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24 de dezembro de 2011

natal em vizela








ateísmo à parte, criança em época natalícia me confesso. não sou católica, não suporto compras, as multidões trazem-me à lembrança a asma que me arde cá por dentro, fico doida com as esperas nos supermercados, não tenho qualquer apreço por doces de natal, aquelas coisas cheias de açúcar que me deixam o insuportável sabor adocicado na boca, e ai de mim se me põem bacalhau à frente. ainda assim, criança em época natalícia me confesso. se é certo que escrevo hoje, a 24 de dezembro, verdadeiro natal para mim, também não é errado que, para mim, o natal começa em setembro e acaba lá para maio. chega o natal e, olha, de repente tudo é claro, a vida é clara, o norte não traz segredos. vizela não esconde nada, pinta-se nos tons ebúrneos e verdes e as pessoas são inteiras e um livro aberto de passados. a ternura inventada pelas ruas, a solidão que amanhece nestas luzes. a súbita alegria triste e o remorso, a culpa de estar viva. o natal está a chegar e há uma tarde a amanhecer, uma noite que entardece, enquanto se enterra os mortos no açúcar que se esvai. por isso tivemos braços para o adeus, por isso tivemos lábios para sorrir, por isso veio o natal para a acalmia do pesadelo do ciúme. tempo de nostalgia confiante, de edificação tortuosa, alegre na convicção. assim chega o natal e ele acontece no teu corpo e no ritmo dos teus dedos. noite em que nasce a poesia, vida que nasce dos poemas. chega o natal e eu não posso senão amar a agitação palpitante das ruas de vizela, as montanhas que ficam lá em cima, as pessoas que correm e os sorrisos multiplicados nas caras das velhinhas. não posso senão amar o sentimento claro, tão claro como as manhãs de quarta-feira em que o sol penetra as árvores do jardim e o centro se torna num poema prosaico de cesário verde, e a ânsia grande, tão grande, de dar, escondida no embaraço contido de receber. vizela é um mundo à parte do resto do norte, uma imensidão separada do resto de portugal, e lá o natal é mais fácil, acontece mais vezes, mais cedo e dura mais tempo. para mim só há natal porque um dia houve vizela e foi em vizela que o amor nasceu, que fiquei duas horas na varanda da minha avó à espera do pai natal, após ter garantido que daquela vez ele não me conseguiria escapar, vindo depois a descobrir que o malandro tinha entrado pela porta da cozinha e tinha ficado a conversar com os meus pais, que todos os miúdos da rua se riram de mim por ser a única a acreditar no pai natal, que ri de todos os miúdos da rua porque eles achavam que eram o papã e a mamã que compravam as prendas de natal, que fiquei uns três anos a fingir que ainda acreditava no pai natal para que o papá não ficasse triste e achasse que eu ainda era muito pequena, que montei presépios com musgo verdadeiro com metro e meio de comprimento e sujei a cozinha toda, que fui à beira do rio buscar terra para encher o vaso em que ficaria o pinheiro. foi em vizela que vi as primeiras luzes, as da vida e as do natal, e, por curiosidade absoluta, elas fundiram-se e foram sempre as mesmas. a cada dia, um novo ano, mais lento e mais rápido no turbilhão das memórias tão cheias de uma terra que é rainha. a cada ano, um novo dia, porque a vida vai seguindo devagar, ao ritmo vizelense apressado, fugindo das noites que amanhecem. a nostalgia dolorosa e a saudade feliz de ter conhecido um natal em vizela. o remorso indesculpável de o ter perdido para sempre e de saber que ele é meu no cheiro da canela. a culpa, a alegria de estar viva. o natal em vizela é o natal dos sonhos e dos abraços. por ele, os braços que temos para o adeus erguem-se na construção de outro natal. por ele, os lábios para sorrir não perdem tempo com conversas. ternura inventada pelas ruas, o natal acontecerá no corpo dela.


(BRUNO DE GÓIS, COMO É QUE SE MUDA ESTA LETRA, PÁ?!)

23 de dezembro de 2010

Natal em Dança de Balcão...


Boas festas - dizem aqui e ali… Todos e todas gostamos muito de desejar boas festas uns aos outros e de todos os anos voltarmos a repetir os mesmos votos de fim de ano, as mesmas deixas do Natal. Deixa-nos bastante confortáveis podermos pensar que para o ano é que vai ser, para o ano é que esta porra vai finalmente correr bem. Entretanto, mesmo não sendo o profeta da desgraça, gosto de pensar o que festejamos nós afinal… Mas deixo só a pergunta, porque se começo a dissertar sobre o pânico social que vai ser 2011 os mercados aumentam os juros da dívida e lá vem outra vez o nosso FMI limar umas arestas ao nosso salário, ou às nossas bolsas de estudo, ou aos nossos impostos, ou aos nossos subsídios sociais, ou a qualquer coisa que tenha como objectivo proteger pessoas e garantir igualdade e subsistência. Ficaria, na verdade, deprimido e não ia beber copos e cantar com os meus amigos dia 31, por isso mais vale pensar que tudo vai correr bem, enquanto ficamos em casa em frente à lareira assistindo à degradação do 1984 do Orwell transformado outra vez em reality show !

Sobre o Natal para mim há uma ou duas perguntas a fazer: onde é que está o menino Jesus dos sem-abrigo das cidades que passam o Natal, como outra noite qualquer, deitados sobre cartões? O Natal é um encontro da família, é um Alzheimer social do que tem corrido mal, e é muito bom podermos estar juntos e esquecer tudo o que nos divide, mas e para as pessoas que não têm família? O que é o Natal para quem a família não existe? Com as nossas famílias juntamo-nos à lareira a cantar pelo bem-estar dos `pobrezinhos`, mas por baixo da nossa varanda, ou até na casa em frente, pode estar um desses `pobrezinhos` que diariamente nos passa ao lado… Quem não tem com quem passar o Natal, será que tem Natal? É uma visão simplista demais pensar que é tudo como na nossa casa.

Depois do Natal, despedimo-nos, fazemos votos felizes de fim-de-ano, os mesmos votos de fim de ano, e os pobres continuam no mesmo sítio, à mesma hora, com o mesmo que comer e que vestir, e nunca mais nos lembramos de questionar um sistema que produz e reproduz pobreza… nem de perguntar porque é que isto tem que ser assim?!?

Já o Zeca cantou há muito o seu Natal dos pobres e em todo o caso os pobres por quem Zeca cantava continuam ai, em todas as esferas da vida e da forma mais camuflada que nem não nos apercebemos por vezes que existem tão perto de nós.

E assim como antes, continuamos a desejar boas festas, as mesmas boas festas de sempre… E ainda assim, o Mundo mantém-se (mais um bocadinho para frente, ou mais um bocadinho para trás) o mesmo Mundo de sempre, o Mundo de alguns.

Sinal dos tempos será que já não vivemos o “Natal dos Pobres” do Zeca, vivemos mais em clima de “Dança de Balcão” dos Virgens Suta. O vinho mantém-se, apenas o vinho…




21 de dezembro de 2010

Espirito Natalício

O espírito natalício chegou á Universidade de Londres. Estudantes em Inglaterra ocuparam a Universidade de Londres como forma de protesto contra o brutal corte no Ensino Superior e contra o gigantesco aumento das propinas.

Apesar de tudo, é natal. Assim sendo, o "Coro da Ocupação" deixa-nos esta música.