Quinta-feira, Junho 23, 2011

Bilhetes de avião e chicharro



Peixe Seco from Digital Impulse on Vimeo.



Luis Grave Rodrigues comenta no facebook: "Qual o significado prático de um primeiro-ministro viajar em turística? E o significado político? Nenhum! É uma miséria pindérica, artificial e hipócrita ... E para ser coerente, o que é que se vai seguir? Vai andar de Fiat Punto? Vai aproveitar as costas dos papeis do despacho para rascunho? Vai servir chicharro aos chefes de Estado estrangeiros que nos visitem? Vai trocar o papel higiénico do palácio por uma marca de uma só folha?".
Tendo a concordar com o Luís Rodrigues quando diz que a decisão tomada (e o esforço para a divulgar) decorrem mais do populismo que de verdadeira substância política do actual primeiro ministro. Vai ser preciso tempo para saber.
Não concordo é na ausência de significado político de ter os governantes a viajar em turística, de viajarem de fiat punto, de aproveitar as costas dos papéis para rascunho ou de servir chicharro aos chefes de estado que nos visitem (não me pronuncio sobre papel higiénico, se não para lembrar que a maior parte da população do mundo desconhece o que isso seja e que vale a pena lembrarmo-nos o que signfica, de pressão sobre os recursos, o progressivo acesso desta população a bens que consideramos indiscutivelmente básicos).
O valor dos símbolos (ou da sua ausência) na afirmação do poder é reconhecido desde sempre.
Escuso de lembrar a Rainha Vitória ataviada com as suas mais opulentas jóias quando ia visitar pobres, justificando com a sua convicção de que essa era a melhor forma de respeitar as pessoas que esperavam a visita da sua rainha e não de uma mulher qualquer. Ou a famosa fotografia da então namorada do príncipe Carlos da Inglaterra, saindo do palácio no seu pequeno carro urbano e plebeu, que contribuiu para o título informal de princesa do povo que traduziria a maior proximidade da casa real inglesa com as pessoas comuns, condição essencial para a sua aceitação em sistemas democráticos modernos. Ou os espartanos meios de uso pessoal colocados pela sociedade à disposição dos deputados de parlamentos nórdicos, como forma de afirmação da condição de homens e mulheres vulgares temporariamente representantes de outros homens e mulheres comuns, por contraste com a arquitectura nazi ou estalinista.
A ideia de que viajar em primeira é uma condição básica de prestígio do primeiro ministro de um país é uma ideia muito "antigo regime", em que a legitimidade do poder provinha da distinção imanente do governante e não do voto das pessoas comuns. Basta ver hoje quem são os mais ostensivos utilizadores do luxo como símbolo do seu poder e quem são os governantes mais frugais no uso do dinheiro dos contribuintes.
Lembro-me de um responsável numa unidade hoteleira ocupada por uma delegação extensa e de alto nível numa cimeira mundial em Lisboa me dizer que era de longe mais rentável receber a delegação russa que a delegação americana porque os americanos tinham tudo negociado pelo mínimo e não gastavam um tostão em extras, ao contrário dos russos, traduzindo as diferentes culturas sobre a origem do dinheiro que gastavam: os americanos obcecados com o dinheiro dos contribuintes, os russos (tal como os portugueses) convencidos de gastavam dinheiro público proveniente de um Estado abstracto.
Ora o que me faz escrever sobre isto num blog ambiental é a minha convicção de que Eugénio de Andrade tinha essencialmente razão: "todo o luxo é uma forma de degradação".
No meu trabalho com o chef António Alexandre uma das coisas que mais me impressionam e me agradam é a sua capacidade de usar produtos simples e desvalorizados para criar verdadeira sofisticação: a partilha de alguma coisa tornada única pela inteligência, gosto e capacidade de uma pessoa. O trabalho do António Alexandre com o carapau seco da Nazaré, documentado no video que ilustra o post, demonstra bem como é possível servir chicharro aos chefes de estado sem qualquer perda de prestígio e sem ser pindérico.
O projecto eat the view pretende exactamente acabar com o estigma que o novo riquismo burguês criou sobre a pequena produção própria, sobre a dignidade do trabalho manual, sobre a indignidade da proximidade com o estrume das pessoas mais próximas do poder e da riqueza.
Ao contrário do que sempre foi a tradição dos jardins em Portugal, que essencialmente eram espaços produtivos arranjados para servirem simultaneamente objectivos lúdicos e de recreio, mantendo as funções de gestão da água e da circulação nas hortas mas com soluções formais mais elaboradas, hoje toda a gente escarnece a Maria de Salazar que criava, e bem, galinhas, nos jardins de S. Bento.
É tempo de reabilitar a frugalidade, deixando à inteligência e ao bom gosto dar-lhe o toque de sofisticação que distingue os espíritos superiores, evitando confundir a ostentação do luxo material com dignidade pessoal e institucional.
Se viajar em económica (e, espero eu, viajar de comboio para o Porto) for só uma cartada inconsequente e populista é pena.
Terá sido uma oportunidade perdida para começar a reabilitar a frugalidade, essencial à sustentabilidade e ao respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
Ler os doze césares de Suetónio é a esse título muito instrutivo porque a esta distância da história podemos comparar com clareza o prestígio que a história atribui aos césares glutões e que optaram por se rodear do luxo ostensivo, dos césares que, como Augusto, eram conhecidos pela frugalidade "Na sua mesa ... era muito sóbrio e de paladar por assim dizer comum. Preferia acima de tudo o pão caseiro, peixe miúdo, queijo de vaca prensado à mão, figos frescos, desses que há duas vezes por ano".
Esperemos, mesmo sem grande esperança, que viajar em económica seja assumidamente um gesto simbólico que leve, entre outras coisas, à criação de hortas no palácio de S. Bento (e, já agora, no de Belém também), para que se tragam à mesa dos chefes de estado grelos acabados de colher, fertilizados com estrume e diminuídos pela parte que coube às lagartas e aos pássaros, mesmo que seja para acompanhar chicharro cozinhado por quem seja capaz de ser sofisticado a partir de qualquer ingrediente, como o abade de priscos que deu ao seu pudim de ovos uma textura difícil de obter sem a banha de porco que usou na receita original.
Isso sim, é um luxo que não está ao alcance de todos os chefes de estado.
Não se trata de recuperar o "viver como habitualmente" de Salazar, trata-se isso sim de perceber que provavelmente não nos será possível viver como habitualmente.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Junho 21, 2011

Um carvalhal maduro ou um campo agrícola?

Esta é uma pergunta clássica que faço aos estudantes que arquitectura paisagista quando tenho de dar uma aula e os coloco perante a posição de ter de decidir a expansão de um aglomerado urbano para a qual só existem duas opções: destruir um carvalhal com duzentos anos ou solo agrícola de primeira qualidade.

Tirando os que procuram fugir da pergunta dizendo que arranjavam outra solução, a distribuição dos alunos que preferem uma ou outra opção anda perto dos 50% para cada lado (se forem dos últimos anos, nos primeiros, com quem contacto menos, calculo que a destruição da área agrícola para proteger o carvalhal ganha folgadamente).

Lembrei-me disto ao ler uma notícia (não disponível na internet) sobre a possível destruição de parte da campina de Faro com dois loteamentos.

Se fossem sobreiros, teríamos as ONGs aos gritos. Todos nós conhecemos vários processos que implicam abate de sobreiros mediatizados, e por vezes travados ou alterados, por acção das ONGs. Mas destruição de solos agrícola que as ONGs mediatizem e combatam juridicamente não me lembro de nenhuma (às vezes há processos combatidos por outras razões em que é utilizada a RAN para engrossar o molho, mas não é desses que falo).

Os sobreiros são um recurso renovável, em expansão e abundante no país.

Os solos agrícolas de elevada qualidade (e raras são as situações como as da campina de Faro, da baixa de Loures, das terras da Costa, da veiga de Chaves e dos mais emblemáticos solos cerealíferos do país, na envolvente de Oeiras, tão bons que até o betão cresce) são raros, não renováveis e em contracção.

Eu acho que a esmagadora maioria dos dirigentes de ONGs em Portugal, e de jornalistas da área do ambiente, optaria por destruir os solos agrícolas para preservar o carvalhal.

Chumbariam se fossem meus alunos.

Viva o meu colega Henrique Cabeleira que quer conservar a campina de Faro como espaço agrícola de excelência.

