2 Dedos de Conversa


29 Maio 2010

vidas de PIGS

Eu bem vos digo que deviam ler mais vezes o Ladrões de Bicicletas. Hoje, por exemplo, tinham este vídeo fantástico (ignorem os erros da tradução, provavelmente é automática) sobre os erros que a Europa tem vindo a cometer em relação à Grécia:



E já que estou em maré de dar conselhos: também haviam dar mais ouvidos ao que dizem os católicos (hehehehe), esses intrometidos fundamentalistas, que em vez de se bastarem com a missinha dominical gostam é de meter o bedelho na nossa vida. Por exemplo, estas considerações que encontrei no Ouvido do Vento:


Sobre o Programa de estabilidade e crescimento (PEC)

Posição do Grupo de Trabalho «Economia e Sociedade»
da Comissão Nacional Justiça e Paz

1. Considerando a importância de que se reveste o Programa de estabilidade e
crescimento (PEC) recentemente apresentado pelo Governo à Comissão
Europeia, o Grupo de trabalho «Economia e Sociedade» (GTES) da Comissão
Nacional Justiça e Paz (CNJP) considera seu dever e responsabilidade
manifestar a sua opinião sobre as orientações de política financeira, económica
e social constantes desse documento, em virtude das implicações que as
mesmas poderão ter na vida pessoal e colectiva dos portugueses, nos
próximos anos. Movem-nos preocupações pela construção de uma sociedade
mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde seja possível um verdadeiro
desenvolvimento humano.

2. Dada a situação financeira do País, e o modo como ela é apreciada pelo
mercado internacional e pelas instâncias comunitárias, mais cedo ou mais
tarde, haveria de surgir a necessidade de um programa de equilíbrio das
contas públicas e de contenção do endividamento dos portugueses, para dar
segurança aos credores, permitir o acesso ao crédito no mercado internacional
e conter o respectivo custo. Por isso, não subestimamos o esforço feito pelo
Governo para apresentar um programa de ajustamento credível, com recurso a
corte na despesa pública e aumento das receitas do Estado.
Esse esforço deveria ser acompanhado por uma activa procura de consenso
entre os partidos na aplicação de medidas incluídas, ou a incluir, no PEC,
manifestando a seriedade com que encaram a situação do país.

3. Ainda assim, o GTES quer expressar, desde já, as suas preocupações
quanto às possíveis consequências negativas que poderão decorrer da
respectiva execução, se, entretanto, não forem seguidos outros rumos e
tomadas outras medidas directamente votadas ao desenvolvimento sócioeconómico,
à contenção do desemprego, à correcção das desigualdades nas
suas várias vertentes e à erradicação da pobreza, que continua a atingir parte
significativa da população portuguesa.

4. Reconhecemos que é delicada a situação em que o nosso País se encontra
face aos mercados financeiros, nomeadamente no que respeita ao nível de
défice público, recentemente agravado pela necessidade de fazer face aos
efeitos da crise mundial; ao endividamento público e privado já alcançado e
correspondentes encargos com a dívida externa. Sabemos, também, como, no
actual contexto de liberalização do mercado financeiro, os credores adquiriram
e conservam tal poder que os torna particularmente exigentes em matéria de
garantias e de custo do dinheiro.
Em nosso entender, porém, o PEC sendo um esforço do Governo português
para ir ao encontro dessas exigências de credibilidade externa, não deve
esconder ou ignorar os verdadeiros problemas estruturais de um País que
enfrenta um processo de reestruturação acelerada do seu processo produtivo,
num contexto de globalização e financeirização crescentes e de crise mundial
por superar. Assim sendo, o problema português de conseguir o equilíbrio
financeiro não é uma situação singular que apenas diga respeito aos
portugueses, antes está correlacionada com o ambiente externo.

5. Por isso, o GTES denuncia a presente desregulação do mercado financeiro
mundial - que cria situações muito gravosas para as pequenas economias em
dificuldade - e desejaria que, particularmente no âmbito da União Europeia, se
fizessem os indispensáveis esforços para que, com a maior brevidade, se
encontrem caminhos de uma eficiente regulação financeira do mercado
mundial.

6. Por outro lado, consideramos que a União europeia e a sua moeda única só
terão viabilidade se vier a existir, a curto prazo, uma coordenação reforçada da
política económica e financeira de todo o espaço comunitário, a qual, em nosso
entender, deve visar objectivos de desenvolvimento humano sustentável (do
ponto de vista ambiental e de coesão social). Uma tal politica deverá vincular o
Banco Central Europeu (BCE), de modo a que a política monetária da
responsabilidade desta entidade esteja efectivamente ao serviço da economia
comunitária e seus estados-membros.

7. Também não aceitamos a brandura com que as instâncias comunitárias têm
agido em relação aos offshores ou o facto insólito de o BCE não dispor de
capacidade para apoiar os países em dificuldade financeira, obrigando estes a
ter de recorrer ao crédito dos bancos privados e a suportar juros abusivos e
demais condições não raro especulativas, e, por outro lado, consentindo que os
bancos privados se refinanciem junto do BCE a taxas de juro quase nulas.

