"Não uma República doutrinária, estupidamente jacobina, mas uma República larga, franca, nacional, onde caibam todos"
domingo, 31 de Janeiro de 2010
"Compromisso histórico"
Publicada por
Pedro Pestana Bastos
em
23:59
4
comentários
Aviso
Publicada por
Alexandre Homem Cristo
em
23:30
1 comentários
No mau sentido
Publicada por
Alexandre Homem Cristo
em
21:53
2
comentários
O Bloco de Esquerda e a retórica neo-nazi - com uma adenda respondendo a Filipe Nunes Vicente
A proposta de resolução foi iniciativa do CDS-PP, e em particular do deputado João Rebelo. Todos os partidos discursaram e apoiaram sem reservas os termos da resolução. Quer dizer, todos, todos, não, exactamente.
Nem por uma vez a bancada do Bloco de Esquerda aplaudiu a apresentação da proposta de resolução, ou os discursos que a defenderam de todos os outros partidos. O Bloco de Esquerda primou pela silêncio, quando a Assembleia manifestava o seu apoio.
Mas não foi só. O deputado José Manuel Pureza falou pelo Bloco. O mínimo que se pode dizer do seu discurso é que foi um discurso cobarde. Na última frase pede que a memória do Holocausto não sirva para escamotear outros Holocaustos, forma (pouco) sibilina de reproduzir um tema tão querido à esquerda radical de hoje, convertida na principal trincheira da promoção do anti-semitismo dos tempos que correm: a obscena comparação entre o Holocausto e «a desgraça palestiniana», no conflito israelo-árabe.
A estratégia é clara: banalizar o Holocausto – a última criação (ou aproveitamento) do Bloco, nesta matéria, foi a cunhagem da inqualificável expressão Holocausto Haitiano –, ao mesmo tempo que, quando se concede a sua singularidade, é para, acto contínuo, imputar às suas vítimas, ou aos seus descendentes, a autoria de actos idênticos, estratégia em que a esquerda do Bloco de Esquerda ou José Saramago estão em perfeita sintonia com o neo-nazismo (cujos sites me escuso de lincar).
Ou o Holocausto não tem nada de especial, nada de particular enquanto tragédia – um Tsunami ou um Terramoto são equivalentes da barbárie hitleriana ou de Pol-Pot –, ou, se tem, os seus promotores vivos são os sobreviventes, ou descendentes, das fábricas de morte que se singularizaram pela designação «Holocausto».
As duas estratégias discursivas fazem, na aparência, curto-circuito. Fá-lo-iam, se de facto não as unisse a mesma motivação - o ódio anti-semita.
Em Portugal, com uma longa história de violenta perseguição anti-judaica, o Bloco de Esquerda sabe, como aconteceu no ano passado, onde se devem fazer as manifestações anti-Israel: no Largo de São Domingos, onde hoje está o memorial das vítimas da Inquisição, por ter sido daquele largo e da igreja que lhe dá o nome que durante séculos saíram tantas procissões para os autos-de-fé, onde se garrotavam e queimavam os criptojudeus.
Inquisidores, nazis, judeus e o Estado de Israel - são a mesma coisa, repetem, incansáveis, o Bloco de Esquerda e os seus aliados da direita neo-nazi. Ou, então, o Holocausto não tem nada de especial. Tudo depende dos dias. O propósito é que não muda.
Mar Salgado - Filipe Nunes Vicente: Um bom texto mas com um ponto contraditório. O Jorge Costa queixa-se da harendtização (sic) do Mal e depois utiliza o qualificativo "nazi" na descrição da retórica do Bloco.
Caro Filipe Nunes Vicente: não sei o que seja a arendtização do mal. A Banalidade do Mal, um conceito de Hannah Arendt, significa qualquer coisa à qual eu jamais aludi, nem no post que refere, nem noutro qualquer. É uma coisa altamente complexa, supõe primeiro ver o que é o Mal Radical kantiano e a forma como Hannah Arendt o interpreta nas Origens do Totalitarismo, coisa que, até agora, jamais fiz. Refiro-me sim, neste post, e agradeço comentário simpático que lhe fez, a um discurso aparentemente contraditório: o de destituir o Holocausto de qualquer significação relevante e o de atribuir às suas vítimas - ao povo judeu em geral e ao que, hoje, lhe é mais caro, o Estado de Israel - os crimes de que o Holocausto é responsável. Isso tem um nome: retórica neo-nazi. Infelizmente, por uma questão de informação, gasto mais tempo do que a minha saúde mental recomendaria a lê-la na internet. Não lhe sugiro que me siga o passo, nem ensino o caminho a ninguém:-)
Publicada por
Jorge Costa
em
19:05
1 comentários
No centenário da República (2): o Afonso Costa que anda por aí
Publicada por
Jorge Costa
em
12:39
4
comentários
No centenário da República (1): o Afonso Costa de então
«Ao longo de 1913, Afonso Costa deu prioridade total às Finanças: "O que foi que perdeu a monarquia? Foi gastar de mais e não receber o que devia receber." Com ele, o Estado ia "gastar apenas o que é preciso gastar, como se faz numa casa comercial honesta." Preocupava-o a cotação da dívida pública, que recuperara de 1900 a 1910, mas depois não teve "a subida que era de esperar." Por isso, "o que se pudesse fazer sem aumento da despesa, muito bem; mas o que precisar de aumento da despesa, não, não e não!". Àqueles que pediam subsídios para as instituições de assistência e educação, recomendava: "façam quermesses". Era preciso que deixassem de "olhar para o Estado como se o Estado tivesse uma mina inesgotável". Costa fez aprovar a célebre "lei travão", proibindo deputados e senadores de propor medidas que diminuíssem a receita ou agravassem a despesa. Produziu mesmo dois orçamentos com superavit (1913 e 1914). (...) Em geral, os líderes do PRP [Partido Republicano Português - nascido do desinteresse geral da «nação» por si própria e da raiva e frustração generalizadas, tal como em Portugal, hoje, medra o Bloco de Esquerda] mantinham-se fiéis à ideia de que cabia aos particulares criar riqueza, e que o papel do Estado era sobretudo gerar um quadro estável e de confiança para a inciativa privada. "A Administração por conta do Estado", dizia Afonso Costa em 1917, (...), "é, em regra, má e dispendiosa". Mesmo o sistema de seguros sociais obrigatórios decretado em 1919 não previa investimento estatal, e confiava na iniciativa privada.»
