A Ministra, o Post e as Camisolas

Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Nestes momentos de campanha, é sempre engraçado ver como quem exerce o poder vai alternando entre a camisola de governante e a camisola de candidato. A título ilustrativo, durante o dia o governante preside a umas inaugurações e à noite o candidato desdobra-se em (outras) acções de campanha. Normalmente disfarça-se mal esta mudança de papéis, mas procura-se sempre disfarçar nem que seja um pouco.

Este caso da Ministra da Cultura que colocou no blogue do ministério o programa eleitoral do PS varia entre o grave e o ridículo. Tenha sincera curiosidade em saber o que passou pela cabeça de quem fez o post (a ministra ou um seu assessor). E não consigo deixar de partilhar uma piadinha fácil a este respeito: se calhar são tantas as vezes que mudam de camisola durante o dia que se esqueceram qual delas tinham vestida quando fizeram o post...

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Coelho-Palhaçada



No meio das comemorações portistas, não ganhou o devido relevo a coelho-palhaçada no debate dos partidos sem assento parlamentar. Coelho é o exemplo claro que Alberto João até na oposição consegue fazer escola. Uma vergonha nunca vista o que ontem se passou...

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Gafes úteis

Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

A gafe de Merkel serviu pelo menos para três coisas:
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1) colocar a circular informação que demonstra que os Portugueses não são os preguiçosos recheados de regalias que tanto se fala;
2) demonstrar que se alguém tivesse a ideia de reduzir para metade todos os direitos dos trabalhadores portugueses, existiria patronato em Portugal a aplaudir tal medida;
3) comprovar (mais uma vez) que a Europa continuará mal enquanto for liderada por um chefe de Estado ou de Governo de um país que, naturalmente, age focado apenas no interesse do seu eleitorado.
(Imagem: Foruns Naruto)

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Os camaleões, não gosto, pá

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Para não variar, o Tiago Tibúrcio responde de forma inteligente a este meu artigo, fazendo um exercício provocatório sobre as motivações do meu voto. Devo dizer-te, Tiago, antes de mais, que julgo ter pouco jeito e feitio para defender a “minha dama” (não confundir com a minha senhora, sff). No entanto acho que, nestas eleições mais do que em muitas outras, estranho o facto de acusarem a “minha dama” de não apresentar propostas. Tem-no feito ao ritmo de uma por dia. Infelizmente tenho encontrado pouco debate com vista a rebatê-las individualmente. Pelo contrário, a forma encontrada para as contrariar tem sido colocá-las no saco da demagogia, do lirismo e do radicalismo. Nada de novo, portanto.

Por outro lado, acho infrutífero entrarmos aqui no ping pong do “tu foste a muleta da direita” versus “tu agiste como a direita”. Deixa-me portanto recentrar a nossa discussão no que julgo ser o cerne da questão que coloco no meu artigo.

Existem, como sabemos, as mais diversas explicações para o comportamento eleitoral dos cidadãos. Pessoalmente tenho particular dificuldade em perceber o voto em candidatos com grande inconsistência ideológica. Precisamente pelos efeitos camaleónicos que tal inconsistência implica no comportamento de tais candidatos. Tomemos o exemplo de José Sócrates. Quem nele votar nas próximas eleições, vota no Sócrates defensor do investimento público ou no Sócrates apologista do aperto do cinto? No Sócrates dos aumentos nos salários da Função Pública ou no Sócrates dos cortes em tais salários? No Sócrates que afirmou que a redução dos benefícios fiscais seria um ataque à classe média ou no Sócrates que considera que tal redução é uma questão de justiça fiscal? No Sócrates que afirmou que não governaria com o FMI ou no Sócrates que diz ser a pessoa indicada para aplicar o programa do FMI?

Existe muito eleitorado de esquerda que votará em Sócrates por uma série de políticas deste governo, mas sobretudo para evitar o governo mais à direita que até hoje tivemos oportunidade de conhecer. O típico voto útil, no fundo. Mas, em última análise, o que garante a este eleitorado que Sócrates cumpre o que hoje promete com toda a convicção? O que lhe garante que o Sócrates de hoje é o Sócrates de amanhã? Tiago, a “minha dama” tem uma série de defeitos, mas (não querendo ser panfletário) quem nela vota costuma saber ao que vai. A consistência ideológica, a meu ver, não é um preciosismo.

