Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Arroz Doce 


A minha coluna de hoje no jornal As Beiras.

Etiquetas: , , ,


Terça-feira, Maio 24, 2011

Aquecimento Global afecta produção agrícola mundial 

(publicado no portal Esquerda.net)

Um trabalho científico publicado na revista Science deste mês analisa a produção agrícola mundial desde 1980 em função de vários factores, entre os quais o aumento de temperatura global registado nos últimos 30 anos decorrente da actividade humana. Entre os dez anos mais quentes até hoje registados, nove ocorreram entre 2001 e 2010. Dezembro de 2010 foi o 310omês consecutivo cuja temperatura ultrapassou a média de temperaturas do século XX. A última vez que um mês apresentou uma temperatura média inferior à do século XX foi o mês de Fevereiro de 1985. Esta tendência clara de aumento da temperatura média global reflectiu-se no trabalho publicado na Science. Nas principais regiões de cultivo registaram-se durante a época de crescimento da produção agrícola as variações da temperatura média expressas no mapa apresentado. Exceptuando as regiões agrícolas dos EUA e do Canadá onde se verifica um ligeiro arrefecimento, no resto do mundo registou-se um aumento até 3°C.

Entre os principais factores (medidos e simulados por modelos) que afectam as colheitas, verificou-se que a precipitação não teve grande influência na produção média global. No entanto os efeitos produzidos pela variação da temperatura média revelaram-se importantes para cada um dos produtos agrícolas estudados, em particular nas regiões onde aumentou a temperatura (ver mapa). Observou-se nos últimos 30 anos uma redução da produção de trigo na Rússia, na Índia e em França, bem como uma diminuição da produção de milho na China e no Brasil à medida que a temperatura nestas regiões foi aumentando. Estes dados indicam que a prioridade de adaptação às alterações do clima deve estar centrada nos efeitos produzidos nas culturas pelo aumento de temperatura global.

Pesando o aumento de cerca de 20% dos custos afectados apenas ao aumento da temperatura com os benefícios para as culturas resultantes do aumento da concentração do dióxido de carbono na atmosfera causado pela actividade humana, verificou-se um aumento total do preço do trigo e do milho superior a 5%, ou seja um aumento total de despesa de 50 mil milhões de dólares (a preços constantes) em todo o mundo.

Tendo em conta que nas últimas duas décadas tem sido mais frequente ocorrerem anos em que o consumo supera a produção agrícola mundial e tendo ainda em conta o facto de a temperatura média global continuar a aumentar, e a aumentar mais rapidamente, não se prevêem melhorias para a agricultura do planeta. Se razões faltavam, eis mais um forte motivo para se combater o aquecimento global com muita urgência.

Etiquetas: , ,


Terça-feira, Dezembro 30, 2008

2008, o ano em que o planeta se revelou finito 

(publicado no dossier temas 2008 do portal Esquerda.net)
2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

Etiquetas: , , ,


Sábado, Abril 12, 2008

A subida do preço dos cereais e os biocombustíveis 

O meu artigo de hoje no portal Esquerda.net:

Desde há algumas semanas que têm ocorrido protestos em vários países do mundo - os casos mais violentos aconteceram nos Camarões, no Egipto e no Haiti - contra a subida dos preços dos produtos de primeira necessidade, em particular contra o preço dos cereais e dos seus derivados.

A subida de preço destes produtos resulta essencialmente da conjugação de três factores: 1) nos últimos dois anos o volume de colheitas agrícolas teve uma quebra acentuada (ver gráfico da FAO); 2) a China e a Índia estão a mudar os seus hábitos alimentares, estão a consumir mais carne sendo necessária maior quantidade cereais para a sua produção; 3) a percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis tem aumentado consideravelmente.

Na maior parte dos países desenvolvidos, os biocombustíveis foram adoptados inicialmente com boas intenções, com o intuito de substituir a utilização de combustíveis fósseis, dado que as emissões de dióxido de carbono associadas ao consumo de biocombustíveis são em média cerca de um terço mais baixas que as emissões dos resultantes da combustão e da produção dos combustíveis fósseis. A adopção deste tipo de políticas, supostamente ecológicas, teve como consequência um aumento exponencial da superfície de cultivo de cereais dedicada à produção de biocombustíveis dado que na perspectiva dos agricultores é muito mais rentável vender a sua produção para biocombustíveis do que para a alimentação. No caso dos países mais pobres isso significa vender quase toda sua produção para o consumo dos países mais ricos. Em certos países o furor para aumentar a superfície de cultivo dedicada aos biocombustíveis teve como consequência o abate de extensas áreas de floresta, o exemplo mais dramático é o caso do Brasil.

Embora os biocombustíveis não sejam os únicos responsáveis pela recente escassez mundial de alimentos - o número de pessoas com fome no mundo aumentou pela primeira vez em décadas - o aumento da sua produção tem sem dúvida uma significativa quota-parte de responsabilidade no actual cenário de escassez alimentar. As vantagens dos biocombustíveis para a resolução do problema do aquecimento global não são significativas e sobretudo contribuem muito pouco para a mudança de comportamentos. Os biocombustíveis permitem ao cidadão dos países desenvolvidos continuar a utilizar o automóvel, reduzindo em apenas um terço as suas emissões, mas ao preço de o seu veículo estar a competir com a alimentação de base dos países mais pobres.

Contudo, espera-se que uma segunda geração de tecnologia de biocombustíveis mais eficiente, que transformará em etanol os restos de matéria orgânica actualmente não utilizados nas plantações, faça a sua aparição comercial daqui a cerca de 5 anos.

