Texto de Leandro Fialho (Bolota)

Apetece-me dizer NÃO…À Filósofos da tanga
Apetece-me dizer NÃO… À Europa do Tratado de Lisboa
Apetece-me dizer NÃO… Ao apelo patriótico
Apetece-me dizer NÃO…Ao voto útil
Apetece-me dizer NÃO…Às maioria absolutas
Apetece-me dizer NÃO…Ao politicamente correcto
Apetece-me dizer NÃO…A políticos de aviário
Apetece-me dizer NÃO…À politica da cabala
Apetece-me dizer NÃO…A ladrões de gravadores
Apetece-me dizer NÃO… Aos Freeports, Face oculta e afins…
Apetece-me dizer NÃO…A pretensos candidatos de esquerda às Presidenciais
Apetece-me dizer NÃO… Ao F de FOME que em democracia tivemos de acrescentar aos Fs de Salazar.
Apetece-me dizer NÃO… Ao absurdo dos valores envolvidos na alta-roda do futebol, quando a maioria dos clubes, mesmo os grandes estão falidos
Apetece-me dizer NÃO…Aos pasteis e rissóis marados que dentro de todas as normas…e as minhas migas e as cabidelas ???
Apetece-me dizer NÃO, NÃO e NÃO…A tudo a que os arautos do saber (governação) se propõem e me querem impingir.
Porque me apetece dizer NÃO?? Porque NÃO sou filósofo, politico ou ladrão…sou povo, sou livre, sou eu.
4 comentários 28 Mai 10 em Sem categoria“O Conselho de Ministros de 27 de Maio aprovou um diploma que visa regular a eliminação de algumas medidas que tinham sido adoptadas transitoriamente no auge da crise económica internacional” . É assim que se anuncia, no portal do governo, a eliminação de vários apoios sociais. Reparem que foi no “auge da crise económica internacional” que as medidas agora eliminadas foram decididas. Das duas uma: ou tudo que temos ouvido resulta de um delírio colectivo ou há um estádio depois do auge que nós desconhecemos. E que tem como principal característica dispensar, apesar de ser mais grave, qualquer tipo de medidas.
Entre várias mediadas extintas , todas relativas ao apoio aos desempregados, acaba-se com a majoração de dez por cento no subsídio de desemprego para agregados desempregados com crianças a cargo. Todos temos de fazer sacrifícios e é de pequenino que se torce o pepino.
Como os números do desemprego ainda não são suficientemente consistentes, acaba-se com o programa qualificação-emprego, com a redução de três por cento da taxa social única para as pequenas empresas que empreguem trabalhadores com mais de 45 anos, com o programa de incentivo ao emprego de jovens licenciados e com a linha bonificada de apoio à criação de empresas por desempregados. Quando o governo quer reduzir despesas sociais e no momento em que o desemprego aumenta, nada parece mais adequado do que acabar com todos os incentivos à criação de emprego. Serão, assim, ainda mais os candidatos ao subsídio de desemprego e menos os trabalhadores a contribuir com os seus impostos para os pagar.
Já se percebeu que ninguém está a pensar no que anda a fazer. Perante a enfermidade o governo já só trata da extrema unção. Quando for o velório o serviço estará completo. Só o facto do governo anunciar que vai acabar com as medidas anti-crise para fazer frente à crise deveria chegar para se perceber ao absurdo a que chegámos. O suicídio assistido passou a ser política de Estado.
Publicado no Expresso Online.
15 comentários 28 Mai 10 em Sem categoriaTexto de José Manuel Faria

Há muitos anos atrás um velho marquês, ultraconservador e de mente perversa, aproveita-se duma jovem inocente e (…), (letra dos Mão morta).
Desde que o Homem se conhece, duma forma ou de outra, de posição X a Y, com mais ou menos movimentos, este sempre se foi safando na arte de fazer sexo.
Houve momentos que a mão da Hierarquia social, política, religiosa, económica e cultural do nosso Reino, ordenava contenção. Nessas “alturas” gloriosas confundia-se sexo com reprodução, reprodução com casamento, casamento com posições bem definidas e portanto só se fazia amor – executava-se, pois, o que a Santa Lei fixava -, e se possível, ou melhor, obrigatório um filho, muitos filhos (tratava-se de elemento familiar importante, mais dois braços vinham mesmo a calhar), o casal tinha de estar bem documentado, senão, vinha aí mais um enjeitado.
Idades do domínio do sexo sem prazer feminino, do escondido, do pecado mortal: as insinuações, as brejeirices, o sexo anormal entre dois homens ou entre duas mulheres, andavam de mãos bem entrelaçadas, bem escondidas e não faladas.
No Portugal pós–25, abriu-se um porco cinema, jornal e revista de consequências mortíferas (sida). As perversidades inexistentes brotam como relâmpagos em noites diabólicas – a bestialidade, o sadomasoquismo e pior, o orgasmo múltiplo feminino é elevado a ícone de uma nova Eva.
Estava assim preparado o caldo pornográfico de ataque a um reduto angelical/branco de vestes virginais: a Escola. O lugar sagrado da instrução, do saber contar/ler, da botânica e geografia dos insectos é invadido pela educação sexual informativa quiçá leccionada por amigos/as das crianças. O fim do mundo é para ontem, afirmavam a pés juntos os pais preocupados com as máquinas de látex.
- Parem as máquinas! Gritavam a todo o fôlego os manifestantes agrupados por género e classe social. E não é que pararam mesmo!
Mais uma promessa furada, esta do ano da Graça de 1984, o ano da previsão tornada realidade pelo vigilante de Orwell.
18 comentários 27 Mai 10 em Sem categoriaTexto de Rui Miguel Fialho (Rui F)

Agradeço desde já ao arrastão a oportunidade que me deu de poder “postar” no blog.
Eu já tinha aflorado a questão.
O país é desconfiado e tem razões para isso.
Os piores exemplos – na sua esmagadora maioria vêem de cima – acompanhados de uma justiça que pura e simplesmente não funciona (ou se funciona, é inclinada em desfavor das classes de menos recursos e formação) são a realidade.
Esta desconfiança torna o país atrasado, tacanho, sem solução e condenado ao eterno fracassado.
Aparentemente, o Português de uma maneira geral, só se liberta com os estrangeiros ou em pequenas comunidades. Lá fora na estranja, ombreia com todos os povos e em todos os campos do saber, de igual para igual. Porque será? Numa reflexão simplista e despretensiosa, enumero as razões que na minha opinião estão na origem do problema:
- A desigualdade social. É a pior da OCDE.
- A mobilidade social mal existe, ou seja, só uma ESCASSÍSSIMA minoria de pessoas das classes desfavorecidas pode almejar a ter uma vida melhor.
- O compadrio, a cunha, o tráfico de influências são banais e condição para ter emprego, trabalho, abrir um negócio por conta própria, ter subsídios da UE, e estar melhor informado.
- A oligarquia é o sistema que domina a sociedade.
São enormes as expectativas dos migrantes chineses que chegam das aldeias a Shenzhen, para trabalhar na fábrica da Foxconn, onde são produzidos os iPhones. Mas parece que é grande a desilusão. O trabalho é repetitivo e longo, a fazer lembrar os tempos Modernos de Chaplin. Diz um estudioso que conhece a fábrica: “A rapidez é muita e não se pode abrandar, pelo menos durante dez horas. Percebe-se que alguém possa ficar dormente e se transforme numa máquina”. São pelo menos 60 horas semanais, mas há relatos de muitos trabalhadores a fazerem horas extraordinárias para aumentar o salário de 106 euros. Precisavam de alguns meses para comprar um iPhone.
Resultado: já houve nove suicídios desde o princípio do ano. Os jornais de Hong Kong garantem que a empresa está a pedir aos funcionários para assinarem documentos a garantir que não se vão suicidar, informação que é desmentida pela própria.
A má publicidade que resulta destas notícias obrigou a uma reacção. Melhores condições de trabalho? Redução de jornada de trabalho? Aumento do salário? Ou seja: reduzir o fosso entre o que os jovens trabalhadores esperavam e o que têm? Não, que dinheiro é dinheiro.
A Foxconn optou por chamar monges budistas para afastar maus espíritos, contratar dois mil psicólogos, cantores e bailarinos, abrir uma linha telefónica de ajuda, criar um centro de libertação de stress onde os operários podem esmurrar a fotografia do superior e erguer, junto aos dormitórios dos 400 mil operários, redes para tentar travar as quedas. E mostrou o seu serviço aos jornalistas.
A dimensão destas fábricas, as condições em que nelas se trabalha, a forma de produzir e os efeitos que a passagem de uma economia de subsistência para a industrialização de trabalho intensivo são uma viagem no tempo. Não há monges e bailarinos, para consumidor europeu e americano saber, que resolvam isto.
A verdade é que competimos com o passado. O crescimento da China vive deste hiato de tempo. Cresceu, mas, em muitos casos, ainda vive no século XIX. E o passado atira-se da janela porque não aguenta, como os nossos antepassados não aguentavam, ver-se transformado numa máquina. Os nossos operários organizaram-se e exigiram mais. A ditadura trata de garantir que em vez da greve os seus operários escolham a morte. Adocicada por linhas de apoio e terapias contra o stress. Para não chocar demasiado as almas sensíveis do Ocidente.
Publicado no Expresso Online
45 comentários 27 Mai 10 em Sem categoria© rabiscos vieira
esta quinta-feira lança-se na Buchholz da duque de palmela o novo livro de Carlos Brito em volta de Álvaro Cunhal. é às 18h30.
6 comentários 27 Mai 10 em Sem categoriaTexto de António Cunha

Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o começo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relação com seu semelhante. Mas não foi nada disso que se passou, bem pelo contrário. Em todos os países em que os comunistas chegaram ao poder nasceram regimes totalitaristas que não olharam a meios para alcançar os seus objectivos e implementar a sua doutrina. Entretanto morreram mais de 100 milhões de pessoas.
Mesmo depois de o embuste ter sido desmontado continuam a existir vários tipos de pessoas que acreditam piamente na farsa. Em Portugal alguns continuam ligados ao PCP, outros demarcaram-se do partido mas continuam a professar a ideologia e depois existem os mais perigosos de todos, os que se mudaram para o circulo do poder. Só no PS estão várias dezenas de ex-comunistas.