8. Merece, igualmente, denúncia e reprovação o excessivo poder adquirido por
certas agências de rating e o papel que as suas classificações têm, de facto,
nas condições de acesso ao crédito e custo do mesmo. Não se compreende
que a União Europeia não se tenha ainda dotado de uma unidade
independente de avaliação de risco financeiro ao serviço de uma governação
comunitária.

9. Portugal, como País membro da União, deve usar da sua capacidade de
intervenção para que a U.E. disponha da competência e dos meios necessários
para aperfeiçoar os seus mecanismos de governação à escala comunitária e
de influência na construção de uma forma adequada de regulação democrática
do mercado global.

10. Relativamente às medidas preconizadas no PEC, cabe chamar a atenção
para algumas das suas possíveis consequências negativas que, ao longo da
sua vigência, deverão, do nosso ponto de vista, ser corrigidas, bem como
apontar caminhos que, em nosso entender, deveriam ser seguidos.

11. Quanto aos cortes nas despesas, estão contempladas no PEC metas
aceitáveis no que se refere à contenção de gastos gerais considerados
supérfluos, maior racionalização nas aquisições de bens e, principalmente,
uma redução significativa com gastos em consultadorias em outsourcing. É
fundamental que a Administração pública procure patamares de eficiência e
eficácia, aos menores custos.

12. Já no que respeita a reduções na despesa social, é oportuno lembrar que
aquela não pode ser vista como um custo: deve antes ser considerada como
um investimento no capital humano e, bem assim, como um instrumento de
coesão social e uma condição necessária para cumprir um dever de equidade
e solidariedade, sobretudo em tempos de crise económica.

13. Com as dificuldades que se avizinham, é fundamental que o Estado não
deixe de cumprir o seu papel de protecção social, em particular no combate à
pobreza e à protecção dos desempregados. De igual forma, deve assegurar a
oferta pública de bens e serviços essenciais, com destaque para a educação e
a saúde, com adequados padrões de qualidade.

14. Quanto ao previsto congelamento dos salários na administração pública,
entendemos que se trata de uma medida injusta e com previsíveis
consequências negativas do ponto de vista da desejada sustentação da
actividade económica, pelo lado da procura. Mesmo admitindo ser necessário
reduzir o volume total das despesas com pessoal, tal redução deverá fazer-se
de modo equitativo, aproveitando para consagrar um leque salarial mais justo e
restringindo o recurso a prémios, despesas de representação e outras de que
beneficiam os gestores e os quadros técnicos superiores. Nunca à custa de
redução indiscriminada de salários, pela via do respectivo congelamento. Não
pode esquecer-se que o padrão de remunerações da Administração Pública
serve de referência ao sector privado.

15. Idêntico reparo merece a intenção do PEC quanto à diminuição do emprego
na função pública, medida, também ela perigosa, dado que há sectores da
Administração e serviços públicos onde, já hoje, existem manifestos défices de
recursos humanos. Por outro lado, não pode esquecer-se o elevado nível de
desemprego existente no País e o papel que, nestas circunstâncias, o Estado
(Administração central e Autarquias) pode desempenhar na necessária
sustentação do emprego.

16. No que toca à despesa em investimento público, dado o seu impacto em
termos de incentivo à actividade económica e na criação de emprego, entende
o GTES que importa, sobretudo, apostar numa selectividade rigorosa e
orientada por critérios de satisfação de necessidades reais e de bem comum.
O PEC prevê a desaceleração em alguns projectos de investimento público, o
que parece sensato, mas não deveria descurar os investimentos públicos
destinados à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos ou a servirem de
incentivo à modernização e reestruturação do tecido produtivo.

17. A este propósito, cabe lembrar que as pequenas obras públicas de
desenvolvimento local se apresentam com efeitos, directos e indirectos,
relevantes do ponto de vista da utilização dos recursos humanos locais e
absorção do desemprego, além de que se traduzem, imediatamente, no bem-estar
das respectivas populações locais, servindo, por isso, objectivos de
coesão social, que não podem deixar de ser contemplados em qualquer
estratégia de ajustamento. O incentivo à expansão da economia social e
solidária deveria merecer a devida consideração.

18. No que concerne ao aumento das receitas públicas, entendemos que na
execução do PEC não deve perder-se de vista a necessidade de corrigir as
grandes desigualdades na repartição da riqueza e do rendimento existentes no
País e aproveitar esta oportunidade para proceder a uma adequada reforma do
nosso sistema fiscal e de contribuição para a Segurança Social.

19. Julgamos que, neste período de ajustamento, seria admissível o recurso a
novas fontes de receita, como, por exemplo, a constituição de um Fundo de
emergência consignado a objectivos de erradicação da pobreza ou de criação
de emprego, com base num adicional de tributação a recair sobre espectáculos
e divertimentos ou bens considerados de luxo.

20. Do mesmo modo, considera o GTES que se impõe um esforço
complementar para acelerar a cobrança de montantes elevados de impostos
em dívida assim como a tomada de medidas de prevenção da fuga
considerável de receitas fiscais através de paraísos fiscais.

21. Prevê o PEC o recurso à alienação de participações do Estado num
conjunto de empresas estratégicas. Entendemos que abdicar dessas
participações é prescindir de uma certa margem de intervenção na economia,
além de que se trata de obter receitas imediatas de uma só vez, mas
prescindindo de receitas futuras.

