Quinta-feira, 23 de Junho de 2011
Conteúdos - cânone - 17 (fé)

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A fé: ver acontecer o que ainda não se realizou, como se se prefigurasse como certo aquilo que se desejou. A fé tem a característica expressionista da visão: estar dentro da cena que se imagina, mas estar nela antes ainda de acontecer e com a certeza de que irá realmente acontecer. Na fé há uma conversão espontânea de acontecimentos: entre aquilo que virá e aquilo que já existe na mais íntima determinação. Clube de futebol, lotaria ou deus são – todos eles – objectos de vaticínio da fé. Uns com ironia (ter fé e ver a fé com humor), outros com rigidez (ter fé e ver a fé com estriada seriedade). A fé é partilhável como fenómeno de massas – e aí tem contada toda a sua história pública ao longo de séculos e séculos de manifestações variadas –, mas é sobretudo, na sua auto-especularidade, um fenómeno íntimo. Um jogo egotista de certezas. Uma coerência tão fechada quando silenciosamente monologada. A fé existe como um conteúdo que não deseja ser definido. O senso comum traduz a intraductibilidade justamente nessa medida: “É uma questão de fé!”. Essa longa história do inexplicável e, em certos aspectos, da sujeição de alguém a uma fé partilhável porque impositiva – neste caso, um tabu que não se pode por dogma aflorar – transformou a questão em algo incómodo. Por vezes insuportável. A atitude moderna, por exemplo, sempre se tentou definir contra a fé. Afirmação por contraponto, portanto. Embora, nessa definição, a fé reaja com assimetria devido ao que mais a alimenta: a intimidade. A fé é essencialmente uma forma de resistência: poder ver o que não é dado a ver pelo real mais imediato. Crer nessa possibilidade e realizá-la, tal como a arte se realiza sem necessitar de se referir seja ao que for. É esse o guião da fé: uma visão que se confunde com o ser que a tem.
Sábado, 18 de Junho de 2011
Conteúdos - cânone - 16 (massificação)
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A massa foi sempre uma preocupação moderna. De Marx a Ortega Y Gasset. Mas a massa moderna era um caudal que ameaçava, perturbava ou se alienava. Tanto faz. A massa era sobretudo um caudal que criava contrastes, porque convivia com entidades que eram o positivo ou o negativo da própria massa. Elite, intelligentsia, classe, nomenclatura e outros termos designaram essas entidades. A massa moderna era um rio poderoso que contrastava com a serenidade das margens. Nas margens fazia-se a política, a literatura e o mito. No rio – e sôbolos rios (grandes revoluções) – fazia-se o resto. As inundações marcaram, por isso mesmo, grande parte da história dos séculos XIX e XX. No nosso tempo, o rio e as margens desapareceram. O rio envolveu as margens e as margens envolveram o rio. Nem um nem outro hoje se reconhecem. O que deles sobrou foi um efeito de massa: um manto em 3D que avança em direcção ao sentido. Como se tudo pudesse acontecer: com a agravante de que os ares de clímax são tão simulados quanto reais. A crise dos mercados representa, no novíssimo palco, o drama da massificação: tudo se comprou, tudo se construiu, tudo se esbateu e tudo se disse. E agora, aberto o abismo, a massa reage como um caudal sem margens. Tal como uma angústia profunda sem objecto preciso. Esse ‘pathos’ é a própria natureza da massificação: um corpo decapitado que sorri, como se fosse para sempre, diante dum ‘reality show’ intemporal.
Conteúdos - cânone - 15 (falha)
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Vivemos num mundo em que a falha se vulgarizou. Sem receituários (baseados na harmonia ou na perfeição) capazes de dar algum sentido aos actos do dia-a-dia, a vida passou a ser recheada por falhas. É por isso que notícias passaram a incidir muito mais na repetição da repetição (nas meta-corrências) do que em falhas, inversões, acidentes e outras anomalias. Torna-se, hoje em dia, muito mais difícil distinguir o que escapa à ordem natural, normal ou previsível das coisas (o “segno” medieval) do que em qualquer outra época. Justamente porque, neste ‘mundo pós’ – deixou de existir uma ordem natural, normal ou previsível para as coisas. A normalidade é, no nosso tempo, um firmamento de falhas: uma curva que religa simultaneidades que disputam e desafiam o código que vão criando. Micro-narrativas, micro-códigos e micro-discursos: um terreno pouco estriado e aberto, mas seguramente fértil para o culto de falhas. Ao ter-se vulgarizado a falha, o alarme deixou de com ela conviver. Antes se exilou e foi deixando em pé de igualdade o pasmo criado diante das torres gémeas – há uma década – ou o pasmo criado diante da morte de Diana – há década e meia (tudo passou a ser encarado como espectáculo e todo o espectáculo foi deixado em pé de igualdade). Os pasmos tornaram-se quase todos iguais e passaram a sintonizar uma mesma frequência. Bits como factos. Os pasmos tornaram-se vórtices sensoriais dos media e passaram a ignorar o alarme que sempre foi gerado pela própria falha. Um circuito vulgarizado pela falha – de que a generalização dos erros ortográficos é uma óptima metáfora – é um circuito que se impõe pela inclusão sem diferenças. Uma inclusão sem diferenças é uma massa informe que tem a falha como identidade.
