31 Julho 2006

Blue Painting: Damien Hirst


Rodrigo Adão da Fonseca

O "mito do capitalismo popular"

A página 2 do DE foi hoje tomada de assalto por um sósia do Domingos Amaral, que dá pelo nome de J. Bradford Delong. Se um ex-Secretário de Estado Adjunto do Tesouro dos EUA - ainda que da Administração Clinton (certamente um leitor atento da Maxmen) - escreve um texto destes, então o nosso Domingos Amaral está reabilitado.

Viva o Project Syndicate, por nos ensinar os riscos e a implausibilidade da responsabilidade individual. Na página 2 do DE...

Sem dúvida, o que importa é manter as Seguranças Sociais na esfera pública. Onde não há a tal corrupção. E onde impera a eficiência. E nestes planos, não há como a previdência luso-paternalista estatal: uma Segurança Social com elevado grau de solvabilidade, que reforma todos na mesma idade, que não permite que o capital acumulado se transfira de pais para filhos, que ignora o que seja capitalização individual, onde as mais diversas lacunas tornam aleatória a relação entre o esforço, os descontos, e o valor a receber (basta saber jogar bem com as regras). E cujo único risco de falência é o colectivo. Sem dúvida, uma solução bastante menos implausível. E, obviamente, muito menos utópica.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

Desde logo, este texto da Rititi. Uma crítica ao sectarismo e às lágrimas de crocodilo. De facto, não há nada como uma memória selectiva. Invejo além disso a Rititi, pois ao ler os seus posts recordo-me dos meus anos felizes em Espanha.

Recomendo também este texto do CAA, no Blasfémias. A dignidade com que o escreve merece o meu apreço. Sobretudo quando assume, sem reservas, que o infeliz episódio do copo, antigo, resultou de um acto pouco reflectido. Conheço poucas pessoas com esta frontalidade. Não deixa também de ser divertido ver um humorista, de dedinho em riste, num ataque de hipersensibilidade, reagindo por arremesso a uma frase tão irrelevante, procurando ainda retirar uma mísera vantagem de algo que já passou à história. Temos gato escaldado que ferve em água fria. Leiam, porque vale a pena, esta reacção de um humorista quando colocado no perímetro da crítica.

Na Revista Dia D, como habitualmente acompanhando o Jornal Público, temos hoje três textos obrigatórios: "O que é nacional é bom?", do Bruno Faria Lopes; "Mitologia do Pauperismo", do Sérgio dos Santos; e "A liga dos campeões", do João Cândido da Silva (links indisponíveis).

Da lista de links do Blue Lounge vão passam ainda a constar os Blogues da Casa Fernando Pessoa e do Professor Luis Cabral.

Rodrigo Adão da Fonseca

29 Julho 2006

Com este argumento, quem caiu da cadeira fui eu

Já tenho lido e ouvido explicações extraordinárias para justificar os privilégios dos políticos. Manuel Alegre recebe uma reforma da RDP, e vai poder ainda auferir, quando sair do Parlamento, adicionalmente, de uma subvenção vitalícia, por uma curta dedicação à rádio e uma vida inteira no Parlamento. Um lifestile, que me desculpe o próprio e todos os deputados que por lá passaram nos últimos trinta anos, que não mata ninguém. Convido o José Medeiros Ferreira a fazer bem as continhas, e veja quanto é que Manuel Alegre vai receber na sua reforma agrupada (com os nomes que quiserem: são rendimentos vitalícios até à morte).

Não se discute a legalidade da mesma; nem sequer que Manuel Alegre será uma jóia de pessoa. Até concordo - e se lerem os meus posts e comentários constantes neste blogue (abaixo) - verão que considero provavelmente Manuel Alegre mais um alvo de um sistema político cínico do que propriamente um abusador.

Agora, a situação em si merece a nossa censura e atenção. Como as inúmeras benesses com que de uma forma pouco transparente uma geração inteira de políticos e servidores da "causa pública" se recompensou, eliminando qualquer racio entre esforço, desconto e benefício. Uns maximizaram mais do que outros o golden circuit que toda a manta de retalhos, com protecção legal, propiciou. Mas estamos perante algo que envergonha o regime democrático saído do 25 de Abril, e que já se procurou rectificar, num sinal de alguma maturidade e esforço de transparência.

Muito bem. Manuel Alegre - e milhares de beneficiários de um tempo onde certas benesses imperaram - não está a fazer nada de ilegal. Escrevam que nos anos 70 a 90 não havia a percepção daquilo que se estava a fazer; que se procurou entretanto dar maior transparência ao sistema político. Isso ainda se pode aceitar, Um certo tom discreto de mea culpa. Mas vamos lá acabar com a choradeira. Sejam homens. E, caro Medeiros Ferreira, não nos faça rir. O mundo das empresas é duro, muito duro, e para conseguir chegar ao patamar de Manuel Alegre, qualquer cidadão com menos de quarenta anos tem agora de trabalhar e esforçar-se como nunca nenhum dos senhores que se choram, quais Marias Madalenas, o fez. Sem certezas e direitos adquiridos. Milhares de jovens - eu conheço muitos - são forçados hoje novamente a emigrar, por falta de oportunidades e em condições mais difíceis que os exílios em Paris e Argel, numa nova diáspora com que ninguém se preocupa (Portugal é o país desenvolvido onde mais jovens qualificados emigram: 1 em cada 5). Quando escreve frases como esta, quem fica com vontade de emigrar são os restantes milhares de jovens que estão a sustentar, com o seu esforço, os desvarios ideológicos de V. Exas.
Registo que nos últimos dias a ideia de abandonar Portugal também passou pela cabeça de Manuel Alegre, depois de ter percebido que nem aos 70 anos um antigo adversário do dr Salazar tem direito a reforma... (José Medeiros Ferreira, Bichos Carpinteiros)

Tenham vergonha, e chorem em privado.