Abaixo o meu colega Macário Correia que preside à Câmara de Faro e acha que não pode fazer nada porque os loteamentos estão no PDM.

Suspenda o PDM. Só depende de si. Ao lado, em Loulé, o Governo suspendeu o PDM para aprovar um hotel. A si com certeza não lhe seria difícil suspender o PDM para não aprovar os loteamentos.

Sempre se lhe reconheceriam as características em que fundou a sua carreira política aos comandos de caterpillers para demolir construções ilegais e demonstraria que o seu compromisso com o bem público não foi simplesmente um devaneio de juventude.

henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Junho 20, 2011

Da fé


A discussão sobre caça e conservação é uma discussão difícil para quem resolva avaliar racionalmente a informação existente.

Nos meios conservacionistas a caça é considerada um elemento muito relevante na conservação das espécies. Depois há duas linhas de pensamento: os que acham que a caça deve ser banida (com argumentos filosóficos ou técnicos) e os que acham que a caça deve ser regulamentada de modo a evitar os problemas que causa e potenciar alguns aspectos positivos (de maneira geral incluem-se nestes os económicos, os mecanismos de gestão associados que podem ser usados positivamente para a conservação e os de relação com as populações).

Mas conservacionistas como eu, que atribuem pouca relevância à caça na dinâmica das espécies (com as excepções e ressalvas que já fiz antes), somos de facto poucos e com uma vida difícil nestas discussões.

O curioso é que a teoria evolucionista aponta exactamente no mesmo sentido que eu (é a inversa, evidentemente, eu é que aponto no sentido da teoria): os grandes riscos que correm os genes no seu objectivo de reprodução vêm dos organismos patogénicos e dos companheiros que competem por reprodução, abrigo e alimentação. Não vêem dos predadores.

O que os conservacionistas fazem para sustentar ao mesmo tempo o evolucionismo e o que dizem sobre a caça é eleger a espécie humana como uma espécie fora do jogo da sobrevivência e da evolução, postulando, sem demonstração, que as regras gerais que se aplicam às dinâmicas das outras espécies não se aplicam a nós. Ou seja, a caça não é uma actividade de predação, é uma coisa muito mais eficaz e letal porque temos instrumentos de transformação do mundo muito mais poderosos.

Ora o que é poderoso em nós é a capacidade do mudar o mundo para o tornar mais favorável para a nossa espécie, não é a nossa capacidade de sermos supercaçadores.

Vejamos os casos concretos referidos pelo Alexandre Vaz nos comentários ao post anterior (o Alexandre, que nunca responde aos meus argumentos, limitando-se a ir buscar argumentos novos de cada vez que os anteriores são rebatidos, acha que eu quero simplesmente ganhar um combate retórico. Eu, que analiso cada um dos argumentos do Alexandre, que vou ler sobre as espécies de que fala, que vou estudar os assuntos para poder argumentar com coisas concretas, acho que o Alexandre não sabe o que é retórica).

Pinguinus impennis. Volto a notar que esta espécie cai integralmente numa das excepções em que admito que a caça possa ser relevante: a dependência da espécie de ilhas e ilhéus. Mas o Alexandre resolve omitir um aspecto que está à distância de um clik: os marinheiros que começaram a explorar as zonas onde estes pinguins existiam, introduziram nestas ilhas os ratos, que como se sabe podem ter um efeito devastador em posturas que não co-evoluíram tendo de defender-se dessa ameaça. O artigo da wikipedia discute também o eventual efeito de alterações climáticas na conservação da espécie. A última colónia islandesa desapareceu submersa por uma erupção vulcânica. É por essas e por outras que o resumo de um dos livros citados nas referências é o seguinte: "But as Gaskell shows, the extinction of the Great Auk was not a straightforward tale of overhunting. In this subtle, nuanced book, he reveals the ways in which its fate was inextricably bound up with the social, economic, and political history of the time. ". Exactamente o essencial do meu argumento. Volto a repetir, nas condições desta espécie, isto é, estritamente dependente de ilhas, a caça pode desempenhar um papel mais relevante que o habitual na dinâmica da espécie, mas essa é a excepção, não a regra. A página 18 desse livro, disponibilizada na net, é notável na descrição da catástrofe ecológica (e económica) associada a erupções de vulcões em 1783 (bem como dos efeitos da guerra entre franceses e ingleses, na página anterior). A introdução é aliás notável, como apoio ao meu argumento: "over the centuries so many creatures have suffered progressive decimation of their numbers through incessant slaughter that we are apt to forget that, as a rule, it is difficult to drive animals and birds to extinction by that means alone: in the great majority of cases the loss or degration of natural habitat is the primary cause of a species' desappearance from the face of the earth".

Vou passar por cima da Cabra do Gerês porque é um absurdo completo pretender que a cabra do gerês foi extinta por causa da caça e não pelas alterações de habitat que se acentuam a partir do século XVIII e que levam à extinção do urso e à redução acentuada de todas as espécies mais dependentes da mata e menos dependente da clareira. A cabra do gerês simplesmente foi substituída pela pressão do pastoreio.

Todos os ungulados citados nos comentários do Alexandre, quer sejam no Sahel ou na África do Sul, em condições ecológicas aliás idênticas (e que dependem da circulação geral da atmosfera) têm a mesma dinâmica populacional que pode ser entrevista nesta síntese: " few causes that contributed to the extinction of scimitar-horned oryx in the wild include climate change, human encroachment on their habitat for agriculture, hunting, and excessive domestic livestock grazing on limited vegetation."

Uma mera volta pela internet permite perceber que os problemas associados à conservação dos ungulados das zonas áridas estão muito longe de se restringir, ou mesmo de ter como primário, o problema da caça. A caça, comparada com o aumento do pastoreio nessas áreas, é uma brincadeira de crianças para a conservação destes ungulados.

Ora em lado nenhum se diz, como se diz da caça, que o habitat destas espécies foi pastoreado até à extinção das espécies.

Para quem quiser deixar destes jogos florais e perceber o que realmente se passa o melhor mesmo é dar uma vista de olhos aqui.

Mais uma vez lá aparece a caça como responsável: "The main threats identified were still as follows: poaching, constant hunting, drought and desertification, the loss of favourable habitats, a lack of resources and commitment, and some indifference on the part of the international community in regard to a region that does not hold a high concentration of the world’s biodiversity." Mas lendo este parágrafo, alguém no seu perfeito juízo, e sabendo como estas declarações oficiais são negociadas para não ferir susceptibilidades políticas, compreende que na "perda de habitat favorável" não esteja implicada a forma como essas paisagens são geridas pela economia, em especial o pastoreio? O que provoca essa perda de habitat favorável? A seca? Pois em parte será. A desertificação? Pois é uma consequência da seca com certeza, pelo menos parcialmente. Mais nada? A forma como se gere a economia da região não tem nada que ver com esta perda de habitat?

Talvez ao olhar para documentos menos comprometidos politicamente se faça alguma luz sobre o assunto.


...

Grassland in semi-arid regions has been desertified under excessive human pressure. The 1977 UN Conference on Desertification indicated that, in general, 6% of the world’s area is ‘man-made desert’, and 25% is threatened by desertification. The annual degradation of land to ‘desert-like’ conditions is estimated by UNEP (1992) as 60,000 km2. Mackinon & Mackinon (1986) indicate that 65% of the original ecosystems south of the Sahara have been subject to major ecological disturbance.

...

"Dregne & Chou (1992) estimate that 70% of the land (921 million ha) in the Arab countries, is moderately desertified. Of the rangelands, which represent 42% of the total area, 330 million ha are either severely or very severely desertified, and 150 million ha are moderately desertified. The overall proportion of desertification is more than 80% of these rangelands, while in the rain-fed agricultural land, it is 67%, and in irrigated agricultural land, 34%. These high percentages of desertification give an impression of the severe deterioration of biodiversity in the arid regions of the Arab countries, and the extinction of many plant and animal species. But, little information is available on the relationship between the degradation of these drylands and loss of biodiversity. How- ever, it is well known that many species found in deserts are highly endangered: desert tortoises, Asian and African wild asses, sundry species of cactus, and a variety of antelopes such as the addax, scimitar-horned oryx and the Arabian oryx, to name some of the better-known endangered taxa (Hunter, 1996)."

Perante descrições como esta há quem se entretenha a falar de caça.

Eu acho uma conversa chilra.

