Bagatelas [virando a página]

Labirinto

* O Partido Socialista recebeu uma transfusão de sangue de Manuel Alegre e de alguns dos «históricos» que os seus mais fiéis apparatchiki tanto depreciaram ainda há pouco tempo atrás. Em larga medida, e em conjunto com a energia de Sócrates, foram eles quem estancou no limite a hemorragia que iria fazer crescer ainda mais o eleitorado do Bloco. Não foram as Lurdes, os Albertos ou os Augustos.

* PS e PSD – partidos «aparelhistas» e, na verdade, pouco politizados – perderam terreno para as forças com um eleitorado mais convicto e mais militante. Basta escutar com alguma atenção a longa fila de pessoas que vota em ambos por hábito e fé, frequentemente incapaz de declarar o porquê da escolha. Poderiam acorrer às eleições para o seu clube do coração ou a tomar a camioneta para Fátima. Com os outros não é tanto assim, embora em democracia, como é sabido, não existam votos de 1ª e de 2ª.

* Todos subestimaram o CDS. Provavelmente, até uma boa parte dos centristas o terá feito também. Mas o CDS, deveriam sabê-lo os estrategos, é voz atávica de uma boa parte do «país real». Aquela que vem de passado que perdura, do respeitinho pelas hierarquias que atravessa a longa duração, do preconceito de classe que separa patrões e empregados, patroas e empregadas, do catolicismo ultramontano que sobreviveu a trinta e cinco anos de laicismo democrático como sobrevivera noutros tempos aos dezasseis de republicanismo costista.

* Quem vendeu uma imagem dinâmica, cintilante, optimista, atenta à sede de novidade que alimenta as maiorias e às regras básicas da mobilidade cénica ganhou (o PS e mesmo o BE, que agora investiu muito nesse campo). Quem apostou numa campanha repetitiva, negativista, e apoiada em valores antieuropeus ou conservadores, no medo ou no rancor, perdeu (o PSD e, do outro lado, o PCP). O CDS, esse trilhou uma campanha autónoma, pois dirige-se a um eleitorado conservador que reconhece um certo padrão de imutabilidade como próprio da natureza humana.

* O método de Hondt continua a fazer das suas. O CDS apenas com mais 0,61% de votos que o Bloco conseguiu eleger mais 5 deputados. Já o BE com mais 1,97% de votos que o PCP conquistou só mais 1 deputado que este. Mas contra isto, sem um irrealizável acordo de revisão da lei eleitoral – que até poderia produzir uma lei pior –, pouco se poderá fazer. Ou não?

* O peso da opinião pública na construção de consensos e de dinâmicas de mudança pode agora ganhar uma nova dimensão. O fim do «quero, posso e mando» tenderá a ampliar o debate democrático, uma vez que no novo contexto político é possível fazer vingar posições, e não apenas «marcar posição». A vontade de participação tem assim condições para viver um novo impulso. Resta saber como e se por muito tempo.

* O Bloco de Esquerda está numa encruzilhada. Ao contrário do que pensam alguns simpatizantes mais optimistas, dificilmente crescerá mais do que cresceu agora sem se assumir como partido de combate pelo poder. E apenas o pode fazer questionando aquela parte da sua matriz fundadora que se assume como visceralmente anticapitalista e protestativa. Abre-se um tempo de reflexão para que tudo se torne mais claro e equilibrado, antes que o balão comece a esvaziar e as fragilidades apareçam à luz do dia.

* Espera-se que a parte sã do PS se deixe de teorias da conspiração e perca a nostalgia da maioria absoluta. E que não permita a repetição da atitude autista ou a vertigem autoritária, apoiadas nas costas largas do «contexto de crise», que dominaram o partido ao longo destes quatro anos últimos. Que tenha coragem política para procurar primeiro o consenso ou o acordo, e não o confronto. Para colocar as pessoas à frente das estatísticas. Provando finalmente que uma maioria relativa pode impor um clima de abertura que o poder não partilhado inevitavelmente rejeita.

[virar de página]

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Precisamos falar

Conversa

Em função dos resultados destas eleições – e da inconsistência de muitas escolhas, claramente camaleónicas, episódicas e volúveis –, não é preciso ser-se adivinho para prever quatro anos, ou provavelmente menos, de contorcionismo táctico, negociações complicadas e difíceis debates intestinos. Uma coisa é certa: encerrou o mais recente ciclo do poder absoluto. A discussão e e o confronto de ideias ganharam um novo sentido e são agora indispensáveis.

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Também eu

Roberto Bolaño

Pior que os seguidistas, que falam de qualquer coisa por falta de tema ou só porque toda a gente escreve sobre o assunto e não são capazes de se conter, são os pseudo-enfants terribles que abrem a boca com a soberba da insciência convencida. Eu cá, que lá fui decifrando o Ulisses e mais alguns livritos voluminosos, mas só ontem comecei o 2666 do Bolaño e o vou ter de ler devagar, prefiro não falar de cor. Frequento a crítica, penso pela minha cabeça, ando um bocado a pé, e depois se verá. Por enquanto calo-me para não perturbar o encantamento ou escrever disparates.

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De repente, os outros

Musical Chairs

De repente lembro-me dos outros. Daqueles que permaneceram na penumbra, verdadeiramente na penumbra, ao longo da campanha. Olhados como eleitores potenciais, a quem seduzir, mas quase sempre ignorados na materialidade das suas vidas, nas diferenças que consubstanciam, nas expectativas e anseios que são só seus. Nas mulheres destacadas por preencherem quotas, aparentando paridade onde existe desigualdade de facto. Nos jovens transformados em figurantes, protagonistas para fazerem ruído e simularem futuro. Nos desempregados que perdem voz à medida que se distanciam da vida activa e se deprimem, fora de comícios, manifestações e arruadas. Nos imigrantes diligentemente varridos para longe das câmaras embora participem do nosso destino comum. Nos idosos cujos rostos passam num instante quando a televisão persegue os candidatos. Nos gays, nas lésbicas, nos artistas, nos intelectuais, arregimentados para evocarem um «capital de modernidade» perante a opinião pública, mas excluídos ou confinados a recantos invisíveis nas propostas concebidas para serem lidas pelo cidadão comum e decifradas pelos legisladores. Lembro-me de todos estes, que são milhões, e pergunto-me sobre o que lhes oferece a política institucional, aquela que verdadeiramente decide e governa as nossas vidas. Aquela cujos actores, após a dança das cadeiras, reocupará hoje os seus lugares reservados.

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♪ Melodia de sempre.6

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Django Reinhardt, Stéphane Grappelli e o Quinteto do Hot Club de France
J’Attendrai (1939)

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A liberdade está a passar por aqui

Liberdade

A Joana Lopes estranhou e eu acompanho-a. Que espécie de sombra maligna pairará sobre muitos dos nossos blogues de opinião para que os seus autores se sintam no dever de não falarem sobre as eleições entre a meia-noite de hoje e a hora de fecho das urnas no domingo que vem? O instituto do «dia de reflexão», extravagante e completamente inútil, vestígio de um tempo no qual precisávamos ainda de mostrar ao mundo que éramos suficientemente civilizados para não desatarmos à bofetada uns aos outros no final de cada campanha, perdeu toda a razão de ser. Principalmente na blogosfera, onde os textos anteriores podem continuar a ser lidos e ninguém desactiva os comentários apenas por 44 horas. Resta pois admitir uma falha grave no reconhecimento da dimensão única deste instrumento como arma de uma liberdade a sério. Ou a presunção de que é cumprindo esta norma absurda que se ganha respeitabilidade. Parece que muitas pessoas continuam sem compreender que a democracia não se esgota, nem se pode esgotar, nas acções de campanha promovidas pelos partidos e no eco que estas possam ter nos meios de comunicação com número de identificação fiscal. Que está a passar também por aqui, como entoava o Sérgio Godinho, nos idos de setenta – «aprende a nadar, companheiro / aprende a nadar, companheiro» –, a propósito da liberdade recém-adquirida e partilhada.

