Terça-feira, Setembro 29, 2009

Horas XIV

Não estou preparada para o Outono. Não estou pronta para o frio de manhã e ao fim da tarde, para o céu cinzento e as chuvas teimosas. Não vale a pena tentar, hoje apetece recolher-me no meu sofá e rodear-me, ainda que imaginariamente, de uma barreira que me isola do mundo lá fora… onde já é Outono.
Tenho uma ligeira falta de paciência que mastiga-me a vontade de comer e vê passar a hora de almoçar com pensamento no jantar – na hora de sair daqui, o chegar a casa, o viver em egoísmo os caprichos do não aceitar o Outono hoje, quem sabe, talvez amanhã.
Irrita-me este alternar de sol e sombra, esse chove e não chove, e esta dor de cabeça que é e não é nas entrelinhas da minha inconstante certeza, sei e não sei.
Não estou preparada para a manta e as lágrimas de fim de tarde, depois de uma tarde de filmes de pura pieguice – que nego sempre aos outros que vejo com vergonha da minha própria fraqueza – sonegada ao silêncio da solidão que tantas vezes digo de saborosa e deliciosa.
Não sei onde pus a porcaria do carregador do telemóvel. Paro durante uns minutos a minha busca mental, em pleno praguejar da minha cabeça pouco presa à terra, e conforto-me com o não ter atendido chamadas até agora. Agora, de repente, hoje está a saber bem… não chamadas mesmo que sim Outono. Recuso-me a idiotice das coisas pequenas – eu que gosto de pormenores – porque através delas sinto-me desprovida de sentido concreto e válido. E bem, não estou preparada para o Outono.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Personagem XXVII

Está a chover. Estou a olhar a mesa que pus para ti com o desespero do tempo que não para Tenho a certeza que a tua justificação é válida mas corrói-me inevitavelmente o sentimento de revolta que me faz de vitima do teu destino - que teima em desencontrar-se do meu.
Escolhi um ambiente branco para a nossa noite, neutro e ao mesmo tempo cheio de luz, um uso perspicaz das cores da minha fantasia implícitas. Cozinhei toda a tarde com a luxúria do teu corpo no pensamento e mesmo que isso fosse uma motivação de envolvência com a comida que preparava - segundo os especialista as emoções empregues na confeção sente-se no paladar da comida - limitava apenas a deixar-me excitada e em completo desatino.
A mesa está junto do janelão do terraço, sei que tu gostas da vista sobre o mar. Aqui há sempre mar, consigo ouvir-te dizer. Consegues passar horas a olhar lá para fora enquanto eu deambulo pela casa e ponho no prego da minha ilusão outros pertences só para poder adivinhar o que tanto pensas.
Estou a fazer o mesmo que tu farias, a olhar a chuva a cair no terraço, a desejar ver as ondas negras a beijar a terra... a noite caiu, apenas ouço o mar e vislumbro alguma espuma das ondas a morrer na praia. Não sei se tive o desejo da descoberta quando pus aqui a mesa - em mim o desejo de saber o que te vive as horas quando eu não estou, mesmo que não esteja nunca. Tenho os olhos cansados da escuridão lá fora. Querido, a mesa está tão linda!
A sala está cheia de velas e rosas brancas como tu gostas, cheira a incenso de canela e faz-me lembrar de ti quando te conheci. Tenho as mãos dentro das algibeiras do casaco, não atrevo-me a mexer em nada, vou apagar as velas e abandonar a casa, perder o cheiro e as cores - os pormenores trazem-me sempre à terra onde tu não estás, onde as fantasias não conseguem mais rasgar-me sorrisos e alimentar-me a vida.
Vou sair. Sou bem capaz de dormir fora não num gesto de louca vingança libertina, mas numa vontade de luxúria contida, humana e perfeitamente compreensível. Sempre fui muito fogáz e tu sempre soubeste. Vou deixar recado à empregada para eliminar os restos da noite que não foi. E eu esquecerei que esta noite um dia foi tua. Talvez assim ainda consiga manter a minha capacidade de te receber um dia destes, quando o teu destino achar que me deve atropelar com esse amor acidental que te transtorna e me faz levitar apenas com palavras, mas que sem toque morre e transforma-se em amargura dentro de mim.

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Madrid













Quiero volver à Madrid!

Já tenho saudades... estranho...
















Quarta-feira, Agosto 12, 2009

...

meu amor
morreu!
e minha dor
outra vez viveu
doi doi
meu amor
morreu!
aqui nunca esquecido
vez primeira
relógio partido
parou parou

meu amor
morreu!

morreu!

Hoje eu rezei outra vez...