É bastante deprimente constatar que, cem anos depois, o diagnóstico da conjuntura nacional, verdadeiramente aflitivo, é o mesmo. E que as soluções com um módico de razoabilidade preconizadas são as mesmas. E que, na essência (como evitar a palavra?), nada mudou. Excepto a retórica dos tiranetes, hoje infinitamente mais descabelada. A pobreza é atávica, como diz, quase sempre que escreve, Vasco Pulido Valente. A «decadência», com que se deleitava a geração liberal e romântica do século XIX, é um «mito», como vem tentando mostrar Rui Ramos, o autor da História de Portugal de onde tirei esta citação. Servia para provar que o país, já tendo sido «grande», podia voltar a sê-lo. Temos saída? Talvez. Por termos sido sempre pobres e incapazes, excepto quando houve mundo onde rapinar - escravos e ouro -, não quer dizer que um dia não consigamos, por esforço e mérito próprio. Mas não estou a ver a saída. Talvez, quem sabe, começando a pensar que nada de grande se faz sem esforço e mérito próprio.
Publicada por
Jorge Costa
em
10:14
4
comentários
O problema de Portugal
Publicada por
Paulo Santos
em
01:24
16
comentários
sábado, 30 de Janeiro de 2010
Morte à banca internacional!
A pergunta é suscitada por este gráfico que acompanha um estudo do sector de Rendimento Fixo (Fixed Income) do Deutsche Bank. O que mostra? Mostra que Portugal não é o recordista europeu do endividamento público (medido em percentagem do Produto Interno Bruto). Tem (muito poucos) países à frente. Mas só é ultrapassado pela Grécia, quando se considera a natureza e o nível das carteiras em que se encontram os títulos - os bancos estrangeiros.
Se calhar, as vozes esganiçadas que se ouvem pela Pátria contra a «corja» das agências de rating deveriam atirar os uivos à banca internacional, aquela que verdadeiramente está a fazer baixar, através das suas compras e vendas de títulos, o valor das nossas OTs. É óbvio que a avaliação dos bancos não é imune à apreciação das agências de rating. É óbvio. Mas quem negoceia são, numa parte muito significativa, os bancos, e são as suas operações que estão a determinar o «spread» face às obrigações da dívida soberana mais segura. É óbvio: têm accionistas, estão cotados, têm contas a prestar e - horrível! -, por isso fazem contas e «benchmarcam-se».
Publicada por
Jorge Costa
em
20:41
6
comentários
Constâncio arrasa tudo: o ministro, ele, as instituições e o que mais houver; merdas que acontecem (com um asterisco)
É uma completa estupidez pensar-se, mesmo que já se tenha vivido meio século, que já se ouviu tudo, viu tudo. A enormidade, senhores, não tem limites. Saído do intervalo de tempo semanal que Deus me deu para cortar por um dia com a loucura ambiente, abro o jornal electrónico e - pumba!
«Nós*, no Banco de Portugal, não esperávamos. O Governo e o próprio Ministério das Finanças foi surpreendido com esta evolução nos últimos dois meses do ano», disse Vítor Constâncio sobre o défice de 9,3% de 2009.
Repare-se: o governador do Banco de Portugal está a explicar ao mundo que a bebedeira financeira em Portugal é de geração espontânea, ninguém sabe, ninguém estava lá, aquilo acontece... Podia ter sido aquilo, ou outra coisa qualquer... Ou então... o quê? Está Constâncio a dar o golpe de misericórdia ao Governo, ao ministro, a ele próprio, às instituições? Está, mas... também não sabe que está? Se calhar. Isto assim é lixado.
«Ninguém esperava um défice de 9,3%», resume Constâncio. Estas merdas caem nem a gente sabe bem donde. Felizmente, calhou o ano terminar no dia 31 de Dezembro, se não, apre!
* Sim. O extraordinário doutor Constâncio, o mesmo que em Fevereiro de 2005 sabia, à centésima, o que viria a ser o défice em Dezembro de 2005. Ele há coisas. Não há como estar de sobreaviso.
Publicada por
Jorge Costa
em
18:37
16
comentários
sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
A Alemanha e o Holocausto
Publicada por
Pedro Picoito
em
19:49
8
comentários
Escolher entre o mau e o muito mau
O Conselho de Estado está convocado para quarta-feira.
Tenho alguns votos.
Que o Presidente consiga convencer os governantes a mudar de discurso. Atacar os mercados é proibido. Mesmo que tivessem razão, seria como ladrar à Lua. Não resolve nada. Agrava. Mostra que ainda não se caiu na real. Nós precisamos dos mercados. Os mercados não precisam de nós. Believe it.
Que convença o senhor primeiro-ministro a reconhecer que há uma crise.
Que convença as oposições que contam a colaborarem, não politicando a questão. A saudarem o discurso responsável do primeiro-ministro. Esta parte é fácil.
Que, depois, no tempo certo (rapidamente, não há tempo para o PEC, nem o PEC resolve coisa nenhuma, porque estamos a falar do que é urgente para ontem), o senhor primeiro-ministro adopte medidas, algumas de excepção, para reduzir o défice drasticamente – este ano! – reduzindo as necessidades de financiamento previstas. Outra parte das medidas terá de ter consequências estruturais – ou seja, congelamentos não vale, porque quem congela hoje descongela amanhã.
Que a oposição saúde essas medidas, pronunciando-se sobre elas na fase preparatória.
