadinho do mártir» foi um pequeno passo.
Coitado do mártir? Com certeza. Perfurado mas puro? Anti-erótico ou homoerótico? Tudo é possível. As hipóteses sucedem-se, como os dias num ano, mas pouco me importa o desfecho hermenêutico, seja ele qual for. Se preferirem, reduza-se tudo às «arrows of desire», aos caracóis do cabelo e ao pano branco de linho, enrolado como se residisse no meio de um furacão. As possibilidades interpretativas são quase muitas, pelo menos sete. Que sobre isto se redijam longas teses, e enfadonhas quanto baste – já li algumas e abdico de ir além de uma breve exposição das possibilidades. Felizmente, prefiro o «Martírio de São Bartolomeu», de Jusepe de Ribera: mais feio, mais desengraçado, mais verdadeiro.

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Esquerda vs. Direita


(Comès, Silêncio)

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27.9.09

Total isenção e imparcialidade

Deixem-me chorar descansado, impenetrável ao conforto hipócrita das vossas mãos. Este Benfica ainda me há-de matar. Ou pior: ganha o campeonato. E ainda temos o Cavaco e os fantasmas dos cadernos.

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26.9.09

Interest in cattle

Although cattle have many uses they are chiefly useful for the milk they provide. (E.E. Evans-Pritchard, The Nuer, pág. 21)
Reparem na sugestão subliminar da expressão «cattle have many uses». Os pastores são todos iguais, e o gado tem muita e boa serventia, parece querer dizer-nos Evans-Pritchard. Em África ou em Pitões das Júnias, desde que em sítio ermo e propício ao uso.

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25.9.09

Passeio Público

(Santos da casa)
A campanha eleitoral para as eleições legislativas termina hoje, felizmente. Falou-se pouco, e com desconhecimento, do que realmente interessa: a crise da economia, da educação ou da justiça. Não é difícil assacar a alguém a responsabilidade por este alheamento quase generalizado face aos problemas fundamentais do país. Sem que seja necessária uma meditação profunda (algo que me acontece mais vezes do que menos) surge na minha cabeça o nome do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Ele foi a estrela injustificada desta campanha que ora finda.

A política portuguesa está menos sentimental e, porventura, mais ardilosa e capciosa. Prosperam as condições que facilitam o surgimento de fábulas manhosas, ideadas por frouxos leitores do esplêndido Maquiavel, que o tresleram e adulteraram, e caucionadas por comentadores que partilham o mesmo território ideológico e um espírito pouco sagaz. O “caso das escutas” (como, aliás, o fabulário em redor da “asfixia democrática” e das “agendas furtivas de coligação pós-eleitoral”) abastardou o combate eleitoral, que se afastou irremediavelmente da discussão dos temas importantes ou da competência política dos candidatos.

Na campanha em Coimbra, perante a impossibilidade de recorrer a “não-assuntos” como armas de arremesso (mas não deixamos de notar o levantamento da lebre “Rui Teixeira, juiz”, pelo Professor Paulo Mota Pinto), os esforços da “política (de) rasteira” concentraram-se na naturalidade dos candidatos e na sua ligação, ou não, à cidade. Para alguns, só os santos da casa é que fazem milagres.

A Dr.ª Ana Jorge é a única cabeça de lista que não tem qualquer ligação com Coimbra: não nasceu na Sé Nova, não estudou na Universidade, não trabalhou nos HUC. Fraco curriculum para apresentar aos fundamentalistas do “jus soli” e do “jus sanguini” (em concomitância), aqueles que entendem que os candidatos por Coimbra só podem ser recrutados entre os filhos da terra, com ligações afectivas, familiares ou místicas à velha cidadela junto ao Mondego – na tradição do ideário de aversão ao Outro, ao “estrangeiro”. Parecer-me-ia mais correcto que se analisasse a capacidade política de Ana Jorge (que é muita), e não o seu local de nascimento. O problema é que isso parece-se demasiado com a política séria.
(Hoje, 25/09, no Jornal de Notícias)

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24.9.09

Americana


(Andy Moore & Tony Parker, The Exterminators)

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23.9.09

indecisão

são dezassete e cinquenta e cinco quase dezoito, muito obrigado, não tem de quê, segue a tua vida que eu sigo a minha, o dia ainda não declina apesar das horas e é cedo para tanta indecisão.

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22.9.09

Não fui eu


O Bloco tem as mulheres mais bonitas da política portuguesa, diz-se. A CDU tem o homem mais charmoso da política portuguesa, diz-me, sentada ao meu lado, no sofá vermelho (a cor!, a cor!). O CDS-PP tem o homem mais ritmado da política portuguesa, diz o próprio. O PS não tem homens nem mulheres, mas anjos/demónios (riscar o que não interessa), diz o DN e o Público. O PSD tem o casanova da política portuguesa, diz a imprensa cor-de-rosa. A esperança devia ser a primeira a morrer.

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21.9.09

Saber quem tem ideias

Qualquer conhecedor da vida sabe que é muito estreita aquela faixa verdadeiramente fecunda entre a liberdade de pensamento arrojada e a fuga temerosa ao pensamento.
(Robert Musil, O homem sem qualidades, pág. 505)

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20.9.09

Dr. Johnson


O Francisco faz a pergunta certa. Uma resposta, entre as muitas possíveis, encontra-se aqui.

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19.9.09

Passeio Público

(Por Coimbra)

“Por Coimbra não vai nada, nada, nada? Mas mesmo nada? Tudo!” Parece slogan eleitoral (e para isso foi recentemente amputado) mas a história destas palavras é mais antiga, e eleva-se definitivamente sobre as futilidades insistidas nos cartazes de campanha. Estas palavras pertencem à academia de Coimbra (se é que se pode falar de pertença e posse) e não, como parece ocorrer a alguns, ao indivíduo A ou ao partido B.

De facto, a realidade parece opor-se a este postulado fundamental. A utilização de uma parte da expressão relacionada com um dos gritos tradicionais da academia (a saber: “Por Coimbra”) pela candidatura de Pina Prata motivou uma queixa à Comissão Nacional de Eleições por parte da candidatura do PSD/CDS/PPM. Carlos Encarnação e a sua equipa insinuam-se como os legítimos senhores de tão populares palavras. Afinal, usam-nas em campanha desde 2001. Justifica-se a sua propriedade por usucapião: o uso fixa o dono.

