
Num post publicado por mim no maschamba há dois dias surgiu uma leitora finlandesa a comentar. Dando-nos uma perspectiva “de dentro” da Finlândia, passo a palavra a Inkeri Auraama:
Nao vi o tal video mas queria comentar para esclarecer a visao des finlandeses sobre Portugal embora noto que alguns assuntos repetem o que déjà foi dito.
Sou finlandesa expatriada, conheco Portugal um pouco como passei la alguns meses e falo portugues. Perdoe-me mas em frente de ilustres leitores prefero expressa-me em ingles.
First, it would be better not to confuse the views of ONE PARTY in Finland (Perussuomalaiset PS, which has been translated as True Finns though I would translate their name as nationalist Finns or fundamental Finns) with those of the FINNISH POPULATION in general or the Finnish government. This populist party gained more power and popularity only very recently, in the parliamentary elections in April 2011, they are not the biggest party but there are others with similar support ratings. They (PS) could be seen as a protest vote to many inaction or dissatisfactory action of the previous government; be viewed as having conservative values (EU sceptic, against immigration). Actually, many of their members are less educated and some xenophobics are bordering pure racism.
As much as their popularity rose, there is also a strong opposition and dislike towards them, including like me.
Second, as much as there are Finnish people against the bailout to Portugal there are also people supporting it, me including.
Third, for us Finns, it is not a question of merely Portugal (after Greece and Ireland). Portugal here epitomizes potentially Italy and Spain, ie all Mediterranean countries which are feared to be the next, bailing out as a continuum. Thus, they (PS) are worried that it will be a never-ending process.
However, there are issues which should be understood.Finland has a small economy, a very limited job market and it is very vulnerable for global trends. It is not many years ago, the financial situation there was dire. Finland is a relatively recent member in the EU. By nature, we like to abide laws. In the EU, we have been diligent and applied and adopted all EU rules and regulations (often to our own loss) while we have seen others acting completely unscrupulously without any control. In particular, the Mediterranean countries have been seen as careless money spenders, with a tendency to show-off and luxury.
As Greece, Portugal also has a glorious past indeed, that nobody can deny but where is its glorious present? Functional illiteracy is high, state school system sucks, judicial system is completely unreliable (who wishes to open a court case to get some justice?) and ordinary people have difficulties in surviving with their ordinary salaries.
However the Forbes list of the world’s richest people illustrates many Portuguese individuals. How did they end there while others are languishing in poverty? As written above, where are Portuguese innovations? Where is Portuguese information society? How has Portugal taken advantage of its glorious past?
In contrast, Finland is not a significant country in the world, we did not have any colonies to extract resources, on the contrary we were colonized for centuries by our neighbours who denied us government jobs, the use of our own language, who stole parts of our country etc. Our climate is harsh (note AL, it is tough:)) which makes it difficult to produce food. We live modestly and rose from absolute poverty only due to our hard work and widespread and high quality public education (a propos, which is by law free up to the university level to anybody even today). In the past, we have been snubbed by various leaders of these EU countries who curiously are now in need of financial backup.
So all the odds were against us. And it is these contrasts which induce the supporters of PS to act against the bailout to Portugal. I see their reasoning, share some views with them but I drew a completely different conclusion regarding the bailout.
In my opinion, it is time to open the can of worms and the Portuguese to admit that Portugal does not have the leadership it requires. Portugal needs new political leaders and new type of leaders, more integrity and sincere interest for the development of the entire country to bring back its glory.
In conclusion, I don’t see this as a match between Finland and Portugal, for us Finns it is a question of principle, how the decisions and rules in the EU are abode or non abode (which lead to the bailout Greece, Ireland and in the future Portugal, possibly Spain and Italy). But for Portugal, I think there is an urgent need for fresh air in Portuguese politics. You deserve it.
AL

Tem o meu mural do FB sido inundado com um vídeo difundido com loas e manifestações de orgulho nacionalista. Céptica destas coisas e geralmente receosa do que vou ver tenho resistido a abri-lo. Fi-lo, para minha desgraça, hoje de manhã. Falado em inglês, chama-se em português: O que os Finlandeses deveriam saber sobre Portugal.