Não me canso de citar um ex-comunista Brasileiro e autor chamado Jorge Amado: “A esquerda em geral não é democrata. Posso dizer porque fui comunista. Lutávamos confessadamente pela ditadura do proletariado, que resultou em ditaduras pessoais e violentas. Democracia não tem nada a ver com ideologia. Ou se é ou não é”.
144 comentários 27 Mai 10 em Sem categoriaSem a pressão de ter de escrever um texto para o Arrastão – os nossos comentadores valem mesmo muito – dedico o serão a ouvir velhos êxitos dos Beatles, como costuma dizer-se, a banda da nossa geração. Da minha, que nasci em 1975, da anterior e das que virão – tanto tempo passado e continuam a ser a última novidade. De Rubber Soul em diante há poucas canções que não sejam melhores do que noventa e nove por cento do que se produz actualmente, mas a diferença nem é esta divina contabilidade. Até chegarmos aos Beatles, a música era uma cómoda com gavetas onde cabiam os vários géneros, de forma muito arrumada e certinha. Havia o blues, havia o jazz, havia o country, havia a folk. Eles pegaram nisto tudo, misturaram, cortaram e copiaram, ampliaram a experiência musical das massas e revolucionaram o mundo. Existe praticamente uma música dos Beatles inspiradora de cada género surgido depois, da pop das harmonias vocais ao punk (Revolution), ao heavy-metal (Helter Skelter), à britpop e ao shoegazing, etc, etc. Pode-se afirmar, sem exagero, que há um pouco de Beatles em quase toda a música pop posterior, mesmo naquela que recusa a herança da banda.
Para além da música, a mitologia associada. O assassinato de John Lennon por um leitor de J. D. Salinger, a suposta morte e substituição do Paul McCartney original, a aproximação a Ravi Shankar e ao hinduísmo – a melhor letra dos Beatles foi escrita por George Harrison (neste momento estou a ouvir Revolution 9, uma cacofonia de ruído aleatório que inclui a música original tocada de trás para a frente, e é um arrepio na espinha) e chama-se Within without you – a intromissão de Yoko Ono, as letras escritas sob a influência de drogas, as visitas à Rainha.
O idealismo pacifista e cínico que John Lennon mostra em Revolution continua a fazer todo o sentido nos dias que correm; acredite-se ou não em revoluções, tudo vai ficar bem.
13 comentários 27 Mai 10 em Música para as massasA exposição da banca alemã e francesa às dívidas dos países do sul pode ser bem maior do que se pensava, explicava esta semana o “Financial Times”. Ou seja, a senhora Merkel só reagiu à crise porque acordou para o risco da banca alemã sofrer um rude golpe. A Alemanha está, como antes, a tratar de si e dos seus. E tem uma única prioridade: que Portugal, Grécia e Espanha paguem a dívida sem qualquer renegociação, mesmo que isso lhes custe uma longa e penosa recessão.
É difícil explicar a um economista que seja politicamente ignorante – o que o torna estruturalmente incompetente para falar de política económica – que o que se está a tentar fazer na Grécia é impossível. Porque em democracia a frieza dos números tem de se relacionar com o calor da revolta das pessoas. Mas é natural que a agenda liberal aproveite este momento. A inevitabilidade de fazer a vontade aos mercados permite conquistas que o voto nunca lhe daria: a redução drástica do papel social, económico e regulador do Estado.
Num recente artigo, o economista Dani Rodrik resumiu, através de um trilema, as lições a tirar da crise grega: a democracia, a globalização económica e o estado-nação são incompatíveis. Só podemos ter dois destes factores em simultâneo. Se queremos democracia e estado-nação precisamos de proteccionismo. Se queremos democracia e globalização económica precisamos de governo global. Se queremos estado-nação e globalização económica precisamos de governos com mão forte e cidadãos com espírito dócil. É nesta tensão que temos vivido desde o início do século XXI. Como a democracia global é uma miragem, os liberais mais pragmáticos já há muito descartaram a possibilidade dos cidadãos continuarem a deter os instrumentos necessários para resistir a decisões políticas quando a sua vida se torna insustentável. Quanto muito aceitam alguns formalismos eleitorais, onde o sindicalismo ou o confronto social não tenham qualquer espaço de manobra. Desistiram da democracia.
A escala europeia é excelente para testar este trilema. Para defender a democracia, temos de escolher: ou governo económico europeu, onde portugueses e gregos também têm uma palavra a dizer sobre a sua moeda, ou a saída dos países da periferia europeia de uma moeda única que não controlam e que não está pensada para as suas economias. Durante algum tempo pareceu que era o primeiro caminho que estávamos dispostos a trilhar. Ficou claro, com esta crise, que assim não será. E, no entanto, também não está em cima da mesa uma saída de Portugal, Espanha e Grécia do euro.
Olhando para o que se passa na Grécia e ouvindo o discurso sacrificial e socialmente autista que domina o debate político português percebemos que se conta com a ausência do terceiro factor do trilema – a democracia – para ultrapassar a crise. E continuar a discutir apenas a pequena política doméstica, usando sempre o argumento da inevitabilidade, não é inocente. Espera-se que as pessoas acreditem que nada podem fazer. Pedindo-lhes que se abstenham de lutar pelos seus direitos e assistam sentadas à morte do Estado Social. Resta-nos, como cidadãos, recusar esta chantagem, obrigando a Europa e os governos a escolherem um caminho: ou a soberania democrática dos europeus, ou soberania democrática dos cidadãos nacionais. Mas nunca a soberania dos mercados. É isto, e não Sócrates, Passos Coelho ou o TGV, que está em causa.
Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010
12 comentários 27 Mai 10 em Sem categoriaTexto de Graça Maciel (GMaciel)

Qual ponta de lança da América latina, Portugal despachou numa penada o corridinho e o malhão e adoptou, oficialmente, o tango como expressão da musicalidade lusa. Não viria mal ao mundo – pese embora Portugal não ser o mundo – se não se desse o curioso fenómeno de nos ser imposta uma diminuição acentuada nas vestes originais, já de si generosas no que mais mostram do que escondem. Esta singular opção teve como promotores não dois Alunos de Apolo, mas, ainda mais fantástico, dois primeiros-ministros; um executivo, outro por enquanto suplente.
Assim e depois de acostumados aos seculares bailinhos do pagamento de impostos directos e indirectos, taxas e sobretaxas, contribuindo para os orçamentos das regiões autónomas, autarquias, obras, derrapagens, prémios de gestores e conselhos de administração, institutos, frotas de ministérios e BP, ordenados, viagens e demais mordomias de deputados, assessores, adjuntos, secretários, ao próprio governo e apaniguados, clientes e jotinhas, e o mais que nem ao diabo lembra, temos que nos reinventar, nem que a vaca tussa. Desta feita, por decreto sem remissão, temos de o dançar de tanga. Roam-se de inveja, argentinos!
29 comentários 26 Mai 10 em Sem categoria
Da entrevista de João Ferreira do Amaral ao “Jornal de Negócios”
“Hoje é relativamente consensual que a entrada na zona euro foi a principal razão da perda de competitividade.”
“(…) a baixa da taxa de juro não é necessariamente uma benesse. Tudo depende do que vamos fazer ao crédito. E, com uma taxa de câmbio desajustada, como nós tínhamos, foram criados incentivos para a aposta no sector não transaccionável, o que criou a dívida insustentável que temos agora.”
“Mesmo que [uma queda de 20 a 30% dos salários] fosse socialmente exequível, a medida acabaria por ser ineficaz. Repare que o conteúdo de salários das exportações é de 30%. Se, por absurdo, se cortasse 30% nos salários, a nossa competitividade apenas aumentava 9%. Bastava uma oscilação do dólar para essa vantagens desaparecer.”
“É melhor pensar em coisas exequíveis, como negociar com a Europa uma forma de alterar as instituições (…). Não tenhamos ilusões: se não conseguirmos uma alteração do enquadramento da Zona Euro, não estaremos muito mais tempo dentro dela.”
“A Europa não percebe que quantos mais planos de austeridade fizer mais ataques especulativos ela vai sofrer.”
“(…) sou completamente contra a ideia de um orçamento equilibrado. Não há nenhuma justificação política ou económica para que um país não tenha qualquer défice, e por isso também estranho que alguns partidos, mesmo de Esquerda, admitam a hipótese de inscrever na Constituição um limite para o endividamento.”
Texto de Carlos Correia (cafc)
Esta frase de Shakespeare, serve-me de mote a um tema, mais ou menos, tabú.
Se entendido em toda a sua extensão, é inevitável chegarmos à questão “fracturante”, ou seja, a Eutanásia.
Pessoalmente e na generalidade, encaro a morte, segundo alguém já disse, como “mais um dia da minha vida”.
Quantas vezes acordei e exclamei, “Bolas, agora que estava a dormir tão bem…”(manifestação primária de desagrado pelo estado dito consciente?).
De outras, poucas felizmente, acordei sobressaltado e a seguir, fiquei contente. Tinha sido, apenas, um pesadelo (manifestação de quê?).
Em qualquer dos casos, não estava “vivo”, com todos os sentidos alerta. Estava na tal antecâmara. Acordo, logo vivo. Não acordo…(A Lili não diria melhor).
Bem pior, no entanto, é o pesadelo real em que tantos são obrigados a viver, até já não conseguirem ter um sono, quanto mais sonhos. Por isso, muitas vezes “desistem”. Conforme as situações, uns recorrem ao suicídio, outros pedem a eutanásia.
Aqui fica a minha pista para um debate com muita polémica e, preferencialmente, “desanuviado”. Também é possível brincar com a morte. Aproveitemos agora, enquanto estamos vivos, porque, depois…
49 comentários 26 Mai 10 em Sem categoriaTexto de Tonibler
A humanidade chega ao sec. XXI como chega, porque a sociedade da Liberdade é a mais eficiente no combate diário que o ser humano trava para sobreviver ao meio ambiente. Por meios de selecção natural, as sociedades que se foram livrando dos constrangimentos religiosos, raciais e sexuais são as mais ricas e aquelas que conseguiram satisfazer as necessidades de sobrevivência dos seus elementos, integrando-os na construção do bem comum. Naturalmente, estas sociedades foram dominando as outras e, aos poucos, deitando abaixo os constrangimentos que as outras tinham. A sociedade portuguesa tem hoje mais da sociedade inglesa dos anos 60, que da portuguesa dos anos 60 e, por isso, vive muito melhor.
