O azar de Vasco Pulido Valente
Vasco Pulido Valente, é sabido, tem há muito tempo um problema com Portugal e com todos os portugueses que não se chamem Vasco Pulido Valente. À excepção dele próprio, tudo neste país é mau ou péssimo, trágico ou apocalíptico, um desastre que ele nos anuncia três vezes por semana, em crónicas infalivelmente pessimistas e biliares. Acontece que a realidade às vezes troca as voltas ao informadíssimo Vasco Pulido Valente, provando que ele talvez não seja tão informado quanto julga.
Vejamos a prosa que assina hoje na última página do Público. A ideia da crónica é enumerar aqueles que foram os seus «livros do ano» em 2009. Até aqui nada de mal. Qualquer leitor gosta de descobrir que livros mereceram fazer companhia aos romances de Clara Pinto Correia na mesa de cabeceira de VPV. E foram três: Wolf Hall, de Hilary Mantel, Prémio Booker (primeira escolha); A History of Christianity: The First Three Thousand Years, de Darmaid MacCulloch; e Alone in Berlin, de Hans Fallada.
O parágrafo final é Vasco Pulido Valente em estado puro: «Claro que Portugal não se interessará por Fallada, MacCulloch ou Mantel. A nossa crise não é só política, económica e financeira.» O destaque, que ignoro se é da sua responsabilidade ou do Público, vai ainda mais longe: «Claro que Portugal não se interessará pelos livros que recomendo aqui. Pior para ele».
Acontece que nem só Vasco Pulido Valente lê livros estrangeiros neste nosso rectângulo. Alguns editores também o fazem. Quanto a Fallada e MacCulloch, não sei se alguém está a pensar publicá-los por cá. Mas o livro de Mantel vai ser editado na próxima Primavera (Março ou Abril) pela Civilização, como noticiei no Expresso em Outubro, na semana em que Wolf Hall ganhou o Booker. E nem se trata de uma publicação a reboque do prémio. Como Simona Catabiani, directora editorial da Civilização, explicava nesse artigo, os direitos do livro foram comprados ainda antes do anúncio da longlist.
Uma questão de bom senso
Introduzir à pressa o acordo ortográfico nos programas escolares seria um daqueles erros estúpidos e precipitações graves em que os governos da República costumam incorrer, seja por ambição excessiva, seja por falta de planeamento estratégico, seja por incompetência. Ao desmentir a Ministra da Cultura, a Ministra da Educação fez o que tinha a fazer. E fez muito bem.
Lançamento de ‘Cerco Voluntário’, de Vasco Gato
As “Quintas de Leitura” acolhem esta noite, a partir das 22h00, no Café-Teatro do Teatro Carlos Alberto, o poeta Vasco Gato, que lançará o livro Cerco Voluntário, 13.º título da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. Catarina Nunes de Almeida falará sobre a obra e lerá, com o actor Pedro Lamares e o autor, alguns poemas. Haverá ainda performance (Rouge, de Sónia Baptista) e música, primeiro com Marta Bernardes, Henrique Fernandes e as Balla Prop, depois com Tó Trips, membro da banda Dead Combo, que dará a conhecer temas do novo disco (Guitarra 66).
A entrada é livre, sujeita a levantamento de bilhete até ao limite da lotação da sala.
Alguns poemas do livro podem ser lidos aqui.
Quem quer saber o significado da palavra ‘avatar’?
Pelos vistos, muita gente.
Há uns meses, a média diária de pesquisas por esta palavra no Dicionário Priberam oscilava entre as 200 e as 500. Esta semana, em vésperas da estreia do muito publicitado e promovido filme Avatar, de James Cameron, o número de pesquisas subiu para 3500 por dia.
Maria do Rosário Pedreira transfere-se para a LeYa

