Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

ASAE britânica

Não percebo por que é que se usam luvas nos restaurantes se, depois, as mãos que nos servem a comida são as mesmas (ainda com as luvas) que não dão o troco.

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

É oficioso: o Outono chegou II

E por falar em mandar no mundo, e em frio também, aqui fica um excerto de uma crónica do escritor e jornalista (Manuel) Jorge Marmelo:

"Se eu mandasse, a Terra seria, por isso, um sítio agradavelmente cálido, quase de uma ponta à outra, devidamente reservado ao convívio civilizado entre pessoas bem formadas, que apreciem dançar kizombas e ritmos latinos, que gostem de dormir nuas, de frequentar esplanadas e de bebericar bebidas frescas. Reservaria, ainda assim, os pólos, onde poderia continuar a estar frio e a haver muito gelo (é fundamental, aliás, que haja gelo em quantidades abundantes no mundo em que eu mande, pois é necessário manter as bebidas frescas). Para os pólos seriam enviadas, para seu próprio bem, as pessoas de mau carácter e que apreciam a chuva e os dias enevoados, as quais aí arrefeceriam os ânimos e conviveriam amenamente com os pinguins ou com as focas, conforme o hemisfério onde preferissem viver.
Sim. Eu tenho um sonho."

É oficioso: o Outono chegou

1. Eu bem tenho tentado convencer-me de que o Verão ainda não tinha acabado - afinal de contas, as temperaturas não haviam baixado até a semana passada. Estávamos a viver uma espécie de bênção. E com um pouco de credulidade, misturada às partidas improváveis que nos prega esta entidade a que chamamos de "alterações climáticas", até poderíamos seguir acreditando que nunca mais voltaria a ser Outono em Londres.
Mas hoje a ficha caiu. O Verão acabou. Acabou mesmo. Não digo oficialmente, mas sim na prática.

2. Está frio e está a chover (apesar de a carrinha de gelados estar estacionada à porta da universidade, como notou hoje a Z., e reparem que nós levamos isto da carrinha de gelados muito a sério, a carrinha de gelados é um dos indicadores mais honestos da mudança das estações em South Kensington). E a verdade é que eu própria já trago vestido o blusão de chuva, e calçadas as minhas botas castanhas. Quer isto dizer que também eu sou cúmplice da chegada do Outono desde o momento em que retirei estas duas peças do guarda-fatos.

3. Se eu mandasse no mundo, as coisas seriam bem diferentes.

Domingo, 4 de Outubro de 2009

Rio de Janeiro 2016

O Brasil merece.
A América do Sul merece.

Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Paula Salgado à procura do modelo estrutural de uma proteína [UK a pensar em português]

[Quem é] Paula Salgado

[Onde nasceu] Covilhã, mas sou portuense de coração (ah, e um bocadinho coimbrã também!)

[Quando veio para o Reino Unido] Outubro de 2001

[O que faz agora] Sou investigadora Pós-doc no Imperial College London

[Onde estudou] Universidade do Porto (Bioquímica) e Oxford (PhD)

[Razão pela qual resolveu mudar]

Vim para Oxford fazer o meu doutoramento com um dos mais conceituados cientistas em Biologia Estrutural – queria aprender com os melhores! Além disso, em Portugal as perspectivas de progressão eram limitadas...

[Algo importante que tenha aprendido na ilha]

A nível profissional, além do conhecimento científico que adquiri, aprendi a valorizar o meu trabalho e as minhas capacidades. Aprendi que tratar as pessoas pelo seu título académico é desnecessário e que só causa distanciamento entre as pessoas. Aprendi que se pode fazer muito com pouco e pouco com muito - o mais importante são as boas ideias, o entusiasmo, a curiosidade científica e a vontade de querer fazer sempre mais e melhor.

A nível cultural e social, aprendi a conviver com a imensa diversidade que encontramos em qualquer local de trabalho neste país. Aprendi que, para votar, basta dizer que eu sou eu (e posso usar um lápis.) Aprendi o verdadeiro significado de “sociedade civil”, que é o de uma sociedade activa, participativa e, na sua maioria, solidária. Que a democracia verdadeira implica que quem é eleito conhece a realidade de quem elege e tem deprestar contas da forma como exerce o seu mandato directamente perante os seus eleitores. Que a justiça não precisa de demorar anos... embora às vezes falhe, seja onde for.

A nível pessoal, aprendi que os meus amigos e a minha família vão comigo para todo o lado – onde eu estiver, estão comigo. E descobri que preciso do mar, preciso muito do mar...