Repleto de inexactidões históricas e manipulações grosseiras (foi a manifestação em Portugal que expulsou a Indonésia de Timor Leste? A sério?), vamos assumir, por uma questão de argumento, que é verdade tudo o que lá está. O que diz o vídeo de nós como nação?
A nossa língua é falada nos continentes todos, mais falada que esta e aquela, blá blá blá, mas para nos anunciarmos ao mundo temos que fazer estes vídeos em inglês. Isto é, a nossa língua é a máior da nossa aldeia mas não passa de periférica; não entra nos corredores do poder. E segue por aí fora com Deus e Futebol (esqueceram-se do fado!) e os gloriosos legados portugueses espalhados por esse mundo fora. Isto é, continuamos virados para um passado fantasiado, ignorando o presente e de costas viradas ao futuro.
Somos um país muito criativo, cheio de gente com imensas ideias e inventores, só que não registamos as patentes e os outros abusam, roubam-nos as patentes e usam-nas para lucro indevido. Desconseguimos capitalizar ideias. Por outras palavras, somos uns idiotas. Conheço uma pessoa assim: tem montes de ideias (algumas boas) mas só as consegue transformar em websites que ninguém consulta, em T-shirts que ninguém compra e em dívidas que não paga. Apelida-se de empresário mas não trabalha, a culpa do seu fracasso é sempre dos outros e vive de chulice. Parece-me a mim um espelho bem melhor do país, mas isto sou eu que tenho mau feitio. Remata o dito vídeo com o auxílio dado aos finlandeses aqui há umas décadas.
Se eu fosse finlandesa perguntar-me-ia como é que um país tão glorioso chegou a este ponto? E depois, perguntar-me-ia: porquê os finlandeses? Provavelmente, e porque sendo finlandesa seria certamente ignorante e muito menos esclarecida que os iluminados portugueses de brilhos passados, pensaria ainda que em Portugal não existiria um regime democrático, que os portugueses se veriam assim privados de escolher quem os governe. O que justificaria o desgoverno presente. Talvez…
Talvez mais tarde, provavelmente bastante mais tarde, me ocorresse que seria porque o senhor do Banco Central Europeu é finlandês, o que me iria confundir ainda mais. Porque sendo finlandesa, desconhecedora por certo do nepotismo baixinho e da corrupção comezinha da enfermeira-que-é-vizinha-de-um-amigo-meu-e-me-vai-arranjar-uma-consulta-já-para-amanhã, falando uma língua quase impronunciável e falada somente por um punhado de gente, oriunda de um país sem passado glorioso e sem legado histórico global, que pediu ajuda quando precisou e andou para a frente para não tornar a precisar, desconheceria por certo o choradinho; o síndrome do chefinho é que manda e do “ó chefe veja lá que até somos uns gajos porreiros e até vos ajudámos aqui há umas décadas, portanto veja lá agora o que nos faz!”; o apelo à caridadezinha; a mão estendida para uns trocos.
Nem sei o que dizer a não ser que estou coberta de vergonha; tenho pena de não ser finlandesa.
AL

A casa que protagoniza esta foto é uma casa de mulheres no País Dogon, Mali. Chama-se, mais propriamente, casa de menstruação por albergar as mulheres naqueles dias do mês em que são consideradas impuras; interditas, portanto, de confeccionarem comida, de fazerem tarefas domésticas e de se dedicarem à terra. Os homens estão estritamente proibidos de ver, tocar ou cheirar o sangue menstrual e nalgumas aldeias nem falam com mulheres menstruadas – acreditam que estes contactos fazem perigar a sua virilidade. Assim, as mulheres menstruadas juntam-se aqui, onde são tratadas e alimentadas pelas idosas pós-menopáusicas da comunidade, numa semana de merecido repouso.
Quando visitei a aldeia onde fica esta casa, cruzei-me com uma activista canadiana dos direitos da mulher. Horrorizada pela discriminação que tais casas representavam; pela demonização da mulher como fonte de mal; pela exclusão social espoletada por algo tão natural (visceral?) na mulher, dizia a quem passava por perto “C’est pas bien cette maison, hein? C’est pas bien pour les femmes!”… Os que por ali passavam olhavam-na com ar de quem está habituado a diatribes semelhantes e aquiesciam com a cabeça, naquele gesto de bondade que se tem para os loucos inocentes e seguiam o seu caminho num murmúrio quiçá equivalente ao nosso “pois, está bem…” Eu, talvez mais básica, pensei para comigo que bem que me teria sabido em certos meses ter sido excluída assim, para uma casa onde houvesse quem durante uma semana me tratasse a mim e aos meus filhos pequenos.
