Segunda-feira, Outubro 05, 2009

eu pergunto o mesmo


Mais uma vez interrompo os posts de minha autoria, para colocar aqui um texto de Miguel Sousa Tavares, publicado no Expresso de ontem, que merece ser lido por todos que não o puderam ler. Aqui vai -

Pus-me a pensar o que poderia Cavaco Silva dizer na sua "comunicação à imprensa" (em que à imprensa não eram admitidas perguntas) que pudesse justificar a surpresa de ter visto um Presidente envolver-se numa campanha eleitoral e contra o partido do Governo. Não apenas pelo caso das escutas, mas também pelo seu comentário, cirúrgico e cínico, à suspensão do Jornal de Sexta, da TVI.
Pus-me a pensar e não vi grande saída presidencial, na matéria das escutas. Porque os factos, já provados ou não desmentidos, falavam por si: primeiro, há um ano e meio atrás, e depois, a um mês e meio das eleições, o assessor de confiança de Cavaco, dizendo falar em seu nome, foi transmitir ao jornal "Público" que a Presidência suspeitava estar a ser escutada e espiada pelo Governo. Isto, na exacta altura em que a campanha do PSD só tinha um tema: a "asfixia" das liberdades e da sociedade pelo Governo controleiro do PS. Que nem sopa no mel! E mudo e quedo, sem desmentir as suspeitas assim lançadas pública e escandalosamente, ficou o Presidente, lá, na sua casa do Algarve, entretido a ver diplomas. E assim ficaria, não tivesse o "Diário de Notícias" desvendado os contornos da trama e obrigado Cavaco ao gesto dúbio de "fazer alterações na sua Casa Civil". Foi então que o PSD se pôs a gritar em surdina que o PR estava a lançar sinais equívocos que poderiam, afinal, beneficiar o PS em vez de prejudicá-lo, e que o melhor era dizer logo tudo, antes mesmo que o povo fosse às umas. Mas, justamente, aí é que estava o problema, como bem se percebeu pela sua comunicação ao país: o que tinha ele para dizer? Nada.
Assim, e excluindo desde logo a hipótese de ver o Presidente pedir desculpas pelo sarilho que engendrara ou consentira planeadamente, só vi uma maneira de ele se pôr a salvo: sacrificar em praça pública o amigo Fernando Lima (e é isso que se espera dos amigos dos príncipes, nas horas de aperto). Mas não: talvez tolhido pelo pudor e enraivecido pelo descalabro da sua conduta, vimos um Presidente fora de si, com cara de ódio e pose de majestade ofendida, a quem tinham ousado incomodar ("na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo a ver diplomas ... exigindo que interrompesse as férias .. .). E, de suspeito, Sua Excelência passou a acusador, com uma leviandade que, vinda de um Presidente da República, arrepia. Sim ele é que desconfia que "altos dirigentes do partido do Governo" se interroguem sobre o facto (aliás público e não desmentido) de membros do seu stafe participarem na elaboração do programa eleitoral do PSD; ele é que desconfia do timing da notícia do "Diário de Notícias", e não da do "Público", saída um mês antes e que deu início a toda a história; ele é que não percebe que alguém possa pôr em causa o legítimo direito de um seu assessor acusar o Governo de espiar o Presidente, sem ter de o provar; ele é que julga que o quiseram empurrar para a campanha eleitoral, e não que se empurrou a si mesmo; ele é que desconfia da veracidade do mail trocado entre dois jornalistas do "Público", apenas com a autoridade que lhe dá o facto de ser quem é; e, enfim, num despropósito final e patético, ele é que se lembrou, no próprio dia em que se ia explicar ao país, de subitamente desconfiar da vulnerabilidade do seu computador pessoal, para assim justificar as "questões de segurança" sobre as quais tinham anunciado que iria falar. Enfim, para tudo resumir, não fossem "os superiores interesses nacionais", que, por vezes, obrigam um Presidente da República a "ser capaz de resistir a graves manipulações", que ultrapassam "os limites do tolerável e da decência", e Sua Ofendida Excelência diria aos portugueses, olhos nos olhos, o que verdadeiramente lhe vai na alma: que eles acabaram de reconduzir um governo de bandidos, que lhe interrompem as férias, espiam as comunicações, controlam a liberdade de opinião dos seus assessores e que ele, a bem da nação, terá de suportar enquanto não vir saída. Como comentava um amigo meu, todavia longe do universo PS, "será que ele nos toma a todos por mentecaptos?".
Quando Cavaco Silva foi eleito; eu escrevi aqui que nunca tinha sido devoto do culto. Nunca lhe reconheci crédito de estadista nem mérito como governante. Nunca lhe conheci um pensamento político que não fosse estratégico apenas para si próprio nem agenda política que não fosse a do seu interesse pessoal. Nunca o vi gostar de correr riscos nem ter coragem nos momentos difíceis - quer em relação ao país quer em relação ao próprio PSD, que, em grande parte, ainda vive na ilusão de que Cavaco pertence à sua família política, como se ele tivesse alguma família política que não a sua própria. Mas escrevi também que, uma vez eleito, ele passava a ser o Presidente de todos os portugueses e também o meu.
Isso acabou terça-feira passada. O homem que se dirigiu ao país como Presidente de todos os portugueses já não o é mais. Colocou-se a si mesmo como Presidente de uma facção – dos devotos que lhe restam ou da maioria silenciosa e ignorante que não segue ou não entende a gravidade do que se passou. Por decisão própria, o Presidente da República tornou-se neste momento o principal factor de instabilidade, o principal obstáculo ao regular funcionamento das instituições democráticas que jurou defender. Nada mais será como dantes. E não apenas entre o Presidente e o futuro governo: entre o Presidente e o país.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

o vinho e o mosto 24


85.

