Sexta-feira, Junho 24, 2011
Sábado, Junho 18, 2011
Sexta-feira, Junho 10, 2011
Segunda-feira, Junho 06, 2011
Na minha terrinha
De Évora para o mundo, informo:
Concelho de Évora
PSD...31,3%
PS....26,9%
CDU...17,8%
CDS...10,6%
BE.....5,8%
Distrito de Évora
PS....29,1%
PSD...27,5%
CDU...22,1%
CDS....8,7%
BE.....4,9%
Concelho de Évora
PSD...31,3%
PS....26,9%
CDU...17,8%
CDS...10,6%
BE.....5,8%
Distrito de Évora
PS....29,1%
PSD...27,5%
CDU...22,1%
CDS....8,7%
BE.....4,9%
Domingo, Junho 05, 2011
Sexta-feira, Junho 03, 2011
Xô
I heard the truth was built to bend
A mechanism to suspend the guilt
Is what you are requiring still
You’ve got to dance little liar
Dance Little Liar Artic Monkeys
PS: http://www.sabado.pt/Ultima-hora/Dinheiro/Governo-comprometeu-se-com-corte-substancial-na-TS.aspx
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/tv--media/lusa-acusada-de-dourar-a-pilula
http://abaheisenberg.blogspot.com/2011/05/querida-encolhi-o-pavilhao.html
etc. etc. etc. etc.
Terça-feira, Maio 31, 2011
Segunda-feira, Maio 30, 2011
A querrrida ideia de «União Europeia»
Ferreira Fernandes (no DN):
A guerra do pepino
Carlos Magno, o pai da Europa, fez o império que forma hoje o essencial da União Europeia. E essa Europa a que Carlos Magno deu corpo bebeu na ideia de seu pai, Pépin le Bref (715-768). Vai em francês o nome porque a tradução que lhe fizemos ficou durante séculos envolta em mistério. Sobre o cognome não há controvérsia, também é Breve em português, por o grande rei franco ser baixote. Mas, então, porque não lhe chamamos Pevide, que é o quer dizer Pépin em francês, tão apropriado a quem semeou a Europa? No entanto, Pevide, o Breve, aparece nos nossos livros de História como Pepino, o Breve. Não sendo uma cucurbitácea, o pepino das nossas hortas (que em francês se diz 'concombre'), por que lhe abusamos o nome e lhe desvirtuamos o destino? Foi um mistério de séculos. Até estes dias, quando a Europa que Pépin ajudou a construir pode ruir por causa do pepino. Um surto de pepinos contaminados assusta a Alemanha (já há dez mortos) e com toda a arrogância de godos que não lavam a salada, os alemães desataram a atacar os espanhóis dizendo que a hortaliça veio da Andaluzia. Reacção do Governo de Madrid, ontem: "A suspeita é uma irresponsabilidade e uma selvajaria." Pode parecer uma guerra do alecrim não fosse esta salada demonstrar um diferendo Norte-Sul europeu cada vez mais insanável. Com aquele jeito tão nosso de adivinharmos sem perceber, andamos há séculos a prevenir que o pepino ia acabar mal.
Domingo, Maio 29, 2011
Jornalismo 'in action'
Há que reconhecer: o Sr. Eng. é um prato. Quando alguém o confronta com um relatório que contrasta com a «narrativa» da propaganda (e.g. o BdP) ou com uma opinião crítica (e.g. o Financial Times), o Sr. Eng. põe a sua cara n.º 24 (a de «inocente») e afirma «não conhecer». Mas por uma vez, nesta entrevista, ele foi sincero e reconheceu a diferença: realmente, o Banco de Portugal é uma entidade independente. Isso faz toda a diferença.
O problema do acordo
Leio em parangonas, no Público: «O problema do acordo é ser muito economicista». A frase é de António Costa, destacado dirigente socialista e presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
O Sr. Antunes pede a um arquitecto «Sr. Arquitecto: não suporto a casa onde habito. Importa-se de me apresentar um projecto de remodelação do pardieiro?» O arquitecto pede pistas: «Uma coisa leve ou uma coisa à seria, Sr. Antunes?» «De alto a baixo, Sr. Arquitecto, de uma ponta à outra!» «Com certeza, Sr. Antunes.» Passado um mês, o arquitecto apresenta o projecto. O Sr. Antunes observa-o e afirma não estar convencido. «O problema deste projecto, Sr. Arquitecto, é ter muito desenho e muita estrutura.»
«O problema do acordo é ser muito economicista». A frase é lapidar. Eis um bom epíteto para o socialismo: «a gestão do dinheiro é muito economicista». Bem lá no fundo, o que pensa o Dr. António Costa e a generalidade dos socialistas não propriamente versados em Economia e Finanças Públicas, é mais ou menos isto: essa coisa de nos virem salvar da bancarrota e ainda por cima exigirem a devolução do dinheiro que nos emprestaram, é uma grande chatice. O socialismo adora «injectar» dinheiro na economia, através do investimento público e da conservação do seu querido «Estado Social», mas dá-se mal com o embolso e o saneamento. O ónus desse incómodo acaba recaído, mais tarde ou mais cedo, sobre a ralé. As causas desta mentalidade provêm de um preconceito: o enfoque no público, em detrimento do privado. Dito de forma simplista, entre: a) dotar o país de condições e instrumentos que permitam que os cidadãos, individualmente ou sob associação (vulgo empresas), «produzam riqueza» (um conceito muito confuso na cabeça de um socialista) de forma sustentada; e b) achar que cabe ao Estado o papel de motor da Economia (como empregador, investidor, dono de obras, etc.), o socialista não hesita. Tudo o que vier do Estado, no âmbito de uma estratégia «integrada», «global» e «a longo prazo», é uma bênção, uma panaceia, um seguro de vida colectivo. Há-de sempre haver quem pague a conta.
«O problema do acordo é ser muito economicista» é a típica frase de quem ainda não se deu conta do que se passou («bancarrota» é apenas uma palavra feia) e não vê com bons olhos aquilo que os «tecnocratas» parecem pretender: que Portugal pague as contas, que os governos percebam que o dinheiro tem de ser correctamente gerido, que o Estado não pode continuar ao serviço de agendazinhas ideológicas financeiramente insustentáveis e, finalmente, que a contumácia tem de acabar.
O Sr. Antunes pede a um arquitecto «Sr. Arquitecto: não suporto a casa onde habito. Importa-se de me apresentar um projecto de remodelação do pardieiro?» O arquitecto pede pistas: «Uma coisa leve ou uma coisa à seria, Sr. Antunes?» «De alto a baixo, Sr. Arquitecto, de uma ponta à outra!» «Com certeza, Sr. Antunes.» Passado um mês, o arquitecto apresenta o projecto. O Sr. Antunes observa-o e afirma não estar convencido. «O problema deste projecto, Sr. Arquitecto, é ter muito desenho e muita estrutura.»
«O problema do acordo é ser muito economicista». A frase é lapidar. Eis um bom epíteto para o socialismo: «a gestão do dinheiro é muito economicista». Bem lá no fundo, o que pensa o Dr. António Costa e a generalidade dos socialistas não propriamente versados em Economia e Finanças Públicas, é mais ou menos isto: essa coisa de nos virem salvar da bancarrota e ainda por cima exigirem a devolução do dinheiro que nos emprestaram, é uma grande chatice. O socialismo adora «injectar» dinheiro na economia, através do investimento público e da conservação do seu querido «Estado Social», mas dá-se mal com o embolso e o saneamento. O ónus desse incómodo acaba recaído, mais tarde ou mais cedo, sobre a ralé. As causas desta mentalidade provêm de um preconceito: o enfoque no público, em detrimento do privado. Dito de forma simplista, entre: a) dotar o país de condições e instrumentos que permitam que os cidadãos, individualmente ou sob associação (vulgo empresas), «produzam riqueza» (um conceito muito confuso na cabeça de um socialista) de forma sustentada; e b) achar que cabe ao Estado o papel de motor da Economia (como empregador, investidor, dono de obras, etc.), o socialista não hesita. Tudo o que vier do Estado, no âmbito de uma estratégia «integrada», «global» e «a longo prazo», é uma bênção, uma panaceia, um seguro de vida colectivo. Há-de sempre haver quem pague a conta.
«O problema do acordo é ser muito economicista» é a típica frase de quem ainda não se deu conta do que se passou («bancarrota» é apenas uma palavra feia) e não vê com bons olhos aquilo que os «tecnocratas» parecem pretender: que Portugal pague as contas, que os governos percebam que o dinheiro tem de ser correctamente gerido, que o Estado não pode continuar ao serviço de agendazinhas ideológicas financeiramente insustentáveis e, finalmente, que a contumácia tem de acabar.
Sábado, Maio 28, 2011
Ok, vamos lá ser totalmente honestos
Nos últimos dois meses, o meu pai ligou-me por três vezes no final do programa Quadratura do Círculo (SIC-N), para comentar o dito. Em particular, o «desempenho» de Pacheco Pereira. Sempre vi, desde que me lembro, o meu pai concordar obstinadamente e, se necessário fosse, defender de forma firme José Pacheco Pereira (JPP). Mas, desta vez, os telefonemas foram no sentido contrário. Uma das vezes, foi mesmo proferida a palavra «revolta» (coisa séria, portanto). A razão? A forma como o militante e deputado do PSD baixava a guarda em relação a José Sócrates e «perdia tempo» a criticar a actual direcção do PSD. Sintomático?
Vem isto a propósito da última celeuma que o país enfrenta (como sabeis, este país sem celeumas ainda é menos recomendável): Pedro Passos Coelho (PPC) acusou JPP de o atacar. JPP, por seu turno, fez-se de vítima no último Quadratura do Círculo (achou injusta, infundada e no limite da ofensa, a acusação), puxando, en passant, os galões de feroz anti-socrático. Como é habitual, esteve bem.
Sobre o assunto, três (espectaculares, como é meu apanágio) comentários.
O primeiro: mesmo que o sentisse, PPC não o devia ter dito. Revelou inabilidade política e falta de poder de encaixe (ter-se-á esquecido do que disse de Manuela Ferreira Leite em 2008/2009?). O «quem não se sente, não é filho de boa gente», não é para aqui chamado (um aforismo, aliás, muito falível). Ao revelar-se melindrado pelo que tem dito JPP, PPC abriu caminho a que se fale abertamente das razões dessas mesmas críticas, dando a azo a que se diga que, incapaz de, como o afirmou num frente-a-frente, «compreender» por que razão o PSD não descolava nas sondagens, anda já na senda dos bodes expiatórios. Comentário desnecessário. Ponto.
O segundo: JPP, como pessoa dotada de um intelecto não propriamente mediano e mesmo ciente (tal como, suponho, PPC) de que, regra geral, a crítica é também uma tentativa de tornar plausível um preconceito, sabe perfeitamente do que fala PPC. Sim, é verdade: JPP tem sido febril e pontualmente brilhante na forma como tem desmontado o mundo baldio e matreiro de Sócrates. Mas não é menos verdade que tem sido incapaz de disfarçar o seu distanciamento – pessoal e político – do presidente do seu próprio partido. Dir-se-á que tem pecado por um excesso de zelo no que respeita a aplicação do princípio da honestidade intelectual, renunciando ao seguidismo meio acéfalo, meio acrítico que, por exemplo, António Costa (que é, na mesma medida de JPP, militante de um partido) faz questão de consumar (e aparentemente sem problemas de consciência). De acordo. Mas quem analisa a postura de JPP, hoje, e a postura de JPP em 2009, certamente notará diferenças, sendo que em 2009, JPP emudeceu sempre que a discussão envolvia os «tiros nos pés» de Manuela Ferreira Leite.
