Terça-feira, Julho 15, 2008

Na morte de Teta Lando

A notícia começou a circular quase uma semana antes do facto ocorrer, desconheço por que razões e com que origem. Felizmente, era falsa. Hoje, a notícia é infelizmente verdadeira: Teta Lando, músico angolano dos mais respeitados do seu país, morreu ontem à tarde num hospital de Paris, onde estava a ser tratado a um cancro.

Presidente desde 2006 da União Nacional dos Artistas e Compositores de Angola, Teta Lando tem uma carreira de vulto na música angolana desde a década de 1960. Além dos seus trabalhos a solo, participou em discos de colegas seus que se encontravam em Portugal na época, como foram os casos da já desaparecida Lilly Tchiumba, de Vum Vum ou de Conchinha de Mascarenhas.

Recordando os primeiros passos do músico, trago aqui o EP Muzangola (1969), de Vum Vum, onde a faixa-título - uma das duas em que Teta Lando entra com a sua guitarra, além de a co-assinar com Vum Vum - é um autêntico manifesto de funk angolano como poucos. Há uns anos, a francesa Ariel de Bigault redescobriu-a e incluiu-a na série de discos "Angola", no volume "Angola 60's - 1956-1970", onde surge, também, o próprio Teta Lando, a solo.

1969 Decca / Valentim de Carvalho
PEP 1297

1. Muzangola
(Vum Vum - Alberto Teta Lando)
2. Monami
(Euclides Fontes Pereira)
3. Xé-Xé-Xé Kangrima
(Cyrus da Mata - Vum Vum)
4. Porquê Viver Sem Você
(Vum Vum)

Vum Vum (voz)
Alberto Teta Lando (guitarra nas faixas 1 e 3)
Fernando Pinto (guitarra eléctrica solo)
Luís Duarte (guitarra baixo)
Jaime Loureiro (órgão)
José Pinto (bateria)

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Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Operários do Natal - Ainda uma Lembrança, 31 Anos Depois

Em tempo de Natal, uma recordação com trinta e um anos: o LP "Operários do Natal", de 1976. Editado pela Toma Lá Disco, este disco pode ser visto como um "Só Nós Três" destinado às crianças, já que contava com as vozes de Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho - autores também de todas as músicas, cabendo os textos à dupla José Carlos Ary dos Santos e Joaquim Pessoa. Pretendendo mostrar as várias profissões ligadas ao Natal, o disco abre e fecha com dois temas antológicos, "Os Pais" e "Os Amigos". Sem se tratar de profissões propriamente ditas, são a base de tudo, e entre elas desfilam os carteiros, os palhaços, os vendedores, o lenhador (nada politicamente correcto), a costureira (hoje já não tanto...) e o pasteleiro. Apesar de pontualmente marcado pela época pós-25 de Abril, raras vezes o público infantil foi tratado com tanta dignidade e enlevo como neste disco.
Entre os restantes músicos e convidados, surgem os nomes de Júlio César, Ana Bola, Zé da Ponte, Fernando Fallé e José Luís Simões. Este último, ex-integrantre do Thilo's Combo, é autor dos arranjos de quatro dos temas, ficando os dos outros quatro nas mãos experientes de Joaquim Luiz Gomes - uma das figuras vivas mais importantes da história da música portuguesa no século XX.
Infelizmente, este disco continua esquecido na memória do vinil, pelo que com a recente vaga de interesse na música portuguesa de antanho não seria de todo descabido pensar-se na sua reedição! Até lá, um bom Natal, com boa música, para todos!

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Domingo, Novembro 11, 2007

"Mestre" em CD ou Portugal Mais Perto de Nós

Após uma longa pausa neste blog, achei que não devia deixar passar em branco o regresso aos escaparates de Mestre, o primeiro álbum dos Petrus Castrus, pela mão da Companhia Nacional de Música. Com o som brilhantemente remasterizado por José Fortes e com textos interiores de José Castro, Pedro Castro, Nuno Rodrigues, Tito Lívio e também deste vosso escriba, este é um momento de celebração.
Retrato de uma época em termos musicais e literários, Mestre constituiu um marco em vários âmbitos. Se por um lado marca a primeira união de monta entre o rock e a literatura portuguesa, por outro beneficiou das condições técnicas de gravação que os estúdios franceses do malogrado compositor Michel Magne situados no Castelo de Hérouville proporcionavam. A Sassetti, casa editora que então acolhia José Mário Branco, Sérgio Godinho e José Jorge Letria, além dos Xarhanga - grupo liderado por Júlio Pereira, que formaria após a sua saída dos Petrus Castrus - apostava então numa verdadeira alternativa à hegemonia da firma Arnaldo Trindade, do Porto, que acolhia o "grosso" dos intérpretes que questionavam o regime. No âmbito do rock, no entanto, distinguia-se de forma bem clara o trabalho do Quarteto 1111, que já desde finais da década de 1960 vinha vendo a sua obra cerceada pela Censura. O surgimento dos Petrus Castrus em 1971 e a edição dos seus dois primeiros EP's - cuja reedição está prevista para 2008 - marca o surgimento em Portugal do rock progressivo. Ainda que numa fase inicial se notasse a transição entre o psicadelismo de finais da década de 1960 e as sonoridades mais caras a esta corrente, Marasmo e Tudo Isto, Tudo Mais são, com todo o direito, os primeiros pilares do rock progressivo português. Mestre, por seu lado, desenvolve estas ideias de forma igualmente brilhante, constituindo-se como um trabalho que hoje, trinta e cinco anos depois da sua gravação, merece ser redescoberto. Aventuremo-nos!

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Sábado, Junho 16, 2007

Filarmónica Fraude ao Vivo?

Felizmente, não se trata de uma fraude. A Filarmónica Fraude - sob a designação Nova Filarmónica, e agrupando também membros do Coro Canto Firme, de Tomar, e o baixista José Ricardo - vai dar hoje um concerto nos Lagares d'el Rei, na mítica cidade dos Templários. É, sem dúvida, um momento histórico, em que vão estar presentes António Luís Linhares de Sousa (teclas), Júlio Patrocínio (bateria) e António Antunes da Silva (voz, guitarra), todos da formação original. José Ricardo (guitarra baixo), que fez parte dos Pedra e Cal, projecto por onde passou Linhares de Sousa em meados da década de 1970, é um dos instigadores desta reunião e vai integrar a formação que se apresentará ao vivo hoje. A expectativa é grande, até porque Linhares de Sousa (mais conhecido actualmente como António de Sousa) não esconde o seu entusiasmo em relação a possíveis novas composições. Para já, para já, todos os caminhos vão dar a Tomar. Vemo-nos por lá!