O «comunicado» chegou há pouco e é bastante explícito:
«Na sequência de uma proposta de trabalho (Leya-se: irrecusável) para continuar a sempre fascinante descoberta de autores portugueses (mas não só), informo que cessarei as minhas funções como Editora da QuidNovi no próximo dia 31 de Dezembro. Foi um projecto que acarinhei praticamente desde a raiz e no qual trabalhei com uma equipa excepcional de que lamento, obviamente, separar-me; mas, a partir de certa idade, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos e, como tal, senti que não podia deixar de aceitar mais este desafio.
(…) Mais informo que a Ana Maria Pereirinha, que quase todos já conhecem, assumirá neste momento a responsabilidade por todos os projectos em curso.»
À Maria do Rosário Pedreira, que tem feito um trabalho excepcional enquanto editor (no sentido anglo-saxónico do termo), cujos frutos estão à vista na quantidade de novos autores de ficção portugueses que descobriu e trabalhou (entre os quais três Prémios Saramago: José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo), à incansável leitora quero daqui enviar um grande abraço e o desejo de que os seus novos projectos, como os anteriores, sejam coroados de êxito.
Quanto à QuidNovi, creio que fica, com a Ana Maria Pereirinha, em excelentes mãos.
PS – Mais informação nesta notícia do Público online.
Coetzee aos trinta e tal anos
A cada um a sua loucura. Há quem se atire de uma ponte com um elástico preso aos pés. Há quem durma várias noites ao relento para ficar junto ao palco nos concertos da Madonna. Há quem se feche com os amigos um fim-de-semana inteiro, disputando campeonatos de futebol virtuais na PlayStation. E há quem decida ler de uma assentada, em duas ou três semanas (no intervalo entre o anúncio da shortlist e o anúncio do vencedor), os seis finalistas do Man Booker Prize. Foi o meu caso em 2008. Foi o meu caso este ano. Em menos de 20 dias, mais de 2600 páginas. Uma espécie de suplício de Sísifo auto-infligido. Um desporto radical em versão literária. Uma maratona de leitura que começa por invadir todos os espacinhos livres da vida diária e depois também invade os espacinhos que não estavam livres. Um interregno de pura imersão narrativa, impossível de levar a bom termo sem uma disciplina draconiana e alvoradas às cinco da manhã.
Quando o último envelope da Amazon chegou, a pilha em cima da mesa metia respeito. Não só devido à espessura dos volumes; também pelo que os nomes dos autores prometiam. Toda a gente falava de uma colheita vintage, de um dos melhores Bookers dos últimos anos, e a expectativa não foi defraudada. Comecei por atacar The Glass Room, de Simon Mawer, um sólido romance sobre arquitectura, sexo, famílias, traições e o que acontece a uma casa perfeita quando os tempos não acompanham essa perfeição. Do autor mais jovem, Adam Foulds (também poeta), apreciei a elegância da escrita e o modo como explora, em The Quickening Maze, o tema da loucura (sem cair nas armadilhas que lhe estão associadas). A longa saga cheia de ramificações narrativas de A.S. Byatt (The Children’s Book) e o relato literalmente fantasmagórico de Sarah Waters (The Little Stranger) cumpriram o que deles esperava: perfeição estilística e domínio da forma romanesca. Mas não me empolgaram.
O primeiro sobressalto de entusiasmo aconteceu com Wolf Hall, a magnífica reconstituição que Hilary Mantel fez da corte de Henrique VIII, e da trajectória ascendente de um homem maquiavélico e ardiloso (Thomas Cromwell), saído da miséria em Putney para os bons ofícios do cardeal Wolsey, e mais tarde para o círculo mais íntimo do rei. Mantel escreve tão bem que chega quase a ser ofensiva e reconciliou-me com um género que há muito deixara de me interessar (o romance histórico). Por isso, o prémio final assenta-lhe que nem uma luva, além de fazer justiça a uma das mais subavaliadas escritoras inglesas. Se dependesse de mim, porém, teria escolhido J.M. Coetzee, fazendo dele o primeiro autor a ganhar três vezes o Booker.
Summertime (Harvill Secker, 266 páginas) é o livro com que Coetzee fecha a sua trilogia de memórias ficcionadas, iniciada com Boyhood (1997) – sobre a infância na Cidade do Cabo, no final dos anos 40 e início dos 50 – e Youth (2002), que descreve a sua vida em Londres, no início da década de 60, e as suas primeiras tentativas poéticas. Nessas duas obras, Coetzee fala de si mesmo na terceira pessoa e esse distanciamento reflecte o extremo cuidado com que o escritor sul-africano, conhecido pelo zelo posto na protecção da sua privacidade, aborda os materiais biográficos no processo de os transformar em literatura. Mesmo quando os factos são reais, o protagonista nunca é o verdadeiro Coetzee mas uma personagem em tudo semelhante, o seu reflexo no espelho da ficção.

Ilustração de Pedro Vieira
Em Summertime, esta ambiguidade é levada ao extremo, pelo recurso a uma estrutura narrativa fragmentada e potenciadora das incertezas meta-literárias que Coetzee tanto aprecia. Em vez de uma história linear, o que o livro nos oferece é um conjunto de materiais que o biógrafo de Coetzee, um tal Mr. Vincent, reúne após a sua morte, tentando fixar uma certa época (os anos de 1972 a 1977), quando o escritor, então com trinta e poucos anos, ainda não era o escritor que veio a ser mas para lá caminhava. Vincent transcreve entrevistas com várias pessoas que terão conhecido Coetzee na altura (uma amante, uma prima, a mãe brasileira de uma das suas alunas, colegas do meio académico), além de excertos dos seus cadernos de notas. O retrato que emerge destes depoimentos em bruto – cheios de incongruências, animosidades, contradições – é de uma crueza devastadora. Coetzee surge-nos como um homem emocionalmente opaco, incapaz de se relacionar com os outros, um corpo estranho fechado sobre si mesmo (a amante acusa-o de autismo sexual), um feixe de ideias confusas à deriva numa África do Sul em pleno apogeu do apartheid. O Coetzee de hoje não doura a pílula ao Coetzee trintão, nunca contemporiza com as suas fragilidades e falhanços. Mas, paradoxalmente, isso só o torna mais humano.
O resto é a arte da linguagem. Ou seja, o esplendor da língua inglesa, elevada aos céus por um dos seus melhores cultores.
[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 84 da revista Ler]
A 21 de Abril de 1976, escrevia Maria Gabriela Llansol:
«Abandono este dia, mas estou nele. Levo-o comigo. Tudo são associações, entradas por outras portas para outras salas, na porta seguinte está marcado um detalhe da porta anterior, e assim sucessivamente sem fim.»
[in Uma Data em Cada Mão - Livro de Horas I, Assírio & Alvim, 2009]
Erros de impressão



Ao descobrir estas deliciosas capas (inventadas pelo Irmão Karamazov), ocorreu-me logo a imagem do Cavalo de Tróia.
O best-seller inesperado
História do livro de Mark Haddon (O Estranho Caso do Cão Morto) que vendeu, improvavelmente, mais de dois milhões de exemplares. No i online.
Lançamento de ‘Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI’
É um dos grandes acontecimentos editoriais do ano (talvez mesmo o maior): a antologia de oito séculos de poesia nacional, com 267 autores, mais de dois mil textos (escolhidos por Rui Lage e Jorge Reis-Sá) e verbetes assinados por críticos como Eduardo Pitta, Arnaldo Saraiva, Giuseppe Tavani, Nuno Júdice, Fernando J. B. Martinho ou Fernando Guimarães.
A apresentação desta obra monumental, por Vasco Graça Moura, acontecerá logo à tarde, a partir das 19h00, na Fundação Medeiros e Almeida, em Lisboa. Os dois coordenadores do projecto estarão presentes e os actores Luís Lucas, Pedro Lamares e Carmen Dolores declamarão, no final, alguns dos poemas incluídos na antologia.
O livro tem 2150 páginas e custará 60 euros (54 na Wook). O índice alfabético dos autores pode ser consultado aqui.
Desmoronamento interior