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Arquivado em Cibercultura, Olhares, Opinião

Silêncio participativo

Silence

Arvo Pärt – Darf Ich…
Tatjana Grindenko, Gidon Kremer, Kremerata Baltica

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Um voto crítico mas convicto

Bloco em Coimbra
Imagem do comício do BE em Coimbra na noite de 21 de Setembro

Ser politicamente independente e não ter militância partidária não significa ser contra os partidos e a política, ou permanecer indiferente perante os debates e os conflitos que nos cercam. Esta opção corresponde, no meu caso, a uma escolha que implica um posicionamento crítico construtivo e uma vivência tanto quanto possível empenhada da cidadania. Encaro por isso como um acto de coerência o apoio ao programa e às propostas do Bloco de Esquerda para estas eleições legislativas.

Desde logo porque este propõe uma intervenção política «à esquerda», sem complexos, que não é puramente retórica e meramente desenvolvimentista, ou então exclusivamente protestativa e maximalista, como as avançadas pelos outros partidos frequentemente conotados com a esquerda. Não sacraliza um crescimento económico auto-satisfeito e sem norte, ao qual em última instância tudo é sacrificado, como não reivindica um ódio de classes e uma atitude teimosamente isolacionista fora do tempo.

Depois, porque a generalidade das listas eleitorais do Bloco não obedece à lógica do aparelho ou da representação fundada na figura supostamente neutra e impoluta da «personalidade». Integra alguns dos seus quadros mais valiosos, dinâmicos e empenhados, como não poderia deixar de acontecer – entre os quais existem por vezes diferenças de pontos de vista, pois o pensamento único não mora aqui –, mas recorre basicamente a pessoas reconhecidas pelo seu vínculo às causas sociais e a experiências pessoais e profissionais de mérito reconhecido.

Por último, porque o programa do Bloco de Esquerda propõe escolhas e sugere iniciativas públicas que apontam para a clara afirmação política de uma esquerda socialista, moderada na acção diária mas radical contra a injustiça e a desigualdade, que os adeptos da economia neoliberal e da intervenção meramente gestionária do Estado se têm esforçado para definir como irrealizável, adversária do desenvolvimento e socialmente desastrosa. Ao invés, uma viragem de políticas é possível e acredito ser esse o caminho para o qual apontarão, construtiva e combativamente, os futuros deputados eleitos pelo Bloco. Por isso apoio a sua eleição. Sem com este apoio desactivar a minha vigilância crítica. Antes pelo contrário, se querem saber.

Versão «revista e aumentada» de um texto que apareceu há dias em Coimbra em Bloco!, o blogue da candidatura do Bloco de Esquerda às eleições legislativas pelo distrito de Coimbra.

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Arquivado em Actualidade, Opinião

Saudades de Nikita

Khrushchev

O pícaro coronel Khadafi, pseudo-Nehru da aurora do século 21, tinha 15 minutos para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou durante 95 – Fidel Castro, recordista absoluto da especialidade, dispendeu 240 em 1960 –, disparando em todas as direcções, qualificando o Conselho de Segurança como terrorista, e chegando a lançar estrondosamente ao chão um exemplar em árabe do documento fundador da instituição que o acolhia. Jogando com o estatuto de inimputável e chantagista que lhe permite compor perfomances desta natureza sem que, no mínimo, alguém se erga do seu lugar e saia da sala ostensivamente, deixando-o a arengar para confrades e clientes. Ou proteste batendo com um sapato na respectiva bancada, como o fez certo dia o saudoso líder soviético Nikita Khrushchev, outro personagem razoavelmente burlesco que foi determinante no seu tempo. Mas esse ao menos tinha alguma piada e não fazia explodir aviões de passageiros no ar.

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Arquivado em Actualidade, Etc., Memória

Uma nova servidão

A colmeia

«The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.

Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»

De acordo com um artigo publicado hoje no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.

Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.

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Arquivado em Actualidade, Olhares, Opinião

O caso do pirómano egípcio

Fahrenheit 451

Por vezes é necessário tomar posições frontais contra a lógica da diplomacia dúctil e puramente defensiva. Como o fez Manuel Maria Carrilho, contra a vontade do ministro Luís Amado, no caso da prevista escolha do egípcio Farouk Hosni, o pirómano de livros «semitas», para secretário-geral da Unesco. Por esse e por outros actos é que felizmente acabou por ser eleita a búlgara Irina Bokova. Sem o voto português, pois Carrilho foi acabou por ser substituído nas votações por um funcionário do MNE. Como escreveu Pedro Correia, «o simples facto de essas instruções terem sido transmitidas ao nosso embaixador na Unesco (…) revela bem até que ponto chegou o temor reverencial do Ocidente».

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Uma questão de (l)atitude

Rua do Correio

À entrada da Posthússtræti (Rua do Correio em islandês), situada mesmo no centro de Reiquejavique, encontrava-se há dias este aviso. A tradução (takk, thanks, M.R.): «Posthússtræti fechada devido ao bom tempo».

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Prémios e galardões

Tal como acontece com outros, este blogue recebe de vez em quando prémios de qualidade e galardões concedidos individualmente por amigos e leitores que o visitam e lhe reconhecem algum mérito. O último é o «Vale a pena ficar de olho nesse blogue». Há cerca de dois anos, porém, após uma vaga de distinções, resolvi não participar mais em cadeias do género, tendo-o explicado na altura às pessoas envolvidas. A minha escolha teve e mantém dois motivos: primeiro, penso que apenas são relevantes como prémios públicos aqueles atribuídos por um colectivo com base em critérios conhecidos; segundo, a multiplicação de distinções desta natureza acaba por banalizá-las. Sei que a opção é muito discutível, e por isso peço a quem simpaticamente tem premiado este blogue que a entenda e aceite.

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Arquivado em Oficina

O passado é agora [1]

Os puritanos

Dois trabalhadores polacos rudes e virtuosos censuram uma mulher que personifica o consumismo do Ocidente capitalista. Fragmento do quadro Postaci (Figuras), de Wojciech Fangor (1950).

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Arquivado em História, Imagem, Olhares

Com um ténue sorriso nos lábios

Talk Talk

Não posso senão concordar com o óbvio, transformado em evidência nestes últimos dias de campanha: se o revanchismo marca-PSD não ganhar as eleições por uns módicos milhares de votos, o cenário inevitável será o da vitória de um PS em queda, com uma subida bastante acentuada do Bloco de Esquerda e outra, menos resplandecente embora perceptível, do Partido Comunista. O passo seguinte deverá passar – pois alguém terá de ficar com as chaves da quinta e geri-la – pela materialização de uma aproximação à esquerda. Seja esta aproximação traduzida num «pacto de governo» ou em acordos pontuais no interior do espaço parlamentar. O segundo cenário é menos complexo e esboçá-lo é menos urgente, pois as soluções serão encontradas a médio prazo, caso a caso, num esforço de negociação que em alguns momentos regressará ao centro, podendo mesmo incluir sectores do PSD. Já um «pacto de governo» supõe uma decisão mais rápida mas também mais difícil.