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Quarta-feira, Abril 25, 2007

Na Morte de João Paulo Agrela

A notícia era esperada, mas nunca nos conformamos quando ela chega de facto: João Paulo Agrela, teclista e compositor do Conjunto João Paulo, morreu esta Segunda-Feira. Nascido em 1942, no Funchal, foi graças ao grupo que tinha o seu nome que se tornou conhecido em todo o país nas décadas de 1960 e 1970. Ao longo de uma carreira invulgarmente longa para o Portugal de então - formado em 1962, o Conjunto João Paulo só terminaria em 1979 - vários foram os temas de sucesso na sua discografia. Desde "Hully Gully do Montanhês" até "Milena (a da Praia)" passando por "Sue-Lin a Minha Chinesa" ou "Nunca Direi Adeus" (que ficaria em 2º lugar no Festival da Canção de 1966), para não falar das inúmeras versões das canções francesas, italianas e anglo-americanas que nos fizeram acreditar que Londres ou a Califórnia estavam mais próximos, a obra do Conjunto João Paulo é um riquíssimo manancial artístico-cultural que urge redescobrir. Acompanhando as tendências musicais de então, o grupo aventurou-se sem preconceitos no rock psicadélico e produziu alguns dos temas mais belos da época, na recta final da década de 1960 e até 1972 (na sequência de um hiato de mais de um ano, devido ao cumprimento do serviço militar). Com efeito, as composições editadas entre 1970 e 1972, fase em que aos membros fundadores Sérgio Borges (voz), Carlos Alberto Gomes (guitarra), Ângelo Moura (baixo) e João Paulo Agrela (teclas) se juntaram José Manuel Fonseca (sopros) e Adrien Ransy (bateria), ambos provenientes do Quinteto Académico + 2, mostram que o grupo se manteve durante vários anos no pico da criatividade. Exemplos disso mesmo são "O Salto" (escrita por João Paulo, Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes) e "Serei um Dia o Mar" (um poema de Gualdino Rodrigues para música de João Paulo), dois temas deste músico que bem merecia ser mais conhecido hoje em dia, e que a morte levou cedo demais. Lá nos encontraremos, no "Paul da Serra".

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Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

"O Cerco" reeditado em DVD

Saiu recentemente em DVD o filme "O Cerco", de António da Cunha Telles, o que é algo de histórico no nosso país e, portanto, digno de realce. Como já tinha chamado aqui a atenção num outro post, a grande maioria do cinema português encontra-se "encerrada" nos cofres da memória (ou do ANIM, o que sempre é um pouco melhor...), e então quando chegamos ao chamado "cinema novo" o panorama é mesmo desanimador. Mas pelas mãos da produtora Animatógrafo 2, da filha de António da Cunha Telles, e da Costa do Castelo, temos finalmente no mercado "O Cerco". Filme premiado na altura, e com um enredo desafiador do status quo da moral burguesa e conservadora, não pode também deixar de merecer destaque a banda sonora. Se, por um lado, há a música de António Victorino d'Almeida, com um tema recorrente em que surge o saxofone solo de Vítor Santos (ex-Thilo's Combo), por outro há as canções originais do Quarteto 1111, que surgem nas cenas de discoteca e que tão interessantes as tornam. É curioso notar a escolha da língua francesa, já que em disco nunca o grupo de José Cid gravou nessa língua, tendo apenas escrito "La Mansarde" e "Emporte-Moi Loin d'Ici" para Tonicha, em 1968. A excelência das composições do grupo (nem outra coisa seria de esperar) faz mais uma vez pensar: para quando a edição da integral da obra do Quarteto 1111?

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Quarta-feira, Outubro 25, 2006

De Novo com...


Para marcar o "regresso" deste blog, achei por bem trazer aqui um pedaço do legado do Conjunto João Paulo. "De Novo com João Paulo e o Seu Conjunto Académico" é o título do 2º EP do grupo, publicado em 1965, e acompanhava o sucesso crescente do então sexteto madeirense. Donos de uma carreira sempre em evolução e crescimento musical, que soube adaptar-se às correntes de então com um talento ímpar, mostram-nos aqui três versões e um excelente original, "Chove". Este último, o primeiro tema próprio da sua carreira, é uma prova cabal das excelentes potencialidades vocais de Sérgio Borges, com momentos mais agressivos e outros mais melancólicos a alternarem-se de forma perfeita.

1965

Columbia
SLEM 2206
1. It's Over
(Roy Orbison - Dees)
2. Chove
(Sérgio Borges - Carlos Alberto)
3. Se Mi Vuoi Lasciare
(Leva - Giampiero Reverberi)
4. Greenback Dollar
(Hoyt Axton - Ramsey)
Capa:

De cima para baixo, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio: Rui Brasão, João Paulo, Carlos Alberto, José Gualberto, Ângelo Moura e Sérgio Borges.

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Quarta-feira, Maio 31, 2006

José Gomes Ferreira e a Música Portuguesa

Ouvi há dias algumas músicas do século XVIII português gravadas pela Fundação Gulbenkian e fiquei atónito com tanta beleza, até hoje secreta, guardada a sete chaves em arquivos de traças. Estranho país este!, de parvos, de imbecis, de analfabetos, de fanáticos, de pitosgas, de torquemadas covardes... mas em que existiram sempre, através dos séculos, meia dúzia de artistas de eleição a fazerem versos, a pintarem, a escreverem música (sim, até música!) para ninguém! Ouviram? PARA NINGUÉM!

Lisboa, 12 de Abril de 1967
in Dias Comuns II, "A Idade do Malogro"


O escritor José Gomes Ferreira (1900 - 1985) foi, na sua juventude e primeira idade adulta, um compositor de talento. Algumas das peças que compôs nas décadas de 1910 e 1920 foram, aliás, dadas a conhecer ao público de hoje em dia através de apresentações públicas nas cidades do Porto e de Lisboa por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento. Assim, é curioso registar este curto mas contundente testemunho. Que sirva para a reflexão tão necessária sobre o projecto cultural que pretendemos para Portugal! Só com uma mudança a nível cultural e de atitudes poderemos almejar progressos efectivos e eficazes a outros níveis. Poeta militante, hoje e sempre, estás entre nós!