Pudor e Dignidade
Autor: Dag Solstad
Título original: Genanse og verdighet
Tradução: Liliete Martins
Editora: Ahab
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-989-96340-1-5
Ano de publicação: 2009
Professor num liceu de Oslo há duas décadas e meia, Elias Rukla é um cinquentão em plena crise de meia-idade, «ligeiramente alcoólico» (gosta de misturar cerveja com aguardente) e casado com Eva Linde, uma mulher que foi em tempos de uma «beleza infinda» mas agora perdeu o encanto, engordou e transformou-se na enigmática figura feminina com quem toma o pequeno-almoço todas as manhãs, trocando um «bom dia» que é já só uma cristalização cordial do hábito.
Pudor e Dignidade narra o momento em que a existência de Elias Rukla implode. Numa segunda-feira de Outubro, diante dos seus alunos alheados, sob a habitual e densa nuvem do tédio adolescente, ele analisa pela enésima vez a peça teatral O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen, um dos «quatro grandes» da literatura norueguesa. Ao aperceber-se de como treme, segundo a didascália, a voz de uma personagem secundária do drama (o Dr. Relling), Rukla intui uma possível nova leitura da obra. E entusiasma-se. Pouco a pouco, tacteia uma verdade alternativa para o texto de Ibsen, mas os estudantes ignoram a iminência de uma epifania e saem mal toca a campainha, deixando-o a meio de um raciocínio.
A indiferença dos estudantes é a gota que faz transbordar o copo e acciona uma espécie de gatilho. Consciente da natureza inútil do seu trabalho, do desperdício que representa a suposta formação intelectual daqueles jovens imaturos, Rukla explode de fúria e canaliza-a para o guarda-chuva que não abre quando devia. Em pleno pátio da escola, o professor destrói à bruta o objecto (com as varetas partidas a encherem-lhe de sangue a mão) e insulta uma aluna. Ele sabe que chegou o tempo da «catástrofe», da «queda», do caminho sem volta para quem já não encontra lugar numa sociedade que mudou depressa demais e na qual não se reconhece (nem é por ela reconhecido).
A explicação para a tragédia íntima, para o atormentado «desmoronamento interior», surge depois, à medida que a prosa lenta e circular de Solstad encena um labiríntico regresso ao passado, mergulhando-nos na memória de Rukla e recapitulando de forma não linear a história da sua vida, da amizade com Johan Corneliussen, o tipo brilhante de quem ele foi a «sombra carrancuda», à relação complexa com Eva, a tal mulher belíssima que Johan em tempos trocou pela liberdade em Nova Iorque. É todo um trajecto feito de acomodamentos, ilusões perdidas, melancolia e uma radical solidão: «Havia desaparecido uma época, e ele limitava-se a ficar sentado, a falar consigo mesmo.» Eis o triste fim dos desistentes, fixado por Solstad à falta de Thomas Mann, «o único escritor que podia ter escrito um romance sobre ele, Elias Rukla, e que podia tê-lo escrito sem comiseração, sem lamentações, e com uma rara ironia».
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Ao cuidado do Senhor Palomar:
«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever Morte a crédito, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação.
Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão abusiva. Há páginas de Morte a crédito, continuei, que parecem a técnica didática preencha-as-lacunas, tamanha é a quantidade de reticências. Reticência é recurso de indeciso. E exclamação, de escritor deslumbrado. Céline não me parece nem uma coisa nem outra.»
[in Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]
Dois quadros de Winslow Homer

Girl Reading on a Stone Porch (1872)

The New Novel (1877)
[via Book Patrol]
Bibliofagus inveteratus
O Hugo Xavier, ex-editor da Cavalo de Ferro e um dos mais empenhados devoradores de livros com que alguma vez me cruzei, abriu um blogue. Nome: O Novo Ecléctico. Há muitas e boas razões para o ir lendo; a lista de «livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros» é só uma delas.
Quatro poemas de Vasco Gato
Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.
***
Entre veneno e cura,
eis-nos vassalos do tamborim
para o imemorial castigo da treva.
Os nossos corpos, dois vocábulos
que se estudam. Dancemos, pois,
para que entre nós se acerte a pronúncia,
que o terreiro sempre foi dialecto
do suor, pano estendido que por vezes
nos cinge e reserva, para logo
uma pata descurada
nos apartar com um esgar.
A tarântula rói já a um canto
a sua noite de esperanças,
seu alimento de pó.
Há braços que sobejam e regressam.
Enquanto esta aflição durar, estaremos
a salvo da guilhotina do sol.
***
A rapariga da muleta deixou cair a muleta.
O fogo espalhou-se, abriram-se
as borboletas
num susto evidente,
fizeram fila os táxis.
Os prédios mais altos, tão francos,
tão estruturalmente com varandas,
tão soprados
pelo soluço dos que nascem.
As borboletas cada vez mais altas,
as borboletas sem táxi, a varanda que caiu
com as flores intactas
da tua febre. Tenho agora o desastre
da tua roupa no meu chão,
o sangue feliz.
***
Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.
[in Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre/13, 2009]
Regresso da cicatriz

Publicado pela Black Sun em 2001, o livro já anda por aí, em nova edição (de autor), só à venda em «tabancas da especialidade». Aproveitai.
Uma leitura brasileira de ‘Caim’
Por Mariana Ianelli, aqui. Especialmente interessante é a referência ao diálogo que Saramago estabelece com A Odisseia:
«Entre idas e vindas no tempo, já cansado das “costumadas destruições e dos costumadíssimos incêndios”, Caim retorna à terra de Enoch e tem-se aí o capítulo mais belo do livro. Permutando os mitos pela Bíblia, o autor encena, no reencontro dos amantes Lilith e Caim, o reencontro de Penélope e Ulisses. Os movimentos sucedem-se como num jogo de espelhos. Vale a pena citá-los aqui, lado a lado: “(…) depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo/ de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro. / (…) / Ele começou por contar como primeiro venceu os Cícones / e chegou depois à terra fértil dos Lotófagos. / Também tudo o que fez o Ciclope (…)” (Odisseia, Canto XXIII). Em Caim: “Tranquilizados os espíritos, compensados da longa separação dos corpos com juros altíssimos, chegou o momento de pôr o passado em ordem. (…) Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu (…)”.»
O Antigo Testamento segundo José Saramago

