quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Os números e as pessoas

"Os Portugueses não são números; são pessoas". Lembram-se disto? Foi um dos slogans da campanha do PS de Guterres em 1995. Visava insinuar o "economicismo" dos adversários à direita, em particular do PSD, que, por sua vez, denunciava não só a sua imensa incultura, mas sobretudo uma fria e implacável desumanidade. Desde então, a conversa dos números e das pessoas fez escola, nas suas múltiplas variantes, sempre que o PS esbarrava no muro de betão da falta de imaginação.
Entretanto, veio a crise - a nacional e a internacional. Com ela, os socialistas ergueram estátuas a Keynes e declararam mortas todas as outras escolas de pensamento económico. Nunca lhes ocorreu que a abordagem keynesiana e a perspectiva radicalmente macroeconómica - que também persiste na tese dos desequilíbrios externos intra-europeus como razão e causa das maleitas mediterrânicas -, mais do que as restantes, acabam por considerar as pessoas como números e só como números. Agregados, puros e simples. É esse o seu "método" e a sua razão de ser. A macroscopia económica tem destas coisas: permite esquecer, e até omitir, que a economia são pessoas - nos seus actos, nas suas escolhas, nas suas expectativas. Esta simples conclusão é decisiva para todos. E também para a ciência económica, assim como para as políticas públicas.
Como suspirou numa certa ocasião Victor Hugo: "Ah, a Humanidade".

2 comentários:

Anónimo disse...

A falta de imaginação é dos outros que se deixam intimidar pelos argumentos indigentes do PS.
São esses que são limitados, já ao PS basta esses argumentos fracos para neutralizar os inimigos.
Se as pessoas é que contam então bastava só alguém do PSD dizer vamos baixar os impostos em XXX mil milhões
e vamos deixá-las escolher as Escolas e os Hospitais.


lucklucky

lpb disse...

O seu texto é incompreensível. Que objectivo tem? Denunciar o enfoque macro de Keynes? Deunciar a instrumentalização e quantificação dos "recursos" humanos na macroeconomia? Denunciar o estrategismo político do PS? Denunciar a abordagem racionalista da "ciência económica" e demonstrar o valor da escola austríaca?

Em todo o caso, não sei de que socialistas fala, mas ninguém ergueu estátuas a Keynes. Alguns foram ler os seus livros - tal como eu, confesso - e perceberam algo de relativamente simples - tão simples que a síntese neoclássica de Samuelson quis integrar a micreconomia das expectativas racionais e a macroeconomia keynesiana.

Pode ler acerca das consequências aqui: http://www.nakedcapitalism.com/2010/07/our-new-york-times-op-ed-on-the-corporate-savings-glut.html

Cito: "Therefore, when both domestic households and the corporate sector are saving at the same time, then you need to have a VERY large trade surplus, a very large government deficit, or some combination of the two. There is no other way to square this circle – anyone who tries to tell you otherwise does not understand double entry book keeping, which the West has used for at least the last five centuries with some success."

Dito de outra forma: se todos os países encetam políticas recessivas, que diminuem a procura interna (ou seja, firmas e famílias poupam e não investem), é logicamente impossível contar com o incremento sustentado e relevante das exportações de um país como Portugal. É pura e simplesmente impossível.

Se as exportações não aumentam e o investimento público é cortado em nome do défice, ao mesmo tempo que as firmas e famílias poupam, o que acontece? Diga-me você, já que a economia é um sistema de relações sociais e os seus agentes são seres humanos. No vosso blog, referem com frequência os "recursos humanos". São esses "recursos" humanos que, brevemente, vão sofrer com a obsessão, também explorada neste blog, do défice e da imperiosa necessidade de estabilizar preços, porque a inflação é um papão mau e vai comer-nos a todos. Bu! O desemprego, como não vos toca (sim, é um argumento personalizado - e merecido), é irrelevante. Conheço demasiado bem este tipo de desonestidade intelectual, e é por isso que não consigo respeitar o vosso ponto de vista.

Não sou economista e não percebo patavina de economia. Nem quero perceber (gosto de ser ignorante e encantado). Mas o seu comentário críptico parece derivar de uma ignorância igual à minha mas disfarçada de um verniz ideológico rudimentar. Seria agradável que os conservadores usassem de argumentos mais sólidos que a simples inércia. Defender o status quo com o status quo é tautológico - a utilização de recursos à autoridade (vista com frequência nauseabunda neste blog e em quase todos os blogs conservadores/"liberais") é falaciosa e carece de coerência.