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
Conteúdos - cânone - 14 (sms)
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Um/uma sms molda a linguagem para caber em qualquer lado (ou em qualquer género). Já um toque é apenas a interrupção simples de um tempo em princípio plano. Um toque tenta criar fronteiras entre o antes e o logo que o sucede. Como se um dedo apenas fizesse criações descontinuadas. A interpelação, por seu lado, já é um esboço de narrativa, mas o toque ainda não: simples aceno. O/a sms é também uma espécie de toque, mas com alguma ressonância e amplitude. Mera flutuação que se distende ao longo de vários caracteres, como se um desejo de narrar fosse evocado mas logo fugisse e não passasse de uma sugestão à procura de encantamento. O/a sms dilata o vórtice do toque, dá-lhe águas, esquece fronteiras e acaba por inscrever um desejo como breve traço ao longo do tempo. Se o toque interrompe, o/a sms esvazia o balão da palavra: é essa a sua duração. É esse esvaziar que, ao preencher uns tantos segundos de leitura, acaba por dar perfil e espessura ao/à sms. Moldar a linguagem é fazer do vaivém entre ar e balão um sentido que nunca se esgota. Um sentido sempre em aberto: palavras de fractura, pontos insinuantes, consoantes nuas, parêntesis com rosto, vírgulas risonhas e sufixos com perfil de puras elipses.
Conteúdos - cânone - 13 (tempo real)
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Sabe-se que o tempo não é capturável. É isso que o determina, seja ele cronológico (chronos) ou ligado a invariantes (aion). O tempo é um conteúdo que ocupa a percepção de uma passagem. Mesurável ou ético, não mesurável ou émico, o tempo existe para além do código, seja ele qual for. A designação “tempo real” pretende assinalar uma coexistência entre o acontecer (tornado conhecido) e o acontecimento. Trata-se de generalizar a contingência em flagrante. O que não é “tempo real” está fora de jogo. Mas no jogo do “tempo real”, tudo se assinalaria e incorporaria no instante em que emerge. O que torna real o “tempo real” é a sua extrema irrealidade. Esse paradoxo é, afinal de contas, o seu dom e também o lado mais apelativo do seu uso. Ao repetir até à exaustão “tempo real”, o tempo corre até o risco de se tornar capturável. E uma ilusão em era de ilusões é a mais pura das verdades. O guião do conteúdo “tempo real” é, pois, tão assertivo quanto inebriante. Toca os sentidos e invade o domínio das certezas cronológicas. Para além do “tempo real” já não existe história nem futuro. O “tempo real” impõe-se, deste modo, como único momento, ou como uma espécie de clímax exclusivo de uma narrativa que se bastaria ao instante. Uma coexistência e uma intensidade que não deixam – ou que não deixariam – respirar.
Conteúdos - cânone - 12 (património)
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Há mais de dois milénios, o conteúdo cultura andou associado à ideia heideggeriana de ‘cuidar de’ – cuidar da terra e dos animais, num sentido relativamente neutro. Um sentido de teor secular (que surge em Plutarco ou Cícero) remeteu, por conotação, para a ideia de cultivo do ‘espírito humano’ e havia de se projectar, até aos nossos dias, em significações como “desenvolvimento intelectual’, ‘saber’, ’estudo’, ’esmero’ ou ‘elegância’. Um terceiro sentido atribuído ao conteúdo cultura, o de Santo Agostinho, transpôs, na Idade Média, o conceito para o modelo divino de ‘culto’. Um quarto sentido surgiu, já no Illuminismo, por via do alemão Herder que estabilizou a noção moderna de cultura enquanto objectivação da totalidade do produto humano realizado, independentemente dos seus autores subjectivos. Nesta perspectiva, a imaterialidade e a materialidade historicamente acumuladas pelas comunidades (língua, terra, tradição, objectos ‘culturais’, etc.) tornaram-se em novos objectos de culto. O património – que tem apenas algumas décadas de vida – descende desta ‘inovação’ já com dois séculos e meio e projecta-se sobretudo no edificado, no meio construído e nos próprios quadros do vivido. No fundo, uma recuperação da ideia de culto no meio de um mundo que se dessacralizou. O conteúdo património redescobre-nos, deste modo, no centro de uma redenção que nos é docemente revelada pela cultura. Algo para levar muito a sério, quando da realidade se apearam já quase todos os altares.
