Terça-feira, Fevereiro 16, 2010

Figuras de estilo - Olavo Bilac

O vulgo não perdoa nem suporta facilmente superioridades intelectuais ou morais. Quando um homem se realça sobre o comum dos mais, logo nasce contra ele, entre os aplausos, um sentimento hostil, que, se não é de inveja, é ao menos de instintivo despeito e e vaga irritação.


Bocage (conferência, 1917)

O Vale do Riff - Mark Lanegan, «Wedding Dress»

Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

Nunca fiz mais do que fumar a vida.
Álvaro de Campos

O Vale do Riff - Wizzard, «Rock'n'Roll Winter (Loony's Tune)»

Domingo, Fevereiro 14, 2010

dos livros da minha vida

O que Diz Molero, de Dinis Machado (1977)
«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que o transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, asa tenra batendo à chuva.»
[Da 7.ª edição, na Livraria Bertrand, Venda Nova, 1978. Recriação poética dum passado que me era familiar já então: a memória duma certa Lisboa popular e boémia; as referências do cinema e dos comics americanos, veiculadas pelo meu pai, também ele alfacinha e, nascido em 1931, pertencente à mesma geração de Dinis Machado, que era de 30. Deu-mo a minha mãe, em Junho de 1983.]

A Selva, de Ferreira de Castro (1930)
Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H.J. que teciam as fábricas inglesas, o senhor Balbino, com um chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na «Flor da Amazónia» mais rabioso do que nunca.
[Da 32.ª edição, na Guimarães & C.ª, Lisboa, 1980. Um dos maiores romances da literaturan portuguesa. Li-o por esta data, nos meus 16/17 anos, oferecido pelo meu pai. Desde então, reli-o várias vezes, por prazer e por obrigação, sempre com renovado prazer, tal é o poder encantatório da escrita de Castro e a realidade que ela nos dá, mais intensa que qualquer ficção.]
Seara de Vento, de Manuel da Fonseca (1958)
Rumurosa, às sacudidelas, bruscas, a ventania corre livremente. Em tropel desabalado corre contra a empena, trespassa a telha-vã. Gemendo, arrasta-se pelo interior escuro do casebre. E demora, insiste, num ganido assobiado.
[Da 2.ª edição, na Portugália Editora, Lisboa, 1962. O Manuel da Fonseca é o meu escritor preferido da chamada geração neo-realista. Este romance é prosa de que emana uma épica que é uma estética, e também uma ética. Surripiei o livro ao meu pai, e fui certo dia no encalço do autor, para mo autografar.]

caderninho

A satisfação protege do resfriamento. Alguma vez se constipou que se soubesse bem vestida? -- Nem ainda no caso de dificilmente estar vestida. Nietzsche
Crepúsculo dos Ídolos (tradução de Artur Morão)

Sexta-feira, Fevereiro 12, 2010

O Vale do Riff - Too Hot, «Lovely Day»

Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

obrigado

Há na História momentos formidáveis, que irrompem na quase imutável longa duração sobre a qual ela se desenrola. Em 45 anos de vida, testemunhei a caminhada humana na Lua, o 25 de Abril e o fim do último império colonial do Ocidente, a ascensão do nunca assaz louvado Gorbachev e a derrocada do Muro de Berlim, o fim do apartheid na África do Sul e a emergência de Nelson Mandela, a eleição do retirante Lula à presidência do Brasil e do académico Obama, um mestiço, à dos Estados Unidos. É claro que nada disto se deve a milagres nem apenas à pura individualidade de excepção que representa(ra)m Gorbachev, Mandela, Lula e Obama, mas, em grande parte, às conjunturas específicas em que cada um operou.
Mandela aí está, do altos dos seus 91 anos, como uma grandeza que só terá tido paralelo, no nosso tempo (?) em Gandhi.
Para um pessimista como eu, é consolador poder não desesperar completamente da natureza humana.