Em artigo publicado hoje no Público, o meu amigo e colega Elísio Estanque desenha muito bem o cenário provável e algumas das dificuldades colocadas na sua construção. Transcrevo-o parcialmente, em total concordância:

«Entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).»

Para depois continuar:

«Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc.), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito mínimo para um governo estável e de esquerda.»

Também me parece ser este o cenário possível e desejável dentro das actuais circunstâncias, ainda que duvide um pouco da viabilidade da sua materialização. Esta dúvida prende-se com um problema que EE apenas aflora mas que a mim parece dever merecer especial atenção. Se olharmos bem a projecção dessa possível paisagem, a maior expectativa de quem a deseja ou prepara não se limitará ao resultado do simples somatório dos votos depositados nas urnas e à consequente solução institucional, mas antes àquilo que de autenticamente novo essa aproximação trará à história democrática da nossa Terceira República, no contexto de um processo inevitável de reidentificação tanto do PS quanto do Bloco. Ora é a existência de vontade política para dinamizar esta viragem que não consigo ainda vislumbrar.

Para o PS, tratar-se-á de uma alteração de políticas e de comportamentos nas mais diversas áreas, bem como uma partilha parcial de cargos e de poder, com o necessário recuo dos sectores mais empenhadamente autoritaristas e defensores de um «neoliberalismo moderado» como único sistema viável. Para o Bloco, será a perda gradual de uma cultura ainda essencialmente protestativa e abertamente fracturante, com o recuo, ou mesmo o apagamento, das franjas radicais e tardo-marxistas, minoritárias na contagem dos votos mas organicamente activas, que ainda o povoam. Isto não significa o desaparecimento das diferenças, mas obrigará a uma diluição das áreas de conflito, o que poderá provocar, numa e noutra de ambas as forças, alterações irreversíveis. Significará uma coabitação em «comunhão de adquiridos» que forçará novos equilíbrios e radicalizará, numa dinâmica centrífuga, determinados sectores da margem esquerda da actual vida política. Inventario apenas alguns, não carecendo de ser adivinho para o poder fazer: um recuo da ala mais à direita do aparelho e da clientela do PS, um upgrade da cultura política do Bloco em articulação com a prática de poder, o esvaziamento formal do fugaz «alegrismo», um incremento da «urbanização» da base social de apoio do governo, a radicalização e a recomposição da extrema-esquerda supervivente, a estabilização definitiva do PCP como partido de protesto antieuropeísta ou a sua improvável adaptação ao século 21.

Por isso não vejo a possível ou inevitável aproximação entre PS e BE como um fim em si na construção de uma solução governativa estável e mais justa dentro do sistema democrático imperfeito no qual vivemos. Vejo-a antes como um momento – possível, repito, embora pouco provável – para conter e superar os excessos anti-socialistas da política governativa simbolizada pelo actual «socratismo» rosa-cinzento. Apenas como uma etapa, como um tempo de mudança, para algo que ainda não podemos vislumbrar mas virá depois. Talvez, como escreve EE, ela possa representar «um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portuguesa». Talvez. Uma fantasia boa que pode, ou poderia, tornar-se realidade. Daquelas das quais despertamos com um ténue sorriso nos lábios, antes de retornarmos à aspereza da vida de todos os dias. Mas bem sabemos como não existe uma «ciência do real» e tudo avança por processos repetidos de tentativa e erro.

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Arquivado em Actualidade, Opinião

Xeque ao capitalismo

Spassky e Fischer

Apesar de ter hoje nacionalidade eslovaca, faz agora 25 anos vivia ainda em Brno. Julgo que foi pelo diário Právo, e por algumas notícias que passavam no canal estatal de televisão, que segui o primeiro encontro para o título mundial de xadrez travado entre Gary Karpov a Anatoli Kasparov. A minha recordação desse tempo é muito vaga. É curioso mas lembro-me muito melhor, talvez por causa da propaganda, dos duelos anteriores de Boris Spassky com Bobby Fischer, que no princípio dos anos setenta nos eram mostrados como combates de morte entre a descomunal argúcia socialista e uma esperteza capitalista rude e sempre arrogante. Nessa época tratava-se de uma verdade inquestionável e só anos depois entendi que o mundo não era assim tão simples de interpretar.

Iuri Bradáček

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O destino de Sofia

Sofia Loren

Sofia Loren faz hoje 75 anos e há sensivelmente 60 que anda por aí, revelada em filmes e fotogramas, a perturbar as horas de descanso de adolescentes com borbulhas e honestos patres familiae de diferentes gerações, origens, línguas, credos e regimes. Abençoada seja também por isso. E longa vida à camarada Sofia!

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Arquivado em Cinema, Etc., Memória

♪ ilha do tesouro|19

Ventos que me entram em casa quando as janelas ficam abertas.

Cave, Ellis

Nick Cave e Warren Ellis
The Road [White Lunar]

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Uma verdade repugnante

Ahmadinejad

O negacionismo histórico incorpora, como todos sabemos, diferentes perversões. Passa pela suavização ou pelo apagamento dos crimes em massa praticados no Gulag soviético e nas suas réplicas chinesa ou norte-coreana, pela contestação do Holodomor que em 1932-1933 varreu milhões de ucranianos, pela recusa da dimensão apocalíptica do genocídio arménio, pela limpeza da memória dos fuzilamentos indiscriminados de La Habana ou de Luanda, pela rasura dos terríveis crimes de guerra cometidos pelo Japão, pelo afastamento dos livros de história e das evocações do passado de iniquidades do colonialismo. Porém, porque toca mais profundamente os fundamentos democráticos da cultura europeia e a experiência em segunda mão que ainda podemos ter, a negação do Holocausto é-nos particularmente repugnante. Crescemos todos com o rastro fotográfico e literário da memória dos campos, reconhecendo o espectro sombrio do portão de Auschwitz, vendo e revendo na televisão documentários sobre os longos comboios da morte, lendo Noite ou Se Isto é um Homem, Wiesel e Levi. Por isso se nos tornam insuportáveis afirmações como as de Ahmadinejad, repetindo que se trata de «uma mentira baseada numa história mítica e impossível de provar». Quando no próximo 1º de Outubro o presidente não-eleito iraniano discursar na Assembleia-Geral das Nações Unidas, veremos como reage a estas palavras – e às provocações políticas do Irão – a habitualmente pusilâmine diplomacia europeia.

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A marca de Zane

Zane Grey

Um dos meus primeiros heróis literários foi Zane Grey (1872-1939). Nunca saberei, nem jamais alguém saberá, quantos rapazes irrevogavelmente temerários, quantas marias às escondidas das suas mães, com ele descobriram o mundo selvagem, perpetuamente inquieto, no qual cowboys de personalidade estupenda, e caravanas de pioneiros tão cândidos quanto indómitos, enfrentavam hordas de índios bravíssimos e alucinadamente suicidas. Soube hoje, por uma leitura de ocasião, que até se tornar conhecido pelos seus romances populares Grey passou pelo Oeste profundo apenas por uma vez, em 1906, durante uma apressada lua-de-mel. O meu assombro regressou ao perceber por esta via, como nunca antes percebera, de que modo a imaginação de tanta gente foi inoculada, de pais para filhos e depois para os filhos destes, pela mais completa fantasia do tranquilo dentista de uma cidadezinha do Ohio. O homem que ajudou a conceber os índios e os cowboys tal qual os encarnámos – cientes de um mundo justo no qual os bons e os maus conheciam o seu lugar e não desejavam outro –, entre faltas às aulas, postes de electricidade a servir de esconderijo e muros de cimento. Bem longe, como Zane, das pradarias desejadas como cenário de aventura.