Que o Presidente se comprometa a dar todo o apoio ao Governo na adopção de medidas que se tornaram inadiáveis. Ça va de soit, mas, é claro, sempre fica dito.
Publicada por
Jorge Costa
em
17:54
7
comentários
Simplismos
Publicada por
Alexandre Homem Cristo
em
13:45
7
comentários
Não volto a escrever sobre o morto (corrigido)
Explico: o Jornal de Negócios, competente e crível, somou e revelou. 90% da redução projectada do défice tem por base a receita. Não sei quanta receita fiscal, mas certamente muita.
Ora, a receita fiscal projectada, para ser realizada, depende: 1) do cenário macroeconómico subjacente – quanto e como vai a economia crescer (ou cair); e 2) de relações de elasticidade credíveis (para um crescimento de tantos por cento e com esta ou aquela composição, entre consumo, investimento, exportações e importações, quanto sobe cada imposto e a soma deles).
Dando de barato que o ponto 2 está tecnicamente correcto, resta que o cenário macro é uma ficção.
Se o Orçamento não tem uma orientação contraccionista – e para aferir adequadamente isso seria necessário ter dados estruturais (intervalo do produto) –, fortemente contraccionistas vão ser as condições monetárias, a outra grande variável envolvente. Poderia apostar todos os meus salários até ao fim da vida, na ausência de um milagre, que assim vai ser.
A diferença do custo da dívida pública face à Alemanha, a referência no euro, já mais do que duplicou desde Novembro para cá. Vai aumentar muitíssimo mais.
É impossível que a União Europeia não considere este Orçamento aquilo que ele é: um erro total nas opções, de que a mais evidente é a opção pela receita, adiando tudo o que não podia ser adiado. Quando se pronunciar, e certamente que o fará com luvas para evitar enterrar mais fundo o país, sem poder deixar, contudo, de o fazer, pois perde a cara se não o fizer, o rombo nos custos da dívida será ainda maior.
Isso é apenas o princípio do fim. Mas já não estamos nessa fase. Já vamos bem avançados no meio: o custo de financiamento da banca, que por seu turno financia (quase) tudo vai aumentar tanto, ou mais, que o do agente mais solvente da economia, que é o Estado.
E lá estão hoje, no Jornal de Negócios, as curvazinhas diabólicas de que falo, com a EDP, a PT, o BES, o BCP a serem percebidos como afectados de níveis crescentes de risco e, portanto, a terem de pagar por isso, para irem aos mercados e poderem... viver. Os bancos, por seu turno, farão pagar os custos acrescidos às famílias e ao restante sector empresarial, que não se pode financiar directamente lá fora, como as grandes cotadas do PSI-20.
O fortíssimo aperto monetário que aí vem fará o país recair numa recessão, e quaisquer cálculos, em regime de instabilidade total, que é aquele onde passámos a viver, são efabulações, porque a forma do caos (oxímoro advertido) não se pode prever com nenhum acerto.
Muito boa noite.
Publicada por
Jorge Costa
em
13:04
10
comentários
Cachimbos na rádio
Publicada por
Pedro Picoito
em
11:41
1 comentários
Da série "a concorrência faz melhor"
Publicada por
Paulo Marcelo
em
10:42
0
comentários
Da desonestidade
Publicada por
Alexandre Homem Cristo
em
02:13
7
comentários
quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Três blogs tablóides
Publicada por
Carlos Botelho
em
23:47
0
comentários
Alberto Martins deve explicações
Publicada por
Nuno Gouveia
em
22:18
3
comentários
J.D. Salinger - 1919-2010
Publicada por
Jorge Costa
em
22:06
1 comentários
Ceci, c'est une pipe
Ele estará bem?
Publicada por
Jorge Costa
em
21:48
2
comentários
Porque não se cala ele?
O ministro das Finanças atacou mais uma vez as agências de rating (notação de risco). Não há ninguém que lhe explique que, sempre que abrir a boca para as atacar, nos enterra a todos mais um pouco? Que a única estratégica possível não é defensiva, é ofensiva, só pode ser ofensiva? Que, se está desarmado para isso, porque acabou de apresentar um orçamento, o melhor é calar-se? Que já deveria estar a preparar a ofensiva, em vez de nos afundar com as suas declarações intempestivas? Que vai ter de habituar-se a uma evolução da realidade à velocidade dos foguetões? Que o business as usual a-c-a-b-o-u? Que o silêncio pode ser, não digo de ouro, neste caso, mas pelo menos sem propriedades sulfurosas?
Dr. Vítor Constâncio: uma vez que tem sido parte significativa do problema, não se importa de explicar qualquer coisinha ao senhor ministro de Estado e das Finanças?
Publicada por
Jorge Costa
em
17:00
10
comentários
A repressão continua
Publicada por
Nuno Gouveia
em
16:21
4
comentários
8 reflexões na ressaca do orçamento+1
- É excepcionalmente benigna a abordagem das agências de notação de risco ao comportamento irresponsável do Governo e das oposições que contam, relativamente ao Orçamento de Estado: em vez de censurarem a irresponsabilidade, anunciam, com excepção provável da Fitch, que esperarão pelo Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), a ser submetido à Assembleia da República em Fevereiro, para concluírem da existência, ou não, de perspectivas de redução, sustentadas no médio prazo, do défice e do ritmo de crescimento do endividamento.
- A verdade é que a prova de que o Governo e as oposições poucas ou nenhumas garantias dão de que isso possa acontecer acaba de ser dada pelo próprio orçamento negociado (?), que é uma abdicação face a essas putativas perspectivas.
- Notícias de hoje – a confirmarem-se – e aí está o que a oposição responsável deveria mandar inquirir – sobre um possível empolamento dos números da execução orçamental de 2009, para criar a ilusão de que em 2010 o esforço de consolidação tem alguma dimensão – a confirmarem-se, repito – e seria fundamental que as oposições que contam nos garantissem que há inquérito ao problema, sublinho –, mostrariam que o Governo teria ultrapassado todos os limites imagináveis de responsabilidade política e cívica, e deveria ser imediatamente objecto de uma censura.