22. No âmbito das parcerias público-privadas, é de desejar que se procedam a
reapreciações de cada situação concreta, de molde a procurar acautelar não só
a esperada qualidade dos bens contratualizados como também a partilha
equitativa dos correspondentes riscos financeiros.

23. Reconhece o GTES que não é da sua competência debruçar-se sobre
aspectos de ordem técnica implicados no PEC e na sua execução; tão pouco
considera que deva pronunciar-se em termos análogos à das diferentes
facções partidárias ou parceiros sociais. As considerações feitas neste
documento relevam de uma concepção de economia não divorciada de uma
ética social que tem como referenciais a dignidade da pessoa humana e o bem
comum.

24. É neste horizonte, que julgamos dever alertar para que a consequência
mais negativa que poderia decorrer deste PEC é ele alimentar a ilusão de que
constitui a chave para enfrentar os nossos problemas de desenvolvimento a
médio prazo. Com efeito, o País precisa de um rumo para um desenvolvimento
sustentável, do ponto de vista ambiental e de coesão social e não é um mero
crescimento económico que o permite alcançar.

25. O modelo de crescimento implícito no PEC parece sobretudo assentar nas
exportações. Ora, hoje é geralmente reconhecido que um tal modelo não é
garantia de real desenvolvimento e não assegura que sejam alcançados
objectivos, em nosso entender fundamentais, como sejam: a equitativa
repartição do emprego e do rendimento; um trabalho digno para todos; a
igualdade de oportunidades no acesso ao progresso; a prioridade da
erradicação da pobreza; a promoção da qualidade de vida dos cidadãos.

26. Como já em outras ocasiões a CNJP afirmou, insistimos em que a pobreza
não é uma fatalidade. Significa, apenas, que há necessidades básicas de uma
boa parte da população a que o mercado, nas actuais circunstâncias, não dá
resposta e, por conseguinte, a erradicação da pobreza deve ser considerada
um objectivo explícito de toda a política pública e não uma mera questão
residual ou hipotético efeito secundário de um qualquer crescimento
económico. É fácil demonstrar que pode haver elevado índice de crescimento
económico com agravamento da pobreza e da exclusão social.

27. Por outro lado, todos nós reconhecemos que há necessidades colectivas
no domínio da educação, da saúde, da segurança, da habitação, que estão por
satisfazer e cuja satisfação deve ser tida como objectivo a atingir por uma
estratégia de desenvolvimento que, para o efeito trace metas concretas, pois
estas não se alcançarão apenas com o mero crescimento económico entregue
a uma lógica do mercado sob a hegemonia dos interesses do capital financeiro
internacional.

28. Não pode, igualmente, esquecer-se que está por enfrentar o processo de
reestruturação do processo produtivo em curso e a passagem a uma economia
baseada no conhecimento. Há sinais positivos devidamente destacados no
texto do PEC, nomeadamente no domínio da expansão dos serviços e na
intensidade da componente tecnológica, mas há que traçar uma estratégia
clara de transição que permita fazer face aos custos sociais das indispensáveis
reestruturações e sua repartição equitativa.

29. Com esta sua tomada de posição, o Grupo de Trabalho «Economia e
Sociedade» da CNJP quer oferecer às comunidades cristãs e à sociedade civil
um estímulo para que reforcem o seu interesse e empenhamento na
construção de um mundo mais justo e por isso também mais feliz. Dirige-se,
igualmente, aos poderes públicos na perspectiva de um serviço de cidadania e
de responsabilidade democrática, que reclama maior empenhamento por parte
do governo e de outras entidades com participação nas instâncias comunitárias
no sentido de pugnar por uma construção europeia mais sólida e mais
respeitadora de valores éticos comuns.

O Grupo de Trabalho “Economia e sociedade”
27 Abril 2010

os gémeos, Lisboa, Berlim

As fotografias que encontro sobre o trabalho dos gémeos em Lisboa, roubadas daqui e de amigos de amigos de amigos no facebook, revelam-me um cenário chocante. Para quem mora em Berlim, absolutamente chocante.
Porque é que aquelas janelas estão tapadas com tijolos? Será que as casas estão simplesmente à espera de serem transformadas em terreno de construção?







Para entenderem melhor porque me horroriza tanto ver aqueles tijolos, aqui vai uma fotografia encontrada ao calhas na internet, sobre as ruas de Berlim:

28 Maio 2010

maldito relativismo

Reincidi.
Voltei ao ginásio, desta vez porque me ofereceram uma hora com um treinador pessoal.
(Como é possível ser tão ingénua?)
Começou bem, com simpáticas manobras de sedução para melhor cercar a vítima.
- E então, quais são os seus objectivos?
- Objectivos?
- Enfim, reforçar os músculos do tronco, talvez?
- Sim! Boa ideia, boa ideia.
- Então vamos lá.

Fomos.
Poupo os detalhes dos 45 minutos mais longos da minha vida.
Noutros tempos, bastaria mostrar estes meus músculos lacerados à Amnesty International, e o carrasco do ginásio ficava logo a saber como elas mordem. Mas por causa do maldito relativismo, tudo se aceita, desde que praticado por adultos livres.