Mandela

liberdade de expressão

Todo o Poder tenta condicionar a liberdade de expressão.
A liberdade de expressão, no pós-25 de Abril, foi condicionadíssima: durante o prec, nos governos de Mário Soares, nos governos de Cavaco Silva.
Creio que foi António Guterres o primeiro-ministro que melhor cuidou da liberdade de expressão.
São ou sentem-se condicionados na liberdade de expressão aqueles que têm agendas próprias. E os que têm telhados de vidro.
Em Portugal, hoje, a liberdade de expressão não é condicionável.
A liberdade de expressão é demasiado importante para servir de pretexto a táctica de politicalha.
Todos devemos estar vigilantes em defesa da liberdade de expressão.

imaginem

Se Rangel já era insuportável à frente da bancada do PSD; se Rangel conseguiu ser impossível num punhado de semanas do Parlamento Europeu -- imaginem Rangel presidente do PSD, líder da oposição, imaginem-no primeiro-ministro!

O Vale do Riff - Nancy Sinatra, «These Boots Are Made For Walking»

Antologia Improvável #419 - Alberto de Lacerda (7)

MANDIMBA METÓNIA VILA CABRAL

Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água

Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia

Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos

Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia

Vila Cabral, 22-2-63


Exílio / No Reino de Caniban III
(edição de Manuel Ferreira)
imagem

Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

O Vale do Riff - Gentle Giant, «The Runaway» / «Experience»

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Figuras de estilo - Carlos Malheiro Dias

O regime marcial a que os conquistadores sujeitaram Lisboa, acordando-a todas as madrugadas a tiro de canhão e o rufo de tambor, despertara-a da sua modorra de beata, acabara por transfigurar em praça de guerra a cidade dos lausperenes e viáticos, das procissões e das novenas. Ainda tangiam quase permanentemente os sinos da Sé, igrejas e conventos. Mas ao bimbalhar dos sinos associavam-se, como, como vozes duma sinfonia guerreira, o rufar frenético das caixas, a gritaria exasperada dos clarins, pondo remoques militares nas velhas árias religiosas dos carrilhões.


Paixão de Maria do Céu

O Vale do Riff - Art Farmer, «Sometime Ago»

Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

oh!, os quadradinhos

Não bebias cervejas, nunca tinhas lido Breccia. (Manuel de Freitas)

O Vale do Riff - Aretha Franklin, «(I Can't Get No) Satisfaction»

Domingo, Fevereiro 07, 2010

dos livros da minha vida

A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis (1868).
Ao cair de uma tarde de Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a costa de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
[na Livraria Civilização, Porto, 1987. Júlio Dinis, estupidamente menosprezado, é um autor central do romance português do século XIX. Comprei-o em Junho de 1989.]


Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz (1983).
A PRIMEIRA OPERAÇÃO
Dou caça aos inimigos e os extermino
E não volto sem que os tenha aniquilado
De tal forma os aniquilo e despedaço que não mais se levantam
..................................................................................................................
Gritam por socorro mas não há quem os salve
Eu os trituro como ao pó da terra.
BÍBLIA, CÂNTICO DE DAVID
1. Um comando não tem fome nem tem sede...
Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retagurada da companhia de comandos:
-- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança.
[na Livraria Bertrand, Amadora, 1983. Nunca a guerra me tinha surgido tão de perto. Um livro admirável, um livro para a História. Deu-mo a minha mãe, em Junho de 1983.]

Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983)
Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros. É a História que se diz? Abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.
[da 11.ª edição, na Bertrand Editora, Venda Nova, 1998. O culminar dum percurso literário de décadas. Nos dois sentidos: é um dos seus últimos livros; mas, principalmente, é uma narrativa brilhante, de quem já muito havia escrito e que atinge a sua própria perfeição. Comprei-o em Setembro de 2001.]

Sábado, Fevereiro 06, 2010

caderninho

Um bom autor nota muitas vezes que a expressão que há tanto tempo procurava sem a encontrar e que por fim achou, era afinal a mais simples, a mais natural, e que primeiro devia-lhe ter ocorrido sem esforço. La Bruyère
Os Caracteres (tradução de João de Barros)

O Vale do Riff - Cool Wise Men, «Lion Dance»

Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

Antologia Improvável #418 - Bernardo de Passos (4)

Vi um mendigo a chorar
à porta de um desgraçado.
Ambos se viram e julgaram
Um ao outro afortunado...