Caímos as duas, a Canadiana e eu, na mesma falácia – ela, a Canadiana, por ignorar as mercês deste tipo pontual de exclusão expressando juízos de valor de uma igualdade de cariz cultural; eu, por valorizar as mercês deste tipo pontual de exclusão ignorando os limites impostos pelo simples facto de se ser mulher. Não consegui ainda sair da ambivalência para que este tipo de discurso me remete – reconheço-lhe os matizes de imposição de uma certa arrogância cultural, mas incomoda-me o inaceitável que o cultural procura legitimar:
- uma em cada três mulheres é espancada ou forçada a ter relações sexuais, geralmente por alguém que lhe é próximo
- a violência é uma das principais causas de morte ou de deficiência nas mulheres entre os 15 e os 44 anos; a violação e a violência doméstica causam mais mortes neste grupo etário do que cancro, desastres, guerra e malária
- calcula-se que 100 a 140 milhões de mulheres e meninas sofrem actualmente as consequências da mutilação genital feminina e 2 milhões de meninas correm anualmente o risco de sofrerem este tipo de mutilação (6.000 por dia)
- este tipo de mutilação realiza-se geralmente entre a infância e os 15 anos de idade
- em África o número de raparigas mutiladas a partir dos 10 anos de idade situa-se nos 92 milhões
- as maioria das mulheres ainda enfrenta discriminação perante a Lei
- todos os anos são traficadas para os Estados Unidos cerca de 50.000 mulheres e meninas para diversas formas de trabalho e exploração sexual
- anualmente traficam-se a nível mundial 4 milhões de mulheres e meninas para os mesmos fins
- uma em cada cinco mulheres vai ser vitima de violação ou de tentativa de violação ao longo da sua vida
- nos Estados Unidos em cada 90 segundos é violada uma mulher
- cerca de 70% das mulheres vitimas de assassínios foram mortas pelo seu marido/namorado/companheiro
- 82 milhões de meninas actualmente com idades entre os 10 e os 17 anos vão ser forçadas a casarem antes dos 18 anos de idade
- anualmente entram cerca de 1 milhão de crianças, principalmente meninas, na indústria do sexo
- nalguns países africanos 16% dos doentes tratados em hospitais por doenças sexualmente transmitidas têm menos que cinco anos de idade
Por isto, por ter nascido e crescido num ambiente relativamente igualitário, por ter filhas e uma neta, por raramente me ter sentido discriminada por ser mulher, pelas mulheres discriminadas que conheço e porque a irritação causada pelo discurso da advocacia não nos deve cegar, aqui deixo este post.
AL

Deception Pass Bridge
Diz-se que há uma vez para tudo e recentemente estreei-me num lado sórdido da vida, que nunca pensei poder tocar-me. Sou por natureza de trato fácil, rege-me a vida a compaixão, não sou de rancores nem ressentimentos. Dizem-me generosa. Mas sobretudo sou confiante nos outros; desconfiar e estar de pé atrás consome demasiada energia. Sendo pouco sagaz no julgamento de carácteres, já há muito que escolhi confiar e aceitar desilusões ocasionais que viver na constante desconfiança das intenções alheias.
Recentemente, dei muito de mim e apoiei incondicionalmente pessoa que cria amiga e que, sem esse meu apoio, dificilmente teria superado etapas que superou. Fui-me apercebendo com o tempo que algo não batia certo, mas amizade e lealdade fechavam-me os olhos – amigos são amigos e para serem defendidos de ataques alheios. Sob a capa de uma pretensa honestidade fui sendo ludibriada.
Só mais recentemente, e da pior maneira, me apercebi da extensão do logro: uma vida complicada, semeada de imposturas e enganos, arrastando consigo o seu séquito de inimizades. Entre vários episódios pouco edificantes, comecei a receber cartas anónimas denunciando comportamentos questionáveis e condenáveis que essa pessoa amiga teria, inclusive comentários muito pouco abonatórios que teria dito sobre mim.