Caim
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
N.º de páginas: 181
ISBN: 978-972-212-076-0
Ano de publicação: 2009
Ateu assumido, José Saramago provocou a ira de alguns sectores católicos ao publicar, em 1991, O Evangelho segundo Jesus Cristo – pessoalíssima reinvenção de uma história que pertence ao imaginário colectivo tanto dos crentes como dos não crentes. O que se passou a seguir é conhecido: Sousa Lara (Subsecretário de Estado da Cultura do governo de Cavaco Silva) vetou a candidatura do romance a um prémio literário europeu e o futuro Nobel da Literatura saiu do país, exilando-se na ilha de Lanzarote. Com a publicação de Caim, Saramago fecha o ciclo, completando de trás para a frente a sua versão ficcionada da Bíblia. Depois do Novo Testamento, o Antigo. Ou seja, um regresso, como admite o seu narrador, a «delicados assuntos», abordados da primeira vez «com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo final quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas».
A ver pelas reacções da Igreja a Caim, no próprio dia em que o romance chegou às livrarias, a opinião dos «peritos» em nada se alterou, o que a Saramago tanto se lhe dá como se lhe deu, consciente de que o seu livro não pode ser lido como um tratado de teologia (ou de contra-teologia) mas apenas como aquilo que é: uma ficção. Provocatória? Sim. Parcial? Talvez. Ao arrepio do religiosamente correcto? Sem dúvida. Mas ficção. Isto é, literatura. E, sublinhe-se, excelente literatura, dando continuidade à boa forma revelada no romance anterior (A Viagem do Elefante). Tudo o resto não passa de poeira mediática, reflexo de uma indignação pavloviana por parte dos católicos; indignação que já não faz, hoje, qualquer sentido.
Se o Evangelho… era essencialmente uma abordagem – mais uma – à questão da humanidade de Cristo, Caim assume-se como um libelo contra Deus (grafado sempre em caixa baixa). Saramago não compreende nem tolera o Deus do Antigo Testamento, essa entidade todo-poderosa que abandona as suas criaturas, lhes exige o impossível, vai «à sua vida» e regressa quando lhe apetece, é cruel, castigadora, vingativa, rancorosa e injusta. O Deus da Bíblia judaica está longe de ser uma figura simpática, mesmo à luz das interpretações feitas pelos exegetas ao longo dos séculos, tentando justificar actos aparentemente injustificáveis. Para quem acredita, o texto bíblico não se pode levar à letra. É uma linguagem simbólica, a exigir decifração. Saramago, pelo contrário, olha para o Antigo Testamento de forma literal. Na sua grelha de leitura, simplista mas legítima, o texto bíblico é o que as suas palavras dizem, não o que elas sugerem. E o que as palavras dizem, nalguns casos, é objectivamente intolerável para um ser racional que escreva no nosso tempo. Tão intolerável que Saramago não se coíbe de apontar, por interposta personagem, a «maligna natureza» de Deus, além de lhe chamar louco e até «filho da puta». Acusações que formuladas no século XVI, e não no laico século XXI, lhe valeriam decerto a fogueira.
Para porta-voz da sua cruzada contra Deus, Saramago escolheu Caim, uma das mais desprezadas personagens da Bíblia, o primeiro dos assassinos, o fratricida que encarna uma das manifestações iniciais do Mal. A páginas 37, já Caim assassinou o irmão Abel «a golpes de uma queixada de jumento». Por inveja, costuma dizer-se. Porque Deus foi injusto e indiferente à devoção de Caim, alimentando desta forma o ódio do preterido, contrapõe Saramago. Nesta versão alternativa, Caim só mata Abel porque não pode matar Deus. E Deus, assumindo a responsabilidade que lhe cabe na morte de Abel, limita-se a condenar Caim à errância, «perdido pelo mundo», mas sempre sob sua protecção, assinalada pelo sinal negro que lhe marca na testa.
Após um interlúdio em que Caim atravessa de burrico as áridas terras de Nod, consumando um voluptuoso «contubérnio» sexual com uma Lilith que parece saída de As Mil e Uma Noites (pretexto para Saramago se estrear, aos 87 anos, e com surpreendente verve, nos domínios da literatura erótica), o protagonista entra num bizarro vórtice, uma sucessão de lugares e tempos que não obedecem à ordem cronológica normal (são «outros presentes», porque «a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir»). Num desses «presentes», Caim assiste ao quase sacrifício de Isaac pelo seu pai, Abraão, indignando-se com a estupidez daquela obediência cega aos imperativos divinos. É ele, aliás, quem impede a degola, porque o anjo salvador chega atrasado.
Finda a triste cena, Abraão admite «que o senhor enlouquece as pessoas» e os restantes episódios testemunhados por Caim – numa «espécie de contínuo guinhol, áspero, rangente, obsessivo» – corroboram essa assunção da maldade de Deus. Há a torre de Babel, por ele destruída num gesto de puro egoísmo. Há Sodoma e Gomorra, arrasadas sem ter em conta os inocentes que morriam entre os pecadores. Há as trombetas de Jericó; o bezerro de ouro desfeito por Moisés no monte Sinai (e a vingança que se seguiu); o suplício de Job, vítima de uma aposta entre Deus e o Diabo.
A viagem do livro, iniciada ainda no Génesis (com as tribulações de Adão e Eva no jardim do Éden), termina com o Dilúvio e a Arca de Noé a chegar ao monte Ararat. Lá dentro, porém, não estão os progenitores da humanidade futura, à espera de uma segunda oportunidade após a quase aniquilação da espécie. E isto porque Caim, não o podendo matar, encontra uma estratégia mais subtil para se vingar de Deus, ficando a sós com ele no mundo, num diálogo de surdos, prova provada de que «a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele».
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 85 da revista Ler]
Gonçalo M. Tavares em inglês
No seu acelerado processo de internacionalização, que já o introduziu nos catálogos de algumas das mais importantes editoras do mundo (a italiana Feltrinelli, a espanhola Mondadori, a brasileira Companhia das Letras, entre outras), Gonçalo M. Tavares acaba de dar mais um passo importante, ao ver os direitos de nove livros – os quatro do “Reino” e cinco de “O Bairro” – vendidos para os EUA e Reino Unido.
Num dos últimos números do The Times Literary Supplement, o crítico Toby Lichtig escreveu sobre a edição em inglês de Jerusalém (Dalkey Archive), recensão que termina com o seguinte parágrafo: «This is a powerful little book and the Dalkey Archive should be commended for bringing it to an anglophone audience. The rest of the “kingdom” series is forth coming; if Jerusalem is anything to go by, Tavares’s standing will soon be global.»
Além desta incursão no difícil território anglófono, destaque ainda para duas traduções recentes em França (O Senhor Calvino e O Senhor Kraus, com prefácios de Alberto Manguel e Jacques Roubaud), além de outras edições no México (Água, Cão, Cavalo, Cabeça e Jerusalém), Brasil (Biblioteca e O Senhor Breton), Israel e Eslovénia.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- Canções de Inocência e Experiência, de William Blake (Assírio & Alvim), por Helena Barbas
- Ensaio sobre o Termo da História, de António Vieira (Fim de Século), por António Guerreiro
- História de Portugal – Descobrimentos e Expansão, de Maria Cândida Proença (Círculo de Leitores), por Vítor Quelhas
- Revolução 1989 – A Queda do Império Soviético, de Victor Sebestyen (Presença), por Luís M. Faria
- Pudor e Dignidade, de Dag Solstad (Ahab), por José Mário Silva
- Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, de César Aira (Assírio & Alvim), por Ana Cristina Leonardo
- Caminhando com Samuel, de Tommi Musturi (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
“Espalhem a notícia”, pediu o pessoal da Planeta Tangerina