Obra Poética
(edição de Joaquim Magalhães)

O Vale do Riff - Roy Eldridge, «Perdido»

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

figuras de estilo - Abel Botelho

O patriotismo é uma das muitas e habilidosas formas de opressão que, para impunemente nos esmagarem, têm inventado os ricos e poderosos. Durante séculos, vocês sabem, o seu meio de dominação foi outro: foi a a religião. Quanto tempo as classes privilegiadas não exploraram e cavalgaram a seu bel-prazer o povo, ameaçando-o, fanatizado e embrutecido, com o temor dum Deus de açougue, vingativo, cruel... com os tétricos horrores das penas do inferno! E, depois, quando essa formidável criação de hipocrisia e de embuste caiu, quando o espectro religioso se esvaiu na sombra e o poder de Roma se afundou no ridículo, substituíram-no então pela ideia de pátria.


Amanhã
(retrato por Columbano)

O Vale do Riff - Albert Collins, «Lights Are On But Nobody's Home»

Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

quem sabe se a vida é feia / por não haver quem a ame!
Augusto Ricardo

O Vale do Riff - Genesis, «Firth Of Fifth»


Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

caderninho

ABSURDO, n. Uma afirmação ou convicção manifestamente contrária à nossa opinião. Ambrose Bierce
Dicionário do Diabo (tradução de Rui Lopes)

O Vale do Riff - Peter Bruntnell, «False Start»

Domingo, Janeiro 31, 2010

dos livros da minha vida

Levantado do Chão, de José Saramago (1980)

O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e, apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.

[Da 4.ª edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1983. Foi o meu primeiro contacto com os romance de Saramago, continuado por alguns anos, depois interrompido e agora retomado, espero. Deu-mo o meu pai, em Novembro de 1983.]

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944)
A SERPENTE CEGA
-- Mas não voltas mais cedo...
João garcia garantiu que sim, que voltava.
Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Era fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou:
-- Quem sabe?...
-- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Senão fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas e mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.
[da colecção "Unibolso", dos Editores Associados, Lisboa, s. d. O melhor romance português desde que existe romance português? Arriscaria... A Margarida Clark Dulmo é a minha heroína de ficção preferida. Comprei-o em Março de 1990]
Memórias da Grande Guerra, de Jaime Cortesão (1919)
O GÉNIO DO POVO
Março de 1916
Mazina, Kuangar, Naulila... Nomes que soam como bofetadas.
depois hesita-se, dispute-se, combate-se. Já a face arrefece. Alguns querem mesmo oferecer a outra. mais um passo: requisitam-se os navios... E a hora grande bateu: estala a declaração da Alemanha.
Na Câmara a sala, de pé, desde as carteiras até às galerias, ao formigueiro humano, delira e aclama com uma só boca: Viva a República! Viva a guerra!
[das «Obras Completas de Jaime Cortesão», Lisboa, Livros Horizonte, 1969. Um livro espantoso. Cortesão, que viria a ser uma das grandes figuras da História de Portugal, ofereceu-se, enquanto médico, como voluntário para as trincheiras da Flandres. Dessa experiência surgiu este relato impressionante. Comprei-o em Novembro de 1989]

cartoon

Chuck Jones, «The Abominable Snow Rabbit» (1961)

Lobinho

A C., do Marcas d'Água, certificou-me com o Prémio Lobinho -- que traz consigo um questionário inacreditável de extenso. Deveria indicar cinco blogues, mas indicarei todos os da barra lateral. Obrigado C.

