ABRUPTO

3.8.10


EARLY MORNING BLOGS
1845

In the highest civilization, the book is still the highest delight. He who has once known its satisfactions is provided with a resource against calamity.

(Ralph Waldo Emerson)

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2.8.10


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: DE REPENTE

    Giles Milton,  Paradise Lost: Smyrna 1922 – The Destruction of Islam's City of Tolerance, Sceptre, 2009.
      De repente, em cinco ou seis anos, depois de séculos e séculos, todo um mundo rico, estruturado, "civilizado", cosmopolita, estável pelo menos à superfície, cai para os maiores extremos da barbárie. Se há uma lição da história é só essa: nada está garantido, tudo é precário. Esmirna (a actual Izmir) era uma cidade opulenta, com todos os luxos ocidentais, hotéis, ópera, um porto florescente, indústrias exportadoras de têxteis e frutas, armazéns, fábricas, escolas internacionais, igrejas, missões e hospitais. Muitos estrangeiros lá viviam, americanos, ingleses, italianos, numa cidade que era única num aspecto e que marcou o seu destino trágico: Esmirna era maioritariamente cristã. A cidade e a costa à sua volta eram gregas, e, na cidade, gregos e arménios eram mais do que os turcos. No império otomano, como se passava em Salónica, os turcos detinham o poder político e eram uma elite militar que beneficiava de um estatuto de superioridade, principalmente fiscal. Mas as outras comunidades viviam com liberdade, debaixo do controlo das suas próprias hierarquias religiosas. Acresce que Esmirna tinha como governador turco um genuíno tolerante, Rhamy Bey, que apreciava o cosmopolitismo da sua cidade e que convivia com facilidade com todas as comunidades. Na cidade, a elite era "levantina", constituída por famílias estrangeiras, inglesas, francesas e italianas, que aí viviam nalguns casos há trezentos anos, fiéis aos seus países de origem e à cidade de Esmirna. Essa comunidade detinha o controlo dos negócios lucrativos da cidade, empregava gregos e turcos nas suas fábricas e vivia na opulência, em grandes mansões com famílias extensivas, que estudavam em Inglaterra e depois regressavam a Esmirna para continuar os negócios dos seus pais e tios, sob a mão de ferro de um familiar  mais velho, homem ou mulher. Parecia o Porto, onde uma antiga comunidade inglesa, vivia assim.
      Até um dia. A entrada do Império otomano na guerra ao lado dos alemães começou a fragilizar uma comunidade estrangeira que estava maioritariamente do lado anglo-francês. Mas aqui Rhamy Bey ainda conseguiu proteger a sua cidade, no limite da traição. Os ingleses, a quem ele se ofereceu na prática, maltrataram-no e só os seus amigos levantinos o ajudaram. Mas foram os gregos (como o apoio de Lloyd George) que ditaram o fim trágico de Esmirna. Venizelos, primeiro-ministro grego, debaixo da bandeira da Megali Idea, a tentativa de reconstituir o Império bizantino na Anatólia, contando com as comunidades gregas que aí viviam há milénios, enviou tropas para Esmirna ocupando a cidade, exercendo violências contra os turcos e penetrando no interior até perto de Angora (Ankara). A entrada dos gregos não foi particularmente bem recebida pela comunidade levantina, que se começou a aperceber do desastre, mas foi saudada com entusiasmo pelos gregos de Esmirna e das aldeias limítrofes. Só que não contaram com a resposta nacionalista turca, na pessoa de Mustafá Kemal, mais tarde conhecido como Ataturk. Kemal venceu os gregos e caminhou em direcção a Esmirna, que os turcos não esqueciam ser a Gavur Izmir, a "Esmirna dos infiéis". O que se passou a seguir foi um dos grandes massacres do século XX: armenos e gregos foram massacrados em grande número, as mulheres violadas em massa, culminando no incêndio deliberado de quase toda a cidade menos o quarteirão turco, o mais pobre. E a gloriosa Esmirna, hotéis, cafés, restaurantes, consulados ocidentais, igrejas, mosteiros, escolas, hospitais, casas comuns e de luxo, armazéns e fábricas, ardeu durante vários dias. Uma população calculada em 500.000 pessoas, estrangeiros, gregos e arménios acumulou-se no cais de Esmirna entre o fogo, os turcos e o mar, morrendo aos milhares. Um testemunho da época descreve o mar pejado de cadáveres, no meio dos quais nadava um rapaz turco a tentar retirar tudo o que era valioso dos corpos. Em frente, não fazendo nada, uma esquadrilha de navios de guerra ingleses, americanos, italianos e outros, que assistem ao que se passa à sua frente sem se mexer. Quando começaram a aceitar refugiados já era tarde para salvar um número significativo de pessoas. Mesmo os gregos só se mexeram por iniciativa de um missionário americano que praticamente se comportou como se fosse almirante da frota grega e obrigou os capitães gregos a irem a Esmirna salvar os seus.
      De repente, tudo mudou. Uma realidade histórica e étnica com milhares de anos, a dos gregos da Jónia, e dos enclaves cristãos no Império Otomano, acabou em meia dúzia de anos e em meia dúzia de dias. A nova Turquia nacionalista partia com uma limpeza étnica que deixava apenas um "inimigo interior "significativo: os curdos. E a Megali Idea, o mito nacionalista imperial dos gregos, ficava pelo caminho. Pelo caminho também ficou uma cidade cosmopolita, moderna, "civilizada", tolerante, que a actual Izmir em nada revela. Como Hitler fez com as comunidades judaicas do Leste, a geografia humana mudou radicalmente. Infelizmente, isto é que é a história.

