Um amigo contou-me recentemente a curiosa história de uma estagiária que, a meio do seu primeiro dia de trabalho numa revista de grande circulação, desapareceu subitamente da redacção. Após demoradas buscas, os colegas encontraram no monitor do computador da jovem um post-it com a seguinte inscrição:
«Descobri que esta vida não é para mim. Adeus, vou abrir um bar na praia!».
Ao fim de escassas horas de jornalismo, a estagiária descobriu que não tinha jeito para a coisa. Na verdade, além de um «baptismo de fogo» na profissão de jornalista, o estágio é também a melhor forma de sabermos o que queremos (ou não) fazer da nossa vida. E é também indispensável para a nossa formação, sendo talvez a parte mais importante da licenciatura em Comunicação Social. Sem desprimor para a componente lectiva do curso, não tenho dúvidas de que aprendi mais nos cinco meses de estágio que em cinco anos de aulas, no que ao jornalismo diz respeito.
Por isso, o único aspecto que considero negativo na adaptação do nosso curso ao processo de Bolonha é o facto de o estágio curricular deixar de existir, pois com certeza vai reduzir ainda mais as hipóteses de os recém-licenciados encontrarem emprego. Isto porque o estágio é essencial para a entrada no mercado de trabalho, quer pela aprendizagem que acarreta, quer pelos conhecimentos pessoais que proporciona no meio jornalístico.
Mas nem todos os estágios representam uma mais-valia para os estudantes. Alguns não passam de escravatura encapotada, permitindo às empresas reduzir custos com recurso a mão-de-obra servil. Por exemplo, será admissível que uma estação de televisão obrigue sistematicamente dezenas de estagiários a trabalhar durante madrugadas, feriados e fins de semana, sem que isso represente quaisquer mais-valias em termos de aprendizagem para os ditos? A razão é simples: dessa forma, a estação em questão não precisa de pagar horas extraordinárias a jornalistas profissionais, poupando todos os anos algumas dezenas de milhar de euros. Esta prática, da parte de instituições que se dizem sérias, não só é prejudicial para a formação dos alunos estagiários (que aprenderiam muito mais se estivessem na redacção durante o dia), como constitui um aproveitamento vergonhoso de pessoas que se encontram numa situação de grande fragilidade. E mais: além de se aproveitarem desta mão-de-obra semi-escrava, essas empresas ainda se atrevem a propagandear a realização dos estágios como exemplo das suas políticas de responsabilidade social. É preciso lata!
Realizar estágios nestas condições é ludibriar os estudantes e respectivas famílias, frustrando as suas legítimas expectativas. Aliás, ludibriar pais e alunos é que o nosso ensino superior faz desde sempre. Quando teremos uma avaliação isenta das licenciaturas existentes, de forma a permitir uma escolha dos cursos devidamente fundamentada, por parte das famílias?
(artigo publicado no
Comum Online)