Insistindo...
Os amigos dos amigos de quem nós sabemos exaltaram-se muito com as “fugas de informação” do processo “Face Oculta”. E, uma vez mais, tentaram ver nisso, nas fugas, uma tentativa de destabilização do Governo, uma continuação desleal das eleição por outra via. Um ministro, num momento de perda de consciência e desapego á semântica ousou mesmo falar em “espionagem politica”.
Nos sítios do costume mais uma vez se apontaram os autores de tão nefando crime: os encarregados do processo: juízes, procuradores e, obviamente, um dirigente politico da oposição.
Veio agora a saber-se a origem da fuga de informação: um dos réus entendeu, provavelmente para se castigar antecipadamente, fornecer às televisões toda a informação confidencial que lhe era prestada. Um dos réus, notem bem.
Neste momento, a leitora desconfiada perguntará se isso o não prejudica. À primeira vista, sim! Com mais cuidado, talvez não. Expliquemo-nos: a primeira coisa que há a fazer para deitar abaixo um processo, para o “descredibilizar”, é justamente esta. Publicitá-lo, divulgar o que está em “segredo de justiça” para mais tarde arguir de todas as nulidades possíveis, da perseguição infame dos agentes da autoridade e dos magistrados, irmanados todos no ódio aos inocentes arguidos e ás instituições onde se movem e ao partido que os acolheu, protegeu, nomeou.
E o público deita as mãos inocentes á cabeça e brama contra o estado a que tudo isto chegou. E o arguido, eventualmente culpado, começa a ser aureolado pela coroa de espinhos da perseguição, o que é meio caminho andado para a inocentação dele em praça pública, primeiro, e nos tribunais, depois.
2 O pedido de demissão do senhor procurador Lopes da Mota já está a ser classificado como um gesto de grande nobreza. Arre! E, ainda há pouco, num curto zapping, ouvi/vi uma criatura referir-se à sua escassa punição não como algo de natural mas antes como uma cedência do órgão que o puniu ao prévio julgamento em “praça pública”. Convenhamos que isto ultrapassa as raias da ousadia, do descaramento e da mistificação. Decididamente, esta gente nunca foi ao estrangeiro, não lê a imprensa internacional, não vê a televisão de outros países e tem uma cultura politica inferior à do morgado de Fafe em princípios de carreira.
Ou melhor, esta gente, tão opinante, tem da opinião pública a pior das imagens. Aliás, não gosta dela, não a quer, prefere mesmo que ela não exista ou, existindo, que não se manifeste. Esta gente gostaria de viver no anos quarenta/cinquenta do século passado, com tudo o que isso implica, moral ideológica e politicamente, de servilismo, de autoritarismo, de fascismo (não tenhamos medo da palavra).
3 e, já que falamos de opinion makers, que dizer da ojeriza que o senhor dr. Miguel de Sousa Tavares, com banca montada em jornais e televisões, manifesta pelos blogs. MST voit rouge quando fala da internet. Os blogs são, para ele, um vómito, uma fossa, um pântano de irresponsabilidade e eventualmente um poço de obscenidade. Tudo isto por que alguém, alguma vez e anonimamente, entendeu inventar umas atoardas sobre ele. Num blog. Anónimo.
MST, que sabe tudo, não sabe que neste universo bloguístico há de tudo. Bom, mau, péssimo e assim-assim. Que há blogs anónimos mas que há – e são a esmagadora maioria actualmente – blogs, como este, com os nomes e as identificações dos seus contributors. Aqui estamos identificados e até já se deu o caso de, em textos mais importantes, o autor de um post se identificar em pé de página. Eu, para não ir mais longe, já o fiz meia dúzia de vezes, mesmo tendo a pretensão de saber que o meu nome é conhecido da maioria dos meus escassos leitores. E tanto assim é, que são muitos os comentários em que o leitor me trata pelo nome próprio, como já poderão ter reparado.
MST, que não percebe nada disto, nem provavelmente quer ter esse trabalho, parece esquecer que também os jornais, também a televisão, são alvo de ataques tão mesquinhos e tão extravagantes quanto o que ele faz aos blogs. Eu arreceio-me mesmo que por trás da sua condenação sem apelo nem agravo (mesmo se ilustrada com umas canalhadas alegadamente perpetradas contra ele) haja um implícito convite a medidas censórias. MST não estará só nessa cruzada. O governo de Cuba, o da China e mais uns quantos já passaram da ameaça aos factos. Já controlam o ciber-espaço deles. Já perseguem os bloggers que lá tentam dizer o que lhes vai na alma e o que vêm todos os dias.
Esquece-se porém de uma coisa: quando os blogs caírem, como parece desejar, haverá alguém que se lembrará que ainda existem por aí jornais, rádio e televisão. E que também esses meios podem ser silenciados. De um modo ou doutro, como ainda há bem pouco pudemos ver.
Quando a pesada mão que ele pede para os blogs cair na sua mãozinha escrevente não convém lembrar-se do que escreveu.