a) Tens medo de quê? De quase tudo
b) Tens algum "guilty pleasure"? Avonde.
c) Farias alguma "loucura" por amor/amizade? Já fiz.
d) Qual o teu maior sonho? Acordar bem disposto.
e) Nos momentos de tristeza, abatimento, isolas-te ou preferes colo? Prefiro sentar-me ao colo de mim próprio.
f) Entre uma pessoa extrovertida e outra introvertida, qual seria a escolha abstracta? A que tivesse sentido de humor.
g) Sentes que te sentes bem na vida, ou há insatisfações para além do desejável? Sinto-me burguesmente bem.
h) Consideras-te mais crítico ou mais ponderado? (mesmo sabendo que há críticas ponderadas). Felizmente crítico; o que, é verdade, não exclui ponderação.
i) Julgas-te impulsivo, de fazer filmes, paciente ou... (define o que te julgas no geral). Impaciente e impulsivo, qualidades morigeradas pela idade. Filmes só no cinema.
j) Consegues desejar mal a alguém e eventualmente concretizar? (Responder com sinceridade). Claro que consigo! No momento do agravo, é claro. Mas sou rápido a secundarizar, felizmente.
k) Conténs-te publicamente em manifestações de afecto (abraçar, beijar, rir alto...). Never.
l)Qual o lado mais acentuado? Orgulho ou teimosia? Orgulho-me de não me achar teimoso.
m) Casamentos homossexuais e/ou direito à adopção? A adopção é um tema importantíssimo; o chamado casamento homossexual é uma patetice sobre a qual nem me dou ao trabalho de pensar dois minutos.
n) O que te faz continuar com o blogue? Divirto-me imenso.
o) O número de visitas ou de comentários influencia o teu blogue? Eu acho que não devia, mas é possível...
p) Na tua blogosfera pessoal e ideal, como seria ela? Tal e qual como a descobri: o fascínio das vozes novas.
q) Devia haver encontros de bloguistas? Caso sim em que moldes e caso não porquê? Talvez por afinidades temáticas e vizinhanças...
r) Sabes brincar contigo mesmo e rir com quem brinca contigo? (Não vale responder com ironias).Espero que sim.
s) Já agora, qual ou quais os teus principais defeitos? Todos.
t) E em que aspectos te elogiam e/ou achas ter potencialidades e mesmo orgulho nisso? Todos.
u) Entre uma televisão, um computador e um telemóvel, o que escolherias? Nunca usei telemóvel, nem sei mexer nisso. A televisão, desde que passou a ter mais de dois canais, nunca mais foi a mesma. Olha, escolhia o computador!...
v) Elogias ou guardas para ti? Elogiar o mérito é uma das minhas maiores satisfações. Até me acho pródigo nisso.
w) Tens a humildade suficiente para pedir desculpa sem ser indirectamente? Sou pouco humilde.
x) Consideras-te, grosso modo, uma pessoa sensível ou pragmática? Nada pragmática.
y) Perdoas com facilidade? Tento. É uma questão de bem-estar.
z) Qual o teu maior pesadelo ou o que mais te preocupa? Sair de casa e deixar a chave lá dentro.

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

bliar

Blair, palhaço triste, continuou hoje a aldrabar diante da comissão que averigua as condições em que o Reino Unido se deixou envolver no Iraque.
Milhares de inocentes perderam a vida por causa deste vígaro ignóbil, de braço dado com o asnático Bush, roberto duns miseráveis delinquentes que nem me apetece nomear.
Na cimeira da vergonha dos Açores, em que Barroso serviu de porteiro, compareceu ainda o cretino Aznar, para quem não tenho palavras.

O Vale do Riff - Lou Rawls, «Lady Love»

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

capismo

capa de João da Câmara Leme para O Barão, de Branquinho da Fonseca
4.ª edição, Portugália editora, colecção «O Livro de Bolso» #38, 1962
Se uma flor requer orvalho / a mulher, que dirá ela.
Homero Homem

O Vale do Riff - Ray Charles & Travis Tritt, «I'm Movin' On»

Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

História e ponto de vista

Ainda no JL (uf!), Luís Bigotte Chorão, autor de A Crise da República e a Ditadura Militar (Sextante), a Rita Silva Freire: «A historiografia não serve para agradar às direitas ou às esquerdas. Nem para as provocar. Serve para reconstituir a verdade histórica, que não deve servir quaisquer outros objectivos. (...) É necessário ter uma perspectiva, que deverá servir apenas à verdade e ao rigor. Porque a História é uma ciência.»
Como não concordar com quase tudo? Embora eu discorde da História como ciência: há sempre o ponto de vista autoral, e portanto subjectivo. A História é uma narrativa, não é um relatório; e como narrativa que é, há sempre um sujeito que a redige; alguém que por muito sério e rigoroso, não consegue eximir-se à sua subjectividade. A subjectividade que o leva a interessar-se pelos concelhos medievais e não pelo absolutismo ou a revolução liberal em vez da inquisição: há sempre um fascínio ou uma repulsa que impelem o nosso interesse ou, mais importante, o nosso desinteresse.

Europa, segundo VMG

"Europa ou é investigação científica e criação cultural ou não é Europa", escreve Vitorino Magalhães Godinho em Os Problemas de Portugal -- Mudar de Rumo (Colibri), citado por Guilherme d'Oliveira Martins na recensão ao livro, ainda no JL.
E, portanto, Europa é liberdade e pensamento livre, ou não é Europa.

4 kg

António-Pedro Vasconcelos, a propósito de «A Bela e o Paparazzo», também no JL e em entrevista a Maria João Martins, diz-se surpreso pela dimensão do fenómeno das revistas alegadamente cor-de-rosa: «Percebi que as vidas das pessoas são muito tristes e desinteressantes, a ponto de as levar a projectar nos outros uma vida excitante que não têm.»
Ontem, passando por duas mulheres: «Diz que a Alexandre Lencastre emagreceu quatro quilos...»

escrever

valter hugo mãe em entrevista a Maria Leonor Nunes: «Um livro escreve-se sempre a partir de rupturas ou para chegar a elas. [...] Não tenho paciência para livros que não rompam com nada, que não digam mais do que o rame-rame quotidiano.»
Se se escreve porque sim, e é assim que deve ser, só tem sentido publicar se for para acrescentar, com rupturas ou sem.

JornaL

Luís de Sousa Rebelo. Eugénio Lisboa e Júlio Moreira evocam Luís de Sousa Rebelo (Lisboa, 1922 -- S. João do Estoril, 2010) no JL de hoje. Dele tenho ideia da solidez e da discreção dum autor de escol, mais dado ao trabalho académico que à diuturnidade crítica, que falava com propriedade de Fernão Lopes como de José Saramago, que quando vinha a(o grande) público, os seus textos eram lidos com a atenção que se dá aos mestres. Dele tenho apenas A Concepção do Poder em Fernão Lopes (Livros Horizonte), de leitura sempre desgraçadamente adiada. Não o sabia militante do PCP, desde 1948.

O Vale do Riff - Dr.Feelgood, «Lucky Seven»

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Antologia Improvável #417 - Amélia Veiga

VENTO DE LIBERDADE


Das entranhas da terra
irrompe um vento alucinado
que varre... varre... varre
as folhas secas do mundo...


Vento que geme e uiva fundo
e fere como punhais
o coração dos mortais...

Vento horrível e cruel
que espezinha e enrodilha
e dá guerra sem quartel...


E ora rasteja em gemidos,
ora se eleva em furores
e uiva como um trovão,
mas em todos os sentidos
é VENTO DE LIBERDADE
que o pobre mundo assombrado
pretende reter na mão...

Poemas / No Reino de Caliban II
(edição de Manuel Ferreira)

O Vale do Riff - Cliff Richard & The Shadows, «Move It»

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

caracteres móveis - Nietzsche

O amor é o estado em que o homem mais vê as coisas como elas não são.


