29 Setembro 2006

Blue Lounge recomenda

"É só rir", por LCS, no seu Lóbi do Chá:

A sociedade capitalista tipificou uma categoria de gente boa: os moralmente comunistas. São pessoas que vivem uma vida capitalista, buscam avidamente a riqueza, gozam luxos e privilégios, mas dizem-se comunistas. E quando se dizem comunistas, parece que estamos perante um acto de contrição. Belmiro de Azevedo, por exemplo, nunca disse que era comunista. É, naturalmente, um capitalista dos pés à cabeça. Porém, criou milhares de postos de trabalho, nunca parou de investir e continua a criar postos de trabalho. Ou seja, distribuiu charutos e caviar. O capitalista do Belmiro de Azevedo faz aquilo que não fazem todos os moralmente comunistas juntos. No entanto, socialmente, Belmiro de Azevedo é um gatuno egoísta e os moralmente comunistas são gente boa e altruísta.
Sobre este tema, escrevo no próximo número da Revista Dia D (Público de 6 de Outubro).

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Poster & Photo: Ultra Violet

Ultra Violet e Taylor Mead no poster de apresentação do filme The Secret Life of Fernando Cortez; fotografia de John Chamberlain
A musa de Warhol, Dali e Chamberlain, em versão cinematográfica.

Rodrigo Adão da Fonseca

Destaques na Revista Dia D

"A defesa dos centros de decisão nacionais", por Luís Santos Pinto; e "O exemplo de Antuérpia", por Sérgio dos Santos.

Rodrigo Adão da Fonseca

28 Setembro 2006

Blue Painting: Júlio Pomar

Série "Marujos e Companhia"
Hoje estou enjoado. Marinheiro de água doce...

Rodrigo Adão da Fonseca

27 Setembro 2006

Unidos na Igualdade, à luta por uma galinha anorética

O Compromisso Portugal veio mesmo "mexer" com os nervos do status quo. Veja-se, por exemplo, a curiosa reacção de Vital Moreira; um artigo no Público de ontem, a lembrar os velhos tempos e, obviamente, as habituais boutades anti-americanas:

Já se sabia que a concorrência é um mecanismo essencial da eficência económica numa economia de mercado. Ficamos agora a saber que também tem efeitos virtuosos sobre a igualdade social. Deve ser por isso que a desigualdade de riqueza é tão pequena nos Estados Unidos!

Vital Moreira, Causa Nossa



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Nos EUA existem, de facto, desigualdades, não porque haja muitos pobres, como por vezes se canta por aqui, mas porque os ricos são MESMO ricos. Estamos a falar numa desigualdade meramente estatística. Quem nos dera a nós que os nossos pobres tivessem o nível de vida dos cidadãos norte-americanos, que houvesse, no acesso ao ensino e ao emprego, uma tão grande valorização do mérito, que a justiça comum por cá funcionasse.


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O limiar da pobreza nos EUA situa-se nos 20 mil dólares (por cabeça num dado agregado familiar); considera-se rico alguém que aufere mais de 200 mil dólares por ano. Olhem para os vossos bolsos e vejam quanto ganham. Quantas famílias em Portugal dipõem de mais de 20 mil dólares per capita? Com quanto se vive em Portugal?


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Nos EUA, existe, como em lado nenhum do planeta, o menor grau de desigualdade de oportunidades. Boa parte da pobreza é essencialmente voluntária, resulta de uma opção individual - não há falta de trabalho nos EUA (acolhem anualmente cerca de 17 milhões de imigrantes) - por pura e simplesmente viver no ócio, na preguiça ou do crime. A pobreza nos EUA é um problema sobretudo moral. Há, ainda, uma parte da pobreza que está associada à imigração: os EUA absorvem muitos imigrantes, de todos os cantos do mundo, que anualmente acorrem ao Norte da América em busca do seu american dream: o enriquecimento surge da luta pessoal contra a pobreza.


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Por cá, preferimos continuar perdidos a sonhar com o socialismo, desvalorizando a riqueza, obcecados na "redistribuição". Pelo andar da carruagem, qualquer dia andamos - unidos na igualdade - todos "à cabeçada" para redistribuir uma galinha anorética.

Rodrigo Adão da Fonseca

P.S. (aliás, BdE): Na linha esperada, JAD aponta as armas contra o sector privado; o Daniel Oliveira também. Pena que se limitem a reproduzir uma notícia, e não analisem o que está escrito no dito "relatório". Teriam algumas surpresas. Mas a Fé no Sector Público é suficiente. Isso é que importa.

P.S.2.: Não sei se Vital Moreira conhece alguns dos bairros mais pobres da área metropolitana do Porto, ou de algum ponto do país. Veria ao ponto de degradação a que se chegou em certas zonas, uma pobreza endémica, encostada no Estado, inerte, que vive de subsídios e da pequena criminalidade. Pobres derrotados, adormecidos, sem vontade de lutar por uma vida melhor. Muitos deles limitados por uma sociedade que não gera oportunidades, em que a escola os condena desde logo à miséria. Cercados pela droga. Em Lisboa não será diferente. Em Portugal é muito difícil nascer-se pobre, e quebrar com o ciclo de pobreza. Quem tem orgulho num país destes, ao ponto de zombar com os que vivem bem acima destes patamares?

P.S.3.: Fico fascinado com a facilidade com que em Portugal se critica os que, no fundo, criam riqueza e geram emprego. O Estado limita-se a redistribuir o que o sector privado produz. Que crédito nos merece quem tem tanto rancor pelos que, no fundo, todos os dias acordam para criar riqueza e gerar emprego? Vejam que são os promotores do Compromisso Portugal. Onde, em Portugal, há melhor emprego? Quais são as empresas mais produtivas? Quais são são os empresários mais empreendedores? Quais as práticas dessas empresas? Não são as que geram emprego de melhor qualidade? As que dão melhores perspectivas ao nível do país? As que, apesar de tudo, mais inovam? Os que criticam o Compromisso Portugal, quantos empregos criaram nos últimos dez anos? E com que características?

26 Setembro 2006

Sobre Portugal e Espanha

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Ontem, no programa Prós & Contras, discutiam-se as relações entre Portugal e Espanha.

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Embora me sinta profundamente português, o facto de ter vivivo em Espanha, e de ainda me deslocar aí com frequência, várias vezes ao ano, faz com que encare com naturalidade aquilo que por vezes é visto por alguns com desconfiança: num mundo globalizado, a integração ibérica, no plano económico, é inevitável.

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Não vou dissecar o debate. Mas queria abordar um dos pontos que mais confusão me causa sempre que se comparam, vistos de cá, os dois países.

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Um dos maiores equívocos, para mim, está na apresentação da potencial desagregação dos nossos vizinhos, como factor negativo, ao mesmo tempo que nos regozijamos por sermos "uma das mais antigas nações da Europa", com uma sólida unidade política e cultural.

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A força da Espanha - embora admita que tal possa vir a ser, a médio prazo, a sua ruína como Nação - está na diversidade cultural, linguística, no amor que cada espanhol tem às suas raízes, à sua região, aquilo que é específico de cada localidade. A concorrência interna entre as regiões - e, até, localidades - é fortíssima; cada uma procura explorar o seu potencial ao máximo. Espanha é um Estado politicamente construído da base até ao topo, e o poder está fortemente fraccionado e dividido.

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Em Portugal, pelo contrário, impera desde longa data uma sufocante macrocefalia, acentuada nos últimos anos; o país está cada vez mais desagregado. As diferenças entre as distintas regiões são evidentes, e são várias as zonas que ardem, definham, envelhecem, se esvaziam. Os portugueses estão a perder as suas raízes, emigrados em arrabaldes construídos à pressa em redor do Porto e de Lisboa.

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Os espanhóis têm orgulho nos seus. Falou-se da marca "Espanha" e da sua força e valia. Eu falo-vos de uma outra, a do grupo catalão La Caixa. Um logotipo encomendado a dois artistas, obviamente, catalães, Joan Miró e Josep Royo. A entrega do trabalho foi feita, não em powerpoint ou no meio de um portfolio, mas num grande tapete (200X500), entretanto colocado na entrada da Sede, no piso térreo das duas Torres que se destacam na Avenida Diagonal de Barcelona.

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Quantas empresas portuguesas entregam a sua imagem aos seus artistas plásticos?