A conservação não é uma questão de fé e moral, é uma chatice económica que começa nos nossos consumos.

henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Junho 17, 2011

Ciência e ideologia



Este post é dedicado aos meus amigos conservacionistas que me fazem lembrar o genial pessimista que definiu a vida como sendo uma doença sexualmente transmissível, sempre fatal.

Diz Alexandre Vaz num seu comentário ao post anterior: "A extinção ou redução crítica de populações de animais selvagens em consequência da actividade cinegética está bastante bem documentada. O caso do Ectopistes migratorius é um bom exemplo.".
É bem possível que o Alexandre tenha razão.
Simplesmente eu tenho dúvidas. Dúvidas, não certezas.
A situação deste pombo cai numa das poucas situações em que admiti explicitamente, no post anterior, que a caça pudesse ter um efeito relevante na extinção ("Mesmo em situações de abate indiscriminado e em massa, como aconteceu com os bisontes americanos, seria uma longa e difícil discussão saber se foi esse factor que quase levou à extinção da espécie ou sobretudo a alteração profunda da forma de exploração das pradarias americanas.", digo eu depois de antes ter identificado a chegada de uma nova população tecnologicamente evoluída a um novo sítio como uma das poucas situações em que a caça pode ser um factor relevante de extinção).
Isso não desarma a argumentação militante sobre a relação da caça com a extinção das espécies por uma razão simples: essa argumentação militante é mais ideológica que científica, e por isso a racionalidade da discussão é-lhe estranha.
Parece razoável admitir que o último bando de 250 000 pombos tenha sido dizimado pelos caçadores, sabendo que era o último bando, e não tenha sobrado nada para semente? Sim, eu sei que existe a questão da colonialidade, mas veremos este argumento à frente.
As minhas dúvidas sobre isto têm eco no artigo da wikipedia sobre este pombo. Vale a pena lê-lo despido de preconceitos e seguindo as fontes indicadas no artigo.
Será que uma frase destas "The extinction of the passenger pigeon is a poignant example of what happens when the interests of man clash with the interests of nature.", que não é da wikipedia mas de uma fonte de credibilidade indisputada, o smithsonian institute, pode ser lida como ciência e não como ideologia? Existe "o interesse da natureza", ou o que se pretende definir como o interesse da natureza é apenas um dos vários interesses do homem? É a discussão sobre esta pergunta uma discussão científica?
No excelente artigo da enciclopedia Smithsonian de que retirei a frase acima, verifica-se que a principal área de criação do pombo era a região dos grandes lagos, a este de Nova Yorque, ou seja, o coração industrial dos EUA do século XX e em grande parte integrando o famoso corn belt americano, sujeita a uma profunda alteração de paisagem ao longo de todo o século XIX e XX, em particular com um surto de desenvolvimento brutal após a guerra civil, exactamente o período da queda brusca no número de pombos.
"The interests of civilization, with its forest clearing and farming, were diametrically opposed to the interests of the birds which needed the huge forests to survive. The passenger pigeons could not adapt themselves to existing in small flocks. When their interests clashed with the interests of man, civilization prevailed. The wanton slaughter of the birds only sped up the process of extinction. The converting of forests to farmland would have eventually doomed the passenger pigeon."
A síntese feita pelo departamento de zoologia do museu nacional de história natural dos Estados Unidos da América parece longe da afirmação claramente ideológica do Alexandre Vaz. Tal como eu suspeitava (por razões que se prendem mais com as dinâmicas da paisagem que outras quaisquer, matéria a que grande parte da escola conservacionista portuguesa se mantém militantemente relapsa) o problema central é a alteração de habitat. É certo que essa alteração, se não fosse acompanhada pela matança desregrada dos pombos (evidentemente não se pode chamar caça à utilização de métodos como fumigações nas zonas de nidificação para os pássaros cairem tontos e serem apanhados), talvez, sublinho o talvez, tivesse permitido a não extinção do pombo.
Mas não se deve confundir a possibilidade de um elemento complementar da dinâmica das espécies (cuja eficácia no abate dos animais é aliás muito, muito aumentada pela concentração das áreas de nidificação a que a destruição das matas obriga) com a identificação da causa de extinção da espécie.
A causa é o arroteamento das imensas matas dos grandes lagos, o abate, mesmo que lhe queiram chamar caça, é simplesmente um elemento complementar do processo. E muito menos se deve, com base em distorções destas (a que se alude como sendo processos bem documentados, sabendo que pouca gente tem paciência e tempo para ir ler as fontes), eleger a caça como um problema de conservação que não é (para ser mais preciso, que de maneira geral, não é).
O problema é que muitos e muitos conservacionistas, muitos deles responsáveis nas suas organizações, estão mais emocionalmente ligados a argumentações simples que confirmam as suas convicções que à discussão racional de processos complexos.
Para além disso é muito mais difícil admitir que a extinção de espécies está muito mais relacionada com as opções alimentares das pessoas comuns (incluindo cada um de nós) que com uns energúmenos insensíveis que gostam de sangue (na cabidela o sangue é óptimo, mas umas morcelas também marcha bem) para quem é fácil passar responsabilidades que doutra maneira seriam nossas.

É tão prático quando é possível estabelecer uma fronteira moral entre os puros (nós) e os impuros (os outros, com frequência, nesta discussão, os caçadores)
Na verdade muitas destas discussões são mais do domínio da moral que da ciência.
henrique pereira dos santos

PS Não nasci caçador, não sou caçador e a caça pessoalmente interessa-me pouco. O que não estou disponível é para pactuar, ainda que seja só por estar calado, com a imposição de uma moral minoritária a terceiros, descartando um poderoso instrumento de gestão da biodiversidade, a pretexto de argumentos técnicos mal amanhados

Segunda-feira, Junho 06, 2011

Desfazendo mitos sobre caça e conservação



Filipe Nunes Vicente é um bloguer que leio com muita, muita frequência, muitas vezes concordando, outras nem tanto, mas sempre com gosto e atenção.
Neste post a que fui buscar o video que ilustra este post (cujos primeiros seis segundos são fantásticos) estamos mesmo em desacordo. Não porque subscrevo o que é dito pelo narrador do video (curiosamente mais preocupado com a exploração turística que com a conservação em si mesma), mas porque a crítica ideológica que lhe é feita fica a meio caminho.
Não estou convencido, e não vi evidência empírica sólida, de que a caça seja um factor determinante de extinção de uma espécie, excepto eventualmente em ilhas ou quando existe uma chegada repentina de uma população tecnologicamente mais evoluída a um novo destino.
Ainda assim, neste último caso, será muito difícil determinar em que medida é a caça ou a alteração de habitat (de maneira geral isso quer dizer, alteração da base da cadeia trófica) a principal causa de diminuição da espécie.
Mesmo em situações de abate indiscriminado e em massa, como aconteceu com os bisontes americanos, seria uma longa e difícil discussão saber se foi esse factor que quase levou à extinção da espécie ou sobretudo a alteração profunda da forma de exploração das pradarias americanas.
Muito menos me parece sustentável a ideia de que uma caça dirigida, como foi a que foi feita aos grandes mamíferos africanos, possa ser uma ameaça determinante na diminuição das espécies.
As razões para o meu cepticismo, para além da falta de evidência empírica (não se deve confundir a evolução paralela de duas tendências com evidência empírica, sendo bom mantê-la como o que é: uma correlação estatística que deve ser compreendida nas suas relações de causa/ efeito), é que não vejo como pode um predador continuar a ser eficiente na perseguição da sua presa à medida que ela escasseia.
Isso é tanto mais verdade quanto espécies como leões e elefantes se reproduzem com alguma facilidade e portanto qualquer canto menos batido pelos caçadores (e haverá sempre muitos) rapidamente se transforma num local de elevada densidade da espécie.
Aqui fica o que diz a UICN sobre o leão, embrulhado na costumada ideologia que contamina a discussão sobre conservação da natureza: especulações sobre a caça e, sempre em segunda nota, a preocupação com a deplecção das populações presa (isto é, provavelmente, o resultado da manipulação dos habitats).
Estou convencido de que para a grande maioria das espécies selvagens, e sobretudo para os predadores de topo ou os grandes herbívoros, o caçador, por mais exímio que seja, é muito menos perigoso que o amante da natureza, por mais bem intencionado que seja, que se senta no seu sofá a ver documentários sobre vida selvagem comendo uns snacks que sustentam o alargamento das áreas agrícolas e bebendo uns sumos naturais que aprofundam a transformação das paisagens africanas.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Junho 03, 2011