Carlos Encarnação e Pina Prata disputam algo que não é pertença de nenhum dos dois. Não o fazem por falta de imaginação ou plágio (o chavão já havia sido utilizado pela candidatura de Mendes Silva, pelo Partido Socialista, em 1982) mas porque partilham a mesma concepção política para Coimbra. Porque apesar de inspirarem posições antagónicas são fundamentalmente iguais.

O que fazer com as palavras? Que as palavras interessam já o havíamos dito, mas talvez possamos pendurar a esse lugar-comum ainda um outro: as palavras revelam ao mesmo tempo que ocultam. Esta é, seguramente, uma trivialidade paradoxal mas justa. O significado veiculado pelas palavras é fluído e poroso, impreciso e vago, carcomido incessantemente pela mudança de interlocutores e interpretações.

No entanto, alguma coisa permanece imutável no caos da comunicação, passível de ser escrutinada e comentada. Coimbra não precisa destes gémeos desavindos mas de uma verdadeira alternativa de esquerda. A responsabilidade de trazer a política a sério para a campanha cabe agora ao Partido Socialista, ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista.
(Ontem, 18/09, no Jornal de Notícias)

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17.9.09

E um protector solar também dá jeito #doze


(Plage de Lespicier, França)
(1) (2) (3)(4)(5)(6)(7)(8)(9)(10)(11)

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15.9.09

Passeio Público

(Pais e seus amados filhos)

A identificação dos problemas fundamentais do país não é problemática – não percamos tempo ou palavras com a gravidade tangível da realidade -; o verdadeiro problema está no facto de não sabermos o que fazer com tanto desespero. É fácil sepultar a nação sob os escombros da economia, da justiça ou da educação. O país é pequeno (é mesmo muito pequeno) e não é assim tão complicado fazer a sua autópsia. E, contudo, não há quem chame de novo o Lázaro.

É de bom-tom reprovar a silly season, e as suas manifestações bronzeadas. O país é uma revista cor-de-rosa; não é um ornitorrinco, mas não é por isso que deixa de ser estranho. E Deus também se ri das suas criações. Mas o Verão esmaece, finalmente. A vivência liminar na Biblioteca Geral substitui a parvoíce no areal. É uma questão de educação.

É tudo uma questão de educação: a economia, a justiça e a própria educação, a ressurreição do Lázaro, a praia e o ornitorrinco. Parece-me compreensível a submissão da justiça e da economia à educação. O sucesso de um país firma-se nas suas políticas educativas. Que não são, lamento dizê-lo, couto privado dos governos e professores.

Os pais e os alunos são actores principais neste teatro da decepção, e ambos por alheamento. O desinteresse dos alunos pela aprendizagem (o ensino tem que regressar à transmissão de conhecimentos, e não persistir no estabelecimento acrítico de programas lúdicos) enforma o grande desafio que toma as universidades, como a de Coimbra, em que a responsabilidade da história é mais um pecado que uma bênção.

O mesmo se pode afirmar relativamente à indiferença parental perante a educação dos filhos. “Não fique à espera que a escola dos seus filhos feche para se interessar por política”. Este slogan (relativo a um dos debates promovidos em Coimbra pelo Jornal de Notícias, no âmbito das eleições legislativas) pode inserir numa qualquer tradição sapiencial. É quase óbvio, mas por vezes as verdades mais evidentes são aquelas que mais facilmente esquecemos.
(04 de Setembro, no Jornal de Notícias)

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14.9.09

Novembro


[Joaquim von Sandrart, November, 1643, Oil on canvas, 149 x 123,5 cm, Staatsgalerie, Schleissheim]

A composição híbrida - paisagem, natureza morta e retrato - impõe desde logo a aporia do olhar. Por outro lado, a abnegação melancólica do caçador, as folhas destroçadas pelo vento, a trela curta que segura os cães e o castelo nas funduras do vale não se compadecem com a dúvida e assinalam o voo destrutivo do tempo.

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6.9.09

Milito, dito «el sencillo»

Um bêbedo passeou-se na calle, em mijo distraído. Aí viu-o. Nu, ou desguarnecido. O peito feito num zero, cavado como se terra, aberto até muito dentro do corpo. Milito sacudiu-se, mesmo borracho. Manha de tomates, e antiga. Pregou um olho na ruína: sangue distorcido, juízo antecipado. Dali haveria de vir um morto. Chamou ambulâncias, não ouviram. Rezou. A garrafa esvaziava-se, esqueceu a oração. Revirou os olhos, encontrou o peito outra vez. Um zero maior que um dez. Grande, roxo crepúsculo. Chamou ainda, qualquer coisa. As coisas não ouvem, só algumas pessoas. Não estavam. Veio dali o frio. Deu-lhe, sem camisola era de esperar. Ainda bem, ia-se embora.

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2.9.09

Os livros (já) não ardem mal

Comecei a ir, comecei a gostar (muito) e, já depois de me ter mudado para Lisboa, fui muitas vezes de propósito a Coimbra por causa deles. Acabou. Voltem rápido, que isto de interromper uma coisa tão boa não se faz nem ao pior dos inimigos.

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Embalmed


O arroz serve-se frio. A mesa inclina-se sobre a minha boca. Um gesto de espanto (ou a dor) estremece o meu intestino. O ídolo mantém-se nos pés de ouro, revela-se no barro do coração.

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1.9.09

Voltou

29.8.09

Passeio Público

(Imagem e palavra)

Falta fazer uma etnografia das campanhas eleitorais em Portugal. De resto, poder-se-ia começar a investigação estudando a iconografia, os brindes (lembro com horror as saias de plástico com que nos quiseram comprar o voto durante a década de 1990) ou os carros de campanha que seguem os candidatos como fidelíssimos perdigueiros. Estudava-se a cultura material, portanto. Pedaços do mundo físico aos quais foi atribuído um valor cultural, como me foi ensinado há longos anos. A música, como é óbvio, teria um lugar de destaque em qualquer monografia deste tipo. Durante a campanha, os Zés-Pereiras coabitam com o Luís Cortez, e nas notas falhadas das gaitas de foles confessam-se alegrias e afectos, descontinuados, aqui e ali, por fiapos de melancolia.