Rodrigo Adão da Fonseca

Quinta-feira, nas bancas


O número de Outubro da Revista Atlântico. Este mês novamente com a minha colaboração, com O Casino da Segurança Social. A partir da consulta e análise de largas dezenas de artigos e papers - dois dossiers - publicados na imprensa portuguesa e internacional, optei desta vez por um registo diferente do habitual, satírico, e num estilo solto e livre. Um olhar céptico sobre o rumo da Previdência.

Rodrigo Adão da Fonseca

Atlas Shrugged

Steven Klein, Angelina Jolie and Brad Pitt #10 (W Magazine), 2005

Jolie, a longtime fan of Rand's, was eager to play the role of Dagney Taggart, the most powerful female character in any of Rand's books.

Embora nos caminhos da escrita trilhe a lógica dedutiva, na escolha das mulheres a minha intuição raramente falha (tenho de aproveitar esta oportunidade para fazer méritos).

Na sexta-feira passada, reclamava para a minha coluna na Dia D uma ilustração da Angelina Jolie. Outros, mais modestos, limitaram-se a pedir a insossa da Ann Coulter. O CAA, contudo, desmascara-me no Blasfémias, ao divulgar a faceta objectivista de uma das minhas actrizes favoritas, cujo fascínio só é ultrapassado pelo humor da Meg Ryan.

André, embrulha!

Rodrigo Adão da Fonseca

[via Blasfémias]

25 Setembro 2006

La Biennale di Venezia


Berni Searle

Runa Islam

Em destaque, La Biennale di Venezia.

Rodrigo Adão da Fonseca

22 Setembro 2006

Sobre as taxas moderadoras

Ao contrário da convicção geral, não me parece que Correia de Campos tenha deixado cair o seu comentário sobre as taxas moderadoras por incontinência verbal, cansaço, precipitação ou mera gaffe. Até porque, como refere Vital Moreira - em geral bem informado sobre estas matérias - estará para ser divulgado um "relatório do grupo de peritos nomeado pelo Ministro da Saúde para estudar o problema e propor soluções". E o Ministro não ignorará este facto, certamente.

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Foi, aliás, quase patético ver Miguel Sousa Tavares, na TVI, a apostar com a apresentadora como o Ministério da Saúde iria, ainda na mesma noite, emitir uma nota esclarecendo e desmentindo as afirmações do Ministro. Há pessoas - algumas delas com responsabilidades, porque são fazedores de opinião - que não perceberam bem o que se está a passar em Portugal, em especial no sector da Saúde, à beira da ruptura.

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Ora, não tenho quaisquer dúvidas quanto às intenções do Ministro: pretende que o assunto se esgote na discussão dos próximos dias, facilitando depois a apresentação das suas conclusões e das suas ideias, quando a generalidade da opinião pública estiver já desinteressada, por este tema não apresentar já qualquer áurea de novidade.

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Porque, em Portugal, o debate público faz-se de sound bytes descartáveis. E ninguém vai querer, em finais de Novembro, inícios de Dezembro, época de compras natalícias, discutir um tema requentado. Correia de Campos sabe isto muito bem. Alguém se lembra como foi com as Farmácias?

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Diz ainda Vital Moreira:
É evidente que a nova «taxa moderadora» não é um «novo imposto», como disparatadamente acusa o PSD.

Em sentido técnico, uma taxa não é um imposto. Mas a introdução de co-pagamentos, tal como Vital Moreira os descreve, sem a respectiva diminuição da carga fiscal - com o objectivo de "assegurar a sustentabilidade financeira do SNS" - aumenta o volume das receitas que passam a estar na esfera pública, subtraídos aos cidadãos e às empresas. Em termos políticos, latu sensu, isto são impostos.

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A discussão é permatura, e colocar-se-á no tempo devido, para breve. O texto de Vital Moreira, ainda assim, não deixa de ser paradigmático. Recomendo ainda a leitura desta notícia, em particular os comentários do Professor Pedro Pita Barros.

Rodrigo Adão da Fonseca

Esqueceu-se dos métodos da Santa Inquisição, Sr.ª Dr.ª

Eu se fosse da CIA, depois da decisão do Supreme Court também ficava bem quietinho, mesmo que até aí a minha conducta tivesse sido impecável. Assim não haveria risco de ser mal interpretado.

Agora, Sr.ª Dr.ª Ana Gomes, dai a, sem quaisquer elementos, pressupor que até essa data, a «"actividade operacional" da CIA ia vendo em popa: isto é, o sequestro, o desaparecimento forçado, o cárcere privado, a tortura, os interrogatórios com tratamentos humilhantes e degradantes (...) Tudo métodos dignos da mais abjecta ditadura, da Argentina de Videla, do Chile de Pinochet. Do Gulag soviético às prisões secretas de Suharto, passando pelas salas de tortura da PIDE», talvez seja um bocadinho exagerado, não acha?

Rodrigo Adão da Fonseca

O caminho faz-se caminhando

Mas, a não ser que se queira apenas ser lobiista (e é isso o que muitos destes gestores sabem fazer bem nos meandros do poder, logo convencem-se que isso pode ser transposto para os eleitores) seria melhor usar os recursos disponíveis para intervir na sociedade civil para formar opinião. Formar opinião: invistam em think tanks, em estudos sérios, em jornais e revistas, em conferências, em ensino de excelência não apenas para as empresas mas para a actividade cívica, apoiem iniciativas modelo que mostrem a eficácia das propostas, etc, etc. Apoiem os políticos e os partidos que melhor pensam poder expressar essas propostas. Às claras, para se saber. Sem receios. Ou então façam um partido político e concorram às eleições, uma solução que daria uma grande legitimidade ao movimento e acabaria com algumas ambiguidades sobre as naturais ambições de alguns dos seus proponentes. E acima de tudo dêem o exemplo, a melhor das propagandas.


Esta crítica, de JPP, no seu Abrupto, teria fundamento se de facto os promotores principais do Compromisso Portugal já não tivessem assumido - ainda antes da 2.ª Convenção do Beato - que há uma intenção de evoluir para a criação de um think tank, com pessoas em permanência, e que acrescentem consistência e profundidade ao trabalho já feito.

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O Compromisso Portugal tem dois anos. E um think tank com outra robustez, para poder dar os frutos e ter a dimensão que JPP refere, custa muito dinheiro. Que, nas empresas, pertence aos accionistas. Por isso estas Convenções são fundadoras de movimentos. Estas iniciativas, se bem acolhidas, podem dar frutos. E ajudar a encontrar os fundos necessários. Criticá-las pelo que não se fez em vez de olhar para aquilo que já representam é na minha óptica uma abordagem errada.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

"O que é que no discurso do Papa interpela o Islão?", por JPP, no Abrupto (texto inicialmente divulgado no Público).

Podem encontrar uma excelente tradução da prelecção de Bento XVI (da autoria de Pedro Aguiar Pinto) n'O Insurgente, aqui.

Rodrigo Adão da Fonseca

Unidos na mesma causa

Afirma o LA-C na caixa de comentários deste post:
«As críticas que ele me fez são semelhantes às que tu também fizeste à abordagem neoclássica, a pretexto dos meus posts sobre Economia e Ciência. Vocês, liberais austríacos, estão muito mais próximos do Louçã do que eu».

Unidos contra a abordagem neoclássica. Talvez por razões diferentes. Mas, why not?

Rodrigo Adão da Fonseca

PS: Estou certo haverá um consenso mais alargado em relação à Scarlett Johansson. Aí acertaste na mouche.

Destaques Dia D

O tema da capa, "Casinos", e em especial as colunas do Bruno Gonçalves e do LA-C, "Impasse" e "O trabalhador, a feia e o vilão", respectivamente. EstA últimA com direito a Scarlett Johansson. Grande LA-C.

Rodrigo Adão da Fonseca

PS: Pedido à redacção da Dia D. No meu próximo artigo, podem ilustrá-lo com a Angelina Jolie?

Guns N' Roses - Welcome To The Jungle

Axl Rose está a ser processado por danos pela Galeria de LA «Acquire d’Arte». O vocalista dos Guns adquiriu um quadro de Andy Warhol com o retrato de John Lennon, sinalizando-o pela metade. A obra, avaliada pela galeria em 2,6 milhões de dólares, entretanto não foi paga: Axl diz que não tem o resto do dinheiro, e que o retrato não vale o preço pedido!

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Art: Joana Vasconcelos (com adenda)

Joana Vasconcelos, A Noiva, 2001
(nota: não é o lustre que está na Casa da Música)

Faltava, no Blue Lounge, um destaque à artista do momento na cidade do Porto. Joana Vasconcelos. Quero ir à Casa da Música jantar e ver o seu - novo - lustre.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

No sítio do Compromisso Portugal, as entrevistas a José Manuel Moreira e a Sérgio Figueiredo.