O terceiro: a postura de JPP, quando comparada com a de António Costa (abstenho-me de falar no caso patológico-burlesco de Emídio Rangel), leva uma imensa vantagem: a da honestidade intelectual, ainda que por entre algum malabarismo de origem sectária. Dito de outra forma: é mil vezes preferível a voz de um homem livre, ainda que afectado por um preconceito em relação a um terceiro, do que a voz de um homem agrilhoado a uma lógica de defesa inapelável e canídea do chefe do partido a que pertence (daí ter sido patética e tonta a forma como António Costa defendeu JPP). Mas a postura do primeiro, sendo ele «militante» (que também contém o sentido de «soldado») de um partido e estando a viver-se uma renhida e acesa corrida eleitoral, contém uma dimensão não de aleivosia (porque não creio que PPC tivesse depositado alguma fé em JPP), mas de um módico de deslealdade orgânica que, perante o superlativo objectivo de se tentar pôr termo ao reinado de um homem que prejudicou grandemente o país e afundou uma ideia civilizada e honesta de fazer política, não dissipa uma sensação de incómodo. Um incómodo que não se vive nas hostes socialistas, onde haveria, e há, incomensuravelmente mais razões para a crítica inter pares, mas onde se sintetiza (à excepção de Manuel Maria Carrilho) um por vezes patético ideal de unidade. Mas, por sinal, eficaz.
Vem isto a propósito da última celeuma que o país enfrenta (como sabeis, este país sem celeumas ainda é menos recomendável): Pedro Passos Coelho (PPC) acusou JPP de o atacar. JPP, por seu turno, fez-se de vítima no último Quadratura do Círculo (achou injusta, infundada e no limite da ofensa, a acusação), puxando, en passant, os galões de feroz anti-socrático. Como é habitual, esteve bem.
Sobre o assunto, três (espectaculares, como é meu apanágio) comentários.
O primeiro: mesmo que o sentisse, PPC não o devia ter dito. Revelou inabilidade política e falta de poder de encaixe (ter-se-á esquecido do que disse de Manuela Ferreira Leite em 2008/2009?). O «quem não se sente, não é filho de boa gente», não é para aqui chamado (um aforismo, aliás, muito falível). Ao revelar-se melindrado pelo que tem dito JPP, PPC abriu caminho a que se fale abertamente das razões dessas mesmas críticas, dando a azo a que se diga que, incapaz de, como o afirmou num frente-a-frente, «compreender» por que razão o PSD não descolava nas sondagens, anda já na senda dos bodes expiatórios. Comentário desnecessário. Ponto.
O segundo: JPP, como pessoa dotada de um intelecto não propriamente mediano e mesmo ciente (tal como, suponho, PPC) de que, regra geral, a crítica é também uma tentativa de tornar plausível um preconceito, sabe perfeitamente do que fala PPC. Sim, é verdade: JPP tem sido febril e pontualmente brilhante na forma como tem desmontado o mundo baldio e matreiro de Sócrates. Mas não é menos verdade que tem sido incapaz de disfarçar o seu distanciamento – pessoal e político – do presidente do seu próprio partido. Dir-se-á que tem pecado por um excesso de zelo no que respeita a aplicação do princípio da honestidade intelectual, renunciando ao seguidismo meio acéfalo, meio acrítico que, por exemplo, António Costa (que é, na mesma medida de JPP, militante de um partido) faz questão de consumar (e aparentemente sem problemas de consciência). De acordo. Mas quem analisa a postura de JPP, hoje, e a postura de JPP em 2009, certamente notará diferenças, sendo que em 2009, JPP emudeceu sempre que a discussão envolvia os «tiros nos pés» de Manuela Ferreira Leite.
O terceiro: a postura de JPP, quando comparada com a de António Costa (abstenho-me de falar no caso patológico-burlesco de Emídio Rangel), leva uma imensa vantagem: a da honestidade intelectual, ainda que por entre algum malabarismo de origem sectária. Dito de outra forma: é mil vezes preferível a voz de um homem livre, ainda que afectado por um preconceito em relação a um terceiro, do que a voz de um homem agrilhoado a uma lógica de defesa inapelável e canídea do chefe do partido a que pertence (daí ter sido patética e tonta a forma como António Costa defendeu JPP). Mas a postura do primeiro, sendo ele «militante» (que também contém o sentido de «soldado») de um partido e estando a viver-se uma renhida e acesa corrida eleitoral, contém uma dimensão não de aleivosia (porque não creio que PPC tivesse depositado alguma fé em JPP), mas de um módico de deslealdade orgânica que, perante o superlativo objectivo de se tentar pôr termo ao reinado de um homem que prejudicou grandemente o país e afundou uma ideia civilizada e honesta de fazer política, não dissipa uma sensação de incómodo. Um incómodo que não se vive nas hostes socialistas, onde haveria, e há, incomensuravelmente mais razões para a crítica inter pares, mas onde se sintetiza (à excepção de Manuel Maria Carrilho) um por vezes patético ideal de unidade. Mas, por sinal, eficaz.
Quinta-feira, Maio 26, 2011
Da desonestidade e da indigência argumentativa
Uma jornalista da Rádio Renascença decidiu, por sua iniciativa, interpelar Pedro Passos Coelho sobre a possibilidade de haver novo referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), dado persistir na sociedade portuguesa um debate sobre essa matéria (com petições à mistura).
Pedro Passos Coelho disse que a lei do aborto deveria ser avaliada: «precisamos de fazer, tal como aliás está previsto, uma reavaliação dessa situação» (sic). De seguida, Pedro Passos Coelho recordou à jornalista da RR que esteve «há muitos anos do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto - não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez -, porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta» e não se deve «empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino» (sic). Prosseguiu: «A ideia que eu tinha era que talvez se pudesse cair numa espécie de liberalização, em que muitas das mulheres que se vêem confrontadas com essa necessidade acabam por se confrontar com problemas ainda mais graves do que aqueles que motivaram a sua decisão drástica de pôr fim a uma gravidez». E concluiu: «Temos de reavaliar essa situação, não no sentido de voltar a cara a esses problemas, de ter qualquer intolerância em relação a isso, mas para poder ajuizar se se foi até onde se devia ter ido ou se se foi um pouco longe demais». Pelo meio, deixou no ar a ideia de que não se deve pôr de parte a ideia de um novo referendo (explicando mais tarde que os políticos não são donos da democracia), embora: 1) seja necessário primeiro avaliar a aplicação da lei; 2) um novo referendo não faça parte do programa do PSD.
Perante isto, José Sócrates acusou Pedro Passos Coelho de: 1) querer voltar ao tempo da criminalização do aborto; 2) mudar de opinião; 3) esconder a intenção de um novo referendo.
Comentários?
Pedro Passos Coelho disse que a lei do aborto deveria ser avaliada: «precisamos de fazer, tal como aliás está previsto, uma reavaliação dessa situação» (sic). De seguida, Pedro Passos Coelho recordou à jornalista da RR que esteve «há muitos anos do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto - não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez -, porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta» e não se deve «empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino» (sic). Prosseguiu: «A ideia que eu tinha era que talvez se pudesse cair numa espécie de liberalização, em que muitas das mulheres que se vêem confrontadas com essa necessidade acabam por se confrontar com problemas ainda mais graves do que aqueles que motivaram a sua decisão drástica de pôr fim a uma gravidez». E concluiu: «Temos de reavaliar essa situação, não no sentido de voltar a cara a esses problemas, de ter qualquer intolerância em relação a isso, mas para poder ajuizar se se foi até onde se devia ter ido ou se se foi um pouco longe demais». Pelo meio, deixou no ar a ideia de que não se deve pôr de parte a ideia de um novo referendo (explicando mais tarde que os políticos não são donos da democracia), embora: 1) seja necessário primeiro avaliar a aplicação da lei; 2) um novo referendo não faça parte do programa do PSD.
Perante isto, José Sócrates acusou Pedro Passos Coelho de: 1) querer voltar ao tempo da criminalização do aborto; 2) mudar de opinião; 3) esconder a intenção de um novo referendo.
Comentários?
Quarta-feira, Maio 25, 2011
Terça-feira, Maio 24, 2011
Quando é que nos livramos disto *?
"Governo adiou despesa pública para melhorar défice"
"A unidade técnica que dá apoio ao Parlamento diz que o Governo adiou o pagamento de despesas durante o primeiro trimestre."
* disto: da mentira, da auto-ilusão, da manhosice saloia.
"A unidade técnica que dá apoio ao Parlamento diz que o Governo adiou o pagamento de despesas durante o primeiro trimestre."
* disto: da mentira, da auto-ilusão, da manhosice saloia.
Segunda-feira, Maio 23, 2011
Domingo, Maio 22, 2011
Posso estar enganado
O Tiago Moreira Ramalho não consegue alcançar o conceito de «ganhar debates». E diz: «Um debate não se ganha nem se perde porque um debate é um confronto de ideias e não há ideias vitoriosas e ideias perdedoras». É uma forma de ver as coisas. Bem arrumadinha. Politicamente correcta. Até se pode, eventualmente, dizer: não há ideias boas nem más, apenas ideias. Outra forma de colocar as coisas é: ganhar um debate é ser mais persuasivo, claro e intelectualmente honesto. Ganhar um debate é, por exemplo, desmontar os argumentos supostamente infalíveis do oponente e pôr a nu a fraqueza dos que lhe restam. Ganhar um debate é colocar um número significativo maior de pessoas - de comentadores ao «homem comum» - a dizer «fulano tal foi melhor». Mas posso estar enganado. E concordo com o final: aquela vitória pode significar nada ou coisa nenhuma.
Ainda o debate
Sobre o debate da passada sexta-feira, diz Inês Pedrosa (ao Correio da Manhã): «Claramente ganha Sócrates, porque consegue dizer mais em menos tempo. Passos Coelho adoptou uma estratégia de ataque, mas não apresentou programa.»
Qualquer criatura provida de um intelecto não engajado politicamente na encantatória, embora patética, «narrativa» do PS («narrativa» alcançou o mesmo estatuto de «assertiva», «urdidura», «janela de oportunidade» e «zona de conforto»), jamais poderá dizer que Sócrates ganhou o debate. Posso respeitar, ainda que a muito custo e ressalvando que «respeitar» não é sinónimo de «concordar», que se diga: houve um «empate». Afirmar que «Sócrates ganhou claramente» pertence já ao restrito e selecto campeonato dos suicidas. Neste caso, já não se está na presença de engajamentos ou de cedências à ladainha confrangedora do ainda primeiro-ministro. Trata-se de abraçar o harakiri intelectual como forma expedita de desprendimento em relação à realidade e à verdade (género «não quero saber do assunto e quero que todos morram»). Ou, nos casos mais benignos, de gozar com «tudo isto» («tudo isto» significa «o país» mais as suas proeminentes figuras). Se for este o caso, devo avisar a escritora Inês Pedrosa de que conseguiu arrancar-me uma gargalhada - o que, por estes dias, já não é mau. Se não for esse o caso, aconselho a escritora Inês Pedrosa a não exagerar em Fernando Pessoa. De tão enfronhada está, já nem o mostrengo consegue ver.