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Terça-feira, Maio 09, 2006

Psicadelismo Magrebino

Em 1968, é publicado o primeiro single do Quarteto 1111, depois de uma carreira iniciada no ano anterior com o histórico EP A Lenda de El-Rei D. Sebastião. A este disco, tinham-se seguido outros dois de igual formato e, tal como o primeiro, fervilhantes de criatividade e originalidade nas propostas musicais que apresentavam. O rock psicadélico que abraçava todo o mundo parecia, assim, estender-se plenamente a Portugal. Não que o Quarteto 1111 fosse caso único - outros exemplos havia nesses anos de 1967 e 1968, como a Banda 4, os Chinchilas, o Conjunto Hi-Fi, o Conjunto João Paulo, os Ekos, o Grupo 5, os Jets, o Quinteto Académico, os Sheiks, os Tubarões ou os cantores Daniel e Nuno Filipe, citando só os mais importantes - mas representava, sem sombra de dúvida, a consciencialização mais encorpada desta tendência musical no nosso país. Posteriormente, surgiriam outros grupos de semelhante valia, mas em 1968 só o Quarteto 1111 poderia arriscar "lançar às feras" uma composição como Ababilah. Lado B de Meu Irmão - uma canção de contornos mais "canónicos" e alvo, aliás, de versões por parte de José Cheta (em 1972) e dos Irmãos Catita (em 2002) - este tema é uma viagem àcida às terras do norte de África, oferecendo uma panóplia de sons distintos e estranhos à música ocidental. Instrumentos exóticos, processos que em tudo se assemelham - à nossa modesta escala - aos utilizados por George Martin e pelos Beatles em Tomorrow Never Knows (1966), vozes imperceptíveis, experimentação jazzística - tudo isto se conjuga para a criação de uma obra musical fora de série. Infelizmente, Ababilah tem andado arredado de todas as edições em CD da obra do Quarteto 1111 - aguardemos, pois o futuro poderá reservar-nos ainda surpresas, já que para o ano se comemoram os 40 anos de A Lenda de El-Rei D. Sebastião.


1968

Columbia / Valentim de Carvalho
45 ML 244

1. Meu Irmão
(José Cid)
2. Ababilah
(Quarteto 1111)

José Cid (voz, teclas)
António Moniz Pereira (guitarra)
Mário Rui Terra
(guitarra baixo)
Michel (bateria)

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Terça-feira, Abril 25, 2006

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004)

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Quarta-feira, Abril 19, 2006

O Combo de Thilo Krasmann

Se fosse vivo, Thilo Krasmann teria feito 73 anos no passado dia 16 de Abril. Figura tutelar na criação de uma música pop em Portugal e orquestrador de mérito de grandes intérpretes da canção ligeira portuguesa, o seu nome ficou ligado na década de 1960 ao Thilo's Combo. Este conjunto era inicialmente formado por si, no contrabaixo, por José Luís Simões (guitarra eléctrica), por Enrique Peiró Jr. (piano), por Fernando Rueda (bateria) e por Vítor Santos (saxofone). Rueda, músico conhecido no meio do jazz lisboeta, rapidamente passaria a assumir também funções de vocalista, e chegaria mesmo a gravar a solo com o acompanhamento do grupo, vindo depois a formar o seu próprio conjunto, Rueda + 4.

Com as suas diversas formações, o Thilo's Combo gravou 13 discos (quase todos EP's, sendo apenas um deles single), mas são bem mais os que gravou com outros artistas. Desde Simone de Oliveira ao Duo Ouro Negro, passando por João Maria Tudella ou Paula Ribas, muitos foram, de facto, os bafejados com o toque de modernidade que o grupo representou durante grande parte da década de 1960. O seu papel seria, aliás, semelhante àquele que o Quarteto 1111 viria a assumir na viragem desta década para a de 1970 e nos primeiros anos dela, numa época em que a estética psicadélica imperava.

Infelizmente, a era digital apenas conheceu reedições pontuais de composições do Thilo's Combo, estando ainda por publicar uma antologia exaustiva que recolha a totalidade do legado deste grupo seminal da pop portuguesa de antanho. Aquando da morte de Thilo Krasmann, em 2004, essa ideia chegou a ser sugerida na imprensa, mas nada se fez ainda. Talvez em 2007, data em que se comemoram os 45 anos da formação do conjunto e simultaneamente da edição do seu primeiro disco, este projecto possa finalmente ver a luz do dia - pelo que a música portuguesa deve a Thilo Krasmann, bem que isso deveria acontecer.

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Quarta-feira, Março 29, 2006

Mário Viegas Total

Ontem tive uma grata notícia: através do jornal Público, vai ser dado à estampa um trabalho da autoria de José Niza que compila em 12 volumes a carreira e a vida de um dos grandes actores portugueses da segunda metade do séc. XX. Falo de Mário Viegas, que, dez anos após a sua morte, tem assim direito a uma homenagem - póstuma... - de grande valor e onde a qualidade da investigação se encontra aliada ao saber e às vivências do Homem e Músico que é José Niza. No entanto, há ainda algo mais que não deverá fazer ninguém perder esta colecção: com cada livro, surgirá um CD que recupera a discografia completa de Mário Viegas. Esta, gravada na sua quase totalidade para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade, iniciou-se em 1969 - com o EP Mário Viegas Diz Poemas, onde o declamador é acompanhado musicalmente por Fernando Martins - e conheceu o seu derradeiro momento em 1990, com Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida Para os Mais Pequenos - um trabalho publicado pela UPAV e co-assinado pela também actriz Manuela de Freitas. Entre um e outro, ficam recriações históricas de grandes poetas portugueses, como Daniel Filipe, Mário Cesariny, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Manuel Alegre, António Gedeão, Alexandre O'Neill e tantos outros; e de alguns estrangeiros, como Bertolt Brecht ou Vinicius de Moraes. É de realçar que nesta colecção se compilam, também, gravações inéditas, que por razões de ordem vária não foram publicadas no seu tempo. De fora, ficaram apenas as participações em Marginal (1981), de Luís Cília, Cantos da Borda d'Água (1984), de Pedro Barroso, Lavrar em Teu Peito (1985), de Janita Salomé, e Corsária (1988), de Né Ladeiras - que, a meu ver, deveriam ter sido incluídas nesta integral - além de participações menos significativas em discos de Júlio Pereira e de Shila.

Impossível perder. Impossível passar ao lado. Mário Viegas continua vivo na sua arte de diseur e esta homenagem de José Niza e do jornal Público vem provar a todos isso mesmo.