Trabalho

Há trabalho que gosto mais e menos de fazer.
Este, desta fotografia tirada no Domingo passado, é dos que melhor me sabem.
Em grande plano, António Alexandre, o verdadeiro artista deste projecto.
Atrás da máquina fotográfica, Luis Jordão, da Desafio das Letras, um parceiro fundamental nos últimos desenvolvimentos do projecto.
E algures na cozinha, fora do ângulo de visão, a Ângela, da Moinho da Serra, o parceiro mais recente.
A concepção inicial do projecto foi feita durante a minha colaboração com a ATN e já falei sobre ele, por exemplo, aqui.
Mais tarde, através da Desafio das Letras, o projecto integrou uma componente de formação para restaurantes locais e a acção levada a cabo deu também origem ao livro "O gosto de Sicó".
Nesta altura o projecto está a desenvolver-se para as Aldeias do Xisto e a fotografia é da primeira acção concreta, que decorreu no Domingo, integrando duas novas valências: a abertura da formação para o público em geral (de manhã, para o público, à tarde para profissionais de restauração, que é o que retrata a fotografia do post) e a capacitação de agentes locais que possam ter um efeito multiplicador, nomeadamente usando o conceito "experience nature", um produto de turismo de natureza da Desafio das Letras.
O meu papel no projecto acaba por ser limitado, tenho sobretudo que produzir informação sobre a paisagem que se trabalha e a forma como isso se relaciona com a alimentação.
Como colaboro com a Aguiar Floresta, também interessada na valorização de produtos que garantam sustentabilidade à gestão do território, estamos a conversar sobre a possibilidade de estender o projecto à zona de Vila Pouca de Aguiar e Vila Real.
O simples facto dessa possibilidade existir influencia já o trabalho que fazemos (neste caso, o António Alexandre): ao discutir a hipótese de trabalho e o contributo que se poderia dar para a valorização dos produtos locais, foi-nos referido que os restaurantes locais usam menos o cabrito do que gostariam (e do que seria desejável para a valorização do produto e a produção dos serviços de ecossistema associados à pastorícia) por uma razão prática de gestão.
Se ao fazer um bacalhau cozido o prato não sair tão bem, qualquer restaurante aproveita as refeições que não foram vendidas, mas que foram meias preparadas, para uns pastéis de bacalhau ou umas pataniscas, mas se for cabrito, que na região só se serve ou assado ou em ensopado (penso que se trata de uma adaptação a tempos modernos, o mais natural é que tradicionalmente fosse em caldeirada ou com castanha) não sabem o que fazer ao cabrito que tenha sido cozinhado e não servido.
António Alexandre, com as batatinhas que se vêem na fotografia, e muitas mais coisas, preparou uma deliciosa salada de borrego (pode ser de cabrito, pode ser de coelho), com uma vinagreta de frutas (de manhã framboesas, à tarde, cerejas, mas pode ser outra qualquer, eu fiz ontem com damascos, e se eu fiz, qualquer nabo na cozinha consegue fazer) que permite aos restaurantes variar e gerir mais eficientemente, com menos desperdício económico e ambiental, os produtos locais.
O efeito multiplicador deste tipo de projectos é muito difícil de medir, mas duas das pessoas que atentamente seguem a formação (não vêem só, mexem, temperam, cozinham, discutem alternativas) são elas próprias formadoras em escolas técnicas locais.
Como digo, este é, de entre os trabalhos que faço, um dos que melhor me sabem.
E fico com a nítida sensação que mais pessoas hoje sabem como tirar partido de produtos locais e de elevado conteúdo de biodiversidade.
Parece-me um caminho (caminhito, pequenino, é certo) bem melhor que o que tem conduzido a situações como esta o nosso mundo rural e a gestão da nossa biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Maio 31, 2011

Floresta de regadio


Quem lê o que escrevo há já algum tempo saberá que ao contrário da ideia dominante eu não considero Portugal um país de vocação florestal. Tem a possibilidade de produzir alguma floresta na medida em que a agricultura e a pastorícia usarem o mato para dar sustentabilidade à exploração florestal. E tem a possibilidade de explorar algumas espécies com produtividade suficiente para explorar condições conjunturais de valorização que garantam retorno ao investidor.
A ideia de que a floresta é intrinsecamente boa, tem as suas raízes no higienismo iluminista (já um dia aconselhei a leitura do tratado da árvore), e encontrou terreno fértil para se desenvolver num país rural empobrecido e com os seus sistemas de exploração levados, em muitos casos, muito para lá da sustentabilidade.
As torrentes que invadiam os campos das baixas e os deixavam imprestáveis para a agricultura por trazerem saibros e areias que ficavam nos campos férteis, estavam muitas vezes ligadas ao excesso de pastoreio dos montes, uma realidade de séculos mas que se acentua a partir do século XVIII, à medida que o progresso material e científico fazia aumentar a esperança de vida diminuindo a mortalidade infantil.
O que parecia óbvio foi adoptado como solução de Estado: substituir a daninha pastorícia pela leve frescura da sombra das árvores.
Desde essa altura, uma mítica ideia de floresta, tem justificado 150 anos de dinheiro dos contribuintes atirado para cima do superior interesse da nação materializado na floresta, que muitos consideram, sem se rir e falando muito a sério, como um bem público. Eu também considero que é um bem público no sentido em que foi, em grande parte, pago com o dinheiro dos contribuintes (é bom não esquecer: "there is no such thing as public money, there is only tax payers money").
Mas até ao programa que o partido socialista apresenta a estas eleições, comentado na adenda deste post, ainda não se tinham lembrado de usar os regadios do Estado para produzir madeiras nobres.
E é o PS do post que motiva este comentário: "Porque não regar árvores (como já hoje acontece com as oliveiras), para madeiras nobres ou outras - evitando importações - nos Perímetros de Rega, se eles estão hoje subaproveitados (quase 50% não têm aproveitamento)e a água por eles disponibilizada é agora desperdiçada?".
Procuremos responder:
1) Porque uma das razões da ausência de utilização dos regadios é o preço da água, que tenderá a subir e não a descer, não se percebendo como a falta de competitividade de produtos muito mais valorizados vai ser resolvida com produtos muito menos valorizados (é fazer as contas ao valor / hectare/ ano produzido com agricultura ou com estas tais florestas irrigadas);
2) Porque um dos problemas da floresta em Portugal são os custos da remoção dos matos, que evidentemente serão muito maiores numa floresta irrigada;
3) Porque as características da madeira serão bastante alteradas com a disponibilidade permanente de água não se vendo onde está o mercado para uma madeira nobre que deixou de ser nobre (exactamente por ser regada);
4) Porque a probabilidade dos preços dos alimentos subirem e dos preços da energia subirem é muito elevada, sendo pouco sensato ocupar os poucos solos de elevada produtividade com produções lenhosas de ciclo longo, ou seja, pouco adaptadas a tempos de incerteza;
Poderia ir desfiando um rosário de razões, mas simplesmente a questão é outra: mas por que razão se deve admitir que faz sentido plantar árvores de regadio para madeira onde podem ser produzidos alimentos? Onde é maior o desequilíbrio das contas externas, no sector florestal, mesmo considerando apenas a fileira do mobiliário, ou na alimentação? Porque alguém se lembra que já que as oliveiras também são regadas (esquecendo que o que se colhe na oliveira é o fruto) outras árvores o poderiam ser? Mas desde quando as árvores são todas iguais (faz-me lembrar a mais insistente falácia do sector que consiste em fazer uma lista imensa das vantagens ambientais das matas maduras de folhosas para justificar o investimento na produção mais ou menos intensiva de pau em povoamentos que não produzem nenhums dos bens ambientais com que os justificaram).
Que a exploração florestal se tem vindo a aproximar de uma exploração agrícola, não há qualquer dúvida. Que isso faz sentido em algumas circunstâncias, não há dúvida.
Agora que isso justifique o desvio dos solos mais produtivos do país da produção de alimentos para a produção de lenho só pode vir da cabeça dos mesmos que pura e simplesmente liquidaram a Reserva Agrícola Nacional com argumentos de economia de casino.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Maio 30, 2011

Obrigado Pedro e João


O João filmou e editou o video em que o Pedro fala sobre livro que se publicou agora sobre a serra de Sicó, com texto meu, receitas do António Alexandre e fotografias do Luís Jordão.
henrique pereira dos santos
PS O comentário simpático do António Elói ao livro está no seu blog

Sexta-feira, Maio 27, 2011

Estou farto de eco histéricos e biodesagradáveis*



*a expressão eco histéricos e biodesagradáveis foi usada hoje pela Ministra do Ambiente do Brasil na conferência em que estive, como sendo uma expressão usada no Brasil para designar os fundamentalistas ambientais

Leio esta notícia e não consigo deixar de me irritar.

