Paulo Tunhas coloca aqui uma questão que me persegue como a sarna recidiva: como foi possível termos chegado a isto? Com foi possível reeleger Sócrates? Como foi possível? Paulo Tunhas aconselha um pouco mais de introspecção, para uma possível resposta, do que análise puramente objectiva. Na hipótese de que Sócrates é muito mais de nós mesmos do que queremos aceitar. No fundo, levanta a sua perplexidade. A resposta, como ele sugere, a ser dada, e era tão importante que fosse sendo dada, sê-lo-á a vários níveis de profundidade. Certo. Para início do problema, parece-me, porém, que a ideia de que «as pessoas acreditavam nele» não é inteiramente exacta. Para início de problema, parece-me que o que votou em Sócrates foi um imenso medo. Não se tratava, à altura das últimas eleições, de «confiar em Sócrates», assim, sem mais, mas de algo um pouco mais «irracional» do que isso. Sócrates, face a Ferreira Leite, foi uma espécie de escape face à ameaça percebida de que estamos a chegar ao fim de qualquer coisa, que põe em causa de uma maneira muito radical a forma como concebemos a organização das nossas vidas, as nossas expectativas. Não estou a sugerir que há por aí um economista difuso em cada alma lusa. Apenas a sugerir que não é incompatível, nas massas, como nas pessoas individualmente, a percepção confusa de um perigo iminente e a reacção de escape. Pode ser que se escape. Pode ser que não. Mas Sócrates, vigarista como toda a gente sabia e sabe que ele é, sempre era o seguro, se não da manutenção de tudo no seu tradicional lugar, pelo menos do diferimento do encontro com a realidade ameaçadora. Manuela Ferreira Leite não se prestava a ser o viático de semelhante fuga. O que é dramático é que a pauta do medo é aquela pela qual os políticos em geral - todos, sem excepção - continuam a jogar este jogo de sombras mortífero.
quarta-feira, 21 de Julho de 2010
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7 comentários:
Parece-me um pouco ingénuo imaginar que Sócrates, Ferreira Alves ou Passos Coelho são políticos autónomos. Eles foram lá colocados por quem tem poder para isso (e não me estou a referir a eleitores).
"foi uma espécie de escape face à ameaça percebida de que estamos a chegar ao fim de qualquer coisa,"
Os Portugueses desde que entrámos na CEE votaram em facilidades. Veja-se a narrativa dos jornais: "gratuitidade", "grátis" para coisas que são pagas com impostos-
O resultado disto é que agora paga-se pelos serviços directamente e paga-se os serviços pelos impostos.
Eu senti que o voto em Cavaco foi uma maneira de não colocar os ovos todos no mesmo cesto e uma desconfiança em relação a Sócrates e ao PS.
Parece-me que Cavaco não percebeu isso.
lucklucky
Os portugueses são intrinsecamente vigaristas. É uma característica tão natural no povo como a hospitalidade. Qualquer análise histórica, livre de nacionalismos, assim o demonstra. Hoje temos notáveis vigaristas desempenhando funções notáveis: PR, PM, PSTJ, PGR e podíamos continuar os exemplos sem receio de se esgotarem.
A questão é que Sócrates não tem para onde ir. Barroso ainda tinha alguma inteligência. Que poderia fazer Sócrates:
- Desenhar chiqueiros? Isto já ele transformou num imenso chiqueiro.
- Gerir uma empresa? Quem se arriscaria se arruinou um país inteiro?
- Confiar-lhe uns investimentos? Era a mesma coisa que os entregar ao Vale e Azevedo.
A malta da esquerda jornalística financiada pelo especulador da esquerda George Soros, o Foro de São Paulo e os sindicatos do PC que o promoveram já percebem que a mama lhes vai acabar.
Curioso. A minha crónica da "Ler" do próximo mês de Setembro é sobre uma parte disto: em que diagnóstico acreditou o doente luso?
"Como foi possível reeleger Sócrates?"
É simples e facílimo responder - porque a alternativa era Manuela Ferreira Leite. Entre os dois, não havia que hesitar - Sócrates era melhor.
Se a alternativa fosse Passos Coelho, outro galo teria cantado.
Luís,
Melhor com base em que critério? Parece-me que essa é a questão. O critério aparentemente é o de que as pessoas acham melhor não serem confrontadas com a realidade.
henrique pereira dos santos
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