O Loja de História Natural, que aqui divulgo pela primeira vez desde a última lipo-aspiração a que se viu forçado este organismo de comunicação social perfeitamente dentro da lei, dedica-me este livro, uma jaredimíade que vocês devem ir lá adquirir. Sempre tive um problema com o Jared Diamond, pelo menos o Jardel Diamond de Collapse e de Guns, Germs and Steel (os outros dois - Why Sex is Fun e The Rise and fall os the third chimpanzee - não tive o cuidado de ler, mas todos eles estão neste momento disponíveis na, agora em coro, Loja de História Natural). Parece-me que Jardel Diamond é muito melhor divulgador de ciência que cientista, uma acusação que lhe é tão frequentemente dirigida que a pessoa de bem se vê imediatamente inclinada a tentar o seu repúdio. Sucede que o Jardel Diamond insiste em partilhar connosco uma indiferença tal a essa essencial acusação que quase ensurdecemos debaixo de tanta hubris. Tradicionalmente, os grandes divulgadores de ciência que também são cientistas revelam uma saudável preocupação esquizóide: atingir uma síntese entre o discurso dialético propriamente científico e as cedências decorrentes de se tentar trespassar uma ideia para a populaça. Um dos monumentos maiores a essa patologia neurológica é a última obra do Di Stephen Jay Gould, The Structure of Evolutionary Theory, um indizível pacote que com sucesso extremo narcotrafica ilegalmente a propaganda científica disfarçando-a de comunicação exclusivamente inter-pares. Parece-me a mim que o nosso Jardel Diamond abdica por completo de sintetizar seja o que for, não sei se porque se considera tão bom cientista que os argumentos expostos aparecem já na sua fase terminal de simples divulgação, ou se se sente um artista tão prendado na exposição discursiva dos dados e argumentos científicos que se dispensa das exigências mais áridas peculiares aos meandros académicos. Valha-nos deus que, em qualquer dos casos, não se perde nada que nos afaste de uma visão sobre a realidade que satisfaça a nossa necessidade de coerência, e portanto também ninguém ganha nada em não o ler. Os seus livros são um pouco como se nos ficássemos pelos penúltimos episódios das telenovelas: sobra a memória de um divertimento do caralho e a convicção de que passámos à distância de rés-vés de tudo o que hoje será possível imaginar como essencial, mas também uma dor convicta e profunda de que nada nos foi fundamental e decisivamente revelado; eu diria, para finalizar, que o somatório é um muito como a carreira do Jardel: uma volumosa e imensa obra-prima de golos marcados em campeonatos irremediavelmente afastados do centro da história. Indispensável, portanto.

PS: desde os cartazes dos Jogos Olímpicos que isto me tem; é provável que passe a próxima semana a ver merdas destas, pelo que agradecia que as pessoas de confiança me indicassem bons sites sobre estas cenas de cartazes (e assim) soviéticos.
...através da odisseia de Jorge Arbusto (uma pessoa com estudos).