Por isso a liberdade económica é tão importante e é importante que cada um possa ser integrado na construção do bem comum, não da forma como o estado comum o decide, mas da forma como ele o decide, da mesma forma que não faz sentido que o estado imponha a forma como as mulheres ou os muçulmanos o devem fazer. Deve investir em integra-lo, mas não em emprega-lo. O que é que isto tem a ver com esquerda e direita? Pois…isso eu nunca vou
conseguir entender, mas obrigado ao Arrastão e parabéns!
© rabiscos vieira
Há milhares de angolanos que não cabem nos planos de desenvolvimento do país
Para celebrar o seu 4º aniversário, o Arrastão convidou 15 comentadores regulares para escreverem um post no blogue. O convite seguiu por mail, usando os endereços que são fornecidos e esperando que os mesmos sejam verdadeiros. Alguns já responderam. Brevemente começaremos a publicar os seus posts. Um de cada um. Sobre o assunto que quiserem.
Os posts começam a ser publicados amanhã de manhã.
Aqueles que, não tendo sido convidados (seguramente por lapso), quiserem participar nesta iniciativa, podem enviar um texto. No máximo mil caracteres, com título e imagem, se assim o desejarem. Não podemos garantir publicação, mas tentaremos. O mail dos membros do Arrastão está no fim das biografias de cada um deles, na página “Autores” (com link no cabeçalho).
85 comentários 26 Mai 10 em Sem categoriaSabemos que o défice português está próximo da média europeia e é largamente ultrapassado por vários países que não estão em apuros. A dívida externa privada será até um problema mais grave do que a dívida pública, que está 21 pontos percentuais abaixo da belga e 29 abaixo da italiana. Mas, diziam as agências de rating e muitos especialistas, o nosso principal calcanhar de Aquiles era a mediocridade do crescimento. Isso sim, causaria dúvidas sobre a possibilidade de cumprirmos as responsabilidades com os credores.
Soubemos recentemente que, contra todas as expectativas, o crescimento económico em Portugal foi, no primeiro trimeste deste ano, de um por cento. É, nem mais nem menos, o maior de todos os países ocidentais. Para se ter uma ideia, se a coisa se mantivesse assim estaríamos a falar de 4,06 por cento de crescimento num ano, o maior da última década. E isto em plena crise.
Duas notas sobre este singelo facto, que, num guião que já está escrito por ideólogos vestidos de economistas, não mereceu grande atenção.
Primeiro: apesar deste dado muitíssimo relevante, que era referenciado como o mais importante para os mercados, nada de especial se modificou. O que deve levantar algumas dúvidas sobre a racionalidade de algumas avaliações.
Segundo: é no exacto momento em que contrariamos a nossa maior fragilidade que a Europa nos impõe uma política recessiva que tornará virtualmente impossível a consolidação deste crescimento. Ou seja, para resolver as dificuldade criadas pela falta de crescimento aniquila-se a possibilidade de crescer. A verdade é que o caminho que estamos a seguir não é um remédio, mas uma doença induzida. E isto quando surgiram os primeiros sinais de recuperação.
Publicado no Expresso Online.
25 comentários 26 Mai 10 em Sem categoriaO plano de austeridade europeu é o caminho para a desgraça. Bem sei que está instalada a ideia de que os países que estão em maus lençóis é que se devem desenrascar, pois são eles os responsáveis pela situação em que se encontram. Mas é falso. O défice estrutural da Grécia, por exemplo, é inferior a 4 por cento. É verdade que, com a ajuda da Goldman Sach, esconderam a sua situação. Mas foi a conjuntura mundial que provocou a crise em que se encontram.
A Espanha foi excedentária antes da crise e não pode ser acusada de falta de disciplina orçamental. Poderia ter sido mais cautelosa a controlar a sua bolha imobiliária. Mas ela resultou da política de baixas taxas de juro que o euro promoveu.
Grécia, Espanha e Portugal não só não sairão da crise em que se encontram como se afundarão ainda mais com estes planos de austeridade. Precisam de apoio ao investimento e de crescimento, não de austeridade. Como se sabe desde a grande depressão, o caminho que está a ser seguido é desastroso.
A Europa precisa de criar um fundo de solidariedade para, nestes momentos, socorrer os Estados que estejam em dificuldades. Não precisa de uma política de austeridade que só irá criar mais desemprego e depressão.
Ao escrever tudo isto devo parecer ao leitor um ET acabado de aterrar neste planeta. Está de tal forma longe do mainstream do que os nossos economistas, em coro, repetem, que só pode ser entendido como um discurso ideológico sem qualquer relação com a realidade. O que seria normal era falar dos países que têm vivido acima das suas possibilidades e que têm agora, por culpa própria, de apertar o cinto. Que não podem continuar a viver às custas dos alemães e do resto dos europeus. Que não podem procurar no exterior o álibi para se salvarem das suas enormes responsabilidades. Que têm Estado a mais.

O que é extraordinário é que nos quatro primeiros parágrafo deste texto me limitei a resumir as palavras de Joseph Stiglitz , Nobel da economia. No quinto,repeti o que tenho ouvido de vultos da economia e gestão portuguesas, que enchem o sonoro nacional, com uma arrogância de quem debita ciência certa, com frases de efeito em estilo de ralhete à Nação.
O facto de Stiglitz ser quem é não lhe dá, como é evidente, razão. Nem a economia é uma ciência exacta, nem está imune às convicções ideológicas de quem defende determinados pontos de vista. Mas não seria normal que tivéssemos direito a um cheirinho do debate que se faz por esse mundo fora, com contraditório, e não a discursos saídos todos da mesma cartilha que aproveitam a crise para fazer passar uma determinada agenda politica? Não seria normal que, depois de ouvirmos tantos especialistas na matéria, a conversa do Nobel Joseph Stiglitz não nos parecesse delirante, mas apenas mais um ponto de vista?
Aquilo a que temos assistido nos últimos meses é uma das mais avassaladoras operações de propaganda ideológica de que há memória na nossa democracia, onde nem a mais tímida das discordâncias merece qualquer respeito ou atenção. Onde todas as correntes de política económica que não alinham com o discurso da defesa da austeridade foram varridas do espaço público. Nos canais de televisão sucedem-se economistas-papagaios que se repetem uns aos outros numa ladainha insuportável que depois é repetida por políticos, jornalistas, comentadores, colunistas e simples cidadãos, como se não fosse matéria de controvérsia.
Este país não se arrisca a sair desta crise apenas mais pobre. Tudo indica que, substituindo o debate político por aulas de economia dadas por contabilistas, sairá dela mais estúpido.
Publicado no Expresso Online.
31 comentários 25 Mai 10 em Sem categoriaNão vi o jogo, não vi o jogo, mas depois de ler a crónica da Bola e do Público, assim como os comentários, a minha fé nesta selecção cresceu mais do que durante a visita do Papa. Vamos lá, Viriatos, é só manter a alta rotação contra Moçambique e os Camarões e os três pontos contra a Coreia do Norte estão no papo – ou um, vá lá, um já é um bom resultado, basta os jogadores fazerem o que o treinador quer.
(Mandem é o Coentrão embora, claramente está ali a desaprender tudo o que lhe ensinaram no último ano, e isso é mau para o Benfica. Bem, talvez com sorte o Duda seja titular quando for a sério.)
P.S.: Este comentário que eu vi na Eurosport na notícia do Argentina-Canadá (5-0 com um golo fantástico de Di Maria) resume o estado actual de coisas (em inglês é mais claro):
I thought that this Messi thing would be clear,it’s so obvious he is not playing because he already has a 1st team place,Maradona did this because he needs to see who is better of those other attackers,who will play along side Messi- Will it be Aguero,Tevez or Higuain.So he is experimenting a little now.Personally i think they need to play with 3 attackers:Messi,Aguero & Tevez / D.Milito and Higuain on the bench,midfielders:Maskerano,Maxi Rodrigues and Di maria(honestly i would like to see in midfield Cambiaso and maybe even Riquelme but Maradona is just too Dumb to invite them,i don’t know what is he trying to prove :@ ) Definitely worst manager from those great nations are Maradona,Domenek & that Portugal coach what’s his name i think queriz or smthn like that.They just don’t know how to choose the right players for the squad,honestly a 12(or less) year old kid could have choosen a better squad..
37 comentários 24 Mai 10 em Sem categoriaEsta crónica não pode deixar de ser um apelo: participe na manifestação convocada pela CGTP para o próximo sábado, dia 29 de Maio, às 15h00, entre o Marquês de Pombal e os Restauradores, em Lisboa. A aposta é simples e racional: na ausência da “pressão da rua” convencionalmente desdenhada, é sobre a esmagadora maioria dos trabalhadores assalariados – do público e do privado, mais ou menos precários, empregados ou desempregados – que continuará a recair todo o fardo da crise de um sistema económico cada vez mais disfuncional.
Aliás, o bloco central parece estar convencido de que as responsabilidades pela brutal crise económica internacional são dos trabalhadores, dos direitos que uma parte deles conquistou e do Estado social que as suas lutas fizeram surgir. Estranhamente, a lógica das medidas de austeridade nunca é anunciada: usar o desemprego de dois dígitos, a redução dos direitos sociais, sobretudo no subsídio de desemprego, e a austeridade orçamental, em geral, para favorecer a aceitação pelos trabalhadores mais vulneráveis de reduções substanciais do seu poder de compra. Julgam que assim se promoverá uma recuperação económica assente nas exportações devido à redução dos custos laborais. A enésima rodada de redução dos direitos laborais dá uma ajuda a este projecto económico de compressão do mercado interno. Esquecem-se alguns detalhes nacionais e europeus…
O resto da crónica no i pode ser lido aqui.
45 comentários 24 Mai 10 em Sem categoria
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa anunciou que vai pagar mais de 622 euros (onde estão incluídos 70 por cento das suas reforma) a famílias que “adoptem” um velho institucionalizado. Desculpem usar a palavra velho, mas idoso é coisa impessoal de burocrata. Um velho é um velho e a vergonha da velhice é uma das coisas mais idiotas dos nossos tempos. Que tem razões fundas, mas a isso já lá vou.
A ideia da Santa Casa até pode ser generosa e interessante. Imagino que até seja melhor solução do que os lares ou do que a solidão. Mas fico-me por algumas dúvidas genéricas.