Estando longe dessa pessoa amiga, que na altura e com o meu apoio tentava refazer uma nova vida longe de Portugal, fiz scans das cartas que encaminhei para o alvo pretendido. Tendo um scanner tecnologicamente pouco avançado não me permite este selecionar resoluções baixas e faz-me ficheiros muito pesados. Conhecedora das dificuldades da internet receptora, abri os ficheiros gerados pelo scan em preview, fiz copy e paste para o word e transformei o word novamente em pdf, tendo assim obtido um ficheiro de tamanho gerível mesmo para uma rede fraca e inconstante. Encaminhei os ditos ficheiros pdf para a pessoa amiga e respectiva companhia, sendo ambas mencionadas nas ditas cartas que continham acusações que a ambas diziam respeito. E rapidamente me desfiz delas. Eram sujas, sórdidas e cobardes; bajulavam-me numa pretensa admiração descabida e talvez com o intuito de realçar a vileza da outra parte. Nem no lixo cá de casa as queria ter. Fiz forward por email e igualmente as apaguei do computador que nem por associação queria assim conspurcado.
Vi-me sem querer enredada numa teia de insultos, escárnio e mal dizer. E agora, sou abertamente acusada pela pessoa amiga em questão de ser eu a autora de tais cartas. Talvez por dificuldades que elas putativamente lhe terão levantado ou poderão vir a levantar e, num padrão que fui adivinhando de sacudir a água do capote, veio a porcaria aterrar em cima de mim, aviltando-me um carácter que tenho por digno.
Assim e aqui publicamente afianço que nunca eu, AL, escrevi uma carta anónima na minha vida; nunca deliberadamente magoei ou vilipendiei alguém; nunca me escondi detrás de duplicidades mesquinhas. Estou indignada por uma acusação imerecida, deslocada e que assim enxovalha e emporcalha o meu carácter e atenta contra a minha honra.
É nesta altura que me lembro das palavras de um homem que amei e me dizia: querida, no caso do homem que comprou a ponte e do homem que vendeu a ponte é melhor sermos o homem que comprou a ponte, porque esse ao menos tem honra. E por ser uma mulher honrada aqui deixo este desabafo. Finalmente comprei uma ponte!

Grande parte das pesquisas que tenho feito assenta em diálogos e entrevistas com gentes diferentes, para recolher a informação que busco. Úteis de uma forma geral, tomam por vezes rumos inesperados. Uma pergunta mal entendida pode dar-nos informações preciosas sobre a entrevistadora (eu, neste caso), sobre a entrevista em si, mas também sobre o assunto em debate e acrescenta frequentemente dimensões inesperadas à informação que se procura. Lembro-me que foi devido a um mal entendido que numa entrevista em grupo as pessoas me explicaram como iam dormir para o mato durante a guerra, pois era geralmente de noite que as tropas faziam incursões nas aldeias. A partir daqui divergiu a entrevista para aspectos sobre percepções de espaço que me proporcionaram uma dimensão inesperada ao objectivo que lá me levara.
Mas às vezes, mesmo sem perguntas, a informação flui e corre num sentido que não tem qualquer interesse, nem pessoal, nem em termos do objecto de estudo e da informação pretendida. E são estes entrevistados os mais difíceis de orientar ou conter.
Vem isto tudo a propósito do Recenseamento e de uma amiga minha entrevistadora que se tem deparado com situações inesperadas. Pergunta sobre o aquecimento da casa e lá vem o arrazoado de queixas contra o senhorio, a falta de dinheiro para reforçar janelas; pergunta-se sobre o agregado familiar e lá vêm as queixas do marido que não participa e do filho que não faz nada; pergunta-se sobre o tamanho da casa e lá vêm as queixas sobre a vizinha do lado ou dos de cima que fizeram obras e agora a casa está a abrir rachas, quer ver? Mas embaraçoso mesmo, diz ela, é quando à pala do censo lhe gastam horas e horas de verborreia a maldizer o vizinho do lado e o marido e as amigas do marido e as tareias que o de cima dá na mulher e as bebedeiras que a do rés-do-chão apanha e… e… e…
E tu?, perguntei-lhe eu, que fazes? Olha, o que querias que fizesse? Tento interromper mas raramente me dão chance, tenho que ir aguentando para ir preenchendo o inquérito e o tempo todo na minha cabeça só grito: há informações que prefiro não saber! (ler isto aos gritos e em maiúsculas)
Agora que parecem abundar as críticas, justas ou não, ao inquérito do census lembro aqui neste texto quase inútil esta minha amiga e todos os outros que, como ela, mais que entrevistadores e facilitadores do processo parecem ser terapeutas. Um efeito secundário e terapêutico do recenseamento e do qual não se tem falado.