PS: As picardias com o Tiago são sempre bem-vindas, precisamente pelo relevo e sensibilidade das questões colocadas.

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A eventual dor de cabeça

Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Sócrates antecipou ontem um dos cenários que mais dores de cabeça pode provocar no pós-5 de Junho: e se o PS ganhar por um curta margem e o PSD e o CDS se apresentarem juntos prontos para governar? Como é natural tendo em conta os cenários em causa, o actual primeiro-ministro defendeu que deverá ser o partido mais votado a formar governo.

Mas se é certo que, num acto eleitoral, a obtenção do primeiro lugar nas votações é o mais determinante de todos os factos, nos sistemas de raiz parlamentar importa sim que o governo seja suportado por uma maioria. Assim sendo, caso exista uma alternativa maioritária mais abrangente do que o partido mais votado, nada impede que o Presidente da República convide tal alternativa a formar governo. Será sempre uma solução com fragilidades, mas pode ser encarada (e vendida) pelo o Chefe de Estado como um mal menor.

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O Triunfo dos Animais Políticos

É certo que o mundo das sondagens por vezes parece um pouco alheado do mundo real. De qualquer modo, os diversos números das últimas semanas têm identificado algumas tendências difíceis de ignorar. Por um lado, uma clara recuperação do PS. Em prejuízo do PSD, do Bloco e do PCP, o Governo que assumiu o mais austero pacote de medidas das últimas décadas pode estar em vias de ser reconduzido. Por outro lado, e depois de se prever que desapareceria devido à ascenção laranja, o CDS de Portas parece caminhar imparável para um resultado histórico, com o PSD a oferecer-lhe de bandeja uma série de votos.

Estas tendências, estão a ocorrer sobretudo devido a um desempenho comunicacional brilhante de José Sócrates e Paulo Portas. Os líderes do PS e CDS quase não têm cometido erros na sua comunicação política. Este seu elevado desempenho, esta sua capacidade de dar a volta às situações, de renascerem das cinzas, de possuirem 7 vidas, tem merecido a admiração e aplauso de diversos sectores. São considerados “animais políticos” e admirados como tal. Se calhar vale a pena esmiuçar um pouco melhor os traços políticos de José Sócrates e Paulo Portas.

No que ao primeiro-ministro diz respeito, não haja dúvidas que é um sobrevivente político como nunca se viu na democracia portuguesa. Depois de lhe terem sido passadas ínúmeras certidões de óbito político, Sócrates surpreende e dá a volta. Ora temos um Sócrates defensor do investimento público, ora temos um apologista do aperto do cinto; ora temos um defensor do papel do Estado na economia, ora temos um apologista das privatizações; ora temos um defensor do Estado Social, ora temos um responsável por inúmeros cortes nas prestações sociais; ora temos o primeiro-ministro que não governava com o FMI, ora temos um primeiro-ministro que anunciou um “bom acordo” com o FMI. Alguns apelidam-no de persistente, outros simplesmente de sobrevivente. De qualquer modo, parece certo que José Sócrates ganhou já um lugar no pódio dos políticos marcantes da democracia portuguesa.

E se consideramos Sócrates um comunicador impar e um sobrevivente impressionante, o que dizer de Paulo Portas? Neste aspecto, o currículo do líder do CDS é no mínimo invejável. Já trouxe grandes vitórias ao seu partido, mas também alguns dissabores. Já o levou ao governo, mas também já teve de conviver com sondagens que diziam que o partido desapareceria. Pelo meio, Portas ora defende menos Estado, ora defende apoios aos agricultores; ora critica o Estado social, ora defende pensões para os mais idosos; ora coloca a boina da lavoura, ora confessa-se fã de sushi, de cinema e de Corte Maltese.

Para além de serem grandes comunicadores e de possuirem um instinto de sobrevivência impressionante, Sócrates e Portas têm em comum a facilidade com que alteram de perfil, como se adaptam às situações e meios que os envolvem, como mudam de discurso e de prioridades. È o conjunto destas habilidades impares que lhes confere o estatuto de animais políticos.