Os velhos são chatos. São lentos e rabugentos, cheios de manias ganhas ao longo da vida. Cheios de maleitas e dependências. Ao contrário das crianças, não evoluem para a autonomia. Na verdade, os velhos são tão chatos como todos nós. Apenas já não têm forças, paciência e razões para o disfarçar. Nada têm a perder que não esteja próximo de ser perdido. Mas os velhos sabem da vida coisas extraordinárias. Transportam as nossas memórias. Ou seja, os velhos são tão bons e tão maus como nós todos, mas mais frágeis, com mais vícios e com mais experiência.
Gostamos da companhia dos velhos quando não somos deste tempo, que despreza a memória e a experiência; ou quando aquele velho de que gostamos é um pouco de nós. Porque sendo nosso pai, nossa mãe, nosso avô, nossa avó, nosso mestre, nosso qualquer coisa, encontramos nele alguma coisa daquilo que somos.
Uma criança adopta-se porque ela é uma possibilidade de futuro que nos inclui: será nossa filha porque com ela construiremos esse parentesco. Isso não é possível com um velho. Porque o que alimenta a relação com o filho adoptado é o presente e o futuro. Com um velho é o presente e o passado. E, se adoptarmos um velho, o passado em comum não estará lá. E isso faz toda a diferença. Um velho não é uma criança grande. É um adulto e um adulto não se adopta. 622 euros por mês garantem a possibilidade de alimentar um velho. Mas não garantem mais nada. E confesso que me assusta esta ideia de alugar o afecto.
Mas o que me interessa é tentar perceber como chegámos até aqui. Como é possível que os nossos velhos, os nossos pais e as nossas mães, os nossos avôs e as nossas avós, sejam despejados em lares e agora até possam ter de ser adoptados como se a velhice fosse uma infância sem passado?
O abandono dos velhos resulta de coisas boas e de coisas más.
A longevidade aumentou e as famílias, que antes ficavam com os seus velhos durante um período curto das suas vidas, não lhes podem dar a mesma atenção quando o seu tempo de vida, frágil e dependente, é muito maior.
A entrada das mulheres no mercado de trabalho mudou a natureza das famílias. As instituições – as creches, as escolas e os lares – ocupam-se das pessoas que antes estavam a cargo das mães e das filhas.
A produtividade é tudo o que conta. A sociedade valoriza os que ainda não produzem mas estão a ser preparados para o fazer, mas não aqueles de quem já nada se espera.
O tempo acelerou e é a capacidade de aprender depressa que torna as pessoas valiosas. A memória e a experiência parecem não valer um chavo.
Acontece que os velhos já são, nas sociedade mais ricas, uma parte muito significativa da população. E se queremos viver com alguma dignidade – nós próprios seremos velhos um dia – temos de mudar algumas coisas nas nossas vidas.
Dando mais tempo a quem trabalha para tratar dos seus. É por isso que não me deixo de espantar com aqueles que dizendo defender “os valores da família” são ao mesmo tempo defensores de regimes laborais agressivos e precários, onde não sobra tempo para mais nada que não seja trabalhar. E garantindo que os velhos que têm alguma autonomia se mantêm activos em funções úteis. Uma delas já é aproveitada por muitas famílias: ajudarem a educar os netos.
Não podemos continuar a enfiar os nossos velhos em depósitos, para que morram devagar longe dos nossos olhos. Mas a alternativa não me parece que sejam famílias de aluguer, que representariam uma enorme violência para muitos dos que já tiveram uma vida cheia de afectos. A simples possibilidade de pagar 622 euros mensais para estranhos adoptarem os nossos velhos devia chegar para percebermos que somos, neste momento, uma civilização doente.
Publicado no Expresso Online.
56 comentários 24 Mai 10 em Sem categoriaAgora que os Divine Comedy – aquela banda que o norte-irlandês mais brilhante da actualidade usa como veículo para o seu génio distorcido – regressaram com mais um excelente álbum com um ainda melhor título – Bang Goes the Knighthood -, é tempo de recordar uma das canções que melhor define a pretensão na música pop. The Booklovers é uma ode aos escritores sem nunca falar de literatura; aliás, Neil Hannon – o tal génio – confessou em entrevistas que não tinha lido grande parte dos autores enumerados. Até o nome da banda, pedido de empréstimo a Dante, é uma fraudulenta homenagem – Hannon, quando começou o projecto, não tinha lido a obra homónima do escritor italiano. Esse é o encanto do músico: a pose de um aristocrata intelectual decadente aliada a uma precisão grandiosa na busca da perfeita melodia, que tanto pode citar os Beatles e os Beach Boys como Noel Coward, Scott Walker na sua fase pré-esquizofrénica ou Burt Bacharach, o rei da música de elevador. Tudo temperado com algum romantismo tingido de cinismo e desilusão – Frog Princess é o melhor exemplo da lírica hannoniana neste aspecto, mas podia citar também todas as faixas do EP A Short Album About Love, obra-prima do kitsh sofisticado cozinhada com a ajuda de outro grande alquimista do romantismo pop, Stephen Merritt e de… lá está, Bacharach, na forma de duas covers que apenas aparecem em algumas versão comerciais do álbum. The Booklovers será uma brincadeira séria, e, naquele que será o melhor álbum dos Divine Comedy, Promenade, há muito por onde escolher, incluindo Summerhouse, a música indicada para a chegada do verão. De preferência acompanhada de um pouco de Evelyn Waugh ou E. M. Forster e um fim de tarde num alpendre. E um gin. Puro.
2 comentários 23 Mai 10 em Música para as massasUm aluno pediu para entrar na sala de aula. Resposta do professor: “Entra lá, ó preto“. Foi condenado a uma multa de mil euros. A coisa parece não ser original, já que o docente também tratava outros alunos por “cães” e “palhaços”. Pergunta: vai o senhor continuar a dar aulas e a servir de exemplo para os miúdos saberem o que é o respeito pelos outros? Talvez. Afinal de contas não se despiu para uma revista nas suas horas vagas.
Vale a pena ler este post engraçadinho de Paulo Guinote. O título “Não haveria Rendimento de Reinserção que aguentasse” é, como dizia o outro, todo um programa. E é este senhor um suposto e autoproclamado porta-voz da luta pelo respeito e rigor nas salas de aula. Para relativizar o episódio o doutor Guinote põe os seus alunos ao mesmo nível de responsabilidade e maturidade de um professor, adulto e profissional. Fica a dúvida: porque será que um ensina os outros? Não é porque esperamos mais do segundo do que dos primeiros? Como se espera que haja disciplina e respeito pelo professor, numa sala de aula, quando o próprio não se dá ao respeito?
E vale a pena ler também os comentários ao post. Esperando que não se tratem de professores. E sabendo que mesmo que o sejam, algumas árvores não fazem a floresta. Como conheço alguns professores da minha filha, sei que tanta leviandade é a excepção e não a regra.
104 comentários 22 Mai 10 em Sem categoriaOs últimos tempos têm provado que José Mourinho é mais do que um treinador que parece ter firmado um pacto com o Diabo – achei isso quando conseguiu ganhar dois troféus europeus com uma equipa portuguesa, e não me venham cá falar em métodos científicos ou motivação dos jogadores, o feito é da ordem do sobrenatural, não há quem possa provar o contrário. A temporada no Chelsea nada mostrou de excepcional: os milhões que Abramovich injectou na equipa foram o tempero certo no prato do dia, e a verdade é que a equipa insuflada nem à final da Liga dos Campeões foi. Portanto, o que Mourinho conseguiu com a equipa inglesa até o Trapatonni conseguia – alguns campeonatos, taças, taças da liga e uma meia-final perdida com um Barcelona a meia-légua de distância do actual. A partida para a Itália seria o princípio do fim do estado de graça ou a consagração definitiva de um monstro. Toda a gente sabe que o futebol italiano é o mais aborrecidamente eficaz do mundo, e se podia haver quem achasse que o treinador estaria à vontade por lá, basta pensar um pouco para chegarmos a outra conclusão: Mourinho em Portugal e em Inglaterra conseguiu destacar-se pela diferença; pôs o Porto a jogar em pressão alta, no campo inteiro, e a ter sempre mais de sessenta por cento de posse de bola, e conseguiu trabalhar os jogadores portugueses a ponto de serem eficazes na hora do remate – até Postiga marcou mais de 15 golos numa época, e se isto não é um feito extraordinário, não sei o que possa ser; no Chelsea, aprendeu alguma coisa com Benitéz e conseguiu montar uma equipa cínica e mortal – apenas assim conseguiu triunfar num campeonato onde jogam Arsenal e Manchester United. O que mudou, em relação a Portugal? A confiança na posse de bola; continuou a apostar na pressão alta, mas abdicou das percentagens altíssimas de posse, o que me parece mais do que sensato, jogando contra equipas muito mais perigosas do que o Trofense ou o Sporting – nestas situações, o posicionamento defensivo dos jogadores é muito mais importante do que a construção ofensiva. O que faria então Mourinho em Itália? Repetir Portugal ou Inglaterra? Nenhum dos dois, claro. O melhor foi apostar no sistema preferido dos treinadores de personalidade forte e ideias vanguardistas: o catenaccio. Mas como? Jogar à italiana no campeonato italiano não seria suicídio, ou no mínimo uma contradição à minha tese? Vamos lá ver as coisas como elas devem ser vistas: o Inter ganhou dois campeonatos sem fazer nada na Liga dos Campeões porque obviamente Mourinho apostou na mesma forma de jogar para as duas provas. O que resultou em Itália: um catenaccio atípico, porque o Inter acabava sempre por ter mais posse de bola do que os seus adversários e não recuava demais na defesa. Mas não resultou contra equipas ofensivas devido à natureza mestiça do sistema – o catenaccio tem duas premissas simples: entregar o controlo do jogo ao adversário e não pressionar do meio-campo para a frente. Quando Mourinho se livrou do ego que desequilibrava a equipa – Ibrahimovic – e contratou um jogador trintão ao seu estilo – trabalhador, humilde e de uma eficácia tremenda – Milito (Maradona não o vai pôr a titular e, além disso, passou por Espanha e não foi contratado pelo Real Madrid ou Barcelona) – pode então adequar a matéria-prima que já tinha – Walter Samuel (dispensado do Real Madrid); Cambiasso (dispensado do Real Madrid e não convocado por Maradona); Zanetti (não convocado por Maradona); Snejder (dispensado do Real Madrid); e Eto’o (dispensado do Barcelona e do Real Madrid) – à experiência adquirida durante os primeiros dois anos de calccio. A quinta de Mourinho, a sua equipa campeã, é um grupo de excelentes jogadores preteridos noutras equipas – ou que passaram ao lado de uma carreira melhor. Olhando para as estatísticas desta Liga dos Campeões, vemos que o Inter teve, em média, 44% de posse de bola. Ora, se contra o Barcelona teve cerca de 30 e hoje 35, isto quer dizer apenas uma coisa muito simples: o Inter jogou sempre o que tinha de jogar, nem mais nem menos do que era necessário em cada jogo. Se precisou de marcar, marcou, se precisou de defender, defendeu, com bola ou sem ela, conforme a conveniência. Se hoje, por exemplo, o Bayern tivesse conseguido o milagre de marcar primeiro, podemos ter a certeza de que o Inter acabaria com 65% de posse de bola, e teria voltado a jogar em pressão alta. Mas não foi preciso, porque conseguiu marcar um golo a partir de um pontapé do guarda-redes, com a bola a passar apenas por dois jogadores entre seis defesas. A ganhar numa final, Mourinho pode então aplicar na perfeição o sistema que aprendeu em Itália, com uma nuance: a passividade defensiva foi sempre um engodo – a bola, trocada pelos jogadores do Bayern no meio-campo, não tinha como chegar à frente, excepção feita a Robben, que é capaz de competir com Di Maria para o troféu de ala mais burro do futebol actual (isto é escrito com a melhor das atenções – tanto talento com tão pobre definição das jogadas é um desperdício a precisar de afinação… mourinhesca). A pressão alta na defesa deve ser o sistema mais suicida que se pode escolher quando se está a defender um resultado. Mas não com Mourinho.