- A Assembleia da República, em princípio, dispõe de um serviço técnico orçamental, que deveria ajudar. As instituições que levantaram a suspeita deveriam ser ouvidas para alegarem o bem (?) fundado das suas posições tornadas públicas.
- Não sei se, no cálculo táctico político, as oposições se acham em condições para o fazer, e assumir as consequências disso. O que sei é que não serve Portugal, nem agora, nem amanhã, nem daqui a um mês, qualquer gesto de complacência com semelhante acto.
- Nem de um ponto de vista da ética das convicções, nem de um ponto de vista da ética da responsabilidade, tantas vezes álibi para as piores cumplicidades, o silêncio e a ausência, neste caso, são aceitáveis. Está errado e pode vir a causar-nos seriíssimos danos. Se for falso, as instituições que levantaram a suspeita – a CIP e o Núcleo de Estudos de Conjuntura da Universidade Católica (NECEP) – receberão inevitavelmente a censura.
- A CIP é um parceiro social, um interveniente de primeira linha na conversa cívida de que se faz a democracia, e quem falou em nome do NECEP é João Borges de Assunção, que, além da vida académica, é assessor do Presidente da República.
- Em todos os casos, no mundo onde vivemos saber-se-á que alguém, em Portugal, garante a credibilidade das instituições e não deixa que elas se afundem com a economia; que as oposições não dormem e o país não é um bando.
- O Programa de Estabilidade e Crescimento para o qual se voltam agora as atenções – numa espécie de segunda chance – pode ser um instrumento de credibilização – do Governo e das oposições. Se: a) além de traçar uma trajectória de redução do défice e da dívida pública, mostrar claramente com que medidas concretas tais objectivos vão ser atingidos; o que implica, além da sua descrição, a quantificação dos seus efeitos orçamentais; e b) que seja aprovado pelas oposições que contam, comprometendo-as para o futuro. De outra forma é ficção e não vale a pena ser levado a sério. Os tempos do business as usual, para o caso de não saberem, acabaram.
Publicada por
Jorge Costa
em
13:07
17
comentários
The night Pessoa met Constantine Kavafy
Em 21 Outubro de 1929, o cruzeiro Saturnia parte de Trieste, rumo à América. Leva a bordo emigrantes de diversos países do Mediterrâneo. Um jovem grego que embarcara em Patra será testemunha de um encontro inesperado entre dois grandes vultos das letras do século XX - Fernando Pessoa e Constantine Kavafy. Os dois poetas têm preocupações comuns e fontes de inspiração idênticas. A Fundação Gulbenkian, vai projectar o documentário The night Fernando Pessoa met Constantine Kavafy, do realizador grego Stelios Charalambopoulos. Será hoje, 28 de Janeiro, às 17:00 horas, seguido de debate. [Publicidade institucional]
Publicada por
Paulo Marcelo
em
11:59
2
comentários
quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Notícias do bloqueio
Publicada por
Pedro Picoito
em
23:42
2
comentários
O pesadelo de Primo Levi - 27 de Janeiro, memória do holocausto
O comboio está a chegar: ouve-se o ofegar da locomotiva, que é o meu vizinho. Não estou ainda num sono tão profundo que não me aperceba da dupla natureza da locomotiva. Trata-se precisamente da locomotiva que puxava hoje na Buna os vagões que nos mandaram descarregar; reconheço-a porque também agora, como quando passou perto de nós, se sente o calor que liberta das suas paredes pretas. Deita fumo, está cada vez mais próxima, está sempre prestes a atropelar-me, e, pelo contrário, nunca chega. O meu sono é muito leve, é um véu; se quiser, rasgo-o. Sim, quero rasgá-lo, assim poderei atirar-me aos carris. Quis mesmo, e agora estou acordado: mas não totalmente acordado, só um pouco mais acordado, no degrau superior da escada entre a inconsciência e a consciência. Tenho os olhos fechados e não quero abri-los para não deixar escapar o sono, mas posso ouvir os barulhos: este assobio longínquo tenho a certeza que é verdadeiro, não provém da locomotiva sonhada, ecoou objectivamente: é o assobio da Decauville, provém da obra que trabalha também de noite. Uma longa nota firme, depois outra mais baixa de um semitom, a seguir de novo a primeira, mas breve e cortada. Este assobio é uma coisa importante e, de certo modo, essencial; tantas vezes o ouvimos, associado ao sofrimento do trabalho e do campo, que se tornou o seu símbolo, e evoca directamente a sua representação, como acontece com certas músicas e com certos cheiros.
Surgem a minha irmã, alguns amigos meus não identificados e muita gente. Todos estão a ouvir-me, enquanto conto precisamente isto: o assobio em três notas, a cama dura, o meu vizinho que queria afastar, mas tenho medo de acordá-lo porque é mais forte do que eu. Falo pormenorizadamente também da nossa fome, do controlo dos piolhos e do Kapo que me bateu no nariz e a seguir ordenou que fosse lavar-me porque sangrava. É um prazer imenso, físico, inefável, estar na minha casa, entre pessoas amigas, e ter tantas coisas para contar; mas não posso deixar de me aperceber de que os meus amigos não prestam atenção. Pelo contrário, são totalmente indiferentes: falam confusamente de outras coisas entre si, como se eu não estivesse lá. A minha irmã olha para mim, levanta-se e vai-se embora sem dizer nada.
Então nasce dentro de mim uma pena desoladora, como certas dores, de que mal nos lembramos, da primeira infância: é uma dor no seu estado puro, não temperada pelo sentido da realidade e pela intrusão de circunstâncias estranhas, parecida com as que fazem chorar as crianças; e é melhor para mim voltar uma vez mais à superfície, mas desta vez abro os olhos deliberadamente, para ter diante de mim a garantia de estar efectivamente acordado.