AL

Foi hoje postado no meu mural do Facebook um link a um artigo intitulado “Five Positions on the Revolution” (Cinco posturas sobre a revolução) da autoria de Alaa Al-Aswani, um escritor egípcio e fundador do movimento político Kefaya (Movimento Egípcio para a Mudança), sobre a “tipologia” dos grupos que agora co-habitam no cenário pós-Mubarak. Não me vou pronunciar sobre os méritos do artigo excepto no que se refere a uma afirmação específica e cito:
Over the course of three weeks, there was not a single incident of sexual harassment or theft, even as one million people gathered in a single square.
Em português será mais ou menos isto: ao longo das 3 semanas não se registou um único incidente de assédio sexual ou de roubo, mesmo quando se encontrava congregado 1 milhão de pessoas numa única praça.
O que este escritor e fundador de um movimento político “para a mudança” parece ter esquecido foi a violação brutal de uma jornalista americana nesta mesma praça. O que me parece grave. A mim, este afirmação categórica e total omissão desta violação revela-me a indiferença com que este tipo de violência ainda é tratado. Como se espancar e violar uma mulher, seja ela de onde for, fosse um fait-divers; enfim, um incidente de importância menor.
Todos assistimos mais ou menos comovidos à coragem, resistência, espírito de solidariedade e civismo que os manifestantes demonstraram. Só espero que a omissão no artigo deste incidente brutal não seja o prenúncio da ligeireza, indiferença e impunidade da eventual violência que venha a ser exercido sobre as mães, mulheres e filhas do novo Egipto, que se quer democrata e livre.
AL
Nota: fui ao site do artigo esta tarde e deixei um comentário neste sentido. Ficou a “aguardar moderação” e até à hora deste post não tinha ainda sido publicado. Le plus ça change …

Aqui há bastos anos, em amena cavaqueira com um militar de um país em guerra e depois de uma entrevista sincera e cândida sobre guerra, armas e desarmamento, olha-me ele nos olhos e diz-me: Sabe doutora, grande parte dos nossos problemas foram criados por vocês.
O “vocês” neste caso era eu como representante da putativa comunidade internacional de auxílio ao desenvolvimento. Como assim? pergunto eu ainda que bem ciente dos males das “boas intenções” e das hipocrisias das políticas internacionais.
Sabe, continua ele em ar meditativo, vêm vocês para aqui com as vossas Unicefes e as vossas vacinas, baixam-nos a mortalidade infantil, acodem-nos nas calamidades naturais, financiam-nos escolas básicas e iludem os nossos jovens com o futuro melhor que a educação lhes vai dar. Mas depois, não nos ajudam mais. Aos 14, 15 anos eles saem da escola e já não querem trabalhar com os pais, não querem trabalhar a terra; querem um emprego, com gabinete e secretária e nós não temos estrutura para os absorver. Dantes tínhamos as nossas calamidades que nos regulavam a população, vocês agora dão vida a todos e depois largam-nos nas nossas mãos. Temos jovens e jovens e jovens, mal preparados e poucos homens para trabalhar, para pagar impostos, para contribuir para o Estado. Vocês passam o problema para nós e depois ainda se queixam que nós isto e nós aquilo.