O estudo (i.e., uma olhadela apressada) dos cartazes de campanha é particularmente interessante, e muito informativo. A fotografia dos candidatos é, normalmente, um logro à «genuína ilustração» (adulterando Kleist) dos mesmos. A fotografia convoca a experiência, reifica-a e certifica-a. As criaturas que aprisionam Cristo no “Ecce Homo” de Quentin Massys lembram-nos a dura lição: a cara de um homem não engana outro homem. Mas isto é a teoria. Na prática, quando olhamos distraidamente para os retratos de Horácio Pina Prata, Álvaro Maia Seco ou Carlos Encarnação não podemos ter a certeza de quem são aqueles homens; não podemos ter a certeza se o trabalho, o amor e a ambição correm sinceramente na expressão do seu olhar ou se são meros artifícios do Photoshop.
As palavras também contam; o designativo “Coimbra”, sobretudo, é tão conspícuo que, paradoxalmente, perde a sua importância simbólica. A repetição desgasta-o. As palavras que sobram são, também, reveladoras: na locução “Com Amor”, de Carlos Encarnação, pressente-se a pureza das bem-aventuranças (como em Jesus); na máxima “Com Trabalho”, de Pina Prata, adivinha-se o cumprimento severo do dever (como assegurou Kant); e na expressão “Com Ambição” de Álvaro Maia Seco, sente-se a determinação de converter a cidade numa casa feliz (como diria o doutor Samuel Johnson). Tudo isto é verdade, ou não. Palavras, leva-as o vento.

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26.8.09

They ever fly by twilight

Tudo é precário no vestígio de ontem, tremo essa morte no lugar do riso. Onde foram as flores que mataram o teu animal. Tremo essa morte no lugar do rio. Não foi engano, primeiro é o riso e depois o rio. Um a seguir ao outro, como sempre foi no precário passado. Hoje fui o dono de uma visão lúcida e antiga, onde foram as mãos que tremeram o teu animal. Em Outubro - talvez no início de Novembro - perdi-me do riso, no lugar onde as flores mataram o teu rio. Tudo tem um sentido, mesmo o que não tem. Espero. Que. Sim. Experimentalismo bacoco. Convocando a acalmia. Não há ondas naquele riso. Areia, luz, uma cabeça que nunca tocou a barriga. Acalmia, coração, dedos desligados. Morro a tremer de riso. Rio enquanto a morte a treme. Tremo a rir da morte. Gosto mais desta, da última. Dá uma ligeira impressão de covardia, mas também, caralhos m'a fodam, quem não há-te ter medo de morrer? Ele não é outro homem (este ele sou eu que, como os jogadores da bola, falo na terceira pessoa: Pai, Filho e Espírito Santo [3ª pessoa]). Agora vai ser tramado recuperar o sentido, pelo menos para o leitor indemonstrado (é mentira: dá para ver no Sitemeter). Cícero costumava dizer, quando não tinha mais nada para dizer, Cum non sis qui fueris, non esse cur velis vivere. Googlando faz-se luz, fiat lux, queriam a papinha toda na boca, não? É um estado miserável de alma, este: começar com alhos, acabar com bugalhos e pelo meio tentar tosquiar o patêgo. Tosquiar o patêgo. Gosto muito desta frase, deste motto inventado à pressão, gosto ainda mais do inconsequente silêncio que se vai seguir. Tosquiar o patêgo não quer dizer nada, é frase de significado vazio. Ah, ladrão. Boa maneira de acabar: todas estas letras que juntas formam palavras que juntas formam frases são de má pinta: não querem dizer absolutamente nada. E até deu para meter dois dois pontos na mesma frase. Altamente. Acabo.

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25.8.09

Azul



Saiu o n.º11 da revista de poesia «Saudade». Por lá hão-de encontrar um «azul» meu.
Folheando o azul do céu, esse missal dos poetas.
António Nobre

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22.8.09

Passeio Público

(República hereditária)

Talvez conheçam a notícia: há alguns dias, um grupo de monárquicos do blogue 31 da Armada substituiu a bandeira municipal da Câmara de Lisboa pela proscrita bandeira azul e branca da monarquia.

Perante a quietude indisfarçada da Praça do Município, os “Vaders” (no vídeo da acção disponibilizado pelo 31 da Armada, os participantes ocultam-se sob a máscara de Darth Vader, personagem da “Guerra das Estrelas”, e o símbolo imprescindível das acções do 31 da Armada) da “ala monárquica” do blogue subiram ao varandim da Câmara Municipal de Lisboa e, com uma simples troca de galhardetes, mostraram que um escadote de três metros dá sempre jeito e, sobretudo, fizeram mais pela causa monárquica que todas as aparições públicas de D. Duarte de Bragança (um parênteses, aqui: gozar com a figura do pretendente ao trono é algo que reputo de péssimo gosto, e muita gente o faz; enfim, o sarcasmo é um mecanismo jurisdicional, um processo lento e conspícuo de opressão).

Eu achei piada, e não levei a agit-prop a sério. O imenso e conspícuo talento da fidalguia portuguesa (e, diga-se, a bem da verdade, também de alguns dos seus apoiantes “plebeus”) baseia-se no facto de ninguém poder, de forma alguma, levá-la a sério. No próximo ano a República completa 100 anos, idade respeitável, e são poucos os que pretendem voltar ao tempo dos reis, das princesas e dos dragões. Afinal, como tão bem expressou G.K. Chesterton: “não podemos confiar em príncipes”.

E acrescentou: “nem em filhos de homens”. Esta é a verdade inescapável. Não podemos confiar nas pessoas, e ainda menos no idealismo dos regimes. Afinal, sobre o pano glorioso da República também caem nódoas familiares. Vejam-se as listas de candidatos do PSD às legislativas, onde se ajeitam ilustres linhagens e genealogias. Só filhos de autarcas, são quatro. Mas não se esquecem as esposas, que os direitos das mulheres não são uma utopia de papel.

No regime vigente, também o sistema hereditário é uma forma de transmissão do poder. Em Coimbra, o rei Carlos entrega o delfim Nuno às incumbências patrióticas dos Passos Perdidos. Não se estranhe, porém, esta herança; ainda é normal que um pai queira o melhor para o seu filho.