CESOP/Católica, 21 Maio, N=659, Tel.
Quem esteve melhor no debate?
Passos Coelho: 46,4%
José Sócrates: 33,9%
Empate: 12,7%
Ns/Nr: 7%
O debate contribuiu para definir o seu sentido de voto?
Não: 59,3%
Pouco: 8,6%
Contribuiu ou contribuiu muito: 32%
Quem apresentou as melhores propostas...
Para relançar a economia?
PPC: 50,5%
JS: 25,3%
Ns/Nr: 24,1%
Na saúde?
PPC: 44,6%
JS: 32,2%
Ns/Nr: 23,2%
Para melhorar a vida dos portugueses?
PPC: 47,8%
JS: 23,1%
Ns/Nr: 29,1%
Qualquer criatura provida de um intelecto não engajado politicamente na encantatória, embora patética, «narrativa» do PS («narrativa» alcançou o mesmo estatuto de «assertiva», «urdidura», «janela de oportunidade» e «zona de conforto»), jamais poderá dizer que Sócrates ganhou o debate. Posso respeitar, ainda que a muito custo e ressalvando que «respeitar» não é sinónimo de «concordar», que se diga: houve um «empate». Afirmar que «Sócrates ganhou claramente» pertence já ao restrito e selecto campeonato dos suicidas. Neste caso, já não se está na presença de engajamentos ou de cedências à ladainha confrangedora do ainda primeiro-ministro. Trata-se de abraçar o harakiri intelectual como forma expedita de desprendimento em relação à realidade e à verdade (género «não quero saber do assunto e quero que todos morram»). Ou, nos casos mais benignos, de gozar com «tudo isto» («tudo isto» significa «o país» mais as suas proeminentes figuras). Se for este o caso, devo avisar a escritora Inês Pedrosa de que conseguiu arrancar-me uma gargalhada - o que, por estes dias, já não é mau. Se não for esse o caso, aconselho a escritora Inês Pedrosa a não exagerar em Fernando Pessoa. De tão enfronhada está, já nem o mostrengo consegue ver.
CESOP/Católica, 21 Maio, N=659, Tel.
Quem esteve melhor no debate?
Passos Coelho: 46,4%
José Sócrates: 33,9%
Empate: 12,7%
Ns/Nr: 7%
O debate contribuiu para definir o seu sentido de voto?
Não: 59,3%
Pouco: 8,6%
Contribuiu ou contribuiu muito: 32%
Quem apresentou as melhores propostas...
Para relançar a economia?
PPC: 50,5%
JS: 25,3%
Ns/Nr: 24,1%
Na saúde?
PPC: 44,6%
JS: 32,2%
Ns/Nr: 23,2%
Para melhorar a vida dos portugueses?
PPC: 47,8%
JS: 23,1%
Ns/Nr: 29,1%
Sábado, Maio 21, 2011
Livrai-nos dele(s), Senhor
Pedro Passos Coelho esteve bem. Ganhou o debate. E a prova disso foi o facto de José Sócrates ter insistido na mais indigente e infantil colectânea de argumentos políticos de que há memória na democracia portuguesa, e que constitui o «core business» da sua campanha: «a culpa não foi minha (foi dos mercados e da crise «internacional»), eu fiz o meu melhor, eu dei o meu melhor, vocês só sabem dizer mal, dizer mal do governo prejudica o país.»
(A campanha do PS resume-se a isto. Nada mais. O PS não fala do seu programa porque o Programa Eleitoral do PS, como peça de vacuidade, ignora grosseiramente a realidade. É um não-programa. O PS não discute o país porque a realidade - os factos políticos, os indicadores económicos e sociais, as restrições e objectivos orçamentais - é avassaladora. A estratégia foi montar uma farsa e apostar no medo: o PS é pelo «Estado Social» (apesar de, como disse Passos Coelho, historicamente os governos de José Sócrates terem sido os que mais cortaram no «Estado Social»), o PSD é contra o «Estado Social». Pelo caminho, José Sócrates está empenhado em disfarçar o que acordou com o FMI, o BCE e a CE. José Sócrates fala como se nada fosse para valer.)
José Sócrates é incapaz – porque é contrário à natureza totalitária da sua (arrogante) presunção – de um acto de expiação, de um mea culpa, de um módico de humildade. Após seis anos de governo e com o país na bancarrota, José Sócrates é a face mais visível do arrivismo político que tem vindo a minar o Partido Socialista (e que pena é que um jovem político inteligente como João Galamba, se tenha deixado contaminar, resumindo-se a uma versão lo-fi do grande líder). O secretário-geral do Partido Socialista transpira pesporrência por todos os poros (com Pedro Passos Coelho, como pessoa educada e leal a debater, a transmitir o contrário). Isso nota-se a uma grande distância. E cada vez mais. O debate de ontem é bem capaz de ter sido o ponto de viragem. A máscara estava por um fio. Ontem, caiu com grande estrondo.
PS: Logo a seguir, no Expresso da Meia Noite (SIC-N), a jactância e a sobranceria políticas marcaram novamente presença. Desta vez pela mão de Augusto Santos Silva (le petit Beria), secundado pelo aspirante Pedro Marques. Uma palhaçada inenarrável.
(A campanha do PS resume-se a isto. Nada mais. O PS não fala do seu programa porque o Programa Eleitoral do PS, como peça de vacuidade, ignora grosseiramente a realidade. É um não-programa. O PS não discute o país porque a realidade - os factos políticos, os indicadores económicos e sociais, as restrições e objectivos orçamentais - é avassaladora. A estratégia foi montar uma farsa e apostar no medo: o PS é pelo «Estado Social» (apesar de, como disse Passos Coelho, historicamente os governos de José Sócrates terem sido os que mais cortaram no «Estado Social»), o PSD é contra o «Estado Social». Pelo caminho, José Sócrates está empenhado em disfarçar o que acordou com o FMI, o BCE e a CE. José Sócrates fala como se nada fosse para valer.)
José Sócrates é incapaz – porque é contrário à natureza totalitária da sua (arrogante) presunção – de um acto de expiação, de um mea culpa, de um módico de humildade. Após seis anos de governo e com o país na bancarrota, José Sócrates é a face mais visível do arrivismo político que tem vindo a minar o Partido Socialista (e que pena é que um jovem político inteligente como João Galamba, se tenha deixado contaminar, resumindo-se a uma versão lo-fi do grande líder). O secretário-geral do Partido Socialista transpira pesporrência por todos os poros (com Pedro Passos Coelho, como pessoa educada e leal a debater, a transmitir o contrário). Isso nota-se a uma grande distância. E cada vez mais. O debate de ontem é bem capaz de ter sido o ponto de viragem. A máscara estava por um fio. Ontem, caiu com grande estrondo.
PS: Logo a seguir, no Expresso da Meia Noite (SIC-N), a jactância e a sobranceria políticas marcaram novamente presença. Desta vez pela mão de Augusto Santos Silva (le petit Beria), secundado pelo aspirante Pedro Marques. Uma palhaçada inenarrável.
Da moral "Gelatina Royal"
Em Nova Iorque, um homem foi preso por alegadamente ter violado uma mulher. A vítima fez queixa à polícia e a polícia tratou do assunto, como lhe competia. Perante a acusação e os factos, um juiz de direito considerou haver ali matéria para prosseguir com o processo, tendo o alegado agressor sido formalmente acusado de sete crimes sexuais. O alegado agressor foi colocado em prisão preventiva, como prevê a lei. E também como prevê a lei, vai ter direito a defender-se da acusação e a provar a sua alegada inocência. Entretanto, a defesa do alegado agressor, também com base na lei, tentou que o juiz o libertasse sob caução. Na primeira audiência, o juiz afirmou que «ninguém seria libertado até que todas as condições fossem satisfeitas». Após uma segunda audiência, o juiz acedeu a libertar o acusado sob caução, uma vez satisfeitas as condições. Dia 6 de Junho, o alegado agressor regressará ao tribunal para uma de duas coisas: declarar-se inocente ou declarar-se culpado. Se se declarar inocente, o processo continua.
Até aqui, nada de novo. Tudo está a ser feito como mandam as regras do Direito Penal norte-americano, um dos mais desenvolvidos do mundo. Há, por isso, que esperar que processo leve o seu rumo.
O que há de novo, ou de diferente, nesta história é o facto do alegado agressor se chamar Dominique Strauss-Kahn. Esta novidade trouxe à superfície o velho relativismo e a velha hipocrisia das finíssimas e sofisticadas consciências europeias. De repente, passou-se a discutir o acessório: que DSK está a ser alvo de descriminação por ser quem é (rico, «poderoso» e, last but not least, «franciú»); que havia interesse em «tramá-lo»; que os EUA são um país «moralista», incapaz de perceber quer a complexidade das relações homem/mulher, quer a margem de tolerância e de liberdade numa relação, «tudo indica», consentida; que podemos estar na presença de uma senhora oportunista que se fez de vítima para sacar dinheiro e fama (como já vi por aí escrito: DSK nem arranhões tinha na cara e a «gaja» tem 1,82m).
Pobre e triste Europa, onde a «aristocracia» continua beneficiária líquida da complacência do «povo» (que perante as elites é invadido de mixed feelings…). Há homens e Homens, claro. É bom não esquecer. Os EUA é que insistem no erro de pensar que os cidadãos são iguais perante a lei.
PS: Pelos vistos, boa parte dos encanitamentos que por aí pululam, têm que ver com o facto dos 'media' terem exposto publicamente a figura de DSK algemado, rodeado de polícias, a entrar no tribunal, dentro do tribunal, etc. Curioso. Sobre Renato Seabra, filmado até com o uniforme prisional laranja, a generalidade das almas que agora se sentem «chocadas» nada disseram. Como nada disseram no passado, quando Michael Jackson foi detido, ou OJ Simpson, ou Madoff, ou etc. Parecem ter descoberto, agora, como funciona o sistema judicial norte-americano e como é levada a cabo a respectiva cobertura noticiosa. Esquecendo, aliás, um pormenor essencial: nos EUA, estas imagens são muitas vezes instrumentais. Por um lado, transmitem a ideia de que ninguém, nem os ricos e poderosos, estão acima da lei; por outro, são consideradas como dissuasoras. «Do you want to end up like that? No? Then, do the right thing.» É assim que as «coisas» funcionam nos EUA. Quem não gostar, paciência.
Até aqui, nada de novo. Tudo está a ser feito como mandam as regras do Direito Penal norte-americano, um dos mais desenvolvidos do mundo. Há, por isso, que esperar que processo leve o seu rumo.
O que há de novo, ou de diferente, nesta história é o facto do alegado agressor se chamar Dominique Strauss-Kahn. Esta novidade trouxe à superfície o velho relativismo e a velha hipocrisia das finíssimas e sofisticadas consciências europeias. De repente, passou-se a discutir o acessório: que DSK está a ser alvo de descriminação por ser quem é (rico, «poderoso» e, last but not least, «franciú»); que havia interesse em «tramá-lo»; que os EUA são um país «moralista», incapaz de perceber quer a complexidade das relações homem/mulher, quer a margem de tolerância e de liberdade numa relação, «tudo indica», consentida; que podemos estar na presença de uma senhora oportunista que se fez de vítima para sacar dinheiro e fama (como já vi por aí escrito: DSK nem arranhões tinha na cara e a «gaja» tem 1,82m).