[Uma imagem mental da Inglaterra]

As cores de Outono – os amarelos, vermelhos, ocres, castanhos, quase negros às vezes. Os parques cheios de gente quando há uma pontinha de sol. Os inúmeros espaços verdes a cada esquina, os recantos. O verdadeiro prazer que os ingleses têm em viver no campo, longe das grandes cidades – e como isso é realmente uma opção cá, onde as infraestruturas o permitem. O pôr-do-sol às 10h30 da noite no Verão e à três da tarde no Inverno – dois lados de uma moeda que gostava que só tivesse um lado, com mais sol e luz! A diversidade e riqueza cultural e étnica de Londres, onde às vezes acontece não se ouvir falar inglês numa viagem completa de metro, à excepção dos avisos sonoros de “Mind the Gap”. Uma ida ao pub com os colegas, ao fim de um dia de trabalho. As bicicletas em todo o lado, mesmo no caos do trânsito de Londres. Os estádios de futebol cheios, seja quando joga a melhor equipa do mundo, seja o clube local. Andar de guarda-chuva na carteira, sempre – porque nunca se sabe quando o tempo muda.

[Qual é o projecto que anda a bordar]

Ando a tentar “bordar” o modelo estrutural de uma proteína. Como bióloga estrutural, dedico-me a tentar perceber e determinar a forma das moléculas fundamentais para a vida: as proteínas. Até hoje, foram determinadas e depositadas numa base de dados, de acesso livre, as estruturas de cerca de 50 000 proteínas. Ora, se pensarmos que só o ser humano tem entre 20 000 a 25 000 proteínas ,e juntarmos todos os outros organismos, desde vírus a plantas e primatas superiores, rapidamente percebemos que há ainda muito para descobrir nesta área. A estrutura das proteínas está fortemente relacionada com a sua função; portanto conhecê-la permite compreender melhor como funcionam. É também um instrumento fundamental para o desenvolvimento de medicamentos que actuem especificamente em determinadas proteínas de um agente patogénico, como, por exemplo, o caso do Tamiflu e o vírus da gripe.

Ao longos dos últimos 18 meses, tenho focado a minha atenção numa família de proteínas que está fortemente associada à patogenicidade de um fungo, Candida albicans. Ao contrário do que se possa pensar, nem todos os fungos são cogumelos e este é um dos que pode causar problemas ao ser humano. Embora cerca de 80% da população tenha este “bichinho” na flora intestinal sem ter nenhum problema de saúde, ele pode tornar-se patogénico, causando infecções nas mucosas da boca e vagina. Mais grave ainda é a capacidade que o fungo tem de migrar através do sistema sanguíneo e infectar vários órgãos, o que acontece cada vez mais em pessoas com o sistema imunitário debilitado e em ambientes hospitalares e cirúrgicos. Ora, para isso acontecer, o fungo precisa de se “colar” às células humanas - e a família de proteínas que estou a estudar é um dos principais agentes desse mecanismo .

A nossa hipótese é a seguinte: conhecer a estrutura destas proteínas em pormenor e perceber como interagem com outras proteínas à superfície das células humanas é fundamental para conseguir desenvolver novos medicamentos que matem estes fungos (antifúngicos), “desenhados” especificamente para impedir essas interacções. Isso permitiria combater mais eficazmente infecções que estão a tornar cada vez mais problemáticas, com o aparecimento de variantes do fungo com resistência aos medicamentos actualmente disponíveis.



O método que uso para determinar as estruturas é a cristalografia de raios-X. Essencialmente, é necessário obter cristais das proteínas, ou seja, uma estrutura em que as proteínas estão ordenadas numa espécie de rede. Estes cristais são “bombardeados” com um feixe muito potente de raios-X. Tal como Watson e Crick usaram este tipo de informação para determinar a estrutura do DNA, esta interacção dos raios-X com os cristais permite-nos, com a ajuda de potentes computadores, determinar um modelo da proteína que estamos a estudar.


Esta etiqueta é a minha casa


Ontem, quando estava a sair da estação de London Bridge, vi um grupo de crianças com roupas anacrónicas e etiquetas de cartão penduradas ao pescoço. A professora, apercebi-me logo em seguida, também parecia ter saído de um filme da década de 40: trazia um vestido preto com bolinhas brancas (petit pois, como se dizia quando eu era criança), os lábios pintados de vermelho e o cabelo apanhado com um chapéu negro, do qual pendia uma delicada rede que lhe encobria parte dos olhos. Tratava-se de um grupo escolar a reconstituir a evacuação de Londres durante a Segunda Guerra Mundial.