E a notícia espalha-se, espero.
Génese de um poema
Na terça-feira, ao chegar a Campanhã, fechei o livro que vinha a ler no comboio e ao guardá-lo na minha mala aconteceu uma coisa estranha. Um dos fechos partiu-se, assumindo um improvável e impraticável ângulo de 35º. A minha primeira reacção foi de melancólico desamparo. A mala esteve vários anos num canto da casa, sem ser utilizada, e de repente claudica, justamente quando decidi resgatá-la ao pó e ao olvido. Entre a chegada da francesinha e o pedido do cimbalino, num café perto da estação, alinhavei um poema about it. E foi esse o primeiro poema que li no debate da Festa da Poesia, em Matosinhos, exibindo sobre os joelhos a prova física do que os versos descrevem:
fecho
Ao sair do comboio,
o fecho prateado
da mala de couro
partiu-se.
Agora parece um osso
fora do sítio,
uma fractura exposta
em ângulo esquisito,
prova infame de uma
tragédia ortopédica.
Ignoro o que partiu o fecho:
se eu (gauche na vida),
se a viagem (aquela
subtil trepidação sobre
os carris), se outra
força qualquer.
Do mal o menos: mesmo
inválida, a mala de couro
fecha-se melhor
do que este poema.
Since 10-12-2007
Foi há precisamente dois anos que me instalei, sem saber muito bem ao que vinha, nesta galeria hexagonal.
C. B.

Ao meu amigo Charles, com a mão napoleónica, o olhar perdido no spleen parisiense e a rigidez de pedra, encontrei-o numa das extremidades do Jardin du Luxembourg, meio escondido, de frente para o gradeamento onde se encostavam os alunos do Lycée Montaigne, de costas para a lama dos caminhos e as árvores despidas.
Primeiro parágrafo (criação do mundo)
«Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.»
[in Ernestina, de J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2009]
Um verso de Herberto Helder (ou melhor, um mandamento)
«até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza»
[in A Faca Não Corta o Fogo - súmula & inédita, Assírio & Alvim, 2008]
Tributos e caminhadas