De treinador genial a herói existencial à procura do próximo embate de adrenalina, eis o caminho de José Mourinho. Nada do que ganhou lhe trouxe a felicidade, e podemos ter a certeza de que tudo o que irá conquistar daqui para a frente será também em vão. Quando ele fala da família como motivação, não se trata de jogo psicológico ou de um subterfúgio: está a ser, simplesmente, verdadeiro. De vitória em vitória, até que nada reste para vencer – a marca dos verdadeiros génios. Que ele seja apenas um treinador de futebol, é um pormenor da história.
27 comentários 22 Mai 10 em Sem categoriaExcpecionalmente, deixo aqui a minha crónica de hoje no Record.

Diz-se de José Mourinho que ou se ama ou se odeia. Pois eu não o amo seguramente. Não gosto da sua arrogância calculista e dos seus modos de menino prodígio. Se é para ser malcriado, prefiro o “que lo chupen e que lo sigan chupando” do grande Maradona. E também não sou fã do futebol de Mourinho. É excelente para os adeptos e para quem gosta de xadrez. Pouco excitante para quem prefere bailado. Se Mourinho se dedicasse à patinagem rebentava a escala na nota técnica, mas não chegaria à mediania na nota artística.
No entanto, e a sangrar-me o coração, reconheço o óbvio: Mourinho é um génio. Se não fosse um génio seria, porventura, a figura mais detestável que o futebol já conheceu. E só se pode ser tão insuportável quando se consegue chegar, ver e vencer. Não é difícil imaginar que isso voltará a acontecer naquele armazém de estrelas que é o Real Madrid. Não sei é se o Santiago Barnabéu aguenta o peso de tantos egos.
Dito isto, estou ansioso por ver Mourinho no campeonato espanhol. Não sinto nenhuma afinidade patriótica com o treinador. O próprio não a alimenta. E se o Sporting é o meu compromisso, o Barcelona é a minha escolha. Sendo que a classe de Pep Guardiola e a convicção romântica que tem no seu futebol contrastam com a fanfarronice e o cinismo tático de Mourinho. Terei assim mais uma razão para torcer pelo meu Barça. Não levem a mal: homens que escolhem ser amados ou odiados têm de estar preparados para saber que há quem os queira ver cair do seu pedestal. Humildemente reconheço a minha mesquinhez. Não é bonito, eu sei. Mas quem disse que as paixões da bola são feitas apenas de bons sentimentos?
79 comentários 21 Mai 10 em Sem categoria
“Para dançar o tango são precisos dois”, disse José Sócrates lamentando ter-lhe faltado par durante tantos meses. E encontrou finalmente um amigo para a dança. Na verdade, menos TGV, mais tributo solidário, e a coreografia está bem coordenada.
Passos Coelho culpa o Sócrates pelo estado a que chegámos, Sócrates culpa o Mundo. Mas culpas à parte, porque nem um nem outro sabem melhor, têm a mesma receita: a recessão económica como salvação nacional. A questão é apenas saber qual deles, daqui a uns anos, vai culpar o outro. Há umas décadas que o debate entre os dois partidos se resume a isto.
Só que este tango é arriscado para os dois.
Sócrates precisa de Passos Coelho porque todos sabem que, sendo provável que ele venha a ser o próximo primeiro-ministro, tem de estar amarrado de pés e mãos às decisões que agora se tomam. Basicamente, o primeiro-ministro já está a passar a pasta. E é essa a imagem que passa ao País.
Passos Coelho quer encontrar a quadratura do círculo: participar na política de austeridade, ganhar a taça da responsabilidade e deixar para José Sócrates os espinhos da impopularidade de cada uma das medidas.
Enquanto a coisa é só notícia de jornal passa bem. Mas quando chegar a sério ao bolso dos portugueses a música será outra e o tango bem mais difícil de dançar. O PSD pode aguentar algum tempo esta esquizofrenia de governar com o PS à tarde e fazer oposição à noite. Mas vai chegar o momento, quando as coisas começarem realmente a doer, que não pode fazer oposição à custa das consequências das medidas que ele próprio aprovou. É que a suposta imagem de responsabilidade tem um preço: o da responsabilização pelas medidas que se apoiam. Não se pode querer ter tudo e o seu contrário.
Talvez o PSD aposte no intervalo que aí vem. Primeiro será o Mundial. Quando o Mundial acabar vêm as férias e o país fica dormente. Depois das férias o ano político recomeça mas logo arranca a campanha eleitoral para as presidenciais. Só depois, com a crise social e económica já bem presente, o líder do PSD terá de enfrentar a realidade. Esperará, talvez então, que o governo esteja maduro para cair. Este é o único timing possível para as coisas lhe correrem bem. Com este intervalo grande talvez possa manter o guião da novela. Depois disto a coisa já não pega.
Ou seja, ou temos eleições daqui a um ano ou Passos Coelho poderá pagar o preço do seu pezinho de dança com Sócrates. E não custa perceber que, passado o tempo do seu estado de graça, seja o próprio PSD, onde não falta gente mal disposta com as escapadelas do líder, a pedir a cabeça do rapaz.
Se Passos Coelho conseguir cumprir este guião, teremos então, daqui a um ano, um Sócrates 2.0, com trabalhos forçados para os desempregados e sem TGV. Se não, e o Sócrates original se aguentar ao leme do Titanic, a guerra voltará ao PSD.
Publicado no Expresso Online.
42 comentários 21 Mai 10 em Sem categoriaNa década de 80, recordo-me, era muito comum vermos homens a escarrar no espaço público (às vezes para o lenço de tecido, às vezes para o chão). Por exemplo, o meu professor da primária, homem com os seus sessentas, jamais começaria a aula da manhã sem um ruidoso escarro para o lenço que entretanto dobrava e arrumava no bolso. A ritualizada exibição pública da técnica do escarro, ainda que configurada enquanto necessidade inadiável, cumpria um papel na performance da masculindade/senioridade, performance em que os jovens se iam enculturando por imitação. Não era uma necessidade inventada, era antes uma necessidade reproduzida enquanto imperativo da carne – portanto, transformada em vício do corpo -, e enquanto dramatização de uma identidade: o homem suficientemente gasto para precisar de escarrar, o homem suficientemente vivido para saber fazê-lo com requinte (tudo expelido numa massa sólida, nenhum cuspo ou baba a estragar a cena).
Hoje posso dizê-lo com segurança: o uso público da técnica do escarro não passou para a minha geração. A passagem de testemunho foi truncada por dois factores: primeiro, as concepções higienistas, estruturalmente repelidas aos vestígios do corpo grotesco (Bakhtin); segundo: as novas estéticas da masculinidade, referimo-nos, claro, à celebração da juventude e ao recente culto do homem imberbe. O facto é que o homem gasto já não tem audiência para se celebrar; a lenta putrefacção recapitulada no escarro já nada tem de sénior ou de viril. Se não extinta a necessidade do escarro por falta de uso, hoje cada um vai aprendendo a escarrar (e a assoar-se) no recato da casa de banho. A lenta putrefacção passou para os bastidores e o corpo grotesco só nos aprece na sua forma sexualizada (a pornografia), ou cinemática (o corpo de delito das séries e dos filmes criminais).
Publicado em Avatares de um Desejo.
30 comentários 20 Mai 10 em Sem categoriaEu fui ver Control porque os Joy Division e Ian Curtis foram decisivos no meu percurso pessoal. Não há capacidade, nem vontade, para escapar à aleatoriedade das escolhas. Se o Ian Curtis retratado por Anton Corbijn fosse próximo daquele que eu conhecia (imaginava), gostaria do filme; se não, não gostaria. Aconteceu o mesmo com Last Days – a aura de Kurt Cobain desaparecera; porque a criação de um mito tinha ficado irremedivelmente ligada à adolescência – e a idade adulta obriga-nos a matar os nossos ídolos. Kurt Cobain morreu muitos anos depois de ter colocado o cano da espingarda na boca – mas morreu. A diferença está na distância em relação ao tempo em que Curtis viveu. Nunca precisei de o matar porque nunca foi o meu ídolo. O que eu admiro é apenas a arte, a poesia e a música criada em conjunto com os outros Joy Division (mais os outros, parece, e a prova é a continuação como New Order).