Pobre e triste Europa, onde a «aristocracia» continua beneficiária líquida da complacência do «povo» (que perante as elites é invadido de mixed feelings…). Há homens e Homens, claro. É bom não esquecer. Os EUA é que insistem no erro de pensar que os cidadãos são iguais perante a lei.
PS: Pelos vistos, boa parte dos encanitamentos que por aí pululam, têm que ver com o facto dos 'media' terem exposto publicamente a figura de DSK algemado, rodeado de polícias, a entrar no tribunal, dentro do tribunal, etc. Curioso. Sobre Renato Seabra, filmado até com o uniforme prisional laranja, a generalidade das almas que agora se sentem «chocadas» nada disseram. Como nada disseram no passado, quando Michael Jackson foi detido, ou OJ Simpson, ou Madoff, ou etc. Parecem ter descoberto, agora, como funciona o sistema judicial norte-americano e como é levada a cabo a respectiva cobertura noticiosa. Esquecendo, aliás, um pormenor essencial: nos EUA, estas imagens são muitas vezes instrumentais. Por um lado, transmitem a ideia de que ninguém, nem os ricos e poderosos, estão acima da lei; por outro, são consideradas como dissuasoras. «Do you want to end up like that? No? Then, do the right thing.» É assim que as «coisas» funcionam nos EUA. Quem não gostar, paciência.
Quinta-feira, Maio 19, 2011
Quarta-feira, Maio 18, 2011
Segunda-feira, Maio 16, 2011
Não, espera: a frase não contém comparações com nazis e assim, pois não? Então está tudo bem.
Eduardo Ferro Rodrigues: «A direita é sempre a direita dos interesses e da mentira».
Pode ser que Fernanda Câncio repudie esta forma de fazer política. Não tão veementemente, mas ainda assim repudie.
Pode ser que Fernanda Câncio repudie esta forma de fazer política. Não tão veementemente, mas ainda assim repudie.
Isto anda tudo um pouco trocado
O PS ataca o PSD. O CDS ataca o PSD. O PSD ataca o CDS. O PS elogia o CDS. No meio de tudo isto, há uma evidência claríssima: ninguém sabe o que é, ou discute, o programa do PS. O PS passeia-se alegremente pela política como se tivesse estado na oposição e como se não tivesse que explicar o seu programa e as suas intenções para os próximos anos. Quem dos céus descer à terra e aterrar, por estes dias, no virtuoso e possante quintal lusitano, deparar-se-á com o seguinte cenário: um partido herói e vitimizado apelidado de Socialista, liderado por um bravo com nome de filósofo, tenta atacar os partidos responsáveis pela bancarrota do país e pelo desgoverno dos últimos… bem, de sempre. Pelo caminho, um rapaz chamado Passos Coelho, cordato nos modos e incapaz de um berro ou de um esgar de tumulto, ladeado por um bando de tontos, tenta defender-se o melhor que pode (no essencial pouco e mal) dos ataques do bravo líder socialista. O líder do partido do Centro Democrático Social, aproveita a complacência do rapaz Passos Coelho para lhe puxar as orelhas, já que o eleitorado do dono das orelhas é, digamos, apetecível.
O que eu vaticino é simples e claro como a melhor água potável: ou o rapaz Passos Coelho prega um murro na mesa, faz voz grossa ao «grande líder» com nome de filósofo (à moda de Louçã) e explica de forma clara aos portugueses o que pretende, ou está l-i-x-a-d-i-n-h-o. E não é para começar amanhã. É ontem.
O que eu vaticino é simples e claro como a melhor água potável: ou o rapaz Passos Coelho prega um murro na mesa, faz voz grossa ao «grande líder» com nome de filósofo (à moda de Louçã) e explica de forma clara aos portugueses o que pretende, ou está l-i-x-a-d-i-n-h-o. E não é para começar amanhã. É ontem.
Sábado, Maio 14, 2011
E assim é
José Sócrates pode ter feito a mais vergonhosa declaração ao país dos últimos anos (quando anunciou o acordo com a troika); pode deturpar o que está escrito no programa do PSD (de uma forma inaceitável para quem se propõe debater «com elevação»); pode insistir em argumentos mais vazios do que o bolso de um pedinte («eu fiz o meu melhor», «eu dei o meu melhor»); pode fazer truques de malabarismo com as palavras por ele proferidas («eu nunca disse que não governaria com o FMI»); pode continuar a prometer que vai fazer o contrário do que está acordado no memorando; pode fingir que não acordou com a troika uma assinalável redução da TSU e um vasto programa de privatizações («radicais» são os outros); pode insistir na história de que a bancarrota chegou do estrangeiro, numa terrível noite de inverno, a convite e com o beneplácito da oposição, ou que o endividamento é coisa dos últimos dois anos (também por culpa da «crise internacional») ou, ainda, que as correcções ao défice se ficaram a dever a alterações «metodológicas» de última hora e nunca às PPP e a outras manobras de desorçamentação; pode fazer de conta que não esteve no governo do país nos últimos seis anos; pode bancar o sonso que não conhece os artigos do FT; pode fingir que o despedimento de funcionários públicos por não pertencerem ao PS, ou de jornalistas por não obedecerem às ordens do governo, não é nada com ele; pode insultar a inteligência alheia quando afirma, agora, depois de em 2009 ter dito «o orçamento de Estado de 2009 é para ajudar as familías e as empresas, que «o desemprego é o preço a pagar pela consolidação orçamental». Pode fazer tudo isto e o mais que lhe aprouver. Ninguém investiga, põe em causa, confronta, desmonta. O que interessa é o «pintelho», é a comparação com Hitler (mesmo que restrita ao poder encantatório das massas), é o suposto «ziguezaguear» da oposição e, claro, as «pastas vazias». Quando o PSD fala, uma bateria de críticos ligados ao aparelho e ao partido do governo (nalguns casos em pose raivosa), aliada a uma fornada de «especialistas» a convite dos órgãos de comunicação social (com a TSF e a RTP à cabeça), enxameiam o éter para desmontar a «falta de experiência» do líder da oposição e as propostas «irrealistas» do mesmo. O passado, mesmo o recente, é um país estrangeiro. E do estrangeiro só queremos dinheiro. Não conversa chata. Que tudo fique na mesma, por favor. Não é tempo de mudança.
Domingo, Maio 08, 2011
What The Fins Need To Should Also Know About Portugal
After the bailout, the Portuguese get ready to re-elect the prime-minister that drove the country to bankruptcy.
Quem se coloca muito a jeito só tem que arranjar poder de encaixe
Num país pejado de conferências de imprensa, comunicações ao país e entrevistas de políticos mangas-de-alpaca, «legitimamente» eleitos pelo bom povo mas que muito devem à mediocridade, não deixa de ser curioso que Pacheco Pereira se tenha sentido fortemente incomodado com a conferência de imprensa dos «funcionários» ou «burocratas» da troika. É a velhinha dicotomia políticos-democraticamente-eleitos-que-representam-o-país (gente intrinsecamente nobre a quem devemos reverencial respeito) vs. burocratas-não-eleitos-que-representam-organizações-não-soberanas (gente mesquinha, apolítica e o mais das vezes representando interesses vis), agravada pela desvalorização de um facto: os senhores «burocratas» estiveram em Portugal como representantes de três organizações que, entre outras coisas, vieram «só» salvar o país da bancarrota. Aliás, após o visionamento do último Quadratura do Círculo, seria bom que Pacheco Pereira pusesse de parte o asco a Passos Coelho e desviasse o seu incómodo para os culpados da presença dos ímpios «burocratas». A haver humilhação, não se culpe o mensageiro.
Sábado, Maio 07, 2011
Sexta-feira, Maio 06, 2011
Sidebar
Reformulação da listinha de blogues, na sidebar. Novas entradas, actualizações, alguns regressos e a trasladação dos falecidos que deixaram saudades para o Panteão. Nas novas entradas, registo duas: Ouriquense e Mar Salgado. Explicar por que carga de água dois blogues que leio diariamente (e com prazer) nunca marcaram presença na barra lateral, é tarefa impossível. Nem eu sei explicar.
Coisas que o jornalismo tuga, em nome da sua própria dignidade, deveria investigar (e eu gostaria de saber)
Quem sussurrou aos senhores jornalistas as «mais que certas» medidas que a troika iria impor, as quais, sabe-se agora:
a) nunca estiveram em cima da mesa das negociações;
b) foram usadas pelo senhor primeiro-ministro na (vergonhosa) comunicação ao país, em registo de brilharete do governo por nos ter livrado das mesmas.
Quinta-feira, Maio 05, 2011
Coisas que têm de ser ditas até à exaustão II
No Jornal de Negócios:
Precisamente, as razões apontadas por Pedro Passos Coelho para chumbar o PEC IV - que daria lugar, passados uns meses, ao PEC V, ao PEC VI...
Kröger precisou, no entanto, que o PEC IV, chumbado pela oposição, foi um "bom ponto de partida, mas não era suficientemente abrangente". "Tinha elementos muito positivos em termos orçamentais, mas não era suficientemente profundo em termos de reformas estruturais”, acrescentou.
Precisamente, as razões apontadas por Pedro Passos Coelho para chumbar o PEC IV - que daria lugar, passados uns meses, ao PEC V, ao PEC VI...
Coisas que têm de ser ditas até à exaustão I
No Diário de Notícias:
«O líder parlamentar do PSD, Miguel Macedo, acusou o primeiro-ministro de sofrer de "cobardia política".
Isto porque Sócrates se dirigiu ao País há dois dias a anunciar o que ficou de fora do acordo com a Troika, escondendo o resto, e não assumindo as suas responsabilidades.
No caso do primeiro-ministro é cobardia política. Dirigir-se ao País a dizer o que ficou de fora é não assumir as suas responsabilidades, disse na reunião da Comissão Permanente, no Parlamento.
O primeiro-ministro escondeu que o desemprego vai subir até aos 13%, escondeu a tributação dos apoios sociais, escondeu os cortes no subsídio de desemprego, escondeu o aumento do gás e da electricidade, acrescentou.
Macedo insistiu que o desgoverno socialista deixou o país à beira da bancarrota. O Governo gastou até ao ultimo minuto e escondeu até ao ultimo segundo. Depois de reafirmar o apoio do PSD ao programa, citou os representantes internacionais para dizer que o Governo devia ter pedido ajuda mais cedo.»
Queremos mais farsa?
Os portugueses – os mais atentos – acordaram hoje, pouco a pouco, para a realidade: afinal, a comunicação de José Sócrates no intervalo do jogo Barcelona-Real Madrid, não passou de um vergonhoso discurso de campanha política. Há, afinal, medidas. Duras. Extensas. Que podem ser alvo de correcção – leia-se de agravamento – à medida que se forem aferindo os desvios, digamos, «negativos».
A pergunta a que os portugueses deveriam, neste momento, responder, é esta: vale a pena votar no homem que nos trouxe até aqui e que até no solene momento do encerramento do acordo, tentou mascarar a realidade? O grau de maturidade política de um povo passa, também, por aqui: por saber desmontar a farsa política que o primeiro-ministro do país insiste em levar à cena.
PS: Eduardo Pitta, a versão sofisticada de Emídio Rangel, escreveu isto: «Não perceber isto é não perceber o país que somos. Por isso foi importante que o primeiro-ministro tivesse vindo dizer, preto no branco, como vai ser. Ontem, milhões de portugueses puderam respirar de alívio.» Dizer «como vai ser» ou dizer «como não vai ser» e omitindo «como será»? «Milhões de portugueses puderam respirar de alívio»? Só os ingénuos, distraídos e engajadinhos. E só por umas horas.