Etiquetas: ,


Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Excelente reportagem sobre transgénicos 



A France 2 produziu uma excelente reportagem sobre a problemática dos transgénicos. Sem piscar o olho a apoiantes ou a detractores, a reportagem busca a informação essencial: os benefícios e os riscos à luz das respostas que a ciência tem para oferecer (para ver a emissão integral clicar na linha: "Voir ou revoir cette émission en intégralité").
Curiosamente, esta reportagem mostra como a acção dos Eufémios foi excessivamente mediatizada em Portugal quando comparada com o activismo que se pratica no resto do mundo. Não quero com isto dizer que apoio este tipo de acções.

Etiquetas:


Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Venha o Roquefort Transgénico! 

Este texto de Pacheco Pereira é um exemplar tratado da ideologia que tenta juntar todas as migalhas que pode para cultivar o anti-europeísmo, um anti-europeísmo que convive mal com o sucesso do Modelo Social Europeu (ainda por cima vem aí o novo filme do Michael Moore, UUUuuuuh!) e que sonha com uma versão do estado mínimo ilusoriamente inspirada nos EUA do Partido Republicano. Esta frase de Pacheco Pereira é um exemplo típico dessa ilusão:

" (...) os tenebrosos OGM servem de pretexto para proteger os agricultores principescamente subsidiados pela PAC da competição dos produtos agrícolas americanos"

Ora, se há agricultores principescamente subsidiados são os agricultores americanos e não são apenas subsidiados, são também protegidos e ajudados pela espionagem da NSA (ler cap.10 do relatório ECHELON) que muito contribuiu para a batota praticada por empresários e agricultores americanos contra a Europa, que causou prejuízo e desemprego de uma forma desleal na UE. Mas os estragos que a batota americana causaram - que foram bem piores do que pisar um hectare de milho - não preocupam Pacheco Pereira.
A insinuação de que a moratória sobre os OGM foi uma medida proteccionista da Europa, é um argumento infantil das corporações agrícolas americanas que só pensam no lucro, que se estão nas tintas para a segurança e que não percebem quase nada do que é a UE e da sua filosofia de introdução de novos produtos no mercado que se aplicam tanto aos OGM como aos produtos químicos fabricados na Europa: o princípio da precaução. Sobre este assunto já o americano Jeremy Rifkin, um profundo conhecedor da filosofia UE, foi bem claro:

"What the US didn't understand is that Europe's opposition to the introduction of GMO's was not just a political maneuver to gain a bargaining chip with the US on trade, but something far more important."
"The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream", Jeremy Rifkin, ed. Polity, 2004, pag. 321

No entanto, todos nos lembramos da ridícula interdição do queijo roquefort nos EUA, em parte sob o argumento de que se tratava de queijo estragado... Foi obviamente uma descarada reacção proteccionista americana contra um dos muitos produtos europeus proibidos nos EUA. Aliás é bem conhecida a interdição de um cidadão entrar nos EUA munido de alimentos. Mas esta medida também se enquadra numa filosofia de alienação dos cidadãos americanos muito cultivada pelos grupos de pressão da indústria alimentar americana, que tenta afastar os consumidores do verdadeiro aspecto, sabor e textura dos alimentos, oferecendo alimentos se parecem quase todos com brinquedos coloridos. Aliás a maior parte do queijo que se consome nos EUA não é verdadeiro queijo é aquilo que na UE é obrigatório rotular como emulsão láctea muito utilizada em alimentos congelados.

Concluo que Pacheco Pereira talvez ficasse mais satisfeito se importássemos dos EUA um roquefort transgénico esterilizado, embrulhado em papelinhos com histórias dos sobrinhos do Mickey (sobrinhos claro, não são filhos, porque os meninos americanos ficariam chocados se o Mickey e a Minie tivessem que copular para ter filhos).

Etiquetas: , ,


Quarta-feira, Setembro 05, 2007

Princípio da precaução: UE vs EUA II 

"...had the precautionary principle been invoked in the past, many of the adverse effects of new scientific and technological introductions might have been prevented, or at least mitigated, and they cite the introduction of halocarbons, and the tear in the ozone hole in the Earth's upper atmosphere, the outbreak of BSE in cattle, growing antibiotic-resistant strains of bacteria caused by the over-administering of antibiotics to farm animals, and the widespread deaths caused by asbestos, benzene and PCBs."

"The REACH system requires companies to conduct safety and environmental tests to prove that the products they are producing are safe. If they can't, the products will be banned from the market. (...) In America, newly introduced chemicals are generally assessed to be safe, and the burden is primarily put on the consumer and the public at large or the government to prove they cause harm. (...) In the US, regulation is designed, for the most part, to address environmental problems once they occur. (...) The vast majority of non-pesticide chemicals are not screened or tested at all before introduction into the market."

"... the US has integrated aspects of the precautionary principle into some of its environmental regulations, for the most part America's approach and standards are far more lax than the EU's, while still arguably better than those of many other countries."

"For example, in the USA, the Animal and Plant Health Inspection Service, of the United States Department of Agriculture (USDA), is responsible for monitoring health problems in the nation's farm animals and plants. But the USDA is also charged with the responsability of promoting American agricultural products. In countless instances, the department has been less then rigorous in the pursuit of potential adverse environmental and health effects caused by existing agricultural practices"

"What the US didn't understand is that Europe's opposition to the introduction of GMO's was not just a political maneuver to gain a bargaining chip with the US on trade, but something far more important. (...) Europeans argue that because GMOs are alive, reproduce, mutate, proliferate, and can contaminate and create ireeversible niches, they pose potential threats that are global in scale and therefore require a different level of oversight."

"The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream", Jeremy Rifkin, ed. Polity, 2004, pag. 321-331

Etiquetas: , , ,


Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Ana Gomes sobre os OGM 

Um excelente e esclarecedor texto sobre o enquadramento de culturas de OGM em Portugal e na Europa.

Etiquetas: ,


This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Site Meter Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com