Rifão Quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria in "Novos Contos do Gin", Lisboa, Editorial Estampa, 1973

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Sexta-feira, Março 17, 2006

A primeira vida de Carlos Alberto Vidal

Conhecido da generalidade do público através da personagem de Avô Cantigas - que comemorá 25 anos em 2007 - o cantor, actor e músico Carlos Alberto Vidal tem uma carreira cujo ponto de partida discográfico foi o já longínquo ano de 1973. Com efeito, a sua estreia ocorreu com o single As Filhas da Tia Anica, uma composição cuja letra de contestação social é magnificamente servida por arranjos inspirados de José Calvário, publicado pela Imavox. No ano seguinte, chegava Bom Dia, Senhor Alberto!, que seguia a linha temática da sua antecessora. Ambos os discos apresentavam no lado B baladas com aproximações a um universo rock. Seria, no entanto, em 1976 que Carlos Alberto Vidal teria oportunidade de mostrar de forma cabal os seus talentos - e que talentos! Changri-Lá é um dos trabalhos mais válidos e meritórios de toda a história do rock português, publicado ainda sob a alçada do contrato com a Imavox. Abrindo com a canção-título, onde a voz de Vidal nos mostra a raiva e a doçura em momentos distintos, merecem destaque as prestações de Necas (bateria), Nuno Pimentel (teclas) e Fernando Correia Martins (guitarras). O disco segue com Venho por Cristo Dizer - que confirma lírica e musicalmente a temática mística de todo o álbum e onde encontramos os sopros de Rui Cardoso - e, entre outras, com Emanuel - com um toque africano no final, sendo a voz novamente um elemento de grande equilíbrio musical - e O Meu Nome Somos Nós (Maharaj-Ji) - apenas e tão só uma das mais belas canções rock feitas em Portugal, com um refrão de antologia. No lado B do LP podemos ainda encontrar Luísa Vai para a Escola, toda ela delicadeza e com uns toques honky-tonk a lembrar o jardim de infância que escutamos ao longe, e Nascer, um tema ao piano da autoria de Nuno Pimentel e que constitui o brilhante final para este trabalho.


Publicado um ano antes da estreia em longa-duração dos Tantra, Changri-Lá é um pequeno pedaço da história desse gigante desconhecido que é o rock português pré-1980. Embora musicalmente se aproxime bastante das fórmulas do rock progressivo de então - sendo, aliás, dos trabalhos mais sólidos feitos em Portugal nessa área - apenas encontramos alguns ecos do mesmo nas incursões igualmente místicas do grupo de Manuel Cardoso e António José de Almeida. Ninguém mais, no Portugal de então, conseguia romper a difícil barreira das editoras discográficas e apresentar trabalhos desta envergadura. Não podemos esquecer, aliás, que durante os anos de 1977 e 1978 o grupo Perspectiva, de Tó Pinheiro da Silva, lutava pela edição de A Quinta Parte do Mundo, um trabalho de que, como disse António A. Duarte no seu seminal ensaio A Arte Eléctrica de Ser Português - 25 Anos de Rock 'n Portugal, todos nos orgulharíamos hoje em dia conquanto dele nos recordássemos... Mas, face a essa impossibilidade, oiçam Changri-Lá e deleitem-se com os mistérios e maravilhas que este disco tem para oferecer.

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Domingo, Março 12, 2006

Cantando Pessoas Vivas

Em finais de 1974 foi publicado o último LP gravado pelo Quarteto 1111, Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas - Obra-Ensaio de José Cid, preenchido por uma composição única que ocupava os dois lados do vinil. Musicalmente, o grupo nunca tinha soado tão próximo do rock progressivo de uns King Crimson ou das tendências mais folk de uns Renaissance, com José Cid e os seus companheiros a construirem harmonias ora mais violentas ora mais doces. Se já em trabalhos anteriores o Quarteto 1111 comprovara que a sua escrita e competência musical podia abarcar sem problemas estes extremos, é preciso talento de sobra para construir uma obra de trinta minutos em que não é dada qualquer trégua aos instrumentos (nem ao ouvinte, refira-se). Para isso contribui inegavelmente a qualidade dos textos poéticos musicados, na sua maioria de José Cid. No entanto, um deles é uma adaptação de um poema de José Jorge Letria publicado no início desse mesmo ano de 1974 em A Arte de Armar.

O que aqui proponho, pois, é um simples exercício de comparação entre os dois textos. Apesar de as diferenças não serem em quantidade, não deixam de ser curiosas.


É Por Aqui Que Se Começa......................................Cantamos Pessoas Vivas

É por aqui que se começa:.........................................É por aqui que se começa
Pelas palavras simples................................................ Pelas palavras simples
Pelas pessoas vivas.......................................................Recusando a amargura
Recusando a amargura................................................ Nas margens do poema
Nas margens do poema................................................Pelas pessoas vivas

É por aqui que se com
eça...........................................É aqui que se começa
Pela ânsia de respirar
..................................................Pela fúria de começar
Com a voz em liberdade
.............................................Com a voz em liberdade
Sem estilhaços no olhar
..............................................Sem muralhas no olhar
.........................................................................................Cantando pessoas vivas

É por aqui que se começa
...........................................É por aqui que se começa
Pela fúria de começar
..................................................Pela fúria de começar
Usando palavras simples
..............................................Usando palavras simples
Cantando pessoas vivas
...............................................Cantando pessoas vivas
Mãos fechadas rente ao mar
......................................Ensinando-as a pensar

E depois de começar
....................................................E depois de começar
Embarcamos na canção
................................................Embarcamos na canção
Sem pompas nem grandezas
......................................Sem pompas nem grandezas
recusando a salvação
...................................................Com o povo no coração

Para isso serve a canção
.............................................P'ra isso serve a canção
Navalha de corpo inteiro
...........................................Navalha de corpo inteiro
Para dar o golpe certeiro
..........................................P'ra dar o golpe certeiro
Em quem lhe nega a razão
........................................Em quem lhes nega a razão

Acabar também é simples;
....................................... Acabar também é simples
Mais simples que começar:
.......................................Mais simples do que começar
Desenhamos um país
..................................................Desenhamos um país
Com o máximo rigor
..................................................Com o máximo rigor
Sem pessoas nem fronteiras
.....................................Sem pessoas nem fronteiras
E pomos-lhe no centro
..............................................E pomos-lhe lá dentro
As palavras derradeiras
.............................................Palavras certeiras
Para isso serve a canção
............................................Cantando pessoas vivas
Para vencer a confusão.............................................É por aqui que se termina
......................................................................................Pelas palavras simples
......................................................................................P'ra isso serve a canção
......................................................................................Defininindo a situação
......................................................................................Cantando pessoas vivas

[versão publicada em livro]...............................................[versão gravada em disco]

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Sábado, Março 11, 2006

Simone - Os Primeiros Passos (3)

Após ter perdido a voz, em 1969, Simone de Oliveira passa a trabalhar na rádio e só em 1972 volta ao mundo da canção. Curiosamente, fê-lo pela mão de José Cid e do Quarteto 1111, confirmando a sua vontade de mudança de repertório.

Em Novembro de 1972, data da publicação deste disco, o Quarteto 1111 era constituído por José Cid, António Moniz Pereira, Tozé Brito e Michel, e encontrava-se sem novos lançamentos no mercado desde o Verão do ano anterior. Esse compasso de espera terminou com Sabor a Povo, um single que quer no tema-título quer em Uma Nova Maneira de Encarar o Mundo anunciava já o som dos Green Windows. No entanto, as colaborações com outros artistas abundavam, como é o caso do disco de Simone que dá o mote a este texto, e nos mesmos dias em que é lançado o EP Glória, Glória Aleluia, são também editados trabalhos onde José Cid intervém ao nível da direcção musical - um EP de Vittorio Santos - e da composição - curiosamente, um single com a versão de Tonicha para Glória, Glória, Aleluia, que a cantora levou ao Festival Ibero-Americano de Madrid.

