ECLIPSE TOTAL
Andei uma hora, a vadiar, a caminhar, a pensar onde, a procura de poiso para o horizonte, a fotografar. Ou, melhor a pensar no que poderia fotografar, pois a bateria do telemóvel já gritava por energia. Sim, hoje fotografo com telemóvel, a minha máquina há muito que se finou e os telemóveis sempre beneficiam do acaso.
Há dias, numa passagem fugaz tinha reparado numa igreja, decidi ir, no entretanto, ver a coisa. Subi, cheguei, cliquei, falei sozinho. Virado para o caminho feito, daquele ponto alto, apertaram as saudades do Alentejo. E Chaves surgiu-me como três camadas sobrepostas, Barrancos, Elvas e Chaves; com relações paisagísticas coincidentes entre colinas, vales, castelos, fortificações fossilizadas e um aqueduto em falta.
Do lado direito aparecia o Forte São Neutel, com as suas muralhas acompanhando a descida da colina, da direita para a esquerda. Na base uma recém intervenção, talvez para um campo da feira, parecida com uma outra em Elvas. Em frente, ao longe, a montanha sem a qual o vale não o seria. À esquerda num dos cumes uma pequena elevação, muito provavelmente uma torre de um castelo, praticamente a mesma distância que via a de Noudar, de Barrancos.
Ali fiquei em três lugares, mas perdi-me a tentar encontrar Nascente. De tantos lugares passar e viver, e recordar, compilo a informação solar, e levo o meu tempo a enquadrar-me. Como se quisesse pôr todas essas minhas camas, todos os quartos e todas as casas por onde passei, lado a lado, aqui e acolá, ou talvez umas em cimas de todas, para comparar crepúsculos e relações.
Fui para o Forte de São Neutel, desfrutar da boa vista para nascente, do sossego e da pouca luz. Que me permitisse uma linha do horizonte ideal, neste caso mais em ziguezague do que horizontal, que prometia um eclipse lunar total. À Nascente apareceria, e apareceu de um momento para outro. Fiquei sentado a olhar a lua alaranjada, por um minuto, pois a única nuvem no céu, ocultou-a.
Acho que está na hora de voltar.