O Caminhante Solitário
Autor: W. G. Sebald
Título original: Logis in einem Landhaus: über Gottfried Keller, Johann Peter Hebel, Robert Walser und andere
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-695-886-4
Ano de publicação: 2009
Nos últimos cinco anos, a Teorema disponibilizou aos leitores portugueses, pouco a pouco, o essencial da obra curta — mas simplesmente extraordinária — de W. G. Sebald (1944-2001), em minha opinião um dos melhores autores surgidos nos últimos trinta anos. A dádiva da Teorema começou em 2004, três anos após a morte de Sebald (num estúpido acidente de viação), com a sua obra-prima: Austerlitz, um romance avassalador. Seguiram-se Os Estrangeiros (2005), o belíssimo Os Anéis de Saturno (2006), História Natural da Destruição (2006) e Vertigens. Impressões (2007). Concluída a publicação do núcleo duro da obra sebaldeana, tivemos ainda direito ao póstumo Campo Santo, que reúne artigos e textos dispersos. Tal como esse volume, publicado em 2008, O Caminhante Solitário (reunião de seis breves ensaios sobre os escritores Peter Hebel, Jean-Jacques Rousseau, Eduard Mörike, Gottfried Keller, Robert Walser e o pintor Jan Peter Tripp) fica um pouco aquém da restante prosa de Sebald, embora as suas obsessões temáticas (a vida de certos artistas e o modo como se inscrevem no mundo, ou na História; o poder da paisagem; os meandros da criação literária) e o seu estilo (de frases longas, muito bem articuladas, ao serviço de uma inteligência tacteante) sejam os mesmos de sempre.
Neste «tributo aos colegas que me precederam», Sebald coloca-se no lugar do leitor; isto é, daquele que se espanta e maravilha com a escrita alheia. Cabe-nos, a nós, leitores em segundo grau, seguir o seu raciocínio sempre arguto, as suas indagações eruditas. E compreender, por exemplo, a forma como os finais de frase, em Hebel, se abriam «ao vazio». Ou as tribulações de Rousseau, que o perseguiram mesmo no recato da ilha de Saint-Pierre, a meio do lago Bienne. O texto mais conseguido é o que Sebald dedica a Walser, também ele um caminhante por natureza, uma espécie de parente literário (que até lhe evoca o seu avô Josef), ser furtivo que se dissipa na escrita para «vencer a gravidade»: «Walser quer sempre elevar-se acima da pesada vida terrena, quer desaparecer de mansinho, sem barulho, para paragens mais livres.»
Fica agora a faltar, de W. G. Sebald, a poesia.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Uma atitude heróica
«A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar Em busca do tempo perdido em sessenta volumes.
Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém tem mais tempo para ler Guerra e Paz. Livro tem que ser fininho, tem que caber na bolsa, ela dizia.
Falei que sua idéia seria um fracasso, ao menos financeiramente. A questão não é compactar, falei, porque isso sempre se fez com versões reduzidas, facilitadas, dicionários literários de Shakespeare, Dante, Joyce, todos os grandes. Atualmente existem até mesmo versões para criança, em quadrinhos. Nem por isso se leu mais ou se adquiriu mais conhecimento dos clássicos. O ideal seria publicar os sete volumes do Proust num único, de cinco mil páginas. O mercado editorial hoje em dia, continuei, ao contrário do que você diz, é exatamente para tijolos, especialmente porque o leitor é preguiçoso. Se você compra um livro de cem páginas e não o lê, sente que está jogando dinheiro fora e isso é frustrante. Quem quer se frustrar? Mas se compra um Thomas Pynchon, bem, isso é diferente, é um projecto de vida, é como comprar uma casa, uma apólice, não interessa se você vai lê-lo ou não, só o fato de comprar já é uma atitude heróica, porque é heróico ler Thomas Pynchon, é heróico ler Don DeLillo, é heróico ler todos esses americanos de mil páginas. É excitante pensar que vamos ser heróis quando tivermos tempo, no fim do ano, nas próximas férias, depois da aposentadoria. Adiamos o malogro indefinidamente.»
[in Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]
Revista ‘Ler’, n.º 86
Já nas bancas.
A ‘Mensagem’, tal e qual
A 1 de Dezembro de 1934, Fernando Pessoa publicou Mensagem (com chancela da Parceria António Maria Pereira), o único livro de poemas em português que chegou aos escaparates antes da sua morte, ocorrida exactamente um ano mais tarde. No passado dia 1, assinalando o 75.º aniversário dessa primeira edição, a Guimarães lançou um livro que materializa uma ideia arrojada: a «clonagem» do dactiloescrito original de Pessoa, guardado na Biblioteca Nacional, junto com o restante espólio do poeta.
«Chamamos-lhe edição clonada porque não se trata de um mero fac-simile, é mais do que isso», explica Paulo Teixeira Pinto, proprietário da Guimarães, a cujo universo editorial (agora reforçado com a Verbo e a Ulisseia) pertence a Ática, que durante décadas publicou a obra de Pessoa. Os técnicos da Biblioteca Nacional torceram o nariz ao termo «edição clonada», mas Teixeira Pinto defende-o: «Nesta ideia de clonagem está implícita uma espécie de duplicação genética. O fac-simile é sempre uma cópia que se percebe ser uma cópia. A nossa versão da Mensagem, pelo contrário, é tão semelhante ao original que não se distingue daquele».
A edição deste livro «absolutamente único» começou a ser preparada, quase em segredo (isto é, com o conhecimento de um «círculo restrito»), há cerca de um ano. Acompanhando de perto todo o processo, que classifica como um «acto de paixão», Teixeira Pinto não olhou a custos nem a limitações de qualquer ordem para conseguir a réplica perfeita. Houve materiais importados de Itália e da Turquia, testes sucessivos para afinar os contrastes e um esforço para captar tudo o que está no dactiloescrito, das anotações e emendas de Pessoa (o primeiro título da obra — Portugal — riscado e substituído) às dobras do papel e respectiva transparência, passando pelas frases que foram sendo inscritas, a lápis, nas folhas de guarda (com a menção, por exemplo, da compra a António Fumaça, a 1 de Outubro de 1965; e da microfilmagem, a 9 de Junho de 1997). No índice final, escrito à mão pelo poeta, podem até perceber-se, no topo da página, as marcas de um clipe oxidado.