***

Como se não fosse suficientemente mau, a minha filha comentou que as torturas a que fui sujeitada não passam de exercícios de aquecimento nos seus treinos de lacrosse.
Maldito relativismo infiltrado, que nem as crianças poupa!

26 Maio 2010

deixa cá ver se este blogue é lido por algum berlinense...

Estou a oferecer (gratuitos, for free, kostenlos) vários bilhetes para o Lang Lang, no próximo domingo, às 11 da manhã, na Filarmonia. Quem quiser, deixe recado na caixa de comentários.

(Rita, os teus estão cativos. Encontramo-nos às dez e meia, em frente à bilheteira da Filarmonia. Mais minuto menos minuto. Se uma portuguesa alta e morena meter conversa contigo, não sou eu. É a Maria, provavelmente desesperada para me tentar encontrar e me torcer o pescoço por causa de uns exageros que eu disse sobre a burocracia alemã.)

sol azul e céu radioso - ou talvez o seu contrário

Já me aconteceu cinco vezes nesta primavera: um dia lindo, lindo. Abro o armário para tirar a roupa de verão - e começa logo a chover.
Desta vez vou trocar as voltas ao destino: saio para a rua com o casaco comprido de fazenda. Prefiro suar de calor dentro das camisolas de gola alta, a lastimar o mau tempo neste fim de Maio.
E se na rua olharem para mim como se achassem que sou maluquinha, não me importo: eles não sabem nada. O que faz avançar o mundo são visionários como eu. Deviam era agradecer-me o sacrifício, cambada de ingratos.

Obscena

Via Bandeira ao Vento dou-me conta das dificuldades que a revista Obscena atravessa.
Entristece ver um projecto destes esmorecer, e dá vontade de começar logo a imaginar maneiras de casar melhor esta ideia com o mercado.

Foi você que pediu uma ideia?
Com quem se foi meter...

Devo dizer que com esse nome, e nos tempos que correm, não me espanta que tenha dificuldades.
Melhor seria que mudassem de vida: em vez de Obscena, chamem-lhe Escorreitinha, e vendam-na nos arquivos históricos do país. Sucesso garantido.

21 Maio 2010

serviço público: o risco das vendas a descoberto explicado em palavras simples

O diário berlinense que costumo ler explicava ontem porque é necessário proibir rapidamente as vendas vazias a descoberto (naked short selling). Googleei uns minutos em português, e muitos davam a notícia da proibição (aqui, por exemplo) mas nenhum explicava bem o que está em causa , pelo que fiz uma síntese da tradução (ou uma tradução da síntese) do artigo que, em alemão, pode ser lido aqui.


O governo alemão proibiu as vendas vazias a descoberto sobre títulos da dívida pública de países da zona euro. Nem todos os países da UE aprovam esta decisão. Para que serve esta proibição?

O que são vendas vazias?
Quando precisam de fazer um empréstimo, os países vendem títulos da dívida pública, pagando juros aos detentores desses títulos. Quanto menos confiança houver no reembolso desse títulos, mais altas têm de ser as respectivas taxas de juro. E quanto mais altas as taxas de juro, mais baixa é a cotação do título, porque não há muitas pessoas interessadas em correr esse risco, ou seja, há poucos compradores. Estas variações na cotação podem proporcionar muitos ganhos a especuladores que pratiquem vendas vazias. Neste caso, eles "apostam" que os compradores estão a perder a confiança na capacidade de pagamento de um país, e que a cotação dos títulos da dívida pública deste vai continuar a descer.

Exemplo de uma venda vazia: B empresta a A uma determinada quantidade de títulos (por exemplo, Obrigações do Tesouro). Cada título tem o valor de 10 euros. Para receber o empréstimo, A pagará a B uma taxa de 1 euro por título. Uma vez na posse destes, vende-os na Bolsa, recebendo 10 euros por cada um. Ao fim de determinado período, A tem de devolver os títulos a B, e regressa à Bolsa para os comprar. Se o preço entretanto baixou para 8 euros, A tem um lucro líquido de 1 euro por cada título transacionado - sem ter investido um único cêntimo.

No caso da vendas vazias a descoberto, A nem precisa de arranjar títulos emprestados. Vende-os apostando na sorte, pois a Lei só o obriga a fornecer os títulos alguns dias após a realização do negócio. Ou seja: "apostando" que a cotação vai baixar, espera uns dias para comprar a um preço mais baixo os títulos que já vendera dias antes a um preço superior - embolsando essa diferença de cotações. O problema: se há demasiados actores a vender títulos que nem sequer detêm (vendas vazias a descoberto), pode acontecer haver muitos mais títulos à venda que os que existem de facto. E nesse caso a aposta dos especuladores resulta em cheio: a cotação dos títulos da dívida pública baixa rapidamente, provocando um grande aumento dos juros que esse país tem de pagar para conseguir empréstimos por meio da venda de títulos.


O que são credit default swaps?

Uma outra possibilidade de especulação é oferecida pelos seguros de falta de pagamento de dívidas, conhecidos por credit default swaps (CDS). Trata-se de seguros que permitem aos detentores de títulos da dívida pública garantir o reembolso do seu investimento caso o país não esteja em condições de pagar. Contudo, os especuladores podem comprar os CDS mesmo sem serem detentores dos títulos que estes pretendem segurar. Eles "apostam" que os detentores dos títulos vão perder a confiança naquele activo, e quererão fazer um seguro. Quantos mais CDS forem comprados, mais alto será o seu preço, pelo que os especuladores os poderão vender a um preço superior ao que pagaram. O problema: quanto mais caros os CDS, mais os investidores temem que o país não possa pagar o capital em dívida. O que faz com que as taxas de juro desses títulos disparem.