Rodrigo Adão da Fonseca

Actualizada lista de ligações

Junta-se os sítios do Compromisso Portugal e 5 dias, e os blogues Crónicas do Migas e Uma Casa na Praia. Boas leituras!

Rodrigo Adão da Fonseca

21 Setembro 2006

Blue Photo: Thrush Holmes II

In the Studio, Junho de 2006
Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Thrush Holmes

The last great communicator, 2006
Um post que se impõe neste turbulento mês de Setembro. Capaz de ter as suas palavras em sítios tão improváveis como este.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda: aborto e humanismo

Pelo Francisco Mendes da Silva, no Blogue da Atlântico: uma excelente, serena e desapaixonada desmistificação sobre a suposta "vergonha" da ida a Tribunal. Um óptimo contributo para o debate.

Rodrigo Adão da Fonseca

Compromisso Portugal

Por motivos profissionais de última hora, não vou poder estar presente, como gostaria, no Convento do Beato, para a 2.ª Convenção do Compromisso Portugal. Mas o Blue Lounge não deixa de se associar à iniciativa, divulgando-a a quem se interessa por estas questões. Aqui, no sítio da organização, podem encontrar documentos provocatórios, e até seguir, caso pretendam, as sessões em directo.

Estou certo que do Beato vão sair novas soluções e uma organização ainda mais forte para ajudar Portugal a seguir o seu rumo.

Rodrigo Adão da Fonseca

20 Setembro 2006

Verdades inconvenientes

Tem feito furor o filme-documentário onde Al Gore apresenta "a passionate and inspirational look at one man's fervent crusade to halt global warming's deadly progress in its tracks by exposing the myths and misconceptions that surround it".

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"An inconvenient truth" tem, para além da mensagem ambiental, um fito político "não escrito" que importa não negligenciar. O timing é curioso - precisamente quando se começam a perfilar os candidatos à Presidência dos EUA - e o tema escolhido também. Al Gore pretende marcar a agenda, e criar um clima mais favorável, sim, não apenas para o planeta, mas também para os putativos candidatos democratas.

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Conclui-se, por um lado, que ao contrário daquilo que é a convicção europeia, a política externa não é a matéria que mais divide os americanos.

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O Katrina terá, eventualmente, deixado marcas bem mais profundas no eleitorado americano que a intervenção no Iraque.

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Importa ainda perceber as razões que conduzem a que um certo ataque abertamente anti-Bush seja deliberadamente esvaziado pelos democratas a favor de personalidades mais ou menos isoladas e posicionadas na esquerda americana, como Michael Moore (e que assumem as "despesas" do discurso mais radical).

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Ora (e como bem referia ontem ao almoço o AAA), 80% dos judeus americanos votam fielmente no Partido Democrata, numa lealdade que remonta aos anos quarenta e aos tempos idos da 2.ª Guerra Mundial. Nem o apogeu do neo-conservadorismo, na última eleição, impediu que 86% dos judeus norte-americanos tivessem votado Kerry. Acresce que o eleitorado judeu tem um peso fundamental em Estados importantes como NY e Massachusetts.

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Há, ainda, um factor decisivo: uma boa parte da produção cinematográfica norte-americana é financiada por judeus.

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Claramente, o Partido Democrata não vai querer hostilizar um dos seus eleitorados mais leais, o judaico.

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Uma luta titânica vai travar-se, sim, mas junto do eleitorado latino, tendencialmente republicano, mas bastante mais dividido, menos fiel, e que teve, durante este mandato, vários conflitos abertos com a Administração Bush.

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Está a começar a aquecer, e não é só o planeta!

Rodrigo Adão da Fonseca

21

Sou um tipo normalíssimo. Pena não ter mais quinze centímetros de altura. Em vez de andar por aqui a fazer contas, estava a passar "modelitos".

[via O Insurgente e Glória Fácil]

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Poster: Porque hoje é um dia especial

Robert Indiana, 2005
Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Postcard: Sweet Home

Janet Echelman, She Changes, 2005

(Quase) todos os dias passo por aqui. Se tivesse um carro tão bonito, aquele poderia ser eu.

Rodrigo Adão da Fonseca

19 Setembro 2006

aborto, sexualidade e responsabilidade (a partir do texto do Rui de Albuquerque)

O Rui de Albuquerque, acalmada a poeira por ele levantada, escreve um post que permite um debate um pouco mais sereno, e que me suscita alguns comentários.


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Desde logo, pergunto-me se a convicção sobre a dimensão do aborto que se apresenta (desenvolvida no ponto 2) resulta de um conhecimento empírico difuso, ou de dados reais, com alguma fiabilidade. Eu não sinto que o aborto tenha uma expressão brutal, quase pandémica. Embora admita que seja certamente um problema real, de difícil apreensão, por estar rodeado de um forte sigilo.

Ainda assim, tudo o que tenho são percepções. Eu não quero nem reduzir nem extrapolar a questão, apenas perguntei neste post, porque considero essencial para que o debate seja efectivo, que se esclareçam, para lá das suposições de cada um de nós, as seguintes dúvidas:

Será que o aborto em Portugal é o flagelo de que se fala? Estaremos perante uma "pandemia" abortiva? Alguém estudou a fundo - barulho houve muito - os aspectos sociológicos associados à prática do aborto em Portugal na última década?

Diga-se, em abono do debate, será que a vulgarização crescente dos métodos contraceptivos não torna cada vez menor a necessidade de um instituto do aborto legal? Não estaremos já longe do imaginário dos que querem fazer passar a ideia que hoje se aborta com a frequência com que se vai ao cinema? Será mesmo que é isso que se passa? E se o é, porque será que se recorre tanto ao aborto? Por dogmatismo? Por inibição no recurso à contracepção? Por mera irresponsabilidade? Por se assumir o aborto como uma última forma de planeamento? O que faz com que no mundo de hoje o aborto seja uma questão supostamente tão relevante?



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No ponto 3, parte-se novamente de presunções. Assume-se já que há uma demissão do poder judicial em relação à aplicação da lei. No meu texto não fiz uma pergunta retórica. Tenho a sensação que não há muitos processos julgados: mas tenho dúvidas. E gostava de perceber o porquê dos números. Nesta fase, estas são dúvidas que importa esclarecer, e não com base na nossa intuição, mas com dados fidedignos:

Quantos julgamentos houve em Portugal em que mulheres tenham sido condenadas pela prática de aborto? Quantas mulheres estão presas? Qual a efectiva relevância penal da questão? Há uma demissão do poder judicial em relação à aplicação da lei? Porquê?


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Nos pontos 4 e 5 faz-se uma análise sobre sexo e sexualidade na sociedade. Ninguém duvida que nos dias de hoje se fala muito sobre sexo, desde tenra idade. Mas não só. Sex is in the air. É quase impossível não ser bombardeado, querendo-se ou não, por imagens, relatos, insinuações sexuais, sobretudo artificiais, associadas aos media e à publicidade. Não sei - porque não ando a espiar os hábitos alheios - se isso se traduz numa maior prática sexual:

Será que hoje se faz mais ou menos sexo do que nos tempos idos?

Esta é uma interrogação que pouco tem a ver com a questão do aborto, mas que tem o seu lugar.


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No ponto 6., escreve-se que o facto de haver sexo no ar "está, assim, na génese de comportamentos desregrados e prejudiciais, porque precoces, excessivos e não suficientemente entendidos, que são cada vez mais cedo «assumidos» pelos jovens. Que daqui resultem gravidezes indesejadas, e se recorra ao aborto como uma solução fácil".

Reduz-se a questão do aborto a uma espécie de expediente adolescente (uma vez que em todo o texto não se fala dos abortos praticados em inúmeras outras situações, na maior parte dos casos, por adultos, imputáveis). Apresentar o aborto desta forma é afunilar a questão; é essencial dar-lhe a adequada perspectiva; para isso, seria importante ter dados sobre algumas das interrogações que coloquei no meu post abaixo, a saber:

Num tempo em o planeamento familiar bem aplicado é eficaz, sabido, como se sabe, que a prática sexual pode conduzir, entre outras consequências, a uma gravidez, queremos autorizar que alguém possa escolher se uma dada vida, já formada, deve ou não ser viável? E até onde? Quais são os nossos limites? E em que circunstâncias?

Permitindo o aborto a pedido, não estaremos a convidar os adolescentes , jovens e adultos a uma sexualidade menos responsável, por existir mais uma porta de saída? Qual o impacto que a legalização do aborto pode ter na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como a SIDA e a hepatite B? Alguém sabe responder a esta questão?



