Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Os junquilhos de Monserrate


(Meio século depois, a árvore crescera muito, mas ainda havia junquilhos no mesmo lugar. Foto Pepe)


Não me confundo na ilusão de claramente ter visto num Natal o que vi  porque muito desejava ver. Sei como o sonho entra livremente pela verdade dentro, naquela idade em que a fronteira entre a imaginação e os olhos não tem fiscais. Mas nesse Natal eu vi. Terá sido o dos meus quatro anos, e o Menino acabara de deixar junto à lareira um pequeno Dakota de plástico, em cujas asas haveria de voar todas as distâncias. Olhei pela chaminé ainda a tempo de um vislumbre de maravilha: a sua perninha esquerda, rechonchuda como a de um ingénuo Murillo, escapava-se rapidamente, na pressa de atender outras crianças. Ninguém foi capaz de me dizer que era mentira. E ainda hoje, apesar de saber que não podia ter visto nada mais do que as paredes negras da chaminé, tenho na memória, nítida como a das coisas mais reais, a forma e a cor exactas dessa imagem fugaz.


Mas, quando comprei um pião ao Leonardo por cinquenta centavos – valor que ele me fiou, fiando-me eu em que meu Pai mo daria –, aconteceram coincidências que ainda me parecem demasiadas para não terem resultado daquele acaso de que alguém disse ser o nome que às vezes damos a Deus. Tão outros tempos eram esses que meio escudo, para uma criança, era uma pequena fortuna. E mesmo para os adultos, que nem sempre o tinham. Por isso não te admires de eu ter receado não arranjar com que pagasse ao Leonardo. 


Quando meu Pai me deu o dinheiro, guardei-o na algibeira, sabendo que podiam passar-se vários dias, mesmo semanas, sem que encontrasse o meu credor, um amigo que eu raramente via. Fui à cantina do Aeroporto fazer compras e, já perto da capela de Nossa Senhora do Ar, dei com um mendigo da Vila sentado no murinho de protecção do aqueduto que atravessava a estrada vindo da mata da Secretaria. Não hesitei um segundo na intenção de lhe fazer esmola com a tal minha pequena fortuna que, na verdade, nem sequer me pertencia. E o curioso é que eu tive a certeza de que o problema criado por tão espontânea boa vontade se haveria de resolver... Não sei porquê, nem sei esperando o quê, mas tive-a. Se fosse meu feitio jurar, jurava isto por ti, Calie.


Ao passar na casa desse santo que foi o padre Artur, a irmã, que estava em roupa imprópria para sair à rua, pediu-me para lhe comprar uma caixa de fósforos, que custava quarenta centavos, na cantina, que era do outro lado do caminho. Trinta, trinta e cinco passos não apressados, talvez, de porta a porta. E deu-me, como recompensa pelo insignificante favor, exactamente cinquenta centavos, que era o dinheiro branco mais pequenino e que sempre gostávamos de ter, pelo menos esse, para deitar na bandeja quando se beijava o Menino no fim da Missa do Galo. Em outras circunstâncias provavelmente teria recusado, e não me lembro de ninguém me ter dado nunca uns dez centavos sequer por um recado, durante os treze anos que vivi na Ilha-Mãe. Regressei a casa pelo caminho menos habitual, que era o mais longo antes da sucessão de atalhos que levavam a Santana, e que normalmente só escolhia quando ia pedir o Cavaleiro Andante ao José Guilherme. Contra as minhas expectativas, porque não era habitual vê-lo por essas bandas, encontrei o Leonardo e paguei a dívida.


Menor importância terá tido para mim um outro caso, mas que pode até ser de mais poética ingenuidade. Numa tarde de vinte e quatro de Dezembro, entrei na capela e vi que ainda ninguém tinha trazido flores para enfeitar o altar. Disse à irmã do padre Artur que sabia onde encontrar daqueles junquilhos amarelos que cheiram mesmo a Natal, e fui a correr para a mata de Monserrate, porque tinha visto uma moitazinha deles em frente da ermida. Que desilusão, meu Amor... Não havia nem um. E sabes o que fiz? Ajoelhei-me a rezar à porta de Nossa Senhora para que alguém encontrasse flores e as fosse levar para a festa do nascimento do Seu Filho. Quando voltei, havia já, ao lado do altar, um braçado de junquilhos mais ou menos como o que eu pensara poder trazer de Monserrate.