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Edith e Zé Manel

Edith Piaf

Na viragem para a década de 1970 tornou-se muito popular em França uma cantora que os jornais consideravam «a nova Piaf». Mireille Mathieu tinha de facto uma voz interessante, num registo gutural próximo daquele que caracterizara Edith Piaf, e quem a ouvisse cantar num vulgar rádio de pilhas em onda média, ou numa longínqua instalação sonora de festa de aldeia, facilmente confundia a sua voz com a da intérprete de Non, je ne regrette rien. Mas quando se prestava maior atenção à pessoa, à música e ao tom, as diferenças tornavam-se flagrantes. O aspecto de jovem perfeita, asseada e bem comportada, o conteúdo açucarado do seu repertório, e principalmente a ausência daquele pathos que caracterizava a minúscula Edith e a tornava um animal de palco, mostravam imediatamente as debilidades de Mireille. Por isso ninguém se espantou verdadeiramente quando ela desapareceu de cena. Lembrei-me desta distância entre a Piaf e a sua cópia após ler a notícia sobre a confirmação de José Manuel Durão Barroso no segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. Confrontando a sua presença medíocre e o discurso apenas melífluo e de circunstância com os de Monsieur Europe, o socialista Jacques Delors, uma personalidade forte que chefiou a Comissão entre 1985 e 1995 e fez com que a voz europeia fosse ouvida e respeitada muito para além do perímetro de Bruxelas, vemos como foi rápida a passagem do original para a sua indigente cópia.

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Por um cigarro em paz

Um cigarro em paz
Soldado republicano fotografado na frente de Madrid

Já sabia que tinha acontecido assim, mas a crónica de Antonio Muñoz Molina no Babelia reavivou-me a memória de uma ocorrência que sempre achei perturbante. Mesmo quando fazia por acreditar em absolutos e na límpida separação entre o bem e o mal. Sobreviventes anónimos da Guerra Civil espanhola recordam insistentemente, conta Molina, como fora das áreas de combate o mais duro de suportar era, para além da fome, a falta de tabaco. Este faltava na zona republicana, pois era produzido na Estremadura e nas Canárias, controladas desde o início pelos franquistas, mas nas áreas administradas pelos insurrectos não havia papel de fumar de boa qualidade, uma vez que as fábricas estavam em regiões nas mãos da República. Organizavam-se então encontros perto da linha da frente para que os dois produtos fossem trocados e pelo menos alguns pudessem experimentar desse «alívio plácido após uma longa privação».

Episódios de uma camaradagem desta natureza, entre populações situadas em campos adversos ou mesmo entre inimigos, são comuns em situações de conflito e aconteceram também durante as nossas Guerras Coloniais. Um antigo comandante guerrilheiro do MPLA descreveu-me certa vez o modo como os seus combatentes, sabendo que os opositores directos iriam passar pelo mesmo trilho e estavam há muito tempo isolados, deixavam afixados num papel espetado numa árvore os resultados do campeonato português de futebol da Primeira Divisão. Se fosse o caso, alguns portugueses faziam a mesma coisa. Outras vezes metiam-se uns com os outros, de maneira quase amigável, a propósito de certas simpatias clubísticas: «no domingo vão ser cinco a zero!», «vocês ontem não jogaram nada, cabrões». Episódios que reforçam o particular absurdo das guerras atravessadas por um passado partilhado e uma língua comum.

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Ronis

Nuit au chalet, 1935
Nuit au chalet, 1935

Morreu hoje, aos 99, o fotógrafo francês Willy Ronis, conhecido acima de tudo pelas imagens da vida parisiense, e de algumas cidades da Provença, nos anos do pós-guerra. Durante algum tempo, em sites e blogues, fui-me apropriando de algumas delas para iluminar artigos e apontamentos. Se pudesse tinha-lhe agradecido.

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Que mil Cíceros floresçam

Cícero

Durante a entrevista concedida ao semanário Expresso deste sábado, Judite de Sousa considera que «se recuássemos dois ou três mil anos Francisco Louçã era o Cícero da Grécia Antiga». Sim, falamos de Marcus Tullius Cicero, o versátil romano que foi um grande orador, filósofo, escritor, jurisconsulto e político lá pelo século I a.C. Segundo Judite, Marco Túlio terá também viajado no tempo (aliás, não é preciso ser-se grande erudito para saber que mil anos de décalage para ele eram ginjas). Diz ainda que Obama é «o Cícero contemporâneo». É cada vez mais perturbante a forma como certos pivôs e jornalistas considerados de topo – que deveriam, ao menos estes, possuir uma formação sólida e não se verem como vedetas a quem é permitido dizer qualquer coisinha – ostentam ignorância e proclamam banalidades em estado gasoso como se fossem  pensamentos lapidares. Já quase me esquecia: Judite declara na mesma entrevista ser levada a crer que «José Sócrates emprenha pelos ouvidos». O que não fará dele propriamente um grande Cícero. Nem dela uma especialista em freaks.

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Bandeira vermelha com banda sonora

Bandeira Vermelha

O Bloco fica-se e o PCP avança em «Um neo-reformismo de fachada socialista». Teoria de altíssima densidade, mes amis. Estão a ver as coisas agora um pouco melhor? Só falta falar – mas está quase tudo lá – da «cobardia que se encobre na bravata verbal», da embriaguez da «própria concepção do poder do verbo»,  de «sentimentos e ambições de classe», de «aliança objectiva com o capital», de «desligação das massas populares» ou de «perda de contacto com a classe operária». Apenas algumas das centenas de expressões de idêntico teor utilizadas por Álvaro Cunhal no recuado Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, um livro de 1971, para tratar dos «esquerdalhos e outros bandalhos». Como se escreve no prefácio à 3ª edição, publicada já depois do 25 de Abril, «a luta ideológica e política contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista não terminou com o derrubamento da ditadura (…), conserva plena actualidade». E dura, e dura, e dura.

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Falar barato

Falar barato

Recordava-me há dias um amigo que em período eleitoral sobrevém «uma suspensão da normalidade em todos os planos, o discursivo incluído». Concordo com ele, penso que todos concordaremos, e, quanto mais não bastasse, para lhe dar razão bastaria ver como aqui, na blogosfera – onde, se não estou equivocado, não circulam dominantemente magarefes e lutadores de wrestling –, pessoas habitualmente reputadas como estimáveis, ponderadas e inteligentes se travestem episodicamente em desbocadas, deixando entre parêntesis a politesse (a palavra «delicadeza» corre hoje certos riscos), e comportando-se como elementos radicais das claques de futebol. Muitos retomam, aliás, os velhos princípios da política provinciana, na qual, como se sabe, qualquer argumento político racional é ultrapassado por afirmações gratuitas e um «diz-se que diz-se» bastante dependente das intricadas teias locais do favor, da família e da amizade. Nessa tendência para a interrupção da normalidade integra-se o recurso à «pequena política», ao truque barato, ao «pé para o chinelo», ao uso da primeira arma de arremesso que apareça para achincalhar o adversário e reduzir a discussão ao menor denominador comum.