Conteúdos - cânone - 11 (rede)
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A rede é um daqueles conteúdos que tende a surgir em todas as épocas e que serve essencialmente para enquadrar o todo da realidade, para a designar de modo confortável ou até para a tentar explicar de uma maneira económica. No nosso tempo, a simulação de extrema proximidade atravessa, quer o sentido criado pelos dispositivos tecnológicos, quer a interacção – quase corporal e estésica (intensíssima a nível sensorial) – que o ser humano passou a estabelecer com esses dispositivos. A rede decorre desta assunção criada pelos interactores digitais e pelas mediações humanas que com eles concorrem em permanência. Na rede, a diferenciação entre actores e personagens discretos não é relevante, pois o que a significa é o esteio pancomunicacional. Há na rede uma gramática holística – ou totalizante – que se assemelha à visão medieval de deus ‘todo poderoso’, embora o regime vertical (céu-terra) tivesse sido substituído por uma espécie de majestoso e infindo ‘self-service’ (chão a todos os níveis). Este nivelamento da estrutura clássica desestrutura, do mesmo modo que a coerência de todas as relações sistémicas clássicas é, na rede, ‘assistemizada’. A rede é um conteúdo extremamente eficaz, pois reúne, na sua brevidade, a larga maior parte dos mecanismos de significação do nosso dia-a-dia. A rede é efectivamente uma espécie de 'story line' de um guião maior, capaz de colocar em cena a totalidade da nossa vida actual.
Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
Conteúdos - cânone - 10 (dever)
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O que já foi tracção, contenção e freio auto-impostos passou a corresponder a uma lógica de mãos soltas. O que se faz, faz-se com fôlego de contracultura embora sem qualquer alvo a destronar. Uma liberdade que não quer ter na sua frente qualquer obstáculo que a caracterize, embora Hobbes a tivesse definido, precisamente, como uma força que se expande até ao momento em que encontra um obstáculo. Sem obstáculo, sem tracção e sem alvo, a liberdade passa a ser um corpo sem pele. O dever é a entidade invisível que separa esse corpo dessa pele. O dever é hoje uma efígie ou um enigma sem história e não já uma determinação íntima com consequências reais. Um vórtice de narcisismo, fluxo, consumo e de repetição da repetição passou a habitar a casa do dever. A ordem que no tempo das regras axiais instaurou o dever como algo natural passou da nuvem que lhe dava a natureza a um vazio ainda à procura de nome.
Conteúdos - cânone - 9 (projecto)
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Projectar deixou de ser a preparação para algo acabado e orgânico. Projectar passou a ser um estado definido pela preparação inorgânica e ininterrupta. Um projecto confunde-se com um processar que não é maquínico, nem digital e que sobretudo não visa almejar metas, mas antes conter-se na realidade de um ‘work-in-progress’. Projectar significa crer no curso das coisas ou no simples decorrer em ‘media res’, sem dar confiança às ameaças de um acontecimento final. O projecto é uma recusa em sucumbir face ao acontecimento, embora seja este que o justifica. Saltando da arquitectura para o design e daí para todos os modelos projectuais do dia-a-dia, o projecto passou a ser notícia, porque a notícia também vive em estado de projecto: acontecimentos fluidos que se encadeiam na fluidez dos meta-acontecimentos. No projecto, o que avança é a tentação do acto ou, por vezes, a consolidação de uma entidade abstracta que se assume como possível. Um proto-real transitório que prefigura a hipótese plural do acontecimento, mas sem o desejar. O projecto prolonga-se no próprio projecto.
Terça-feira, 14 de Junho de 2011
Conteúdos - cânone - 8 (criação artística)
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A imaginação foi um dos alicerces da modernidade (de Hume a Kant, a ideia evoluiu meteoricamente). A imaginação passou a ser sobretudo um dispositivo de produção ficcional que visa, a partir da tabula rasa (Damásio refere-se à mente como “contadora de histórias”), a possibilidade de tornar real dados sondados pelo sujeito. É este o alicerce do artista – que tem acesso a visões de completude ou de totalidade – sonhado pelos românticos alemães, sobretudo pelo chamado Círculo de Jena. No entanto, a estética no seu devir idealista, só se enuncia, pela primeira vez, ao longo de setecentos, porque antes haviam sido criadas condições para tal. A intemporalidade mitológica deu lugar à transcendência e esta deu lugar ao sujeito moderno criador e questionador. Entre as duas últimas etapas, o gnosticismo foi uma corrente de várias proveniências mas com duas características essenciais: uma dimensão salvífica e a aceitação da gnose como conhecimento dos mistérios reservados a uma elite. Foi sobre esta disposição superadora e de busca do inexplicável que, milénio e meio depois, foi possível teorizar e crer na arte e na estética, tal como as entendemos ainda hoje. Por outro lado, a pressuposição dos sentidos e da imaginação como vias ligadas a faculdades superiores do homem completaram o quadro e legitimaram as funções da arte e da estética no mundo moderno, elevando a dimensão criativa de todo o sujeito e atribuindo-lhe sobretudo o crédito de uma espécie de gnose exclusiva, superior e irrespondível (de que o “génio” de Kant foi apenas o prenúncio).