O Anticristo
(tradução de Tavares Fernandes)

O Vale do Riff - Holly Golightly, «On The Fire»

Domingo, Janeiro 24, 2010

dos livros da minha vida

O Egipto (1869/1926), de Eça de Queirós
Cádis
Domingo.
Ontem dobrámos o cabo de S. Vicente sob um luar digno dos dramas de Shakespeare. O mar infindável, sereno, sem trevas, mas belamente escuro, tremia sob o grande raio luminoso da lua, como os antigos animais sob a carícia dos profetas.
[Das «Obras de Eça de Queiroz», publicadas pela Livros do Brasil, Lisboa, s.d. Na companhia do conde de Resende, o chevalier de Queiroz parte para Oriente a assistir à inauguração da grande obra de engenharia de Lesseps, o canal do Suez. Estas «notas de viagem» só foram editadas postumamente pelo primogénito do escritor, José Maria. Uma jóia da bibliografia queirosiana, da literatura de viagens, das nossas letras em geral. (Deu-mo o meu pai, em Março de 1988.)]

Fanga, de Alves Redol (1943)
Antes da cheia grande
Naquela altura o meu pai fazia fanga e eu tinha começado a ajudá-lo no trabalho, embora pouco ou nada fizesse de proveito. Mas sempre me ia habituando, porque no campo, mal a gente deita fora as fraldas -- isto é um modo de dizer, pois julgo que nunca as usei, a supor pelo que vejo nos cachopitos --, começa logo na lida, até depois de os braços e as pernas não darem jeito a mexer-se.
[Da 4.ª edição, na velha e boa colecção "Os Livros das Três Abelhas», Publicações Europa-América, Lisboa, 1958. O meu primeiro contacto com a prosa límpida e viril de Redol. Muito melhor que o célebre Gaibéus (1939); não me surpreendeu nada que nas «Cinco notas sobre forme e conteúdo», António Vale (aliás, Álvaro Cunhal), tivesse destacado a Fanga, os Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, como três dos melhores exemplos da literatura progressista (a expressão é minha) da época. Comprei-o em Dezembro de 1983].
A Farsa, de Raul Brandão (1903)
-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!
Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta, névoa e granito formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...
-- Ai que ma levam!
[Das «Obras Completas de Raul Brandão», no Círculo de Leitores, Lisboa, 1990. Comecei pelo teatro de Brandão: O Gebo e a Sombra, O Avejão, O Doido e a Morte; os "romances" de Brandão são únicos, e única é a sua voz. (Compreio-o em Agosto de 1998]

acordes nocturnos

obrigado, vizinha :|

Mais uma atenção da Ana Vidal para comigo e este blogue em particular. Por diversas vezes na Porta do Vento e agora no Delito de Opinião, em que o Abencerragem é blogue da semana...
Muito obrigado, vizinha. Já disse uma vez que o primeiro leitor do Abencerragem sou eu próprio (o que me entretenho a arrumá-lo!...); mas ele é feito também para si e todos os que gostam das músicas, das letras e das imagens que por aqui vou pondo. Eu gosto de preencher os dias assim, com sons & tons. E, depois, transportá-los para aqui, para mim, para si e para quem os quiser apanhar...
Um grande abraço.

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

acordes nocturnos

caderninho

Para o agnóstico, a morte é uma realidade inadjectivável. / Para outros, será deslumbramento, humildade, redenção porque de uma forma ou outra é continuação e não ruptura. / Que seria das religiões se a morte as não socorresse? Marcello Duarte Mathias
O Destino Velado

O Vale do Riff - Emerson, Lake & Palmer, «Time And A Place»

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

JornaL

Paulo Henriques. O que levou a ministra da Cultura a afastar um excelente director do Museu Nacional de Arte Antiga? Acho perfeito que haja uma gestão profissional e moderna dos museus, desde que subordinada a uma direcção criteriosa. Não digo que não possa ser o caso da solução encontrada, mas faz-me espécie que se deite borda fora a competência e a seriedade.
Nódoa. A esquerda que aceita que um pai ou uma mãe possam ser obrigados a trabalhar até 60 horas por semana, é uma esquerda rendida. Ou vendida. A direita católica e familial do CDS, esfrega as mãos e dá-as ao PS; o duplamente hipócrita PSD abstem-se.
Manuel Alegre. A conta-gotas vão surgindo os apoios de elementos do PS. Espero que passada a barganha do Orçamento, surja o entusiasmo que se impõe. António Costa, na Quadratura do Círculo, gagueja tristemente.
Geert Wilders. O seu documentário, Fitna, repugna pela unilateralidade e o apelo ao medo; mas, mais repugnantes são o próprio fanatismo religioso que o filme denuncia e o que me parece ser a cobardia das autoridades holandesas, que reincidem neste particular -- como se passou com Ayaan Hirsi Ali, episódio a que me referi aqui.

