sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Palavras

Ao ver hoje Pedro Adão e Silva subscrever, a propósito do choque permanente da política portuguesa com a realidade, a extraordinária frase “Depois temos um governo que tinha um discurso eleitoral e que de facto foi obrigado a abandoná-lo para fazer exactamente o contrário do que propunha como resposta à crise “, recordei uma pequena crónica escrita em Setembro de 2009 por este mesmo polítólogo, onde discorrendo sobre a falta de dotes tribunícios de Manuela Ferreira Leite apresentava a seguinte equação lógica: “não podemos esperar de quem fala mal que pense bem”. Aplicando a mesma lógica seria então expectável que quem fala bem então pensa bem, ou seja, e como na época convinha, José Sócrates por falar bem pensaria bem (nem merece comentários).
Levando mais longe o princípio poderíamos ser levados a concluir que, dada a importância da palavra, quem escreve bem então pensa bem. Sobre esta última relação de causalidade a história e a realidade têm garantido inúmeros exemplos de refutação da aplicação cega de tal princípio abstracto. De facto, se na equação não introduzirmos elementos como prudência, bom senso, memória histórica e experiência, os perigos foram e são tremendos.
Parece-me que apesar de inteligente Pedro Adão e Silva permanece em estado de negação, e à sua dimensão é um caso de alguém que escreve bem mas teima em pensar mal.

4 comentários:

Anónimo disse...

Como Pedro Adão e Silva deve ter reparado, logo nos primeiros segundos do discurso de ontem Sócrates já estava a falar mal da oposição e de outras forças que lhe dão cabo da vida.

M. Abrantes disse...

Ofereçam umas novelas do Arséne Lupin ao Adão e Silva.

Anónimo disse...

Os socialistas já deixaram de almejar o básico numa discussão intelectual: a tentativa de ser coerente.

lucklucky

Alethea disse...

«(...)discorrendo sobre a falta de dotes tribunícios de Manuela Ferreira Leite apresentava a seguinte equação lógica: “não podemos esperar de quem fala mal que pense bem”. Aplicando a mesma lógica seria então expectável que quem fala bem então pensa bem (...)» - escreve a Eugénia.

Proponho uma pequena correcção de lógica (que nada tem a ver com o conteúdo da afirmação em causa ou com o reconhecimento da sua veracidade):

A afirmação de Pedro Adão e Silva pode significar:
"fala mal ENTÃO pensa mal"

A partir desta afirmação, e invocando a lógica, nada se pode inferir do pressuposto "fala bem". Porque a afirmação de PAS só nos dá a consequência de "falar mal". Ou seja, quem fala bem ... pode pensar bem ou.. pensar mal... e nenhum dos casos contradiz a afirmação de PAS.

A afirmação
"fala mal ENTÃO pensa mal"
é formalmente equivalente a:
"pensa bem ENTÃO fala bem".

(em nome do rigor argumentativo...)