Conteúdos - cânone - 7 (fim)
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A dificuldade em objectivar o fim está ligada ao facto de ser impossível objectivar um tempo sem fim. O tempo sem fim que foi sendo imaginado pelo homem, ao longo de milénios e milénios, desliza da experiência à linguagem, como se a força da gravidade empurrasse tais devaneios apenas para dentro da linguagem. Na impossibilidade de clarificar estes dois contrários ‘fim’-‘tempo sem fim’, é um facto que em vez da imagem do negativo fotográfico (de tipo analógico), o que sobra – é mesmo uma questão de sobrevivência – é a ideia de que o fim não pode nunca ser uma ruptura, uma falha, ou uma queda para o abismo, mas sim um espaço derradeiro onde se tornaria possível conter o tempo. Até porque o ‘depois do fim’, tão bem representado pelas muitas teorias ‘pós-qualquer coisa’ – que emergiram nas últimas décadas do século XX –, é sempre uma varanda aprazível de onde se passou a contemplar o próprio fim. Uma varanda larga e solar que representa a continuação sine die do relato que está em vez do fim. Como se os fins se multiplicassem: um fim gerando sempre outro fim, mas todos do ‘lado de cá’ dizendo não – de vez – ao próprio fim.
Conteúdos - cânone - 6 (digitalizar)
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Os sistemas digitais recorrem a valores e a naturezas discretas e descontínuas para representarem informação. No entanto, essa informação pode ser representada através de letras, números, ícones e signos contínuos, tais como as imagens e os sons. O representado e o representante acabam por ser tão parecidos, ou quase iguais, que a simulação deixa de ser um dado sequer a ter em conta. O uso dominante do digital, nas imagens, na reinvenção de sonoridades e em toda a electrónica em geral decorre da metamorfose sem dor da realidade em sinais de tipo binário. Ao contrário dos sistemas analógicos que recorrem a intervalos contínuos para representarem informação (também contínua), o digital faz suspeitar que um corpo possa ser realmente um corpo. No limite, o digital fará do espectro o corpo verdadeiramente ideal. Como se deus fosse afinal a encarnação do homem.
Conteúdos - cânone - 5 (crise)
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Quando dizemos crise, estamos a dizer o modo como compreendemos a actualidade. Mas quando dizemos “a crise” já estamos a cair na tentação de a compreender. De qualquer modo, nesta etapa em que a crise aparece definida e clarificada (como se fosse algo familiar – “a crise”), sucede, de modo óbvio, o tempo em que a procura nos oráculos e nas entrelinhas das “Escrituras” prenunciava respostas para tudo. A ideia de crise veio substituir todas essas demoras. A crise é, por isso mesmo, um jogo de expectativas que se tenta aproximar da realidade, embora se saiba que esta é sempre mais complexa do que todas as receitas. Um jogo fascinante que, por vezes, se identifica com a solução. O cenário passa assim a ser o real. Por isso se diz “a crise” em vez de “crise”, para que não seja apenas mais uma.
Conteúdos - cânone - 4 (espera)
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As metáforas da espera estão sempre à espreita de Godot e de Penélope: dois modelos baseados na apreensão e no drama que pressupõem a interiorização de um possível e desejado desfecho. Ao preencher-se a duração em função de algo ausente, o presente torna-se presente como nunca. Porque a sua natureza de ‘ainda-não’ vai-se tornando na expectativa de um ‘ainda-nunca’ que ilumina – de um modo oposto à nostalgia – o acontecer do ‘tempo-a-passar’. A espera não é, pois, apenas aguardar. A espera é mais abismada, pois vive sem a leveza que admite uma interpelação ou um corpo regressado em manhã de nevoeiro.
Conteúdos - cânone - 3 (zapping)
se
O zapping é um movimento que suprime enquanto revela. Ao fim e ao cabo, designa um salto ou um gesto em zigue-zague que vai dando sucessivamente a ver, podendo regressar para de novo voltar a derivar. Ao contrário do “upgrade” que apaga para sempre e remove, o “zapping ondula e revela por intermitências e com uma intensidade variável, pois pode revelar na sucessividade de fracção para fracção temporal. A nossa mente está, de qualquer modo, mais próxima do funcionamento por “zapping” do que do funcionamento por “upgrade”.