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            GRANDES CAPAS


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            (NOT SO) EARLY MORNING BLOGS
            1844 - God Fashioned The Ship Of The World Carefully

            God fashioned the ship of the world carefully.
            With the infinite skill of an All-Master
            Made He the hull and the sails,
            Held He the rudder
            Ready for adjustment.
            Erect stood He, scanning His work proudly.
            Then—at fateful time—a wrong called,
            And God turned, heeding.
            Lo, the ship, at this opportunity, slipped slyly,
            Making cunning noiseless travel down the ways.
            So that, forever rudderless, it went upon the seas
            Going ridiculous voyages,
            Making quaint progress,
            Turning as with serious purpose
            Before stupid winds.
            And there were many in the sky
            Who laughed at this thing.

            (Stephen Crane)

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            1.8.10

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            ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


            Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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            31.7.10


            APRENDENDO COM RUY BARBOSA


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            ÍNDICE DO SITUACIONISMO (123) : SERVIÇO PÚBLICO PARA ZOMBIES


            A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
            E, nalguns casos, de respiração assistida.

            A RTP no seu principal noticiário da manhã às 9 horas: um acidente, futebol-1, um jogo qualquer; futebol-2, outro jogo qualquer; futebol-3, um treinador que regressa de férias e uma longa entrevista de aeroporto, malas na mão. Antes das 9 já tinham passado 30 minutos de futebol e desportos vários (uma imagem valia: a de um homem esgotado que desistiu dos cinquenta quilómetros de marcha, a explicar que todo o corpo dói, e a sua imensa culpa por desistir).  Treze minutos depois das 9, entrava o Portugal que não é para zombies, uma notícia mais importante do que tudo: a hecatombe das notas de matemática. "Serviço público" da RTP é uma típica expressão da novilíngua orwelliana.

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            UMA PAISAGEM PÓSTUMA: O RIO TÂMEGA EM VAU 
            (QUE VAI DESAPARECER COM A CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM DO FRIDÃO)

            (Fotos de Hélder Barros)