Consigo parar a tempo o insulto perante o cinismo e hesito – digo, não digo, digo, não digo. Lanço rapidamente um pensamento ao básico das conversas difíceis (conversa do “eu”; positivo, negativo, negativo, positivo) e digo: Senhor General, vai-me desculpar a franqueza, mas concordo em parte consigo e noutras discordo absolutamente. Discordo absolutamente quando se queixa das vacinas e das calamidades porque EU acho humanamente insustentável que se deixem morrer pessoas, ou ficarem marcadas para a vida, devido a doenças preveníveis ou tratáveis, ou porque não usamos os meios que temos para as salvar. Depois, porque (despersonaliza, penso eu, despersonaliza) foram os últimos trinta anos de guerra que mataram a geração que devia agora estar a produzir e a pagar impostos, foi a guerra que destruiu sistematicamente toda e qualquer estrutura que vos pudesse ajudar a construir um país próspero e finalmente porque o Estado tem outras fontes de rendimento muito superiores aos impostos que possam vir a cobrar. Tendo dito isto, simpatizo com os problemas que enfrentam com a comunidade internacional, mas ela é o que é e embora não seja fácil gerir os seus variados interesses, exigências e caprichos, EU acredito na vossa capacidade para o conseguirem fazer.
Olhou para mim fixamente, desviou os olhos, rodou a cadeira para o lado, contraiu os maxilares, (pensei estou feita!), suspirou, rodou a cadeira de frente para mim, olhou-me novamente, (pensei outra vez estou feita!, tento lembrar-me se alguém saberia onde eu estava) e diz-me: Bem que me tinham avisado! Bem que me disseram que a doutora nos dizia coisas que mais ninguém tinha coragem para nos dizer assim cara a cara. Diga-me, não tem medo?
Eu? Medo? Eu que estava petrificada, o que de certa forma deu jeito, convenhamos, pois mantive-me direita e impávida na cadeira onde me encontrava. (Fase dois da conversa difícil: “eu” e personaliza).
Senhor General, EU penso que sem medo não há coragem. O Senhor General combateu uma guerra, penso que certamente terá também tido medo nalgumas ocasiões. Mas continuou porque acreditou. As minhas armas são a franqueza e as palavras, porque eu acredito que a vida das pessoas pode melhorar e aqui quem a pode melhorar são os senhores. E digo o que digo porque sou vossa amiga e os amigos também servem para nos dizer o que nos custa ouvir. EU só posso falar; são os senhores quem pode agir.
Levantou-se, aproximou-se de mim. Eu, ainda petrificada, encolhi-me interiormente mas mantive a (com)postura, pôs-me uma mão no ombro, estendeu-me a outra e disse-me: tem todo o meu respeito. Tem carta branca para ir onde quiser e qualquer problema que tenha enquanto por aqui andar ligue-me. Está sob a minha protecção.
Apertámos a mão, saí do gabinete. Fui direita à casa de banho e bolsei-me toda, coberta em suores. Livrei-me da bílis da minha cobardia e dos insultos calados. Demorei alguns segundos até me recompor nas pernas e saí do ministério de cabeça caída e coração apertado. Vendi-me?, perguntava-me.
Esta conversa não me tem saído da cabeça nos últimos dias por uma estranha associação com as revoltas a que temos assistido e com as deolindas locais. Remetem-me para as pirâmides demográficas. Onde todos parecem ver motivos políticos e religiosos, eu não consigo deixar de ver também um conflito geracional. A pirâmide demográfica do país do meu General é quase igual à do Egipto, do Bahrain e da Líbia (para só nomear estes três países), que apresentam aquilo a que os ingleses chamam um pronunciado “youth bulge”. Tal como nestes três países, também o regime do país do meu General tem sobrevivido devido à complacência internacional em aceitar o inaceitável sob a capa dos recursos ou das seguranças estratégicas. Tal como nestes três países também os jovens do país do meu General começam a dar um ar da sua graça. Discretamente ainda – um incêndio aqui, uns graffitis ali, um ligeiro aumento de decibéis na voz do descontentamento. Algo me diz que também o país do meu General é uma das peças na fila de dominós que em cadeia se derrubam.
O meu discurso foi bonito, a promessa do General cumpriu-se e nunca tive problemas nesse país. Perante os ditadores hoje caídos vemos agora criticamente espalhados por todo o lado os apertos de mão, os banquetes, as palmadinhas nas costas que os representantes das nossas democracias não se coibiram de distribuir. Recuperam-se discursos e negociatas. E eu continuo a interrogar-me. Vendi-me?, pergunto-me eu ainda hoje. Infelizmente, acho que sim. Sob a capa do meu medo, da minha arrogância em querer motivar acção e das minhas (boas) intenções também eu me vendi. Sou tão cúmplice como os outros; também eu, por inércia, por medo ou por tacitez, contribuí para que se aceitasse o inaceitável e aqui confesso que também eu apertei a mão ao diabo.