O título da notícia é "Mais de 150 golfinhos morreram este ano por causa da maré negra no Golfo do México". É um título claro que diz que mais de 150 golfinhos morreram por causa da maré negra.

A notícia começa logo a desmentir o título no primeiro parágrafo: "Os mais de 150 golfinhos encontrados mortos no Golfo do Mexido desde o início do ano, número anormalmente elevado". Ou seja, pelos vistos todos os anos há golfinhos mortos, mas os números deste ano são anormalmente elevados. Quanto? Não sabemos, a notícia é omissa nesse ponto, só ficamos a saber que não é verdade que tenham morrido mais de 150 golfinhos por causa da maré negra, o que é verdade é que morrerram mais de 150, menos o habitual que não se diz quanto é, por causa da maré negra.
“O petróleo e os dispersantes afectaram a cadeia alimentar. Isso poderá ter impedido as mães golfinhos de se alimentarem de maneira adequada e assim desenvolver a camada de gordura necessária”. Pode? Então não era "morreram ... por causa da maré negra"?

Mas o que me tirou do sério foi o grande final:

"De acordo com Worthy, as temperaturas anormalmente baixas deste Inverno, conjugadas com as consequências da maré negra no organismo destes mamíferos levaram ao “desastre do século”, a morte de muitos golfinhos".

Como disse? Temperaturas anormalmente baixas no Inverno? Mas afinal não tinha sido a maré negra? Ou seja, talvez a cadeia alimentar esteja contaminada, talvez esta contamização tenha diminuído a camada de gordura e de certeza que as temperaturas foram anormalmente baixas, portanto conclui-se no título da notícia que a maré negra matou mais de 150 golfinhos.

Está bem, abelha.

henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Maio 25, 2011

Pouco a pouco...


Há anos que defendo que mais que dias ambientais artificialmente criados, seria bom que o movimento ambientalista fosse capaz de usar ambientalmente dias especiais.

Dentro desses dias especiais a quinta feira de ascenção, ou quinta feira da espiga, pelo que representa de ligação à terra e à vida, que leva milhares de pessoas ao campo, é o mais simbólico desses dias.

Ainda não foi este ano que se conseguiu criar alguma iniciativa nacional, que eu saiba, que procure dar visibilidade e conteúdo ambiental a esta tradição de saída para o campo nesse dia.
Talvez para o ano, que é a 17 de Maio, em cima do dia da biodiversidade (22 de Maio) seja boa altura para repetir o Pé na Terra, que este ano funcionou toda a semana anterior ao dia da Terra.
Mas exactamente porque ainda não se conseguiu o que seria bom, vale a pena notar: recebi um mail da Fundação da Mata do Buçaco, exactamente a publicitar as suas iniciativas na quinta feira da ascensão. Ainda não são iniciativas também com carácter ambiental, mas um dia lá se chegará.

Aleluia, Aleluia.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Maio 20, 2011

Agenda


Ontem estive num programa muito interessante, Alô Portugal, por causa deste meu livro. É um programa engraçado onde entram em directo emigrantes de todo o mundo e é muito curioso verificar como Portugal visto de fora é um país tão diferente.

No Domingo às 10 e meia da manhã, em Pombal, na Expo Sicó e feira do quijo Rabaçal, lá estou outra vez por causa do Livro.

E no dia 8 de Junho, no Porto, na feira do livro.

É curioso como a paisagem vista do prato parece mais interessantes a mais gente.

henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Maio 12, 2011

TSU, os impostos, a sustentabilidade e a esquerda




Ontem vi o debate entre Louçã e Sócrates.
Uma boa parte do debate foi à volta da taxa social única, sendo que Louçã é contra a sua diminuição e Sócrates, aceitando-a quando escreve a pedir dinheiro emprestado, é contra em campanha eleitoral.
O argumento dos dois é que reduzir a taxa social única (um imposto sobre os salários que é pago pelos empregadores) e em compensação aumentar o IVA, como propõe o PSD, é retirar dinheiro das famílias para o entregar às empresas.
Não vou comentar a falta de consistência do PSD que agora defende mexidas nas taxas de IVA aplicável a cada produto depois de ter feito a birrinha da alteração do IVA do leite com chocolate numa discussão anterior.
Nem vou perder muito tempo com a falácia de considerar compartimentos estanques o dinheiro das empresas e das famílias, como se não fossem as empresas que remunerassem o trabalho que alimenta o rendimento das famílias.
O que acho curioso, para quem como eu vem da esquerda, é ver esta esquerda actual a defender a taxação do trabalho e da produção de riqueza fugindo da txação do consumo.
Eu não reconheço a minha origem política nesta esquerda populista e consumista.
Do estrito ponto de vista da sustentabilidade e de uma agenda política ambiental, há muito que o movimento ambientalista defende a diminuição ou eliminação da taxação do trabalho, compensada pelo aumento da taxação da energia, como aliás acontece na proposta do PSD, defendida de forma pusilânime pelo próprio PSD, visto que está previsto o aumento do IVA da electricidade dos actuais (e do ponto de vista da sustentabilidade, incompreensíveis) 6% para qualquer coisa que ainda não percebi (se 13%, se 23%, eu defenderia esta última, claro).
E há muito que a pedra de toque da actuação do movimento ambientalista é o combate ao consumo excessivo das sociedades mais avançadas.
Parece por isso evidente que trocar taxação do trabalho por taxação do consumo deveria merecer um forte aplauso do movimento ambientalista.
Como aliás acontece com várias de outras medidas constantes do acordo de financiamento do Estado Português, a racionalidade económica caminha com frequência no sentido da sustentabilidade, ao contrário das tretas propagadas por muitos adversários de uma lógica sustentável no uso dos recursos.
A questão para a esquerda é que existe uma dificuldade intrínseca em conciliar os objectivos clássicos da esquerda - distribuir melhor mas também produzir mais para que todos possam ter um nível de consumo elevado - com a lógica da sustentabilidade - racionalizar o uso do recurso através da eficiência produtiva, mas também diminuir o consumo.
Parece-me que valia a pena o movimento ambientalista não fugir desta discussão difícil, porque anti-popular, procurando definir melhor que agenda política caracteriza a procura de sustentabilidade.
henrique pereira dos santos
PS Pela Helena Matos no Público de hoje fiquei a saber que o PS propõe usar áreas de regadio sub aproveitadas para a produção de eucaliptos de regadio. Confesso que não acreditei e fui verificar. E no ponto 5 do programa "Apoiar o crescimento da economia e do emprego", nas medidas concretas para a fileira florestal, lá está com todas as letras na alínea b) apostar na floresta irrigada para garantir o aumento da matéria-prima para a indústria da madeira e do papel. Eu sei que os programas eleitorais são uma ficção a que ninguém liga, em Portugal, e sei também que esta proposta é um pormenor. Mas fico atento à tradicional leitura que o movimento ambientalista faz dos programas eleitorais. E já que estava com a mão na massa fui ver o que diz o PS das áreas protegidas. Divertido, é o que vos digo. Investimento em conservação, zero (mesmo no programa eleitoral que são promessas assinadas em papel molhado), porque as áreas protegidas são entendidas apenas, reforço o apenas, como áreas de lazer.

Domingo, Maio 08, 2011

Ameaçado de extinção


Carlos Gaspar disse num comentário ao post anterior:

"...Pedro Passos Coelho anunciou hoje ... que no caso de ganhar eleições o Ministério do Ambiente, criado há mais de três décadas, será extinto. A maioria das sua competências serão integradas no Ministério da Agricultura que irá ter o nome de Ministério da Agricultura, Mar e Território. Chega assim ao fim, se formarem governo, uma das maiores bandeiras do PSD na governação de Portugal e será conseguido uma das maiores pretensões dos interesses instalados. Não é preciso dizer mais..."