O que foi proibido?

Só detentores de títulos da dívida pública da Eurozona estão autorizados a comprar os respectivos CDS. A venda vazia a descoberto é proibida para esses títulos e também para acções de dez grandes institutos financeiros alemães (entre os quais o Deutsche Bank, o Commerzbank e a Bolsa Alemã). Relativamente a estes últimos, pretende-se evitar que os especuladores apostem contra a cotação das acções destes institutos, desestabilizando o sistema financeiro. Por enquanto não há uma lei, apenas uma medida de precaução tendo em conta a situação actual no mercado. As proibições são válidas até Março de 2011.

Alguns apontamentos:
Há quem aprove, há quem discorde. Uns dizem que é um sinal importante para os especuladores, outros temem que seja um sinal negativo para os investidores. Por outro lado, a maior parte desses negócios com títulos da dívida pública não são feitos na Bolsa, mas "over the counter", o que torna o controlo muito mais difícil.

como já faz algum tempo que não me ocorre uma ideia muito brilhante e muito populista, que me dizem desta:

Para resolver a crise em Portugal, em vez de reduzir salários e aumentar impostos, podiam-se indexar os salários e as reformas ao salário mínimo.
Por exemplo:
- quem ganhar acima de 4, 6, 10 salários mínimos, paga sobre o excesso um imposto de 80% (com uma variante mais agradável: as chefias de uma empresa não podem ganhar mais que 10 vezes o salário mais baixo pago por essa empresa - ou então, pagam o tal imposto pelo excesso)
- o total de reforma (ou conjunto de reformas) auferida por uma pessoa não pode exceder 4, 6, 10 salários mínimos. Quem quiser mais, tem de fazer um seguro privado complementar.

Dir-me-ão agora: ai, mas os muito competentes merecem ganhar mais...
Quais muito competentes? Ocupar um cargo não é sinónimo automático de competência. A competência mede-se pelos frutos, e - perdoem-me a tirada populista - não se têm visto muitos frutos em Portugal.

Dir-me-ão também: mas vamos afastar do país aqueles que têm mais dinheiro?
Assim sem pensar muito (quando se está numa onda de demagogia, não convém fazer trabalhar os neurónios) pergunto-me quantos muito ricos ajudaram Portugal, e só me ocorre um nome: Gulbenkian.

a Igreja sempre preocupada em defender os interesses das mulheres

Andava eu toda descansadinha a fazer a ronda dos blogues, eis senão quando dei com esta importante informação: "and now for something completely different".
Vão lá ver, e depois voltem, para me darem razão nesta conclusão rápida que tirei:

- aaaaah, afinal, quando vozes da Igreja pedem aos homossexuais que reconsiderem e arrepiem caminho e casem e criem família, estão é a pensar na felicidade das mulheres!

(Está bem, está bem, reconheço que esta minha gracinha é pateta.)
(Muito pateta, aliás.)

20 Maio 2010

carnaval das culturas em Berlim


Este fim de semana há festa em Kreuzberg.
Confesso que é a pior época do ano para a minha xenofobia natural: no meio daquela alegria de países, comidas e músicas, é difícil uma pessoa sentir desconfiança e rejeição em relação aos, ahem, estrangeiros.

19 Maio 2010

daquela vez que fomos a LA saborear um Thanksgiving com amigos

Mais uma do baú do outlook (que já desapareceu outra vez, por sinal, e me deixou apenas migalhas como esta):


Thanksgiving, 2001

SF - LA


A parte má: 6 horas de carro ó pra lá, 9 horas de carro ó pra cá, 200 milhas de engarrafamento quase contínuo no regresso, com direito a mistério: ao fim de 5 horas parámos 15 minutos para encher um depósito e despejar os outros, quando voltámos à estrada já não havia engarrafamento. A única explicação que tenho é que de algum modo souberam que era eu quem estava agora ao volante, deve ter sido um salve-se quem puder toda a gente a fugir da estrada.

A parte boa: adivinhem! Os amigos com quem nos encontrámos.

Resolvida a questão maniqueísta, vamos então por partes:

Não falo dos festins, que há aqui muita gente de dieta.
Mas sempre vou adiantando que todas as noites foram de festa, sempre com boas conversas e bons risos, às vezes com direito a bela sessão de massagens e escola de samba - as surpresas que LA by night nos reserva!
Também posso dizer que as nossas noites foram bem melhores que os meus dias, e que dias...

Três dias de divertimento pré-fabricado: Santa Monica Pier (só faltavam os cartazes "sorria, estamos a fazer o que podemos para o divertir"), Universal Studios (ekchon, ekchon, ekchon!), Disneyland (the merriest place on earth) (ainda hei-de ver o que é que isto significa nos dicionários. Não consegui entender, nem sequer tentando tirar pelo sentido.)

O que uma mãe não faz pelos filhos!