Rodrigo Adão da Fonseca

28 Julho 2006

Blue Lounge recomenda: FRIENDS PARTY @ VISEU, este Sábado

Marilyn Minter, 2003
NO NB CLUB em Viseu vai realizar-se a FRIENDS PARTY, uma noite alternativa dinamizada pelos SOLIDGROOVES que normalmente fazem a festa na Indústria do Porto.

Os semáforos de Viseu vai ficar interrompidos durante vinte e quatro horas.

Para convites: 968709438!

Com o crivo do Blue Lounge, uma iniciativa marca Fast, Loud & Nasty!

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge Recomenda

A paralisia europeia numa região do mundo que faz parte da sua esfera geopolítica vem desse anti-americanismo, em que a Europa, em grande parte por pressão de uma França pós-gaullista, se deixou enredar tornando-a irrelevante. Ver um estado que foi uma criação francesa como o Líbano hoje ser vassalo da Síria e assistir à completa impotência militar e política da França é apenas o sintoma maior da mesma impotência da União Europeia separada dos EUA.
José Pacheco Pereira, no Abrupto.

Vale a pena ler todo o post ISRAEL, A ESQUERDA E A DIREITA, AMERICANISMO, ANTI-AMERICANISMO.

Rodrigo Adão da Fonseca

27 Julho 2006

Abrupto

O que poderia ser uma brincadeira de mau gosto, assume-se já como um caso de polícia. Imaginem os espectadores da SIC se durante semanas fossem privadas, de vez em vez, de poderem assistir aos seus programas, e dos prejuízos causados aos donos da estação.

O blogger oferece um serviço que tem subjacente um contrato, com regras, onde é concedido um domínio. Ao longo de três anos JPP fez de um átomo - que um blogue, no seu início, mais não é do que uma quase partícula - um fenómeno de comunicação. Goste-se ou não, há milhares de pessoas que diariamente o visitam. Há, ainda, o lado do autor: que merece ser defendido; como qualquer um de nós, que investe o seu tempo dando vida a estes espaços inertes.

Eu sou um dos leitores diários do Abrupto (sem link, porque não quero contribuir para o contador do grande vigarista que se apoderou deste domínio). Se escrevo hoje, por aqui, foi porque um dia o visitei. Quero poder voltar a ler o que lá se cria.

A brincadeira já foi longe demais!

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda: cultura, comércio e confusões

O Rui Moreira deu ontem um exemplo da elevação e do savoir faire que o caracteriza, e que faz parte da sua marca pessoal. O modo elegante como apresentou o seu ponto de vista, enviando ao Blasfémias um texto - muito interessante, aliás - sobre a questão do Rivoli e a intervenção que teve aos microfones da TSF deve ser realçada. Uma forma de debater que me agrada profundamente. E que faz falta a uma cidade onde pouco se debate, ou se discute literalmente aos berros. Mesmo quando não subscrevo as suas intervenções (coisa que raramente acontece), sinto-me sempre muito bem representado pelo Rui Moreira.

Rodrigo Adão da Fonseca

As Bodas de Canã

Como ponto de partida, quero deixar bem claro que nada me move contra o cidadão Manuel Alegre, por quem, aliás, tenho alguma simpatia pessoal. Suponho, até, que estará a ser lançado para a fogueira - não pela oposição, como se quer fazer passar - mas por quem ainda não digeriu a sua decisão de candidatura presidencial. Estou ainda certo que existirão centenas de casos análogos - e alguns bem mais graves - aos de Manuel Alegre, muitos deles em que o comportamento tendente a aproveitar a manta de retalhos em que se tornou a teia de subvenções vitalícias travestidas de reformas concedidas ao status quo que se apoderou do país após a revolução - de todos os quadrantes políticos - terá sido pro-activo, o que, lendo o que escreve Vital Moreira, não terá ocorrido neste caso (de facto, tudo indicia que Manuel Alegre não terá orientado as prioridades da sua vida no sentido de maximizar certos benefícios, embora, obviamente, não esteja a prescindir deles).

Agora, e após ter lido o que escreve Paulo Pedroso (peço que este que me corrija caso alguma das conclusões que retiro do seu texto estiverem erradas), e do que me consegui apurar após algum trabalho pessoal:

a) Manuel Alegre terá direito a uma reforma por inteiro pelo facto de ter iniciado a sua carreira contributiva na RDP, sem que se tenha desvinculado dessa empresa enquanto exerceu as suas funções de deputado (desde os anos 70 até hoje);

b) A partir de uma vida activa quase toda ela no Parlamento, Manuel Alegre acede a uma reforma por uma carreira que não cumpriu na RDP, mas a que tem direito, por lei, pelo facto de i) ter mantido os seus descontos para a Caixa Geral de Aposentações, e ii) ter exercido funções de deputado.

Até aqui, aparentemente, tudo parece simples. Mas falta o resto da história.

c) Ficamos desde logo sem saber quem fez os descontos correspondentes à entidade patronal (a RDP, sem que Manuel Alegre aí tenha desempenhado trabalho efectivo - leia-se, os contribuntes, que a RDP é uma empresa pública - o Parlamento - novamente os contribuintes - o próprio, ou pura e simplesmente ninguém - ou seja, os contribuintes novamente).

d) O que é grave em todo este filme é que com base no mesmo esforço desenvolvido como Deputado - tarefa árdua, como é bem sabido - e que dá origem à tal reforma da CGA via RDP, com a mesma base salarial, e sem qualquer desconto adicional, Manuel Alegre continua habilitado a uma "reforma" parlamentar, cujos termos são por demais conhecidos.

e) É este "milagre" da multiplicação dos pães que deixa qualquer cidadão esforçado indignado. A classe política "chora-se" sistematicamente por ser mal remunerada, mas à medida que os véus se levantam - e são vários os relatos que volta e meia vêm a lume, em geral para "chamuscar" selctivamente o visado - uma lama bem viscosa vem à tona; talvez Manuel Alegre esteja a ser penalizado pela forma poética e arrojada como decidiu atacar na campanha presidencial o próprio sistema político; há cinismo suficiente na política em Portugal para lhe servir, agora, bem fria, esta vingança, relembrando-lhe que ele, em rigor, faz parte desse status quo há décadas, e que o seu habitat é este mesmo pântano.