A pergunta a que os portugueses deveriam, neste momento, responder, é esta: vale a pena votar no homem que nos trouxe até aqui e que até no solene momento do encerramento do acordo, tentou mascarar a realidade? O grau de maturidade política de um povo passa, também, por aqui: por saber desmontar a farsa política que o primeiro-ministro do país insiste em levar à cena.
PS: Eduardo Pitta, a versão sofisticada de Emídio Rangel, escreveu isto: «Não perceber isto é não perceber o país que somos. Por isso foi importante que o primeiro-ministro tivesse vindo dizer, preto no branco, como vai ser. Ontem, milhões de portugueses puderam respirar de alívio.» Dizer «como vai ser» ou dizer «como não vai ser» e omitindo «como será»? «Milhões de portugueses puderam respirar de alívio»? Só os ingénuos, distraídos e engajadinhos. E só por umas horas.
Da série “Portuguese School of Commentary”
Após a entrevista de Pedro Passos Coelho, Raul Vaz, na RTP-N, tentou dissertar sobre a falta de «killer instinct» do líder do PSD.
Replica
Caro Henrique,
Entenda-me: eu estive, e estou, consigo na crítica a uma certa escola portuguesa de comentário político, bafientazinha na sua mesquinhez, contentinha com o seu umbigo e medrosa quando toca a melindrar o poder. Apenas contestei, especificamente, o seu reparo à converseta dos «tiros nos pés». Os tiros ocorreram. Cometeram-se erros, nalguns casos não propriamente despicientes (e que se podem pagar caro). Falar disso é útil, legítimo e inevitável, dado o aflitivo diferimento, que parece de natureza perene, do aumento das intenções de voto no principal partido alternativa ao Partido Socialista. Não me parece razoável, para não dizer exequível, que o desnível de ordem moral entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho, que é notório e nos meus argumentos nunca esteve em causa, possa servir como moeda de troca para extinguir ou desvalorizar as críticas às pontuais mas aflitivas inépcias políticas deste PSD. Não está em causa, nem foi sobre isso que aqui falei, a desonestidade inerente a qualquer equivalência moral entre a demagogia, o cinismo e a conduta absolutamente cretina de José Sócrates, e a ingenuidade/falta de jeito/amadorismo de Pedro Passos Coelho. A diferença de que se deve falar não é esta – que é incontestável e tem o seu peso – mas outra: a que respeita à eficácia do discurso político, que passa, também, pela boa e sábia utilização do espaço público (que é livre quanto baste). Manuela Ferreira Leite perdeu umas eleições carregada de razão e de moral. Não gostaria que a história se repetisse. É a diferença entre saber que se tem razão e convencer os outros de que se tem razão, mesmo, ou sobretudo, no mar imenso de desonestidade no debate público (que é o coeficiente linear nesta equação).
Por último, não defendi uma total incompatibilidade entre uma certa ideia de liberalismo e a sociedade portuguesa. O que eu digo é que um bom político (no mais nobre sentido do termo, e não no sentido manhoso do Eng. Pinto de Sousa) é também aquele que sabe em que sociedade está inserido e para quem está a falar. A mudança de uma sociedade tendencialmente «conservadora» (aqui como adjectivo e no sentido de «atrasada») para uma sociedade «liberal» (no sentido da crescente e decisiva emancipação da sociedade civil relativamente ao Estado e às suas instituições) fará o seu curso lento e sinuoso, se necessário for contra os discursos voluntariamente «inovadores» e parcos em prudência.
Abraço,
Carlos
Entenda-me: eu estive, e estou, consigo na crítica a uma certa escola portuguesa de comentário político, bafientazinha na sua mesquinhez, contentinha com o seu umbigo e medrosa quando toca a melindrar o poder. Apenas contestei, especificamente, o seu reparo à converseta dos «tiros nos pés». Os tiros ocorreram. Cometeram-se erros, nalguns casos não propriamente despicientes (e que se podem pagar caro). Falar disso é útil, legítimo e inevitável, dado o aflitivo diferimento, que parece de natureza perene, do aumento das intenções de voto no principal partido alternativa ao Partido Socialista. Não me parece razoável, para não dizer exequível, que o desnível de ordem moral entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho, que é notório e nos meus argumentos nunca esteve em causa, possa servir como moeda de troca para extinguir ou desvalorizar as críticas às pontuais mas aflitivas inépcias políticas deste PSD. Não está em causa, nem foi sobre isso que aqui falei, a desonestidade inerente a qualquer equivalência moral entre a demagogia, o cinismo e a conduta absolutamente cretina de José Sócrates, e a ingenuidade/falta de jeito/amadorismo de Pedro Passos Coelho. A diferença de que se deve falar não é esta – que é incontestável e tem o seu peso – mas outra: a que respeita à eficácia do discurso político, que passa, também, pela boa e sábia utilização do espaço público (que é livre quanto baste). Manuela Ferreira Leite perdeu umas eleições carregada de razão e de moral. Não gostaria que a história se repetisse. É a diferença entre saber que se tem razão e convencer os outros de que se tem razão, mesmo, ou sobretudo, no mar imenso de desonestidade no debate público (que é o coeficiente linear nesta equação).
Por último, não defendi uma total incompatibilidade entre uma certa ideia de liberalismo e a sociedade portuguesa. O que eu digo é que um bom político (no mais nobre sentido do termo, e não no sentido manhoso do Eng. Pinto de Sousa) é também aquele que sabe em que sociedade está inserido e para quem está a falar. A mudança de uma sociedade tendencialmente «conservadora» (aqui como adjectivo e no sentido de «atrasada») para uma sociedade «liberal» (no sentido da crescente e decisiva emancipação da sociedade civil relativamente ao Estado e às suas instituições) fará o seu curso lento e sinuoso, se necessário for contra os discursos voluntariamente «inovadores» e parcos em prudência.
Abraço,
Carlos
Quarta-feira, Maio 04, 2011
Sem emenda
José Sócrates falou ao país sobre as medidas que não constam de um, segundo o tom do discurso, quase hipotético «regaste» do FMI, deixando no ar a ideia de que o PEC IV assoberbou os responsáveis da troika. Quem ouviu o primeiro-ministro naquele momento pode ser levado a pensar que, no final, graças ao «esforço do governo», acabámos nós a explicar ao FMI, à CE e ao BCE como queríamos as coisas, ao que nos disseram «tomem lá 80 mil milhões de euros e vão à vossa vida».
José Sócrates, que a 28 de Abril dizia «vamos ter saudades do PEC IV», voltou ao seu habitual número de trafulha: dizer o que lhe convém na qualidade de candidato e emudecer relativamente ao que devia ter dito na qualidade de primeiro-ministro responsável e com respeito pelos cidadãos. De caminho, para a farsa, arrastou o ministro das Finanças para a fotografia na qualidade de bibelô. No mínimo, caricato.
Nos próximos dias, os portugueses vão acordar para a realidade. Pode ser que consigam sobreviver a mais esta dose de anestesia que o Sr. Eng. lhes tentou administrar. Uma coisa é, contudo, certa: o homem é um artista de se lhe tirar o chapéu. Começo a ter pena de Pedro Passos Coelho.
PS: Registo a forma cândida como alguns comentadores trataram de sorver, como quem sorve um sorvete de limão no pico do Verão, a versão rosácea da comunicação ao país. Fez-me lembrar o "Les Sucettes" do Gainsbourg.
José Sócrates, que a 28 de Abril dizia «vamos ter saudades do PEC IV», voltou ao seu habitual número de trafulha: dizer o que lhe convém na qualidade de candidato e emudecer relativamente ao que devia ter dito na qualidade de primeiro-ministro responsável e com respeito pelos cidadãos. De caminho, para a farsa, arrastou o ministro das Finanças para a fotografia na qualidade de bibelô. No mínimo, caricato.
Nos próximos dias, os portugueses vão acordar para a realidade. Pode ser que consigam sobreviver a mais esta dose de anestesia que o Sr. Eng. lhes tentou administrar. Uma coisa é, contudo, certa: o homem é um artista de se lhe tirar o chapéu. Começo a ter pena de Pedro Passos Coelho.
PS: Registo a forma cândida como alguns comentadores trataram de sorver, como quem sorve um sorvete de limão no pico do Verão, a versão rosácea da comunicação ao país. Fez-me lembrar o "Les Sucettes" do Gainsbourg.
Terça-feira, Maio 03, 2011
Num país decente
Num país decente, os directores, administradores, autarcas, governantes – gente vulgar e popularmente designada de «os que estão no poleiro» - seriam os primeiros a autoavaliar o seu desempenho e a autocensurar a sua má conduta recorrendo à ética ou a artifícios mais triviais como a vergonha e o pudor. Exemplo: num país decente, os acontecimentos que ocorreram no Fórum TSF do dia 28 de Abril, em que esteve presente o primeiro-ministro ou o candidato socialista a primeiro-ministro (estatuto impossível de esclarecer), levariam à demissão do director da estação. As justificações ou explicações adiantadas por Paulo Baldaia no Facebook, para além de pífias, acentuam o retrato dessa falta de sentido de probidade e de dignidade.
Segunda-feira, Maio 02, 2011
O homem impossível
In May 1941, Philip Larkin was the treasurer of the Oxford University English Club and in that capacity had to take the visiting speaker George Orwell out to dinner after he had addressed the membership on the subject of “Literature and Totalitarianism.” Larkin’s main recollection: “We took Dylan Thomas to the Randolph and George Orwell to the not-so-good hotel. I suppose it was my first essay in practical criticism.”Aqui.
Domingo, Maio 01, 2011
I cretini
Que comentários me suscita este arrojo de cartaz:
Poucos. Só os mais distraídos ainda não repararam na indigência intelectual, sob contexto ideológico supostamente claro, intenso e sagaz, de um partido que sempre se recusou, até hoje, a explicar o que faria e como o faria caso tivesse responsabilidades de poder e, logo, de decisão. Assola-me a singular dúvida de saber quantos é que, no partido, ainda não se terão apercebido da vacuidade programática e pragmática do que é propalado, navegando ainda no pacato mar da ingenuidade, ao largo da enseada de cinismo onde se encontram estacionados Francisco Louçã e restantes dirigentes - apesar de uns e outros não prescindirem da luxuriante e trauliteira parafernália de soundbites que o partido promove.
Há os sátiros, como Boaventura Sousa Santos, que defendem o melhor de dois mundos: não pagar a dívida, que é «especulativa» e nada tem que ver connosco, e aceitar de bom grado o pilim do FMI. E há o Bloco: um partido inimputável, intelectualmente entufado e demagógico, que sabe que nunca terá que prestar contas das suas opções políticas.
Poucos. Só os mais distraídos ainda não repararam na indigência intelectual, sob contexto ideológico supostamente claro, intenso e sagaz, de um partido que sempre se recusou, até hoje, a explicar o que faria e como o faria caso tivesse responsabilidades de poder e, logo, de decisão. Assola-me a singular dúvida de saber quantos é que, no partido, ainda não se terão apercebido da vacuidade programática e pragmática do que é propalado, navegando ainda no pacato mar da ingenuidade, ao largo da enseada de cinismo onde se encontram estacionados Francisco Louçã e restantes dirigentes - apesar de uns e outros não prescindirem da luxuriante e trauliteira parafernália de soundbites que o partido promove.