No Santa Monica Pier havia um músico a cantar reggae, foi a parte mais agradável da tarde: ouvir aquela música em frente ao mar, perto do pôr do sol. Também houve um momento divertido quando o Matthias tentou acertar com bolas de ténis nos bonecos de uma barraca e as bolas pareciam enfeitiçadas, voavam em todas as direcções menos na dos bonecos, juntou-se um grupinho de gente a rir da falta de jeito, se eu fosse esperta tinha levado um chapéu para a Christina passar no fim do show.

Dos Universal Studios é melhor nem falar, raramente vi tanta action tão despropositada. Assistimos a uma sessão dos Blues Brothers, é sempre engraçado ouvir aquela música. Só que eles faziam questão que os meus filhos se levantassem e dançassem e abanassem os braços acima da cabeça, o que eles se recusavam a fazer. De modo que os Blues Brothers lá do palco faziam caretas para nós, e nós fazíamos caretas para eles, eu mais ainda que o Matthias, vão lá chatear o tio deles com a mania de arrebanhar a audiência em dinâmicas instantâneas de massas. Depois demos a voltinha dos pavilhões e essa sim, foi interessante para mim, embora os miúdos tenham tido algum medo por causa dos efeitos especiais. O que uns filhos não fazem pelas mães.

A maior desilusão foi a Disneyland, eu juro que pensava encontrar aquele palácio lindo da publicidade nos livros do tio Patinhas, e sai-me uma casinha de tamanho barn. Vão passear, seus engana crianças.

Caí na asneira de levar os miúdos aos bobsleds do Matterhorn, ainda o carro não tinha começado a ser içado já eu estava arrependida. Ao primeiro sacão agarrei-os bem, comecei a repetir "não nos vai acontecer nada, não se preocupem", fechei os olhos e continuei a repetir "não nos vai acontecer nada!" - só não comecei a rezar porque já sei que não resulta, mas pouco faltou. Quando saímos, a Christina contou toda calma que tinha visto bichos muito engraçados, uns verdes e outros azuis.

A meio do dia começou a chover torrencialmente. Em desespero de causa fomos para o Tiki room. À entrada eu perguntei o que era e o funcionário respondeu "flores e pássaros cantores" e eu, parva, "verdadeiros?", e a Christina sussurrando embaraçada "que pergunta, mãe!" e o funcionário "estão à sua frente".

À minha frente havia bonecada, pássaros e flores pendurados, atrás de mim a chuva torrencial, venha o diabo e escolha, entrámos. Daí a nada estava a olhar boquiaberta para manganões com idade para serem meu pais, todos eles balançando nas cadeiras e cantando uma canção supostamente oriunda das ilhas dos mares do sul, em coro com a bonecada, os tais pássaros e as flores. Muito divertido, quase chorei de desconsolo.

Saímos do Tiki room e tentámos chegar à ilha dos piratas, mas estava tudo fechado por causa da chuva que entretanto tinha transformado as ruas em rios. Em alguns pontos a água tinha quase meio metro de profundidade. Ainda passei alguns sítios com os filhos ao dependuro para não molharem os sapatos, mas não adiantou. Em pouco tempo estavam encharcados até à barriga. Nas esplanadas dos restaurantes os empregados tentavam varrer a água, foi a primeira vez que vi o Sísifo de capa da chuva. Dos altifalantes saía música muito merry, as pessoas atravessavam as ruas inundadas com um ar infeliz e desorientado, se a Disney quisesse rir de si própria não poderia ter feito melhor. Desistimos, fui pedir um reembolso dos bilhetes porque não há direito de fazerem ruas sem fazerem escoadouros de água, nem precisei de argumentar, eles estavam a dar bilhetes novos sem discutir. Hehehe, é bem verdade que quem não chora não mama.

Entretanto a chuva abrandou, dos altifalantes saía "you've got a friend in me" e nós começámos a cantar, dançando como patos, pés nos charcos, platsch platsch dentro dos sapatos. Voltamos para LA sem sapatos nem calças, só foi chato quando tive de meter gasolina, improvisei como pude uma saia com o meu casaco, mas não fui presa por ofensa à ordem pública.

Resumindo e concluindo: LA está para mim como Sodoma para o profeta, o que a salva é a meia dúzia de justos que lá vive e por esses até era capaz de me mudar para lá!

a propósito do portunhol do Sócrates

A Rita escreveu este post excelente.

(E eu aqui a pensar porque é que os portugueses fazem questão se se envergonhar do Sócrates, quer tenha ele cão quer não tenha)

alvíssaras! alvíssaras! consertaram-me boa parte do outlook

Sabem como é a teoria dos buracos negros, da matéria tão densa que nada lhes escapa e tal?
Aconteceu no meu outlook: o ficheiro pst foi crescendo crescendo crescendo, passou os 2 GB e, quando um amigo me mandou as gracinhas habituais à sexta, tornou-se um buraco negro. Estava lá tudo, não se via nada.

Ontem passou por cá um anjo salvador chamado Horst, que tentou por aqui e por ali, e tentou de novo e retentou, e no fim disse-me assim: "estas pastas todas são muito esquisitas..."
Eram elas! Os e-mails dos últimos sete anos, provavelmente todos (ainda não tive tempo de verificar um a um) excepto os que estavam na pasta de entrada.
Santo Horst. Genial Horst. O Einstein, o Hawking, o Schwarzschild e todos os outros vão ter de refazer as suas teorias, porque foram ontem refutadas pelo Horst em três horitas de trabalho.