Mas se estas características até podem ser aplaudidas pelos apreciadores do marketing e da comunicação política, estranho é quando são encaradas como qualidades pelo eleitorado. Fará sentido depositar o voto em alguém com uma incrível capacidade de mudar de perfil, de discurso, com uma habilidade grande para se adaptar, para dar a volta e até ludibriar aqueles que o rodeiam? O voto assumido em animais políticos é, a meu ver, um dos fenómenos mais intrigantes do estudo dos comportamentos eleitorais. Se calhar chegámos a uma variante do mitico slogan político brasileiro: “aldraba, mas faz!”

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental
(Imagem: Riskici)

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A aposta arriscada

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Passos Coelho está com uma estratégia frontalmente arriscada. O facto de defender "reformas" ainda mais profundas do que o acordo da troika reflecte isso mesmo. É certo que o eleitorado português já mostrou inúmeras vezes gostar de figuras austeras, defensoras de um Portugal poupadinho, de cinto bem apertado. Mas o liberal Passos Coelho continua longe de encaixar nesse perfil. O seu destino pode mudar, mas até agora tem estado a pagar caro por tal aposta.
(Imagem: Flickr PSD).

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A época de ouro dos blogues chegou ao fim?

Domingo, 15 de Maio de 2011

Já há algum tempo que se nota que a blogosfera nacional se encontra algo estagnada. Não surgem grandes novidades e, pelo que vou falando com conhecidos destas lides, é notória a diminuição do número de visitas em benefício das redes sociais. No que à blogosfera política diz respeito, não deixa de ser sintomático que, em tempos de campanha eleitoral, ainda não tenham surgido (que eu saiba) grandes blogues colectivos de apoio a candidaturas.
(Imagem: Seu sucesso)

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ATTAC à Crise

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É "chato"...

Quinta-feira, 12 de Maio de 2011


Um fait diver indiscutível, mas com um efeito brutal, acabou de tomar de assalto a campanha. Vamos ter toda a agente no café, nos transportes públicos, no local de trabalho a falar de pêlo púbico. Vamos ter piadas e trocadilhos com esta questão para todos os gostos. Quanto a Catroga, se calhar o melhor era não aparecer até 6 de Junho. É "chato", mas julgo que não há volta a dar.

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Vai uma aposta?

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

Vejo uma série de comentadores a concordar que, no debate de há pouco, Louçã só esteve menos bem (vulgo Sócrates esteve menos mal) na parte em que se discutiu a reestruturação da dívida. O primeiro-ministro desenhou rapidamente um cenário apocalíptico caso Portugal assumisse tal posição. Vai uma aposta como em menos de 6 meses teremos o PS, com ou sem Sócrates, no governo ou na oposição, a defender tal posição?
(Imagem: SIC Notícias)

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O Embaraço

Domingo, 8 de Maio de 2011




Tem sido interessante acompanhar como uma série de personalidades com um pensamento assumidamente liberal qualificam as medidas do acordo com a troika. Lobo Xavier, na última edição da Quadratura do Círculo, não poupou elogios às "reformas" que aí vêm. Ao menos foi sincero...

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Os Excêntricos

Sexta-feira, 6 de Maio de 2011





Hoje aderi à greve. Julgo que nem vale a pena enumerar as razões. Mas é curioso ver como, em inúmeros sectores da administração pública, sobretudo nos mais rejuvesnecidos e qualificados (que não na educação e na saúde), aderir a uma greve é uma excentricidade. Uma espécie de atitude retro, que até se acha piada, mas na "casa dos outros". Dá que pensar, não?

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Sobre o Animalismo Político

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011



É consensual nos diversos quadrantes que a forma como José Sócrates gere a comunicação política ficará para a história do spin doctorismo em Portugal. Mas ontem deu-se mais um passo neste sentido. Com mais ou menos descaramento, melhor ou menor disfarçado, o primeiro-ministro conseguiu colocar em circulação a mensagem de que afinal o mundo não vai acabar graças à forma patriótica como o Executivo defendeu os interesses nacionais. Notável...

Reforço a mensagem que já aqui escrevi anteriormente. Sócrates é um animal político como nunca se viu em Portugal. Mas é estranho ver tanta gente a aplaudir tal característica como se de uma qualidade se tratasse. É que os animais politicos distinguem-se nomeadamente pela sua capacidade de dar a volta/ludibriar (vulgo enganar) o meio que o rodeia. O eleitorado apreciar religiosamente tal característica num líder político acaba por ser, no mínimo, paradoxal.

(Imagem: Lanzas)

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E a democracia, pá?