f) Há toda uma geração de pessoas que vive deste tipo de subvenções vitalícias, reformas e reforminhas mais modestas, gatos com sete vidas (e com o mesmo número de reformas). A ausência de capitalização individual, um sistema estatal que soube sempre ser generoso com os recursos que não são seus (e que em muitos casos o impacto negativo do seu desperdício só será sentido no futuro), a par de uma retórica de demonização dos salários dos "privados" contraposta à sacralização da "dedicação e o serviço público mal remunerado", deu nisto: uma teia sem qualquer sentido, francamente injusta, legal, uma lama, onde haverá milhares de implicados: quase toda uma geração que gravitou num dado ambiente político e para-político, dos vários quadrantes partidários e seus satélites.

g) Sócrates já deu instruções para que o PS "defenda" Manuel Alegre; correndo o risco de ser injusto, fez-me lembrar Arafat, quando condenava os ataques bombistas contra Israel no mesmo instante em que apoiava os grupos terroristas implicados; Manuel Alegre está a pagar a factura por ter afrontado o status quo. A teia de benefícios é demasiado transversal para que haja próximos episódios. Por isso ninguém fala. Que não seja para colocar àgua na fervura. Pois basta "chamuscar" o Manuel Alegre; não é preciso "carbonizá-lo".

Segue-se assim um silêncio podre. O regresso à normalidade. Aos incêndios. à praia. Em Setembro, tudo isto estará esquecido.

Rodrigo Adão da Fonseca

26 Julho 2006

Uma série de perguntas simples

Peço a Vital Moreira e Paulo Pedroso, que apresentam uma série de argumentos aparentemente atendíveis, e eventualmente a quem domine estas matérias, respostas simples a um conjunto de perguntas bem directas:

1.) A reforma auferida por Manuel Alegre pela sua colaboração com a RDP teve por base quantos meses/anos de descontos?

2.) E teve por base que salário (antecipo que terá sido o de Deputado)?

3.) A reforma auferida por Manuel Alegre, é ou não cumulável com a reforma pelo serviço como deputado?

4.) Pode ou não a mesma base salarial auferida por Manuel Alegre dar origem a duas reformas por inteiro: uma reforma (por inteiro) na RDP e uma reforma (por inteiro) por ter sido deputado?

Agradeço respostas simples e directas a questões que são simples e directas. Obrigado.

Rodrigo Adão da Fonseca

PS: Não ponho em causa a legalidade das reformas auferidas por Manuel Alegre, nem por ninguém que tenha sabido maximizar a manta de retalhos que são os regimes de previdência em Portugal.

De Sueste, sopra uma boa brisa

O Miguel Madeira já conseguiu fazer metade da viagem (já percebeu que o actual modelo de previdência não é viável); já só falta uma pequena parte:
Independentemente das considerações sobre que o melhor sistema de Segurança Social, há uma coisa que gostava de frisar: nenhum sistema de Segurança Social garante a sustentabilidade financeira; ou melhor, só há um que garante isso - aplicar o dinheiro dos descontos em conservas e congelados para comer depois da reforma.

(...)

Primeiro, vamos imaginar um caso extremo de envelhecimento da população: que a população activa se reduzia a... zero. Ai um sistema de repartição deixava obviamente de funcionar: não haveria ninguém para descontar para pagar as reformas; mas um sistema de capitalização também deixa de funcionar: se não há ninguém para trabalhar, as empresas também deixam de funcionar, logo não distribuem rendimentos e os fundos de pensões também não têm receitas para pagar as pensões; quanto ao velho sistema de os filhos sustentarem os pais na velhice também não funcionaria pelas razões óbvias (ou seja, a única forma de os reformados sobreviverem seria se tivessem acumulado as tais conservas e congelados).

(...)

Claro que se pode argumentar que a produtividade pode aumentar, fazendo assim que os lucros das empresas não caiam, e salvando o sistema de capitalização; mas, nesse caso, o sistema de repartição também está salvo: o aumento da produtividade, possivelmente, levará ao aumento dos salários (que se irá juntar ao aumento criado pela escassez de mão-de-obra), logo, as contribuições também não caiem.
O que o Miguel por aqui diz não deixa de ser um raciocíonio especulativo interessante; só que pressupõe, desde logo, que o envelhecimento teria de ser global, de ocorrer a uma escala planetária; ora, qualquer aforrador pode investir o seu capital numa empresa que actue numa zona do globo onde, v.g., a taxa de natalidade seja positiva, haja reposição de gerações, a mão-de-obra seja abundante e as empresas acumulem lucros; ao contrário do que se quer fazer crer em Portugal, a economia global não está "em crise"; está a nossa, mas há muitas zonas do globo a crescer a taxas, em muitos casos, de dois dígitos; pode sempre optar-se por colocar as poupanças num "congelador" que não entre em "degelo"; há um mundo de possibilidades num sistema de capitalização que não estão ao dispor dos sistemas actuais de previdência (que não podem, v.g., forçar os chineses da China a descontar para nossa Segurança Social; num sistema de capitalização, contudo, pode aproveitar-se o esforço chinês para ajudar a garantir as reformas).

Obviamente, não há soluções sem risco (os regimes de capitalização acarretam riscos). Mas uma coisa é certa; o actual modelo de previdência, não peca pelo risco, mas pelo facto dos seus pressupostos conduzirem à sua própria insustentabilidade

Se o envelhecimento for global, então aí, o raciocínio do Miguel faz todo o sentido, e problema resolve-se por si: acaba a humanidade, e nesse contexto não são necessárias reformas!

Rodrigo Adão da Fonseca

25 Julho 2006

Blue Photo: Loretta Lux

The Waiting Girl, 2006
Não digas nada; sê bom menino; bem comportado; alinhado; bem sentado, expectante; sê paciente; não rompas equilíbrios; não trilhes caminhos quando as estradas estão feitas; vive lado a lado com gatos espalmados, adormecidos; esperando pela tua vez; não levantes o dedo: as mãos devem repousar sobre o colo; mantém as pernas cruzadas e o corpo inerte; aceita o destino.