O Vale do Riff - JFK & The Conspirators, «Wa Da Da»

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

Antologia Improvável #416 - Nunes Claro

Quando olho agora para tudo quanto
Busquei, na vida mísera e vulgar,
Vejo um deserto morto, a cada canto,
Em cada esquina, um sonho a agonizar!

De tudo, em breve, se desfez o encanto,
Entre ruínas, junto ao pó do ar;
-- Ó Terra, para que m'enganas tanto,
E me deixaste, ó Sol, assim falhar?

Parti do lar, já vinha imenso o dia,
Pensando que o Amor me pertencia,
E, à tarde, o grande Sol seria meu;

Pouco fiz afinal, pobre e sozinho,
-- Fins uns versos, que ficam no caminho,
Dei um beijo qualquer, que se perdeu!


A Cinza das Horas
(retrato por Eduardo Malta)

O Vale do Riff - James Brown, «Superbad»

Terça-feira, Janeiro 19, 2010

figuras de estilo - José Régio

Creio ser antes o que se chama doença e não o que se chama saúde, que está em certa base das criações artísticas mais autênticas.


Confissão dum Homem Religioso
imagem

O Vale do Riff - Tom Jones, «It's Not Unusual»

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

caderninho

O que há de inebriante no mau gosto é o prazer aristocrático de desagradar. Baudelaire
Fogachos (tradução de João Costa)

O Vale do Riff - Joe Williams, «Here's to Life»

Domingo, Janeiro 17, 2010

dos livros da minha vida

O Barão, de Branquinho da Fonseca (1942)
Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho obrigação de correr constantemente todo o país. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar.
[da 4.ª edição, na colecção "O Livro de Bolso", da Portugália Editora, Lisboa, 1962, com um posfácio de José Régio. O início prosaico vai contrastar com a estranha atmosfera que Branquinho logou criar; um ambiente de certo modo fantástico que tem contribuído para que esta obra-prima surja, por vezes, incluída em colectâneas do género. Comprei-o em Julho de 1990.]
Bichos, de Miguel Torga (194o)
Nero
Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso... Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um lebrão descarado se fora aninhar debaixo das arcadas das costelas, de caçoada! Ah, sim, entre dois males... Já que não havia melhor, ficar ao menos ali.
[Da 19.ª edição, do Autor, Coimbra, 1995. Lera-o há muitos anos, e pertencia à minha irmã; só recentemente, 2002, comprei o meu. Do melhor Torga está aqui.]
Davam Grandes Passeios aos Domingos, de José Régio (1941)
O comboio parara finalmente na estação de Portalegre. De novo o cavalheiro amável se dirigiu a Rosa Maria:
-- Chegou. Faça favor de descer que eu passo-lhe as suas coisas.
-- Muito obrigada! -- disse Rosa Maria descendo.
O cavalheiro amável estendeu-lhe a caixa do chapéu, o embrulho do presente da velha Leocádia para a menina Lá-Lá, e a pequena mala de couro em que Rosa Maria trazia o indispensável para o primeiro dia. A mala grande vinha despachada.
-- Muito obrigada! -- repetiu Rosa Maria -- tenha boa viagem. Boa noite!
[Da colecção "Brevíssima Portuguesa", co-edição das editoras Bertrand, Civilização e Contexto, s.d. A primeira vez que o li, estava integrado no volume Histórias de Mulheres,; este exemplar comprei-o em Setembro de 1995. Talvez não seja o meu principal Régio (figura admirável e escritor completo), mas foi o primeiro]

homenagens a Nicot

Max, o Explorador