            Uma das heranças deste governo é a destruição acelerada de tudo o que resta de paisagem natural em Portugal. As preocupações ecológicas param sempre à porta das energias renováveis e do deslumbramento tecnológico que ofusca o nosso Primeiro. A energia é um bem, mas a paisagem natural é outro e essa ponderação hoje não se faz. Não há cume de monte que não seja povoado de ventoinhas, e nenhum rio vai sobrar no seu estado natural. A destruição do Rio Tâmega atinge uma sucessão de vales, com rápidos e pequenas quedas de água, povoados de uma fauna e flora únicas. Conheço-os bem, tendo feito parte do primeiro grupo que o desceu em canoa em 1979 (junto com Ana Barbosa e Pedro Vilas Boas), o que motivou algum espanto nos jornais da época e uma recepção popular na Ribeira do Porto, porque o rio era tido como impossível de navegar. E na verdade, mais do que descer, era cair por ali abaixo, principalmente em zonas como a de Arcossó em Vidago, em Ribeira de Pena, junto à foz do seu afluente  Rio Beça, cujas trutas passavam ao nosso lado, até à entrada no Douro, tão assoreada que se fez quase a pé. O Tâmega tinha várias represas e mesmo uma pequena barragem industrial  meia abandonada, mas continuava a ser no essencial um rio, com rochas afiadas pela erosão da água, rápidos e quedas numa paisagem intocada. Vai acabar, como vai acabar o Tua e o Sabor, às mãos de gente de gabinete que nunca olhou para o céu pelo intervalo escuro das margens agrestes de um vale escavado, desconhece o que é água límpida a correr e o cheiro de urze. Quando já for tarde vamos todos lamentar não saber o que é um rio.

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            COISAS DA SÁBADO:  PROTEGE A “JUSTIÇA” O PRIMEIRO MINISTRO ? (2)


            Também não percebo nada da destruição completa nos despachos do PGR das referências às escutas do PM. Não percebo mesmo nada porque o PGR disse à Comissão de Inquérito sobre a TVI, para justificar não enviar os despachos, que esses só seriam divulgados no fim do processo chamado “Face Oculta”. Tal frase só tem sentido se essa divulgação fosse integral, porque a parte conclusiva desses despachos era já conhecida. Não percebo que agora houvesse esta reviravolta. Mas há mais: face a uma nova insistência para que o PGR enviasse os despachos sem a transcrição das escutas do PM, o PGR respondeu que não sabe o que é isso de despachos “truncados”, pelo que se negou pela segunda vez . E agora o próprio PGR trunca os seus próprios despachos... Não percebo como é que se pode saber da correcção da decisão do PGR sem ser pela integralidade dos seus despachos, visto que as acusações a que decidiu não dar andamento, só podem ser analisadas pelo seu todo. Não percebo mesmo nada disto. A única coisa que eu sei é que um elemento fundamental para o julgamento da atitude do PM e da decisão do PGR foi destruído. Isto é normal, até à luz das sucessivas contradições do PGR? Não o é de todo. É completamente anormal.

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            EARLY MORNING BLOGS
            1844

            There are people who strictly deprive themselves of each and every eatable, drinkable, and smokable which has in any way acquired a shady reputation. They pay this price for health. And health is all they get for it. How strange it is. It is like paying out your whole fortune for a cow that has gone dry.

            (Mark Twain)

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            30.7.10


            COISAS DA SÁBADO:  PROTEGE A “JUSTIÇA” O PRIMEIRO MINISTRO ? (1)


            Aparentemente “acabou” o caso Freeport dando origem a acusações de corrupção. Havia portanto, na visão do Ministério Público, alguma coisa de irregular no processo de licenciamento do empreendimento. Essas acusações envolvem os representantes nacionais dos promotores, e delas foram excluídas à ultima hora, um autarca e alguns funcionários menores do Ministério do Ambiente. Pode ser que esta lista seja aquela para que o MP entende haver indícios suficientes para incriminar, não o contesto. Só que não conheço um único cidadão, um único político, que sendo envolvido por acusações directas de corrupção por parte de terceiros, não tenha pelo menos sido ouvido. Dito com toda a clareza: admito que José Sócrates, então Ministro do Ambiente, nada tenha a ver com o assunto e o seu nome tenha sido abusivamente usado, e haja apenas responsabilidade objectiva, só não admito que num caso como este nunca tenha sido ouvido pela justiça. Isto é que é absolutamente excepcional, para alguém que é sujeito a acusações directas de corrupção, para alguém que estava objectivamente envolvido no processo quer como decisor, quer pelos seus familiares. Qualquer Presidente da Câmara teria sido imediatamente ouvido, mas neste caso, o antigo Ministro de um ministério onde tudo aconteceu, e actual Primeiro-Ministro, parece ter sido sujeito a uma protecção especial, que mais do que o proteger de suspeitas, o deixa ficar para sempre envolvido nelas, Pode-se argumentar que houve cuidado dos investigadores de não envolver desnecessariamente o Primeiro-Ministro pelas suas funções oficiais, e admito que esta possa ser uma razão de peso. Mas, neste caso, essa razão inplica também uma gigantesca protecção, visto que não existe nenhum precedente de um político tão directamente envolvido que não tenha sido ouvido. Na verdade há uma excepção, Mário Soares no caso Emaúdio.