O disco de regresso de Simone conta assim com duas canções já divulgadas anteriormente - o tema-título e Retrospectiva, uma melancólica balada que fora editada no EP Camarada, de José Cid, nesse mesmo ano de 1972 - e com uma original, Hino do Amor. Não sendo um trabalho ousado a nível de arranjos musicais - nem tal se pretenderia, aliás - estamos perante um sólido conjunto de canções a que Simone de Oliveira oferece a sua voz agora quente e densa e em que chegamos a ter momentos de rock bem interessantes - precisamente em Hino do Amor, em que o grupo não deixa os seus talentos por mãos alheias.

1972
Decca / Valentim de Carvalho
PEP 1422

1. Glória, Glória Aleluia
(José Cid)
2. Hino do Amor
(José Cid)
3. Retrospectiva
(José Cid)

Simone de Oliveira (voz)
Quarteto 1111 (acompanhamento)

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Sexta-feira, Março 10, 2006

Memórias do Festival RTP da Canção (1)

Apesar de não haver paralelismo possível entre a importância e a repercussão pública do Festival da Canção dos dias de hoje e os realizados nas décadas de 1960, 1970 e 1980, não é novidade que a canção vencedora origine controvérsia e se reúna um número saudável de vozes que protestam contra a escolha. Na edição deste ano, que terminou há minutos, ficaram para trás concorrentes que poderiam chamar a atenção no Festival da Eurovisão, a realizar em Maio, pelo colorido, alegria e qualidade das canções - casos de Bem Mais Além, pelos Mariafolia (com letra de António Pinho, ainda ontem aqui representado com um texto da saudosa Banda do Casaco), e de Sei Quem Sou (Portugal), por Vânia Oliveira. A pateada à anódina canção vencedora trouxe-me à memória a declaração que Cândido Mota proferiu aos microfones do Rádio Clube Português a 6 de Março de 1968, após a vitória de Carlos Mendes, com Verão, no 5º Festival RTP da Canção:

"(...) apurou-se como representante do nosso País para um festival in
ternacional uma canção que, de portuguesa, só tem o revestimento. Reflecte ela a procura desmesurada e cega de um som que se usa, que se consome. Aproveitou-se uma cadência rítmica que nos é estranha. (...) Uma acentuação melódica dos safanões para lhe dar um tom de pseudomodernidade (...), depois o intérprete encarregou-se de utilizar todos os tiques que constituem a débil encenação que se pretendeu montar."

Cândido Mota terminaria a sua alocução frisando as qualidades de Balada para D. Inês, o tema que José Cid levou à edição de 1968 do certame e com que arrecadaria a 3ª posição (ultrapassado apenas por Tonicha). Publicada no segundo EP do Quarteto 1111, esta canção - como A Lenda de El-Rei D. Sebastião, de inspiração histórica - era servida por excelentes arranjos orquestrais de Joaquim Luiz Gomes (figura incontornável da música ligeira portuguesa e autor de algumas obras menos divulgadas no ca
mpo da música erudita, hoje com 90 anos de idade) e era precisamente a canção de abertura do disco. Nas outras três composições apresentadas, confirmava-se a filiação psicadélica do grupo, bem patente em Partindo-se (sobre texto de João Roiz de Castelo Branco, compilado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) ou na singeleza folk de Vale da Ilusão (um tema baseado em textos Bíblicos). Dragão, regravado em 1971 no primeiro LP a solo de José Cid, continha já os gérmenes das letras vincadamente contestárias que o grupo apresentaria ao longo de toda a sua carreira. Das canções aqui presentes, apenas Vale da Ilusão não conheceu ainda reedição em formato digital.

Finalizando, desejo, obviamente, os maiores sucessos para Coisas de Nada, pelas Nonstop, no Festival da Eurovisão 2006, em Atenas. Seria bom que a opinião do público português e a dos presentes na sala se visse contrariada pela do júri europeu! Mas, depois de Lúcia Moniz e do seu sexto lugar em 1996, em Oslo, não me parece que o futuro nos traga surpresas positivas a esse nível...

1968
Columbia / Valentim de Carvalho
SLEM 2304

1. Balada Para D. Inês
(José Cid)
2. Partindo-se
(João Roiz de Castelo Branco / José Cid)
3. Vale da Ilusão
(Jorge Moniz Pereira)
4. Dragão
(Jorge Moniz Pereira)

José Cid (voz, teclas), António Moniz Pereira (guitarra), Jorge Moniz Pereira (guitarra baixo), Michel (bateria)
Joaquim Luiz Gomes (direcção de orquestra)


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Quinta-feira, Março 09, 2006

País: Portugal

Por aqui andam diabinhos à solta
Com corninhos e rabinhos e falinhas de paraíso
Por aqui andam bruxinhas em volta
Esvoaçando cavalgando em vassourinhas sem juízo

Portugal, nove milhões de humanos
País de florestas e de rios
De montanhas e de praias
De adufes fraitas e tambores
País de províncias, distritos e concelhos
De freguesias de cidades vilas e aldeias

Portugal de capital Lisboa
É pena capital pena seres apenas
A cabeçorra gigantesca e mal pensante
Que nasce entre as pernas do Tejo
É pena capital pena que em ti
Se escrevam os livros da incultura
Que em ti se diga a liberdade
Em bocas libertinas

Portugal
País fardado à força
País forçado à farda
País fadado à forca

Portugal, nove milhões de humanos
País de florestas e de rios
De montanhas e de praias
De adufes fraitas e tambores
País de províncias, distritos e concelhos
De freguesias de cidades vilas e aldeias

(texto de António Pinho para uma composição musical de Nuno Rodrigues)


Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos. Por isso, hoje aqui fica a letra de uma das muitas excelentes canções que a Banda do Casaco nos legou, sem mais perlengas. Infelizmente, pertence a um dos seus dois trabalhos de longa-duração que nunca viu reedição em CD - o outro é Contos da Barbearia, de 1978. A ficha técnica desta música é a seguinte:

Miguel Coelho (violino)
Celso de Carvalho (stylofone, palmas)
Carlos Barreto (baixo eléctrico)
Tó Pinheiro da Silva (guitarra eléctrica, flauta)
Nuno Rodrigues (voz, guitarra acústica, palmas)
António Pinho (palmas)
Gabriela Schaaf (voz, palmas)
Rão Kyao (saxofone tenor, palmas)
Necas (bateria)

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Quarta-feira, Março 08, 2006