Conteúdos-cânone - 2 (upgrade)
eQuando faço um "upgrade", faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “upgrade” me diz sobre a morte necessária do passado (da memória) e a crença apenas no que se vai tornando actual.
e
Fazer ou dizer "upgrade" é levar a cabo a metáfora ideal que significa enterrar o passado e tornar presente qualquer coisa que o substitua. A amnésia colectiva vive à custa de uma centragem absoluta na esfera do presente. E não há conteúdo mais preciso do que “upgrade” para dizer o tudo que quero e devo remover em benefício do sempre-actual que inevitavelmente desejo actualizar. Um tipo de revelação única do ‘hic et nunc’.
Revisitação
Jantar de 22/06/2006 (Alcântara)Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
Conteúdos-cânone - 1 (progresso)
e e3
Literatura e pensamento: um salto, dois devires
eAcaba de sair a público o editorial da semana do site PNETliteratura. Ler tudo aqui.
Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Oferta actualizada dos cursos EC.ON
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Hernán Rivera Letelier
eTerça-feira, 31 de Maio de 2011
Camilo
eQuinta-feira, 26 de Maio de 2011
O design como abordagem
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Um alívio
Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
Ignição e leme
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Roth vs. Oliveira
yQuinta-feira, 5 de Maio de 2011
O rumor das regateiras
eSexta-feira, 8 de Abril de 2011
Repondo o báculo
e Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
Novo Logo do EC.ON (EscritaCriativaOnline)

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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011
ESCRITA EM CONTEXTO
eSexta-feira, 24 de Dezembro de 2010
O Natal

O Natal é uma era que passei a não gostar. Para mim, era ideal saltar de 20 para 27 de Dezembro num balão e, talvez, na companhia de René Clair. No meio do encanto hipnótico das crianças (único Natal que tem sentido), as famílias entram em estado de choque e as estatísticas dizem que os divórcios, as zangas intestinas e as desavenças (expostas ou guardadas a sete chaves) se tornam, de um momento para o outro, em vendaval. Este aspecto carnavalesco, que tanto toca a ilusão das cores como a sangria doméstica, é disfarçado pela música de cravo que ornamenta as nossas praças. Enfim, eu posso refugiar-me e sorrir. Há quem prefira entrar no baile com a devida venda nos olhos. A cada um a sua liberdade. Seja como for, a ironia diz-nos que o Natal sabe bem à lareira, que chegam mensagens cordatas via mail, FB ou sms, que há doces, que há redescobertas do passado (ir de bicicleta ao musgo), que há presentes. Que há surpresas. Tudo isso é verdade, mas tenho a sensação de que seria ainda melhor se nos deixassem realmente em paz. Eu disse "paz"?
Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
A amizade é uma estética
A amizade é uma estética. Na morte de Carlos Pinto Coelho.A amizade é um culto que se traduz através de uma crença que não tem nome. Um culto que se move e que está nos olhos de quem sabe protagonizar a amizade. Não há um centro na amizade, nem há um programa para a amizade. Ser-se amigo é dizer a intimidade sem filosofia e confidenciar o nome dos deuses sem qualquer deus por perto. Uma espécie de estética profunda, ainda que sem necessidade de arte.
Quando o dizer da amizade joga profundamente na vida, é verdade que se chega a tornar num dizer quase invisível. Tão transparente que mal se deslinda. Passa a ser um dizer oculto. Basta-nos o estar lá. O aparecer, ou tão-só o revelar-se de quando em quando. Mas quando o móbil da amizade desaparece – a morte, sim a morte! –, salta de imediato aos olhos esse dizer espesso de amigo e toda a sua relevância feita de matéria concreta.
O problema é já não poder entrar no escritório para dizer a quem já lá não está: “Mas por que raio é que morreste, meu grande sacana?”. Eu gosto dos verões a escaldar com o Carlos Pinto Coelho a chegar à minha casa de camisola branca e com uma garrafa de JB debaixo do braço. A Clara sorria e sabia perfeitamente que o mundo ali se reiniciava. Sim: como se a máquina do mundo tivesse bloqueado e fosse nossa tarefa, agora, reiniciar tudo de novo. É isso a amizade: um dom que existe para gerar outros dons.
O José M. Rodrigues fotografava os pequenos logros, os grandes acasos e os folhos do cortinado onde esvoaçavam palavras em forma de leque. O Carlos mostrava as suas paisagens de África como se fossem chão a respirar virgindade. A Fátima e a Isabel cantavam. O Alberto dizia o Régio que depois engrenava em uníssono. A Clara abria as papoilas como se o limoeiro do pátio estalasse à procura da sua sombra. E havia muitos outros nomes a fazer coisas que incendiavam o nada: esse planeta onde a poiesis da vida é coisa sagrada.