As últimas reticências são do comentário original, não esxistem por eu ter cortado texto.

Pois eu acho que é preciso dizer mais.

Acho que se eu procurasse nos arquivos do blog eu encontraria algum texto defendendo, pelo menos como hipótese, a fusão do ministério da Agricultura e de parte do ministério do ambiente. Não vou procurar porque não tenho tempo e porque já escrevi tantos posts que procurando bem devo sempre encontrar coisas em que eu defendo tudo e o seu contrário.

A junção do ambiente, agricultura e segurança alimentar (às vezes com algumas componentes de saúde pública ligada à alimentação) não é nenhuma novidade. Existe em Inglaterra e na Holanda se não me engano.

Esta junção é uma junção virtuosa em algumas circunstâncias, sobretudo quando corresponde a uma efectiva integração de políticas nestes domínios. Em Portugal tem mais uma vantagem de peso: acabar com o alibi histórico com que o ministério da agricultura se tem eximido a assumir as suas responsabilidades em matéria ambiental de conservação da natureza (isto é, de gestão do território).

Dito isto acrescento alguns comentários mais específicos: eu não sei se a criação do ministério do ambiente é ou não uma bandeira da governação do PSD, mas sei que me estou nas tintas para o PSD e para as bandeiras da governação deste e daquele, que de maneira geral têm saído caríssimas aos contribuintes, o que eu gostaria era de um governo que se preocupasse com os problemas concretos e reais da governação e não com bandeiras.

Não tenho a menor indicação de que o fundamento das declarações de Passos Coelho seja o mesmo que exprimi acima sobre a integração das políticas agrícolas, de desenvolvimento rural, segurança alimentar e conservação da biodiversidade. O que me parece é que, mais uma vez, Passos Coelho foi atrás dos sound bites e do que as pessoas querem ouvir. Um péssimo sinal para o que aí vem se ganhar as eleições (os seus antecedentes nas cirurgicas facadas nas costas de Manuela Ferreira Leite, numa coligação objectiva com Sócrates, também não enganam ninguém). Além disso já deve ter perdido o sonho de uma maioria absoluta e sabe que para governar tem de contar com o CDS, que nunca iria deixar acabar o ministério da agricultura (pelas más razões, as tais das bandeiras).

Por último, a última parte do comentário: "será conseguido uma das maiores pretensões dos interesses instalados". Só pode mesmo ser piada. Se há coisa que tem dado jeito aos interesses instalados é o saco de pancada a que dão alcunha de Ministério do Ambiente. Tem servido para todos os governos se descartarem de uma política ambiental chutando o assunto para aquele ministeriozinho simpático sem orçamento e sem destino.

A hipótese de extinção do ministério merece atenção e discussão, quer na decisão em si, quer na forma de a levar à prática.

Infelizmente, com toda a probabilidade, vai tornar-se numa gritaria de claques da treta.

O que aumenta enormemente o risco de uma decisão virtuosa acabar numa prática pantanosa.

henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Maio 04, 2011

Em louvor do registo de dados caótico

Esta fotografia foi tirada quando estava a apanhar roupa da corda. Há vários dias, com destaque para ontem, que a roupa aparece com estes brindes.
Já o mesmo aconteceu há alguns anos, de forma aliás bastante mais intensa. Lembro-me de nessa altura, por coincidência, ter estado com o Ernestino Maravalhas na Faculdade de Ciências de Lisboa e de ele ter falado em condições meteorológicas específicas para o sucedido (aliás normal) e penso que terá falado de uns ventos de Sul, ou coisa que o valha.
Ora neste fim de semana, enquanto via o webcast de um campeonato de surf, os comentadores falavam da estranheza da falta de vento na praia de Leça (ou a do Norte, não me lembro se foi no Sábado ou no Domingo) e de um pouco habitual sweel de sudoeste.
Haverá relação?
Investigadores de bichos destes há poucos (já agora, alguém identifica?). Mas pessoas que apanham roupa há aos milhares.
Se fôssemos registando estas curiosidades, sem mais objectivo que dar a conhecer curiosidades, é bem possível que à medida que o número de observações aumentasse fosse possível estabelecer padrões e modelos de interpretação (a verificar coligindo dados de forma orientada).
A possibilidade de haver números enormes de dados é a utilidade (e a limitação) dos sistemas caóticos de recolha de dados.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Maio 03, 2011

Cultura de participação?




Fotografia de um painel informativo do ICNB retirada daqui

Transcrevo do facebook do biodiversity4all:
"Agradecemos a todos os parceiros o apoio na Actividade Pé N'a Terra.
Entre os dias 15 e 28 de Abril foram realizadas cerca de 60 actividades por todo o país sendo registadas cerca de 1772 observações, com 200 fotografias referentes a 550 espécies!".
Para uma organização sem um tostão, baseada apenas na boa-vontade de quem quiz, feita pela primeira vez, não se pode dizer que o resultado seja mau. E calculo que haja um outro resultado menos visível: aparentemente está a haver mais registos e mais diversificados.
É a Primavera, com certeza, mas pode também ser um pequeno impulso de iniciativas como esta.
Aparentemente nos primeiros meses deste ano as observações rondam as 3000 por mês. Significa que com uma integração de dados excepcional e anual como a das 15000 observações que foi feita nas últimas duas semanas (referentes a observações anteriores a 2011, portanto não influenciam a média mensal que referi) estamos nas tais 50000 observações anuais que permitem pensar realisticamente em meio milhão de observações em dez anos.
Há quem se queixe muito da falta de cultura participativa dos portugueses. Eu nunca dei por ela. Sempre que as coisas são feitas com verdadeiro empenho em motivar as pessoas, elas respondem, como maior ou menor facilidade, com maior ou menor grau.
Mas respondem.
Era útil o movimento ambientalista compilar meia dúzia de regras para uma boa adesão às iniciativas e fazer um manual que servisse a todos.
É que não tenho a certeza de que a falta de cultura participativa não esteja mais nos dirigentes que nas pessoas comuns, não porque não desejem que as pessoas participem nas suas organizações, mas simplesmente porque não sabem ou não acreditam que a participação das pessoas comuns depende mais de uma técnica que de uma cultura.
Claro que tudo o que diga respeito às pessoas não é matemática, e técnicas que resultam num dia, não resultam no outro.
Por isso a utilidade de ir fazendo um manual on line onde cada um vá registando o que funcionou e o que não funcionou, e as razões para a diferença.
A experiência colectiva é geralmente muito mais abrangente e útil que a experiência e o estudo individual ou de pequenos grupos.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Maio 02, 2011

O Atlas dos morcegos e a participação dos comuns

O Paulo Barros deu aqui uma boa notícia sobre o processo para a produção de um atlas de morcegos.


A leitura dos comentários associados a esse post é para mim tão surpreendente que resolvi fazer eu também um post sobre a questão específica da participação dos comuns em projectos de atlas.

Um pouco de enquadramento.

Há já uns anos (14, 15), quando tive responsabilidades na presidência do ICNB, acompanhei de perto o lançamento de alguns atlas. Alguns concretizaram-se, outros não, todos com muitos atrasos.

Nessa altura participei activamente nas reuniões de técnicos ligados ao assunto, não por ser técnico ligado ao assunto, mas por ter responsabilidades de decisão e a presidência de então considerar os processos de sistematização e disponibilização pública de informação sobre biodiversidade uma das questões essenciais da política de conservação da natureza e uma responsabilidade indiscutível do ICNB.

Desde muito cedo a então presidência do ICNB deixou claro o princípio de que os atlas (e genericamente a produção, sistematização e disponibilização ao público de informação sobre biodiversidade) era demasiado importante para ser deixada aos técnicos de biodiversidade.

Isto que hoje é uma banalidade foi na altura um corte fracturante (como agora se diz) com a prática do ICNB, que se materializou na lógica inicial dos atlas, independentemente de terem depois evoluído noutros sentidos, menos o atlas das aves, mais o atlas dos répteis e anfíbios, infelizmente ainda muito amarrado a uma concepção tecnocrática de produção de informação de biodiversidade. E materializou-se em vários outros processos, como o impulso no desenvolvimento do SIPNAT ou a obrigação que foi imposta, contrariada pelos técnicos, pelo menos quanto ao timing, da discussão pública sobre a delimitação da rede natura (considerado um processso exclusivamente técnico nos seis ou sete anos anteriores, razão pela qual ninguém conhecia as propostas então levadas a discussão pública).