Publicada por
Jorge Costa
em
23:42
0
comentários
Aviso ao Banco de Portugal
Diz Pedro Braz Teixeira: «Parece-me que o Banco de Portugal tem a obrigação de revelar quais foram os BPNs em potência que os testes de stress [conduzidos pelo FMI] revelaram [o Banco de Portugal impôs a sua não revelação individualizada], sobretudo porque o próximo BPN será muito maior do que o original.» Já aqui tinha aflorado muito levemente o assunto (algum receio de chamar o azar). Pode ser que alguém leve a sério o problema, agora que o FMI falou, e o Pedro Braz Teixeira analisou e sublinhou. Ainda não é completamente impossível reduzir danos...
Publicada por
Jorge Costa
em
16:32
7
comentários
As minhas previsões
Publicada por
Jorge Costa
em
14:39
10
comentários
O que eles dizem lá fora
1. O défice de 2009 é inesperadamente mais elevado do que o esperado; ver France Press; The Wall Street Journal; Financial Times.
2. O Wall Street Journal faz analogias: «No ano passado, o reconhecimento grego de que o seu défice orçamental era muito maior do que antes se pensara desencadeou uma acentuada subida nos custos de financiamento do país (...).»
3. O fraco crescimento, a eventual insuficiência dos cortes no défice por forma a «curvar» o pessimismo das agências de notação e o alerta de que os mercados estão à espera das «notícias» destas são os restantes eixos das notícias que pude ler, nos linques em cima.
Publicada por
Jorge Costa
em
13:41
5
comentários
Outras leituras recomendadas
Publicada por
Jorge Costa
em
11:38
3
comentários
Nunca esta imagem foi tão actual
Publicada por
Paulo Marcelo
em
11:07
11
comentários
Jornal de Negócios arrasa o Orçamento de Estado - e explica por que é que é um «zero à esquerda»
Publicada por
Jorge Costa
em
10:43
4
comentários
Orçamento para liquidar o PSD?
Parafraseando Aguiar-Branco, é muito importante que o PSD não falhe a escolha do próximo líder. Por exemplo: que escolha alguém que nem sequer estava cá, quando aquilo aconteceu.
Publicada por
Jorge Costa
em
10:05
1 comentários
Como é que se diz "mudar" em "norte-americano"?
Publicada por
Fernando Martins
em
00:21
12
comentários
terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Títulos giros, momentos inesquecíveis
Já na tv, fascinantes as imagens em que Teixeira dos Santos chega, às 22h22m, ao gabinete de Jaime Gama, entrega a pen, Jaime Gama recebe-a, passa-a da mão direita para a mão esquerda, abana-as - afinal eram duas! -, Lacão sorri, e depois sentam-se no sofá, todos, mais Emanuel Santos, e outros que não reconheci. Os jornalistas saem da sala, e ficam apenas as imagens sem som. Gostei.
Publicada por
Jorge Costa
em
22:31
5
comentários
Por onde seguir informação sobre o Orçamento de Estado
Publicada por
Jorge Costa
em
21:31
2
comentários
Dos diabos - O Titanic da União Nacional
Reparem, a 3'39", nas previsões para a economia portuguesa: uma contracção de 0,8%. Acrescento que isto é mesmo um detalhe, bastante mau, mas um detalhe. O problema não está aí, nessas décimas acima ou abaixo. Está, como toda a gente já sabe, em todo o mundo, na tendência de crescimento a que se refere Anthony Thomas - na proximidade do zero. E na incapacidade do Governo - do sistema político todo - de lidar com o problema orçamental nestas condições. O sistema pode ser, eu sei, eu sei, uma forma evasiva de referir as coisas. Poder-se-ia dizer que estamos com um défice... de coragem? Mas não deixa de ser verdade que este poderia, até, vir a ser cognominado como o Orçamento-União Nacional: Banco de Portugal, o primeiro a divulgá-lo e recomendá-lo, PS, PSD, CDS, etc., etc. O Titanic da União Nacional.
Agradeço ao comentador Ruben Correia a sugestão.
Publicada por
Jorge Costa
em
18:48
3
comentários
Já chegámos à Madeira ?
A dependência que o PSD nacional tem de Alberto João Jardim ultrapassa por vezes os limites da razoabilidade. Manuela Ferreira Leite que tinha toda a razão com as críticas que fez ao Governo de claustrofobia democrática, descredibilizou toda a sua política de verdade quando, na Madeira, identificou o Governo Regional como modelar em termos democráticos. Não sei se foi por causa disso que o PSD perdeu as eleições mas ajudou. Hoje, perante a total passividade do PSD nacional, assistimos a Alberto João Jardim defender a bondade da demissão do Governo e a realização de eleições. Por mais que considere que este é um mau Governo, na actual conjuntura a demissão do Governo poderia trazer consequências nefastas.
O assunto é sério e aliás em 2006 Alberto João Jardim apresentou a sua demissão quando a presente Lei de Finanças Regionais foi aprovada.
Portugal parece uma casa em que o primeiro andar está em chamas, enquanto no andar de baixo alguns políticos debatem a cor que se deve pintar o R/C.
Publicada por
Pedro Pestana Bastos
em
18:07
8
comentários
Curiosidade
Publicada por
Eugénia Gambôa
em
17:55
0
comentários
Is anybody out there?
O PSD está furioso com o Governo. Pondera pedir mesmo a demissão do ministro Teixeira dos Santos. Por causa do Orçamento? Não, por causa da Lei das Finanças Regionais - da Madeira!
Publicada por
Jorge Costa
em
17:03
1 comentários
Preparem-se para uma péssima recepção pelos mercados
Publicada por
Jorge Costa
em
16:53
1 comentários
Eu próprio não me sinto lá muito bem
Publicada por
Jorge Costa
em
14:13
17
comentários
A frase mais estúpida de sempre?
