Saem as pessoas, Entram os Fogos
Malandros! Bandidos! Incompetentes!... Gritava uma velha senhora com as mãos postas ao céu enquanto as chamas devastavam o pouco que conseguiu juntar durante uma vida inteira de sacrifícios. Desesperada olhava para cima dando, inconscientemente, a ideia de que aqueles a quem se referia estariam num patamar superior, hierarquicamente acima de si.
De facto, desde que Portugal deixou de ser um país rural nas décadas de 80/90, esta Gente ficou quase que entregue a si mesma. Longe de tudo, viu-se abandonada por todos; pelos filhos, pelos políticos e até, progressivamente, pelo pensamento de que melhores dias virão. Os poucos votos que juntos representam não chegam para dar voz às suas exigências, às suas necessidades.
Portugal é hoje um país virado para o litoral, que não olha para o seu interior, para um mundo que vê sair as pessoas e entrar os fogos, onde todos os anos são sacrificados pelos incêndios milhares de hectares de floresta, de património, de riqueza, de Vida.
Inconformados e habituados a aprender alguma coisa com as agruras da vida, muitos perguntam o que aprendemos com os incêndios do Verão passado? Lamentavelmente apenas a não confiar nos políticos, nos autarcas e nos governantes.
Depois da elaboração do tão apurado documento onde estão diagnosticadas todas as necessidades e falhas dos incêndios de 2003, o famoso “Livro Branco”, esperávamos ver implementadas as medidas aí apontadas como prioridades na prevenção e combate aos fogos florestais.
Na realidade o que verificamos hoje no terreno? Ausência de medidas de prevenção e ordenamento florestal; Falta de vigilância; Ineficácia na coordenação de pessoal e de meios no combate aos fogos; Estradas e caminhos por limpar; Asseiros insuficientes, enfim, uma série de fragilidades e muita incompetência que nos fazem acreditar que no próximo ano a cena se repetirá.
É triste ver Monchique ser completamente destruído, sem que tenha havido uma resposta capaz de combater esta calamidade. Mas afinal, o que se poderia esperar de um concelho que se afirmou declaradamente florestal, mas que o fez de uma forma completamente desordenada? Que nunca teve uma estratégia nem sequer um “Plano Municipal de Prevenção de Fogos Florestais” e que depois do que aconteceu em 2003, não foi capaz de realizar qualquer “Projecto para Vigilância e Prevenção de Incêndios” apesar da Direcção Geral de Recursos Florestais lho ter proposto atempadamente?
É curioso ver hoje o Presidente da CMM fugir airosamente das suas responsabilidades, saberá ele que “ninguém cometeu pior erro do que aquele que nada fez só porque poderia fazer pouco”?
Se ao nível do Poder Central não existir uma efectiva intervenção, uma mais eficaz resposta e aplicação das medidas já apontadas, continuaremos a assistir ao jogo do empurra, com trocas de acusações entre autarcas e Governo sem quaisquer consequências práticas e as medidas necessárias e urgentes por concretizar.
Se quase todos já perceberam que não é com submarinos que se combatem os incêndios, também já devem ter constatado que não é com discursos nem com planos de intenções que tal se consegue.
Rui André
(In Barlavento de 12 de Agosto de 2004)
Malandros! Bandidos! Incompetentes!... Gritava uma velha senhora com as mãos postas ao céu enquanto as chamas devastavam o pouco que conseguiu juntar durante uma vida inteira de sacrifícios. Desesperada olhava para cima dando, inconscientemente, a ideia de que aqueles a quem se referia estariam num patamar superior, hierarquicamente acima de si.
De facto, desde que Portugal deixou de ser um país rural nas décadas de 80/90, esta Gente ficou quase que entregue a si mesma. Longe de tudo, viu-se abandonada por todos; pelos filhos, pelos políticos e até, progressivamente, pelo pensamento de que melhores dias virão. Os poucos votos que juntos representam não chegam para dar voz às suas exigências, às suas necessidades.
Portugal é hoje um país virado para o litoral, que não olha para o seu interior, para um mundo que vê sair as pessoas e entrar os fogos, onde todos os anos são sacrificados pelos incêndios milhares de hectares de floresta, de património, de riqueza, de Vida.
Inconformados e habituados a aprender alguma coisa com as agruras da vida, muitos perguntam o que aprendemos com os incêndios do Verão passado? Lamentavelmente apenas a não confiar nos políticos, nos autarcas e nos governantes.
Depois da elaboração do tão apurado documento onde estão diagnosticadas todas as necessidades e falhas dos incêndios de 2003, o famoso “Livro Branco”, esperávamos ver implementadas as medidas aí apontadas como prioridades na prevenção e combate aos fogos florestais.
Na realidade o que verificamos hoje no terreno? Ausência de medidas de prevenção e ordenamento florestal; Falta de vigilância; Ineficácia na coordenação de pessoal e de meios no combate aos fogos; Estradas e caminhos por limpar; Asseiros insuficientes, enfim, uma série de fragilidades e muita incompetência que nos fazem acreditar que no próximo ano a cena se repetirá.
É triste ver Monchique ser completamente destruído, sem que tenha havido uma resposta capaz de combater esta calamidade. Mas afinal, o que se poderia esperar de um concelho que se afirmou declaradamente florestal, mas que o fez de uma forma completamente desordenada? Que nunca teve uma estratégia nem sequer um “Plano Municipal de Prevenção de Fogos Florestais” e que depois do que aconteceu em 2003, não foi capaz de realizar qualquer “Projecto para Vigilância e Prevenção de Incêndios” apesar da Direcção Geral de Recursos Florestais lho ter proposto atempadamente?
É curioso ver hoje o Presidente da CMM fugir airosamente das suas responsabilidades, saberá ele que “ninguém cometeu pior erro do que aquele que nada fez só porque poderia fazer pouco”?
Se ao nível do Poder Central não existir uma efectiva intervenção, uma mais eficaz resposta e aplicação das medidas já apontadas, continuaremos a assistir ao jogo do empurra, com trocas de acusações entre autarcas e Governo sem quaisquer consequências práticas e as medidas necessárias e urgentes por concretizar.
Se quase todos já perceberam que não é com submarinos que se combatem os incêndios, também já devem ter constatado que não é com discursos nem com planos de intenções que tal se consegue.
Rui André
(In Barlavento de 12 de Agosto de 2004)