Mais tarde, já sem essas responsabilidades, mas com responsabilidades mais operacionais na avaliação de impacte ambiental, apercebi-me (na realidade já tinha essa percepção, mas não com a dimensão da evidência que me entrava pelos olhos dentro) da quantidade de informação sobre biodiversidade que o país produzia e desperdiçava em arquivos, físicos ou virtuais, a que poucos ou nenhuns tinham acesso.

Tentei, como já em vários posts expliquei, encontrar dentro do ICNB mecanismos de cooperação com terceiros que garantissem um sistema de recolha e disponibilização dessa informação. Nunca o consegui (erros meus, má fortuna...). A BIO3 chegou a lançar uma plataforma que foi de facto asfixiada pelo recuo do ICNB na partilha de dados, com o argumento (agora repetido) que dentro de seis meses (penso que sito terá sido há três anos) teria operacional uma nova versão do SIPNAT que tornaria redundante a tal base de dados da BIO3.

Quando saí do ICNB continuei a trabalhar numa solução que permitisse servir de plataforma para esse objectivo de recolha e disponibilização de informação que é todos os dias produzida pelo país em matéria de biodiversidade.

Nesse contexto, um dia o Henrique Miguel Pereira disse-me para ir falar com as pessoas do Biodiversity4all que eu não conhecia de lado nenhum. Tivemos uma conversa simpática num café qualquer e eu abandonei imediatamente as minhas propostas para passar a apoiar as propostas, bem mais adiantadas e estruturadas que as minhas (pelo menos em alguns aspectos, há outros em que acho que as soluções em que vinha a trabalhar estavam mais adiantadas, mas isso é um pormenor).

O apoio que dou ao biodiversity4all é um apoio externo, isto é, não estou envolvido no núcleo duro do projecto, faço propostas e perguntam-me opiniões, mas verdadeiramente quem trabalha no projecto e o mantém a andar são essas pessoas.

Esse apoio tem essencialmente duas componentes: alguma discussão sobre orientações estratégicas e procura de meios de sustentabilidade económica do projecto (sim, o trabalho das pessoas é voluntário mas o seu desenvolvimento pode implicar despesas); procura de dados, que todos fazemos, de forma a alimentar a plataforma com informação.

O site tem bastantes coisas de que não gosto.

Criado a partir de uma plataforma holandesa (se não me engano) é a cara portuguesa de uma plataforma europeia (http://www.observado.org/) que é essencialmente uma plataforma de observações, pressupondo observadores com alguma experiência. Tem por isso uma orientação muito marcada para o registo e é muito pouco intuitiva para as pessoas, como eu, que mais que observadores são utilizadores de informação. Por exemplo, obter o mapa de distribuição de uma espécie obriga a um caminho longo e muito pouco intuitivo. E há muitos exemplos destes.

Mas tem três coisas de que gosto muito: 1 - existe;2 - é muito democrática; 3 - tem uma plasticidade que lhe permite adaptar-se às situações novas. Por exemplo, estão a ocorrrer os primeiros resultados de uma inovação pedida por uma entidade apoiante: o registo de habitats e não apenas o registo de espécies.

Dentro deste meu trabalho de procura de fontes de informação, tenho tentado (com poucos resultados, por agora) mobilizar detentores de grandes quantidades de registos a ligar-se ao biodiversity4all. A questão não é transferir informação de uns sítios para outros, isso pode fazer-se, bem entendido, a questão é mesmo partilhar informação entre diferentes bases de dados de modo a facilitar o registo (registar num sítio ser suficiente para estar em diferentes plataformas) e a permitir o acesso mais próximo possível dos interesses dos seus utilizadores.

Como toda a gente envolvida no processo faz este trabalho de formiguinha, procurando carrear informação, o site tem neste momento quase 60 mil registos, tendo nas duas últimas semanas dado um salto grande por incorporação automática de 15 mil registos que existiam (obrigado Daniel Sobral, porque convém dar nomes à generosidade) e que foram transferidos automaticamente, ficando disponíveis para todos nós quase instantaneamente.

A quantidade de gente que tem registos em bases de dados e folhas excel deve ser incrível, a quantidade de registos que existem, uns em plataformas mais públicas mas pouco acessiveis aos não iniciados, outros nos seus computadores deve ser assombrosa e portanto haverá com certeza, ao longo do tempo, boas surpresas destas.

O biodiversity4all nasce aliás do facto de alguns dos participantes na carta piscícola nacional terem achado um desperdício não encontrar maneira para tornar permanentemente acessíveis os dados que recolheram para essa tarefa específica.

Já hoje, se os diversos participantes nas reuniões dos atlas dos morcegos estivessem disponiveis para ceder os dados de observações que sem dúvida detêm em bases de dados e folhas excel, em meia dúzia de dias (literalmente em meia dúzia de dias) era possível ter um primeiro esboço de um atlas com algum significado. Não como atlas, que seria muito incompleto e desequilibrado, mas como base de programação do atlas, tal como se pretende que ele venha a ser e como base de mobilização de terceiros eventuais produtores de informação útil. Sem qualquer custo.

Este é o contexto do meu pequeno comentário estranhando mais um novo projecto que vai criar uma nova base de registo e disponibilização de dados fechada à comunicação com outras bases (já nem discuto o facto dessa base de dados não ser necessária, existem coisas já feitas que servem, e ser portanto um desperdício de recursos inventar outra vez a roda).

Curioso é o desenvolvimento da discussão que este comentário motivou.

Seria perfeitamente razoável que me respondessem "fizemos esta opção por estas razões".

Mas não. Deram-me respostas polidas (agradeço aliás a disponibilidade da Ana Rainho, coordenadora do processo, para ter vindo aqui comentar, além das outras pessoas envolvidas, claro) que remetiam para coisas genéricas que não respondiam a nada de concreto face ao comentário que fiz.

Por esta razão fiz notar que se se pretende que as pessoas participem voluntariamente no que quer que seja, a confiança e transparência são os activos essenciais a construir e preservar. E acrescentei, para evitar más interpretações, que estava a discutir um pormenor dentro de um projecto que é muito mais importante que esse pormenor.

E a partir daí a reacção afunila na distinção entre os especialistas, os que participam e por aí fora (que já discutiram tudo e decidiram tudo, presumivelmente bem, até porque são especialistas) e os outros que, se quiserem, contactem a coordenação do projecto (a típica inversão tecnocrática que postula que os interessados se devem dirigir a quem orienta os processos de decisão antónima do postulado democrático de que são os dirigentes que devem dirigir-se aos comuns). E depois uma pequena derivação sobre os que criticam em vez de fazer e que minam o processo, o que não passa de um exagero da argumentação tecnocrática, em que os que manifestam opiniões fora do guião oficial devem ser proscritos por não cumprirem as regras que garantem o bem comum.

Esta reacção é muito comum nas lógicas tecnocráticas predominantes nos domínios de especial complexidade técnica.

É o caso da gestão da biodiversidade mas também da energia nuclear, só para citar dois extremos opostos de políticas necessariamente públicas que os técnicos acham sempre ter fundamentos demasiado complexos para serem decididas pelas pessoas comuns.

E são estas reacções que combato sempre.

Porque levanto suspeições sobre o atlas dos morcegos? Porque acho a Ana Rainho (uso-a como exemplo por ser a coordenadora do atlas) menos estimável e sem capacidade para ser a coordenadora do Atlas? Porque quero ser eu a determinar o que o atlas deveria ser e como o processo deveria ser gerido? Não, não, não a todas as perguntas e as vezes que for necessário. Aliás, dificilmente se arranjaria coordenadora melhor que a Ana Rainho, talvez com a excepção da Ana Rainho menos influenciada pela excessivamente ideológica faculdade de ciências de Lisboa.

Se comento e discuto o processo é apenas porque acho normais e intuitivas estas reacções dos técnicos face ao risco de erro que existe em modelos de produção de informação menos controlados e porque estas reacções têm efeitos muito negativos na mobilização das pessoas (que é sempre difícil e condicionada por pequenas coisas aparentemente sem importância).

Abrir processos de construção de atlas (ou outros processos de aquisição de dados de biodiversidade que exijam milhares de olhos em milhares de hectares, e não necessariamente os melhores olhos em áreas limitadas de observação) implica ser capaz de resistir à tentação do rigor excessivo na base, transferindo o rigor para os procedimentos (Francisco Amorim dá um bom exemplo a propósito dos ultra-sons) e para o controlo de qualidade dos resultados.