AL

Leio esta notícia e fico desinquieta, incomodada. Duas coisas me vêm a mente: uma, a quasi-histeria de há uns meses atrás pela libertação de uma iraniana – Sakineh – condenada à morte por adultério; a outra é Shirin Neshat.
As causas de grandes indignações públicas fazem-me confusão pela desinformação que geralmente as pauta e pela manipulação mediática dessa mesma desinformação. Confunde-se a Palestina com o indefensável Hamas, defende-se o PKK curdo e esquecem-se as suas vítimas, apoiam-se os Pol Pots encapotados da actualidade. Sob o tema Irão temos Khomeini, o herói anti-Xá com poiso assente em França e tão laudeado pela intelligentsia da época. E onde estão eles hoje? O Hamas e o PKK continuam a tiranizar aqueles que dizem representar; Pol Pot revelou-se genocida incomentado; Khomeini morto e enterrado, mas bem vivo no legado que deixou, incluindo um sistema jurídico que condena mulheres à morte por apedrejamento; a intelligentsia provavelmente organizada em associações de apoio a (novas) causas-justas e a assinar petições contra este mesmo sistema jurídico, criado pelo herói de então.
Não sou insensível e certamente que me condoo e revolto com a situação da putativa adúltera (de Sakineh e sabe-se lá de quantas mais), tal como me dói e me revolta a execução de Zarah, seja lá porque razão for. São as duas vítimas de um regime odioso e do nosso comodismo (relativismo?). Com Sakineh embandeirada em causa-justa, lucrámos todos: as ONGs promoveram a sua causa e puderam mostrar trabalho feito; os jornais e televisões mediatizaram a questão ad nauseum; políticos farçolas vieram a público apoiar a causa em troca de simpatias eleitorais e, finalmente, nós todos, com um clicar no botão “share” do Facebook ou com uma assinatura electrónica numa corrente de email aquietamo-nos na ilusão de um mundo melhor. Ela, Sakineh, continua a apodrecer numa qualquer prisão ainda à espera da sentença adiada e não revogada. Da segunda só soubemos da sua morte, vá-se lá saber porquê.
Por uma qualquer razão lembrei-me também de Shirin Neshat, talvez por ser mulher, talvez por ser iraniana, talvez por poder fazer o que faz porque vive fora do país que a viu nascer. Não sei que tortuosos caminhos mentais me levaram a ela, ou despertaram a ambiguidade de sentimentos que ela me desperta, mas isto mais não são que reflexões matinais feitas do alto do meu privilégio perante uma notícia que me entristeceu.
AL
Fui hoje de manhã acordada por uma chamada de um senhor (muito simpático) do meu banco a informar-me que a minha conta “apresenta um saldo devedor de” …. entrem aqui os tambores a rufar … de … e agora pasmem! … 5,20 euros! Sim, leram bem: cinco euros e vinte cêntimos. Ainda meia a dormir nem reacção adequada tive e só depois de desligar é que me interroguei de onde viria a dívida.
Tenho uma conta normal com um simples cartão multibanco, não requeri credito pessoal e não tenho cartão de crédito. Isto é, só posso movimentar dinheiro que esteja efectivamente na conta. Fui consultar o site e verifico então que os 5,20 euros se referem a “taxas e comissões”, isto é, a despesas de manutenção da conta e que revertem a favor do banco. Foi o banco portanto que me debitou a conta e que está a cobrar-me juros sobre o saldo devedor de 5,20 euros, que eu nem autorizei.
Lamento estar a dever tão pouco. Porque penso que estivesse eu a dever, sei lá, um milhão por exemplo, certamente não me acordariam com um telefonema. Talvez me convidassem para almoçar para durante o almoço rever taxas de juro e possíveis faseamentos da dívida. Ou, se devesse ainda mais, talvez nem me incomodassem tout court e convencessem uma outra instituição bancária a comprar-me, quem sabe?, umas putativas acções sobrevalorizadas, cujo preço de venda cobrisse a dívida e talvez ainda sobrasse algum para mim. E no meio disto, talvez uma clausulasinha que me permitisse readquirir as ditas acções daqui a uns anitos, não ao preço sobrevalorizado desta venda, nada disso!, mas sim ao preço de mercado que na altura tiverem e que, mesmo assim, se prevê que seja menor que o valor pela qual foram vendidas agora.