Li alguns textos de gente que nem tinha uma especial admiração pela figura. Ajudam a distanciarmo-nos do impacto do realismo que perpassa do filme. Contudo, sabemos que o realismo é uma falsa questão. A intenção de Corbijn é, sobretudo, esconjurar uma obsessão. Ele sim, teve de matar o seu ídolo (confessa-o em entrevistas). A frieza era improvável, a intenção irónica impossível (ao contrário do que acontece em Last Days). O exorcismo envolve sempre uma carga emocional intransponível. As dificuldades de Corbijn passavam por transmitir a emoção de uma memória em forma de imagens em movimento (as fotografias encenam uma realidade, criam o mito – e isso, suspeito que Corbijn não queria). O método não se fundou numa recusa do percurso conjunto de Corbijn e Ian Curtis (reforço o nome do músico, o filme é sobre ele, a banda é mais uma peça do enigma, o enigma de que cada Homem é feito); a imagética está lá – o preto e branco urbano-depressivo, a gabardine, os cigarros, as ruas cinzentas de Manchester e Macclesfield, a poesia em voz-off (sim, sabemos que as letras de Curtis eram poesia), a loucura controlada da Factory (a mítica editora). Mas o filme consegue elevar-se acima do poster de quarto de adolescente – há vida, sangue e tripas, choro e traição e amor. E, acima de tudo, confusão e perda. Irrealidade, alienação do mundo. Ian Curtis era isto? Sabemos que sim, são essas as nossas expectativas. Corbijn também conhecia as nossas expectativas; e por isso ter-se-à por separar o homem da imagem que o mundo tem dele. Ter decidido adaptar o livro de Deborah Curtis, a viúva atraiçoada, foi o clique que lhe conferiu a credibilidade necessária; haverá fãs que não lhe perdoaram. Fez muito bem, ninguém conhecia melhor Curtis do que a sua namorada de adolescência.
Não falei de cinema. Mas existem pormenores soberbos, claro, toda a gente sabe quais são: o traveling inicial; a simultaneidade de acontecimentos nos planos de conjunto (quando Ian e Deborah se conhecem, a entrevista com Annick); a paisagem devastada por onde Curtis passeia o seu desespero, a sequência do suicídio, tensa, tensa até ao limite do insuportável, porque sabemos – sabemos – o que vai acontecer, porque Samantha Morton é uma actriz fenomenal, e está muito bem acompanhada por um Sam Riley em esforço camaleónico de interpretação. O plano final, o fumo sobrepondo-se ao fundo natural, ali tão perto, tão perto do cimento cinzento do subúrbio. Factos que definem o filme, e que compensam um ou outro cliché a que Corbijn não consegue (ou não pode) resistir.
O filme consegue superar as premissas iniciais: é um biopic, mas tem uma ideia de cinema. As soluções encontradas não são circunstanciais, intensificam as ideias do autor. Sem referências, com pouca cinefilia, resta saber se Corbijn consegue criar uma marca de autor, como criou nos vídeos e nas fotografias. Por enquanto, Control chega. E sobra. Faz juz à singularidade grandiosa de Ian Curtis.
(Texto publicado no meu outro blogue quando estreou o filme, em 2007. 30 anos é muito tempo, como escreveu o Pedro Vieira, e o Manuel Domingos assinala o tempo que passou publicando textos de vários escritores sobre os Joy Division no meia-noite todo dia, até ao final do mês.)
10 comentários 19 Mai 10 em Cinema, MúsicaSe o Paulo Bento for para o Porto, não terei outro remédio senão juntar-me aos seis milhões por uns tempos.
18 comentários 19 Mai 10 em Sem categoria
A exposição da alemã e francesa aos países do sul da Europa cresceu muito desde o início deste século. Sendo os bancos das duas potências os principais credores dos Estados e das instituições financeiras dos países do Sul, é natural que a garantia de cumprimento do pagamento das dívidas – e não a saúde económica da Europa – seja o alfa e o ómega da União.
Os cálculos sobre a exposição dos bancos do centro em relação à periferia (quantidade de crédito concedido) são normalmente baseados nos dados do BIS (Bank of International Settlements). Diz-nos o Financial Times que estes dados podem estar subvalorizados.
Os detentores dos títulos das dívidas dos Estados protegem-se dos riscos de incumprimento através de contratos de CDS (Credit Default Swap, uma espécie de seguro). Compram protecção e em troca pagam em função do rendimento que título da dívida lhes dá (a taxa de juro paga pelo Estado) e o nível de risco de não pagamento. Se, por exemplo, o Estado português ou espanhol não pagar, o vendedor de CDS terá de compensar o banco alemão ou francês que comprou títulos destas dívidas.
É através das apostas no risco medido pelos contratos de CDS (e do mercado secundário de títulos da dívida, em que estes são revendidos a preços mais baixos, levando ao aumento dos juros a que, na próxima emissão de títulos, os Estados estarão sujeitos por pressão do mercado) que se faz a especulação. Sobretudo em mercados pequenos (como o grego), onde os preços podem ser mais facilmente manipulados pelas apostas de uma mão cheia de hedge-funds.
Ao que parece, segundo o Finacial Times , os bancos têm mais dívida do sul do que admitem. Se perderem dinheiro nestes créditos, mesmo que marginalmente, pode nascer daqui um novo colapso financeiro. Se houver incumprimento da Grécia, de Portugal e de Espanha instala-se o caos nos mercados financeiros. E foi para salvar a banca francesa e alemã deste risco, e não os países do Sul, que nasceu o empréstimo europeu.
Dirão: mas essa dívida está segura pelos tais CDS. Certo? Não. Porque os CDS cobrem o risco de não pagamento, mas, mais uma vez segundo o Financial Times, podem não cobrir reestruturações da dívida, que seria a coisa mais sensata a fazer neste momento. Se, sobretudo a Grécia, mas também Portugal ou Espanha, decidissem, como seria normal (e qualquer particular ou empresa faz) renegociar o pagamento da dívida (pagando, por exemplo, apenas parte dela, como já fez a Argentina, ou reescalonando os pagamentos) o contrato de CDS pode não ser activado, já que não se verificou incumprimento total. Os bancos perderiam parte do valor dos seus títulos sem receber nenhuma compensação por essas perdas.
Mesmo no caso dos CDS serem activados, ainda que os bancos estivessem protegidos, os vendedores dos CDS não estariam. Aconteceria o mesmo a que assistimos com a AIG: quando a Lehman Brothers faliu, a AIG, que tinha contratos de CDS sobre os créditos suprime, entrou em falência . Foi, como se lembram, para evitar o colapso do sistema financeiro que a AIG foi nacionalizada.
Conclusão: quando nos dizem que nos portámos mal, que os desgraçados dos alemães nos estão a salvar a pele e que um dia destes os rapazes perdem a paciência, desconfio. A Alemanha está a salvar a banca alemã dos seus próprios jogos financeiros. Nós somos apenas os cordeiros. Ou seja, estamos no centro de um jogo perigoso em que, mais uma vez, quem lucra com o risco faz depender as nossas vidas de frágeis castelos de cartas.
Há dois anos todos prometeram que iriam impedir que isto voltasse a acontecer. Nada foi feito. E desta vez já não se fazem promessas. Convence-se os povos que a culpa desta tragédia é deles.
Publicado no Expresso Online.
55 comentários 19 Mai 10 em Sem categoria
Durante uma hora, na RTP, José Sócrates arranjou tempo para falar de quase tudo. Mas nem um minuto sobrou para dizer umas palavras sobre como tenciona minorar os efeitos sociais que se esperam da recessão que as medidas decididas pelo governo e pelo PSD vão provocar.
Mas, em abono da verdade, José Sócrates está bem acompanhado. Hoje discute-se no Parlamento o “tributo social”, uma ideia apresentada pelo PSD que nem Paulo Portas se atreveria a propor. Um nome bonito para a mais pornográfica das demagogias. Uma punição social para os desempregados, tratados como pedintes ou pessoas sobre as quais recai a suspeita de se limitarem “a viver de expedientes” (a expressão é da exposição de motivos do projecto do PSD), e não como trabalhadores que recebem um subsídio que pagaram antecipadamente com os seus descontos. O dinheiro da segurança social é dos trabalhadores. Serve para isto mesmo. Não é uma esmola ou um favor. Coisa que um eterno jotinha, que quer mão de obra gratuita em vez de dignidade, nunca perceberá.
O silêncio de José Sócrates e os insultos de Passos Coelho mostram bem para onde estamos a caminhar. Graças ao acordo cozinhado pelos dois o desemprego vai aumentar ainda mais. Mas a preocupação destes senhores não é encontrar soluções para minorar o sofrimento daqueles que serão as maiores vítimas da crise. Um dá sinais de os querer ignorar (e até acha que diminuir o subsídio de desemprego é um incentivo para estes preguiçosos trabalharem), o outro tenciona usá-los para fazer populismo fácil, tratando-os como aldrabões e parasitas.
Têm estes dois fanfarrões coragem para pôr a banca a pagar o mesmo de IRC que as outras empresas? Ou para taxar a sério os prémios absurdos de gestores que sugam uma parte significativa das despesas em trabalho? Claro que não. Já se percebeu que os suspeitos desta temporada serão os do costume. E assim, talvez os portugueses se entretenham a culpar os desempregados pela sua desgraça e outros, também do costume, se escapem entre os pingos da chuva.
Na Islândia, ex-ministros e directores de bancos são investigados, detidos e arriscam-se a penas de prisão pesadas pelas suas responsabilidades criminais na crise que aquele país atravessa . Em Portugal também haverá condenados. Serão, como sempre, os mais desgraçados entre os desgraçados. É a sina deste país. Não é por acaso que é o mais desigual da Europa. Também o será na factura que vamos pagar nesta crise.
Publicado no Expresso Online.
49 comentários 19 Mai 10 em Sem categoriaÉ sintomático que, na entrevista de José Sócrates à RTP, as consequências sociais das medidas do governo (e do PSD) não tenham merecido grande atenção. Comentário audio à entrevista aqui.
22 comentários 19 Mai 10 em Sem categoriaO primeiro-ministro não podia estar mais certo. Não mudaram ao longo de 2009, enquanto o défice ia aumentando e os números eram escondidos do público; não mudaram durante os primeiros quatro anos de governo e o desemprego foi paulatinamente crescendo, por entre o financiamento a bancos privados, as apostas (entretanto abortadas) em obras públicas desajustadas da realidade, e a manutenção de um cartel de vampiros do regime que foi gradualmente tomando a forma de um polvo; não mudaram de rumo, enquanto o barco se afastava cada vez mais do resto da frota, prosseguindo na rota iniciada por Durão Barroso. Mudaram apenas como e quando a Sra. Merkel quis, a reboque da lei do mais forte. E o mundo mudou, e muito, e não foi em três semanas, mas ao longo de cinco anos, para os de sempre: os 10,5 por cento de desempregados, a classe média endividada, os precários e os pensionistas. Todos vão com certeza agradecer a quem de direito. Cá estaremos.