(Os junquilhos de Monserrate seriam para o altar que havia no lugar deste, antes do incêndio que destruiu a capela de Nossa Senhora do Ar. Fotografia de Ana Loura)


Não penses que recordo estas coisas como actos de bondade ou de uma fé admirável e simples, a fé dos pequeninos, que eu mesmo tenha praticado. Foi há tanto tempo, que essa criança inspira-me mais ternura que saudade. Vejo-a como se não fosse eu, acompanho-a nestas recordações como se a seguisse de perto ou estivesse parado atrás dela. Neste preciso momento acabo de voltar da mata de Monserrate sem lhe ter visto a cara. Mas reconheço, Calie, que se alguma coisa boa ficou em mim foi porque dela aprendi. E se é certo, meu Amor, que terei o cuidado de dizer-te o mais possível coisas boas, não é para que pareça a teus olhos que fui sempre um puro, mas para que o penses do mundo onde vivi, porque a literatura já tem demasiadas páginas cheias com o mais feio que há em nós. Mas, se em algum momento imaginares que andei triste – e talvez seja verdade – lembra-te de que esta história tem um final feliz.


(Ficou linda, a ermida, mas os meus junquilhos não voltarão a florir. Fotografia de Ana Loura)


(De A Longa Jornada Até Calie, em preparação)

Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

A vizinha Maria José, o pão



O abraço comovido com o vizinho Manuel Figueiredo, filho da vizinha Maria José, em cuja casa a minha mãe também cozeu o pão. Está paralítico há oito anos, e não nos víamos há vinte e um. (fotografia de Ana Loura)


A primeira vez que vi a vizinha Maria José foi lá pelas bandas de Monserrate, acima de Santana, perto das terras que João Tomé comprou a João da Maia por escritura de 1492, a Roça das Canas, memória que se guarda num dos documentos mais antigos destas ilhas. Só muito mais tarde soube quem foi esse homem, que eu então talvez pensasse que era alguém vivo ou defunto ainda recente, e que dera nome também a uma chã perto da Ribeira do Engenho.

Não sei se minha irmã fazia parte do grupo, mas lembro-me muito bem de estar ao pé de minha Mãe a assistir à conversa com aquela senhora que logo ofereceu o seu forno quando soube para onde íamos morar. Não recordo nenhum outro momento desse dia: nem o nosso espanto, que decerto o tivemos, e grande, ao ver a nossa nova “casa”, nem nada da viagem, antes ou depois. (Nesta espécie de pintura mental observo o cenário aí uma meia dúzia de passos atrás da vizinha Maria José, e vejo-me com a direita agarrada à mão esquerda de minha Mãe.) Do mesmo modo, esqueci a mudança e como foi feita, tal como os primeiros dias de Santana.

Talvez convenha explicar o que era um “vizinho” em Santana. Se a palavra fosse usada com rigor, haveria lá muito poucos porque, além de pequenos grupos de duas ou três casas aqui ou além, eram todas longe umas das outras. Da nossa, que passou a ser a primeira habitada em relação a quem vinha do Aeroporto, até à última havia, para as minhas pernas de criança, coisa de duas léguas, o que, no entanto, deve ser dividido pelo menos por cinco, se se quiser estar perto da verdade. Ainda assim, e alargando-se o povoado por quase outro tanto, umas quatro dezenas de famílias não davam para garantir proximidade que justificasse tratarmo-nos por vizinhos. Mas a amizade justificava. A casa da vizinha Maria José, apesar de ser, num dos tais grupos de três, a mais próxima, tinha a separar-nos um dos nossos pastos e um pedaço de canada. Pelo meio, era preciso passar uma torrente que enchia com as chuvadas fortes, o que, se era o caso quando voltávamos da cozedura, obrigava meu Pai a ter de pegar em minha Mãe ao colo para a atravessar.

Nesses, como nos outros dias, quase sempre nessas noites, vinha connosco o cheiro do pão fresco. E é tão reconfortante recordar este cheiro como o dos nossos filhos acabados de lavar... Mas havia semanas em que, por uma ou outra razão, minha Mãe não chegava a cozer, e então comíamos pão da padaria, o que era para nós, habituados ao outro, o verdadeiro, uma insuperável gulodice. Um luxo maior, no entanto, pois custava por dia pelo menos metade do que meu Pai ganhava.

Creio que até as codornizes se admirariam se por acaso me viam atravessar os pastos sem ser na correria do costume, e os gafanhotos ficariam espantados de não me baterem na testa com a violência habitual. Ou porque ia atrasado para o Externato – o “colégio”, pois era assim que o chamávamos – ou para outro qualquer destino, como o Clube Asas do Atlântico, para ouvir o relato. Mas a cena que vou recordar não foi em tempo de codornizes a fazer ninho nem de gafanhotos a encher o ar de asas e ruídos leves.

Era Inverno no calendário e no tempo que fazia. Eu fora comprar pão à cantina, e trazia-o protegido num saco de lona e, a mim, dentro de uma casaco grosso. Calçava botas de cano, de borracha, para enfrentar os lamaçais de palmo. Vinha a correr, claro, porque ainda tinha o primeiro almoço para tomar, e era preciso mudar de roupa e voltar a tempo da aula mais matinal. Chegando perto do bairro de S. Lourenço, quase a voltar na rua que dava para o primeiro atalho de Santana, encontrei uma jovem para quem se aproximava o dia de ser mãe. Andava a muito custo, com dois sacos nas mãos que pareciam pesar-lhe como uma cruz. Os olhos anunciavam lágrimas prontas a nascer, e ela pediu-me, numa súplica angustiada, que a ajudasse a levar as compras a casa... que depois me dava a esmola, acrescentou, como quem joga a última esperança num grito de socorro. Sem tempo sequer para reduzir muito a corrida, disse-lhe que não podia, que tinha de ir para o colégio. Só instantes depois percebi que ela, pelo traje e pelo saco do pão, me confundira com um pedinte. E, embora aquele pão tivesse sido comprado com o suor de meu Pai, o cansaço de minha Mãe e a ajuda de minha irmã e um pouco a minha também, não fiquei ofendido com a confusão, nem me importou que ela tivesse ou não entendido, pela minha resposta, que eu não andava a pedir esmola. Apenas me pesou imenso que não pudesse valer-lhe, que tivesse tão contados os minutos que um só seria suficiente para me fazer chegar atrasado ao meu encontro com outros caminhos da civilização.

Essa imagem ainda hoje é uma obsessão para mim. Sei que se a jovem senhora tivesse sabido que se enganara decerto ficaria envergonhada e me pediria desculpa. Mas depressa haveria de esquecer o equívoco, ao contrário de mim, que nunca mais deixei de pensar nela. Assim, um sofrimento físico que foi só seu, de que ela com certeza nem se lembra já, passou a fazer parte das minhas memórias, com um sentimento de culpa como se o meu atraso desse dia tivesse sido consciente e um dos piores da minha vida. E nem me conforta pensar que, se fosse mais cedo, eu nem sequer teria visto aqueles passos doridos e ouvido aquela súplica angustiada.

Em dias de grandes chuvadas, meu pai pegava em minha mãe ao colo para passar por aqui.
(fotografia de Ana Loura)

(De A Longa Jornada Até Calie, em preparação)

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Vento


Esta viagem fisicamente custou menos, porque não havia baldes de água a transportar...
(fotografia de Ana Loura)

Como eram pobres os pobres naquele tempo! Havia os que nunca se deitavam com fome nem dormiam com frio, e os que muitas vezes não tinham pão para a ceia e vestiam chita e caqui mesmo no Inverno.

Em Santana existiam três fontes: uma perto do poço da ribeira onde as mulheres lavavam a roupa, outra no meio do povoado e uma terceira lá mais para baixo, onde a ribeira começava a despedir-se da gente para completar a viagem até aos Cabrestantes.

Íamos buscar água a qualquer das duas primeiras fontes, porque a distância era a mesma, embora para a que ficava no meio de Santana não fosse preciso saltar quatro ou cinco muros. E era nela que havia o bebedoiro para o gado. A nossa mula era teimosa como sói dizer-se da espécie, dava sempre dois pares de coices no ar quando a montávamos, mas depois obedecia mansamente. E não precisava de ser conduzida até à água, porque ia beber por sua própria conta sem demorar mais que o necessário nalgum tufo de erva inesperado e raro. Mas, se a distância não era muita, o peso da água a chocalhar nos baldes parecia torná-la longa, longa, porque as forças estavam ainda longe de ser de braços adultos e fortes.

Ricardo de Mesquita, brasileiro da ilha de Santa Catarina, imaginou o vento sul, visitante habitual de Florianópolis, a falar assim: “Acho que vou ficar mais um pouco aqui. Talvez arme um redemoinho para encontrar, na esquina do Trajano, as meninas do colégio Coração de Jesus. Saias plissadas, rodadas, que sempre levanto ao passar. Algumas gostam. Disfarçam, mas gostam... // Os garotos que ficam encostados na outra esquina, a de Jerónimo Coelho, // aplaudem minha passagem. Enfim, alguém gosta de mim!” Vem num livro que reúne as crónicas premiadas no concurso Franklin Cascaes, e ofereceu-mo a Lélia Nunes, também ela vagamente insular, porque descende de açorianos de há dois séculos e meio e Santa Catarina está à distância de uma ponte do continente.

O padre Artur queria fazer de cada um de nós um santo à sua imagem e semelhança. Certa vez pregou muito magoado contra as fotografias de bailarinas quase nuas no Carnaval do Rio, mostradas na revista “O Cruzeiro” a páginas meias com imagens de Cristo derramando sangue por causa dos nossos pecados. E, quando havia documentários, ou mesmo algum filme de longa metragem no Atlântida Cine, para os alunos da catequese, ele ficava na cabina de projecção pronto a fazer censura “ad hoc”, tapando com a mão a lente logo que aparecessem umas pernas femininas com vista acima do joelho. Mas nada podia contra o vento...

É juntando tudo isto que fui dizendo, como conversa da tua avó Maria do Carmo, sem fio aparente mas a fazer sentido lá mais para o final, que chego aonde queria chegar.

Mas espera... ouve, meu Amor... Este vento hoje está frio. E eu na fonte, atrás dela, à espera de que acabe de encher a lata. Não lhe sei o nome nem lhe lembro a cara. Mas veste roupa leve, saia talvez de chita, que usou no Verão e há-de usar no Inverno entre uma barrela e outra. Mora mesmo ali ao lado, não tem de ir longe por água. O vento é frio mas bonançoso. E, de repente, dá-lhe na gana um sopro mais forte. Levanta a saia dela até à cintura. As suas mãos, em aflição, não acodem a tempo de impedir que fique à mostra, por instantes, a nudez absoluta por debaixo da saia. Dá meia volta, envergonhada, e foge a correr para casa, deixando a lata na fonte.

Não era uma bailarina daquelas que o padre Artur transformava em sombra. Não era uma sambista carioca que quase se despia por vontade própria no calor tropical. Era uma rapariguinha a quem a roupa escondia mal a sua intimidade, e quase nada protegia do frio que vinha no vento. Se fosse pintor, faria dessa imagem fugaz um quadro sobre a pobreza. Sinto-me triste, neste hoje de há muitos anos e neste hoje de quando escrevo. Estou tão triste na fonte, a encher o meu balde, como ela na sua vergonha.

(Do possível livro de memórias contadas a minha mulher, Maria Alice: A Longa Jornada Até Calie)

Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Manuel Vavô

Manuel “Vavô” não casara, era pouca cabeça para chefe de família, não tinha aqueles carinhos de mulher que ajudam um homem a viver com mais decência: comida a tempo e horas, o calor de uma caminha aquecida por outro corpo também, uns cuidados de águas quentinhas, para lavar as pernas doridas de trabalhar, e álcool aquentado numa lata de lustro posta sobre o candeeiro, como a mãe fazia ao pai em dias de mais estafa; umas sêmeas de emplastro ou pão em vinagre quente, para mazelas de estômago; roupa lavada e corrida para vestir ao Domingo. Nada, andava aos tombos da fortuna e da aguardente, que lhe era sustento e remédio mais que tudo, que lhe enganava tristezas e sossegava desejos. Por isso trabalhava conforme o apetite, mas, se estava em maré de o fazer, era homem de se contar com ele todo. Só não era de fiar para tarefas aprazadas com rigor. Se lhe dava a moleza da solidão, ficava-se por ruas e tabernas enquanto houvesse uns vinténs para aquecer o estômago, que só quando a fome era de mais ele entendia que lhe doía de fome. Numa noite em que ficara sem ceia, Manuel “Vavô” sentiu cheiro de petisco no “café”do José Virgínio, que tresandava a temperos de violentar paladares, apesar de a porta estar fechada por recato dos convivas. Lá dentro só homens de respeito, ainda que capazes de perder tanto o tino na pinga quanto o Manuel que os ouvia nas risadas da festança. Bateu à porta com algum receio e certa expectativa. Veio abrir o guarda Silva, que espalhava bazófias em disfarce de sabido e voz de vogais abertas e sílabas inteiras. Era uma figura que se pretendia imponente, incapaz de um desalinho, rigoroso no cumprir das leis. Viu quem era e mandou que desaparecesse.

(O café do José Virgínio era na primeira casa à direita)

Manuel “Vavô” insistiu. Teimou uma segunda e uma terceira vez, ao menos uma isca e um copinho de vinho. O guarda cansou-se da teima, e para que o outro não porfiasse agarrou num cabo de vassoura e foi-se contra ele. Era mesmo para bater! Manuel “Vavô” fugiu com todas as forças, e o guarda abalou no seu encalço. Subiram a rua da Igreja em correria de fúria e de medo, voltaram à esquerda no Caminho do Concelho, arfaram pelo Penedo fora até à Fonte Velha.

(Troço do Caminho do Concelho referido na história)

Aí, ao entrar a canada, o carro de bois do Guilherme avivou a coragem do perseguido e deu-lhe uma razão mais forte: um fueiro! Pegou nele e voltou-se contra o guarda que não desistia de querer zurzi-lo. O perseguidor deu meia volta, mais veloz que Veloso a fugir do bando negro. Desceram o Penedo num ai, o Caminho do Concelho como dois foguetes, a rua da Igreja como se tivessem lume no rabo. E foi nesse imprevisto de se ter voltado o feitiço contra o feiticeiro que os amigos dessa noite de farra, que esperavam à porta a solução do combate, receberam a salvo, e com chacota dissimulada de um espanto divertido, o soldado vencido pelo argumento da força.

(Penedo)

(Fonte Velha ao fundo no centro)


Do livro Sobre a Verdade das Coisas (esgotado)

Fotografias de Sérgio Lourenço (Setembro de 2009)

Sábado, 22 de Agosto de 2009

Evocação

Conteiras (fotografia de Rui Almeida, publicada em http://olhares.aeiou.pt/conteiras_foto399394.html)

De outros tempos, temos a poesia que ficou das coisas que passaram. O que foi mau esquece-se por já não ser, o que foi bom transfigura-se por já não poder ser.

A mãe que fechava, bem fechadas, as janelas do quarto térreo para que o Sol não denunciasse um novo dia e os filhos continuassem deitados, assim lhes enganando com o sono a fome, porque em casa não havia o que comer; a tísica que se mirrava, hálito com hálito da irmã, que lhe despia a camisa suada por agonia e fraqueza, trocando-a pela sua, enxuta, e colando sobre o seu corpo são o suor de enferma da quase moribunda; o “canto” dos homens a preço de desbarato, a dor, a fome, a miséria, toda a desumana condição humana…

Mas a alegria também! Talvez como rito de afugentar fantasmas, talvez como um esforço para despertar de um sonho dormido entre maus sonhos. Ou talvez que a alegria existisse por si mesma, como acto necessário, como razão suficiente.

A luz, como era diferente a luz! Doía, de bela, a cor dos cravos, das sécias, das despedidas-de-verão; era uma orgia saudável o cheiro da malva-rosa, da erva-luísa, da hortelã do quintal-jardim da minha tia Ermelinda.

O Sol a queimar, a queimar sempre, avolumando os frutos, anunciando a ceifa, num prenúncio de fartura que se cumpria em vinhas e pomares, hortas e searas.

A alegria simples de viver. O prazer de estar vivo. Um “haja saúde” que bastava como desejo e cumprimento. “Saúde e a graça de Deus.” Tudo o mais tinha o sabor inesperado das coisas supérfluas.

E as crianças, brilhando ao Sol (ah! Se Renoir as pintara!...), vigiavam nas longas tardes grandes capachos de trigo, para que as outras o não mascassem como “gama”, para que as galinhas o não comessem. Ou vendiam, por esquinas e travessas, a troco de botões – as “marcas” – os “chupos”, flores da conteira (Hedichium gardnerianum), enquanto a vida vivia.

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Santa Maria, Uma Declaração de Amor

São Lourenço, ilha de Santa Maria (fotografia de Ana Loura)

Considero-me um privilegiado quando me chamam mariense. Porque, como filho destas ilhas, tenho a sorte de ter pai e mãe. Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria. E, se pode ter-se dupla nacionalidade, por certo que poderá ter-se dupla “insularidade”.

Sou mariense, sim, e julgo que de pleno direito. Cagarro e santaneiro. O que foi outro privilégio, ter vivido em Santana. Mais de oito anos, depois de quatro por São Pedro, na casa do Sr. Armando Monteiro, e seis meses na Ribeira do Engenho, numa casinha que era toda ao pé da porta e tinha o telhado à altura do caminho.

De São Miguel saí ainda de cabelos compridos, de que guardo uma vaga memória mas somente do dia em que mos cortaram, já em São Pedro. Antes disso, e da ilha onde fui gerado e onde nasci, só sei o que me contava minha mãe. Tempo esse em que uma criança de dois anos podia andar pelas ruas e ir até longe, no longe relativo do tamanho do corpo, sem deixar preocupado quem quer que fosse. Palmo e meio de pernas bastava para fugir facilmente das rodas de uma carroça ou de um carro de bois.

Muito cedo comecei a ser aluno da vida, em Santa Maria. Que belas lições recebi! Recordo a sabedoria de um povo a quem vi cavar um poço antes do tempo da sede. Aprendi a sua bondade em coisas tão simples como aquelas grandes pedras, postas ao alto à semelhança de pequenos menires, onde o gado ia roçar-se placidamente. A minha definição como pessoa começou a fazer-se com estes e com outros ensinamentos casuais ou espontâneos, sem pedagogia diplomada.

Pode parecer um contra-senso considerar um privilégio ter vivido em Santana, porque aquela era uma das aldeias mais rurais de Portugal. Nem havia sequer uma canada razoável que lhe fosse caminho. A que existia servia, em parte, como leito de uma ribeira, onde aflorava a rocha irregular posta a descoberto pela erosão. Durante séculos, foi a única via que levava a Vila do Porto. Maior isolamento do que aquele é difícil de imaginar. Ainda assim, em Santana nasceram e viveram pessoas de grande valor humano e social. Prodígios da superação.

De súbito, tudo mudou em 1945. Em Santana propriamente não, porque ela ficou imutável na sua rústica ancestralidade. Mas, mesmo ali ao lado, fora feito um aeroporto para ser um dos melhores e mais concorridos do Mundo. A Vila deixou de ser a principal referência, porque até na religião os de Santana se tornaram como que paroquianos da capela de Nossa Senhora do Ar, que antes fora lugar de culto de protestantes, católicos e judeus. Ia-se e vinha-se usando atalhos desenhados por milhões de passadas, cortados aqui e ali por muros que era preciso saltar. A aldeia isolada ficara a poucos minutos de um mundo novo e impensável. Mas aquela gente recebeu-o quase com a mesma naturalidade com que via nascer o Sol todos os dias, o Sol que gretava o solo árido no Verão, depois de secos os lameiros do Inverno. Aquela gente, que resistira à angústia da fome, numa penúria humilhante e indigna da condição humana. Como um pouco por toda a ilha, aliás. Mas que manteve uma dignidade bíblica, porque a dignidade é um estado de espírito mais do que uma afirmação social.

A nossa casa nunca fora chamada casa antes de lá morarmos. E, nesse tempo, era um absurdo pensar que quem tivesse menos de dezasseis anos não podia trabalhar. Não o proibia a lei, e a isso obrigava a necessidade de as mães não terem falta do que pôr na mesa à hora de comer. Apesar disso, não lamento nada da minha infância.

Fui pastor de cabras, de ovelhas e de vacas. Cavalguei em pêlo e sem esporas nem freio, como os índios. Nunca ninguém me ensinou a ter medo do dia nem da noite. Fui cowboy ou índio na mata de Monserrate e nas do Aeroporto. Mas não estraguei nenhuma árvore, nem os meus companheiros de aventuras. Contei histórias ao meu amigo Elias, e contava-me ele outra por cada uma das minhas. Matávamos o menor número possível de personagens, quer fossem índios ou bandidos. Apenas o essencial para haver vencedores e vencidos.

Entretanto, ia aprendendo em livros ou num quadro preto. Primeiro na escola de Santana. Com a D. Eduarda na 1ª classe, a D. Doroteia, na 2.ª, a D. Úrsula, na 3.ª, a D. Francisca, na 4.ª. Continuam a ser das minhas heroínas preferidas. Fizeram o milagre de me ensinar a ler, de explicar que povo somos e a que terra pertencemos. Depois veio o Externato. Juntei à minha lista de heróis e de heroínas mais uns quantos predestinados para o bem e a sabedoria. Passei a pertencer também à geração do Cavaleiro Andante, sem dúvida a mais prodigiosa publicação juvenil que houve em Portugal. Não tínhamos dinheiro para livros nem revistas, por isso era o José Guilherme Correia que mo emprestava sempre. E alguns livros também, como o José Vieira Souto Martins, um amigo de que nada sei há meio século. Foi assim que pude ler Emílio Salgari, Mark Twain ou Enid Blyton.