Há os sátiros, como Boaventura Sousa Santos, que defendem o melhor de dois mundos: não pagar a dívida, que é «especulativa» e nada tem que ver connosco, e aceitar de bom grado o pilim do FMI. E há o Bloco: um partido inimputável, intelectualmente entufado e demagógico, que sabe que nunca terá que prestar contas das suas opções políticas.
Ao cuidado da Quercus, do Greenpeace e do Ministério do Ambiente
Empresário promotor de projectos de diversão vai inaugurar, em Julho de 2011, o Nature Waterpark. Segundo o próprio, será o primeiro parque ecológico do país. Para a inauguração do parque ecológico, o empresário arriscou um oxímoro: estão confirmadas as presenças dos Europe, de Samantha Fox e de Tony Carreira.
Sábado, Abril 30, 2011
Coitadinho do crocodilo
Capoulas Santos, vice-presidente da comissão política do PS e caceteiro de serviço ao partido, considerou hoje, Sábado, ser "absolutamente inqualificável" a "forma caluniosa" e "grosseira" como Eduardo Catroga, responsável pelo programa eleitoral do PSD, se dirigiu ao Governo e ao primeiro-ministro.
Isto equivale ao caso do rufia encartado que, perante uma escolha mais acutilante de palavras por parte de uma pessoa que sempre pautou a sua conduta pela educação e sobriedade, acha ter moral para o admoestar na qualidade de santo. Shame on you, Sr. Capoulas Santos.
Isto equivale ao caso do rufia encartado que, perante uma escolha mais acutilante de palavras por parte de uma pessoa que sempre pautou a sua conduta pela educação e sobriedade, acha ter moral para o admoestar na qualidade de santo. Shame on you, Sr. Capoulas Santos.
5 de Junho
Pegando no mote do João Miranda, e na qualidade de eleitor de direita:
- Já percebi que o país faliu;
- Já percebi as consequências da falência;
- Não quero manter o Estado Social tal como está, na mesma medida em que sei que não podemos «acabar» com ele;
- Sou a favor de medidas para ajudar os pobres, sobretudo as que envolvam o esforço dos próprios (embora não apenas as que envolvam o esforço dos próprios, porque sei que há pobres, sobretudo os mais idosos, sem capacidade própria para esforços);
- Acho que se deve mexer na escola pública, no SNS, na segurança social e no subsídio de desemprego, desde que a «mexida» não seja encimada nem pela ideologia do «o que é público é que é bom e santificado, e o subsídio de desemprego é um bem absoluto», nem pela ideologia do «o que é privado é que é bom e santificado, e o subsídio de desemprego só serve para dar cobertura a mandriões».
Quem se mete com o PS, leva
Eduardo Cintra Torres, Público (via Portugal dos Pequeninos):
«A TVI lá fez mais uma entrevista a Sócrates, ajeitando-se à agenda do líder do PS. Como se comprovou no final, a entrevista foi, para o país, totalmente inútil. Zero de conteúdo. Quaisquer que sejam as perguntas, ele repete à exaustão as mesmas cinco frases memorizadas. Hábil a intimidar entrevistadores, ignora-lhes as perguntas, debitando o menu decorado e queimando tempo.
Judite Sousa não colocou diversas perguntas importantes e não obteve respostas às que colocou. Resultado: um festival de propaganda pessoal, mais um em poucas semanas. Sócrates só falou de si mesmo — o seu tema preferido — ou repetiu as cinco frases combinadas lá na Central de Propaganda. E, ajudado pela entrevistadora, alimentou a agora habitual confusão total entre primeiro-ministro e secretário-geral do PS.
A estranha última pergunta de Sousa sobre a vida privada de Sócrates foi colocada ao secretário-geral do PS na sede do governo de Portugal. Sousa apresentou Sócrates como “divorciado” e “com dois filhos” e perguntou-lhe se “tenciona fazer campanha eleitoral com a família”. Recorde-se que nas presidenciais apareceram familiares de todos os candidatos nas campanhas e nenhum jornalista, nem Sousa, os interrogou sobre isso.
A pergunta permitiu a Sócrates fazer exactamente o que disse que não vai fazer: usar os filhos. Mencionou duas vezes o “amor aos meus filhos”. Disse também “sempre os procurei proteger”. Ora, na campanha de 2009, em entrevista à SIC, Sócrates fez “referências premeditadas” aos filhos (como lhes chamou então um dirigente da agência de comunicação LPM). Também a sua vida privada foi usada em ocasiões escolhidas a dedo ao longo dos anos. Mais de uma vez as revistas cor-de-rosa souberam com antecipação onde ele estaria em momentos “privados” com uma alegada namorada; e numa entrevista ao Diário de Notícias na campanha de 2009 ele falou da alegada namorada (i, 21.09.09).
Na acção mediática de Sócrates não há nada, mas rigorosamente nada, que surja ao acaso. As “respostas” em entrevistas são frases decoradas. Toda a sua agenda e a do Estado que comanda estão planeadas para obter ou evitar efeitos mediáticos. Por exemplo, a correcção para baixo do défice foi divulgada pelo INE no sábado de Páscoa, com o país político ausente. A gestão de danos é brilhante: a Central obliterou Teixeira dos Santos dos media quando este, a bem de Portugal, traiu Sócrates e falou da necessidade da ajuda externa.
A Central vai debitando diariamente pequenos “casos” para a imprensa: através de dirigentes e outras figuras do PS (as ordinarices de Lello não são “arreliadoras deficiências tecnológicas” mas declarações públicas calculadas, cabendo a Lello o papel de abandalhar os políticos em geral); ou através de “fontes”, ou nem isso, como nas campanhas negras na Internet. Essa acção permanente da Central, 24 horas por dia, desgasta os adversários, em especial o principal partido da oposição, sem a mínima preparação para enfrentar uma organização profissionalíssima, que hoje atingiu a dimensão de um embrião de polícia política de informações, agindo exclusivamente através dos media e Internet, directamente ou através de apaniguados ou ingénuos.
O desgaste dos adversários ainda está no princípio. Dado que Cavaco Silva e os ex-presidentes pediram uma campanha eleitoral esclarecedora, caberá à Central de Propaganda oculta e semi-secreta ao serviço do PS encher os media e a blogosfera de “casos”, invenções, mentiras, factóides descontextualizados, etc. Esta Central tem acesso a informações, por métodos quase científicos de busca, selecção e organização de informações, a que os jornalistas não têm ou não podem ter acesso, ou nem sonham que existem. A Central conhece o passado de todos quantos agem no espaço público e ousam desagradar ao PS-Governo. A Internet é usada para divulgar elementos “comprometedores” da sua vida. Fernando Nobre e família foram alvo desses ataques mal ele se candidatou pelo PSD. Nos EUA tem crescido igual tipo de desinformação, como a campanha negra por republicanos mais primários de “dúvidas” acerca da nacionalidade de Obama.
A brutalidade da desinformação e das campanhas negras atinge não só os adversários políticos, mas todos os que exerçam livremente a liberdade de expressão. Como o PS-Governo vive exclusivamente dos media, a Central visa em especial os comentadores e jornalistas que considere fazerem algo negativo para os seus interesses.
A jornalista Sofia Branco foi recentemente demitida de editora na agência LUSA por se ter recusado, com critérios editoriais, a pôr em linha uma “notícia” oriunda da Central de Propaganda. Recorde-se que o director de Informação da LUSA foi uma escolha pessoal de Sócrates e que o seu administrador principal é amigo pessoal de Sócrates. A demissão teve carácter de exemplo, pois visa recordar a todos os jornalistas, começando pelos da LUSA, que “quem se mete com o PS leva”.
O caso revela a Central em acção. Uma correspondente da LUSA recolheu uma declaração dum assessor do primeiro-ministro que este atribuiu a Sócrates. A editora da LUSA não quis divulgar declarações dum assessor como se fossem de Sócrates (dado que não eram de Sócrates!); disponibilizou-se para ouvi-las do próprio, mas o assessor negou a hipótese. A editora rejeitou a “notícia”. Acontece que a Central precisava que a “notícia” fosse vomitada para os media naquele dia; por isso, a chefia da LUSA soube logo do caso e colocou a “notícia” em linha; a editora foi liminarmente demitida, retaliação que já seria de dureza totalmente desajustada ao normal funcionamento de uma redacção se a editora tivesse procedido mal. No dia seguinte, Sócrates disse a tal frase que fora dita pelo assessor: é o habitual processo de inculcação pela repetição.
Sofia Branco foi demitida por ser jornalista. Se houve “quebra de confiança”, como a direcção socretista da LUSA invocou, não foi no profissionalismo da editora, mas sim quebra de confiança da Central de Propaganda numa jornalista que agiu como jornalista. “Hoje, 27 anos depois do 25 de Abril, faz-se jornalismo com medo”, disse Sofia Branco ao P2 (25.04).
A pressão infernal sobre os jornalistas deu resultados extraordinários nestes seis anos. Somada a campanhas negras e cumplicidades no seio dos media, permitiu a Sócrates ganhar em 2009 e está a permitir-lhe recuperar nas sondagens em 2011.
A estratégia da Central para esta campanha já está delineada. Um dos elementos tem passado despercebido: através de pessoas como Lello e de comentários anónimos produzidos pela Central e despejados na blogosfera e caixas de comentários, repete-se a ideia de que os políticos são todos iguais, todos corruptos, nem vale a pena ir votar. A Central sabe que a percentagem do PS pode subir se a abstenção crescer. O paradoxo de um partido fomentar subrepticiamente a abstenção explica-se: como os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição, neutralizá-los diminui os votos nos outros e aumenta a proporção relativa do núcleo duro dos eleitores do PS.
Outro elemento que favorecerá essa estratégia será a habitual forma de as televisões cobrirem as campanhas na estrada. Apesar da crise no país, é provável que a cobertura televisiva se concentre, como habitualmente, nos almoços da “carne assada”, nas declarações da velhota na rua, do comerciante à porta, do militante de reduzida inteligência, no “isto está uma loucura” do jornalista empurrado por jornalistas, etc. Enfim, fait-divers sem conteúdo político e sem relação com o discurso dos responsáveis partidários.
Se as televisões juntarem às habituais reportagens da “carne assada” e da velha que grita na rua alguma cobertura aos “casos” emanados da Central, estará lançada a confusão que serve um único entre todos os partidos: o PS-Governo. Tudo o que não esclareça políticas, divirja para os “casos” do dia e para o diz-que-disse, em que a Central tem mestria absoluta, servirá para impedir um esclarecimento mínimo (desfavorável a quem governou) e para induzir descontentes a absterem-se. Se fizerem uma cobertura das campanhas como a de 2009, as televisões estarão a colaborar, não indirecta, mas directamente com a governação dos últimos anos e com a aplicação concreta, diária, da estratégia de desinformação e propaganda.»
Alto e pára o baile!
Nem só de autóctones vive a música pimba: dia 10 de Julho, no pavilhão Atlântico, Michael Bolton & Kenny G. Pedir mais é impossível.
Um wishful thinking seguido de um ou dois comentários
1. Seria bom que os votos dos portugueses permitissem que, juntos, PSD e CDS formassem uma maioria absoluta no parlamento. Significaria o fim dessa sinistra figura política chamada José Sócrates, que enganou, enganou, enganou, enganou e continua a enganar (vide programa eleitoral do PS, uma peça inédita de amnésia e de falta de vergonha). E significaria uma sonora chapada nessa mesquinha, languenta e patética ideia dos «consensos».
2. O Henrique crítica a escola de comentário portuguesa. Estou com ele mas. Entendamo-nos, caro Henrique: a coisa dos «tiros nos pés» é, desgraçadamente, real. E sim, é mesmo verdade: em política, sobretudo na política e no país de hoje (que são os que temos, para já), a imagem, os sinais e a forma contam. É de uma tremenda ingenuidade pensar-se que, numa imberbe democracia de trinta e sete anos, e num país ainda iletrado (esqueçamos as estatísticas do sucesso escolar) e politicamente ignorante (capaz de «engolir» as mais diversas patranhas), o tacto e a prudência possam ser dispensados. O que tem faltado a Pedro Passos Coelho não é cinismo: é tacto político para perceber que país é este e que pessoas (eleitores) são estas. Ainda não é possível ganhar eleições em Portugal proclamando ideias «liberais», de clara emancipação dos cidadãos relativamente ao Estado, quando estas trazem agarradas propostas avulsas, pouco ou mal explicadas, que configuram aquilo a que poderíamos chamar, agora cinicamente, de «perda efectiva de direitos sociais» (um slogan que a esquerda gosta de usar e o português médio respeita) ou quando pura e simplesmente não têm contacto com a realidade. Não há massa crítica suficiente para perscrutar a bondade de medidas que são tratadas pela rama por uma simplista e simplória comunicação social, e apenas devidamente explicadas (quando o chegam a ser) em local restrito ou obscuro. A plateia não é constituída por quem escolheu assistir, por sua livre vontade, a um workshop da escola de Chicago. Por muito que nos custe aceitá-lo, caro Henrique, o português médio não está «maduro» para perceber que tem de mudar de vida – para «pior», acha ele - e continua piamente convencido de que este regabofe a que chamaram «democracia» - um sistema que, pelos vistos, fomenta desvarios e amplifica fraquezas humanas – precisa de mão firme e orientação paternal (boa parte da «boa» imagem de Sócrates ainda passa por aí). No fundo, Henrique, como eu escrevi há dois anos atrás, Portugal é um país com uma tradição liberal residual. O ADN dos portugueses tem um pendor esquerdista – como escreveu a Helena Matos, o PS constitui, ainda hoje, uma espécie de partido natural de poder – indutor de relações de desconfiança, para não dizer de rejeição, com quem proclama reduções no alcance do bendito e querido Estado Providência (que é pai e senhor, como sabes). É a vida.
3. Pretendo, ou defendo, o quê, então? Fingimento? Cinismo? Repito: tacto. Cabecinha. Massa cinzenta. Trabalho. E um tipo de firmeza e consistência que não rime nem com pusilanimidade, nem com guerrilha politica rasteira, própria de arrivistas (e Pedro Passos Coelho não é um arrivista). Aquilo que ainda aguardamos – o programa eleitoral do PSD – já deveria estar há muito incrustado na opinião pública. Pedro Passos Coelho deveria ter criado, em 2010, um governo sombra que não deixasse na paz dos anjos os ministros e as políticas (sobretudo a falta delas) do senhor engenheiro. Com caras de peso, críticas felinas, propostas objectivas e não titubeantes. Não foi isso que tivemos. Não é isso que temos. O terreno tem sido o ideal para os doutores do spin aproveitarem as fraquezas e amedrontarem as massas (as da Buitoni não são más).
2. O Henrique crítica a escola de comentário portuguesa. Estou com ele mas. Entendamo-nos, caro Henrique: a coisa dos «tiros nos pés» é, desgraçadamente, real. E sim, é mesmo verdade: em política, sobretudo na política e no país de hoje (que são os que temos, para já), a imagem, os sinais e a forma contam. É de uma tremenda ingenuidade pensar-se que, numa imberbe democracia de trinta e sete anos, e num país ainda iletrado (esqueçamos as estatísticas do sucesso escolar) e politicamente ignorante (capaz de «engolir» as mais diversas patranhas), o tacto e a prudência possam ser dispensados. O que tem faltado a Pedro Passos Coelho não é cinismo: é tacto político para perceber que país é este e que pessoas (eleitores) são estas. Ainda não é possível ganhar eleições em Portugal proclamando ideias «liberais», de clara emancipação dos cidadãos relativamente ao Estado, quando estas trazem agarradas propostas avulsas, pouco ou mal explicadas, que configuram aquilo a que poderíamos chamar, agora cinicamente, de «perda efectiva de direitos sociais» (um slogan que a esquerda gosta de usar e o português médio respeita) ou quando pura e simplesmente não têm contacto com a realidade. Não há massa crítica suficiente para perscrutar a bondade de medidas que são tratadas pela rama por uma simplista e simplória comunicação social, e apenas devidamente explicadas (quando o chegam a ser) em local restrito ou obscuro. A plateia não é constituída por quem escolheu assistir, por sua livre vontade, a um workshop da escola de Chicago. Por muito que nos custe aceitá-lo, caro Henrique, o português médio não está «maduro» para perceber que tem de mudar de vida – para «pior», acha ele - e continua piamente convencido de que este regabofe a que chamaram «democracia» - um sistema que, pelos vistos, fomenta desvarios e amplifica fraquezas humanas – precisa de mão firme e orientação paternal (boa parte da «boa» imagem de Sócrates ainda passa por aí). No fundo, Henrique, como eu escrevi há dois anos atrás, Portugal é um país com uma tradição liberal residual. O ADN dos portugueses tem um pendor esquerdista – como escreveu a Helena Matos, o PS constitui, ainda hoje, uma espécie de partido natural de poder – indutor de relações de desconfiança, para não dizer de rejeição, com quem proclama reduções no alcance do bendito e querido Estado Providência (que é pai e senhor, como sabes). É a vida.
3. Pretendo, ou defendo, o quê, então? Fingimento? Cinismo? Repito: tacto. Cabecinha. Massa cinzenta. Trabalho. E um tipo de firmeza e consistência que não rime nem com pusilanimidade, nem com guerrilha politica rasteira, própria de arrivistas (e Pedro Passos Coelho não é um arrivista). Aquilo que ainda aguardamos – o programa eleitoral do PSD – já deveria estar há muito incrustado na opinião pública. Pedro Passos Coelho deveria ter criado, em 2010, um governo sombra que não deixasse na paz dos anjos os ministros e as políticas (sobretudo a falta delas) do senhor engenheiro. Com caras de peso, críticas felinas, propostas objectivas e não titubeantes. Não foi isso que tivemos. Não é isso que temos. O terreno tem sido o ideal para os doutores do spin aproveitarem as fraquezas e amedrontarem as massas (as da Buitoni não são más).
Quinta-feira, Abril 28, 2011
A culpa não é da comunicação social
Antes de vos comunicar algo de espectacular sobre o assunto em epígrafe, que reputo de algum lustre para o país, deixem-me dizer o seguinte: a culpa de o PSD não descolar do PS nas intenções de voto, não é da comunicação social. É, acima de tudo o resto, da actual direcção do PSD.
A ideia de remover, como quem remove um tumor, o Eng. Sócrates da cadeira do poder é, digamos, reconfortante. Mas a vida conserva resistências. Em política, não basta coadjuvar a propulsão com o combustível do descontentamento. Mesmo que não sejamos donos de um cérebro que nos habilite a compor odes ou a resolver problemas matemáticos, facilmente detectamos a seguinte evidência: a performance política do PSD, no que toca ao poder de «mobilização» (palavra feia, eu sei), tem sido miserável. Não de um tipo de miséria meneziana ou santanista, vazia de conteúdo, mas de uma miséria saturada de inconsistência programática e ausência de gravitas.
Mês após mês, o PSD tem picado alegremente, uma a uma, as check boxes da checklist “O que fazer caso se pretenda perder eleições contra um primeiro-ministro que está no poder há seis anos e deixou o país de calças na mão”. No mínimo, primoroso. No máximo, trágico.
Aflige a complacência com que o PSD tem tratado o governo, confundindo guerrilha politiqueira (campo onde o PS é campeão e o Dr. Miguel Relvas um menino de coro), com objectividade e frontalidade. Aflige a forma amadora e preguiçosa como tem tentado desmontar o argumentário socialista (na essência mais que paupérrimo), dando a imagem de não ter ideias concretas, sólidas e amplamente pensadas (repare-se, por oposição, na dinâmica discreta e eficaz do CDS). Aflige a forma imprudente como cauciona pseudo-think tanks (o Movimento Mais Sociedade é um bom exemplo) e deixa à solta gente certamente honesta mas politicamente inepta (como Leite de Campos), que lançam para o ar autênticas bombas programáticas para consumo de uma opinião pública já em estado de pré-colapso nervoso e não propriamente habilitada a decompor a mensagem na sua intrinseca e inelutável bondade. Aflige a forma como Pedro Passos Coelho não congrega personalidades políticas de peso (não me refiro a barões e baronetes, mas a gente com créditos firmados na sociedade portuguesa) e insiste em fazer-se acompanhar por figuras menores, que só o prejudicam. Aflige a apetência para os tirinhos de pólvora no pé e para tiros de bazuca (Fernando Nobre) no corpo inteiro.
Dito isto, convém dissertar sobre um fenómeno que, não sendo inédito na democracia portuguesa, atinge por estes dias máximos históricos: o governo demissionário está literalmente a ser levado ao colo pela comunicação social.
A comunicação social portuguesa (perdoem-me a generalização), apoiada na máquina de propaganda em que se transformou a Lusa (aqui sem pedido de perdão), anda a praticar há muitos meses, e sem pudor ou vergonha, um indolente churnalism.
As recentes notícias sobre a «execução orçamental» foram disso um bom exemplo. Tudo é engolido sem que se questionem os números, as fontes e os critérios. Há uma semana atrás, o Público, como que respondendo a esta notícia do Jornal de Negócios (não fosse o senhor primeiro-ministro fica aborrecido), publicava o seguinte:
Em Portugal, o jornalismo resume-se, em boa parte, a isto. O secretário de Estado «garantiu» aos jornalistas; o Gabinete do primeiro-ministro «nega»; o primeiro-ministro «assegura». Eles mandam dizer, o jornalista engole e publica. Ponto. Publish ou perish?
Ontem, na TVI, para além do pavão que, lá fora, gritava sempre que o primeiro-ministro atingia níveis inauditos de demagogia, a pavoa-jornalista que entrevistava o pavão-político fez questão, por defeito profissional (muitos anos na RTP é o que dá), de estender uma passadeira vermelha ao candidato do PS. A forma como Judite de Sousa emudeceu nas questões chave e tentou, de forma pueril e inconsistente, dar ares de entrevistadora-rija nas questões da politiquice, prova bem a que ponto o nosso jornalismo baixou os braços e se rendeu à lenga-lenga da dita politiquice: «eu sou incomensuravelmente bom; eu fiz o meu melhor; a oposição é um nojo; se culpas houver, há que reparti-las por toda a gente, cá e lá fora.»
Duas ou três explicações podem ser adiantadas para o que se está a passar.
A primeira, digamos, «histórica», é a de que o jornalismo em Portugal foi, desde sempre, fraco no seu papel de escrutinador, ainda que pontuado por jornalistas (poucos) de boa cepa. Ou seja: o lastro é longo e indelével. Dou um exemplo. Há anos, ou décadas, que a esquerda dita «progressista» proclama o seu amor pelo «modelo nórdico». O «Estado Social» nórdico é o nirvana dos socialistas «modernos». A «excelência» dos serviços de saúde e do sistema de educação «nórdicos», são o sonho húmido da esquerda bem pensante, na mesma medida que a ideia de introduzir um sistema de «plafonamento» na Segurança Social para as pensões mais elevadas, é um pesadelo com direito a danos cerebrais. Em boa verdade, a ideia do «fantástico modelo nórdico» foi mais ou menos assimilada na generalidade da população que, digamos, ainda lê jornais. Pergunta-se: alguém na comunicação social portuguesa esteve ou está interessado em perceber, in loco, o que é e como funciona o «modelo nórdico»? Algum jornalista se lembrou de estudar o «modelo nórdico»? Em Portugal há um manto de desinformação consentida e de ignorância deliberada em relação ao exterior, que promove, há décadas, o embrutecimento atávico das mentalidades e a cristalização rançosa das consciências (daí, também, a nostalgia bacoca em torno do desgraçado do Zeca e dos «amanhãs que cantam»). Em muito boa medida, a classe jornalística portuguesa é simultaneamente agente e produto deste situacionismo.
A segunda, mais, digamos, «corporativa», é a de que a generalidade das redacções é afectada por um pendor ideológico, que as impede, por preguiça e complacência, de fazer o trabalhinho de casa quando o que está em causa é o modus operandi de entidades representativas de determinado quadrante político. Repare-se na diferença entre a histeria em torno da escolha de Fernando Nobre (apesar de se tratar de uma escolha caricata, não merecia o chinfrim) e a indulgente indiferença com que trataram a escolha de Ricardo Rodrigues.
A terceira, mais, digamos, «conspirativa», é a de que a máquina tentacular do Partido Socialista, liderada por um Secretário Geral especialista na propaganda e no manuseio hábil de instrumentos subtis de intimidação, é extremamente eficaz na forma como satura o éter de arrumadas explicaçõezinhas, pujantes simplismos encantatórios («eu fiz o meu melhor», «eu lutei até ao fim», «o PS defendeu o interesse nacional», «o PS é a favor do Estado Social», etc.) e malabarismos matemáticos (e metodológicos...), sem que alguém ouse questionar o porquê e mande aferir da fidedignidade.
Deixado literalmente «à solta» por uma comunicação social viciada em óxido nitroso, este governo - o primeiro-ministro, os ministros Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva e Jorge Lacão e, last but not least, o Dr. Francisco Assis, elevado de forma insondável à categoria de grande intelectual e príncipe da política – transfigurou-se numa vertiginosa máquina de spin e de contra-informação, gerindo e controlando, minuto a minuto, o espaço informativo.
Sim, é verdade: isto não explica o posicionamento do PSD nas sondagens. Mas convém perceber o que se está a passar. Para memória futura.
A ideia de remover, como quem remove um tumor, o Eng. Sócrates da cadeira do poder é, digamos, reconfortante. Mas a vida conserva resistências. Em política, não basta coadjuvar a propulsão com o combustível do descontentamento. Mesmo que não sejamos donos de um cérebro que nos habilite a compor odes ou a resolver problemas matemáticos, facilmente detectamos a seguinte evidência: a performance política do PSD, no que toca ao poder de «mobilização» (palavra feia, eu sei), tem sido miserável. Não de um tipo de miséria meneziana ou santanista, vazia de conteúdo, mas de uma miséria saturada de inconsistência programática e ausência de gravitas.
Mês após mês, o PSD tem picado alegremente, uma a uma, as check boxes da checklist “O que fazer caso se pretenda perder eleições contra um primeiro-ministro que está no poder há seis anos e deixou o país de calças na mão”. No mínimo, primoroso. No máximo, trágico.
Aflige a complacência com que o PSD tem tratado o governo, confundindo guerrilha politiqueira (campo onde o PS é campeão e o Dr. Miguel Relvas um menino de coro), com objectividade e frontalidade. Aflige a forma amadora e preguiçosa como tem tentado desmontar o argumentário socialista (na essência mais que paupérrimo), dando a imagem de não ter ideias concretas, sólidas e amplamente pensadas (repare-se, por oposição, na dinâmica discreta e eficaz do CDS). Aflige a forma imprudente como cauciona pseudo-think tanks (o Movimento Mais Sociedade é um bom exemplo) e deixa à solta gente certamente honesta mas politicamente inepta (como Leite de Campos), que lançam para o ar autênticas bombas programáticas para consumo de uma opinião pública já em estado de pré-colapso nervoso e não propriamente habilitada a decompor a mensagem na sua intrinseca e inelutável bondade. Aflige a forma como Pedro Passos Coelho não congrega personalidades políticas de peso (não me refiro a barões e baronetes, mas a gente com créditos firmados na sociedade portuguesa) e insiste em fazer-se acompanhar por figuras menores, que só o prejudicam. Aflige a apetência para os tirinhos de pólvora no pé e para tiros de bazuca (Fernando Nobre) no corpo inteiro.
Dito isto, convém dissertar sobre um fenómeno que, não sendo inédito na democracia portuguesa, atinge por estes dias máximos históricos: o governo demissionário está literalmente a ser levado ao colo pela comunicação social.
A comunicação social portuguesa (perdoem-me a generalização), apoiada na máquina de propaganda em que se transformou a Lusa (aqui sem pedido de perdão), anda a praticar há muitos meses, e sem pudor ou vergonha, um indolente churnalism.
As recentes notícias sobre a «execução orçamental» foram disso um bom exemplo. Tudo é engolido sem que se questionem os números, as fontes e os critérios. Há uma semana atrás, o Público, como que respondendo a esta notícia do Jornal de Negócios (não fosse o senhor primeiro-ministro fica aborrecido), publicava o seguinte:
«O secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, classificou hoje os números da execução orçamental como positivos e rejeitou a ideia de que a redução do défice esteja a ser feita à custa de adiamento de despesas e de serviços em ruptura, como avançou hoje o Jornal de Negócios. Emanuel dos Santos garantiu aos jornalistas que, “se há serviços que reclamam essa situação, é porque não tomaram as medidas adequadas para cortar as despesas”. “Não podemos pedir cortes na despesa e deixar tudo na mesma”, afirmou, garantindo que há dinheiro para satisfazer todos os compromissos do Estado, incluindo os salários dos militares do Exército.»O Diário de Notícias, também a semana passada, publicava esta:
«O Gabinete do primeiro-ministro nega que o Governo esteja de costas voltadas para Teixeira dos Santos. (…) Contrariando o que diz hoje o jornal "Expresso", o gabinete de Sócrates adiantou que o primeiro ministro e o ministro das Finanças "nos últimos quatro dias reuniram-se quatro vezes". Isto no âmbito das negociações com Troika que, recorde-se, mesmo com tolerância de ponte nesta quadra festiva tem mantido um ritmo de trabalho diário e sem paragens.»O défice de 2010 foi revisto em alta, passando para 9,1%. O governo «garante» que se trata de uma mera alteração metodológica.
Em Portugal, o jornalismo resume-se, em boa parte, a isto. O secretário de Estado «garantiu» aos jornalistas; o Gabinete do primeiro-ministro «nega»; o primeiro-ministro «assegura». Eles mandam dizer, o jornalista engole e publica. Ponto. Publish ou perish?
Ontem, na TVI, para além do pavão que, lá fora, gritava sempre que o primeiro-ministro atingia níveis inauditos de demagogia, a pavoa-jornalista que entrevistava o pavão-político fez questão, por defeito profissional (muitos anos na RTP é o que dá), de estender uma passadeira vermelha ao candidato do PS. A forma como Judite de Sousa emudeceu nas questões chave e tentou, de forma pueril e inconsistente, dar ares de entrevistadora-rija nas questões da politiquice, prova bem a que ponto o nosso jornalismo baixou os braços e se rendeu à lenga-lenga da dita politiquice: «eu sou incomensuravelmente bom; eu fiz o meu melhor; a oposição é um nojo; se culpas houver, há que reparti-las por toda a gente, cá e lá fora.»
Duas ou três explicações podem ser adiantadas para o que se está a passar.
A primeira, digamos, «histórica», é a de que o jornalismo em Portugal foi, desde sempre, fraco no seu papel de escrutinador, ainda que pontuado por jornalistas (poucos) de boa cepa. Ou seja: o lastro é longo e indelével. Dou um exemplo. Há anos, ou décadas, que a esquerda dita «progressista» proclama o seu amor pelo «modelo nórdico». O «Estado Social» nórdico é o nirvana dos socialistas «modernos». A «excelência» dos serviços de saúde e do sistema de educação «nórdicos», são o sonho húmido da esquerda bem pensante, na mesma medida que a ideia de introduzir um sistema de «plafonamento» na Segurança Social para as pensões mais elevadas, é um pesadelo com direito a danos cerebrais. Em boa verdade, a ideia do «fantástico modelo nórdico» foi mais ou menos assimilada na generalidade da população que, digamos, ainda lê jornais. Pergunta-se: alguém na comunicação social portuguesa esteve ou está interessado em perceber, in loco, o que é e como funciona o «modelo nórdico»? Algum jornalista se lembrou de estudar o «modelo nórdico»? Em Portugal há um manto de desinformação consentida e de ignorância deliberada em relação ao exterior, que promove, há décadas, o embrutecimento atávico das mentalidades e a cristalização rançosa das consciências (daí, também, a nostalgia bacoca em torno do desgraçado do Zeca e dos «amanhãs que cantam»). Em muito boa medida, a classe jornalística portuguesa é simultaneamente agente e produto deste situacionismo.
A segunda, mais, digamos, «corporativa», é a de que a generalidade das redacções é afectada por um pendor ideológico, que as impede, por preguiça e complacência, de fazer o trabalhinho de casa quando o que está em causa é o modus operandi de entidades representativas de determinado quadrante político. Repare-se na diferença entre a histeria em torno da escolha de Fernando Nobre (apesar de se tratar de uma escolha caricata, não merecia o chinfrim) e a indulgente indiferença com que trataram a escolha de Ricardo Rodrigues.
A terceira, mais, digamos, «conspirativa», é a de que a máquina tentacular do Partido Socialista, liderada por um Secretário Geral especialista na propaganda e no manuseio hábil de instrumentos subtis de intimidação, é extremamente eficaz na forma como satura o éter de arrumadas explicaçõezinhas, pujantes simplismos encantatórios («eu fiz o meu melhor», «eu lutei até ao fim», «o PS defendeu o interesse nacional», «o PS é a favor do Estado Social», etc.) e malabarismos matemáticos (e metodológicos...), sem que alguém ouse questionar o porquê e mande aferir da fidedignidade.
Deixado literalmente «à solta» por uma comunicação social viciada em óxido nitroso, este governo - o primeiro-ministro, os ministros Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva e Jorge Lacão e, last but not least, o Dr. Francisco Assis, elevado de forma insondável à categoria de grande intelectual e príncipe da política – transfigurou-se numa vertiginosa máquina de spin e de contra-informação, gerindo e controlando, minuto a minuto, o espaço informativo.
Sim, é verdade: isto não explica o posicionamento do PSD nas sondagens. Mas convém perceber o que se está a passar. Para memória futura.

