Alguém me sabe explicar como é que se contraem dívidas enormes junto da banca? É que dava-me cá um jeitão …
PS: qualquer associação do que acima se escreve com pessoas ou factos reais não passa de pura coincidência
AL
(por AL mistificada)
Não sigo de perto a política portuguesa e tendo vivido muito tempo fora do país, cogitava hoje: esta greve é de quem, para quê e contra quem? Depois li isto e fiquei esclarecida. E aliviada por haver outros a pensarem como eu – nem tudo estará perdido… Se a alternativa ao desgoverno que nos preside for esta esquerda enquistada que se entreteve nas últimas décadas a destruir a estrutura produtiva do país só me ocorre dizer: mais vale o poço da morte que tal sorte!
Pior ainda, o discurso persiste e reproduz-se com matizes científicos e académicos: “… considera que este discurso das centrais sindicais é “ainda mais apropriado pelo facto de o instinto de sobrevivência e o individualismo criarem junto dos jovens alguma resistência às formas de luta colectiva”. Cabe ao sindicalismo encontrar “formas de os sensibilizar e mobilizar”. Pois!
Já agora, a greve é um direito não é? Ou sou eu que não percebo nada disto e afinal é um dever para ser cumprido, nem que seja à força?
Hoje a biblioteca onde costumo estudar, fechou; podemos portanto dizer que fui obrigada a fazer greve. Dos três milhões que por aí se anunciam, quantos estarão na minha situação?
(por AL pluviosa)
Do amor pelas rotundas (ou quando não as há inventam-se)

Overdose
Da dignificação do património histórico (ou desculpe, como foi que disse?)

Anúncio bem intencionado (e colocado)
Do outro lado da dignificação (ou de boas intenções está o país cheio)



(por AL de mau humor; sim, também sofro disto!)

Foto em http://www.cgc.maricopa.edu/student-affairs/multiculturalism/Pages/default.aspx
Chegou-me hoje ao conhecimento através do Facebook um blog que fui espreitar. Depois de ler o post que lá me levou já não me apeteceu ler mais e perdi-me em reflexões sobre esta coisa do multiculturalismo. Pensei: a minha cultura, não faz ela parte do multiculturalismo? Não merece ela igual defesa que a cultura dos outros? Faz parte da minha cultura ser tolerante e solidária, mas quer isso dizer que tenho também que dar tiros nos pés? Se respeito a cultura dos outros, estarei errada quando reclamo igual respeito para a minha? Apreciar esse respeito, e exigi-lo até, faz de mim uma fascista xenófoba e racista (perdoem o pleonasmo)?
Não me interpretem mal: eu sou a favor da emigração e da mistura de povos e culturas (mesmo das diferentes “culturas” que habitam dentro da minha); gosto de ouvir os diferentes sotaques de português; gosto de provar novas comidas, conhecer músicas diferentes, saber de outras tradições e costumes. É todo um mundo de possibilidades e vivências que se abre perante mim. Enriquecem-me estes contactos. Mas o respeito para mim é uma via de dois sentidos ou então deixa de ser respeito e passa a ser uma arrogância transvestida de respeito, a qual eu não esposo; o respeito para mim pressupõe igualdade e não desequilíbrio de patamares. Bater na tecla da euro-culpa/euro-justificação (ou da americano-culpa/americano-justificação) perante os males do mundo parece-me falacioso e assentar no síndrome paternalista do bon seigneur. O que se me afigura exactamente como a negação do multiculturalismo.
Não seria mais produtivo cultivar a tolerância e a solidariedade dentro da minha própria cultura, em vez de me arvorar em arauto defensor da cultura dos outros? Como posso pretender defender o multiculturalismo e escrever “É que eu dos Alemães espero tudo“*? Um amor que já foi meu dir-me-ia é o Zeitgeist querida. Ao que eu responderia: nanja eu!
* comentário escrito pelo dono do blog, em resposta a outros comentários