20 comentários 18 Mai 10 em Sem categoriaEscreve o Vasco Barreto:
63 comentários 18 Mai 10 em Sem categoria“O inglês de Sócrates é uma manifestação da sua circunstância social. Traduz a sua geração, pois será cada vez mais improvável que alguém chegue onde ele chegou a assassinar o inglês daquela maneira. Traduz também a sua educação, feita longe dos círculos burgueses e letrados dos grandes centros urbanos (penso no anglófilo Jorge Sampaio).
O “portunhol” de Sócrates é sobretudo uma manifestação da sua personalidade. Percebe-se ali o espírito de “desenrascanço”, um fura-vidas, uma enorme e algo autista confiança, a coragem, ousadia ou lata para enfrentar a elite económica e financeira de Espanha com tão parcos recursos.”
Nuvem de texto com as palavras utilizadas por José Sócrates nas respostas ao questionário da Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI. (representação gráfica efectuada com tagxedo).
6 comentários 18 Mai 10 em Sem categoria
Não há ninguém que não saiba que os gregos se reformam mais cedo do que os alemães. O populismo fácil – e que por vezes deixa escapar os seus fundamentos quase racistas – podia aproveitar para mostrar as horas que uns e outros trabalham. Diz muito pouco sobre a crise que se vive na Europa. Mas se é para desconversar, faça-se a desconversa até ao fim.
Gráfico roubado ao Vias de Facto

Para a União Nacional dos comentadores e economistas do bloco central são estes os responsáveis pelo estado em que estamos: os funcionários públicos; os trabalhadores supostamente protegidos pelas nossas leis laborais; os cidadãos em geral, que vivem endividados e acima das suas possibilidades; o excesso de peso do Estado; e o excesso de impostos para a classe média-alta.
Repare o leitor que entre os responsáveis nunca está a banca, que além de nos ter enfiado nesta crise e ter sido salva pelos nossos impostos ainda paga menos ao fisco que todas as restantes empresas. Nunca está a elite económica constituída por meia dúzia de famílias que têm o Estado como refém dos seus negócios e os partidos como reféns da sua vontade. Nunca estão dos gestores mais bem pagos da Europa no País com o salário médio mais baixos da Europa.
Repare o leitor que por uma qualquer coincidência nunca estão, entre os responsáveis pelo estado em que estamos, quem realmente tem poder neste País. Não espanta. É muito radical ser “politicamente incorrecto”. Mas é preciso olhar bem para o chão que se pisa. Não consta que com a simpatia de funcionários públicos, professores, sindicalistas, desempregados, beneficiários do Rendimento Social de Inserção ou trabalhadores menos abonados se arranjem e se mantenham bons empregos. Há que dizer e escrever coisas chocantes, mas sem chocar as pessoas erradas.
E é esta União Nacional que pede sangue mas convenientemente se esquece de quem conta, que ataca todos os “interesses instalados” menos os interesses que fazem e desfazem boas carreiras, que repete frases feitas até que a “arraia-miúda” se convença que a culpa desta crise é sua.
Por esse Mundo fora discute-se o papel das instituições financeiras na crise que vivemos. A cegueira de uma Europa medíocre e paralisada. Os perigos para as democracias de um capitalismo financeiro omnipresente e omnipotente. A disparidade de exigências de rigor orçamental aos países da periferia e aos que estão no centro de decisão da Europa. O suicídio económico a que os países europeus mais pobres estão a ser obrigados.
No debate doméstico tudo isto está praticamente fora da agenda. Faz-se, quase sem vozes dissonantes, a pedagogia do sacrifício. No país mais desigual da Europa há que convencer os que têm pouco a pagar esta crise. Para que o resto possa ficar na mesma. E não faltam “corajosos” a oferecerem-se para o serviço e para dizerem “o que tem de ser dito”. Com o máximo de violência possível. Sem maneiras nem rodriguinhos, que isto agora só lá vai com a afronta mais descarada a qualquer noção de justiça social.
É fundamental, para sairmos desta crise sem que os verdadeiros privilegiados deste País sejam beliscados, convencer os portugueses a aceitar tudo sem tossir nem mugir. Como explicou o ministro das Finanças à Bloomberg, não temos a tradição de criar problemas. Podem descansar os mercados, comemos e calamos sem grande alarido.
E, como bónus, os opinadores do resgime ainda vão conseguir virar os principais beneficiários do Estado Social contra a escola pública e gratuita, o Serviço Nacional de Saúde universal e para todos, as reformas e as prestações sociais. Fazê-los acreditar que, apesar de serem os mais pobres da Europa, vivem acima das suas possibilidades. Para que alguns possam continuar a viver em cima das nossas possibilidades.
É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer. E está a resultar.
Se acha que exagero, faça um zaping pelos canais de notícias. Depois folheie os jornais e leia os espaços de opinião. Leia os jornais económicos. Passeie pelas edições online dos principais órgãos de comunicação social. Esqueça o PS, o PSD, Sócrates e Passos Coelho. Esqueça os pequenos episódios com gestores públicos, empresários ou políticos de segunda. É espuma dos dias. Olhe para os poderes que antes deles já cá estavam e depois deles cá continuarão. Aquela meia dúzia de pessoas que manda neste País e o mantém no seu atraso. Veja quantos põem em causa os seus interesses.
Se encontrar, na análise desta crise, na denúncia dos seus responsáveis e nas receitas para sair dela, algum equilíbrio de opiniões, ficam aqui as minhas desculpas. Se, pelo contrário, confirmar o que aqui escrevo, perceba que o poder do privilégio faz sempre por manter o privilégio. Sobretudo quando a crise aperta. E que a opinião é, na “mediocracia” em que vivemos, uma arma que ele não dispensa.
Publicado no Expresso Online.
81 comentários 18 Mai 10 em Sem categoria
Governo “congelou” valor do défice de 2009 contra as previsões da DGCI. “Ao longo de 2009, os dirigentes da Direcção-Geral dos Impostos seguiram a cobrança fiscal. Ao arrepio do discurso oficial traçado desde Maio desse ano, que insistia estar a cobrança fiscal “em linha com o previsto”, a DGCI foi mensalmente assinalando uma degradação assinalável e chegou a estimar, a poucos dias das eleições legislativas de Setembro, uma quebra de 12,2 por cento face a 2008, quando o Governo ainda afirmava esperar uma queda de 9,1 por cento. Só em Novembro, o Governo admitiu o falhanço da previsão. O défice orçamental de 2009 acabaria por saltar para 9,3 por cento. O Ministério das Finanças não quis comentar”. (notícia do Público)
3 comentários 18 Mai 10 em Sem categoriaComo podemos ver neste vídeo, a vereadora da educação da câmara municipal de Mirandela sentiu-se muito mal – como professora e como mãe – com aquilo que viu na Playboy e, claro, acha muito bem que Bruna Real seja afastada das salas de aula; afinal, explica-nos serenamente, quando tomamos algumas opções na vida temos que arcar com as consequências e, portanto, abdicar de outras possibilidades. É a vida, diz-nos a vereadora. Mas sejamos claros, que os juízos morais de Maria Gentil (ou de outrem) possam interferir com a carreira profissional de uma uma professora é uma opção, porventura uma opção fundada em valores da ordem do imperativo ético, valores que a obrigaram a um activismo pelo recato corporal das professoras publicáveis, mas ainda assim uma opção. Outra opção, esta colectiva, é aquela que tomámos quando decidimos que o Estado e os seus meios não deveriam ficar na mão de juízos morais individuais, uma opção feita para, entre outras coisas, podermos abdicar de pessoas como Maria Gentil a exercerem poder discricionário. Mesmo que a moderamente gostosa da Bruna seja reintegrada, dadas as opções tomadas eu gostava de saber do que é que a nada gostosa Maria Gentil está disposta a abdicar.
8 comentários 17 Mai 10 em Sem categoriaEu não dou importância nenhuma a ….. O País anda distraído com estas coisas. …… não serve para nada nem vai resolver problema nenhum. A solução é mudar isto tudo. Não vejo ninguém a querer mudar o estado de coisas. Andamos todos a brincar.
Preencha o que está vazio com o que quiser e terá uma declaração do ex-ministro Medina Carreira.
76 comentários 17 Mai 10 em Sem categoriaConfesso que não me passou pela cabeça que o presidente falasse ao País para anunciar que promulgaria uma lei mas que ela não era prioritária e não devíamos perder tempo a discutir o assunto a que ele dedica uma das comunicações ao País – a outra foi o Estatuto dos Açores. Parece que Cavaco Silva está decidido a só falar ao País sobre assuntos que acha irrelevantes.
Fiquei apenas com uma dúvida: com a insistência em falar da crise económica a propósito desta lei, será que se prevê uma má reacção negativa das agências de rating ao casamento entre pessoas do mesmo sexo? É que se o problema era apenas o tempo que se perde com isto, limitou-se a gastar mais quatro minutos com o assunto.
24 comentários 17 Mai 10 em Sem categoriaO prolixo deputado Frasquilho, depois do João Galamba ter revelado um documento do BES, onde este porta-voz do PSD para as Finanças elogia a política orçamental do Governo com o mesmo desvelo fundamentalista com que a critica em público, diz que não existe nenhuma duplicidade no seu discurso. Afinal, explica, esse documento é só para estrangeiro ver. É uma argumentação original. Ou temos um banco que engana os seus clientes, ou as críticas do PSD ao governo são o teatro do costume e não são para levar a sério. Atendendo ao passado recente, não é de descartar o facto das duas hipóteses não serem excludentes.
9 comentários 17 Mai 10 em PSD
A selectiva pressão dos mercados financeiros ainda liberalizados estilhaça todos os contratos que estão na base da democracia, em especial nas periferias da União Europeia. Para todos os efeitos, em Portugal passamos a ter um bloco central que governa com o programa de austeridade de Ferreira Leite e dos economistas do choque e do pavor que cirandam por Belém. Este programa foi derrotado nas urnas em Setembro. Convém lembrar que Sócrates foi eleito com um programa que tinha como palavras-chave o emprego, a promoção do investimento e a justiça social.