Aos gatos, alguém passará a mão pelo pêlo; tu, aguarda pela tua vez; ouve, as oportunidades são como os comboios, nunca cumprem o horário, e conduzem todos os passageiros ao mesmo destino, ao mesmo ritmo; aliás, acabam sempre por chegar; mesmo quando já ninguém os espera na gare; na viagem; dorme; para quê procurar, quando vives sentado num cadeirão forrado com tecidos de veludo?

P'ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?...
Vontade de Dormir, Mário de Sá-Carneiro

Rodrigo Adão da Fonseca

Colaboração com a Revista Atlântico


A partir do número de Agosto, vou colaborar com a Revista Atlântico. Ao longo dos últimos meses considero que o Paulo Pinto Mascarenhas e Cia. têm feito um grande esforço no sentido de melhorar a qualidade da revista, tornando-a plural, nas abordagens e nos temas, sem deixar de manter uma coerência editorial rara em Portugal. A revista consegue além do mais conjugar temas sérios com colunas descontraídas e variadas (algumas, até, das supostamente menos destacadas, são para mim as mais interessantes) que a tornam valiosa do início ao fim.

Por me rever com a nova abordagem da revista, aceitei de bom grado e motivado a colaboração proposta; numa fase inicial, irei dinamizar um espaço onde vamos lançar para o debate reflexões, num prisma liberal, sobre algumas áreas das políticas públicas onde impera um franco défice de discussão. Apenas escreverei sobre temas que domine, e assumo com os leitores o meu habitual compromisso de apresentar artigos cuidados e previamente bem estudados. Quem me conhece, sabe que estou fora da escrita a "metro".

Irei, assim, procurar contribuir para um debate ainda estéril em Portugal: não o da discussão do liberalismo - que existe - mas o das políticas públicas, num prisma liberal, cujos pressupostos não são necessariamente os mesmos. Pretendo, assim, dar o meu pequeno contributo para uma alternativa liberal, ao nível das ideias, e no plano das políticas, num exercício de cidadania.

No número de Agosto, debate-se aquele que tem sido o sector que carece de uma maior e mais urgente reforma, e que, embora ténue, tem sido já promovida pelos três últimos governos - a Saúde e o SNS. Quem estiver à espera de silogismos fáceis, não vai gostar do artigo; o debate, ainda assim, está em aberto.

E até ao número de Setembro!

Rodrigo Adão da Fonseca

PS: A capa deste número é fenomenal.

24 Julho 2006

Blue Images: Barbara Kruger

Rodrigo Adão da Fonseca

21 Julho 2006

Blue Photo: Shirin Neshat (com adenda)

Seeking Martyrdom (variation nr 1), 1995
I] O que é a Paz? Como se chega à Paz? Ela "nasce", ou "conquista-se"? É fruto da evolução dos povos, ou da eliminação brutal das diferenças pelas armas? Como se chegou à Pax Romana? A Paz é frutífera? É podre? Vive em Paz quem quer, ou quem pode? Pode viver-se em Paz num mundo sem armas? O que move a natureza humana? É possível apreciar/valorar os conflitos, ignorando a História? Será que todo o mundo comunga dos mesmos valores? Se a Paz, para uns, é um ideal supremo, não haverá quem esteja disposto a morrer por uma concepção muito sua sobre algo que julga ser um valor superior? Como nos podemos defender das minorias agressivas? E como podem as minorias ser protegidas? Como se constrói o Direito Internacional? O que motiva o terrorismo? Quais as nações consolidadas que não choram os seus mártires? Quantos mortos se glorificam quando honramos a nossa bandeira? Há uma única concepção global, coerente, para o rumo da Humanidade? Ou esta é intrinsecamente plural e potencialmente conflituante?

II] Em 2004 a maioria do país mediático e político apoiava Kerry; alguns, Bush; poucos, porém, conheciam a fundo, quer as propostas, quer o enquadramento específico dos candidatos. Quase ninguém seguiu, verdadeiramente, o processo eleitoral. Recentemente, vimos Xanana ser entronizado, enquanto Al-Kathiri era servido, ao jantar dos portugueses, como o "mau da fita". Por estes dias, temos grande parte do país a defender o Hezbollah, e a "integridade territorial do Líbano" (seja lá o que isto signifique); há ainda um espaço para os defensores intransigentes dos israelitas.
Poucos são, contudo, os que dominam os fenómenos que subjazem a toda esta litigância. Talvez por isso, nos media ou nos cafés, seja mais fácil tomar posições, arrastando consigo, afectivamente, os leitores, espectadores, amigos. Sem grandes reflexões. Sem convites ao espírito crítico dos portugueses.
III] Eu sou dos que gosta de ler aqueles que, seriamente, acompanham os fenómenos com algum distanciamento, e que por dominarem as suas principais facetas, conseguem emitir opinião. São raros os que se dedicam a esta tarefa, árdua; muitos deles por vezes não têm palco. O país não se interessa particularmente por aquilo que eles têm para dizer. Os argumentos não obedecem às regras de Hollywood.
Aqui, no Blue Lounge, só se fala daquilo que (minimamente) se sabe, do que se tem algum conhecimento; talvez por isso este blogue tenha poucos visitantes; escrever aqui dá-me, ainda assim, uma enorme satisfação, pois constato, pelo feed-back recolhido, que as pessoas gostam deste cantinho em grande medida porque não há aqui uma exploração do "sangue pelo sangue"; e porque os assuntos tratados, pretende-se, convidam à reflexão.
No Blue Lounge não se tem discutido nada sobre os conflitos no Líbano e em Israel; porque não se domina o problema.
IV] Espanta-me como em Portugal tanta gente consegue, numa curta apreciação, tomar posição em relação a assuntos tão complexos como este. Fico surpreendido com a facilidade como se lêem os distintos problemas do Médio Oriente, a preto e branco; a foto acima apresentada, melhor do que quaisquer palavras, corporiza de uma forma feliz esta alegoria; toda ela, assenta num universo sem cor, a preto e branco; alguém desatento poderá esquecer-se, porém, que nesta questão, existem muitas mãos - demasiadas - manchadas de sangue.