Agora estou a arrumar e a apagar, já se sabe como é depois da casa arrombada.
E encontrei esta gracinha (que provavelmente já contei aqui, mas paciência):



Conversa ao jantar:

Christina: Mãe, viste o postal na casa de banho de Barbara, onde se lia "adoro ser mulher, posso chorar quando me apetece, vestir roupa bonita e, em caso de naufrágio, sou a primeira a saltar para o salva-vidas"?
Eu: Vi.
Matthias: Porquê?! Porque é que as mulheres se salvam primeiro?
Christina: Porque é assim, e pronto.
Eu: Então, Matthias, como é que te sentias se, em caso de naufrágio, saltasses logo para o salva-vidas e deixasses a tua mulher e os teus filhos para trás?
Matthias, ainda mais zangado: E como é que a minha mulher se sentia se se salvasse e me deixasse para trás?
Christina, já a pensar noutra coisa qualquer: Melhor seria um casal de lésbicas, salvava-se marido e mulher, a bem dizer.


(cá para nós: quanto mais penso no caso, mais me parece que o Matthias, nos seus seis anos, estava cheio de razão)

18 Maio 2010

Calamity Jane

Lembram-se de quando revelei que mal eu nasci mataram o Kennedy, mal vim para a Alemanha caiu o muro, mal fui para os EUA deu-se o 11 de Setembro, etc.?

Continuo perseguida pelo meu destino: ontem acrescentei um blogue à minha lista de passeios, hoje esse blogue acabou.

Ai.

pequeno truque para escrever à maneira de Oitocentos

Dificuldade que me apareceu ao traduzir o texto do post anterior: como é que se faz para escrever num português à maneira de Oitocentos?

A solução acaba por ser simples: imagina-se como é que um polícia escreveria um relatório.
Desde que um irmão meu foi multado por "ir com acompanhante a conduzir o veículo abraçado ao mesmo", nunca mais tive dificuldades para escrever a parecer difícil e arrebicado.

(espero que o Fernando Campos não leia isto)
(e aquele editor que estava para me encomendar a tradução do Fausto também não)
(e os senhores da GNR e da PSP também não)
(pelo sim pelo não, sempre era mais avisado ir já tratar de me naturalizar alemã)

17 Maio 2010

morder a mão que nos dá de comer

Do relato de uma irmã de Schiller:

"Por aquela época, o duque começou a acalentar a ideia de criar junto ao seu palácio Solitude um centro de formação para os filhos dos oficiais e soldados, e pediu aos professores referências sobre o talento e as qualidades de trabalho do alunos. Entre os escolhidos estava também o meu irmão, pelo que foi o meu pai chamado à presença do duque, tendo-lhe este revelado as suas intenções e sugerido que enviasse o filho para aquela escola.
Ao que o pai retorquiu que desde muito novo o filho revelara inclinação para o sacerdócio, com o que ele, pai, concordava, e caso lhe fosse possível naquele instituto continuar e aprofundar esses estudos, a aceitação do filho na dita escola seria para ele uma benção.
Em resposta, o duque afirmou que essa possibilidade não estava prevista, mas que o seu filho poderia escolher outra ciência. Ao que se seguiu uma longa pausa - o meu irmão não queria estudar ciências, o pai também não, mas o duque exigia uma resposta, e após muita resistência acabou por escolher a Matemática, em relação à qual não sentia a mínima atracção, e apenas por consideração ao pai (que estava directamente às ordens do duque, como oficial, e temia enfurecê-lo) cedeu e se entregou a esta ciência com toda a força do seu espírito, tal como lhe era habitual."

A 16 de janeiro de 1773, Friedrich Schiller entrou na Hohe Carlsschule de Solitude.
(...)
A sua entrada nesta escola (...), inevitável para a família, teve tanto de benção como de maldição. Benção, porque a família não tinha qualquer espécie de despesas com ensino, alimentação e vestuário do filho, além de estar numa escola com professores de excelente fama. Maldição, porque se dissipou o sonho que toda a família acalentava de ver um dia Friedrich clérigo, pois que o rapaz foi afastado do seio familiar e lhe foi criada uma situação de dependência para toda a vida, de se "entregar inteiramente ao serviço da Casa Ducal de Wurttemberg, e apenas mediante indulgente autorização desta se poder retirar". A recusa de corresponder ao desejo do duque, de fazer ingressar neste instituto elitário um aluno tão dotado, teria tido como inultrapassável consequência para Johann Caspar Schiller e a sua família a perda das boas graças do duque. Por isso, havia que sujeitar-se.

(do livro "Schillers Schwester Christophine", de Annette Seemann)

***

A partir desta descrição, a expressão "morder a mão que nos dá de comer" muda inteiramente de sentido.

pesada herança



No documentário Hitler's Children conta-se que a sobrinha-neta de Göring decidiu esterilizar-se para não dar origem a novos monstros na família: não queria "produzir mais Görings". O seu irmão seguiu-lhe o exemplo.

Ela conta, com tristeza e susto, que o espelho não lhe mostra apenas a sua imagem, mas simultaneamente a de um terrível assassino: os mesmos olhos, as mesmas maçãs do rosto, o mesmo perfil do tio-avô. Uma imagem que lhe é insuportável.

Eu vejo, e pasmo: depois de tantas décadas, aquelas malfadadas teorias de raça, fisionomia e carácter estão ainda de tal modo inculcadas numa pessoa, que esta prefere impedir-se de ter filhos a transmitir esse "mal genético" às futuras gerações.

(fotos tiradas deste site)

16 Maio 2010

Sophia e Jorge de Sena

Estou a ler agora a Correspondência entre Sophia e Jorge de Sena – sim, eu sei, o livro já não está propriamente quente do prelo –, e ando fascinada. Pela descrição daquele ambiente de claustrofobia e pequenês portuguesa e dos joguinhos dentro da esquerda, pela referência às dificuldades quotidianas que atrapalhavam a vida de dois génios, pelas críticas literárias mútuas, pela profunda cultura que revelam. Pela frustração que acusam no pós-25 de Abril.
E também pelo modo como Sophia fala das viagens que faz.

Se tivesse o material disponível, era isto que faria: um guia de viagens pela pena de escritores portugueses. (Pensando bem, esta ideia já a teve o Instituto Português de Turismo, ou instituição semelhante, há mais de vinte anos. Vou procurar o meu exemplar, há-de estar para os lados daquele Neruda que tenho de devolver ao Chico Buarque.)

E um dia farei isto: uma viagem à Grécia, guiada pelo poemas de Sophia.

15 Maio 2010

agarrem-me, que estou a ver que hoje não vou fazer mais nada

Não consigo sair do site onde se transmite o TEDxLisboa ao vivo.

Aqui.

Vão lá depressa, neste preciso momento está imperdível - sobre o Sistema Nacional de Doença.



Adenda: Desisto. Está mais tempo off air que on air. Depois hei-de ver se consigo o vídeo do Joaquim Casado. E o de Simão Rubim.

o riso é a minha perdição

I. Há tempos saí de uma reunião de pais muito depois da hora a que, na Alemanha, as pessoas vão dormir e os passeios são levantados. A caminho de casa, ocorreu-me que não tínhamos pão para o dia seguinte, e por isso parei no supermercado que fica aberto até à meia-noite. Já se sabe como é: pão, e já agora, e já agora, e já agora.
Saí do supermercado com os braços carregados de já agoras, mas sem saco ("são só uns metros até ao carro, não é preciso, obrigada"), dirigi-me ao parque de estacionamento e...
...estava fechado. Por engano, estacionara o carro no parque subterrâneo de um prédio, agora fechado por um portão de grades, em vez de o fazer no parking do supermercado, sempre aberto.

No dia seguinte, durante o pequeno-almoço, contei a história aos meus filhos.
- E que fizeste, mãe?, perguntaram eles, um bocadinho horrorizados.
- Desatei a rir. Era uma cena muito engraçada: eu com os braços feitos cesto cheio de compras, e o carro do outro lado das grades a dizer-me adeuzinho.


II. O Matthias foi passar a tarde com um amigo muito maluco que ele tem (acho que agora se diz "muito criativo", mas teria de ir verificar) e regressou com uma história mirabolante. Tinham começado por jogar uma mistura de futebol e basketball (chutar bolas para dentro de um contentor de papel), depois o Matthias foi para dentro do contentor para ser mais fácil apanhar as bolas quando caíam lá dentro, e daí a nada a brincadeira mudou: o Matthias fechava a tampa, e quando passava alguém ele levantava-a um pouco, fazia cara de parvo e dizia "olááááá".
Claro que o amigo quis participar na gracinha, saltou para dentro do contentor, e então eram dois a levantar um pouco a tampa, a fazer cara de parvo e a dizer "olááá".
Imagino a cara dos transeuntes...
Às tantas o amigo mexeu-se descuidadamente, e o contentor caiu muito devagarinho para trás, deixando-os sentados em cima da tampa, enquanto uma confusão de folhas de papel chovia sobre eles.
- E que fizeram?, perguntei eu, transtornada.
- Desatámos a rir, mãe. Foi tão engraçado!
Depois de muito rirem, tentaram virar de novo o contentor. Mas com tão pouco jeito que acabaram por virá-lo para o lado errado, e ali ficaram, mais fechados que nunca, a rir à gargalhada.
Daí a uns minutos passou alguém que os libertou e lhes deu um valente raspanete (abençoado controle social).

Eu ralhei, fartei-me de ralhar. Que porcaria, brincar num contentor de lixo ("era de papel, e estava vazio, mãe, não percebes nada!"), e que susto, já estava a ver a notícia nos jornais: foram encontrados dois rapazinhos mortos de calor, sufocados dentro de um contentor (embora eu própria tenha de reconhecer que no inverno berlinense é difícil alguém morrer de calor). O Matthias encolheu os ombros: "não tens nenhum sentido de humor".

Quando o pai chegou a casa contámos o episódio. Eu esperava que ele advertisse o filho para os riscos que correra, mas ele:
- Da próxima vez pintem um braço de esbranquiçado, e deixem-no pendurado de fora do contentor como se fosse um cadáver...