            (Escrito antes de se saber o que entretanto se veio a saber...)

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            EARLY MORNING BLOGS
            1843 -  Aubade: Lake Erie

            When sun, light handed, sows this Indian water
            With a crop of cockles,
            The vines arrange their tender shadows
            In the sweet leafage of an artificial France.


            Awake, in the frames of windows, innocent children,
            Loving the blue, sprayed leaves of childish life,
            Applaud the bearded corn, the bleeding grape,
            And cry:
            "Here is the hay-colored sun, our marvelous cousin,
            Walking in the barley,
            Turning the harrowed earth to growing bread,
            And splicing the sweet, wounded vine.
            Lift up your hitch-hiking heads
            And no more fear the fever,
            You fugitives, and sleepers in the fields,
            Here is the hay-colored sun!"


            And when their shining voices, clean as summer,
            Play, like churchbells over the field,
            A hundred dusty Luthers rise from the dead, unheeding,
            Search the horizon for the gap-toothed grin of factories,
            And grope, in the green wheat,
            Toward the wood winds of the western freight.

            (Thomas Merton)

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            29.7.10


            COISAS DA SÁBADO: A QUERELA CONSTITUCIONAL


            Eu bem sei que muito do barulho vem de uma mistura da silly season, com as necessidades socialistas de terem alguma coisa “ideológica” a que se agarrar no meio de uma governação muito mais “liberal” do que as propostas “liberais” de Passos Coelho. É certo que é uma governação obrigada pelo estrangeiro, de má fé e a contre coeur, mas é o que é. Depois acrescenta-se o facto da nossa Constituição ter os donos vivos e os donos não gostam que se lhes mexa na propriedade e querem tudo no sítio onde o colocaram há quase 35 anos. E há também, numa Constituição que já foi mexida e remexida dezenas de vezes, muitas vezes inutilmente por causa da Europa, o facto de ela ser considerada simbólica à esquerda, sacrossanta e até um pouco de fetiche, o que em tempos de vacas magras ideológicas, conta. E depois, com a Constituição, tudo é grátis, não se prevê que alguma coisa vá mudar de decisivo no actual contexto, e por isso mexer com ela pelo menos de boca, não custa dinheiro e não tem consequências. Isto é válido para o PS, mas acima de tudo para o PSD que pode propor o que quiser, que sabe que nada vai passar no crivo da maioria qualificada.

            Dito tudo isto, mesmo assim, e sem conhecer em detalhe e por escrito qual é a proposta do PSD, muita coisa parece-me ir no bom sentido. Acabar com a gratuitidade da saúde e da educação não é uma medida “liberal”, é abrir caminho para uma justiça social que coloque todos os recursos do estado a favor dos mais pobres. A “gratuitidade” universal é do domínio do puramente ideológico, mas na prática tem os efeitos exactamente contrários aos proclamados. O actual sistema é mais do que injusto, é socialmente favorável aos mais ricos cuja saúde e educação são pagas também pelos pobres, Mantendo-se um principio de solidariedade social, em que os que tem mais posses continuam a contribuir para a saúde e educação dos que necessitam, não há razão para se manter uma gratuitidade universal injusta.