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No ponto 7 constata-se que a Igreja, nos últimos tempos, não terá dado, supostamente, a devida importância à questão do aborto.

Ora, se o aborto é algo que diz respeito à sociedade civil, não se deveria então questionar porque é que esta matéria não mobilizou quase ninguém em Portugal, tendo apenas marcado presença na agenda do Bloco de Esquerda?

É pacífico, hoje, existir uma clara separação entre a Igreja e o Estado; assim, não faz sentido exigir-se da Igreja, neste plano, o que quer que seja. A Igreja, enquanto instituição secular, poderá participar - e certamente o fará - no referendo. Pois numa sociedade aberta, o debate é plural e livre; agora, não se compadece com exigências. Quem não quiser estar, não está.

Convém ainda não esquecer que o referendo convida os cidadãos a pronunciarem-se sobre a despenalização do aborto, no plano civil. Este é um debate da Nação. Não estamos a referendar a moral da Igreja: essa diz respeito à comunidade de crentes.


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Caro Rui,

Em todos os teus textos, apresentas-te como portador de um dado "realismo", mas quando disseco o que escreves, concluo que para já te baseias em suposições e crenças, que poderão, ou não, estar correctas. Confio que o tempo encarregar-se-á, ao longo do debate, de nos dissipar algumas delas, com as contribuições que naturalmente chegarão de quem domina algumas das questões que ainda têm contornos pouco definidos.

Agora, para quem diz que "o discurso sobre o aborto (deve) ultrapassar as banalidades e os lugares-comuns habituais", e decidiu neste debate sustentar as suas teses na "assolação do real", parece-me que vais ter que trabalhar um pouco mais nas respostas, e não te resguardares apenas naquilo em que és claramente muito bom: "levar o debate para (...) os habituais jogos florais da retórica argumentativa". Estou certo que vais gostar também de trabalhar em cima dos números e da estatística.

Com amizade,
Rodrigo Adão da Fonseca

18 Setembro 2006

Blue Painting: Edward Ruscha

Ou como enviesar à partida um debate sobre o aborto.

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Uma das estratégias mais utilizadas pelos que se colocam a favor da despenalização do aborto passa por arrastar a outra parte para uma espécie de gueto na discussão, associando-a a posições dogmáticas, apriorísticas, quase fundamentalistas. No fundo, o ponto de partida é a desvalorização moral do outro para o debate, e a colocação de rótulos.

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A discussão sobre o aborto tem ainda uma outra particularidade. A desqualificação faz-se pela tensão entre os que são dotados de uma dada "humanidade", porque atendem à "realidade", e os "dogmáticos", sendo que uma posição que tenha presente valores e princípios parte desde logo em desvantagem, com um handicap. Curioso é também um certo posicionamento, de pessoas que em relação à generalidade das matérias cuidam bem do plano dos princípios, mas que neste ponto - e com toda a legitimidade - preferem fundamentar-se (e render-se) apenas na leitura da "realidade".

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O que não me parece propriamente de bom gosto é que se condicione a participação na discussão a uma espécie de “mea culpa” prévio, e que abrange a globalidade dos nossos hipotéticos comportamentos sexuais. É esta a linha de raciocínio que está subjacente a algumas posições, onde como ponto de partida desde logo se "desqualifica" uma parte significativa dos portugueses, porque terão usado preservativos, terão tido relações extraconjugais e pré-matrimoniais, recorrerão à pílula e comungaram, terão "ido às meninas" e até, na mesma linha, terão abortado ou sido cúmplices em algum aborto. E, imagine-se, eventualmente muitos deles (dizem que) são contra todas estas coisas. Como se fosse tudo isto que está em causa.

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A hipocrisia existe, mas não é um fenómeno exclusivo da moral. Nem da vivência religiosa. Nem se coloca apenas em relação ao aborto. Acresce que todos os aspectos descritos no parágrafo anterior - que poderão ter tido importância crucial numa dada época, e por isso certamente marcam a forma de abordar o assunto por representantes de algumas gerações - cada vez mais têm menos relevância. O mundo, v.g., que o Rui de Albuquerque descreve nos seus posts (e cujos links poderão encontrar nos meus textos abaixo) é, hoje, minoritário em Portugal. Há, felizmente, nos nossos dias, uma maior clarificação em relação às matérias da sexualidade, sobretudo no que diz respeito à contracepção, e mesmo os que a recusam, por questões religiosas ou de mera opção pessoal, fazem-no em grande parte de uma forma bem assumida e visível. Não me parece que hoje, nesta matéria, tenha assim tanto peso uma suposta hipocrisia. Centrar o debate neste ponto é dar dignidade e importância, num tema tão sensível, a raciocínios típicos do Exmo. Sr. Monsieur de La Palisse.

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Mas vamos então à "realidade", visto ser ela assim tão importante.

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Será que o aborto em Portugal é o flagelo de que se fala? Estaremos perante uma "pandemia" abortiva? Alguém estudou a fundo - barulho houve muito - os aspectos sociológicos associados à prática do aborto em Portugal na última década?

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Quantos julgamentos houve em Portugal em que mulheres tenham sido condenadas pela prática de aborto? Quantas mulheres estão presas? Qual a efectiva relevância penal da questão? Há uma demissão do poder judicial em relação à aplicação da lei? Porquê?

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Diga-se, em abono do debate, será que a vulgarização crescente dos métodos contraceptivos não torna cada vez menor a necessidade de um instituto do aborto legal? Não estaremos já longe do imaginário dos que querem fazer passar a ideia que hoje se aborta com a frequência com que se vai ao cinema? Será mesmo que é isso que se passa? E se o é, porque será que se recorre tanto ao aborto? Por dogmatismo? Por inibição no recurso à contracepção? Por mera irresponsabilidade? Por se assumir o aborto como uma última forma de planeamento? O que faz com que no mundo de hoje o aborto seja uma questão supostamente tão relevante?

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A lei portuguesa em vigor é assim tão retrógada? O que é que ela permite? Para onde pretendemos avançar com o referendo?

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Num tempo em o planeamento familiar bem aplicado é eficaz, sabido, como se sabe, que a prática sexual pode conduzir, entre outras consequências, a uma gravidez, queremos autorizar que alguém possa escolher se uma dada vida, já formada, deve ou não ser viável? E até onde? Quais são os nossos limites? E em que circunstâncias?

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Faz sentido que, numa época em que o planeamento familiar é amplamente eficaz, havendo crianças - vivas - que nos hospitais não têm os tratamentos necessários por ausência de verbas, se canalizem recursos para práticas de aborto a pedido?

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Permitindo o aborto a pedido, não estaremos a convidar os adolescentes , jovens e adultos a uma sexualidade menos responsável, por existir mais uma porta de saída? Qual o impacto que a legalização do aborto pode ter na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como a SIDA e a hepatite B? Alguém sabe responder a esta questão?

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É mesmo verdade que um embrião faz parte do património da mulher, ou é já ele um corpo autónomo? O que a mulher faz com o seu corpo deve limitar-se à forma como vive a sua sexualidade, que é livre, mas que tem associada a possibilidade de ser mãe? Ou preferimos dar às mulheres a alternativa de, num dado período temporal, poder ela própria decidir sobre a viabilidade de um feto? E pode a mulher ser soberana nesta decisão?

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Estamos a referendar a despenalização do aborto, a pensar no presente e no futuro, ou apenas agarrados a marcas profundas e feridas do passado? Estamos perante processos de "cicatrização" ideológica e de consciência, ou a pensar no Portugal que temos e que queremos?

*

Todas estas questões não são lineares, e merecem uma séria e honesta discussão. Mas importa resistir à tentação fácil de argumentar com base em chavões e rótulos que estão totalmente ultrapassados, e que fazem parte do património de um Portugal antigo. Eu, da minha parte, vou ter o gosto de participar no debate, mas não me vou deixar enredar por uma espécie de complexo moral ou religioso, que vise desqualificar as minhas posições.