Jerónimo Pizarro, investigador pessoano, conhece bem o dactiloescrito original e mostra-se impressionado com a qualidade gráfica: «É um trabalho impecável, uma edição de museu, erudita, mas que permite dialogar com um arquivo inacessível ao público mais vasto.» A questão é saber a quem se dirige um livro com características tão particulares. «Este é sem dúvida um objecto muito bonito, mas que as pessoas provavelmente não lerão. Vejo-o mais como um daqueles livros de arte que se compram para ter em cima de uma mesa, na sala de estar lá de casa.» Embora algo céptico em relação ao êxito comercial do livro — «quando a Assírio & Alvim fez coisas deste tipo, com o Almada Negreiros, por exemplo, vendeu sempre pouco» —, Pizarro diz que talvez fizesse sentido alargar este conceito a todo o material que Pessoa editou em vida, nomeadamente os Poemas Ingleses.
Outro pessoano, Fernando Cabral Martins, responsável pela edição crítica da Mensagem (Assírio & Alvim, 1997), ainda não teve oportunidade de manusear o novo livro, mas a iniciativa da Guimarães parece-lhe positiva. «Acho óptimo que se façam coisas destas. Estou sempre a favor das edições fac-similadas, como forma de disponibilizar ao maior número de pessoas um património que é de todos.»
Se o eventual «fetichismo» em torno de um livro-objecto plasticamente atractivo não o incomoda, Cabral Martins já tem mais dúvidas quanto à opção por não incluir quaisquer textos de enquadramento da obra. «Mesmo partindo do princípio de que o leitor a quem a edição se dirige já conhece as particularidades e contingências da génese da Mensagem, creio que faria sempre falta uma nota que explicasse, entre outras coisas, que esta não é a versão final do livro, uma vez que Pessoa continuou a fazer emendas nas provas tipográficas e mesmo no seu exemplar impresso.»
A este propósito, Paulo Teixeira Pinto reafirma a sua ideia de «clonagem»; isto é, o livro enquanto réplica absoluta, tal e qual, sem prefácios ou outros paratextos. «Num dos muitos fragmentos guardados na arca, Pessoa diz qualquer coisa como isto: “Não há factos, só há intepretações.” Nós tentámos fazer exactamente o contrário. Aqui não há interpretações. Só factos.»
A edição «clonada» — uma tiragem única e exclusiva de 2500 exemplares (com um preço de 44 euros) — será posta à venda apenas nas lojas da FNAC e nas duas livrarias da Guimarães (na Rua da Misericórdia e na Biblioteca Nacional). Em 2010, haverá em princípio nova «clonagem», com o mesmo grau de exigência gráfica, do manuscrito de Indícios de Oiro, de Mário de Sá-Carneiro. Outro projecto que arrancará em breve, garante Paulo Teixeira Pinto, é a colecção Olissipo, nome da editora que Pessoa quis criar e nunca criou. «Vamos editar os livros que ele gostava de ter publicado.» No total, dez volumes. Os dois primeiros, já no prelo, são a versão «não clonada» de Indícios de Oiro e O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.
[Texto publicado no suplemento Actual, do jornal Expresso]
Os deuses burlões
Enciclopédia de Estória Universal
Autor: Afonso Cruz
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-972-564-820-9
Ano de publicação: 2009
Afonso Cruz (n. 1971) é uma espécie de artista faz-tudo: ilustra livros infantis, realiza filmes de animação, canta e toca na banda de blues/roots The Soaked Lamb, «fabrica a cerveja que bebe» e escreve. Em 2008, publicou um primeiro romance (A Carne de Deus, Bertrand). Agora, oferece-nos uma Enciclopédia de Estória Universal compacta (pouco mais de cem páginas) e que se compraz com a sua evidente falsidade. As dezenas de entradas remetem para 66 referências bibliográficas (quase todas ostensivamente apócrifas) e para uma rede de supostos autores, bizarros e obscuros, que se citam uns aos outros – isto é, que se inventam uns aos outros.
Há sufis, ascetas, santos, cientistas, filósofos, geómetras, arquimandritas, golems, cabalistas. Há ideias recorrentes: a reversibilidade cronológica («o tempo é um livro que pode ser lido do fim para o princípio») e espacial (equivalência dentro/fora e baixo/cima); a estrutura em dupla hélice do ADN; o homem como ser múltiplo. E há uma erudição sem freio, num círculo que abrange Dante, Edwin Abbott Abott, os místicos muçulmanos. A inspiração óbvia e assumida deste exercício literário difícil de classificar é Borges. Numa das entradas, excerto de um sintomático Ensaio Sobre Livros que Raramente Existem, são referidos os «deuses burlões, como Hermes e Mercúrio, como Legbá, Jorge Luis Borges e Toth, esses deuses duplos que se contradizem a eles mesmos, esses porteiros dos Opostos». A este Olimpo, Afonso Cruz acrescenta no comentário final (pela pena de Théophile Morel) o nome de Milorad Pavić, o que faz todo o sentido para quem tenha lido o Dicionário Khazar.
Na sua maioria, os textos da Enciclopédia são ficções curtas, quase sempre escritas num registo solene, prontamente desarmadilhado pelo recurso à ironia e ao humor. Abundam os aforismos. Como estes: «Uma catedral é apenas a maneira mais religiosa de empilhar pedras»; «Todos nós temos dois passados, mas a um deles chamamos futuro»; «A dúvida é o update da certeza»; «Apesar de estar grávida, projectava apenas uma sombra»; «Um triângulo é uma circunferência desenhada com três rectas». Os textos mais belos, porém, são os que se aproximam da perfeição dos contos de Tonino Guerra. Veja-se, por exemplo, Caroço de Cereja: «Distraído, Azizi tinha engolido um caroço de cereja, pouco antes de o anjo da morte – que é todo coberto de olhos – o ter beijado. Depois de morto e enterrado, do corpo de Tal Azizi cresceu uma árvore. Uma bela cerejeira, de madeira escura.»
Com a sua inabalável lógica interna e os seus requintes estilísticos, esta Enciclopédia da Estória Universal é para mim o mais divertido, surpreendente e estimulante dos livros de ficção publicados este ano por autores portugueses.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 84 da revista Ler]
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
- A Nossa Escolha – Um plano para resolver a crise climática, de Al Gore (Esfera do Caos), e O Desafio Global, de Nicholas Stern (Esfera do Caos), por Virgílio Azevedo
- O Caminhante Solitário, de W. G. Sebald (Teorema), por José Mário Silva
- Capitão de Abril, Capitão de Novembro, de Coronel Sousa e Castro (Guerra & Paz), por José Pedro Castanheira
- Se Fosse um Intervalo, de Ana Luísa Amaral (Dom Quixote), por António Guerreiro
- Blackpot, de Dennis McShade (Assírio & Alvim), por Ana Cristina Leonardo
- A Biblioteca da Piscina, de Alan Hollinghurst (ASA), por Luís M. Faria
- A Flor Fatal, de Fernando Cabral Martins (Assírio & Alvim), por Manuel de Freitas
Trompe-l’œil