(Ontem, 21/08, no Jornal de Notícias)

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19.8.09

Do Twitter, avant la lettre

«Alguns há que folheiam todos os livros, e revolvem igualmente todos os periódicos; que escrevem sobre o que lhes sucede ou sobre quem conhecem nesse momento, sem discernimento.»
(Ben Jonson, o isabelino e não o dopado de Seul)

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17.8.09

E um protector solar também dá jeito #onze


(Île aux Cerfs, Mauritius)
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15.8.09

Passeio Público

(O animal sem qualidades)
Já o disse uma vez, neste mesmo espaço e nestes termos: não gosto de ratos. Não conheço ninguém que lhes devote sincera afeição (mas há malucos para tudo), que adormeça enquanto lhes dedica carícias e meiguices, que gaste metade do ordenado numa espécie de Pedigree Pal para roedores, ou que os passeie no parque pela trela.

Os livros de história (e a sabedoria do povo) garantem que são os ratos que, perante a ameaça de naufrágio, tomam a dianteira da fuga. São vermes imundos e emporcalhados, dos maiores portadores de microorganismos patogénicos que sulcam o reino animal (não transmitem a gripe A, que se saiba, o que só abona a seu favor). E mais: eles comem tudo; o lixo, os cereais, e até as orelhas dos prisioneiros em celas escuras (existe uma vasta bibliografia sobre o assunto).

A verdade é esta para a maioria das pessoas, liberta de hipocrisias ecológicas: o único rato bom é o rato morto. Por causa dele (e da Yersinia, e das pulgas, e de muita agnosia) morreram milhões de pessoas durante a Idade Média. Não ladra, nem afasta os ladrões das nossas casas. É um animal sem qualidades reconhecidas.

Mas, se calhar, talvez, possivelmente: sempre é belo um rato em Coimbra. Junto à Estação Nova, em dois prédios abandonados, os murídeos orelhudos prosperam. Homenageando Charles Darwin, e as efemérides associadas ao naturalista inglês que se celebram este ano, os ratos que se passeiam na Rua Fernão de Magalhães mostram ao ingénuo passante como se afigura na natureza a “sobrevivência dos mais fortes”.

Coimbra irá apostar em força no turismo cultural – é uma boa estratégia para a cidade. Contudo, eu proponho algo ainda mais radical: a organização de safaris na Rua Fernão de Magalhães, com jipes e guia indígena. As nédias criaturas são já o alvo declarado das objectivas dos turistas, porque não rentabilizar as graças do mundo animal? Permitir que a praga subsista é uma outra forma de afirmar o amor que se sente pela cidade.
(Ontem, 14/08, no Jornal de Notícias)

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13.8.09

Diminuem as listas de espera

Estimados jornalistas: em estatística, a média e a mediana não são a mesma coisa. Podem coincidir, mas muitas vezes não são iguais. O porta-voz do Ministério da Saúde refere uma «mediana de tal» que é rapidamente transmutada em uma «média de tal» pelo jornalista de serviço (na SIC-N e na TSF, pelo menos). Excruciante agnosia. O conhecimento profundo da falaciosa ciência conhecida como Estatística é até dispensável neste caso. Bastaria uma citação integral do que foi dito em conferência de imprensa para que o público não fosse induzido em erro.
Não é raro que as verdades demasiado evidentes, e que deveriam ser subentendidas, acabem por ser afinal esquecidas.
(Alessandro Manzoni, História da Coluna Infame)

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12.8.09

E um protector solar também dá jeito #dez


(Praia da Figueira da Foz)

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11.8.09

De braço ao peito

Acreditem: nós vamos ter um deputado que no exacto dia em que tinha de se apresentar na Polícia Judiciária para um teste de caligrafia foi ter com um cunhado que é médico no Hospital de Santa Marta, no serviço de cirurgia vascular (!), para engessar um braço por completo, do ombro até ao pulso. A Ordem dos Médicos considerou que colocar o gesso foi "má prática clínica". Não consigo encontrar um adjectivo para classificar a prática do deputado. Mas consigo classificar a prática da lista do PSD: uma vergonha.

(Ricardo Costa no Expresso)

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É impossível não achar piada a isto

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8.8.09

Passeio Público

(Geometria ética)

Provavelmente poucos estariam à espera que Isaltino Morais, o presidente da autarquia de Oeiras, fosse tão severamente condenado pelo colectivo de juízes do Tribunal de Sintra. Antes de conhecida a sentença - sete anos de prisão efectiva e a perda do mandato, saibam-no os mais distraídos – talvez ninguém supusesse que seria este o final da história.

Desenganem-se, não é. A justiça é um rio longo, e perde-se muita água pelo caminho. Ainda há tempo para outras batalhas: Isaltino vai recorrer da sentença e mantêm, com toda a naturalidade, a sua candidatura à Câmara Municipal de Oeiras. Está no seu direito. Ninguém pode ser punido antes de a decisão transitar em julgado.

Todavia, esta situação não se resume à matéria do foro criminal; configura, ainda, uma posição ética e moral, salientada, de resto, pela juíza Paula Albuquerque. Note-se, aliás, a posição de Marques Mendes relativamente à presença de arguidos em processos criminais nas listas do PSD. Não basta uma ética da seriedade; não basta uma lisura geométrica; a aparência de seriedade e de lisura é tão importante como a própria seriedade e lisura. Esta anatomia da suspeita é parte essencial da política contemporânea.

No teatro da crueldade, o “autarca (e, por extensão, o político) português” é, o mais das vezes, uma figura injustamente malquerida e estigmatizada. E Isaltino Morais é o autarca arquetípico, rapsodo e engenhoso. Liberto do “ruído da ideologia” e dos espartilhos partidários, repetindo uma estética pouco esdrúxula em cada charuto fumado, condenado em primeira instância pelos tribunais.
O voto dos eleitores é diferente do voto dos juízes. “A política está num lado e a justiça noutro”, adverte o autarca oeirense. Talvez Isaltino ainda vá a tempo de adoptar o slogan do infame Adhemar de Barros, que rouba mas faz. Afinal, Oeiras é dos concelhos mais desenvolvidos do país – disso não tenho qualquer dúvida.
(Ontem, 07/08, no Jornal de Notícias)

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7.8.09

«Antropologia para fora»

4.8.09

Com ponto de exclamação

Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo!

