5/Out/2009

Temporary sort


I'm all alone this is a holiday
Some bloody holiday,
My friends have gone away
They're of the temporary sort I think

God Help The Girl, Musician, Please Take Heed

1/Out/2009

As regras da amizade

Sou convidado para um jantar doméstico. Em casa de R., o meu amigo mais recente. Aqui há tempos, escrevi que não sabia bem se já éramos amigos. Este convite era um indício. Aceitei, claro. Estavam outros amigos dele; reconheci dois; conheci também a mulher. À mesa enchemos conversa: trabalho, política, eleições, regimes semi-presidenciais. Até acabarmos no tema mais ou menos perene em qualquer aglomeração humana num sábado à noite: as relações entre homens e mulheres, o que querem uns e o que querem outras. Ainda há alguma coisa válida para inventar sobre isto?

Não sei. Mas pedi a palavra. Fez-se silêncio súbito, aqueles momentos feéricos de um jantar em que todos se calam ao mesmo tempo e quem estava a falar sente que ganhou uma responsabilidade acrescida e terrível. Citei então um estudo que tinha lido há pouco tempo no "New York Times" que sustentava a tese de que o desejo nas mulheres não é "relacional mas narcisista". Séculos a acreditarmos que o desejo das mulheres está dependente duma esfera de "intimidade" e "confiança" nas relações, quando na realidade o que elas procuram é ser objecto de cobiça "homo-erótica". Tudo mais primitivo e narcisista. Resumindo: o que tu queres sei eu.

Acrescentei, quase a justificar-me, que este era só um estudo académico e eu não podia garantir a sua consistência. De qualquer maneira, assim que me calei percebi imediatamente que tinha surgido uma certa tensão entre R. e a mulher, pelo desconforto evasivo com que ele me ouviu e pelos comentários aprovadores que ela me fez. R. ridicularizou o cientismo barato que tira conclusões não se sabe bem a partir do quê. A mulher recusou tudo o que ele disse.

Não tomei parte. Embora a prudência me recomendasse algum recato, não consegui deixar de pensar: haverá ainda sexo entre R. e a mulher? Ou serão eles outro casamento em declínio, mutilado pelo fim do desejo e por uma revolta surda e crescente como são todas as revoltas femininas? Dois minutos a pensar, até parar de pensar. Chegou o café.

Cada amizade define-se pelas regras de comportamento que cria. Do que não se pode falar, deve guardar-se silêncio. Na minha jovem amizade com R., eu tinha acabado de quebrar o nosso código de conduta.

30/Set/2009

Regimes despóticos


A amizade e o amor são ambos despóticos nas suas exigências. O amor é um despotismo absoluto; a amizade um despotismo benevolente.

Felizmente, outros foram capazes de o dizer melhor do que eu:

The friend is similar to the lover in his recognition of his incompleteness and his need for exclusive attachment to another human being in order to attain fulfillment. Friendship, too, is imperious in its demands, but the experience of friendship is gentler, soberer, without frenzy. It, unlike love, is necessarily reciprocal. You can love without being loved in return, but you cannot be the friend of one who is not your friend. Friendship, which seems for a variety of reasons to be easier, is actually rarer. Its pleasures are wholly spiritual, and the self-overcomings required for it are not powered by bodily passions. 

Allan Bloom, Love and Friendship

Amigos passionais

O trágico da vida na amizade é que nem sempre se distingue, com clareza, da vida no amor. Muitas vezes, a vida na amizade enfrenta reacções, medos ou ansiedades que são semelhantes aos da vida no amor. É como se a amizade ambicionasse a ser mais daquilo que é e acabasse vítima dos mesmos males que costumamos encontrar no estado amoroso: ciúmes, sentimento de posse, desconfiança, queixumes, reclamações. Amigos ciumentos, possessivos, desconfiados, ressentidos, são o que mais há por aí. Ninguém disse que a amizade, tal como o amor, não implicava misteriosos perigos passionais.

Quando estamos apaixonados, a primeira das nossas inquietações é não termos certeza se vamos ser correspondidos. Se ao menos nos amarem tanto como nós dizemos que amamos, não haverá ressentimentos contra ninguém e o amor durará resistentemente o tempo todo. Quando somos amigos, a nossa dúvida mais profunda é se gostarão de nós com o mesmo grau de aceitação que estamos dispostos a partilhar. Se ao menos formos recebidos como queremos receber, se nos aceitarem na proporção do que nós aceitamos, poderemos ficar tranquilos que a amizade será uma experiência limpa e sem remorsos.

Na amizade e no amor, estamos sempre à espera que nos correspondam, que nos tragam o que ainda não temos, que satisfaçam os nossos desejos de reciprocidade.  

E se isso não acontecer, o mais certo é que ficaremos mesmo ressentidos, amargos, conflituosos. Amigos passionais que a qualquer altura largarão as suas frustrações.

Bem sei que ninguém mata por amizade, ao passo que as cadeias estão cheias de amores não correspondidos. Mas é só porque nas amizades frustradas o desespero é mais contido. No resto, podem crer que os amigos passionais e os amantes passionais fermentam na mesma incubadora de ódio. 

29/Set/2009

A cada um o seu lugar

Às vezes os amigos confrontam-nos sobre outros amigos, perguntando, num tom de censura e desilusão, como é que podemos ser amigos deles, como é que explicamos a nossa notória incoerência. 

Claro que são eles os incoerentes; são eles que não percebem que a amizade não é um concurso de lógica mas uma experiência intencionalmente desordenada e irracional. As amizades contraditórias são mais que necessárias: são as únicas possíveis. 

"Quem sou eu?" não é pergunta que se faça na amizade. Os amigos devem ter a delicadeza de deixar essa pergunta suspensa. A cada um dos nossos amigos o seu exacto lugar.