Rodrigo Adão da Fonseca

Sensibilidade e bom-gosto (ou a sua falta)

Caro Rui,

Para início de conversa, dou-te nota que não fiquei ofendido. Esse é um sentimento virginal que desconheço. Tenho pena - friso - tenho pena (sentimento de desilusão) que arrastes o meu nome de uma forma infeliz num post no qual não procuras discutir ideias, mas apenas avançar num discurso moralista (no sentido negativo que tu próprio dás à moral). Moralizar, fugindo da moralidade. Obviamente sou arrastado, pois és tu quem diz que o motivo do teu texto resulta do facto de eu te ter "tirado do sério": ao menos tem a frontalidade de o assumir sem rodeios. Até porque vejo que insistes na mesma linha. Arrastas-me, dizendo que não o fazes. Certo é que ao fim de tanta prosa, estou esclarecido: se nem tu consegues discutir este assunto com serenidade e um mínimo de bom gosto, então este debate está condenado à nascença.

Da minha parte, certamente irei emitir a minha posição sobre o assunto, "acrescentando" algo. Mas longe do nível rasteiro em que colocaste a questão. Onde de uma forma maniqueísta condicionas logo uma das posições, acusando-a de ser "moralista" e hipócrita". Não deixando saída. Obviamente, há muita hipocrisia na forma como a questão do aborto é discutida. E também, já agora, muita ignorância. O que não invalida nenhuma das posições. E esse raciocínio aplica-se a tantas outras realidades. Pessoas que falam sobre a "fraude e a evasão fiscal", e que não pagam os impostos. Por essa razão, devemos deixar de discutir o que subjaz à tributação? Condutores que circulam a 200, pondo em risco a segurança e a vida de terceiros. Devemos exigir todos - quem não andou já em excesso de velocidade - que não haja limitações e Código da Estrada? O teu discurso, aqui, aqui e aqui, é ele próprio moral. E, diga-se, bem agressivo, de "dedinho em riste".

Passa bem, e regressa aos jogos florais, onde a tua escrita é bem mais feliz e consistente. Da minha parte, fico-me por aqui. Quem nos ler saberá fazer as suas apreciações. E quem te conheça melhor do que eu talvez possa explicar-me que bicho te mordeu.

Ler também:

referendo ao aborto; o meu comentário ao post "referendo ao aborto"; aborto: a minha moral é melhor que a tua (resposta do rui ao meu singelo comentário); xanax (onde comento os posts anteriores e a forma como se extrapolou o meu comentário); aborto: moral e autoridade (ou como o rui insiste na arte de moralizar a toda a sela no cavalo do Monsieur de La Palisse).

Rodrigo Adão da Fonseca

17 Setembro 2006

Xanax

A discussão sobre o aborto está de regresso.

O Rui de Albuquerque decidiu dar o pontapé de saída. Na minha humilde leitura, entendo que neste texto, aqui, sem se emitir opinião, se menoriza uma boa parte dos que até hoje se têm empenhado na discussão desta difícil matéria. O argumento central constante no post referendo ao aborto assenta no alinhamento [em oposição a uns (a favor) e a outros (contra)], por um (para mim) vazio politicamente correcto, coroado com uma frase (no Rui) deveras surpreendente: «é conveniente que uns e outros não transformem o referendo num processo de disputa político-partidária ou religiosa, mas que estejam seriamente empenhados em encontrar respostas para um dos mais difíceis problemas do nosso tempo». Nunca pensei encontrar num texto do Rui, e de uma forma tão taxativa, sobrevalorizada uma visão «realista» que ao mesmo tempo desqualifica o contributo das ideias (ou será das pessoas?), tenham elas um fundamento político, partidário ou religioso. Considerei, de facto, que este post denotava um certo guterrismo, e por isso convidei o Rui a desenvolver a sua posição sobre a matéria.

Pelos vistos, o meu comentário teve o condão de tirar o Rui do sério. Ou nas palavras do próprio, «Confesso que, ao fim de (quase) quatro décadas e meia de existência, poucas são as coisas e as pessoas que são capazes de me "tirar do sério"». Fico satisfeito por saber que o meu grande amigo Rui ainda não perdeu a capacidade de se indignar. E como se indignou! Já agora, talvez valha a pena recuperar o meu comentário que despoletou no Rui sentimentos tão raros e intensos:
Caro Rui,
Ficas bem no papel de Guterres, politicamente correcto, mediando o diálogo.
Vou também gostar de ler a forma como vais explicar a tua posição sobre o assunto, e como irás certamente enriquecer o debate.
Um abraço,
RAF


Comentário meu, certamente irónico. De crítica a um texto - relembro, a um texto - que se posiciona acima do debate mediante uma não posição, num estilo que muito agradaria ao Monsieur de la Palisse, justificada em algo que é óbvio: o aborto é um flagelo terrivel, e que urge resolver.

Uma coisa é certa. Para quem iniciou a discussão colocando-se acima de Deus e do Diabo, o Rui rapidamente desceu à terra, escrevendo um texto bem próprio dos que se indignam com facilidade: o que, diga-se, é caso quase único. Tanto por tão pouco. E que apenas se explica dada a importância do tema.

Quanto ao teor do que aqui está escrito, pouco há a dizer: todos temos direito aos nossos momentos de infelicidade. Agora, caro Rui, relembro-te algo que estás fartinho de saber: não tenho por hábito - na minha vida pessoal nem naquilo que escrevo - colocar os outros no perímetro da critica quando estão em causa, entre outras, matérias de ordem moral ou de costumes. Por isso tenho pena que tenhas escrito isto - com um título destes - misturando pelo meio o meu nome. Tenho pena. As más surpresas por vezes surgem de quem menos esperamos: guterrando eu também um pouco, só me dá para dizer: «É a vida».

Rodrigo Adão da Fonseca

15 Setembro 2006

Blue Joke: Cristo no café

[adaptação a partir de uma anedota recebida por mail]

Estavam um inglês, um alemão e um português num café quando o inglês diz aos outros:

«Aquele ali que acabou de entrar é mesmo igualzinho ao Jesus Cristo».

«Pois, pois, e a que está com ele deve ser Maria Madalena», respondeu o alemão.

«Desculpem, mas vejam a barba, a túnica...», diz o inglês, enquanto se levanta e dirije ao suposto JC, e lhe pergunta:

«Tu desculpa-me, mas és Jesus Cristo, não é verdade?».

«Primeiro fala mais baixo e dobra a língua, que não se trata por tu o Filho do Senhor. Sou sim, mas estou por aqui a tomar um café discretamente, e se tu não te calas não vou ter sossego, com o café inteiro a pedir-me milagres».

O inglês, apercebendo-se da oportunidade, respondeu:

«Em tempos fiz uma lesão no joelho a jogar cricket com o João Carlos Espada. Cura-me e eu desapareço caladinho».

Jesus Cristo, contrafeito, lá lhe pôs a mão no joelho e curou-o.

«Obrigado, meu Senhor. Ficar-lhe-ei eternamente grato», agradece, emocionado, o inglês.

«Sim, sim. Não grites e vai-te embora. E não contes a ninguém».

O inglês, mal chegou à mesa, contou aos amigos. O alemão levantou-se logo e dirigiu-se à mesa do lado:

«O meu amigo disse-me que eras Jesus Cristo e que o curaste. Tenho uma tendinite no braço, e isto incomoda-me fortemente. Cura-me».

«Outro. Conheces-me de algum lado para me tratares por tu? Mas pronto, dá cá o braço, que eu curo-te. Mas vê lá se estás caladinho e dizes ao inglês que de castigo vai ter de ler duas horas seguidas um texto do Oakeshott».

Jesus Cristo, vendo que na mesa havia três pessoas, pensou que, por uma questão de justiça, devia ele próprio curar também o português. Levantou-se, dirigiu-se ao grupo, e pondo a mão sobre o ombro do português, perguntou-lhe:

«E tu, meu filho não queres que...».

O português levanta-se de um salto, afastando-se e refilando:

«Tu aí, tira as mãozinhas que eu estou de baixa!».

Rodrigo Adão da Fonseca

Parabéns a você

Robert Cottingham, "An American Alphabet D"
Um ano de Revista Dia D. Parabéns a todos os que dirigem e participam nesta revista. Agradeço ainda a oportunidade que me deram de colaborar neste projecto.

Rodrigo Adão da Fonseca

14 Setembro 2006

Blue Painting: Hermann Paschold


Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

Na linha do que comentei aqui, mas escrito como deve ser, recomenda-se a leitura dos textos do André Azevedo Alves, agora disponíveis no site da Causa Liberal, "Segurança Social: Em busca da sustentabilidade? e O mito dos custos de transição".

*

"Ignorance", no Abrupto. Que até pode ser lido em conjunto com a parte final do post "Torres de Babel".

Rodrigo Adão da Fonseca

No comments

No site das FARC's.