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E um protector solar também dá jeito #nove


( Pointe aux Canonniers, Mauritius)
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Passeio Público

(Intriga e política)

Um cidadão comum com a escolaridade obrigatória não tem que se pôr a pensar sobre todas as coisas; pensando bem, nem a isso está obrigado um político ou um funcionário do estado com as mais altas responsabilidades. É, por isso, com algum desconforto que, por agora, desisto de reprovar (com toda a veemência necessária) a indiferença da Estradas de Portugal (EP) perante a morte recorrente de pássaros que embatem com os painéis acústicos da Ponte Rainha Santa, em Coimbra. Menciono o caso, não para me certificar que algo irá ser feito pela EP de modo a reduzir ao mínimo aceitável o genocídio aviário, mas para esconjurar a má consciência e adoptar, pelo menos, uma postura de resistência passiva perante a situação.

De qualquer forma, o estado a que chegou (sendo este “estado-a-que-chegou”, ele próprio, uma instituição) a política em Portugal não permite grandes devaneios à volta de aves e pontes, que não sejam aqueles que nos afoitam a saltar (a voar) dessas mesmas pontes para o suicídio colectivo enquanto país. Não é caso para menos: a historieta que envolve o Bloco de Esquerda (BE), o Partido Socialista (PS) e Joana Amaral Dias, antes de ser uma imbecilidade terceiro-mundista, é a prova cabal de que em Portugal se confunde, mais vezes do que seria desejável, a política com a intriga. Tudo isto num momento de crise, quando o que se faz (e o que se diz) deveria apoiar-se em princípios de responsabilidade.

As acusações feitas ao PS são duras. Envolvem ofertas obscuras de um lugar elegível na lista por Coimbra ao Parlamento e cargos honoríficos no novo governo; ofertas recusadas, afinal, por Joana Amaral Dias. Na realidade, ninguém parece interessado em confirmar, ou infirmar (excepto José Sócrates, Vieira da Silva, Paulo Campos e Vítor Baptista), as pretensas manobras dos socialistas junto da bloquista – mas essa é uma responsabilidade do BE, que aqui toma o papel do acusador.

De um lado, a lisura cartográfica de Francisco Louçã, rescendendo a sermões e moralidades jesuíticas; do outro, a presumida conduta de altos dirigentes socialistas, subordinados à divulgação dos desmentidos. Tudo se resume a acusações para as quais não há defesa possível; o boato é de tal modo reprovável que muito dificilmente surgirão provas palpáveis que o confirmem. No final, será como nos tempos negros da Santa Inquisição: uma vítima inocente sempre há-de arder na fogueira.

(31/07, Jornal de Notícias)

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Passeio Público

(Conhece-te a ti mesmo)

Estamos gratos a Sun Tzu por tantas e tão convenientes citações. “Conhece o teu inimigo”, aconselha o genial estratega no seu livro “A arte da guerra”. Convenhamos, o estribilho é tão frequentado que mais valia não o repetir. Contudo, o ser humano tende a esquecer as verdades mais evidentes. Julgo que não é o caso do Partido Socialista de Coimbra (PS-C). O seu “inimigo” é sobejamente conhecido, tal como as suas fraquezas e as suas qualidades.

Carlos Encarnação oficializou a sua recandidatura à Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Era esperado. Apesar do que o ainda presidente da Câmara declarou, em 2005, ao jornal universitário “A Cabra” (que não voltaria a recandidatar-se à presidência da CMC), sempre acreditei que o Partido Social Democrata de Coimbra (PSD-C) e os restantes partidos da coligação (CDS-PP e PPM), e o próprio Encarnação, ambicionassem mais um ciclo de vitória nas autárquicas em Coimbra e, consequentemente, a oportunidade de continuar o seu projecto político para a cidade.

O PS-C conhece, pois, o seu adversário mas durante um período demasiado longo parecia não conhecer-se a si mesmo. Lembramo-nos de Lineu e de outro chavão memorável: “Nosce te ipsum” (conhece-te a ti mesmo). Costuma ajudar. Não obstante, a narrativa da escolha do candidato socialista à CMC alimentou-se durante demasiado tempo de equívocos e actos falhados. As histórias que se foram criando em redor de Henrique Fernandes e Vasco Ribeiro resultam de uma crispação no seio do partido que não abona definitivamente junto dos eleitores. Enfim, águas passadas. Começar de novo nunca fez mal a ninguém.

Álvaro Maia Seco, o candidato oficial do PS-C, tem uma tarefa árdua pela frente. Luta, não só contra o todo-poderoso Carlos Encarnação, mas também contra o tempo perdido e o fraccionamento que inevitavelmente ocorreu entre os socialistas. Com uma carreira centrada no desenvolvimento da cidade de Coimbra, Maia Seco constitui uma alternativa credível à coligação no poder. Não há rochedos inultrapassáveis.

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11.7.09

O dia

E os dois noivos foram, com uma confiança triunfal, àquela igreja da sua própria paróquia, onde, pela boca de Dom Abúndio, pela boca do seu próprio pároco, passaram a ser, finalmente, marido e mulher.
(Alessandro Manzoni, Os noivos, pág. 436)

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6.7.09

Irão, Honduras e outros problemas sentimentais

Entretanto, por cá ninguém fala disto. Talvez quando se souber do envolvimento da CIA (ou do papa Ratzinger) no assunto.

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Why I want to fuck Ronald Reagan

Fragments of Reagan's cinetized postures were used in the contruction of model psychodramas in which the Reagan-figure played the role of husband, doctor, insurance salesman, marriage counsellor, etc. The failure of theses roles to express any meaning reveals the non-functional character of Reagan. Reagan's success therefore indicates society's periodic need to re-conceptualize its political leaders.
(JG Ballard, The atrocity exhibition, pág. 167)

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3.7.09

Passeio Público*

(Bem-nascidos, bem-criados)

Afonso Henriques, o nosso primeiro rei, nasceu em algum lado (um facto irrefragável), e se tal sucesso se verificou em Viseu ou Guimarães é coisa que não importa assim tanto. O que interessa não é nascer, mas o que se faz depois de nascer. E, já agora, o que de nós fazem, e como nos tratam. Enquanto as gentes bem-pensantes de Guimarães e Viseu disputam, afundadas em volumosos e empoeirados tratados de história, a glória fátua de um nascimento real, há nada menos que 900 anos, as gentes de Coimbra preocupam-se com quem nasce agora e, sobretudo, com o que lhes acontece depois de tão definidor evento.