Terça-feira, 3 de Maio de 2011



Têm sido naturalmente muitas as questões que se têm levantado a propósito da vinda da troika. Vêm cá para ajudar a recuperação económica ou apenas para garantir que pagamos aos credores? E qual o grau de sucesso deste tipo de intervenção? No entanto, para lá destas questões naturalmente importantes, está a passar relativamente incólume o facto de estar a ser exigido a um país a poucas semanas de eleições um compromisso definitivo sobre as políticas que adoptará como contrapartida ao empréstimo. Rejeita-se assim ao novo governo a capacidade de governar o país, de tomar opções e de definir rumos políticos. Ou seja, age-se como se umas eleições legislativas fossem um pormenor ou uma formalidade institucional. E se tivermos em conta que a troika não é constituída apenas pelos mauzões do FMI e do BCE, mas também por representantes da Comissão Europeia, percebe-se um pouco melhor a gravidade desta situação.

A bem dizer, Passos Coelho e Cavaco Silva chamaram desde logo a atenção para esta situação. Sugeriram um empréstimo intercalar antes das eleições que permitiria uma nova negociação após as mesmas. No entanto, tal hipótese foi considerada ridícula pela vasta maioria dos seus opositores, presumindo que o Presidente e o líder do PSD apenas reclamaram tal solução a pensar no interesse que tal cenário teria para o partido laranja. Ou seja, pensado tratar-se de uma simples tentativa de desresponsabilização do PSD, contribui-se para branquear um cenário que constitui practicamente um atropelo democrático.

O episódio dos programas eleitorais dos dois principais partidos, que fez correr alguma tinta durante a última semana, demonstra bem a situação paradoxal em que se caiu. Por um lado, temos um programa eleitoral do PS que, segundo muitos, é pouco mais de uma reedição do programa apresentado em 2009 (altura em que se garantia que a economia nacional estava a entrar em retoma e que o investimento público era a chave da solução). Apresenta-se portanto um programa que parece ignorar o acordo em que o PS está envolvido. Do outro lado, temos a praticamente a um mês das eleições, o maior partido da oposição ainda sem programa. E se por um lado o argumento de estar a aguardar o plano de resgate a Portugal até faz algum sentido, é difícil justificar que se é a principal alternativa ao actual governo sem se ter ainda um programa que o demonstre com clareza.

Existem, portanto, paradoxos para todos os gostos reflectindo uma situação de grave perda de soberania política do país como um todo. Questão esta agravada por uma perversão evidente deste tipo de intervenção externa, que é aliás um dos traços que a melhor distingue do conceito de ajuda: é que os países que “beneficiam” deste tipo de intervenção não são livres de encontrar os mecanismos adequados para cumprir os seus compromissos. Pelo contrário, os credores exigem uma série de medidas internas que, a pretexto de serem uma salvaguarda para que a situação não se repita, já demonstraram inúmeras vezes adoecer ainda mais o doente.

Chegamos assim a um ponto em que os Portugueses irão às urnas e os três partidos do arco da governação apresentam alternativas políticas limitadíssimas. É certo que a fraca distinção político-ideológica das forças do centro político em Portugal é algo academicamente demonstrado. Mas desta vez tal fenómeno é literalmente imposto, por um conjunto de entidades externas, a poucas semanas de um acto eleitoral. Um atropelo democrático cuja gravidade simbólica e real parece estar a incomodar pouco a intelligentsia nacional.


Artigo publicado hoje no Açoriano Oriental

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Abater ou julgar?

Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

É curioso como nas reacções à morte de Bin Laden, ninguém mencione sequer o facto de ser lamentável que não tenha existido a possibilidade de o julgar. Destaco este facto não só por ser um direito humano, mas sobretudo porque é dificil acreditar que qualquer justiça seja feita com um "simples" tiro na cabeça de um terrorista como Bin Laden. O mesmo se passou com Saddam Hussein que, após ser capturado, foi rapidamente enforcado.

O raciocício de quem toma estes tipo de decisões (abater ou levar a julgamento) é simples: esta última hipótese é desgastante e até perigosa pelo que pode vir a revelar ou despoletar. Perante tal equação, a ordem é quase sempre para se proceder ao abate. E pelos vistos, com maiores ou menores instintos western, a vasta maioria da opinião não se incomoda ou sequer questiona esta opção.

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E convergência sindical, hein?