Isto vem tudo a propósito de uma espécie de notícia publicada pelo Correio da Manhã, na qual se utilizam fragmentos de uma conversa informal, off the record, ocorrida nos estúdios da RTP antes do debate da passada terça-feira entre Francisco Louçã e José Sócrates. Aí se dá destaque, como se de um escândalo se tratasse, a umas quantas graças banais ditas principalmente pelo secretário-geral do PS. Além da sua utilização jornalística ser muito condenável no plano ético, aquele tipo de piada é coisa que qualquer de nós poderia dizer, e não vejo que um político responsável, pelo facto de o ser, tenha necessariamente de controlar as emoções e as palavras 24 em cada 24 horas. Aliás, devemos desconfiar, e muito, de alguém que não saiba rir, não diga tolices e em público apenas fale a sério. Pela mesmíssima razão, fui, aliás, um dos que condenaram a manipulação do normalíssimo «porreiro, pá» (prefeririam os utilizadores um «cumprimento vossa excelência»?), ou a utilização de pequenas frases casuais retiradas do Twitter pessoal de políticos e jornalistas para os diminuir, como já ocorreu. A educação democrática, julgo sinceramente, passa também por aqui. Deve ser uma prática permanente, não um acto de circunstância. E a lógica do «vale sempre tudo» apenas contribui para reduzir a dimensão humana da actividade política e alimentar uma noção de debate público como se de um jogo de pingue-pongue contra uma parede de cimento se tratasse. São preferíveis políticos de rosto humano, falíveis, por vezes vaidosos, a autómatos previsíveis e aparentemente clarividentes. E isto nada tem a ver com a minha hipotética simpatia, ou a falta dela (muito mais provável, já agora), por José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carmelinda Pereira ou aquele senhor de bigode que é o Presidente da Junta.

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Margem de outra maneira

Edifício Foice e Martelo
Edifício Foice e Martelo, de Yakov Chernikhov (1933)

O Zé Neves publicou no 5 Dias um excelente post onde contesta algumas reacções ao clima cinzento e aprazível no qual decorreu o «frente-a-frente» televisivo – as aspas são minhas – entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Focaliza a sua crítica nas posições, diferentes entre si mas coincidentes no teor negativo da apreciação, enunciadas por Miguel Vale de Almeida, por Daniel Oliveira e por mim, entendendo que, ao partilharem um «sentimento anti-PCP», todas elas tendem a limitar bastante as vias do possível para arquitectar o futuro da esquerda em Portugal.

As posições de MVA e de DO parecem ter, nos comentários do ZN, uma natureza mais táctica e causal, e provavelmente terão, uma vez que resultam de preocupações mais imediatas, mas a crítica que me é feita levanta problemas a propósito dos caminhos da esquerda num presente projectado para além do momento eleitoral. Nesta direcção, ZN salienta que a defesa que faço da necessidade de um esclarecimento das divergências e das diferenças entre o Bloco de Esquerda e os comunistas expõe uma «pulsão anti-PCP» que pode indiciar também «uma pulsão anticomunista tout court». Apesar de comigo concordar sobre a necessidade «em romper radicalmente com o legado do marxismo-leninismo». Debater de uma forma aprofundada a justeza ou os sentidos que esta apreciação incorpora é tarefa impossível de concretizar nos cinco parágrafos deste post, e evoca problemas mais densos que tenho tocado aqui e ali, aos quais procurarei regressar noutra altura, mas não quero deixar de dizer alguma coisa sobre a forma como o ZN leu as minhas palavras.

Talvez valha a pena sublinhar entretanto que o facto de votar BE, e de apelar a que outros o façam, não implica vínculo algum que me leve a ocultar objecções a algumas das suas escolhas. Como não significa que as minhas posições sejam admissíveis no interior do próprio Bloco. Longe disso, eu sei. Não sou militante bloquista, mas um cidadão de esquerda sem partido, e não concebo uma independência militante de outra forma que não seja como uma posição, um posto de franco-atirador, que liberta quem os assume para uma capacidade crítica mais improvável em quem, participando de uma organização partidária, se vê geralmente forçado a conformar as suas posições públicas com as da sua facção. Por isso os meus pontos de vista não visam defender qualquer estratégia eleitoral opcional para o Bloco – para isso, como partido democrático, tem o BE os órgãos e as pessoas competentes –, mas procuram apenas, mais prosaicamente, lançar pistas para uma reapreciação do futuro da esquerda. De uma esquerda que está aquém e além de atitudes, estritamente conjunturais, vinculadas ao episódio eleitoral.

Tendo uma visão humanista, solidária e poética do comunismo, integradora de uma carga utópica vital sem dúvida démodée e assumidamente a-científica, sei que ela não se compadece com a perspectiva realista e instrumental que algum marxismo, e sobretudo o leninismo, impuseram e aplicam com base no modelo que em determinado momento do século passado se presumiu triunfante. Sou por isso, sem dúvida, opositor ao tipo de comunismo que o PCP, e também uma boa parte da fragmentada esquerda radical supervivente, persistem em incorporar, na sua matriz política, cultural e até vivencial, como caminhos pelos quais ainda passará o futuro da esquerda da qual se consideram a parte perfeita. Nessa matriz programática resiste o anacrónico desejo de um controlo integral da sociedade, de uma manipulação redentora do indivíduo como subordinado à ditadura do colectivo, de clarificação centralista do que é ou não socialmente aceitável, da metamorfose da divergência em dissídio pela via do rancor (o desusado «ódio de classe»), de simplificação de um universo cada vez mais complexo, que não é meramente retórica. E não estou com problemas de visão. Ao mesmo tempo – não me parece que esse aspecto seja de importância menor – existe uma cumplicidade em relação aos caminhos mais tortuosos e dramáticos da história da experiência do «socialismo de Estado» que não me parece aceitável, é injusta para a memória daqueles que destruiu (não falamos de mil, ou dez mil, e ainda que falássemos de dez…), e questiona de raiz o próprio conceito de democracia. Por isso jamais aceitaria – como o fariam muitos portugueses que votam e votarão BE – pactuar ao nível da governação do meu país com uma força política que ainda desculpabiliza, quando não elogia, as atrocidades sem fim do Gulag, que cala os atropelos brutais à democracia e aos direitos humanos na China, que justifica a repressão na mitificada Cuba, que tem da justiça, da liberdade, da ética, da guerra e da própria democracia uma noção instrumental que é maleável na exclusiva medida em que essa maleabilidade convenha tacticamente aos seus objectivos operacionais subordinados ainda a uma espécie de irredentismo histórico.