É muito fácil fazer a retórica da Paz. É politicamente correcto fazê-la. Eu também amo a Paz. Mas, como qualquer verdadeiro amor, sei que a Paz é dura de obter. Sei, também, que como os mecanismos do coração, é muito difícil encontrar os caminhos da Paz, e fugir do fosso da Guerra. O que não percebo é porque se persistem em fazer notícias que, por vezes, mais parecem novelas de cordel...

Rodrigo Adão da Fonseca
PS: Via o post "Cada Macaco no seu Galho", do Tiago Mendes, n´A Mão Invisível, cheguei a um (excelente) texto do Rui Ramos, publicado no jornal Público do dia 19 deste mês, "Perante a guerra", onde se abordam, melhor do que aquilo que eu aqui faço, alguns dos aspectos que pretendi focar. Fica, assim, o link para o texto do Rui Ramos, que eu gostaria de ter escrito se tivesse arte.

O Blue Lounge gemina-se ao Fast, Loud & Nasty

As cidades e vilas têm a mania de se geminar. Por isso, os blogues também devem poder fazê-lo. A partir de hoje, o Blue Lounge gemina-se ao Fast, Loud & Nasty. Passam assim os leitores deste blogue a dispor de uma extensão geneticamente aprovada onde podem aceder a boa música e grandes festas. O Blue Lounge cuida das secas; o Fast, Loud & Nasty da parte cool. Um casamento condenado ao divórcio!

Outras geminações poderão entretanto surgir!

Rodrigo Adão da Fonseca

20 Julho 2006

Este é um caso que só o Inspector Bunda pode resolver

Eu próprio fiquei estupefacto com a notícia do Expresso, que quer o Ruben de Carvalho, aqui, quer o JPP (consultar a versão do Abrupto não pirateada), e o AAA bem referem, aqui e aqui.

Telefonei ao Brown (ao Dan - não ao Gordon, pois este último não tem explicação para coisa nenhuma), que me confidenciou que o assunto não merecia a sua atenção, já que o Bloco não teria potencial para ser um blockbuster; hoje à tarde, cruzei-me, por acaso, na Rotunda de Santo Ovídio, em direcção ao Corte Inglês, com o Inspector Jaime Ramos e seu amigo Isaltino de Jesus; ainda tentei a abordagem, mas notei que rapidamente me evitaram (deve ser do asco que têm a advogados).

Quem resolveu o enigma foi o meu grande amigo, o Inspector Jaime Bunda, com a sua habitual rapidez: a filiação do Bloco de Esquerda segue um rigoroso Plano Quinquenal, com quotas geográficas e paritárias bem definidas.

Elementar, meu caro Watson!

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Eddie Adams


Quem abra os jornais, as revistas, as televisões, fica com a sensação que o país e o mundo estão a "arrumar as gavetas" para ir de férias. O que não deixa de ser parcialmente verdade.

A maior parte do planeta, porém, hoje, apenas está preocupado em saber o que vai comer amanhã. Em sobreviver. Esse mundo, para muitos de nós desconhecido, vive com enormes dificuldades. Esta pobreza, em geral, é-nos apresentada como se fosse longinqua, típica dos países do Terceiro Mundo. Só que não a é em exclusivo. Em Portugal também existe muita pobreza; e ainda mais miséria. E, nesta altura das férias, custa-me ver como algumas pessoas exibem por vaidade, os seus luxos, as suas pequenas escravaturas, as suas míseras ego-realizações.

Viver as férias, para mim, é poder beneficiar de um justo momento de descanso. Cada um, penso, deve fazê-lo dentro das suas disponibilidades financeiras. Mas com genuinidade. Sem vaidades. Sem escravaturas nem falsas prioridades. Com prazer, sim. Com satisfação. Fazendo até, se for caso disso, excessos. Mas não deixem que as férias sejam mais um motivo para piorar as vossas vidas. Que se transformem numa fonte de stress. De dívidas. De discussões. Não se deixem iludir por falsos fogos fátuos, cujo lume acaba por queimar - e bem - no momento do regresso a casa, à "normalidade". Gozem, sim, as vossas férias, mas com um forte sentido dos outros: de família, de amizade, de respeito pelos que vos rodeiam.

A todos os que estão de partida, boas férias. Eu ainda fico por cá. Por mais uns dias.

Este post serve, também, para recuperar aquele que é o let motiv deste blogue (mensagem que procuro viver diariamente desde o dia em que a li, seja aqui, na minha dedicação ao Blue Lounge, seja na minha atitude quotidiana). Uma frase (atribuída) a alguém que foi muito mais do que um filósofo, um pensador do seu tempo, sempre atento à realidade; um senhor, que pensou para um mundo habitado por pessoas, que pensou, além do mais, para elas (talvez por isso foi tantas vezes menorizado por alguns dos que se julgavam seus pares); um amante das liberdades concretas, substantivas, Isaiah Berlin:
No luxury and no comfort, no delight and no pleasure, no new liberty and no new discovery, no praise and no flattery, which we may enjoy on our journey, will mean anything to us if we have forgotten the purpose of our travels, and the end of our labours.
Rodrigo Adão da Fonseca

17 Julho 2006

Blue Stories: "Bobas"