Os fotógrafos unidimensionais estão mesmo em frente à livraria L’Arbre à Lettres (rue Edouard Quenu, n.º 2, mesmo ao fundo da rue Mouffetard), como se quisessem enquadrar a montra. Ou apanhar de surpresa os leitores que saem para a rua.
Festa da Poesia em Matosinhos
Na próxima segunda e terça-feira, dias 7 e 8, a Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, acolhe uma Festa da Poesia, com recitais, debates, música, exposições e teatro. O programa completo pode ser consultado aqui. No dia 8, pelas 17h30, participarei numa mesa-redonda “Em torno da Poesia” com Ana Luísa Amaral, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina e valter hugo mãe, moderado por Isabel Pires de Lima, ex-ministra da Cultura.
As árvores sustêm o céu

ou o inferno.
Um poema de Mário Cesariny
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
[in A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, selecção e prefácio de Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, 2009]
Desfocado

Que no peito dos desfocados também bate um coração.
Números redondos
Enquanto andava por Paris, o sitemeter ultrapassou duas marcas simbólicas: o meio milhão de visitas únicas e as 800.000 pageviews. A todos vocês, leitores, muito obrigado.
O adeus a todas as coisas belas

Um caçador de leões
Autor: Olivier Rolin
Título original: Un chasseur de lions
Tradução: Tiago França
Editora: Sextante
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-8093-95-0
Ano de publicação: 2009
Na génese deste magnífico romance está um golpe do acaso. Ao visitar o Museu de Arte de São Paulo, Olivier Rolin deparou pela primeira vez com o Retrato do Senhor Pertuiset, Caçador de Leões (1881), no qual Edouard Manet imortaliza um «pacóvio» de olhar inexpressivo e «farto bigode de morsa». Diante do quadro, o escritor lembra-se de já ter visto aquele homem grosseiro e recupera-o de um «obscuro recanto» da memória onde o sepultara, 25 anos antes, depois de ler a história da sua «rocambolesca» expedição à Terra do Fogo, num livrinho (Pequena História Austral) comprado em Punta Arenas, nas margens do Estreito de Magalhães.
À atracção pela invulgar personagem, junta-se uma perplexidade: a de saber como é que o percurso de Pertuiset se cruzou com o do sofisticado Manet (esse artista revolucionário que vivia como um burguês); ou melhor, a de saber como terá acontecido esta amizade entre tipos humanos diametralmente opostos. «É uma das poéticas consequências do tempo que passa: as testemunhas morrem, depois morrem os que ouviram contar as histórias, faz-se silêncio, as vidas desaparecem no esquecimento, o pouco que não se perde torna-se romance.» Eis a ficção a beber na realidade, a literatura como operação de resgate (nada contra).
Rolin começa justamente por resgatar Eugène Pertuiset: mitómano compulsivo, fanfarrão, caçador desastrado, traficante de armas, inventor de «balas explosíveis», mestre em fogos-de-artifício e crente nos poderes da sua própria «força magnética». Ele é o típico arrivista, ansioso por chegar às altas esferas políticas; o aventureiro irresponsável que se intromete nos conflitos militares do Peru e do Chile; o aldrabão aldrabado que acredita na existência de um tesouro inca, por desenterrar, na Terra do Fogo. O escritor segue-lhe os passos, descobrindo histórias picarescas nas bibliotecas da América do Sul e nunca escondendo um fascínio similar ao que Pertuiset decerto provocou em Manet — cujos dilemas artísticos e andanças pelos boulevards também acompanhamos, em paralelo, tendo a História francesa (final do séc. XIX) como pano de fundo. E como são admiráveis, essas páginas em que se evoca o cerco de Paris pelos prussianos (1870), os dias da Comuna e a «semana sangrenta».
Além destas duas linhas narrativas principais (servidas por uma escrita poderosamente visual, descritiva, cheia de cores e contornos, sempre à beira de se tornar pintura), há uma terceira: a do narrador/autor que interrompe (com judiciosos parêntesis curvos e rectos) o fluxo do romance, relatando a sua deambulação pelos lugares onde se deram os triunfos e as tragédias de Pertuiset e Manet, para confirmar o trabalho demolidor que o tempo exerce sobre as coisas, os homens e a sua memória, seja nos confins do mundo (Valparaiso, Porvenir), seja nas ruas parisienses onde os cabarés e outros antros de boémia foram substituídos por sucursais bancárias, armazéns de calçado e lojas de quinquilharia.
Atravessando este cafarnaum, que só por milagre nunca se torna confuso, há um sopro proustiano. Rolin vai atrás do tempo perdido. O do modelo, o do pintor e o seu. Fixa o «adeus a todas as coisas belas» (Villiers), segue o rasto do que se dissipou, sabendo que esta é «a única caça onde se tem a certeza de acabar morto pela fera, a única exploração onde se termina sempre entre os dentes dos antropófagos».
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Flor da gravidade
«Merci d’être, sans jamais te casser, iris, ma fleur de gravité. Tu élèves au bord des eaux des affections miraculeuses, tu ne pèses pas sur les mourants que tu veilles, tu éteins des plaies sur lesquelles le temps n’a pas d’action, tu ne conduis pas à une maison consternante, tu permets que toutes les fenêtres reflétées ne fassent qu’un seul visage de passion, tu accompagnes le retour du jour sur les vertes avenues libres.»
[in Lettera amorosa, de René Char, com ilustrações de Georges Braque e Jean Arp, Gallimard, 1953/2007]


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor




