"Ordem dos Advogados deixa Júdice a falar sozinho"
"O que aconteceu ontem no salão nobre da Ordem foi que os membros do Conselho Superior da OA [...] deram 30 minutos para Júdice se defender e abandonaram a sala quando o ex- -bastonário atingiu essa meia hora e se recusou a terminar as suas alegações nos dez minutos seguintes. Júdice ficou literalmente a falar para a parede que estava escassos metros diante de si e para as cadeiras que os conselheiros deixaram vagas. Atrás de si estavam os mais de cem apoiantes que quiseram assistir à audiência e que não arredaram pé."
"Mas vamos ao princípio. O primeiro a falar, ainda de manhã, foi o relator, que, durante hora e meia, leu a acusação referente ao primeiro processo - instaurado depois de Júdice ter dito numa entrevista que o Estado devia consultar sempre as três maiores sociedades de advogados, onde se inclui a sua. Alberto Jorge Silva disse, por exemplo, que Júdice proferiu uma «agressão gratuita» ao dizer que era idiota a pena proposta - a advertência. Acusou o ex-bastonário de «inútil sobranceria», de «falta de humildade» e classificou de «patético» o abaixo-assinado que vários apoiantes de Júdice subscreveram."
"Chegara a vez de Júdice falar, passava já das 15.00. Laureano Santos, presidente do Conselho Superior, deu-lhe trinta minutos para fazer a sua defesa. Logo aí reabriram-se as hostilidades. «Pode ter a certeza de que não me calo. Só sairei daqui quando terminar o que tenho a dizer, sob prisão ou à força», avisou o ex-bastonário. E assim foi."
"Dirigindo-se ao relator, ao «Dr. Silva», o ex-bastonário mostrou-se indignado por aquele ter pedido o arquivamento do primeiro processo. «O Dr. Silva está há três horas a ofender-me para depois dizer que não tenho consciência da ilicitude e que sou inimputável», atirou Júdice, rematando: «Um de nós é inimputável, ou é vossa excelência ou sou eu.» E continuou, sempre no mesmo tom. Disse que Alberto Jorge Silva era «indigno das funções» que exercia na Ordem, acusou-o de ter «uma vesga vontade de condenar» e sustentou que o processo disciplinar foi «uma instrumentalização da Ordem com finalidades políticas». Visivelmente irritado, Júdice acusou ainda Alberto Silva de «não ter as mínimas condições éticas, psicológicas e jurídicas para ser julgador de uma manada, quanto mais de advogados»."
"Passaram os trinta minutos. Júdice disse que não se calava e o Conselho Superior saiu da sala. O ex-bastonário continuou por mais duas horas a ler a sua defesa. Para a parede. Para os apoiantes. Negando as acusações e criticando o Conselho Superior de «cobardia», de falta de «imparcialidade, serenidade e independência» para o julgar - «Esta não é a minha Ordem.»"