Peter Hurjar, Face of a Dog, 1984
Em Junho, à semelhança de centenas de milhares de portugueses, fiz uma pequena pausa para férias. Foram umas férias algarvias diferentes; na ausência do Rei Sol, o tempo foi preenchido a ler, a melhorar o swing, a ver o Mundial em locais públicos com Sport TV, a conviver com os amigos com quem nos sentimos bem. E a caminhar. Junto à praia, sem sentir o sol abrasador; pelos longos carreiros do aldeamento, à conversa.
Foi num desses passeios que conheci o Bobas. Foi esse o nome que lhe dei. Não estranhei que ele nos acompanhasse. Já na noite anterior um gato tinha, numa aproximação bem calculada, acabado aninhado no colo, primeiro da minha mulher, depois no meu, ronronando, esticando as pernas, cumprindo no fundo - e bem - o seu papel de gato.
O Bobas, esse, acompanhou-nos até a porta de casa. Um belo cão de caça, aparentemente divertido, mas com uma expressão facial, que falava: o Bobas, em cada brincadeira feita ao longo daquela hora de passeio, parecia feliz: e que traquinha! Os seus olhos, porém, estavam lacrimosos, pedintes, carentes de um dono. Depois de lhe darmos de comer e beber, fomos dormir. Quando fechei a porta, olhei para trás, e vi o Bobas, fitando-me, sentado, impávido, obediente. Nada pedia. Não ladrava. Apenas me olhava. Com aqueles olhos caninos tristes. O Bobas é mais um cão abandonado pelo egoísmo dos homens. A meio da noite, dei por mim à volta do jardim, em busca daquele rosto. O Bobas já não estava. Soube por aqueles dias que ele vive em liberdade, algures pelo aldeamento, recebendo o carinho das pessoas que o habitam. Os seus olhos, porém, não enganavam. Ele não é feliz; porque alguém o abandonou.
Os animais sãos os nossos amigos fiéis. Nas férias, não os abandone. Os animais, por não terem memória, não esquecem (esse é um privilégio dos homens); apenas sentem. E transportam a dor até à morte.
Rodrigo Adão da Fonseca

15 Julho 2006

Passagem de elefantes

Por motivos de saúde, sem gravidade, foi-me ainda assim prescrita uma turtuosa prisão domiciliária. Turtuosa, porque a pena de reclusão fez-se acompanhar de uma toma diária de medicamentos que me impedem de produzir com lucidez. Estou, assim, a viver, aquilo que Cruzeiro Seixas chamaria de "áurea surrealista". É sabido ainda que, para além da privação da liberdade, qualquer ambiente prisional, mesmo que domiciliario, é em si mesmo um castigo. Ora, ontem senti na pele a experiência de uma pena máxima: mesmo sem querer, fui obrigado a viver com intensidade a performance dos T-Chan e Ivete Sangalo, numa "grande parada musical com actuação em cima do Trilho eléctrico" (camião gigante).

Aquilo que se passa durante o dia aqui nos lados onde moro cantou-o melhor do que eu algum dia o direi, Mário Cesariny:
Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar

elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Chris Ofili

Afro Lunar Lovers, 2003
Rodrigo Adão da Fonseca

14 Julho 2006

Blue Photo: Irving Penn, ou na noite em que o Mago Merlin foi à SIC Notícias (II) ...


Rodrigo Adão da Fonseca

Na noite em que o Mago Merlin foi à SIC Notícias...

A proposta que o PSD apresentou para a reforma da Segurança Social tem, de facto, várias lacunas; mas teve a virtude de, nas grandes linhas, reflectir uma marca de diferença. Convém ainda não esquecer que o líder do PSD afirmava, pateticamente, ainda há poucos meses, que a solução para viabilizar a Segurança Social passava pelo "crescimento económico"; regista-se com apreço a significativa evolução nesta matéria.

O posicionamento do PSD teve ainda o condão de pôr o Primeiro-Ministro a "falar", mas fora da "cassete"; e neste novo cenário, "não ensaiado", este produziu afirmações, na SIC Notícias, que merecem ser aqui apreciadas.

Sem nunca perder o ar seráfico que o caracteriza, vestido de negro, dotado de grandes certezas, José Sócrates classificou de "irresponsável" a proposta do PSD - sendo esse o ponto central da sua apreciação negativa - porque a aceitação de um opting out – ainda que parcial – dos contribuintes com menos de trinta e cinco anos colocaria, a prazo, a Segurança Social na ruptura: pelos vistos, e seguindo o raciocínio do PM, a "viabilidade" da tal Segurança Social "estável" e com "saúde" nos próximos anos dependerá destas contribuições.

Meus amigos; as palavras do nosso popular Primeiro-Ministro, não significam, em termos económicos, mais do que isto: o capital (leia-se: os descontos de cada um) que deveria(m) servir para assegurar as reformas dos (tais) trabalhadores activos com menos de 35 anos vai ser utilizado – face à assumida (pelo PM) ausência de recursos – para "garantir as reformas" - as actuais e as de aqueles que poderão vir a reformar-se no horizonte definido pelos cálculos do governo (2030). E o PM foi mais longe na sua argumentação: a Suécia pôde alternar para um regime de dois pilares "porque tinha recursos suficientes para assegurar a transição". Eureka!

Mas o melhor da entrevista ficou, como acontece num enredo bem montado, para o fim: o nosso PM voltou a classificar novamente de "irresponsável" a proposta do PSD por aí se defender que o financiamento da transição entre os dois regimes poderia ser estruturado por recurso a dívida pública. Com ar grave e catedrático José Sócrates "explicou" aos portugueses que têm SIC Notícias que a divida pública são impostos; seguindo, com um ar teatral e chocado, para a descoberta da roda: a dívida pública já representa 60% do PIB.

Pergunto eu: quando se opta por financiar reformas com a totalidade do capital actual acumulado, num modelo de Segurança Social onde i) não há espaço para a capitalização individual; e ii) a função redistributiva não é assegurada pelo Orçamento do Estado; as cobranças efectuadas, do ponto de vista económico, não têm a mesma natureza de impostos? São impostos, sim, mas com uma agravante: a solução do Governo não permite estagnar a espiral crescente de impostos diferidos que vão onerar as gerações futuras.

Ambas as propostas - PSD e PS - são fracas; mas a do PS é pior, pois:
- aumenta a carga fiscal sobre as gerações futuras, mas de uma forma ainda menos transparente, pois não fica evidenciada na dívida pública;
- limita-se a adiar o problema, dentro dos pressupostos do actual sistema: não há mudança do paradigma.