Julgo que é a frase mais estúpida que ouvi em toda a minha vida, não tenho a certeza, mas quase que garanto.*
* Espero que ninguém me acuse de ter insultado alguém. Garanto desde já, antecipadamente, que não era essa a minha intenção.
Publicada por
Jorge Costa
em
13:30
9
comentários
Eat this, Ulrich Beck
É aqui que o desastre do Haiti torna a ensinar aquilo que já sabíamos. O facto não seria tão importante, não fosse o caso de nos termos acostumado a ouvir que, na era da globalização, os estados acabaram e o essencial passa por criarmos sólidas instituições internacionais que ocupem o seu lugar. Mas, por mais necessária que seja a autoridade internacional num momento de emergência, nada remove o poder tradicional de um Estado para garantir um mínimo de governação. O mundo global não deixou de ser doméstico. Pedro Lomba (no Público)
Publicada por
Alexandre Homem Cristo
em
12:30
0
comentários
Salvem a lareira!
O PSD não foi parte da solução, foi parte, e grande, do problema.
Publicada por
Jorge Costa
em
10:36
2
comentários
Ainda o orçamento
Publicada por
Paulo Marcelo
em
10:29
1 comentários
segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Isto vai-nos custar muito caro (corrigido)
1. Sabe-se pouco sobre o Orçamento de Estado, mas o que se sabe é t-e-n-e-b-r-o-s-o. Aparentemente, o Governo prepara-se para apresentar uma correcção a um défice que terá andado por volta dos 9% do PIB, em 2009, da ordem do meio ponto percentual. A Grécia, o país que passou a «iluminar» tudo, quer dizer, o que se passa em Portugal, o país com o qual somos forçosamente comparados, prepara-se para um esforço de consolidação orçamental dez vezes maior, ou coisa parecida (para aferir melhor seria necessário dispor de informação «estrutural», que, para já, não há).
2. De qualquer forma, é com uma correcção estrutural de 1,25 pontos percentuais do défice que Portugal está obrigado, pela União Europeia, e será, também, face a esse compromisso, que será avaliado.
3. Sabe-se ainda que a correcção provirá, como de costume, em parte considerável de uma melhoria - esperada - da receita fiscal.
4. Quanto à despesa - O Problema - sabemos para já que o esforço incidirá nas despesas com pessoal, com um possível congelamento de salários nominais e uma redução da massa salarial por via da quantidade empregada, com a reintrodução do rácio de substituição 2/1 (aposentam-se dois, e entra um). Medidas mais ténues do que as de que se socorreu Manuela Ferreira Leite, enquanto ministra das Finanças, quando o problema era metade do que é hoje, e a circunstância externa um deleite, por comparação com a actual.
5. Como Constâncio anunciou - e caucionou - nada de muito especial se prevê para este ano, em termos de projecções orçamentais.
6. A oposição à direita aceitou o desvario do Governo, porque não terá querido ser colocada em posição de «chumbar» o orçamento, caso em que poderia ser responsabilizada pela instabilidade resultante.
7. A «estabilidade política» foi, assim, conseguida à custa do status quo da orientação orçamental, quando, com toda a evidência, a realidade uiva que se olhe para ela, por uma vez, e se aja em consequência.
8. O sistema político não foi capaz de «gerar» uma resposta para a crise.
9. Vamos ver o preço que vamos pagar.
Nota: as privatizações de que se fala são completamente irrelevantes para o problema orçamental em si. Nem um cêntimo dessas liquidações de património é receita a contar para o défice. Abate ao stock de dívida e o seu efeito no orçamento é por via da redução de juros que isso possa implicar - para o ano, talvez. Quanto à racionalidade da privatização do BPN, o que o Pedro Guerreiro diz é suficiente. Mil milhões de euros para o lixo. Como são operações sobre activos e passivos financeiros, ou seja, abaixo da linha do défice, resta saber como vai ser reconhecido contabilisticamente o rombo.
Publicada por
Jorge Costa
em
21:06
17
comentários
Leitura Recomendada
(Link para a versão resumida. A versão XL está também no site)
Publicada por
Manuel Pinheiro
em
17:41
1 comentários
O tempora, o mores II
Devo dizer que o compreendo. Também me sentiria vilipendiado se fosse destinatário de certas coisas. Sobretudo porque não se pode escolher as pessoas com quem trocamos tweets, como toda a gente sabe. São uma fatalidade, como os outros passageiros no Metro ou a fé em Passos Coelho. Está um jovem ambicioso a pensar na salvação do PSD, no futuro da pátria ou na fenomenologia do ser, altos cumes que se escalam regularmente no twitter, e lá vem o Dr. Nogueira com um "ó Campilho, já viu a última do Pacheco?"
Não dá. Ninguém aguenta. Talvez o jovem ambicioso, admitamos, tenha tentado fugir ao vilipêndio. Imagino-o, nos intervalos do PSD, da pátria e da fenomenologia, a responder que "desta vez, xôtor, o aviltamento alheio o deixara um pouco contristado".
Porém, oh, sem êxito...
Tanto quanto sabemos, o inescapável Nogueira Leite continuou a persegui-lo com tweets algo contristantes. Por exemplo, aquele em que o aconselhava a "pegar o touro pelos cornos", metáfora (esperemos) relativa a um cronista que se atreveu a duvidar da natureza sobrenatural do messias. Ou aquele outro em que dividia os membros de um blogue, por acaso o do herege, em betos por nascimento e betos por osmose.
Enfim, nada que tenha especial importância, a não ser a de ficarmos a saber o que se passa nas casernas do passoscoelhismo quando a tropa julga que ninguém está a ver.
Mas de certeza que o Vasco Campilho, sempre prenhe de contristamento, poderá explicar-nos tão infeliz sucessão de "destinos".
Publicada por
Pedro Picoito
em
17:35
4
comentários
Depois do Climategate haverá um Glaciergate?