O Percurso Singular de António de Macedo (1)

Seria interessante aproveitar os 75 anos de António de Macedo (que o realizador cumprirá em Julho próximo) para proceder a uma iniciativa de monta e digna do cinema português: disponibilizar a integral da obra deste cineasta, detentor de um dos percursos mais idiossincráticos de toda a história da Sétima Arte nacional. Desde A Primeira Mensagem (1961) até Chá Forte com Limão (1993) muito há, decerto, por descobrir nos seus filmes, e muito público haverá interessado em neles se descobrir. António de Macedo teve sucessos de bilheteira - recorde-se A Promessa (1972) ou o abaixo referido Os Abismos da Meia-Noite (1983) - e muitas vezes foi malvisto por isso mesmo. Igual argumento emprega, aliás, António-Pedro Vasconcelos para criticar a falta de oportunidades que teve na sua carreira pós-O Lugar do Morto (1984). No entanto, o rigor que António de Macedo sempre manifestou no tratamento estético dos seus filmes e a riqueza e diversidade dos mesmos fazem com que seja quase um acto criminoso - e Jorge Leitão Ramos já o referiu em crónica no Expresso - que a totalidade da sua obra se encontre arredada de edição comercial em DVD.

Os Abismos da Meia-Noite (1983) estreou-se em Portugal a 27 de Janeiro de 1984, contando com prestações dos actores Helena Isabel, Rui Mendes, Eugénia Bettencourt, Márcia Breia, Virgílio Castelo, Manuel Cavaco e António Assunção, entre outros. Com fotografia de Elso Roque e música original de António de Sousa Dias (editada, aliás, em disco pela Fotossonoro nesse ano de 1984), o filme, que abordava temáticas ligadas à mitologia popular, chegou ainda a ser editado em formato VHS pela empresa Imaginação. Neste momento encontra-se indisponível no mercado.

Sinopse:

Irene, agente duma companhia de seguros, é encarregada de investigar o desaparecimento de um velho bibliotecário, numa cidade cidade de província. No decurso das suas averiguações, trava conhecimento com Ricardo, professor de História, que conhecia a vítima e se interessa pelas tradições lendárias da região. Assim, Irene toma conhecimento de um antiquíssimo castelo medieval - cuja entrada secreta se abre, misteriosamente, na noite de Natal, durante as doze badaladas da meia-noite.

(fonte: http://www.amordeperdicao.pt)

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Terça-feira, Março 07, 2006

Simone - Os Primeiros Passos (2)

Imediatamente antes do disco que aqui apresentei de Simone há dias, a Rádio Triunfo publicara uma colectânea em que à nova artista se juntavam Maria de Lourdes Resende, Rui de Mascarenhas e Anita Guerreiro. Apesar de todos eles serem já nomes mais ou menos estabelecidos no panorama musical de então, Anita Guerreiro - conhecida do público actual como actriz de televisão - era a que mais próxima estava da geração de Simone de Oliveira. Assim, esta era a oportunidade de juntar duas vozes consagradas com outras duas de brilho mais recente, julgando assim a editora agradar a gregos e troianos. Por outro lado, o pop rock ainda não conquistara as editoras portuguesas, apesar de dentro de poucos meses (em 1959 ainda e em 1960) começarem a surgir os primeiros discos do Conjunto de Pedro Osório e do Conjunto de Walter Behrend (no Porto) e dos Conchas e de Daniel Bacelar (em Lisboa). Curiosamente, isto acontecia quando a carreira de Elvis Presley estava num impasse devido ao facto de o cantor se encontrar a cumprir serviço militar na Alemanha, ao mesmo tempo que os Shadows tomavam as tabelas de vendas de assalto, gerando imitadores um pouco por toda a parte.

1959
Alvorada / Rádio Triunfo
MEP 60135

1. Coimbra (Avril au Portugal) Maria de Lourdes Resende
(Raul Ferrão)
2. Lisboa Antiga Anita Guerreiro
(Amadeu do Vale - José Galhardo / Raul Portela)
3. Uma Casa Portuguesa Rui de Mascarenhas
(Vasco de Matos Sequeira - Reinaldo Ferreira / Artur Vaz da Fonseca)
4. Sempre Que Lisboa Canta Simone de Oliveira
(Aníbal Nazaré / Carlos Rocha
)

Sexteto Feminino
Tavares Belo: direcção de orquestra

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Segunda-feira, Março 06, 2006

A Voz Esquecida de Teresa Paula Brito

Houve uma altura em que Teresa Paula Brito (1944 - 2003) era uma das vozes femininas mais conhecidas de Portugal na área da música ligeira. Não havia muitas, é certo, ou não havia muitas de qualidade e com uma carreira de rigor, o que é ainda mais certo, mas a desta cantora que tinha uma paixão especial pelo jazz distinguiu-se da mediania geral como um talento de primeira água. Brilhou, no entanto, durante um período de pouco mais de dez anos, entre o início da década de 1960 e meados da década seguinte, com trabalhos que abarcavam espirituais negros e folk americana (com os Strollers, ao lado de José Duarte, autor do programa radiofónico "Cinco Minutos de Jazz"), o tema do filme Verdes Anos, de Carlos Paredes, a belíssima Para Não Dizer Que Não Falei de Flores, do brasileiro Geraldo Vandré, ou canções de José Afonso. Mas em inícios de 1971 sai um disco bastante publicitado na altura, constituído unicamente por poemas de Maria Teresa Horta e músicas de Nuno Filipe, onde à mestria das palavras e à acutilância das melodias se aliavam arranjos de Rui Ressurreição executados por José Cid, Tozé Brito ou Vítor Mamede. Estávamos, com toda a plenitude, em terrenos próximos do rock - e se dúvidas houver, basta escutar atentamente Meu Aceso Lume - Meu Amor, que, juntando dois textos da poetisa, mostra a raiva incontida que Teresa Paula Brito também sabia destilar. Pena é que a partir da segunda metade da década de 1970 pouco ou nada se tenha ouvido falar da cantora, até que a morte a veio buscar quase anonimamente em finais de 2003. É triste, tão triste, este nosso fado.



1971
Movieplay
SON 100.011

1. Existem Pedras
(Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)
2. Poema sobre a Recusa
(Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)
3. Meu Aceso Lume - Meu Amor
(Maria Teresa Horta / Nuno Filipe)

Teresa Paula Brito: voz
Rui Ressurreição: arranjos, direcção
José Cid, Luís Filipe, Tozé Brito, Vítor Mamede: acompanhamento

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Domingo, Março 05, 2006

Cinema Novo em DVD, já!