Há 70 anos cerca de 3,5 milhoes de criancas foram retiradas das suas casas e escolas. Cerca de cem mil professores acompanharam o processo de evacuação das áreas urbanas, servindo assim como um elemento de transição entre uma vida familiar e um futuro incógnito. Enquanto isso, famílias em zonas rurais preparavam-se para acolhê-los até ao armistício. Tento imaginar o que terá passado pela cabeça desses meninos enquanto, organizados em filas, de mãos dadas, seguiam as ordens dos adultos. Provavelmente pressentiam que o objectivo era protegê-los, mas como pode alguém de sete ou oito anos não ser assolado por um sentimento de total incerteza? Para onde estariam a ser levados? E por quanto tempo? Teriam lá os mesmos brinquedos? A mesma comida? Imagino-os a olhar com frequência para as etiquetas com os seus nomes escritos, tocando-as com as pontas dos dedos, apenas para terem certeza de que estão mesmo lá, penduradas junto ao peito. É como se aquele pedacinho de cartão fosse a prova mais cabal das suas origens, uma espécie de bilhete de identidade que também serve como bilhete de ida e volta.

Domingo, 27 de Setembro de 2009

Arte contaminada pelo H1N1

O artista Luke Jerram criou uma escultura de vidro baseada na estrutura do H1N1, o vírus da Gripe A. A peça faz parte da Wellcome Collection e está exposta ao público desde a última sexta-feira.

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Cientistas sobem ao palco

A sério que gostava de estar hoje em Portugal para participar na Noite dos Investigadores. Se vocês tiverem a sorte de estar no local certo, espreitem por favor esta festa por mim.

Porto – Praça dos Leões (14h – 0h00)
Coimbra – Museu da Ciência de Coimbra (14h – 0h00)
Lisboa – Jardins da Fundação Gulbenkian (14h – 0h30)
Olhão – Ria Shopping (10h – 23h)

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Retrospectiva de Pedro Costa na Tate Modern


A Tate Modern promove a partir desta sexta-feira a primeira retrospectiva no Reino Unido dedicada ao cineasta português Pedro Costa. O realizador de obras premiadas como O Quarto de Vanda também apresentará uma palestra, na próxima terça-feira, no Birkbeck College.

Domingo, 20 de Setembro de 2009

Sobre o Centro Darwin - algumas notas

O Cocoon é um enorme casulo concreto acomodado no interior de uma gigantesca caixa de vidro. A minha mãe disse que tanto a arquitectura como o propósito científico fazem pensar numa Arca de Noé, um local seguro para guardar milhares de exemplares de plantas e insectos.





Dos vários pisos do "Cocoon", é possível espreitar os cientistas a trabalhar no edifício contíguo (ambos integram o complexo do novo Centro Darwin). Acredito que esta ideia de tornar os laboratórios transparentes (que, de resto, não é totalmente nova) pode contribuir para que se diluam algumas imagens fixas que guardamos dos cientistas no imaginário colectivo. Visitamos o centro do dia em que foi aberto ao público, o que talvez explique por que é que só havia dois cientistas a trabalhar. Dentro da própria exposição, há uma parte em que os visitantes podem colocar perguntas directamente a um cientista. Atrás de uma parede de vidro, o investigador que estiver de "plantão" responde às questões através de um intercomunicador. Houve quem achasse que isto tem o seu quê de jardim zoológico para cientistas.



Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Centro Darwin abre hoje ao público em Londres



Construído de raiz ao lado do Museu de História Natural de Londres (NHM), em South Kensington, edifcio do Darwin Centre inclui não só as magníficas colecções de insectos e plantas do NHM no interior de um gigantesco casulo de concreto branco mas também espacos de trabalho dos próprios cientistas. Quase tudo à vista do visitante.
A crtica do Times resumia assim a importancia do novo equipamento, idealizado pelo arquitecto escandinavo C.F. Møller, para a comunicacao de ciencia:

"The Darwin Centre will change public perceptions of what the Natural History Museum is. Having only ever imagined dusty and dimly lit backstage corridors of specimen boxes, we can have not only far better and more detailed access to the collections, but we will also be able to see inside some of the working laboratories or view them via camera link-ups."

Nomadic.0910 – Encontros entre Arte e Ciência

Mais um projecto que une arte e ciência arranca no Porto no esta quinta-feira. Chama-se Nomadic.0910 – Encontros entre Arte e Ciência e procura promover o diálogo entre essas duas áreas. Mais informações aqui.


