Peixe Seco from Digital Impulse on Vimeo.
Luis Grave Rodrigues comenta no facebook: "Qual o significado prático de um primeiro-ministro viajar em turística? E o significado político? Nenhum! É uma miséria pindérica, artificial e hipócrita ... E para ser coerente, o que é que se vai seguir? Vai andar de Fiat Punto? Vai aproveitar as costas dos papeis do despacho para rascunho? Vai servir chicharro aos chefes de Estado estrangeiros que nos visitem? Vai trocar o papel higiénico do palácio por uma marca de uma só folha?".
Tendo a concordar com o Luís Rodrigues quando diz que a decisão tomada (e o esforço para a divulgar) decorrem mais do populismo que de verdadeira substância política do actual primeiro ministro. Vai ser preciso tempo para saber.
Não concordo é na ausência de significado político de ter os governantes a viajar em turística, de viajarem de fiat punto, de aproveitar as costas dos papéis para rascunho ou de servir chicharro aos chefes de estado que nos visitem (não me pronuncio sobre papel higiénico, se não para lembrar que a maior parte da população do mundo desconhece o que isso seja e que vale a pena lembrarmo-nos o que signfica, de pressão sobre os recursos, o progressivo acesso desta população a bens que consideramos indiscutivelmente básicos).
O valor dos símbolos (ou da sua ausência) na afirmação do poder é reconhecido desde sempre.
Escuso de lembrar a Rainha Vitória ataviada com as suas mais opulentas jóias quando ia visitar pobres, justificando com a sua convicção de que essa era a melhor forma de respeitar as pessoas que esperavam a visita da sua rainha e não de uma mulher qualquer. Ou a famosa fotografia da então namorada do príncipe Carlos da Inglaterra, saindo do palácio no seu pequeno carro urbano e plebeu, que contribuiu para o título informal de princesa do povo que traduziria a maior proximidade da casa real inglesa com as pessoas comuns, condição essencial para a sua aceitação em sistemas democráticos modernos. Ou os espartanos meios de uso pessoal colocados pela sociedade à disposição dos deputados de parlamentos nórdicos, como forma de afirmação da condição de homens e mulheres vulgares temporariamente representantes de outros homens e mulheres comuns, por contraste com a arquitectura nazi ou estalinista.
A ideia de que viajar em primeira é uma condição básica de prestígio do primeiro ministro de um país é uma ideia muito "antigo regime", em que a legitimidade do poder provinha da distinção imanente do governante e não do voto das pessoas comuns. Basta ver hoje quem são os mais ostensivos utilizadores do luxo como símbolo do seu poder e quem são os governantes mais frugais no uso do dinheiro dos contribuintes.
Lembro-me de um responsável numa unidade hoteleira ocupada por uma delegação extensa e de alto nível numa cimeira mundial em Lisboa me dizer que era de longe mais rentável receber a delegação russa que a delegação americana porque os americanos tinham tudo negociado pelo mínimo e não gastavam um tostão em extras, ao contrário dos russos, traduzindo as diferentes culturas sobre a origem do dinheiro que gastavam: os americanos obcecados com o dinheiro dos contribuintes, os russos (tal como os portugueses) convencidos de gastavam dinheiro público proveniente de um Estado abstracto.
Ora o que me faz escrever sobre isto num blog ambiental é a minha convicção de que Eugénio de Andrade tinha essencialmente razão: "todo o luxo é uma forma de degradação".
No meu trabalho com o chef António Alexandre uma das coisas que mais me impressionam e me agradam é a sua capacidade de usar produtos simples e desvalorizados para criar verdadeira sofisticação: a partilha de alguma coisa tornada única pela inteligência, gosto e capacidade de uma pessoa. O trabalho do António Alexandre com o carapau seco da Nazaré, documentado no video que ilustra o post, demonstra bem como é possível servir chicharro aos chefes de estado sem qualquer perda de prestígio e sem ser pindérico.
O projecto eat the view pretende exactamente acabar com o estigma que o novo riquismo burguês criou sobre a pequena produção própria, sobre a dignidade do trabalho manual, sobre a indignidade da proximidade com o estrume das pessoas mais próximas do poder e da riqueza.
Ao contrário do que sempre foi a tradição dos jardins em Portugal, que essencialmente eram espaços produtivos arranjados para servirem simultaneamente objectivos lúdicos e de recreio, mantendo as funções de gestão da água e da circulação nas hortas mas com soluções formais mais elaboradas, hoje toda a gente escarnece a Maria de Salazar que criava, e bem, galinhas, nos jardins de S. Bento.
É tempo de reabilitar a frugalidade, deixando à inteligência e ao bom gosto dar-lhe o toque de sofisticação que distingue os espíritos superiores, evitando confundir a ostentação do luxo material com dignidade pessoal e institucional.
Se viajar em económica (e, espero eu, viajar de comboio para o Porto) for só uma cartada inconsequente e populista é pena.
Terá sido uma oportunidade perdida para começar a reabilitar a frugalidade, essencial à sustentabilidade e ao respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
Ler os doze césares de Suetónio é a esse título muito instrutivo porque a esta distância da história podemos comparar com clareza o prestígio que a história atribui aos césares glutões e que optaram por se rodear do luxo ostensivo, dos césares que, como Augusto, eram conhecidos pela frugalidade "Na sua mesa ... era muito sóbrio e de paladar por assim dizer comum. Preferia acima de tudo o pão caseiro, peixe miúdo, queijo de vaca prensado à mão, figos frescos, desses que há duas vezes por ano".
Esperemos, mesmo sem grande esperança, que viajar em económica seja assumidamente um gesto simbólico que leve, entre outras coisas, à criação de hortas no palácio de S. Bento (e, já agora, no de Belém também), para que se tragam à mesa dos chefes de estado grelos acabados de colher, fertilizados com estrume e diminuídos pela parte que coube às lagartas e aos pássaros, mesmo que seja para acompanhar chicharro cozinhado por quem seja capaz de ser sofisticado a partir de qualquer ingrediente, como o abade de priscos que deu ao seu pudim de ovos uma textura difícil de obter sem a banha de porco que usou na receita original.
Isso sim, é um luxo que não está ao alcance de todos os chefes de estado.
Não se trata de recuperar o "viver como habitualmente" de Salazar, trata-se isso sim de perceber que provavelmente não nos será possível viver como habitualmente.
henrique pereira dos santos