Está neste momento a ser publicada com a revista TV Guia uma colecção de DVD's intitulada Os Anos de Ouro do Cinema Português. Como elemento de mais valia, cada um dos discos vem incluído num livro em que Fátima Lopes Cardoso contextualiza o filme em causa. No final, uma pequena crítica fecha os volumes. É de saudar, pois, esta iniciativa, até porque quatro dos filmes estavam até agora inéditos em DVD - O Pai Tirano (1941), de António Lopes Ribeiro, O Pátio das Cantigas (1941), de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), A Severa (1931) e Maria Papoila (1937), ambos de Leitão de Barros. No entanto, não posso deixar de referir que seria tão ou mais importante disponibilizar em DVD alguns dos filmes-chave da geração do Cinema Novo português. É angustiante pensar que pedaços marcantes da nossa cinematografia andam arredados há anos do contacto com o público... Assim, lanço aqui uma proposta de quinze filmes que poderiam vir a fazer parte de uma segunda série desta colecção da TV Guia (ou de outra publicação que deitasse mãos à obra).

CINEMA NOVO

1. Dom Roberto (1962), de Ernesto de Sousa (música de Armando Santiago)
2. Pássaros de Asas Cortadas (1963), de Artur Ramos (música de Filipe de Sousa)
3. Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha (música de Carlos Paredes)
4. Domingo à Tarde (1965), de António de Macedo (música do Quinteto Académico)
5. As Ilhas Encantadas (1965), de Carlos Vilardebó (música de Johann Sebastian Bach)
6. Mudar de Vida (1966), de Paulo Rocha (música de Carlos Paredes)
7. A Cruz de Ferro (1967), de Jorge Brum do Canto (música de Joly Braga Santos)
8. O Cerco (1970), de António da Cunha Telles (música de António Victorino d'Almeida e do Quarteto 1111)
9. Nojo aos Cães (1970), de António de Macedo (música de Avelino Lopes)
10. Grande, Grande Era a Cidade (1971), de Rogério Ceitil (música de José Jorge Letria)
11. O Passado e o Presente (1971), de Manoel de Oliveira (música de João Paes e Felix Mendelssohn)
12. O Recado (1971), de José Fonseca e Costa (música de Rui Cardoso)
13. Perdido por Cem... (1972), de António-Pedro Vasconcelos (música de Paulo Gil)
14. A Promessa (1972), de António de Macedo (música tradicional, recolha de Michel Giacometti)
15. O Mal-Amado (1973), de Fernando Matos Silva (música de Luís de Freitas Branco e João Aboim)

Sábado, Março 04, 2006

Na morte de Fernando Tavares Rodrigues

Soube hoje que o poeta, jornalista e professor universitário Fernando Tavares Rodrigues morreu na passada Quarta-Feira, com 52 anos incompletos. Morte demasiado jovem para quem tinha, decerto, muito ainda para dar ao mundo da Cultura nacional. Recordo-o especialmente do livro Concerto para uma Voz, de 1988, e dos poemas de sua autoria que José Campos e Sousa (membro fundador da Banda do Casaco) musicou. Neste momento de partida, e não pretendendo mais do que recordar o escritor através das suas palavras, aqui vos deixo o poema Fado Soneto, gravado no disco N. Sra do Carmo - Fado (1988), de José Campos e Sousa.

Fado Soneto

Cada manhã era a véspera da surpresa,
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.

Do teu corpo prometido ainda o cheiro,
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.

Cada minuto um punhal impaciente,
cada gesto uma carícia antecipada,
cada suspiro um excesso de ar eloquente.

E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.

Sexta-feira, Março 03, 2006

Psico ou as vicissitudes de um grupo rock em Portugal

A formação dos Psico tem algo de romanesco: os Espaciais, do Porto, tinham participado no I Concurso Académico de Música Moderna, em 1968, mas insatisfeitos com a pontuação obtida, resolvem concorrer de novo com outra designação. Surgem assim os Psico, que alcançam a vitória desejada, mas que acabam também por trazer a dissolução do primeiro grupo, que veria publicado nesse ano o seu último disco - O Circo / When I'm Sixty-Four / Dies Irae / Take Me Back, Back, Back. Em 1970, com José Calvário como teclista do grupo ainda e sempre liderado por Toni Moura, os Psico anunciam a edição de um EP que aparentemente nunca se veio a concretizar. Um ano depois, apresentam-se ao vivo no Festival de Vilar de Mouros, mas no segundo concerto que dão, a 8 de Agosto, vêem-se impossibilitados de subir ao palco na hora estabelecida devido a um dos músicos não estar presente.

Ao longo do resto da década de 1970, os Psico acolheram músicos como António Garcez (voz, futuro Arte & Ofício e Roxigénio), Fernando Nascimento (guitarra, ex-Grupo 5 e futuro Arte & Ofício), Álvaro Marques (bateria, futuro Jafumega), Sérgio Castro (guitarra, futuro Arte & Ofício). Em 1977, e após a morte do baixista Gino Guerreiro, o grupo é constituído por Toni Moura (guitarra), Filipe Mendes (guitarra baixo), Zé Carlos Almeida (teclas) e Álvaro Marques (bateria). Apresentam-se ao vivo no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, com o espectáculo cénico Epitáfio Sinfónico (que dedicam à memória do companheiro desaparecido), e no ano seguinte vêem finalmente publicado aquele que é o único disco conhecido do grupo. Trata-se de um single com as composições Al's e Epitáfio (excerto da obra anteriormente referida), um trabalho em que ficou bem patente a versatilidade e a técnica musical dos Psico. Infelizmente, apenas o primeiro destes temas conheceu reedição em suporte digital, através da compilação Biografia do Pop/Rock.

Quinta-feira, Março 02, 2006

Raul Brandão: 139 anos depois

Muito breve, muito breve, é o post de hoje. Diametralmente oposto à qualidade da obra de Raul Brandão, escritor que nasceu na Foz do Douro a 2 de Março de 1867. Escolher um dos seus trabalhos é difícil, mas hoje sugiro que leiam Jesus Cristo em Lisboa. Escrito em parceria com Teixeira de Pascoaes - embora se saiba que grande parte é inteiramente da autoria de Raul Brandão - este texto para teatro não é encenado em Lisboa, tanto quanto sei, desde 1980. Bem falta nos fazia ver de novo em palco - e eu, que nunca o vi... - o retrato delirante e sarcástico de uma sociedade que se recusa a aceitar a nova vinda do Messias. Mas porque diabo teria logo que acontecer nos nossos dias e em Lisboa, perguntam os personagens?... Vade retro!

