Passo rapidamente pela blogosfera política e vejo os ânimos exaltados e os insultos a ferver. Pelo meio, os golden boys do primeiro-ministro no parlamento e nas assessorias anónimas atacam em força por causa do encerramento do processo Freeport. Leio alguns textos que um dia constarão de uma antologia do lambe-botismo português do início do séc. XXI. Parece-me, aliás, que o centro comercial de Alcochete deveria mudar de nome: FreeSócrates era mais ajustado à realidade nacional.
Até ao fim da primeira quinzena de Agosto este blogue irá estar, no máximo, intermitente. Como o país. Aconselha-se O Cachimbo de Magritte.
Via Lei Seca, que secou até Setembro, mas tudo indica que vêm aí novidades, depois da saída de Pedro Mexia da Cinemateca.
A entrevista a Manuel Alegre não foi publicada no Inimigo Público.
Mais pessoas livres, menos abrantes.
Não deixa de ser surpreendente - ou talvez não - a recente aliança Santana Lopes-José Sócrates contra a proposta de revisão constitucional do PSD. Les beaux esprits se rencontrent?
Cinco óptimos postes do Rodrigo Moita de Deus no 31 da Armada. Do primeiro ao quinto.
O primo avisou Sócrates que ia usar o seu nome no negócio do Freeport. O primo avisou, mas o Procurador-Geral da República apagou. Sim, sr. primeiro-ministro.
Ouvi há pouco no telejornal um senhor chamado Pedro Silva Pereira que parecia o vice-líder da oposição.
Ver aqui como irritar o BE.
Como se pode ver no dia-a-dia, o governo nem sequer é já "um cadáver adiado que procria". De facto, para falar cruamente, "jaz morto e apodrece". Mas, por um conjunto de razões sortidas, vamos ter de estar fechados com o cadáver no mesmo quarto por um tempo indeterminado. O que, se não faz certamente bem à saúde - até porque a cabeça, como num filme de terror, continua, arrepiante, a falar -, nos dá pelo menos a oportunidade de, nos intervalos da aflição, reflectir um pouco sobre a questão essencial: como foi possível termos chegado a isto?
É verdade que, como escreve Eduardo Nogueira Pinto, a proposta de revisão constitucional do PSD é pouco mais que um statement político. É certo e sabido que jamais será aprovada pelo PS - sobretudo um PS com um líder à beira de um ataque de nervos, disposto a tudo para se manter no poder, já em plena campanha eleitoral. Não sei é se esta proposta não teve um efeito contrário ao pretendido. É certo que Passos Coelho assume uma vez mais a iniciativa política, deixando o PS numa posição reactiva, como aliás é dito - e bem - pelo Paulo Marcelo. Mas as críticas que, por exemplo, se podem ler no Cachimbo (aqui e ali), são um sinal claro de que nem tudo está a correr bem nesta nova liderança social-democrata. A oposição interna tem também uma palavra a dizer, como se pode ver pelos comentários de Paulo Rangel.
A minha filha mais nova, de seis anos, diz que dois namorados de uma telenovela "parecem o Romeu e Julieta". Julguei que tivesse feito alguma confusão e pergunto-lhe porquê. Ninguém quer que eles namorem, estão todos contra eles, responde de imediato. Deus escreve direito por linhas tortas - ou será Shakespeare?
Armando Vara, o benemérito, foi metido numa lista concorrente para a administração do banco, com o objectivo salvífico de arrumar a casa dos desmandos que por lá estavam a ser feitos.
Tal como Sócrates, Valentim e João Loureiro também estão inocentes. É o Estado de Direito - quem? - a funcionar.
Ao ler este artigo sobre a revisão constitucional de Passos Coelho poderiamos pensar que já é o PSD que governa e o PS que se opõe. Sinal dos tempos, a iniciativa política já não é do governo, mas da oposição.
Roberto ainda não está bem, mas Jesus e os espíritos de Kardec estão connosco. Aleluia.

A ler blogues por aí, descubro um texto sobre alguém que tem o fétiche dos próprios pés. Nada a criticar, cada um tem os fétiches que prefere, ainda que se possa meditar - e até criar doutrina jurídica - sobre o direito à privacidade dos ditos. Pés.
Leio que Mourinho contratou um bruxo queniano para o ajudar no Real Madrid. É uma medida que deveria ser seguida pelos responsáveis políticos em Portugal. Há muito que José Sócrates já deveria ter ido ao bruxo.

Bom editorial do Carlos Madeira no i: "Durante décadas Portugal viveu na excitação do prazer europeu. A festa acabou. O país precisa de um novo ciclo político". Com mais ou menos excitações, todos - menos Sócrates, talvez - já perceberam que este ciclo político acabou.
Já se torna um bocadinho cómico - às vezes quase confrangedor - ler os blogues mais ou menos disfarçados ou anónimos pró-regime. Talvez quando houver umas Produções Fictícias sem ser de esquerda, quem sabe, poderemos assistir a momentos realmente humorísticos sobre o estado da nação de Sócrates - incluindo com destaque os blogues alinhados.
Só há uma maneira de ter férias a sério, férias mesmo, mesmo boas, daquele tipo de férias em que se descansa como deve ser, em que não há horas para nada, em que se dorme horas seguidas, em que se lê horas seguidas, em que só se sabe o que se vai fazer a seguir dois minutos antes de o fazer: são as férias sem filhos. Sejam elas quais forem, onde forem e quando forem. Desde que não tenham filhos, são boas.
Excelente este texto da Maria João Marques, concorde-se ou não com todos os seus pressupostos. Sobre o artigo que cita, se eu fosse Francisco Louçã diria que se trata de gente que não sabe o que é o sorriso de uma criança. Como não sou, digo apenas que é de uma insensibilidade e de uma frieza que assusta. Assusta ainda mais quando é conhecido que "340 mulheres das 19 mil que abortaram em 2009 fizeram-no duas vezes" - é verdade que, uma vez mais, os tais números estarão "abaixo da média de outros países" mas isso não é argumento até porque mais de um terço das mulheres falharam a consulta "obrigatória" após o aborto. Demonstra ainda que, ao contrário do que diziam alguns defensores da causa, o aborto foi utilizado como método anticonceptivo por mais de três centenas de mulheres só em 2009. Este é mais um dos avanços civilizacionais dos anos Sócrates.
Mesmo que Sócrates fosse embora, o país dele ficaria. Endividado. Desempregado. Arruinado. Um cenário deprimente que exigiria do novo triunvirato as medidas duras, e duramente impopulares, que ainda só foram afloradas.
Neste ano as coisas estão pior do que no passado recente, embora os factores de crise sejam os mesmos: endividamento gigante público e privado, défice persistente, desemprego crescente, apatia europeia, pobreza de projectos alternativos, estado de alma nacional desalentado. Uma péssima conjugação para as necessidades. As eleições presidenciais de Janeiro próximo estão a adiar qualquer decisão política para os idos de Março, com todos os prós e contras desses adiamentos em benefício do situacionismo.
Há abrantes anónimos e abrantes públicos, à esquerda e à direita. Gostam de falar uns com os outros, entendem-se à sua maneira: há anos que vivem à custa do Estado e o único "trabalho" que conheceram é aquele, o de serem yes man, boys do regime nas suas várias dimensões.
Na sua previsibilidade e na sua triste insignificância, o Estado da Nação não deixa de ser, no entanto, um retrato do País em que vivemos. Um País falido onde o Governo se transformou numa espécie de morto-vivo que se arrasta penosamente até que a Oposição, nomeadamente o PSD, considere que chegou a altura ideal para avançar para eleições antecipadas.