A luta da cidade por um novo Hospital Pediátrico é antiga, entusiástica e justa, percebe-a bem quem conhece as combalidas instalações do actual Pediátrico. O que é certo é que as obras começaram pachorrentas, em estilo “bazófias”. Problemas técnicos resultantes da passagem de uma linha de água no terreno de construção, inadequações orçamentais e outras justificações dilatórias concorreram para os deslizes e atrasos (nada de novo debaixo do sol). Inicialmente, o remate da obra estava previsto para 2007. Mais tarde, esse prazo transferiu-se para o mês de Outubro do ano de 2008. Por acaso reparei que esta data já vai um pouco desbotada nos calendários de papel que ainda resistem ao avanço das novas tecnologias, pendurados nas paredes das oficinas de automóveis.

Adiante. O edifício do novo hospital encontra-se em fase adiantada de construção e o fim das obras parece ser uma realidade pouco longínqua. Contudo, os problemas acumulam-se, ao invés de sumirem definitivamente. O Hospital Pediátrico de Coimbra é uma espécie de “remendo estrutural”, de acordo com a Comissão de Utentes (ainda não foi inaugurado e já possui “utentes”: numas coisas andamos demasiado atrás, noutras demasiado à frente), com salas de operação demasiado pequenas, portas desajustadas e corredores apertados. Os arquitectos esquecem, mais vezes do que seria desejável, que os edifícios constroem-se para servir as pessoas – e que isso deveria ser intuitivo num edifício hospitalar – mas não sei se é esse o caso: talvez a Comissão de Utentes (as crianças? Afinal quem são os “utentes” de um Hospital Pediátrico?) tenha visitado, por engano, o Pediátrico antigo.
(Hoje, 03/07, no Jornal de Notícias)
*Agora às sextas.

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2.7.09

O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar

Era uma vez um Raio que caiu duas vezes no mesmo lugar; mas reparou que já da primeira vez tinha feito estragos bastantes, que já não era necessário, e ficou muito deprimido.
(Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas, pág. 43)

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30.6.09

Weekly Review


(clicar sobre a imagem)
Depois de uma discoteca (Mexia) e de um restaurante (Agualusa), uma sapataria (Pipoca). Tinha mesmo que ser. Cada macaco (salvo seja!) no seu galho.

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26.6.09

Michael Jackson (1958-2009)

Fiquem a saber que vivi muitos anos numa vivenda; uma casa grande, mas não excessivamente, com jardim e quintal, um à frente e outro atrás, aprazivelmente localizada. Fica tão perto da igreja como do cemitério, e um pouco longe do café da Otília - o que constitui, porventura, o seu maior defeito. Numa noite fria de Novembro do mais imemorial dos anos (foi, com toda a certeza, em 1983), rodeado de enigmáticos tomos empoeirados e de um aparelho de televisão Philips (a cores e com comando à distância), na véspera de uma excursão da catequese ao Aquário Vasco da Gama, vi com alguma relutância o videoclip dos mortos-vivos de Michael Jackson, morto-vivo que ainda ontem morreu. Coincidência altissonante: tocaram os sinos na torre da Igreja (e não passou a procissão) mesmo no final do vídeo, e nem sequer era hora disso acontecer. A minha mãe, na cozinha, fazia os bolos de bacalhau; o meu pai dormia; a minha irmã também; e eu cagava-me com medo. Este «cagava-me» é metafórico, julgo eu. Não dormi nada nessa noite e acabei por não ir, em alegre romaria, ao Aquário de Algés, o que me deixou um bocado aborrecido (meu Deus, aquela lula gigante...) e eternamente desagradado com o senhor Jackson. E é isto que tenho a dizer do rei da pop.

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Long live the king


A minha atitude mental, para resumir, era como a de um explorador em África que, ao galgar rapidamente por uma árvore acima, consegue iludir um crocodilo irritadiço e julga, pela série de berros que vêm de baixo, que o seu fiel assistente nativo não teve a mesma sorte. Quero dizer, o explorador lamenta, sem dúvida, ao ouvir aquela coisa toda mas, embora o coração lhe sangre, não consegue evitar que a sua emoção dominante seja a de um belíssimo alívio porque, por mais inconveniente que a vida se tenha tornado para os assistentes nativos, ele, pessoalmente, está no topo do mundo.
(P.G. Wodehouse, Época de acasalamento, pág. 184)

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25.6.09

Passeio Público

(Pescar no aquário)

Numa altura em que o mundo se encontra sepultado na escuridão de uma crise de proporções indizíveis, a inauguração de um empreendimento de aquacultura em Mira (distrito de Coimbra) aviva, senão um entusiasmo desmedido, pelo menos alguma esperança na possibilidade de salvação do enfraquecido sistema económico português.

Inaugurado pelo primeiro-ministro José Sócrates, o projecto “Acuinova” (do grupo galego “Pescanova”) poderá criar cerca de 800 novos postos de trabalho, entre “empregos directos” e “indirectos”, na zona de Mira, produzirá entre sete a dez toneladas de pregado por ano, e irá contribuir muito para o aumento das exportações.

O maior empreendimento de aquacultura de peixes planos do mundo (anoto o presumível regozijo dos portugueses perante tamanho sucesso, idêntico ao júbilo antes manifestado pelo valor da transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid ou pelas dimensões do novo centro comercial na Amadora) assemelha-se a um inventário de bem-aventuranças, mas nem tudo é inocência e bondade.

A Quercus é quem o assevera: o viveiro encontra-se situado junto à orla costeira, em zona de rede Natura 2000, e vai certamente destruir dunas e incrementar a erosão costeira. O Ministério do Ambiente desmente a Quercus: todas as normas ambientais foram escrupulosamente cumpridas. Acredito que sim. Espero que sim. Mas desconfio.

Recordo que só quando saí de casa dos meus pais (e fui obrigado a fazer as compras da semana) é que percebi que a maioria dos peixes à venda nos supermercados provinha, não do mar largo, mas de aquários de criação. O único (e breve) contacto que tive com a aquacultura, e com os peixes crescidos nessas quintas de criação intensiva, foi na Serra da Estrela, num dos viveiros de trutas da região – provavelmente durante os anos de 1990. Não gostei do que vi: o espaço era exíguo, os peixes eram autênticos colossos e pareceu-me que o canibalismo era a principal fonte de sustento dos peixes maiores. Mas eu era muito jovem, e um pouco fantasioso – não há-de ter sido nada assim.
(Ontem, 24/06, no Jornal de Notícias*)
*As minhas crónicas no JN passam a ser à sexta-feira.