Com a devida vénia ao site do actor Antonino Solmer, reproduzo esta imagem da encenação da peça feita em 1978 por Norberto Barroca e Carlos Wallenstein, no Teatro Municipal de São Luiz. Em primeiro plano, o saudoso Canto e Castro.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Dórdio Guimarães ou como atrás de uma grande mulher pode estar também um grande homem

O escritor Dórdio Guimarães viveu grande parte da sua vida (n. Porto, 10 de Março de 1938; m. Lisboa, 2 de Julho de 1997) sob a sombra da sua musa inspiradora, Natália Correia. Infelizmente, a sombra era grande, pois que o talento de Natália foi sempre imenso e multifacetado, e isso não lhe permitiu afirmar-se plenamente como autor de mérito. Dono de uma obra que abarca mais de quinze títulos, Dórdio Guimarães foi também realizador de cinema - à imagem de seu pai, Manuel Guimarães, autor de filmes como Saltimbancos (1951) e O Crime de Aldeia Velha (1964) - e, em 1969, colaborador a nível de textos do projecto musical Fluido, liderado pelo cantor Paulo de Carvalho. Foi no seio deste grupo que viu dois poemas de sua autoria serem musicados e revestidos de arranjos instrumentais ousados para a época e para o Portugal de então. A estética psicadélica dominava estas composições e a beleza singela das palavras de Dórdio projectava-se na eternidade - pena que, hoje em dia, tanto o livro como o disco A Idade dos Lilases se encontrem esgotados, impossibilitando assim que novos públicos se abeirem de duas obras-chave de um tempo que é também o nosso.

A Idade dos Lilases

Mulher
No tempo dos cabelos agitas a paz em amor
Todos os dias por ti

O universo se faz e tu não sabes não

Amanhã a mulher joga a vida num vale de lilases
Dele irrompe cheirosa a flor
Que é pródiga em lis e lases
E serei tudo o que de mais fértil o teu ventre der
Mulher

Na estrada à noite não pode haver desacordo
Eia tanta gente amiga são as árvores

Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

Cristóvão: Música Ligeira de Qualidade

Muitas vezes se associa à música ligeira o epíteto de "bacoca" ou inconsequente. No entanto, isso só é verdade quando estamos perante más composições musicais servidas por letras medíocres e por arranjos pouco ou nada criativos. Sabe bem, por isso, ouvir os dois discos que conheço de Cristóvão, um cantor português que se estreou discograficamente em 1971. As quatro composições presentes nos dois singles são todas elas da autoria de Carlos Portugal, com excepção apenas de Canção Deserta, escrita em parceria com Sílvio Pleno. Este último dirige também a formação instrumental que acompanha o cantor, com especial predominância da secção de sopros. A voz potente de Cristóvão serve na perfeição as canções a que se entregou, e o colorido dos arranjos faz-nos lembrar algum do melhor soul-funk que então se praticava nos E.U.A.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

Simone - Os Primeiros Passos (1)

A carreira discográfica de Simone de Oliveira começou em 1958, quando a cantora tinha acabado de fazer 20 anos. Se hoje é uma voz admirada e respeitada no mundo do espectáculo, apesar de se manter longe da ribalta, as bases para esse reconhecimento podem ser encontradas no período em que gravou para as casas Rádio Triunfo e Valentim de Carvalho. Se, numa primeira fase, Simone cantou composições de nomes como Nóbrega e Sousa, Fernando de Carvalho, Alírio Covas, Jaime Filipe, Carlos Canelhas, Eugénio Pepe, Manuel Viegas, Frederico Valério ou Pedro Jordão, mais tarde levou a um novo público os talentos de Nuno Nazareth Fernandes, José Cid, Fernando Tordo, Pedro Osório ou Paco Bandeira; isto sem esquecer também as versões de êxitos internacionais do momento. Na sua evolução como cantora é, pois, paradigmática uma busca constante da dignificação da música ligeira, nunca estagnando artisticamente e alargando pelo caminho o seu espectro de admiradores.

Como curiosidade, refira-se que em 1961 foi publicado um disco de Simone com uma composição musical de Nóbrega e Sousa para uma letra escrita pela dupla Santos Fernando e Ferro Rodrigues, Fim de Estação. Enquanto que o primeiro destes autores construiu uma carreira literária na área do humor sarcástico (e que importa redescobrir), o segundo foi uma figura de primeiro plano do panorama radiofónico nacional nas décadas de 1950 e 1960. Infelizmente, Ferro Rodrigues, pai do ex-secretário geral do Partido Socialista, morreu no passado dia 15 de Fevereiro.

1959
Alvorada / Rádio Triunfo
MEP 60136

1. Amor à Portuguesa (La Portuguesa)
(Eddy Marnay - versão de Silva Tavares / E. Cofiner)
2. Tu
(António Sousa Freitas / Nóbrega e Sousa)
3. Nos Teus Olhos Vejo o Céu (Nel Blu Dipinto di Blu)
(Migliacchi - versão de Silva Tavares / Domenico Modugno)
4. Tu e Só Tu (Love Me For Ever)
(Pierre Delanoë - versão de Silva Tavares / G. Lynes)

Simone de Oliveira: voz
Tavares Belo: direcção de orquestra

Teófilo Rego: fotografia

Domingo, Fevereiro 26, 2006

O Quarteto 1111 e o Cinema Português

Tanto quanto sei, o Quarteto 1111 apenas participou na banda-sonora de um filme português. Foi em O Cerco, de 1970, com realização de António da Cunha Telles. Infelizmente, não vi ainda este filme, ora porque possa andar arredado da programação da RTP (que confesso não seguir religiosamente) ora porque a única vez que foi editado comercialmente foi na velhinha colecção de clássicos portugueses da Lusomundo (ando a procurar desenfreadamente um exemplar por todos os vãos-de-escada lisboetas...). Assim, mais não posso do que deixar-vos com uma bela fotografia de Maria Cabral, actriz principal do filme, e desejar desde já que a Lusomundo ou outra qualquer produtora se decidam a repor em DVD este pedaço do Cinema Novo português, produto de uma altura em que a Primavera Marcellista parecia fazer entrever algumas esperanças - mais tarde goradas...


Sábado, Fevereiro 25, 2006

A Origem

Sejam bem-vindos! Para marcar o início deste blog, escolhi um disco simbólico: o segundo single do Quarteto 1111. Editado num ano que só conheceria outro lançamento no mesmo formato (1969), Nas Terras do Fim do Mundo / Bissaide surgiu após 11 meses de ausência dos escaparates no que toca a novas edições do grupo, então constituído por José Cid (voz, teclas), António Moniz Pereira (guitarra), Jorge Moniz Pereira (guitarra baixo) e Miguel Artur da Silveira (bateria). O psicadelismo já desenvolvido em obras anteriores continua aqui em plena forma, com um lado A liricamente próximo das temáticas históricas tão caras ao grupo e um lado B repleto de energia soul-funk. Curiosamente, excertos sonoros e ideias musicais deste último tema serviram também de banda sonora ao genérico do programa televisivo Zip-Zip, então em emissão na RTP.

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