Isto não implica, porém, a recusa de colaboração com os comunistas do PCP no plano do combate diário por causas próximas. Ela é comprovadamente e recomprovadamente difícil, mas não impossível. Não impõe também, de modo algum, a negação da grande tradição solidária e memorável que a história do movimento comunista português e internacional nos tem doado. Mas essa inesquecível grandeza não é tão forte que nos leve a fechar os olhos e a admitir, agora e aqui, uma solução governativa feita daquela espúria miscelânea. Por isso me parece que o Bloco, que incorpora, mesmo ao nível da simpatia traduzida em votos, um grande número de apoiantes de uma esquerda socialista democrática – não diria o mesmo de todos os militantes e activistas bloquistas, mas essa será outra questão –, deve reconhecer e aceitar publicamente a sua diferença. Não sendo prioritário fazê-lo a todo o momento, num debate com Jerónimo de Sousa este aspecto não deveria ter sido completamente esquecido (embora se entenda perfeitamente a opção deste em não ir por aí). Pois não o fazer corresponde, como defendi, a menorizar um pouco os muitos eleitores que votam BE pois não querem votar PCP, e também aqueles, sem partido, que ainda hesitam sobre em quem votar à esquerda. E nenhum de nós admite que eles o façam pelos lindos olhos de alguém, pela cor da gravata ou pela ausência dela, ou como se jogassem no Euromilhões.

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Estrada fora, sem papéis

Driving

Cristina A., 48, com cadastro, tem todas as condições para colher a simpatia de muitas pessoas. Foi julgada e condenada em Coimbra por ter sido apanhada ao volante sem carta de condução, o que declarou fazer «há 20 e tal anos» sem sequer ter passado num exame de Código da Estrada («o que me faz confusão são as perguntas ranhosas», lamentou-se ela aos jornalistas). Admitindo que já foi apanhada oito vezes em situação idêntica, disse que apreendeu a conduzir no mato, «mas graças a Deus nunca tive um acidente». Isto apesar de já ter «batido os 200 quilómetros à hora». A sua maior ambição – como a de tantos de nós, aliás – é conduzir um camião. Quem não invejará um pouco, se não a vida, o descaramento de Cristina por acelerar assim, estrada fora, sem papéis?

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Jaume los tiene

Tricolor

Jaume d’Urgell identifica-se no Twitter como «um madrileno nascido em Barcelona, preocupado com o bem comum, a cultura, os Direitos Humanos, a razão crítica e a comunicação». É militante republicano, e foi nessa qualidade que em 14 de Maio de 2006 escalou a fachada de um edifício oficial situado na Gran Vía de Madrid substituindo a bandeira nacional espanhola, de matriz monárquica e ainda conotada com o franquismo, pela tricolor. Jaume não escondeu a cara e deixou-se identificar, tal como assumiu a responsabilidade do seu acto e não aceitou pagar a multa de 4.000 euros decidida por um tribunal, optando por cumprir três meses e meio de prisão efectiva. Agir de outra forma «seria dar-lhes razão», declarou. Mantém em seu nome uma página pessoal e um blogue – La bitácora de Jaume – dedicado à causa republicana. Um bom exemplo de coerência e bravura que nada tem a ver com as brincadeiras azuladas a que temos assistido por aqui. Toda a história no Público espanhol.

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Eu, nós todos, e os Beatles

The Beatles

Sempre que falo sobre a afirmação triunfante da música e da cultura pop nos inícios da década de 1960 para um público jovem, deparo com uma boa dose de compreensão, ou mesmo de simpatia, se evocar Elvis Presley ou Jim Morrison. Mas a referência aos Beatles é invariavelmente acompanhada de sorrisos trocistas, denunciadores de uma certa dificuldade em compreender, ou em aceitar, o papel dos fab four em todo aquele movimento. «Quem? Aqueles tipos de franja ridícula que cantavam umas coisas mais ou menos melosas, mais ou menos kitsch, para damas meio passadas?» No momento em que o lançamento mundial de uma edição totalmente remasterizada da sua discografia completa faz regressar às primeiras páginas os rostos e a memória dos quatro de Liverpool, apetece-me porém voltar ao tema.

Tanto quanto sou capaz de recuar até à pré-adolescência, confino a minha percepção inicial do papel dos Beatles neste mundo a três momentos. Num primeiro, o mais antigo, recordo a descoberta em casa de uns primos de um single em vinil que destacava Love Me Do e ouvi obsessivamente, com grande demonstração de paciência da parte dos meus tios, ao longo de semanas. O segundo momento foi marcado pelo meu encontro de rapaz de província com o número especial da revista francesa Salut les copains, dedicado ao grupo inglês em plena beatlemania e repleto de imagens daquela que então me parecia ser a mais excitante forma de vida possível à face da Terra. A terceira evocação leva-me ao reencontro do meu primeiro pecado mortal, consumado quando invejei profundamente L., um tipo um pouco mais velho que eu, proprietário de um daqueles casacos de gola «à Beatle» – isto é, sem gola –, que calçava umas botas pontiagudas de elástico lateral e fazia uma imitação, a meu ver perfeita e com grande êxito entre o público feminino, de Twist and Shout.

Nessa altura, a minha percepção daquela música e daquelas imagens era totalmente acrítica e marcada pela absoluta admiração. Por uma sedução, percebi-o depois, suscitada pela desafectação melódica daquelas canções, pela simplicidade dos textos estritamente vivenciais, pelo ritmo vibrante, então único. Marcada também, como estava a acontecer com milhões de jovens em todo o mundo, pela atracção por uma atitude cénica desafiadora e sem termo de comparação, pela ostentação da alegria e da brincadeira face a uma cultura dominante «adulta» que as procurava espartilhar dentro de limites «aceitáveis». Só depois, muito depois, encontrei nas canções dos Beatles – aquelas que já não oiço mais ainda prefiro, as dos primeiros álbuns, de Please Please Me, saído em 1963, até Revolver, lançado em 1966 – alguma coisa mais: o seu papel de território pioneiro sobre o qual outros puderam depois projectar sob os holofotes uma percepção poética e hedonista do mundo, uma naturalização do amor e do sexo descomprometido, uma atitude independente e de certa maneira rebelde. Característica dessa cultura juvenil, então em formação, que inflectiu a experiência do quotidiano dos filhos do Pós-Guerra, para lançar os fundamentos de um mundo que definiu a nossa contemporaneidade.

Mas claro que, para um número crescente de pessoas, a compreensão deste papel pela via única da inteligência ou dos manuais de história, mesmo a projectada pelos média ou reproduzida – tal como vai acontecer a partir desta semana – num jogo de computador, será sempre insuficiente. Por muitas reedições que se façam da discografia parcial ou completa dos Beatles, John, Paul, George e Ringo morrerão um dia, definitivamente, com o eclipse final dos últimos daqueles que um dia de alguma forma ajudaram a libertar. Não vislumbro os nossos descendentes do século 22 a trautearem No Reply ou Ticket to Ride. Entretanto, podemos divertir-nos ainda um pouco [aqui já com as novas versões remasterizadas... - percebe-se melhor a diferença, atenção, com headphones]:


No Reply – Beatles for Sale (1964)


Ticket to Ride – Help! (1965)

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RTP-Memória

Admito que hoje, ao seguir na televisão a conversa entre Jerónimo de Sousa e José Sócrates, senti pena do primeiro. Muito cansado, sem chama, quase deferente, mastigando as palavras, incapaz sequer de repetir o discurso oficial, monocórdico mas combativo, do seu próprio partido. E lembrei-me muito da voz e da presença de Álvaro Cunhal. Sócrates tratou «o Jerónimo» como se este fosse um delegado sindical de um lar para a terceira idade a quem se deva sempre uma certa dose de condescendência. Cunhal jamais admitiria que alguém o tratasse daquela forma e a ninguém passaria pela cabeça fazê-lo. Foi mau para todos e triste de ver.