Aos que – como eu – não pretendem reformar-se antes do horizonte das contas do nosso Governo – em 2030 terei 57 anos – recomendo vivamente que tomem as seguintes iniciativas:
i) se puderem, emigrem;
ii) poupem (preferencialmente canalizando os fundos para produtos emitidos em jurisdições com uma tradição secular de respeito pelo capital).

Recomendo ainda que convidem os vossos pais para jantar; obriguem-nos (não se preocupem: eles estão habituados a aceitar restrições à sua liberdade, e a obedecer sem reclamar, em troca de um bom jantar) a vestir uma t-shirt (Made in China) com a famosa inscrição de Keynes: "A longo prazo, estaremos todos mortos"; antes da sobremesa, expliquem-lhes como nos novos tempos a "solidariedade" se faz dos filhos para os pais [noto que o Código Civil dificulta de sobremaneira a aplicação do instituto da "deserdação", pelo que não há riscos de perderem a possibilidade de se "locupetarem", post mortem, daquele faqueiro, obra de uma vida; disclaimer: não garanto que os vossos pais não optem por "cambiar" as pratas (antes da compra ou, ex vi, em sede de processo de execução) para adquirir um mega-plasma: afinal, temos Mundial em 2010]

Rodrigo Adão da Fonseca

11 Julho 2006

Blue Photo: Hiroshi Sugimoto

Hiroshi Sugimoto, Catherine of Aragon, 1999
Rodrigo Adão da Fonseca

10 Julho 2006

Sobre o perigoso caminho da discussão do "Utilitarismo"

O Bruno Gonçalves, o António Amaral e o Tiago Mendes têm mantido um intenso e (civilizado) diálogo a partir das recentes colunas de JPP no Público; não quis, assim, deixar de participar, chamando a atenção para um ou dois aspectos que podem ser úteis para esta discussão.

Desde logo, importa relembrar aquela que é a preocupação central do pensamento liberal: seja fundado no Jusnaturalismo ou inspirado num certo Utilitarismo, defende que o indivíduo possui, pela sua própria natureza ou em busca da felicidade, uma esfera (intangível ou objectiva) de direitos, considerados fundamentais (v.g. direito à vida, à propriedade, à segurança). A salvaguarda destes direitos é tida como essencial para a afirmação individual. Assim, quando se afirma (na caixa de comentários do Bodegas) que, e cito, "(...) para haver ética, é preciso haver valores e princípios. Quem os rejeita, age sem ética fundamentada, age utilitariamente (...)", ou quando se diz, e cito, que "(...) o liberalismo não convive com o utilitarismo porque o liberalismo é um conjunto de ideias que exerce os seus efeitos diferidamente e a longo prazo (...) o utilitarismo, por outro lado, defende efeitos imediatos e é conducente ao estatismo, construtivismo, socialismo (..)", ignora-se:
  • que o utilitarismo tem uma expressão ética;
  • que existem vários utilitaristas, desde Bentham a Stuart Mill, cuja ética está fortemente enraizada em algumas das correntes do pensamento liberal clássico.
Admito que este erro - de menor importância - seja fruto de uma exposição excessiva a Hannah Arendt, uma das maiores críticas da marca utilitarista na ética liberal.

Agora, o que é incontornável é que existe, no pensamento liberal, uma corrente de raiz utilitarista, o que não significa que não haja espaço - amplo - para que no plano liberal se construam correntes de base jusnaturalista; as tensões, neste plano, entre empiristas e metafísicos são, aliás, quase insanáveis. Recomendo, assim, a este título, o post do AAA e a sequência que se lhe segue, e que ajudam a enquadrar uma questão que aparece, no debate acima referido, apresentada um pouco a "preto e branco".

Julgo também ser útil a minha contribuição para o debate acerca da - para mim pretensa - dicotomia "dogma" versus "praxis" (e que se desenrolou a partir das distintas leituras sobre o teor dos artigos de JPP); para tal, recupero algo que escrevi em Fevereiro, a reboque de uma rica troca de ideias com o AAA e com o ENP, e que penso volta aqui o ter seu interesse:
O homem, numa abordagem liberal, não é super, tem uma capacidade limitada; mas ele não é um ser passivo. Também não existe o "homem liberal" - ou "liberal praticante" - nem o "homem estatista" - ou "estatista praticante". Existem, sim, atitudes liberais e socialistas. Que têm subjacentes ideias. Por isso, mas do que o "quem", deve preocupar-nos o "quê".

A força das ideias está precisamente na capacidade que têm de fazer alinhar os esforços individuais; um indivíduo - ou um conjunto de indivíduos - com ideias claras é capaz de antecipar a mudança e inovar. Significa isto ser um agente activo do processo social. Um indivíduo - ou um grupo de indivíduos - poderão não ser a alanvanca da mudança. Mas podem antecipá-la e influenciá-la.

O grande desafio, hoje, por isso, está precisamente em saber eleger uma agenda liberal, em saber separar a teoria da prática; não submetendo a teoria à prática, nem vice-versa. Conhecer bem os conceitos centrais do liberalismo é um pressuposto essencial para, nos dias de hoje, poder perceber o mundo complexo em que vivemos; ajuda a trilhar caminhos, a "liberalizar". Todos os dias o mundo muda. É bom ter ideias - que nos ajudem a fazer as escolhas, acompanhando a mudança - no sentido que se julgue mais correcto.

É esta a força - e o interesse prático - das ideias. Ajudar a encontrar as respostas num mundo complexo, marcado pela mudança.

Rodrigo Adão da Fonseca

Destaques Dia D

A Revista Dia D de hoje tem colunas de dois dos meus bloggers favoritos, o FGC e o AA, ambos, como eu, Insurgentes. A ler com atenção.

Assim, e com a edição impressa do Público,vale a pena ler a Revista Dia D e os textos "Para uma verdadeira reforma da admnistração pública", do António Amaral, e "O que é este cheiro?" do Fernando da Cruz Gabriel. Mais dois artigos essenciais.