Publicada por
Paulo Marcelo
em
16:18
4
comentários
Uma nova "lei dos intermitentes"?
Publicada por
Pedro Picoito
em
16:15
7
comentários
New blog on the block
Publicada por
Pedro Picoito
em
16:13
0
comentários
4%=/=0,4%, ok?
O Governo grego está debaixo de uma fortíssima pressão dos mercados para reduzir o seu défice orçamental, sob pena de ver tornar-se incomportável o custo de financiamento público (e privado, e privado...). O que faz o Governo grego? Reduz em 4 pontos percentuais o seu défice. De 12,7% do PIB, em 2009, para 8,7% do PIB, para 2010.
O Governo português está debaixo de uma forte pressão dos mercados para reduzir o seu défice orçamental, sob pena de ver tornar-se incomportável o custo de financiamento público (e privado, e privado...). O que faz o Governo português - com o beneplácito da oposição? Reduz em 0,4 pontos percentuais o seu défice. De 8,7% do PIB, em 2009, para 8,3% do PIB, em 2010.
Estou a tentar racionalizar a atitude do PSD. Se chegar a alguma conclusão, digo, tá?
Publicada por
Jorge Costa
em
15:14
3
comentários
É tudo?
Publicada por
Jorge Costa
em
12:10
3
comentários
Fim de festa
Excelente trabalho infográfico sobre a década perdida, no Jornal de Noegócios, aqui. Não deixam surripiar. Fazem bem.
Publicada por
Jorge Costa
em
11:25
10
comentários
Na semana do Orçamento de Estado
Publicada por
Paulo Marcelo
em
10:24
0
comentários
Terapia em falta?
Publicada por
Carlos Botelho
em
01:54
1 comentários
Uma lição
Publicada por
Carlos Botelho
em
00:27
1 comentários
domingo, 24 de Janeiro de 2010
Jerusalém não voltará a ser assim
E, todavia, dada a internacionalização do problema, os referidos intervenientes têm responsabilidades e interesses próprios a defender. Estão, assim, condenados à impotência, se a ignorância continuar a alimentar as suas abordagens, ou, pior, se insistirem em pugnar por soluções que não o são, e a cometer erros cruciais, que mais tarde se pagam caro, como tem sido a desgraçada regra, desde 1922, na região a que se chama Médio Oriente no seu todo.
A questão de Jerusalém é um dos principais nós do conflito. Obama manifestamente não sabe o que quer. Em Junho de 2008, em campanha eleitoral e caça ao voto judaico, afirmava: «Jerusalém é e permanecerá a capital de Israel, e tem de permanecer indivisa».
Quando ouvi isto - lembro-me muito bem -, tive dificuldades em acreditar. Pensei: mas saberá Obama o que está a dizer? É evidente que não sabia e a virulenta reacção árabe lembrou-lho imediatamente. De modo que, dois dias depois, fez saber por um seu representante o que tinha em mente (?), quando falou de «Jerusalém indivisa» como «capital de Israel»: «Jerusalém é um dossier (...) que tem de ser negociado entre as partes», como parte de «um acordo com o qual ambas possam viver.» Claro?
Certo, certo, é que Jerusalém não voltará a ser dividida, pela simples razão de que Israel e a esmagadora maioria dos judeus de todo o mundo jamais o aceitarão. Explico porquê.
Israel e os judeus em geral têm muito dolorosamente presente no espírito o que foi a única experiência histórica da divisão de Jerusalém - a que decorreu entre 1948 e 1967. Este artigo de Jeff Jacoby narra o que se passou. Mas eu resumo, para quem não possa ler. Aproveito para completar.
Quando, em 14 de Maio de 1948, foi declarada a independência de Israel, na sequência da decisão de partição tomada pelas Nações Unidas, em 29 de Novembro do ano anterior, definindo o território do futuro Estado de Israel e do proposto e recusado Estado árabe palestiniano, uma coligação de cinco países vizinhos - Egipto, Transjordânia (actual Jordânia), Líbano, Iraque e Síria - invadiram o país, com um programa assim enunciado por Abdul Rahman Hassan Azzam, então secretário-geral da Liga Árabe, no dia seguinte: «Esta será uma guerra de extermínio e um massacre memorável, do qual se falará no futuro como hoje se falam dos massacres mongóis e das Cruzadas.»
A 28 de Maio, a conquista árabe de Jerusalém Oriental - onde estão os lugares sagrados do Judaísmo - estava consumada. Os cinco países invasores perderam a guerra e em 1949 foram assinados os acordos de armistício.
Ao abrigo do artigo 8º do acordo assinado entre Israel e a Jordânia, os árabes, mantendo o controle de Jerusalém Oriental, comprometiam-se a garantir «o livre acesso aos lugares sagrados, às instituições culturais e ao Cemitério do Monte das Oliveiras.»
«Durante 19 anos», recorda Jacoby, «nenhum judeu pôde visitar o Muro Ocidental, o Cemitério ou qualquer outro lugar em Jerusalém Oriental.» Note-se que nem aos israelitas árabes foi, durante esse período, permitida a entrada na mesquita al-Aqsa ou a visita ao Monte do Templo.
Foram, em vez do acordado, 19 anos de razia aos vestígios da vida e da religião judaicas. Para trás, ficaram, numa «orgia de profanação», 58 sinagogas destruídas, ou convertidas em estábulos ou lixeiras, a mais antiga datando do séc. XIII. O Muro Ocidental, o mais importante dos lugares santos do Judaísmo, foi convertido num pardieiro. O Cemitério do Monte das Oliveiras, lugar simbólico central do Judaísmo, foi totalmente vandalizado: 38 mil tumbas, algumas datando do séc. I AEC, foram arrancadas e serviram para os mais diversos propósitos, entre os quais pavimentar latrinas.
A comunidade internacional, que mediara os acordos, através das Nações Unidas, e a quem competia, portanto, assegurar a sua eficácia, não mexeu um dedo.