Reparando, às vezes, no trabalho literário abundante ou, pelo menos, feito de coisas extensas e completas de tantas criaturas que ou conheço ou de quem sei, sinto em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto incoerente de sentimentos mistos.
Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou má – e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má -, sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são.
E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valera, pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapaz de agir.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego



Sem ter pensado alguma vez nisso, dei comigo nos últimos anos a fazer obra completa ou a tentar fazê-la. Desviei-me do caminho que estava a percorrer, no que respeita à escrita, e atirei-me, é o termo justo, à obra, melhor dizendo – às obras completas. Imaginei-as, preparei-as, investigando e escrevi-as o que melhor que sabia ou pude. Estão feitas e publicadas. E, agora? Que penso eu delas? São o que queria? São completas? Posso orgulhar-me delas? Sei que não são inteiramente boas, mas também sei que, realmente, não são inteiramente más. Mas para que serve uma obra que não é inteiramente má? A quem, se nem a mim? O que poderia ter feito de bom com o tempo, o esforço que nelas investi? Teria conseguido outra coisa completa? Inteiramente boa? Não o problema não está no tamanho do que se faz, no tipo de coisa que se faz. O problema está na verdade, na autenticidade com que se faz, na autenticidade do que se faz. Não, também não seria pelo silêncio que eu iria ou poderia ir. Porque não tendo como tu, Bernardo, um sentido crítico que me deixe ver apenas os defeitos, as falhas, dou comigo a achar, vezes de mais, que o que escrevo, breve ou extenso, ligeiro ou profundo, não só não é inteiramente mau, como, por vezes me parece quase bom, com a lucidez suficiente para saber que bom, com a força dessas três letras, não o é. Raras vezes o é, mesmo quando a escrita é de outros. Costumo pensar que a leviandade com que às vezes escrevo é fruto da imperiosa necessidade de o fazer. Como então respeitar o silêncio inteiro da alma, para que apontas?

CVR
Justificar completamente

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

lengalonga

Numa breve consulta no YouTube encontrei esta surpreendente Lengalonga, com letra de Regina Guimarães e voz de Ana Deus, que nos transmite uma visão ou um retrato bem cinzento deste Portugal em que vivemos. Penso que esta Lengalonga merece ser escutada, concorde-se ou não com ela. Prevejo que haja quem se arrepie e possa não chegar ao fim. Também prevejo que haja quem a ouça mais do que uma vez. Por isso a coloco aqui. Nada mais salutar do que reflectir sobre as coisas, entender os vários sentidos, estar atento a tudo. São palavras, texto e forma de o apresentar, a que não se pode ficar indiferente. Eu, gostei muito.

valter hugo mãe

Ouvi há dias uma entrevista no Rádio Clube, com Valter Hugo Mãe. Sabia-o escritor de mérito reconhecido, vencedor do Prémio José Saramago, com o romance «O Apocalipse dos Trabalhadores».
Não sabia, contudo, que acumulava a escrita com a música. Ouvi-o contar com grande modéstia e aparente verdade a forma como entrara no mundo da música, como vocalista da nova banda Governo. Ele acha que não tem voz. Mas a mãe pensava o contrário. Foi necessário que um dos elementos dos Mão Morta tivesse a mesma opinião da mãe para ele se aventurar, com timidez e alguma vergonha, a dar o salto definitivo para esta nova existência cultural.
Confesso que ainda não tive ocasião de ler o Apocalipse, mas já ouvi várias vezes «Meio Bicho e Fogo».
Se resolvi deixar aqui este apontamento foi porque gostei do que ouvi e por isso o quero partilhar. O mesmo espero fazer quando ler o Apocalipse.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

ainda reggiani

Foram duas canções muito importantes para mim, há mais de 40 anos. Sobretudo Ma Liberté que cantei centenas de vezes e que, por estranho que pareça, cheguei a pensar que a cantava como se tivesse voz para o fazer. Não teria voz, mas tinha alma.




Quarta-feira, Setembro 02, 2009

a idade não perdoa

Estive hoje a rever vários vídeos de cantores que me fizeram vibrar há algumas décadas. Era minha intenção mostrá-los a cantar enquanto novos e depois já perto do fim. Embora me comovessem e ainda mostrassem o seu talento, definitivamente, não eram os mesmos.
Não consigo fazer-lhes a maldade de aqui os expor quando perderam qualidade. Quero sim, homenageá-los tal como os conheci, tal como os conservo na minha memória.
Convosco, Juliette Greco cantando Feuilles Mortes e Serge Reggiani cantando Le petit garçon.




Terça-feira, Setembro 01, 2009

prevenção rodoviária

Penso que um blog também deve ter preocupações educativas. Este vídeo da Polícia de Gales, com as suas chocantes imagens, parece ser um bom exemplo de prevenção rodoviária, já que pode levar a pensar todos aqueles que não respeitam as regras da condução segura e pensam que os acidentes só acontecem aos outros.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

a ganância mata

A ganância mata, mesmo que demore a matar. Umas vezes de forma fulminante, outras progressivamente, outras de forma tão lenta que o ganancioso não se apercebe para onde caminha. O ganancioso é diferente do ambicioso. Este último, embora por vezes criticável, tem na maioria das vezes mérito e qualidades pessoais. O ganancioso é apenas um ganancioso. Merece ser engolido pela sua ganância. Será que o vídeo é crítica ou apenas diversão?

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