Era disso que eu gostava e é sobre isso que vale a pena escrever numa morte. Porque morrer é uma casa enorme sem geografia. Um aceno amputado. Um adeus que diz 'vem cá'. Ainda que a viagem literalmente continue: há-de ser verão e a linha de Mora, desalojada e erma, voltará um dia a ser fotografada. E há ainda o Harry´s Bar semeado entre xisto algarvio e umas oliveiras insanes que brotam da terra onde menos se espera. Como o maracujá da Madeira a bordo do gin tónico. Ou a minha trapista a bater o coração.
E pronto. Eu tinha que escrever em Évora por causa da morte de um amigo que ajudei a trazer para cá. Não que eu esteja em paz em Évora. Mas há deveres que são como a chuva. Estão muito para além da intriga menor e do juízo das narrativas de porcelana. Molham e fazem do corpo um mar que se revolta com a extrema mansidão das estatuetas. Eu hoje vou subir ao meu terraço e vou olhar para o fundo. No limiar do continente, vou voltar a segredar-lhe – sou muito chato! – que a amizade é um culto que se traduz através de uma crença que não tem nome.
Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
O último romance de António Manuel Venda
O pequeno Tukie testemunha, ao longo das doze estações deste ciclo ficcional, um conjunto de factos que resvalam, de modo súbito, de uma esfera normal e verosímil para uma outra, cuja identidade nunca se fecha ou declara. Aliás, é esse estado de metamorfose sempre em suspenso, ou de laboratório em contínua efabulação, que liga – repito intimamente – as doze histórias que compõem O sorriso enigmático do javali.
Existe realmente um pasmo de ‘media res’ – um enredo que respira fundo sem que se lhe conheça início ou fim precisos – que atravessa todos estes relatos, cuja simetria assenta mais na alegoria dos propósitos do que na ficção narrativa propriamente dita, enquanto agir que tende para o abismo de um clímax. Um pouco como no Émile de Rousseau, embora elevado ao maravilhoso, o quadro geral desenha, na boca de cena, o pequeno Tukie e o pai e, junto ao pano de fundo, o bebé, a mãe e os cães. Como, aliás, se sintetiza no final da décima história em jeito de concatenação fotográfica.
Mas o que concede a singularidade a este livro de António Manuel Venda é o modo delicado e enraizado (nos elementos puros) com que é posta em prática a metamorfose em suspenso que vai moldando cada uma das doze histórias. Se levarmos a cabo uma visita guiada a estas viragens que nunca desocultam completamente o seu rosto e o seu molde, apercebemo-nos de que são variadas, quer pela natureza dos seus agentes, quer ainda pelo deslumbramento e pelas quase aparições que sugerem.
Tudo se inicia pelo mistério da garça e da fotografia, em “1. Depois das perdizes paradas (pp.14/15), quando o que se vê e o que acontece se digladiam. Depois, é enunciada uma virtude nobre, o riso, que é imputada a um javali. Tal como na visão de Pirandello, a causa do riso parece estar no próprio motivo do riso. Ora leia-se: “Os dentes daquele javali, bem perigosos, parecendo afiados, dentes com restos de terra e ervas, esses dentes o pai do pequeno Tukie não sabia como classificar, mas esses dentes, junto com o focinho de javali, formavam uma espécie de sorriso” (“2. O sorriso enigmático do javali” – p.21). Na terceira história, surge uma gineta que “tinha uma motosserra no estômago” prestes a explodir (“3. Gina Gineta” – p. 31). Logo a seguir, em “4. A águia que subia” (pp. 42/43), aparece no céu uma bola ou bala de canhão que não passa afinal de uma águia. Tal como na quinta história, uma cobra aparece a voar como um gafanhoto ou um zangão (“5. Uma cobra para três corvos” – p. 49). A meio do livro, há espaço para um deputado a quem falta uma parte da cabeça (“6. O deputado das lebres extraterrestres” – pp. 58/59) e, também, para a quase ressurreição da gata Malhas (7. “Talvez a segunda vida” – p.69). Na oitava e nona histórias, as intermitências tomam conta do relato. É a borboleta que se materializa e desmaterializa ao mesmo tempo, em “8. A borboleta do imperador Ming” (p. 71), e era o lagarto que aparece e desaparece e que – já agora - também ri como o javali ( em “9. O lagarto da clave de sol” – p. 77 e p. 82). As duas histórias seguintes oscilam entre a magia e a singularidade. É o caso do ouriço “atrapalhado” que não se enrola diante do pequeno Tukie, em “10. Animal doméstico (p. 87”), e é o caso do texugo gordo que se comporta – imagine-se – como um cão, em “11. O texugo mais gordo do montado (p. 90”). A fechar a décima segunda história, surge ainda a rã que não era rã, mas que podia ter sido rooter ou parceira musical do lagarto que tinha a mania que era importante (12. “Uma rela” – p.100).