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23.6.09

Weekly Review


(José Eduardo Agualusa tem um novo romance: «Barroco Tropical». O lançamento do livro será amanhã, 24 de Junho, pelas 21h30, na Casa da Morna, Lisboa. A apresentação do romance será feita por Marcelo Rebelo de Sousa.)

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22.6.09

Avatares de um Desejo (sexto)

Depois do rama, veio o krishna. Depois deste o sidharta. E eu sei lá se vieram por esta ordem. O derradeiro (e o melhor) avatar veio há seis anos.

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19.6.09

Estéticas da Morte #cinquenta e nove

Bonfort e Le Coeur, assassinos, ajoelharam-se e declararam em voz alta o seu arrependimento pelas ofensas feitas a Deus e ao rei. Deus, infinitamente misericordioso (feitio, de resto, amplamente disputado em alguns livros do Antigo Testamento), indultou-os enquanto o Diabo* esfregou um olho. O rei, mais pragmático que o bom Criador, fez dos dois assassinos um exemplo: Bonfort e Le Coeur seriam enforcados depois de tomarem um banho veemente e de vestirem uma farpela elegante, costurada numa das melhores lojas da cidade (alfaiataria de Vincent Chalès, filho).

Mais tarde, Bonfort e Le Couer, caminhando lentamente para o cadafalso, remiraram-se com gosto nos olhos de belas raparigas do povo. Apesar de acharem as roupas novas um tanto ou quanto apertadas, é possível que tenham perdoado ao alfaiate Vincent esse nada despiciendo pormenor no momento em que o verdugo os ajustou à derradeira, peremptória, gravata.

*Que aparecera no Paraíso pouco antes, a fim de tratar de umas burocracias.

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18.6.09

Passeio Público

(Todos os nomes)

Sentimo-nos perdidos, desorientados. Não fugimos. Abdicamos. No dia das eleições europeias cedemos perante a indiferença (mole, ritual e estatística) que nos desafiou e venceu. De qualquer modo, o governo socialista recebeu um recado sério, perdendo as eleições para o Partido Social Democrata. O Bloco de Esquerda foi o outro grande vencedor da longa noite eleitoral. As próximas eleições, autárquicas e legislativas, serão decisivas: para os partidos e, sobretudo, para o país.

As autárquicas em Coimbra prometem ser interessantes. Na realidade, já o são – agora que começam a movimentar definitivamente nomes, desistências e promessas.

Os partidos da actual regência dos Paços do Concelho, PSD, CDS-PP e PPM, confiam uma vez mais o seu destino eleitoral ao ubíquo Carlos Encarnação. O presidente em exercício da Câmara Municipal joga as próximas eleições com vários trunfos na mão: é sobejamente conhecido pela população da cidade, sabe bem quais são os problemas do concelho, é indubitavelmente um homem perspicaz, e combate um PS em declínio devido à crise económica, o que fará os eleitores esquecerem o que de mal se tem feito na cidade.

O PS luta contra si próprio. Henrique Fernandes*, “il preferito” socialista, o único com capacidade eleitoral para ganhar (agora) a Carlos Encarnação, parece pouco seguro em relação à sua putativa candidatura. Recusando vedetismos exacerbados, o Governador Civil de Coimbra comprova a sua sobriedade democrática mas arrisca com isso alguns votos.

O BE, muito forte em Coimbra nas últimas eleições europeias, apresenta novamente como cabeça de lista a professora universitária Catarina Martins. Embora não tenha a exposição mediática de Marisa Matias, por exemplo, a candidata do Bloco sempre revelou uma capacidade de oposição e combate que, certamente, terá retorno por parte dos eleitores.

O professor Francisco Queirós, o candidato da CDU, pretende definir uma nova política urbanística, e refrear o betão que se multiplica desgovernado. Sentir-se-á insatisfeito com o trabalho realizado por Jorge Gouveia Monteiro, actual vereador da Habitação?

Enfim, uma novidade: a candidatura de um independente, Pina Prata. O ex-vice presidente de Carlos Encarnação acrescenta uma variável importante à equação eleitoral; candidatando-se contra os “poderes instalados” da cidade, Pina Prata irá naturalmente colher algum apoio entre os descontentes com o actual executivo camarário e com a oposição tradicional.
(Ontem, 17/06, no Jornal de Notícias)
*Entretanto, Henrique Fernandes anunciou a sua intenção de não se candidatar à CMC.

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17.6.09

Estéticas da Morte #cinquenta e oito

As obrigações familiares e um temperamento algo timorato, sempre despropositado no momento de arranjar desculpas esfarrapadas, levaram-me a aceitar o convite e, desgraçadamente, a comparecer no casamento de minha prima, H. Cosme da Silva (o «H.» é de Elena). A cerimónia, como de costume ao sábado, decorria sem surpresas ou espanto, se ressalvarmos a entrada em cena do decote generoso da flamejante G. de Castro (o «G.» é de Joana), a madrinha, durante a epístola de Paulo aos Coríntios, que provocou pelo menos dois «Ah!» de aprovação e um «Oh!» de inveja, até àquela parte da missa em que o padre questiona a assistência relativamente a impedimentos, putativos o mais das vezes, à consumação do matrimónio. Nesta altura a porca torceria o rabo, se porca existisse por perto. Pela primeira vez na história, acho eu, alguém se chegou à frente e disse de sua justiça. O infeliz amava, vejam bem para o que lhe deu, a minha prima H., e por isso falou. Não contava, porém, ou não sabia, o que é muito mais provável, que o noivo era da Guarda (Republicana) e que aquilo é gente que sói carregar as armas para as festas, para as descarregarem para o ar, como fazem os árabes quando os americanos espirram, ou o Benfica ganha o campeonato. Que o tenham morto logo ali, vá lá, é compreensível e até louvável, mas ao menos que me dessem tempo de tirar a Leica do saco. O álbum de fotografias, digo-o com mágoa e sem pensar no brasileirismo, ficou «meio mixuruca»: uma mosca esborrachada no penteado da minha tia S. (o «S.» é de Célia) não leva metade da graça de um corpo surpreendido por duas dúzias de balas.
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Barroco Tropical


(Uma mulher cai do céu)

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16.6.09

Coisa mais linda


(O casamento de Liedson)

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15.6.09

E um protector solar também dá jeito #oito


(Praia da Morena)
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12.6.09

Passeio Público

(Futebol e outros problemas sentimentais)

Confesso que não percebo o mundo do futebol (mas, por vezes, as coisas devem permanecer além de qualquer intelecção). O futebol é jogo de paixões veementes, e pouco temperadas pelo super-ego. Nesse caso, sei do que falo: sou um adepto irresponsável, chamo nomes aos árbitros e às suas mães, sobretudo a elas, e sou engenhoso criador de penalties, faltas e foras-de-jogo contra os adversários da minha equipa. Quando vejo futebol dispenso sermões e moralidades jesuíticas. Sou um adepto comum, aliás. Todo o verdadeiro adepto é faccioso, selectivo, inconsciente e amoral. A paixão incondicional é o requisito de uma possibilidade: a do prazer terrível da vitória.