(via Blasfémias)

Rodrigo Adão da Fonseca

Frases felizes

«Government's first duty is to protect the people, not run their lives», Ronald Reagan
Rodrigo Adão da Fonseca

Quadratura do Círculo

Alguém podia explicar ao Jorge Coelho - e, já agora, ao Primeiro-Ministro e ao PS - que um regime de transição para um sistema misto com um pilar de capitalização individual não aumenta a dívida pública: apenas a titula, torna-a evidente na contabilidade pública, em vez de a diluir no tempo. A única solução irresponsável é a do PS, pois é aquela que não assume, perante os jovens e as gerações futuras, a coragem de titular, sob a forma de divida, as responsabilidades com pensões que já configuram potenciais direitos, na esfera dos contribuintes. O PS, ao preferir manter o regime actual, não diminui as responsabilidades do Estado: repercute-as, contudo, nas gerações futuras. Com uma agravante: não estagna o processo galopante de descapitalização do sistema.

Alguém podia explicar a Jorge Coelho - e, já agora, ao Primeiro-Ministro e ao PS - que esta não é uma questão de opinião, ou de ideologia: é demografia, e contas simples de matemática. A retórica do "Todo" não paga pensões.

Rodrigo Adão da Fonseca

Gansters

«Temos o Carrapatoso/Corleone, o Belmiro/Corleone e o Paulo Teixeira/Corleone», Francisco Anacleto Louçã, algures num bar do Soho, no sábado passado.

«Politics and crime are the same thing», Corleone (in O Padrinho III)

*

Como é? Não há por aí um verdadeiro Corleone que faça jus ao nome? Já não se fazem gansters como antigamente? Então o Louçã diz o que diz, e ainda nenhum dos empresários mafiosos cumpriu o seu código de honra?

Rodrigo Adão da Fonseca

13 Setembro 2006

Blue Lounge recomenda

"Geração recibos verdes", pelo Henrique Raposo, no blogue da Atlântico.

Abstraindo das questões da política partidária descritas no post, há uma ideia importante que o HR apresenta: a exploração geracional, de pais para filhos. Acrescento a rigidez no mercado de trabalho provocada pela instituição de direitos por via legal, e pela hiperprotecção do trabalhador, que impede a criação de emprego - o que prejudica sobretudo os mais novos. Esses, para sobreviver, são empurrados para um mundo de recibos verdes, o único que permite ultrapassar os constrangimentos de uma economia laboral totalmente caducada - não só no plano financeiro, mas também, como bem refere o HR, do ponto de vista moral.

Este é um dos tópicos que exploro num artigo a publicar no próximo número da revista (o PPM que me perdoe a inconfidência).

Rodrigo Adão da Fonseca

12 Setembro 2006

Torres de Babel

Em Junho de 2001, por motivos profissionais, desloquei-me a NY. E realizei um dos meus sonhos de infância, adiado nas anteriores incursões à Big Apple: o passeio longo de helicóptero que, entre outros locais, sobrevoava as Twin Towers. Por esses dias, NY era uma cidade alegre, de uma energia contagiante. O calor e o verão tinham acabado de chegar. A memória que guardo não anda muito longe da cidade descrita por Rushdie, em 2000, na sua obra "Fúria" (texto que novamente se recupera aqui no Blue Lounge), onde de uma forma deliciosamente feliz, se apresenta o ambiente reinante numa Nova-Iorque efervescente e despreocupada:
«(...) A cidade fervilhava de dinheiro. Rendas e bens imóveis nunca tinham sido tão elevados e, na indústria do vestuário, havia a convicção generalizada de que a moda nunca estivera tão na moda. A todas as horas abriam novos restaurantes. Lojas, empresas concessionárias e galerias suavam com o esforço de satisfazer a procura em flecha de produtos cada vez mais exóticos: azeites de edição limitada, saca–rolhas de trezentos dólares, Humvee de fabrico personalizado, o mais recente software antivírus, serviços de acompanhamento que incluíam contorcionistas e gémeas, instalações de vídeo, arte marginal, écharpes levíssimas feitas de penugem da queixada de cabras monteses. Eram tantas as pessoas a remodelar apartamentos que as provisões de aplicações e de mobiliário de alta qualidade eram disputadíssimas. Havia listas de espera para banheiras, puxadores, madeiras de lei de importação, lareiras a imitar o antigo, bidés, lajes de mármore. Apesar das recentes quedas do valor do índice de Nasdaq e do valor das acções da Amazon, a nova tecnologia tinha a cidade na mão: continuavam a debater–se os arranques, as OPA’s, a interactividade, o futuro inimaginável que tinha agora mesmo começado a começar. O futuro era um casino, e toda a gente jogava, e toda a gente esperava ganhar (...)».

[Descrição do
modus vivendi nova–iorquino no início do Outono de 2000; «Fúria», de Salman Rushdie,Publicações D. Quixote, 2001]


Regressei na Primavera de 2003, recém-casado, e de passagem. A cidade mantinha o seu ritmo. Discutia-se a proibição de fumar em bares e restaurantes. Em cada esquina, marcava presença o estilo de vida nova-iorquino. As Torres haviam caído. Mas os habitantes de NY não estavam resignados perante a adversidade. Não se culpavam pelos atentados. Nem, na sua imensa maioria, construíam retóricas para justificar o ódio e o fanatismo.

A marca estava, contudo, bem presente, no "Ground 0". Onde antes havia Torres, restava um enorme vazio. Impressionou-nos o "Memorial", um extenso muro onde as vítimas eram apresentadas como heróis. Porquê chamar heróis a quem morreu sem escolha? Toda a cidade se organizou para honrar aqueles mortos. Sob os escombros, ainda eram visíveis marcas de fumo. Nada estava escondido. O terror, os nomes, as histórias. Cada um livremente podia fazer, naquele espaço, o seu juízo.

Passados alguns anos, compreendo que NY honre os seus heróis. Muitos morreram sem escolha. Mas tantos foram salvos por cidadãos anónimos que, interrompendo a fuga, paravam, regressavam, para ajudar o próximo. Histórias de homens e mulheres comuns. Cidadãos anónimos, mas com nome. Alguns deles, perderam a vida. Os ataques às Torres Gémeas fizeram as suas vítimas. Mas a América descobriu os seus heróis. Meros cidadãos, com sentido de entreajuda. Uma sociedade com uma forte coesão comunitária. Com alma própria. Com amor à bandeira. Que não se rendeu ao medo. Nem aceita alterar o seu modo de vida, que assenta, como em nenhuma parte do planeta, na liberdade, no mérito, na iniciativa, na confiança, na verdade. No optimismo e na luta contra a adversidade.

Muito se tem escrito, falado, projectado, sobre o 11 de Setembro. Milhares de "factos" inundam os nossos ouvidos e ofuscam os nossos olhos. A democracia perverteu-se, ao ponto de tantos conseguirem simplificar e terem ideias lineares, sólidas, sobre assuntos tão complexos. A globalização da informação trouxe destas coisas: os "factos" são prêt a porter, à medida da nossa "consciência" ideológica. Petróleo. Iraque. Conspiração sionista. Guerra de Civilizações. Incursões diplomáticas do Vaticano a Bagdad e à Casa Branca. Supostos movimentos financeiros na iminência dos ataques. Ligações à família de Laden. Dan Brown fez escola: muitos falam, poucos ouvem, e ainda menos pensam. Parte do Ocidente é uma enorme Torre de Babel, onde os governantes estão manietados, fogem das ideias próprias, antes procurando agir de acordo com um incidioso e mutável politicamente correcto, que se descobre na interpretação do ruído.

Eu, por mim, apenas observo. E peço a Deus que não se esqueça deste pequeno espaço perdido na imensidão do Universo. Onde tantos o invocam. Mas cada vez menos o ouvem e respeitam.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

Os posts no Abrupto sobre "As memórias de um guerrilheiro", de Alcides Sakala, e Ciclos e Mitos (I).

Rodrigo Adão da Fonseca

08 Setembro 2006

Revista de Imprensa

Há na esquerda quem não goste da linha editorial da Dia D (revista que acompanha o jornal Público, agora às sextas-feiras); quem ler os dois artigos de opinião de hoje, escritos pelos Insurgentes António Costa Amaral e Fernando da Cruz Gabriel, poderá perceber o porquê deste mal-estar, pois ambas as colunas, pela sua qualidade, rigor e clareza, poderiam ter sido publicadas em muitas das revistas internacionais que habitualmente vemos. Para ler, reler e guardar:

"Estalinismo social", opinião de António Costa Amaral (para mim, o seu melhor texto até hoje);

"Lendo os russos", opinião de Fernando da Cruz Gabriel.