Poder-se-ia dizer. Mas a Autoridade Palestiniana nada tem a ver com o assunto, etc.
Pois bem. Nablus, cidade onde estava a tumba do patriarca José, entregue à Autoridade Palestiniana (AP) na sequência dos Acordos de Oslo, manteve até 7 de Outubro de 2000 um contingente de tropas israelitas, para assegurarem a protecção ao lugar santo. Nessa data, Ehud Barak, num gesto de boa-vontade e com base num acordo de protecção firmado com a AP, mandou retirar as tropas.
Poucas horas decorreram entre a retirada e a invasão do local, com queima nas ruas de rolos da Torá, um ataque e encerramento imediato da escola de ensino talmúdico (Ieshivá) Od Yosef Chai, tendo o «espectáculo» passado em directo na televisão palestiniana, sob controle da AP. Cinco dias depois, era assaltada e incendiada, por vândalos empunhando tochas, a sinagoga de Jericó.
A destruição de quaisquer vestígios da presença judaica em Terra de Israel é, compreende-se, um objectivo lógico de quem se recusa a aceitar qualquer título de legitimidade dos judeus relativamente a ela. Como explica, com cristalina clareza, o ministro do Interior da Autoridade Palestiniana, Jerusalém, em particular, «não é uma cidade judaica, apesar do mito bíblico enxertado em algumas mentes.»
Espero ter sido claro. O corpus separatum ideado pelas Nações Unidas em 1947 morreu nas cinzas dos 19 anos que se seguiram à guerra de 1948. Não estou a ver como ressuscitá-lo. A integridade do Judaísmo é impensável sem a integridade de Jerusalém.
Publicada por
Jorge Costa
em
18:15
1 comentários
A good week for conservatives
Publicada por
Nuno Gouveia
em
17:38
1 comentários
A política e os novos media
O Público dedicou hoje as primeiras páginas a analisar a relação entre a política e a Internet, com particular incidência sobre a blogosfera e as redes sociais. A conclusão quase unânime é o sub-aproveitamento que ainda existe por parte dos agentes políticos em Portugal, constrastando, por exemplo, com o que existe nos Estados Unidos. O ano que passou foi pródigo para a análise desta temática. Muito influenciada pela campanha eleitoral de Barack Obama, que correu mundo com as suas inovações, os políticos portugueses entenderam que precisavam de utilizar a Internet. E, talvez por isso, dedicaram parte dos orçamentos para esses esforços. O PS até criou uma campanha virtual com muitas semelhanças à de Barack Obama, nomeadamente na criação de uma rede social própria. Mas os resultados foram claramente insatisfatórios para todos, com muitos políticos na rede, mas poucos a saber o que andavam a fazer. A frase que transcrevo acima do Pedro Magalhães também resume o que é a participação política em Portugal, e de quem dependem os agentes políticos. O poder dos cidadãos na escolha dos representantes políticos resume-se na votação dos escolhidos pelas elites partidárias. E não propriamente na escolha daqueles que podem aceder aos cargos públicos. Portanto os políticos não sentem a necessidade de aproximar-se dos eleitores, pois a sua eleição não depende directamente deles. Um exemplo: o que interessa ao deputado que entrou em número 3 pelas listas de Lisboa do PSD ou PS comunicar, interagir ou receber feedbacks dos eleitores? A renovação do seu mandato está directamente dependente da direcção partidária, e não dos seus eleitores, pelo que esta necessidade de interagir com os cidadãos tem sido meramente residual. Existem bons exemplos de políticos que já o fazem, em todos os partidos, mas o saldo continua a ser francamente negativo. Há pouco um americano perguntava-me no twitter se era possível um candidato vencer sem estar nas redes sociais. Respondi-lhe que nos Estados Unidos isso já não é possível, pois quem não está não existe politicamente. Mas se a pergunta fosse sobre Portugal, respondia-lhe que sim, é possível. Exemplo disso é o total abandono de muitos políticos da presença na Internet depois das eleições. Mas será que isso irá impedir a sua reeleição, quando falamos de um Presidente de Câmara, por exemplo? Apesar dos progressos efectuados no último ciclo eleitoral, verifiquei ainda existe a percepção geral que a Internet serve apenas para informar, relegando os outros objectivos que devem nortear a comunicação politica na Internet: envolver, mobilizar e conectar. E o sucesso de Barack Obama baseou-se na criação de plataformas que facilitassem o cumprimento destes quatro objectivos, algo que esteve muito distante em Portugal. As experiências de cidadãos, como a criação de blogues de apoio (e eu participei em dois), também não terão atingido os resultados pretendidos, pois acompanharam o pecado original da blogosfera portuguesa: discussões em circuito fechado, com fraca capacidade de penetração na opinião pública em geral. Questionado por António Granado para a reportagem, respondi que "os blogues têm impacto apenas junto dos políticos, dos opinion makers e dos media". Se o objectivo fosse apenas esse, então os resultados seriam relativamente satisfatórios. Mas as potencialidades da blogosfera são imensamente superiores. Por vezes os blogues têm a capacidade de ser notícia, e quando isso acontece, o grande público vai ler e interessa-se pelos blogues. Mas depois esse sentimento desaparece. E é verdade que há cada vez mais pessoas a aceder a blogues políticos para se informarem, para discutirem ou lerem opiniões que muitas vezes ainda não têm presença nos media tradicionais. A blogosfera deveria conseguir ultrapassar estas dificuldades, e transformar-se cada vez mais num espaço de leitura do grande público. Não sei é como isso poderá ser alcançado.
Publicada por
Nuno Gouveia
em
16:47
0
comentários
Charlotte Gainsbourg - IRM
Publicada por
Jorge Costa
em
13:05
0
comentários
O tempora, o mores
Publicada por
Pedro Picoito
em
11:50
2
comentários


