E havia o Clube Asas do Atlântico. O Asas! Nunca ninguém me pôs na rua nem mostrou desagrado pela minha presença. Nem imaginavam o bem que me estavam fazendo. Ali ouvíamos os relatos do futebol e do hóquei das nossas alegrias patrióticas. E era onde eu tinha à disposição os principais jornais que se publicavam em Portugal. Um dos mais bem escritos era A Bola, e por isso, ao mesmo tempo que a rivalidade entre o Sporting e o Benfica era um dos principais factores de unidade dos Portugueses, o desporto, contado naquele jornal que mudou tanto que se pode considerar extinto, era também uma lição de cultura.

Não longe, o campo dos jogos épicos do futebol romântico de dois defesas, três médios e cinco avançados. Com o mítico Badjana a dar os últimos pontapés na bola, jogando pela equipa da Direcção do Serviço de Obras, onde meu pai trabalhava. Depois veio outro clube, o de Gonçalo Velho, para o qual minha mãe e minha irmã bordaram os primeiros emblemas.

No entanto, a alegria suprema tinha lugar reservado no Atlântida Cine. O seu porteiro deixava muitas vezes as crianças entrarem sem pagar bilhete. Por isso o Sr. Cardoso faz parte da minha lista de heróis particulares. E o grito “ó Cardoso, apaga a luz” ainda ecoa nas minhas recordações como o anúncio de todas as claridades. Outro benfeitor de homens a haver.

Na capela de Nossa Senhora do Ar aprendi o lado mais humano da vida. Aquele que pensa acima de tudo no que nos distingue dos irracionais. E, se é certo que sem uma fé sobrenatural se pode ser boa pessoa, o cristianismo à maneira do Padre Artur é o testemunho do bem na Terra.

Mas qualquer pedaço de mundo vale pelo que vale a sua gente. A do meu tempo era feita destas e de outras figuras que marcaram o modo de ser de um tempo e de uma geração em que havia na ilha mais forasteiros do que naturais dela. Sorte nossa que a maior parte dos que em Santa Maria buscaram um pouco mais de fortuna ou um pouco menos de infortúnio eram pessoas de deixar saudades. Por isso o reencontro com velhos pioneiros dos tempos modernos da Ilha de Gonçalo Velho é sempre um momento de festa que dificilmente tem semelhança quando as amizades foram feitas por outras bandas.

O próprio aeroporto, começado a construir durante a guerra, acabou por ser um lugar de passagem para a paz. Se, em 1918, Franklin Delano Roosevelt escolheu Ponta Delgada para apoio ao transporte de tropas a caminho da Europa, por aquelas pistas passaram sobretudo soldados de regresso a casa. O nome de código da operação, “Green Project”, era ele mesmo uma declaração de esperança numa nova era.

Foi neste ambiente, um dos espaços nacionais onde mais se concentravam pessoas com ensino superior ou com uma cultura acima da média, que começou a germinar a minha vontade de fazer das palavras escritas um uso para além da obrigação de alguma carta familiar. Sem Santa Maria, sobretudo sem o seu Externato, eu teria ficado pela 4.ª classe, tal como todos os rapazes que nasceram na Maia, em São Miguel, no mesmo ano que eu. Por um desses acasos que são difíceis de explicar, cresci logo nos primeiros anos de vida com uma curiosidade sem limites. Um dia, ainda antes de completar seis anos, perguntei a meu pai como é que se faziam versos. Ele era um improvisador de quadras e de histórias como poucos conheci na vida. Chegou a fazer o negócio de uma burra cantando ao desafio. E, nos intervalos do almoço, contava casos a homens da sua idade, mas tão interessados como crianças. Vi muitos filmes pelos seus olhos, ou ouvi-os da sua boca. Ele levou a sério a minha pergunta sobre poesia, e respondeu como se deve sempre responder a uma criança: dizendo a verdade das coisas como se se falasse ao adulto que a criança será um dia. Logo a seguir exercitei o meu novo conhecimento cantando para uma vizinha da minha idade, de que só guardo a memória de uns longos caracóis loiros. Sei que começava assim, esse que foi em rigor o meu primeiro poema: “Sou Daniel/ da ilha de São Miguel”.