O futebol, diz-nos Ballard, é a derradeira esperança de força da sociedade. Definindo-se numa nova ordem social, baseada na energia e na emoção, os adeptos mais subversivos re-dramatizam as suas vidas através da violência e da agressão, re-primitivizam-se e entretecem um código radical que nega o bem e o mal em favor de uma patologia sublimada.

Talvez por isso (ou: certamente por isso), aceitamos naturalmente o infortúnio do nosso clube, com um sorriso beatífico e apaixonado, à maneira dos primeiros cristãos no Coliseu, encantados perante os leões e a morte terrena. Odiamos os traidores, mas só quando não envergam um equipamento com as cores certas.

Na realidade, as coisas são assim porque é preciso manter a cabeça à tona de água, mesmo quando tudo se afoga à nossa volta. Um clube aguenta mais que nós, porque as suas dores são também maiores. O Clube de Futebol União de Coimbra, por exemplo, comemorou recentemente 90 anos de existência. Uma existência notável, possivelmente cumprida naquele longínquo ano de 1972, quando o clube da Cruz de Santiago alcançou o cume do futebol português e conviveu com os maiores.

Apesar dos recentes êxitos desportivos (regressa enfim aos campeonatos nacionais), o clube vive uma situação financeira difícil. A sua vitalidade, contudo, persevera. O União atravessou o deserto mas ninguém lhe sentenciou a desistência. O clube da Arregaça possui a força da planta que se adapta ao solo mais pobre: a Coimbra dos doutores prefere a Académica. É um problema sentimental, e o nosso coração só tem uma cor. Que seja negro, e azul, e grená.
(Anteontem, dia 10/06, no Jornal de Notícias)

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9.6.09

Mas qual papel?


(Clicar sobre a imagem)

A ver se me explico: neste momento, isto é, agora mesmo e nos próximos dias (quem sabe, talvez meses), a tese encontra-se (parcialmente) comprometida*. Gostaria de assacar com esta culpa, mas não o faço; pudera, a culpa não pode ser assacada a mim, que tenho trabalhado que nem cão deitado na palha. Esta cidade, esta universidade, meu Deus! Um papel, e o mundo cai a meus pés. Um papel, e juro que vou a qualquer sítio a pé. Um papel, porra, e uma assinatura. Já agora.

*O eufemismo vai bem com uma t-shirt preta.

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7.6.09

Os grandes vencedores de hoje


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Abstenção

Não foi preciso «fazer 600 km» para votar, como o Tomás, nem sequer acordar às 6:45am, como a minha querida noiva (nem o meu corpinho, adormecido mas certamente lascivo, a demoveu dos seus intentos malévolos, e pressurosa se afastou da hipertermia do leito pré-conjugal, rumo ao Estoril votar na Ilda). Suplantei com alguma facilidade os 200 km regulamentares (o Chesterton ajudou, a antevisão das minis no frigo da Otília também) e, em grande estilo, «prantei o bóto». Fácil, muito fácil. Sentido de voto: esquerda democrática. Vocês sabem do que é que eu estou a falar.

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4.6.09

Passeio Público

(História de duas cidades)

A cidade submerge as pessoas; é isso que ela faz embora imóvel e enfraquecida; deixa-lhes o espaço da sobrevivência e pouco mais: este dia igual a outro dia, este jardim obscuro, este teatro despenhado. A cidade é um inventário de meia página. É preciso amá-la para lhe reconhecer os defeitos, é preciso amá-la para a tornar grande. “Os romanos não amavam Roma porque era uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade”. Pode acontecer que as palavras de Chesterton sejam verdadeiras.

Considero Coimbra, descrevo mentalmente a sua política cultural, e parece-me que caminho sobre as ruínas de um sonho. Admito-lhe um destino menor, obviamente comparativo, ponderado em relação a Lisboa ou ao Porto, cidades maiores, evidentemente. A comparação, quando se faz, é para ser feita com o que está de alguma maneira acima de nós. Contudo, os homens (e as cidades) não sem medem aos palmos.

O destino de uma cidade não depende apenas de estatísticas ou da demografia. Uma cidade pequena (digo, com pouco habitantes) pode seguir, e algumas seguem, uma política cultural fecundante e dinamizadora, apropriada em cada momento e para cada solicitação. Neste sentido, é inteiramente justa uma comparação de Coimbra com a Figueira da Foz. A cidade com a maior população do distrito, aquela; a cidade com a maior sala de espectáculos da região, esta.

Numa altura em que se comemora o sétimo aniversário do Centro de Artes e Espectáculos (CAE), talvez o mais dinâmico espaço de cultura da região Centro, a Figueira da Foz avassala Coimbra, cidade ultimamente pouco centrada na cultura. Recordemos, por exemplo, as notícias de salários em atraso no Teatro Académico de Gil Vicente. Felizmente, a Figueira só fica a 45km de Coimbra e, para além do CAE, beneficia ainda da consciência apaziguadora do mar.
(Ontem, 03/06, no Jornal de Notícias)

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3.6.09

Sphinco Andro

As águas tardias pertencem aos deuses - o desconforto da omnisciência. Uma promessa em devir.

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Literatura sentimental

À atenção de R. Casanova: no Jumbo do CC Alegro (Alfragide) encontram-se, escondidos entre preciosidades como o livro do defunto blogue «Barnabé» (Deus o guarde) e os romances (dois, pelo menos) do vocalista dos Delfins, vários exemplares de «V», de Thomas Pynchon, em edição da Editorial Notícias, por 1.49€ (não me enganei, um euro e quarenta e nove cêntimos).

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