*

No Diário Económico de hoje, António Carrapatoso publica um texto brilhante, a que chama "Neo-reaccionários", e que aqui se reproduz:

Marx tinha razão quando dizia ser necessário dar mais poder aos trabalhadores para eles serem mais felizes.

Em 1848 Marx publicou com Engels ”O Manifesto Comunista” e mais tarde em 1867 o primeiro capítulo da sua obra económica fundamental ”O Capital”.

Marx acreditava que a única forma de alcançar uma sociedade feliz e harmoniosa seria com os trabalhadores no poder, o que representaria o último estádio do desenvolvimento, depois de o capitalismo ter soçobrado devido, nomeadamente, às suas contradições internas e à luta de classes.

Segundo Marx os patrões exploravam os trabalhadores, apropriando-se das mais valias por eles criadas, devendo por isso os trabalhadores organizarem-se em sindicatos para combater os patrões e mais tarde tomar o poder nas suas próprias mãos, passando toda a propriedade dos meios de produção para o Estado.

Marx foi excessivo ao antecipar o fim do capitalismo e ao desprezar o papel dos empresários, e ingénuo ao não antecipar as distorções e ineficiências provocadas por um Estado comunista.

Mas tinha razão quando dizia ser necessário dar mais poder aos trabalhadores para eles serem mais felizes.

Marx não antecipou que seria possível compatibilizar e encontrar um equilíbrio virtuoso e dinâmico entre o papel e poder dos empresários e o papel e o poder dos trabalhadores.

Também não antecipou que mais relevante do que falar em classes, (que se tornaram cada vez menos homogéneas e menos estáveis), e na luta geral dos trabalhadores, seria falar e apostar em incentivos, competências e motivações individuais, num modelo social selectivo e sustentável e na valorização e responsabilização de cada cidadão, sendo esta a base da construção e desenvolvimento da Sociedade e finalmente do aumento de poder do trabalhador.

Existem boas razões para desculpar Marx.

Na altura em que Marx publicou as suas teses os mercados eram principalmente locais e poucos competitivos, existiam muitas posições dominantes, não existia uma adequada regulação e fiscalização das práticas duma sã concorrência, o sistema social era muito precário e os trabalhadores tinham, duma forma geral e à partida, um nível de educação e de qualificação reduzidos.

Os patrões tinham, assim, um elevado poder face aos trabalhadores, que se encontravam numa situação de elevada fragilidade e que dificilmente poderiam aspirar a serem eles próprios empresários.

Mas o Mundo entretanto mudou e muito, em particular nas últimas décadas.

O sistema educativo tornou-se mais abrangente e eficaz, massificando o acesso ao ensino, as políticas sociais ficaram mais consequentes, as tecnologias de informação facilitaram um acesso individual ao conhecimento e à possibilidade de comunicação duma forma independente, o cidadão adquiriu muito mais poder como agente económico, seja como trabalhador, produtor ou consumidor.

Por outro lado, a globalização e abertura dos mercados e as suas políticas e práticas de concorrência reduziram as ameaças de poderes empresariais dominantes e as margens de lucro excessivas e levaram os empresários a procurar obter e reter os melhores recursos, nomeadamente humanos, para os seus projectos, por forma a tornarem-se mais competitivos.

Existe ainda hoje quem viva agarrado aos velhos paradigmas do passado, em parte por razões associadas a uma dificuldade de compreensão das mudanças verificadas mas, principalmente, porque essa é a única forma de defenderem o seu estatuto e não terem que entrar em contradição com as propostas que têm defendido para a Sociedade.

Na prática não querem que os cidadãos tenham mais poder, sejam mais qualificados, independentes e informados e possam encontrar o seu próprio caminho.

Preferem ter cidadãos fragilizados e assustados, que acreditem na manutenção da segurança de emprego (apenas aparente), para que se mantenham fiéis e dependentes das instituições e organizações políticas ou sindicais que lideram, mesmo que esse seja o caminho para o empobrecimento e infelicidade.

Não aproveitam assim a parte boa e revolucionária da teoria de Karl Marx: a importância de dar poder e alternativas aos trabalhadores (neste caso individualmente considerados), aproveitando todo o seu potencial e permitindo a sua realização.

Não os podemos desculpar como a Marx, dado o contexto e desafios actuais com que nos confrontamos.

Porque o seu posicionamento é contrário à dinâmica de desenvolvimento da Sociedade e à felicidade dos cidadãos, mesmo que não sejamos partidários de rótulos, não podemos deixar de os designar de ”Neo-reaccionários”.

António Carrapatoso, Economista


Rodrigo Adão da Fonseca

07 Setembro 2006

Auto-etiquetagem (Blue Lounge em versão intimista)

A Miss Carpinteiro, do Feel That, etiquetou-me, e pese embora eu não seja um grande adepto deste tipo de reptos blogosféricos, por cavalheirismo e tendo em atenção que este blogue faz parte dos meus preferidos, não pude deixar de aceitar o desafio. Reforça a minha participação nesta cadeia o facto dela ter passado no Postais de Bruxelas, onde a nossa itinerante Sinapse mostra uma das suas facetas mais simpáticas: a da escrita.

*


Assim, e excepcionalmente, passo a tentar descrever-me (as regras dizem que são seis características; talvez vá um pouco além, porque vou responder com abertura e sinceridade):

*

Tenho uma personalidade ambivalente. Com um lado racional, ético, realista, e um outro passional, deslumbrado pelas mudanças, pelas ambiguidades, pelo mistério, pela estética. Sou um ser urbano, que encontra o equilíbrio no quotidiano e na agitação citadina.

*

Encaro a vida como uma longa caminhada; valorizo e invisto fortemente na minha profissão, exercida com persistência, empenho e entusiasmo; vivo-a, contudo, de uma forma resguardada, e evito que ela domine a minha existência. Descobri, no meu dia-a-dia, a paz interior necessária para cultivar outros focos de realização: a familia, os poucos amigos, o amor à arte, à leitura; prezo muito o meu espaço interior. Num mundo conturbado, tento viver em harmonia. E, muitas vezes, e por largos períodos, consigo-o.

*

Ao contrário da Sinapse, peço sempre coca-cola com muito gelo e limão. Reminiscências de uma infância vivida no país vizinho. E bebo litros dela. Aderi às versões light e limão. Considero-as duas das inovações do novo milénio.

*

Subscrevo na íntegra as características descritas pela Miss Carpinteiro, à excepção dos cocktails de fruta.

*

Creio em Deus.

*

Adoro comédias; de todo o género; E pessoas com sentido de humor; o paraíso, como me dizia o meu pai num dia especial, deve ser algo parecido com um jantar divertido, com gente genuinamente alegre e animada. Em família, com amigos, em instantes fortuitos, partidas pregadas pelo destino, senti de passagem o que poderá ser a felicidade. Momentos que guardo na minha memória e no meu coração.

Rodrigo Adão da Fonseca

06 Setembro 2006

Quem acende a luz?

Marques Mendes durante um ano foi incapaz de apresentar uma solução credível para a reforma da Segurança Social. Fá-lo agora, quando o governo já avançou para a Concertação Social.

*

Pergunto-me contudo se o PSD teria feito a mesma proposta caso fosse governo ou se houvesse a mínima hipótese de ela ser atendida pelo PS. Porque há um ponto que não se explica: como é que o PSD pretende financiar a transição para um modelo misto? A solução que defendem implica uma quebra óbvia de receitas: ao contrário do que o PS diz, esta diminuição é, a prazo, postiva, porque é acompanhada a) de uma desresponsabilização do Estado face ao pagamento de uma parte significativa das reformas; e b) da capitalização individual dos valores envolvidos; mas e no imediato, como se ultrapassa este fenómeno "Afinsa" em que se tornou a nossa Previdência?

*

O modelo que o PSD propõe tem, assim, esta grande virtude: põe a nu aquele que é o problema central do nosso sistema de reformas: funciona numa base de caixa - vive das contribuições presentes da população activa - pelo que qualquer fenómeno de capitalização individual - que é o único que salvaguarda as gerações futuras - determina a falência eminente do sistema actual, a menos que se injectem fundos de outra origem (que não as contribuições entretanto objecto de capitalização individual). Impostos para os actuais reformados? Dívida pública? Privatizações? Cativação de impostos indirectos? O PSD não responde. O PS acusa o principal partido da oposição de irresponsabilidade (certamente por ter rompido com o consenso existente sobre esta matéria). Só não vê quem não quer. O cenário é negro. Alguém do PSD e do PS podiam fazer o favor de acender a luz?