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Os nós de Nolte

Israel, Palestina

De quando em vez, sem o desejarmos, somos injustos até para pessoas que não conhecemos. Uma das injustiças que tenho feito a algumas consiste em considerá-las mortas quando afinal se conservam entre nós e no uso das suas faculdades. Ainda há pouco, numa conversa, «matei» Claude Lévi-Strauss, afinal vivo e activo com 101 anos. Passou-se agora a mesma coisa com Ernst Nolte, o controverso historiador alemão conhecido, principalmente nos anos oitenta, pela polémica interpretação do nazismo como uma reacção inevitável, e de certa forma compreensível, aceitável até, à ascensão do comunismo. Sugeria mesmo o «assassinato por razões de raça», perpetrado por Hitler, como uma resposta ao «assassinato por razões de classe» projectado universalmente pelos bolcheviques. A altercação pública a propósito do tema que manteve então com François Furet apenas fez com que essa explicação ganhasse uma maior visibilidade.

Pois Nolte – que eu já «enterrara» e afinal não passou ainda dos 86 – volta agora à arena, em Die Dritte Radikale Widerstandsbewegung: Der Islamismus, já de 2009, com uma teoria nova e não menos controversa. Procura desta vez explicar a irrupção do islamismo radical como algo de «justificável», de «compreensível», surgido como expressão da resistência à presença e à envergadura do Estado de Israel. Num raciocínio marcado por um antisemitismo redivivo à medida do nosso tempo, chega ao ponto de considerar como «percursor corajoso do combate palestiniano» a Mohammed Amin a-Husseini, o mufti de Jerusalém que em 1942, aos gritos de «Matem-nos a todos!», apelou em Berlim a uma jihad contra os judeus, apoiando a «solução final» proposta pelos nazis e colaborando mesmo na organização de uma divisão das Waffen-SS composta por muçulmanos bósnios. O islamismo será então, para Nolte, uma «ideologia muçulmana defensiva» face a um Israel colonial e imperialista. Interessante, como resultado do seu raciocínio tortuoso, é a aproximação do nazismo ao islamismo como movimentos político-culturais legítimos irmanados pela sua oposição a um «mal maior». Veremos agora que eco terá esta leitura entre aqueles que condenam Israel sem olharem à complexidade dos trajectos históricos e à realidade objectiva que moldaram e moldam a sua existência. Que eco terá dentro do universo islâmico também. Ahmadinejad aplaudirá com toda a certeza.

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Le pigeon indiscret

Le Pigeon Indiscret
Robert Doisneau, 1964

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A leitura e o mal

Hitler

A ideia segundo a qual ler faz as pessoas melhores, vulgarizada pelos iluministas e pelos românticos, e comum a muitas campanhas de divulgação da leitura e a «máximas» proclamadas por boas almas, acaba de sofrer mais um abalo. O historiador alemão Ulrich Sieg publicou há pouco tempo um artigo no Frankfurter Allgemeine no qual revelou que Adolf Hitler não só possuía uma enorme biblioteca pessoal – cerca de 16.000 títulos – como terá de facto lido uma grande parte deles, uma vez que dos 1.200 conservados quase todos foram cuidadosamente sublinhados e anotados. De fio a pavio. Como seria de esperar, os livros sobre a Primeira Guerra Mundial, estratégia militar, magia e esoterismo preenchiam uma boa parte daquele número, mas havia também muitas obras de filosofia (sobretudo de e sobre Kant, Schopenhauer e Nietzsche) e ficção. De facto, ler muito não faz necessariamente bem às pessoas. Pode até ser tóxico e exemplos históricos como este não faltam. O elogio e a propaganda da leitura devem procurar estratégias melhores do que aquelas que insistem em mostrá-la como território nuclear da formação da bondade de carácter. Declarando, por exemplo, a crítica e o debate como instrumentos inseparáveis do acto de ler.

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O original e o genérico

Bucha e Estica

O tom cordato do qual se serviram Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa no aborrecido pseudo-debate televisivo desta noite pode funcionar objectivamente como um embuste lançado sobre um sector do eleitorado, situado à esquerda e em clara ruptura com o PS, que de forma genuína hesita sobre em quem votar. Jerónimo surpreendeu um pouco mais, dadas as arremetidas anti-bloquistas antes adoptadas pelo PCP, uma vez que Louçã apenas manteve o habitual registo, sistematicamente assumido pelo Bloco, de contornar jovialmente este tipo de confronto. Ambos deram tacitamente a entender que as divergências serão pouco relevantes. Mas não são: os dois partidos têm agendas muito diferentes, uma cultura política hoje bem distinta, divergem bastante em áreas como as finanças ou as questões internacionais, e projectam expectativas separadas no que diz respeito a uma eventual participação em soluções de governo. Os cidadãos que desejarem conhecer quais as discordâncias têm por isso todo o direito a ser esclarecidos. Até para que Bloco e PCP não abonem as razões de quem anda por aí a sugerir que o medicamento é o mesmo e só as embalagens dão uma ideia do contrário.

[Uma descrição mais detalhada da pacífica conversa é feita neste post de Pedro Correia.]

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Delação e colaboracionismo

Stasiland
Estátua erguida junto dos antigos arquivos da STASI, em Berlim

Há já umas algumas décadas que a revista L’Histoire vem dedicando artigos e números especiais à divulgação de estudos sobre o colaboracionismo, acabando de ser publicado um novo dossiê no número de Setembro. O interesse dos franceses pelo tema prende-se directamente com o rasto ainda razoavelmente fresco deixado pelas actividades de República de Vichy (1940-1944), pela capitulação de alguns sectores da sociedade francesa perante a ocupação nazi, e pela existência de um corpo notável de denunciantes e de colaboradores. O trabalho de pesquisa histórica projectado neste campo é particularmente difícil e delicado, uma vez que a afirmação da «verdade dos vencedores» transformou em perversas e criminosas as pessoas responsabilizadas por esse tipo de atitude, e tantos as sobreviventes quanto os seus familiares mostram natural relutância sempre que alguém pretende tocar no assunto. A denúncia como instrumento de política constitui uma prática antiga e universal que nem sequer é privilégio dos Estados totalitários. Na Atenas clássica, a delação era mesmo considerada um acto cívico, destinado a proteger a comunidade de determinados comportamentos desviantes, tendo provavelmente sido aí que se iniciou também a sua perversão em larga escala, uma vez que o denunciante tinha direito a parte dos bens confiscados ao denunciado.

Foi todavia sob regimes fortemente autoritários que a atitude passou a ser sistematicamente enaltecida, sendo os traidores e os delatores promovidos frequentes vezes a heróis, destinatários de honras, medalhas e benefícios oferecidos por um poder que se pretendia incontestado. As benesses destinadas, no tempo da Inquisição portuguesa, aos «familiares do Santo Ofício», que funcionavam basicamente como testemunhantes e informadores, eram dessa natureza. A guilhotina revolucionária do período do Terror foi largamente provida por esta sorte de gente. E na União Soviética ficou sobejamente conhecido o caso do «glorioso mártir» Pavel «Pavlik» Morozov, o rapaz «pioneiro» que aos doze anos denunciou ao NKVD o pai por este vender alimentos sem autorização. O desfecho seria trágico: o pai de Morozov foi deportado para um campo de concentração e os avós, tios e primos, para evitarem a continuação da delação, acabaram por matar a criança, transformada por Estaline num «herói soviético» modelar. Na Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou também amplamente registado o papel de muitos cidadãos polacos na identificação e denúncia dos judeus, responsabilizando-se esta atitude por ser aquele o único Estado europeu no qual o «problema judaico» terá sido efectivamente solucionado. A STASI leste-alemã tinha, por sua vez, um dos mais amplos e perfeitos corpos de denunciantes, tal como se encontra hoje bem documentado.