Implica ser capaz de resistir à desconfiança na capacidade dos outros produzirem informação útil, e o que interessa é a informação útil, não necessariamente a informação rigorosa (sendo rigorosa é necessariamente útil, mas a inversa não é verdadeira).

E implica um esforço sério de ir à procura de quem pode ser útil ao processo, resistindo ao conforto de fechar o processo no grupo de pessoas em quem já se tem confiança.

Discutir se o biodiversity4all é a plataforma a usar ou não no processo é um pormenor lateral.

Mas discutir a atitude geral de abertura ou retracção "aos comuns", muitas vezes claramente ignorantes, é certo, mas ainda assim podendo ser úteis, já não é uma questão lateral.

henrique pereira dos santos

Sábado, Abril 30, 2011

Fogo e abandono agrícola



Na sequência do post abaixo do Henrique Pereira dos Santos, queria encaminhar todos os interessados para um texto que a Vânia Proença e eu próprio preparámos sobre a dinâmica do fogo no Mediterrâneo, num relatório sobre cenários para a biodiversidade. O problema que temos é que a recorrência de fogos curtos dificulta a evolução para florestas adultas após o abandono, como esquematizado acima. Podem consultar o relatório aqui. Para mais, é um processo que se reforça a si próprio - fogo favorece vegetação pirófita que facilita o fogo - e que tem por isso características de "tipping point", exigindo por isso especial atenção.

Quinta-feira, Abril 28, 2011

Um Atlas no forno



“Apesar do aumento do interesse na biologia dos morcegos em Portugal, pouco é ainda conhecido sobre a distribuição de algunas das espécies que ocorrem no território continental, bem como sobre os factores ecológicos e históricos que originaram este padrões.
Esta lacuna no conhecimento deste grupo tem óbvias implicações na conservação dos morcegos, já que as decisões são muito dependentes na informação existente sobre a distribuição e/ou presença de cada espécie.
Assim, e em resultado da iniciativa de alguns elementos de equipas de AIA envolvidos na monitorização de morcegos, o ICNB lançou o projecto Atlas de Morcegos de Portugal Continental.”

Quinta-feira, Abril 21, 2011

Ciência oculta

Um longo post. As minhas desculpas mas não consigo dizer fundamentadamente o que vou dizer sem me alongar. E o que está em causa, e as pessoas que estão em causa, não me permite deixar de procurar fundamentar cuidadosamente a minha opinião.


Dizem-me que parte do comunicado da LPN que comentei aqui, está fundamentado neste artigo.
Ou seja, que a ideia de que os incêndios provocam abandono estaria fundamentada neste artigo.
Fui ler o artigo inteiro.
E resolvi comentá-lo de tal maneira fiquei estupefacto com o que li.
O artigo está assinado por várias pessoas que considero, com algumas delas já trabalhei sem o menor problema. Outras pessoas conheço de ouvir falar. Em qualquer caso é um grupo de investigadores que na área dos fogos florestais estão entre os mais considerados em Portugal. E o artigo está publicado numa revista de referência.
E no entanto a sensação que me fica é a de que o artigo não tem pés nem cabeça e passo a tentar explicar esta minha opinião que será, de qualquer maneira, desconsiderada com dois argumentos:




  1. o de que não tenho curriculum científico em geral e neste tema em particular;


  2. o de que o que eu quero é polémica.
Nenhum dos argumentos colhem.
O primeiro, sendo genericamente verdadeiro (o genericamente é por causa de coisas como esta) é um argumento de autoridade ao qual não ligo nenhuma;
O segundo não é verdade. Preferia não escrever este post. Gosto é ainda menos de, com o meu silêncio, contribuir para deixar pairar a ideia de que o artigo em causa é mais que ciência oculta.
Vamos então à substância do artigo.
No essencial o artigo compara dois momentos do uso do solo (1990 e 2005, em Bragança e Mação, 2003, em Águeda). Junta a esta informação a informação sobre os fogos florestais. Em cada uma das três regiões compara áreas ardidas e não ardidas. Avalia as alterações de uso do solo, nas áreas ardidas e não ardidas e projecta tendências para os cem anos seguintes.
O artigo, em nenhum momento, discute quaisquer outros factores de alteração do uso do solo que não os fogos florestais, aplicando métodos estatísticos para verificar se os fogos explicam as alterações.
O estudo encontra então algumas evidências empíricas, em especial que as alterações de uso não são iguais nas áreas ardidas e não ardidas.
Só que de empírico pouco mais tem o artigo.
Daí para a frente tem inferências estatísticas e elocubrações sobre as inferências estatísticas.
Para demonstrar que uma área ardida de pinheiro ou eucalipto pode, no prazo de quinze ou menos anos ser transformada numa área de matos não é preciso nenhum artigo científico. Para demonstrar que numa área de ocorrência de pinheiro e eucalipto sujeito a fogos é natural uma evolução para matas mistas, também não é preciso muito trabalho científico. Mas até aqui eu dou de barato esta necessidade que a academia tem de provar o que todos sabemos (é aliás um papel importante da academia porque o que todos sabemos pode estar errado).
Mas há problemas bem mais complicados no artigo.
O primeiro é o problema do tempo: 15 anos não são suficientes para avaliar tendências de alteração de uso do solo, se quisermos, tendências de evolução da paisagem, sobretudo se, como se faz neste artigo, se esquece tudo o que seja enquandramento temporal e sócio-económico dessa evolução.
O segundo problema, a confusão entre dados e interpretação. O caso mais evidente diz respeito às alterações de área agrícola. O estudo verifica uma diminuição de áreas agrícolas maior nas áreas ardidas que nas áreas não ardidas. E conclui, audaciosamente porque sem nenhum dado empírico para o fazer, que o fogo foi um factor de abandono das áreas agrícolas. Ora a partir dos mesmíssimos dados empíricos eu posso dizer que as áreas agrícolas que vão sendo abandonadas ardem mais que as que mantêm o seu uso, isto é, que o abandono é um factor de susceptibilidade ao fogo. Ou seja, não é por arderem que as alterações de uso existem, é por haver alterações de uso que ardem. No caso das áreas agrícolas, bem entendido, porque no caso das áreas florestais o problema é mais complexo: o abandono permite a acumulação de combustiveis no sub-bosque (coisa que o estudo ignora, omitindo por completo qualquer análise mais pormenorizada que pudesse lançar alguma luz sobre a questão dos combustíveis), o que leva aos fogos, que conduzem a uma alteração do coberto, em especial para as espécies que não rebentam de toiça (um pequenino parágrafo passa como cão por vinha vindimada por esta característica essencial para discutir alterações do diferentes cobertos vegetais).
O terceiro problema é uma coisa que não percebo como é aceite num artigo científico com referees: de uma análise de quinze anos, com apenas dois pontos de observação (curtíssimo para uma análise com base em matrizes de Markov, que exigiriam pelo menos três pontos de análise, ou pelo menos cautela na análise de apenas dois pontos), num processo complexo como é a evolução de paisagens, onde actuam dezenas de factores, aceitam-se projecções lineares para cem anos, como se todos os factores, em especial os sócio-económicos, se mantivessem inalterados. E com base nessas projecções completamente fantasiosas tiram-se algumas das principais conclusões do artigo.
Conheço a má ciência, a boa ciência e as ciências ocultas.
Este artigo cai nitidamente no terceiro grupo.
Nada do outro mundo (honny soit qui mal y pense), a ciência, a boa, a legítima, faz-se ao longo do tempo, com contributos certos e errados e alguém virá um dia corrigir o que está escrito neste artigo, ou, o que é mais frequente e provável, simplesmente esquecê-lo porque está errado e não tem interesse.
Mas entretanto, porque os autores do artigo têm fortes ligações com uma ONG e porque as posições públicas das ONGs são definidas por grupos mais que restritos de pessoas, infuenciam-se políticas e afectações de recursos com base nisto.
Essa é uma das principais razões pelas quais as ONGs deveriam fugir como o diabo da cruz de processos fechados de definição das suas posições.
Mesmo (ou sobretudo?) que essas posições sejam definidas por investigadores eminentes.
É muito triste ver as ONGs preferirem a tecnocracia à democracia.
henrique pereira dos santos