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Xiong Lijun


Happy Together, 2006

China Comunista?

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge: Tracy Chapman (Revolution)

Tracy Chapman - Talkin' 'Bout A Revolution



No final dos anos 80, Tracy Chapman cantava uma revolução. Quem não se deixou seduzir por esta voz e pela sua mensagem? Uma falsa ilusão de conforto retirou-nos a capacidade de indignação?

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Ji Lei

The Legend of Red, 2006

A China, ao contrário daquilo que possa ser a convicção de uma boa parte do Ocidente, não se reduz à mão-de-obra intensiva e aos produtos de baixa qualidade. Há neste país - com uma tradição cultural milenar - uma explosão de Arte Contemporânea cada vez de melhor qualidade, em alguns casos até com um expressivo significado político e sentido de inovação. Aliás, que dizer desta subversão do traço surrealista, tipicamente de raíz utópica, como forma artística de oposição ao socialismo?

Rodrigo Adão da Fonseca

05 Setembro 2006

Blue Lounge Recomenda

No blogue "Quintus", comenta-se e discute-se o artigo que escrevi publicado na Revista Atlântico do mês de Agosto. Para já, fica o respectivo link. Espero, nos próximos dias, debater alguns pontos aí propostos.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Uta Barth

Field #8, 1995
Field #19, 1996

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda: Geração Blogue

"Geração Blogue", uma obra de Giuseppe Granieri, traduzido e lançado recentemente em Portugal pela Editorial Presença. De leitura obrigatória. Um ensaio não apenas sobre a blogosfera, mas onde se avalia o fenómeno da comunicação (em sentido amplo) no nosso tempo. Feito com objectividade e rigor. Um dos melhores que li este ano.

Rodrigo Adão da Fonseca

Blogosfera lusa: Top Blogs (ranking)

O PubADict fez um ranking ponderado dos blogues portugueses, a partir dos dados de uma série de motores de pesquisa. O Blue Lounge ficou de fora, não fazendo parte do universo de análise, certamente por não ser das leituras do pesquisador. Apesar da ausência deste blogue, uma excelente iniciativa.

Em qualquer caso, eu próprio fiz a minha pesquisa, e conclui o seguinte.

Technorati: 521 links a partir de 103 blogs;
Icerocket: 78 links;
Blogpulse: 39 mensagens;
Google blog search: 233 links.

Este é um blog individual que nasceu em finais de Novembro do ano passado. Vendo os resultados - nunca tinha feito esta avaliação - fico satisfeito. Não sei que posição ocuparia o Blue Lounge, mas da leitura que faço dos dados constantes aqui, penso que estaria num lugar interessante na tabela. Entretanto, vou vivendo neste cantinho azul. Sem constar do Guia Michelin do PubADict. Mas, ainda assim, com a casa bem frequentada.

Rodrigo Adão da Fonseca

04 Setembro 2006

Roleta Russa

Escreve o João Miranda, no seu melhor registo:

Paguem-me o preservativo senão eu mato-me

Preço dos preservativos em Portugal pode condicionar prática do sexo seguro

Dado que pelos vistos há gente que está disposta a arriscar a vida para poupar dinheiro em preservativos, suponho que a consequência lógica disto é o subsídio ao preservativo.

O tom da notícia mostra o estado a que chegou a responsabilidade individual.

Não diria melhor. Acrescento, porém, que mesmo com preservativo a maior parte das relações não são seguras: podem sempre aparecer a mulher/marido, companheira/companheiro, mãe/pai, irmãos, GNR/Polícia Municipal/detective a soldo/"pestaninhas", a mulher da limpeza, o Professor Karamba e suas mezinhas, amigos/inimigos a atrapalhar o momento...

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Malerie Marder

"One", 2006
Rodrigo Adão da Fonseca

03 Setembro 2006

Blue Music: Peste e Sida - Sol da Caparica

Peste e Sida - Sol da Caparica




Alguns leitores, residentes na cosmopolita Lisboa, protestaram alegando que a capital, ao contrário de Madrid, tem praia.

A música "Aqui no hay playa" é uma sátira ao centralismo. Agora, em rigor, praia, em Lisboa, só na Linha ou na Costa...

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Music: Aqui no hay playa - Los Refrescos

Aqui no hay playa - Los refrescos (1989)


Hoje, num jantar com amigos, a dada fase, recordaram-se com nostalgia as férias da adolescência. Vacaciones com pouco dinheiro e conforto, mas cheias de animação. O Blue Lounge recupera um dos hits que marcou as noites de alguns veraneantes lusos - entre os quais, moi même - que nos anos noventa zarpavam para a movida de Espanha. Los Refrescos. Um must.
Esta música é especialmente dedicada ao Paulo Pinto Mascarenhas e a todos os que em Lisboa olham com desdém para os políticos do Norte. Recordo o escrito pelo PPM, na revista Atlântico deste mês (página 5): "as contínuas polémicas e os factos que as originam (...) dizem tudo sobre a decadência das elites portuenses. Discutem-se detalhes e deixa-se o Porto - talvez a melhor cidade de Portugal - entregue à mediocridade do costume (...) Rio, Filipe Meneses ou o peripatético Rui Moreira vão certamente deixar rasto. Duvida-se é que deixem memória".

O Porto tem algum défice de estratégia; Agora, não deixa de ser risível que uma Lisboa que tem como protagonistas Carmonas Rodrigues, Manueis Maria Carrilhos e suas Bárbaras, Antónios Pretos e Isaltinos, com romances de assessores, Parques Mayers, túneis do Marquês, festas dos santos sem adesão popular, revanches em forma de livro, entre muitas outras telenovelas, tente diminuir Rui Rio, Luis Filipe Meneses e Rui Moreira, personalidades com prestígio e obra feita, cada um no seu campo. Nem são mediocres nem a eles se deve alguma da decadência da cidade. Mais: o Porto e os seus habitantes dispensam bem o paternalismo lisboeta, e a forma condescendente como falam da sua cidade. Ficamos satisfeitos se pudermos não ter de financiar a corte...

Rodrigo Adão da Fonseca
Adenda: Diz o PPM, na caixa de comentários:
Caro Rodrigo, Só para esclarecer que não fui eu quem escreveu as linhas que me atribuis. Aquelas duas páginas são escritas por diversos colaboradores e até te posso garantir que o autor da referida frase é portuense de gema - e com algum orgulho. Mais, se queres saber, nem sequer a subscrevo no que diz respeito a Rui Moreira, que aprecio pelo menos como comentador (na política e no futebol, mesmo sendo do FCP). Um abraço, PPM
Muito bem. Em qualquer caso, então, este tipo de frases deveriam estar referenciadas (nem que fosse só com as siglas).

01 Setembro 2006

Blue Photo & Light: Colette


"The LightBox", from the Bed, 1976

Rodrigo Adão da Fonseca

E ganhou duas vezes as eleições no EUA

Escreve o Daniel Oliveira, no seu Arrastão:
Segundo uma sondagem desta semana da CNN, mais de 60% dos norte-americanos opõe-se à guerra do Iraque. 52% consideram mesmo que a guerra do Iraque é uma distracção em relação ao combate ao terrorismo. Negativa em praticamente todos os pontos, os americanos parecem apenas achar de positivo no seu Presidente o facto de ele ser um líder forte (51%). 54% não o considera honesto, a mesma percentagem que afirma não compartilhar dos seus valores. 58% não confia nele e 51% pensa que Bush não domina assuntos de maior complexidade. 57% reprova a acção do seu Presidente, 42% aprovam.

Ora, então: 40% dos americanos apoia, nesta fase, a guerra do Iraque (o que não deixa de ser surpreendente); 46% partilha os valores de Bush(!), 42% confiam nele e 49% considera que o Presidente domina assuntos de maior complexidade (quase metade dos americanos vê Bush como alguém com algum QI).

Eu não gosto do actual Presidente dos EUA, mas tentar diminui-lo com base naquilo que é a opinião dos americanos num dado momento, é um exercício inútil. Reagan também teve baixos índices de popularidade em algumas fases da sua governação, e é hoje um dos ex-Presidentes mais amados pelos americanos (embora considere que não vai ocorrer o mesmo com Bush).

Uma pequena adenda: o Bloco de Esquerda reuniu um pouco mais de 6% das preferências dos portugueses nas últimas eleições legislativas. Na linha de raciocínio do Daniel, o que é que isto significa?

Rodrigo Adão da Fonseca