O resto da crónica no i pode ser lido aqui.
4 comentários 17 Mai 10 em Sem categoria
Noam Chomsky não pode entrar em Israel. O conhecido linguista, filósofo e activista político norte-americano ia dar hoje uma conferência na universidade palestiniana de Birzeit , junto a Ramala, e tentou ontem passar a fronteira da Jordânia, pela ponte Allenby, mas viu recusada a sua entrada pelas autoridades. Depois de ter sido interrogado durante mais de três horas, e sem qualquer explicação, Noam Chomsky, que é judeu, teve o seu passaporte carimbado com a frase “entrada recusada”.
No Expresso.
Há um factor que nunca entra nas contas dos economistas do regime: que atrás dos números há pessoas. O que se está a tentar fazer na Grécia é impossível em democracia. Impossível! Nas imagens, professores precários ocupam a televisão pública. A coisa vai piorar ainda mais.
21 comentários 17 Mai 10 em Sem categoriaComo amigo de há vinte anos do Miguel Portas, fica para mim claro que há um jornal para os qual nunca mais direi uma única palavra: o “24 horas”. Confesso que durante os últimos 15 dias, em que acompanhei a coragem e a boa disposição do Miguel, que apenas a ele, à família e a nós, amigos dele, diz respeito, pensei que em Portugal ainda se respeitava aquele espaço nuclear da privacidade. A esmagadora maioria dos jornalistas assim o fez. Mas há sempre os que não sabem melhor do que o jornalismo de latrina.
Agora que se sabe e que o próprio decidiu, por isso, falar do assunto, repito as palavras do Miguel no Facebook: um elogio aos profissionais do IPO, que, como tenho testemunhado, são inexcidíveis na sua entrega e competência. Coisa que, para quem conhece esta instituição, não espanta.
Obviamente, escrevo sobre o assunto com o devido conhecimento e autorização do Miguel.
10 comentários 17 Mai 10 em Sem categoriaTudo indica que Cavaco Silva vai falar vetar a lei que permite a igualdade dos homossexuais no acesso ao casamento. E vai falar ao país esta noite. Seguramente dando ouvidos aos que foram argumentando que este tema não é uma prioridade para o país.
Hoje é o dia mundial contra a homofobia. Acharia interessante que o Presidente decidisse celebrar assim esta data.
40 comentários 17 Mai 10 em Sem categoria
Bruna Real dava aulas de música e era responsável pelas actividades extra-curriculares na escola da Torre de Dona Chama, em Mirandela. E é, por sinal, senhora bem apessoada. Decidiu, usando da sua liberdade e dos seus tempos livres, posar para a revista Playboy. Nua, como é costume na revista.
Por mera curiosidade ou por interesse pragmático (dependendo das idades), os alunos começaram a tirar fotocópias das sugestivas imagens da stôra. O homem que nunca pecou a pensar numa professora que atire a primeira pedra ou lamente a sua falta de sorte.
Os pais dos petizes, que são muito homens e não terão desgostado de tão tentadores atributos, ficaram chocados ao saber esta mulher do Demo tratava das actividades extra-curriculares dos miúdos. Não sei se por inveja, se por acharem que o pecado é doce mas deve estar longe dos olhos da família, comoveram-se (é o que diz a Câmara Municipal) e foi num instante até o assunto ser tratado pelas autoridades competentes.
Felizmente para a família transmontana, Bruna trabalha (ilegalmente) a recibos verdes, o que quer dizer que é apenas mais ou menos cidadã. O que ela faz da sua vida diz respeito a todos e, por isso, o “diácono” José Pires Garcia, director do Agrupamento de Escolas da Torre de Dona Chama, deixou tudo em pratos limpos: “aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora”.
Eu julgava que ser mau professor, ser incompetente, tratar mal os alunos, faltar às aulas – Bruna Real recusou outra sessão para a Playboy para não faltar às suas obrigações profissionais -, não ter preparação pedagógica ou não estar habilitado para a docência seria incompatível com a função de professora. Mas, ao que parece, o que se exige às professoras de Mirandela é que se mantenham vestidas mesmo quando estão longe da escola.
Para acalmar a excitação dos pais e mães de Mirandela (vizinhos das saudosas mães de Bragança), a vereadora com o pelouro da educação e bons costumes retirou a senhora da escola e recambiou-a para o arquivo – talvez por causa da sua ligação à actividade editorial -, garantindo que o seu contrato, que acaba em Julho, não será renovado. Está então reposta a moralidade. Sem a maçada de qualquer processo disciplinar, a vereadora tratou do julgamento, da sentença e da pena a aplicar.
Como muito bem recordou o presidente da Fenprof, não faltam professores “criminosos que estão indiciados por crimes de origem sexual e andam há não sei quantos anos a ser julgados e os processos nunca mais acabam”. Não mereceram nunca tão lesta medida cautelar. E esses sim, são motivo de alarme social. Já Bruna Real, que não cometeu qualquer crime e não fez nada que limite a sua capacidade de dar aulas, foi rapidamente arquivada. Porque, já se sabe, a hipocrisia vive bem com os pecados escondidos, mas não aguenta a simples imagem de uma mulher nua. Podemos lá suportar a ideia de que uma professora tem corpo.
Já se sabe que para os machos ibéricos e suas submissas esposas há dois tipos de mulheres: as sérias, com quem se casa e se tem filhos, que são professoras e exemplo para os nossos petizes, e as que sendo excelentes para capas de revistas, despedidas de solteiro ou facadas no matrimónio, não servem para andar por aí à luz do dia, nas salas de aula dos nossos rebentos.
Felizmente, apesar de tudo, algumas coisas vão mudando. Pelo menos uma mãe reagiu normalmente. “Estranhei o meu filho ter-me pedido dinheiro para comprar uma revista onde vinha a professora. Quando percebi qual era a revista deu-me vontade de rir”. E diz que não consegue criticar a docente: “cada um é livre de fazer o que lhe apetece”. A Confederação Nacional de Pais defende que não deve haver qualquer pena e os vários sindicatos dos professores defedem o direito de Bruna Real à sua vida fora da escola. Menos mal. Talvez com o tempo cheguemos mesmo ao século XXI.
114 comentários 17 Mai 10 em Sem categoria© rabiscos vieira
o meu alter-ego blogosférico mudou-se do blogger para o sapo, o que configura um tipo de movimento já conhecido como rui pedro soares, do império google para o pt, então, a ver se la vida se torna mais loca e bonificada. por conseguinte o irmaolucia agora mora aqui.
5 comentários 17 Mai 10 em Sem categoria“[N]ão é com políticas conjunturalistas (…) que se podem resolver os problemas estruturais da economia. Tais políticas podem, transitoriamente, reduzir os défices externos mas não resolvem as suas causas. Podem, temporariamente, reduzir o ritmo de crescimento da dívida externa, mas não a diminuem. E lançam o país num círculo infernal das recessões cada vez mais prolongadas e profundas, de destruição progressiva da base produtiva, de desemprego crescente, de agravamento constante da miséria e da dependência externa económica, financeira e política.”
Octávio Teixeira, 1983.
Vale a pena ler o excelente trabalho de João Ramos de Almeida no Público. A memória é uma arma. Octávio Teixeira, Carlos Carvalhas, Sérgio Ribeiro, Francisco Louçã, João Ferreira do Amaral e poucos mais economistas alertaram a tempo e horas para os perigos da integração dependente da economia portuguesa no euro. Enfim, o retrato da actual configuração do capitalismo português, depois de um longo ciclo, com mais de vinte anos, de constante liberalização, de maciças privatizações e de irresponsável perda de instrumentos de política económica, sem contraponto em novos mecanismos de política pública dignos desse nome à escala da União Europeia, revela que a fractura social e a estagnação económica são os dois principais capítulos do romance de mercado, transformado em guia para a política, na semiperiferia da economia global. A história repete-se e a tragédia continua.
26 comentários 16 Mai 10 em Sem categoriaVamos lá falar de coisas sérias: hoje, assim que cheguei ao meu local de trabalho, a primeira coisa que fiz foi pegar na respeitável magazine Playboy (edição portuguesa) para encontrar a professora de AECS (quem é pai tem de valorizar estes pormenores de requinte) que foi suspensa das suas funções e posta a trabalhar como bibliotecária (ou arquivista). Acontece que eu tenho uma especial predilecção por mulheres que se dedicam à mineração livresca, daí o interesse que a notícia de, vá lá, quase todos os jornais e muitos blogues, despertou em mim. Folheei até à página certa, e por momentos senti-me diferente dos leitores habituais, como se o facto de a jornada laboral da Bruna (a redução da identidade de alguém ao primeiro nome é todo um programa) me conferisse alguma legitimidade intelectual na minha demanda bardajona. Ela lá estava, com um bocadinho mais de silicone do que o normal, o look careca que agora é moda – como diz Hank Moody em Californication, parece que estamos a olhar para uma criança, e isso não pode ser bom – em calorosa intimidade com outra moçoila loura – quem sabe se a discutir a infabilidade papal ou as possibilidades de vitória da selecção. Parece que os alunos andaram a distribuir fotocópias da sessão e, à parte a questão dos direitos de autor, não vejo o que possa haver de censurável nisso. Como acontece habitualmente, houve alguém que, imbuído de um espírito nitidamente malévolo, denunciou a situação a quem de direito. Esse de direito mandou a stôra para a biblioteca e anunciou que não irá renovar o vínculo precário – 500 euros a recibo verde – que ligava a rapariga ao Estado. Bem, nem vale a pensar muito na moralidade da decisão do responsável – na verdade, quem não ficaria contente com a publicidade extra em vez de um ordenado miserável a termo certo (o fim do ano lectivo)? O que me deixa realmente revoltado é o facto de algumas pessoas terem nascido antes do tempo – aquela professora de História do 6º ano, a que se sentava em cima da secretária, mesmo à nossa frente, usando uma mais do que mini-saia, passou ao lado destas oportunidades oferecidas pela Playboy portuguesa. O que tornou a nossa vida – a minha e a dos meus colegas de turma – muito menos estimulante. Conclusão: as mães de Bragança fizeram escola. Graças, muitas graças, a Deus.
33 comentários 16 Mai 10 em Sem categoria


