            Muitos bloqueios que a Constituição suporta, em nome longínquo das “conquistas da revolução”, são sempre pagos por quem é mais fraco. A enorme rigidez do contrato de trabalho só é boa para quem tem um emprego sólido, porque o seu custo é a institucionalização da precariedade, e o desemprego colectivo. Parece proteger, mas não protege ninguém. Não é preciso ser especialmente “liberal”, um termo papão que cobre tudo de um manto do mal, para chegar a esta evidência. E por aí adiante.
            Se o PSD não estragar a pintura com propostas inconsideradas e conjunturais sobre o sistema político (espero para ver o texto de algumas que foram “sopradas” à comunicação social, em particular ao órgão oficioso da actual direcção, o Diário de Notícias), o saldo é positivo. Mas é preciso ter atenção ás consequências; o programa do PSD tem que ser alterado nalguns aspectos chave, mantendo o património genético do partido, o que exige muito saber e rigor político e ideológico. Ao mesmo tempo, para estas propostas não serem apenas “constitucionais”, o que no contexto actual as pode tornar apenas propagandísticas, é preciso moldar a actuação prática do partido ao seu conteúdo, o que não tem acontecido por exemplo no Parlamento onde tem havido posições erráticas em relação a este “molde” constitucional.

            Vamos ver.

            (Escrito antes de se saber  o texto final das propostas do PSD, que afinal ainda não é final.)

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            (António Leal)

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            PONTO / CONTRAPONTO

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            Aqui.

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            EMPANCADOS



            Está tudo dito sobre o todo e o todo tem muita força. Está aí pousado em cima de nós, com o peso dos milhares de milhões da dívida, com o olhar desconfiado dos "mercados" e das tenebrosas agências de rating, com as ordens, ainda assim suaves, da Comissão Europeia, e está para ficar. Debaixo deste todo, nada mexe. Por isso, não vale a pena estar a repetir-me. Mas tenho que repetir-me, porque nesta canção só há refrão e sempre o mesmo refrão. Empancados.


            Está tudo dito sobre o pequeno navio encalhado que é hoje Portugal. Ou se quiserem sobre o Titanic de uma qualquer linha obscura do mar Negro, que se afunda já nem sequer ao som da orquestra. Nesse país encalhado, tudo está bloqueado: o Governo não governa, o primeiro-ministro vocifera impotente com a má sorte que lhe calhou devido aos demónios neoliberais do estrangeiro, o ministro das Finanças anda curvado ao peso da dívida e do défice. A oposição que conta está errática: diz ter a obrigação "patriótica" de apoiar o Governo nas medidas anticrise, mas logo em seguida ameaça a aprovação do OE, num contexto que não é diferente da mesma crise que justificava os votos favoráveis aos PEC. Ainda estou para perceber o que se passou entretanto. Deixou de haver ameaça de bancarrota nacional? Duvido. Tudo isto dá uma sensação de impasse e de impotência. Empancados.


            Uma das coisas que se dizem é que o Governo não passa de 2011 e que haverá eleições. Importam-se de me explicar como? Há várias hipóteses, nenhuma especialmente convincente. Depois das presidenciais, Sócrates demite-se? Duvido que o faça sem que pense ganhar alguma coisa com isso, o que me parece difícil de imaginar. O PS muda de líder para novas eleições? É provável, e dá-lhe uma oportunidade real, mas isso pressupõe que Sócrates quer ir-se embora. E para onde? Para gerir uma empresa de eólicas? Para uma fundação? Para uma embaixada política algures no Vanuatu? Difícil arranjar algum lugar dourado para um antigo primeiro-ministro pouco qualificado. Uma coisa me parece certa, o PS só força eleições se pensar que as pode ganhar. Empancados.

            Depois quem vai "derrubar" o Governo em 2011? O Presidente se for Manuel Alegre? Impossível. Se for Cavaco Silva? Não é impossível, mas será difícil. Aqui deixemos uma hipótese que depende e muito do contexto de 2011. Admito que esse contexto é muito volátil para se excluir esta hipótese. O PSD apresenta uma moção de censura? Para que daqui resulte a queda do Governo é preciso que haja todos os votos da oposição, o que não é certo. Não me parece que BE, PCP e CDS queiram eleições antecipadas. Empancados.

            E depois 2011 será no pleno da crise. Quem se atreverá a provocar eleições em plena conflituosidade social, em ambiente que será de hostilidade populista aos políticos, em dimensões nunca vistas desde o 25 de Abril? Só mesmo em condições muito excepcionais é que o PSD poderá correr o risco de fazer cair o Governo e assumir o ónus de eleições, porque o próprio acto de provocar a queda muda muito o ambiente político. Empancados.