Era, sim, com a sorte de ser da Ilha-Mãe também. E nela vivia então um poeta que fez parte do meu imaginário, e de quem eu muito quis ser imitador: Lopes de Araújo. Não tive a sorte de ser seu aluno, mas a ânsia de alcançar um estatuto semelhante ao seu foi talvez o maior impulso que me levou a dedicar-me à escrita.

Mas Santa Maria veio a ser para mim cenário de drama também. Numa certa manhã, os responsáveis pela Direcção do Serviço de Obras estavam reunidos para despedir pessoal. O critério escolhido foi o de optar pelos trabalhadores com menos filhos. O nome do meu pai foi um dos primeiros a serem falados, porque éramos só minha irmã e eu. Minha irmã não estudara porque as propinas equivaliam a um terço do ordenado de meu pai. Que levou um ano a decidir se eu deveria frequentar ou não o Externato. Acabou por resolver-se pela positiva, e eu revi a gramática da 4.ª classe, feita um ano antes, estudando-a enquanto vigiava as vacas. Valeu-nos que nunca paguei propinas no colégio, como chamávamos ao Externato.

O Miguel Corte-Real, esse homem da linhagem dos primeiros povoadores e a quem Santa Maria muito deve, não concordou com a ideia, alegando que eu estudava, e que meu pai e minha mãe, costureira, se sacrificavam a trabalhar mais do que podiam para eu ter aquele privilégio. Estava a questão por decidir quando chegou um funcionário com uma notícia dramaticamente irónica. Meu pai acabara de deixar vago definitivamente o seu lugar na vida.

(Texto lido no colóquio Santa Maria nas rotas do Atlântico, promovido no dia 9 de Agosto pela Fundação Luso-Americana, sob a responsabilidade de Mário Mesquita)

Sábado, 1 de Agosto de 2009

A Ribeira do Calhau

Em primeiro plano, à esquerda, o início do atalho da Ribeira do Calhau (fotografia de Sérgio Lourenço)

A paz da tarde, o mar apaziguado a trepar as pedras com indolência e sem convicção. As algas num vaivém de cabeleiras verdes e castanhas. Mais adiante, a Ribeira do Calhau, corrente fresca, saborosa, com o sabor das entranhas do basalto, do musgo e das labaças, nascendo aos pés do rochedo, de curso breve como um voo de borboleta. Começa e acaba em trinta metros de vida. Ainda lá estão as pedras que foram lavadouro de muitas gerações, abandonadas, sem préstimo, fora do lugar algumas, recordação todas elas. Onde a que minha mãe preferia?...
Longo era o caminho para ali chegar. Mais longo ainda por ser difícil do que pelo longo tamanho dele. Um atalho apertado entre canas e ervas altas que, depois da chuva, se trocava frequentemente pela insegurança das pedras do Calhau. (Ter água em casa era um luxo. E, no Verão, para o necessário à família, formavam-se grupos à espera, de madrugada, em cada fonte que havia, de onde um fio delido enchia lentamente os potes de barro. Uma lentidão enervante, mas ninguém pensava que a vida, por vezes, quer ser vivida mais depressa. Ou talvez nós é que a estraguemos por não tomar, calmamente, o gosto ao tempo.)
A Ribeira do Calhau, quase sem tamanho, quase já mar quando nasce, vivia o suficiente para ser útil e acabava-se logo entre as pedras, sem uma grandeza aparente. Nunca uma cheia, nunca uma seca. A água a jorrar, paciente, numa monotonia embaladora, por um buraco que lhe media o caudal, como que um milagre no paredão da rocha. Ela soube de tudo, ela ouviu tudo sem indiscrições, as grandes dores e as grandes alegrias, as banalidades de conversas sem motivo. Ela soube de amores e desavenças, ela soube da vida e da morte.
Hoje, só o musgo e as labaças lhe falam de si, mais alguma cana que desça os rizomas na aventura de experimentar o prazer de mais água. Ou alguém que, andando às lapas ou à pesca, se curve, entre uma poalha de luz, a beber sem cobrança. Ou alguma alma, extraviada das convenções do viver, que ainda acredite que a solidão só dói quando há mais gente em redor.
Atalho da Ribeira do Calhau (fotografia de L. Filipe Braga)