Vamos cantar a tabela periódica



(Dica do Luís António Santos)

Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Chinelos zen


Após muitos anos de resistência, rendi-me às Birkenstock - ou melhor, rendi-me, mais precisamente, a este modelo (chama-se Gizeh), que tem um ar meio budista, bem diferente do estilo "calcados ortopédicos da avozinha". Eu andava à procura de um calçado aberto que definitivamente não me magoasse os pés. As Havainas são fantásticas, mas as tiras de borracha acabam por machucar pés largos e com joanetes como os meus. Além disso, eu queria uns chinelos que fossem confortáveis mas que dessem para ir trabalhar ao mesmo tempo (se bem que, aqui na universidade, cada um calça o que bem he apetecer). Vamos ver se me apaixono por estes tamanquinhos. Hoje é o dia de test drive, depois conto como correu.

P.S. O relato do dia seguinte: estas Birkenstock são globalmente confortáveis mas a haste vertical que fica entre os dedos incomoda um pouco, talvez por ser muito rígida.

Domingo, 13 de Setembro de 2009

"São só estas pedras?"


Ontem foi dia de visitar Stonehenge. Imanginei que as pedras fossem maiores.

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

O novo livro de Richard Dawkins...



...chama-se The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution. O primeiro capítulo pode ser lido on line aqui.

Os finalistas do Man Booker Prize


Acaba de ser divulgada a lista dos seis finalistas candidatos ao prestigiado Man Booker Prize:

A S Byatt, The Children's Book (Random House, Chatto and Windus)
J M Coetzee, Summertime (Random House, Harvill Secker)
Adam Foulds, The Quickening Maze (Random House, J. Cape)
Hilary Mantel, Wolf Hall (HarperCollins, Fourth Estate)
Simon Mawer, The Glass Room (Little, Brown)
Sarah Waters, The Little Stranger (Little, Brown, Virago)

Fiquei muito feliz ao saber que dois dos "meus" autores - Simon Mawer e A.S.Byatt - também chegaram a esta penúltima etapa. Escrevi a Simon Mawer a dar os parabéns e, pouco tempo depois, o autor respondeu-me todo contente (claro!) a dizer que estava em Londres para participar, à noite, numa festa de gala do Booker Prize no Kensington Palace.

Não tenho qualquer palpite sobre quem será o vitorioso. Não li a maioria dos livros. Apenas sei que o grande Coetzee era dado como um fortíssimo candidato (já ganhou dois Booker Prize, se for galardoado novamente será o único autor a arrebatar três vezes este valioso prémio) mas, segundo notícias publicadas hoje tanto no Independent como no Guardian, Hilary Mantel é agora apontada como a favorita pelo seu romance histórico Wolf Hall.
O vencedor será anunciado no próximo dia 7 de Outubro.

Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Pedro Mexia está de volta

O crítico literário Pedro Mexia regressou à blogosfera. Chama-se A Lei Seca o novo blogue de Mexia, que também é (entre muitas outras coisas) colunista do Jornal PÚBLICO.

Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

E a vítima hoje é...

... Maggie Gee! Esta senhora é autora de romances como The Ice People, The Flood e The White Family (finalista do Orange Book Prize). São estes três livros, aliás, que interssam à minha investigação. Passem por aqui mais tarde para saber a razão. Ah, e desejem-me sorte para a entrevista.

Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Será que a crise fará Margaret Drabble voltar à ficção?

A escritora britânica Margaret Drabble tinha avisado que não voltaria a escrever romances, pois teme estar a ser repetitiva. Hoje, contudo, a autora disse no Festival do Livro de Edimburgo que a crise financeira quase fez com que ela regressasse à ficção. Outros escritores estão a fazê-lo, disse, e ela tira admira aqueles que se levantam contra a ganância de um sistema bancário viciado e irresponsável.

"The White Family"

Terminei de ler na semana passada o romance The White Family, da escritora britânica Maggie Gee. Bom livro. Lembrem-me que tenho de voltar aqui para falar dele e da nova tendência de falar do híbrido na literatura.

Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Entrevistando Margaret Drabble


Cheguei à estação de Ladbroke Grove quase uma hora mais cedo. Decidi ir até Portobello Road e tomar um chá de menta no marroquino. Para fazer hora, é certo, mas também para reler o guião da entrevista àescritora britânica (Dame) Margaret Drabble. Não sei se é por estar há mais de um ano afastada do jornalismo puro e duro, mas voltou-se-me ao corpo uma sensação que só experimentei durante as entrevistas do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Não é uma sensação má, muito pelo contrario, acho até que é um recado biológico, como se o meu corpo dissesse que o que me faz mesmo bem a saúde é entrevistar pessoas.
Três minutos antes das 10h, eu toco a campainha. Fico a espera diante da porta escura. O coração começa a bater mais rápido. Será que é a própria que vai abrir a porta? Claro que sim, não há dinheiro para pagar empregadas domésticas em Londres, não estás no Brasil, Andréia Azevedo Soares! Continuo a espera. Há um vidro rectangular ao lado esquerdo da porta - e por ele espreito o título de vários livros empilhados (Needle's Eye, por exemplo, ou um de Angus Wilson, cuja biografia foi escrita pela própria Drabble). A escritora abre a porta pouco tempo depois (pareceu-me um século), pergunta se sou a "Awdrea" e indica-me o caminho para a sala de estar, no piso superior desta casa vitoriana caiada de branco.
Sentamo-nos, ela numa poltrona e eu num sofá com almofadas amarelas. Não há desconforto, nem aquele silencio que costuma recair sobre duas pessoas que nunca se viram antes. Eu olho-a e quase não consigo acreditar que tem 70 anos. É bonita (isso nao importa, mas pronto, já disse).
A entrevista começa. Margaret Drabble fala-me longa e detalhadamente do seu livro The Peppered Moth, que usa este célebre exemplo de selecção natural como leitmotif do romance. Começa por responder às perguntas mas, passada meia hora, já parece que se antecipa a elas (ou fui eu que perdi completamente as rédeas da entrevista?). Conta-me como achou a metáfora do ADN mitocondrial ideal para representar os laços, tanto físicos como emocionais, entre quatro gerações de mulheres da família Cudworth-Bawtry numa localidade mineira no Norte da Inglaterra. Aos poucos foge do livro em si e fala da sua própria família (o que vai dar mais ou menos ao mesmo, The Peppered Moth é muito autobiográfico), do seu fascínio pela genética e pelo mecanismo biológico que nos faz sermos parecidos uns com os outros, herdeiros de joanetes ou narizes aduncos, fãs de doces ou salgados (será que há genes envolvidos nisso?), depressivos ou entusiastas. Em resumo: o fascínio pelos pequenos detalhes que fazem de cada ser humano "uma criatura única".
Mas Drabble também sublinha o seu fascínio da diferença. Em todos os sentidos. A diferença entre gostos e tons de pele, daí salta para os casamentos entre pessoas de diferentes etnias e desemboca, é claro, no fenómeno Obama. É, para ela, uma alegria ver um homem tão multicultural como Obama a liderar os Estados Unidos. Drabble parece gostar de Obama. Ou melhor, gosta da mudança de mentalidades que ele pode significar. Aos 70 anos, Margaret Drabble tem uma reserva de optimismo para o futuro próximo da humanidade.

PS. Ocorre-me agora, passadas algumas dezenas de horas, que a entrevista foi rica em memórias e opiniões, quase tudo com muito interesse para a minha investigação sobre ciência e literatura. Pelo menos é a sensação que tenho agora. Mas as entrevistas nunca comportam o ritmo e o conteúdo que julgamos que estas têm no momento em que nos despedimos do entrevistado. Vamos ver o resultado após a transcrição da entrevista.

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

A segunda entrevista


Preparei tudo. Tudinho. Até fui hoje à porta da casa da escritora Margaret Drabble para ter a certeza de que sei exactamente chegar até lá amanhã de manhã (sexta-feira, 10h).
A gente estuda tanto tempo e, depois, quando chega o momento da pesquisa de campo, não sabemos se as borboletas dentro do estômago batem asas de alegria ou ansiedade.

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Hoje à noite: ver o documentário "Cell"

A BBC 4 exibe hoje, às 21h, documentário "The Cell: The Hidden Kingdom". Quem morar no Reino Unido, pode ver o programa mais tarde na Internet através desta ligação.
Este é o primeiro de três episódios. No último, que vai ao ar dia 26 de Agosto, teremos oportunidade de ver e ouvir a astrobióloga portuguesa Zita Martins, do Imperial College. A não perder.

Domingo, 9 de Agosto de 2009

Agora só vou à British Library com ele


Acabaram-se os apontamentos a lápis na British Library (não são permitidas canetas).
Acabaram-se as dores nas costas (pesa pouco mais de um quilo).
Acabaram-se as ideias repentinas escritas em guardanapos (tenho dúvidas).