            A linha de argumentação de um PS com um novo líder baterá forte e feio na "imaturidade" da liderança do PSD, que o PS está hoje a experimentar e tem mais pés para andar do que se imagina. E o debate feio, em que algum PS e algum PSD são mestres, ainda não saiu da gaveta, mas sairá então. A actual direcção do PSD tem gozado de um estado de graça que, quando as coisas apertarem, evaporar-se-á como já se começa a ver. No PSD pensa-se nas sondagens favoráveis de 2010, mas as sondagens de 2010 premeiam o "consenso", as de 2011 punirão a ruptura. Pode não chegar para contrariar o desgaste imenso de Sócrates, mas o PS e Sócrates não têm a mesma usura. Por tudo isto, pode ser muito imprudente fazer cair o Governo em 2011, na lógica da mera alternância do poder. Empancados.

            Admito o exacto contrário do que disse antes: um levantamento nacional do género "livrem-me desse homem", "qualquer coisa é melhor do que continuar com Sócrates". Não é impossível, mas o grau de descrença na mudança, a falta de esperança, a indiferença de quem já ouviu e viu tudo sem nenhuma consequência gerou tal anomia que a fúria pode permanecer mansa e alheada. E tudo continuar na mesma até 2013. Nesse caso, quando os partidos que contam para o Governo, PS, PSD e CDS, perceberem que têm que lidar com um tempo mais longo, terão um dilema sério visto não poderem continuar como até aqui: a viver num tempo curto que implica sempre uma crise política a prazo de meses. O Governo tem que tentar governar, a oposição estabilizar uma linha de actuação e abandonar o curso errático actual de arranques e recuos. Empancados.

            Seja como for, não é brilhante. Encalhados, dentro de um pequeno navio, com os bens cada vez mais escassos e muita fome, com um capitão que pensa que o navio está a singrar alegremente para a terra do mel e das rosas e nem sequer olha para o banco de areia onde repousa, com uma tripulação entre o Navio Fantasma e a Nave dos Loucos, ninguém parece ter vontade, nem saber para tentar escavar alguma areia à espera de uma salvadora maré. Empancados.

            É difícil viver num país sem esperança

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            28.7.10

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            EARLY MORNING BLOGS
            1842 - Não Quero

            Não quero recordar nem conhecer-me.
            Somos demais se olhamos em quem somos.
            Ignorar que vivemos
            Cumpre bastante a vida.


            Tanto quanto vivemos, vive a hora
            Em que vivemos, igualmente morta
            Quando passa conosco,
            Que passamos com ela.


            Se sabê-lo não serve de sabê-lo
            (Pois sem poder que vale conhecermos?)
            Melhor vida é a vida
            Que dura sem medir-se.

            (Ricardo Reis)

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            27.7.10


            EARLY MORNING BLOGS
            1841 -Voz numa pedra

            Não adoro o passado
            não sou três vezes mestre
            não combinei nada com as furnas
            não é para isso que eu cá ando
            decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
            decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
            nenhuma nenhuma palavra está completa
            nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
            assim também eu nunca te direi o que sei
            a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento


            Não digo como o outro: sei que não sei nada
            sei muito bem que soube sempre umas coisas
            que isso pesa
            que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
            acreditando ser ele o agente supremo
            do coração do mundo
            vaso de liberdade expurgada do menstruo
            rosa viva diante dos nossos olhos
            Ainda longe longe essa cidade futura
            onde «a poesia não mais ritmará a acção
            porque caminhará adiante dela»
            Os pregadores de morte vão acabar?
            Os segadores do amor vão acabar?
            A tortura dos olhos vai acabar?
            Passa-me então aquele canivete
            porque há imenso que começar a podar
            passa não me olhas como se olha um bruxo
            detentor do milagre da verdade
            a machadada e o propósito de não sacrificar-se
            não construirão ao sol coisa nenhuma
            nada está escrito afinal

            (Jorge de Sena)

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            © José Pacheco Pereira
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