Rodrigo Adão da Fonseca

04 Julho 2006

Vitória de Pirro

O Daniel Oliveira está convencido que as "redes de solidariedade" que se criaram entre os "trabalhadores das várias fábricas europeias da GM" são a causa da suspensão da decisão de encerramento da unidade da Azambuja. A notícia do DN que serve de base ao seu post, diga-se, ajuda a suportar semelhante tese.

Entretanto, um pouco por toda a imprensa mundial (ver aqui, aqui ou aqui), discute-se a pressão que a Renault e a Nissan (por intermédio do bilionário Kirk Kerkorian) estão a fazer à GM, procurando forçar o gigante americano a consolidar uma tríplice aliança.

A avaliação desta "Santíssima Trindade" - que a concretizar-se terá um significativo impacto, nomeadamente, na produção automóvel destas três marcas - é a verdadeira causa justificativa da suspensão da decisão de encerramento da unidade da Azambuja, cuja viabilidade poderá ter de ser apreciada num (potencial) novo contexto.

É bom que os trabalhadores da Opel da Azambuja tenham consciência que só a competitividade da unidade pode permitir que esta não encerre no futuro, e que se devem preparam para responder, neste plano, perante o novo alinhamento produtivo (que incorporará, além da GM, a Renault e a Nissan); de contrário, se continuarem convencidos que a viabilidade da unidade se decide nas "conquistas sindicais", então arriscam-se, à semelhança de Pirro, a que esta suposta "vitória", seja a última.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Andreas Gursky

Bahnhof Porto (Train Station Porto), 1988
Esta (fantástica) fotografia apresenta um grande plano da Estação de S. Bento, no Porto, e poderá estar ainda na posse da Galeria alemã Bernhard Knaus. Infelizmente, não consta da minha singela colecção!

Rodrigo Adão da Fonseca

03 Julho 2006

Blue Lounge recomenda: Uma questão de liberdades

Pelo Bruno Gonçalves, no excelente Bodegas, Ver aqui.

Rodrigo Adão da Fonseca

Destaques de hoje na Revista Dia D

Na Revista Dia D, com o Público de hojede hoje, destaco , por André Abrantes Amaral, "A força do poder local está na democracia", e pelo Nuno Garoupa, "A democracia dos senhores professores".

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Gregory Crewdson

"Production Still (Brightview)", 2003
Rodrigo Adão da Fonseca

Oposição liberal e reformista moderada

Caro Paulo Gorjão: Julgo que o JPP no seu artigo não pretendeu, no limite espacial de uma coluna, desenhar de raiz um novo ideário liberal para o PSD. Por isso dificilmente poderias encontrar aqui, de uma forma expressa, as respostas às questões que colocas (penso que caem fora do âmbito).

Eu li a coluna de JPP como uma crítica ao unanimismo e ao adormecimento que se tem gerado em redor de José Sócrates, no elogio vago à sua "intransigência", "coragem" e "ambição" no sentido de "salvar" o Estado Social, vírus que já contagiou várias figuras da primeira linha do PSD. Marques Mendes, por seu lado, não faz uma verdadeira oposição, como eu apontei, v.g., aqui, por não conseguir sair daquilo que é o discurso e a linha do Governo e dos ditames da pequena política. JPP acena com a recordação do "pântano" guterrista, um lago de águas calmas mas lamacentas que atolaram o país no lodo.

No fundo, questiona JPP, não só se não é possível fazer mais, como se não será necessário e urgente fazer diferente.

Pergunto eu:

  • Na Segurança Social, não é imprescindível alterar o paradigma do sistema, avançando para soluções mistas de capitalização individual? Será viável manter-se este regime de caixa? É suficiente acrescentar-se "mais um número ao totoloto", aumentando apenas a idade da reforma?
  • Como se explica que um país com uma taxa de desemprego em crescimento tenha tanta necessidade em recorrer a mão-de-obra estrangeira? Faz sentido persistir no rendimento mínimo e num subsídio de desemprego mal montado, que teima – apesar das restrições recentes – em criar incentivos errados, no sentido do imobilismo e da rigidez do factor trabalho?
  • O apoio e a prioridade dada pelo Governo aos PIN’s – os tais projectos de interesse nacional – não se traduzem numa gravosa violação de uma sã concorrência?
  • Deve o Estado absorver 50% de toda a riqueza produzida?
  • Será que o país se pauta por um ritmo de verdadeira exigência? Será que o discurso do governo, de suposta exigência, na prática, encontra acolhimento nas políticas públicas implementadas em cada sector?

Entre várias outras interrogações que se impõem. Uma oposição que se preze deve não só questionar como procurar as respostas: tal traduz-se num exercício extenso, que obriga, no mundo complexo em que vivemos, a um trabalho sério e apurado, que não se esgota nem reduz aos limites estritos de uma coluna de opinião.

O liberalismo, como bem dizes, não é, de facto, uniforme (embora seja duvidoso, por isso mesmo, que possa ser classificado de doutrina), desmultiplicando-se, na verdade, em várias correntes: elas têm, contudo, um leito comum (como um rio, que desagua sempre no mar). Em Portugal existe já uma significativa reflexão em redor daquilo que são as grandes correntes do liberalismo; não tem, contudo, havido quem de uma forma coerente e sistemática paute a sua atitude política concreta a partir de um prisma liberal (o que não é necessariamente a mesma coisa). As políticas públicas deveriam atender ao país em concreto; as soluções estão condicionadas pelos recursos existentes, pela cultura do povo, pelas condições da economia global, pela viabilidade das medidas tomadas. O que se quer são decisores que saibam, a partir de uma abordagem liberal, fazer novas opções. JPP lançou o repto. Uma oposição, um programa de governo, constroem-se, não nascem por geração espontânea a partir de uma cartilha ideológica; é uma oposição construtiva, a partir de bases claras – que não ande a reboque do imediatismo mediático e das lógicas eleitoralistas – que tem faltado. Uma oposição de matriz liberal serviria esse propósito. Cabe contudo aos partidos e aos políticos – na ausência de think tanks e de um jornalismo de opinião com capacidade de afirmação – esse papel. Que não tem sido assumido.

Um abraço,

Rodrigo Adão da Fonseca