Em Portugal – os vizinhos espanhóis, ao invés, já começaram há algum tempo este tipo de trabalho – não existe ainda um esforço sistemático e criterioso de reconhecimento das actividades de denúncia e de traição perpetradas por aqueles que, da aldeia do interior à grande cidade, em espaços públicos e privados, graciosamente ou a contar com benefícios, trataram de delatar os opositores que conheciam ou os meros gestos de desagrado ou de chacota em relação ao regime do Estado Novo aos quais assistiam. Não me refiro aos agentes da PIDE identificados, mas antes àquelas pessoas que ofereciam espontaneamente informações às autoridades, ou então que se transferiam de campo, colaborando formal ou informalmente com a repressão salazarista e actuando como traidores das causas e dos movimentos de oposição com os quais ocasionalmente se haviam cruzado. Um trabalho por fazer, à espera de quem por ele se possa interessar. Um trabalho difícil, sem dúvida, mas a História faz-se também revirando soalhos e revelando episódios infamantes. Para que possa servir de exemplo e de alimento da democracia.

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O cinzeiro deles

Angelus Novus

Posso tornar-me suspeito de estar a fazer publicidade à editora que tem publicado alguns dos meus livros. E provavelmente estarei – embora não inteiramente, pois não a nomeio no texto do post nem colo aqui o link –, mas este cartaz justifica o regime de excepção.

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Os sapatos e a queda

Tisza Cipo

Uma das causas do descontentamento popular que fez ruir as experiências europeias do «socialismo real» teve provavelmente a ver com os ditames da indústria nacionalizada do calçado e com os escassos modelos impostos aos cidadãos. Afinal quem não desejaria alterar o estado das coisas?

Na imagem, uns sapatos Tisza Cipő fabricados em Martfű, na Hungria. Uma marca extremamente popular até aos anos oitenta, pois era a única disponível no mercado.

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Na primeira pessoa

Vasco Lourenço

A história do 25 de Abril far-se-á sempre recorrendo aos depoimentos daqueles que participaram na sua preparação e que tiveram depois um papel interveniente nas sucessivas peripécias do «biénio revolucionário». Como todo o acontecimento da história recente, que conclama uma memória quente e os sentimentos ainda muito fortes de quem nela participou, os testemunhos dos seus artífices são sempre únicos e frequentes vezes polémicos. É o que acontece também com a longa entrevista de Maria Manuela Cruzeiro – efectuada entre 1992 e 1995 mas só agora publicada – ao coronel Vasco Lourenço, uma das mais relevantes e decisivas figuras do Movimento das Forças Armadas e do «Grupo dos Nove».

Aquilo que este conta é irrepetível, proposto a partir de uma perspectiva intensamente pessoal, inevitavelmente vinculada ao papel central e decisório que desempenhou em numerosos momentos que antecederam e seguiram a «revolução dos cravos». Mas é também polémico, pois contraria frequentes vezes, com grande frontalidade e uma aparente jactância, tanto o testemunho de outros actores do movimento, quase sempre bem identificados, quanto determinadas «versões oficiais» cuja veracidade por vezes contesta ou procura corrigir. Os historiadores do período deverão cruzar as diferentes leituras com as suas circunstâncias, mas esta entrevista de Vasco Lourenço será, sem dúvida, uma das referências a colocar na linha da frente do seu trabalho. [Vasco Lourenço - Do interior da Revolução. Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro. Âncora Editora, 576 págs.]

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Acto de contrição

Delicado

De acordo com as palavras do engenheiro Sócrates em variante soft da entrevista de hoje à RTP, «talvez não tivesse havido da nossa parte a suficiente delicadeza na nossa relação com os professores». Demonstrar arrependimento, convenhamos, é sempre uma atitude meritória. Principalmente em campanha. E fazer o pino também. Ficamos à espera.

P.S. – Já depois deste post escrito, a ministra da Educação não fez o pino, mas rastejou, admitindo agora, já com o Juízo Final em andamento, «que existiram problemas de comunicação entre Governo e professores nos últimos quatro anos». É por estas e por outras idênticas que tantas pessoas honestas cospem para o chão e se benzem quando tal espécie de gente lhes passa por perto.

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República em linha

República

Foi no República, no distante ano de setenta e um (seguindo o calendário gregoriano, naturalmente), que pela primeira vez publiquei alguma coisa fora do circuito escolar juvenil ou do alcance de tiro da imprensa regional. Gostei pois de saber que a Hemeroteca Municipal de Lisboa começou a disponibilizar em linha a colecção de exemplares que possui do histórico diário republicano. Já acessível o ano de 1956.

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A pausa d’Os Livros Ardem Mal

VOLTO JÁ!

Durante três anos, um grupo de professores da Universidade de Coimbra, entre os quais me incluo, e algumas estudantes de pós-graduação, mantiveram no Teatro Académico de Gil Vicente a série Os Livros Ardem Mal, um mensário falado sobre livros e leituras, sempre com a participação de convidados. Por dificuldades de índole vária – a mais poderosa delas tem a ver com a indisponibilidade momentânea de alguns dos participantes – a iniciativa é agora suspensa por um ano. No entanto, o blogue que lhe está associado permanecerá activo.

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Há precisamente setenta anos

Polónia 1939
Soldados alemães guardam um grupo de judeus em Sanok, Polónia (Setembro de 1939)

«Quem foi a primeira vítima de uma guerra que viria a fazer mais de quarenta milhões delas? Um prisioneiro desconhecido de um dos campos de concetração de Adolf Hitler, com toda a probabilidade um criminoso de direito comum. Numa tentativa para apresentar a Alemanha como vítima inocente de uma agressão polaca, vestiram-lhe um uniforme polaco, levaram-no para a cidade fronteiriça alemã de Gleiwitz, e a Gestapo abateu-o na noite de 31 de Agosto de 1939, na estranha encenação de um «assalto polaco» à estação de rádio local. Na manhã seguinte, quando as tropas alemãs começaram a entrar na Polónia, Hitler apresentou, como um dos motivos que justificavam a invasão, “o ataque ao retransmissor de Gleiwitz por tropas regulares polacas”.»

(in Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, editado pela Dom Quixote)

O resto da história é conhecida. Ou melhor, vai sendo conhecida.

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Jean Ferrat – Nuit et Brouillard
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O fatela de Tripoli

al-Khaddafi

Grande festa em Tripoli neste 1º de Setembro para comemorar 40 anos de Muammar Abu Minyar al-Khaddafi à frente da Jamahiriya Líbia. O destacado predador da liberdade de imprensa, déspota responsável por atentados sistemáticos contra os direitos humanos, ex-terrorista e antigo paladino do extinto «socialismo árabe», mas com dinheiro suficiente para comprar cumplicidades por todo o planeta, não consegue, no entanto, fugir à suprema ignomínia: o ter sido designado pela revista Time como um dos líderes mundiais mais mal vestidos da actualidade (embora, reconheça-se, a seguir a Kim Jong-Il e a Vladimir Putin).

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