Sábado, 8 de Agosto de 2009

Puro bordado molecular

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Jornalistas Portugueses no Twitter

(Clique na imagem para aumentá-la)

O blogue Comunicamos divulgou anteontem o Top 25 dos jornalistas portugueses no Twitter. O material apresentado oferece não só uma uma base de dados (elaborada por Ana Fernandes) que inclui o número de tweets, seguidores e "seguidos" de cada um dos jornalistas em causa, mas também uma análise dessa informação feira por João Simão.
O Bordado Inglês está em 13º lugar - ainda bem que não acreditamos que os números trazem má sorte.

PS. Atenção para nomes de peso no jornalismo de ciência: Vasco Matos Trigo e António Granado.

Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

O cúmulo da síntese

Clássicos da literatura universal serão resumidos em poucas palavras. Será possível contar uma obra das irmãs Brontë em apenas 140 caracteres. Ou menos. Chama-se a isso Twitterature.
Eu, cá no meu íntimo, prefiro tratar as coisas pelos nomes: litter (Literature + Twitter).

Bruno Figueiredo ajuda empresas a criar aplicações fáceis de usar [UK a pensar em português]


[Quem é] Bruno Figueiredo

[Idade] 33 anos

[Onde nasceu] Lisboa

[Quando veio para o Reino Unido] Fevereiro de 2006

[O que faz agora] Trabalho como Consultor Independente de Usabilidade

[Onde estudou] Universidade Técnica de Lisboa (Arquitectura)

[Razão pela qual resolveu mudar]

Vim acompanhar a minha esposa que se encontra a acabar a tese de doutoramento em Arquitectura na Universidade de Cambridge.

[Algo importante que tenha aprendido na ilha]

Que Portugal não está assim tão atrasado como pensamos. Que é preciso acreditarmos que somos bons, mesmo que isso não corresponda inteiramente à realidade. Que Portugal afinal trata muito mal as pessoas com mais qualificações.

[Uma imagem mental da Inglaterra]

As ruas cheias de gente ao fim-de-semana. Os grandes parques verdes. A quantidade enorme de pássaros e insectos que há nesta ilha. O tempo húmido permanente. O deprimente mês de Fevereiro em que nunca se vê o sol. O facto de no Inverno ser noite já às 15h30 e de no Verão o dia nascer às 4h00. As lojas que começam a fechar às 16h30. Os camiões de recolha do lixo que empestam as ruas nas horas de ponta. O facto de ninguém parar para almoçar.

A grande vontade de fazer coisas e as inúmeras iniciativas que se criam para mobilizar a população. A cultura (geralmente) gratuita. A diversidade cultural que agrega pessoas do mundo inteiro. A responsabilização que existe em todo o lado, principalmente nos cargos públicos. A quantidade enorme de pessoas a ler livros e jornais em todo o lado. Os exorbitantes preços dos transportes públicos. Os comboios de Londres para Cambridge com pessoas sentadas no chão a trabalhar nos portáteis. As empresas consideradas pequenas que têm mais de 300 colaboradores. O excelente serviço de saúde pública. O bom humor inglês.

Um povo geralmente cínico, um pouco xenófobo e obcecado por bebidas alcoólicas. A cultura de fachada, em que se dá a sensação de se ser muito mais eficiente do que o que se é.


[Qual é o projecto que anda a bordar]

Abri uma empresa em Inglaterra (o que é surpreendentemente fácil comparado com Portugal – são literalmente 10 minutos a preencher formulários na Internet) e presto serviços de consultoria em usabilidade em agências criativas e produtoras de software. No fundo, ajudo-as a desenvolver sites e aplicações informáticas de forma a que sejam mais fáceis de usar e que não criem problemas aos utilizadores finais. Os projectos em que estou envolvido normalmente direccionam-se a grandes multinacionais nas áreas das telecomunicações.

No futuro, planeio capitalizar a rica experiência que adquiri aqui e empregá-la na empresa que ainda tenho em Portugal.

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Notícias velhas

Uma das coisas mais deprimentes para um jornalista é escrever notícias velhas. Muitas vezes acabo por não fazer comentários sobre as coisas em que participo porque, entre uma correria aqui e outra ali, já se passaram alguns dias e acho que deixa de fazer sentido voltar ao assunto.
Qualquer dia dizem que este blogue se chama bordado inglês precisamente por causa do cheiro à naftalina.