Domingo, 1 de Maio de 2011

Bem sei que pode ser um pouco lírico para muitos, mas será que num momento como o actual não seria de esperar maiores demonstrações de convergência por parte das duas centrais sindicais? Comemorações conjuntas do 1º de Maio, por exemplo, é uma utopia?

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O país dos livros


A Feira do Livro deixa-me sempre embasbacado com o quanto se consegue publicar em Portugal. Num país com os conhecidos problemas na estrutura de qualificações, mesmo assim edita-se anualmente um número impressionante de livros. Até podem ser edições com tiragens mínimas, mas a vitalidade do nosso mercado livreiro mostra bem que nem tudo vai (assim tão) mal neste rectângulo à beira mar plantado.

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Os Insuportáveis

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

É normal que abaixo do líder de um partido existam figuras que assumam os combates mais duros. No fundo, que ataquem os adversários de uma forma dura ou mesquinha que não ficaria bem ao líder. No PS temos os Santos Silvas, os Lellos, entre outras figuras. No novo PSD, Miguel Relvas não parece disposto a partilhar este lugar. Assume este trabalho como sendo só seu. O que é mau, porque convém variar um pouco neste tipo de funções. De outro modo, em pouco tempo ganha-se o rótulo de insusportável.

(Imagem: o Ininputável)

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A Batalha da Comunicação



Em democracia, a comunicação é um instrumento central para se fazer política. Assim sendo, embora a proximidade ou mesmo a subjugação da actividade política à comunicação possa ser naturalmente questionada, importa igualmente ter presente uma perspectiva menos maniqueísta desta questão. A comunicação pode ser encarada como um instrumento essencial para dar forma a um conteúdo, a uma ideia, assumindo-se portanto como componente incontornável numa sociedade onde a informação prolifera. Neste sentido, tendo em conta as eleições altamente competitivas que teremos nas próximas semanas, onde as sondagens nunca demonstraram uma descolagem clara do PSD relativamente ao PS, e numa altura em que se tenta reduzir as alternativas políticas a pouco mais de pormenores, a comunicação assume uma preponderância fora de série. É ela que determina como a mensagem chega ao eleitorado. Daí o forte esforço de cada uma das forças políticas para se posicionar bem sobre cada tema que vai surgindo na agenda.

Não existem receitas acabadas sobre como um partido pode vencer no campo da comunicação e marketing político. E a este respeito até podemos deixar para segundo plano as campanhas de rua e os comícios. A comunicação nestes momentos é feita sobretudo pela forma como o partido se posiciona perante a agenda e como consegue também influenciá-la. No fundo, como consegue um partido ficar bem na fotografia, ganhando a opinião pública, mas também a massa crítica da sociedade (comunicação social, opinion makers, etc). Assim sendo, uma entrevista ou um debate televisivo bem sucedido pode valer mais do que 50 comícios. E um bom posicionamento sobre um tema chave da campanha pode valer mais do que 1.000 outdoors.

Como se tem tornado evidente, o PS está de facto a recuperar nas sondagens apesar de estar a tomar as medidas mais austeras das últimas décadas. E tal subida é feita não apenas à custa do eleitorado do centro que está a conseguir conquistar despoletando uma espécie de síndrome de Estocolmo, mas também de um eleitorado mais à esquerda que, por pressão do voto útil ou não, parece disposto a confiar-lhe o seu destino numa perspectiva do mal menor. Parece igualmente evidente que tal se está a dever a uma estratégia de comunicação do PS que está a garantir que Sócrates passe entre os pingos da chuva, não cometendo erros significativos, ao mesmo tempo que os deslizes de comunicação dos seus opositores estão a empurrá-los para trás.

Tal demonstra ainda com maior clareza que será sobretudo nos domínios da comunicação que se jogará o resultado das próximas eleições. Gostemos ou não, mais do que o conteúdo, será sobretudo a forma como o mesmo será apresentado pelos diversos partidos que determinará o sucesso ou insucesso neste pouco mais de um mês que resta até ao grande dia. E parecem não existir pruridos que resistam a esta realidade crua: ou se consegue ganhar nestes domínios, ou então não surgirão surpresas agradáveis a 5 de Junho. É o tudo por tudo e convém que todos estejam cientes e preparados para esta batalha que se joga taco a taco.

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Artigo hoje publicado no Esquerda.net

(Imagem: Steve Whitese)

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