Todo o relato coloca face a face o pequeno Tukie – por vezes também a mãe – e o seu pai. É, pois, sobretudo à boca de cena que a interpretação de todo este milagre natural é expiado. Sob o olhar mais presente do que atento das personagens a quem foram confiadas as efígies do pano de fundo. Curiosamente, a figura da iniciação é quase sempre substituída por uma outra que não se confunde nem com a parábola, nem com a passividade de um perceptor à Émile de Rousseau. Em O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda, é a ambiguidade das respostas do pai (ou ocasionalmente da mãe) e, por vezes, a própria aura do irrespondível que tomam conta da cena. Acaba por ser este o modo de a narrativa melhor relevar e até significar uma metamorfose que jamais se aclara e que jamais se consuma. A eficácia da ambiguidade criada é óbvia, já que é por causa dela que se cria, ao longo das doze histórias, um espaço – ininterruptamente aberto (é esse o nome do enigma que dá nome ao livro) – que acaba por ser povoado pelo sortilégio, pelo fascínio e pelo encantamento.
A ambiguidade é gerada de formas díspares. Ou adiando uma resposta clara, o que acontece, por exemplo, em “Gina Gineta” (“Ficaria para depois o esclarecimento daquela dúvida…”) e em “Uma rela” (“O pai do pequeno Tukie achou que não era altura de explicar que não se tratava de uma rã mas sim de uma rela)”. Ou referindo explicitamente o conforto de não ter que clarificar, como acontece em “A borboleta do imperador Ming”: “São mentirosos porque…/ Foi então que parou, decidido a não dar explicações que o mais certo seria originarem perguntas mais difíceis”. Ou ainda admitindo simples possibilidades, veja-se: “O pequeno Tukie insistiu, e o pai acabou por ceder um pouco. Se calhar o lagarto era deficiente, tinha nascido assim…” (O lagarto da clave de sol). Por vezes, a ambiguidade decorre do cariz irrespondível que perpassa as situações, como é o caso de “O texugo mais gordo do montado” (“– É um texugo, não é?!/ – perguntou o pequeno Tukie/ E a mãe disse que sim, hesitante. Ela já nem sabia bem”) e de “A águia que subia”: “Sabes que pássaros são, mãe?/ A mãe disse-lhe que não, que iam tão alto que nem se atrevia a arriscar uma espécie” (A águia que subia). Outras vezes, a ambiguidade resulta do facto de se deixar simplesmente “no ar” o questionamento: “– Ri de quê?! – perguntou o pequeno Tukie./ Nem era uma pergunta para o pai, nem para o javali. Era apenas uma pergunta que deixava no ar” (O sorriso enigmático do javali).
Em todos estes casos, que devolvem abertura intencional ao “’Porquê’ Habitual” referido na penúltima linha do livro, uma certa imobilidade – nada altiva, sublinhe-se – assiste ao galopante vaivém entre o cosmorfismo e o antropmorfismo que constrói toda a malha discursiva. Em “Uma cobra para três corvos”, quando o narrador regista – “E ele, o pai, devia dizer que não, com firmeza, mas tal como não conseguia mexer-se também não conseguia falar” –, mais do que precisar os perigos do hipnotismo de uma cobra, acaba sobretudo por definir o tom que celebra toda a estratégia narrativa de O sorriso enigmático do javali: um ‘ser ou não ser’ terno, aberto à tentação do inverosímil, pautado pela inocência da dúvida e sustentado por um espaço de feitiço que vai entretendo a realidade como se esta tivesse a invisibilidade do mito.
Como se o casulo nunca se abrisse à borboleta e essa permanência extraordinária fosse a matéria de onde se teria extraído toda a ciência telúrica deste livro que, complementarmente, também escapa à definição de géneros. Romance? Contos? Novela fragmentária? Que interessa isso! Ao fim e ao cabo, trata-se da mesmíssima ambiguidade que se esconderá no gáudio – espero – do leitor, demasiado educado ao percorrer o coração das tramas e ao adicionar-lhes desenlaces que adora imaginar (e com os quais dá sentido à vida).
Concluamos com uma opinião pessoal. O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda é um “Livro de Horas” – como se designava na Idade Média o misto de iluminuras, salmos, orações e textos muito variados – , enunciando-se sadiamente liberto de referências pesadas, ungido de simplicidade e acabando por fundir ou confundir o relato com a liturgia da vida, ou não fosse boa parte do narrado, quase de certeza, de teor biográfico… aparecendo o narrador pelo buraco da agulha um pouco mal escondido, aliás em coerência plena com a arquitectura da própria obra.
Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Renovação ou melancolia sebástica?
INET Em primeiro lugar: o mundo está a mudar muito rapidamente e os valores que eram taxativos, certos, quase imutáveis, atravessando e marcando ideologicamente as sociedades, deixaram de ter influência decisiva. A partir da última década do século XX foi despontando, contra a inércia da geração a que pertenço (nasci em 1954), um mundo muito mais livre que se afastou das cartilhas rígidas. Este novo mundo, apesar das crises que são rostos habituais do nosso tempo, é muito melhor e bem mais sadio do que aquele que fez jus à Guerra Fria.
Vivemos, de facto, num mundo bem menos assente em cartilhas e mais problemático e mais aberto. É um mundo que adoptou o instantanismo tecnológico e que estreitou o espaço e o tempo do planeta. É um mundo talvez demasiado relativador e mediático, mas menos nostálgico e dogmático. É um mundo a que Alegre intimamente nunca pertenceu e a que, no fundo, não pertence. Este mundo, naturalmente, também não é o de Cavaco. Poucos são os políticos com espessura que representam o nosso mundo actual de modo positivo, criativo e estimulante. Crise profunda, a da politica, certamente. E não apenas em Portugal.
Estou convicto de que Alegre não incorpora um mundo aberto à iniciativa sem fim, de que a rede é, afinal, uma excelente metáfora. E é por isso que nos crê a todos como afundados. Ou perto disso. O pensamento sinceramente trágico de Alegre admite que a ausência de valores taxativos, previsíveis e capazes de marcar ideologicamente a sociedade significa, só por si, ausência de ética. E é por isso que se apresenta como campeador da ética. Uma espécie de PRD com gravata e barba anteriana: como se a ética fosse o imaginário de uma coutada própria a verberar-se poeticamente. Uma renovação destas precisava, talvez, o mundo do futebol. Não um país.
Toda a aparição de Alegre é almofadada, afectada, própria de quem ostenta um ceptro invisível. Ao invés de uma imagem política renovada - o PR em Portugal é essencialmente um símbolo que pressupõe capacidade de decisão -, Alegre propõe antes uma efígie política de nobreza sobre um plinto composto pelo mármore poético.
O candidato a PR discursa com um tom declamatório e pausado. Trata a linguagem, não como uma ferramenta para anunciar o verbo político e um leque de mensagens concretas e mobilizadoras, mas como uma linguagem que fala acerca da linguagem. Um registo que se move à volta de si próprio, com óptimo ritmo, boa gradação e uma certa proximidade da rima. Mas, de qualquer modo, um tom proclamatório que pede emprestado ao Parnaso a prosódica para a política. Eficaz para cintilar em corações românticos ou para preencher os vazios de quem não entende - ou não aceita - o mundo em que vivemos.
Um tom exaltante para jovens saudosos, sebásticos de 68 e ideólogos desempregados. Mas uma renovação às avessas, certamente.
Quarta-feira, 7 de Abril de 2010
O anátema da Maria da Fonte
Não posso estar mais de acordo, até porque nunca fui nacionalista.
Aquilo que a nação veio traduzir, no final de setecentos, não se esvai nem se expande por se ser ou não nacionalista. É irrelevante, até porque o que estava em causa era a percepção e o reconhecimento da existência de uma 'alma colectiva'. O mesmo se poderia dizer das grandes teleologias da esquerda de meados de oitocentos. Ao fim e ao cabo, todas elas visavam a superação de obstáculos que a teoria definia com a clareza e a lógica de um microscópio.
Eis duas religiões da modernidade: uma tradicionalmente mais conotada com a direita, embora originalmente bastante jacobina: a nação; outra tradicionalmente mais conotada com a esquerda, embora originalmente de direita (a avaliar pela matriz do Leviatã de Hobbes, por exemplo).
Confusões interessantes como as que se revelam pela boca do generoso povo dos fóruns radiofónicos da manhã que sabiamente analisa o nosso dia-a-dia. Hoje, as bandeiras vermelhas e amarelas de Valença foram tema. A explosão tomou conta da cena e houve quem visse o fim do mundo nessas duas cores quentes e tauromáquicas, assim como houve brados sindicalistas que registaram a bonomia e a excelência da causa.
Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Design: uma revolução em curso
Terça-feira, 30 de Março de 2010
PNETdesign começa a 31 de Março

O PNETdesign estará online a 31 de Março.
O novo site da rede PNET, o PNETdesign, abre as suas portas no último dia de Março. Durante o mês de Abril, a cobertura do Salone de Milão (14/4 a 19/4) está já na agenda. O painel de cronistas é variado e reflecte as várias esferas de produção, criação e gestão do design em Portugal e no mundo, atravessando campos de actividade que articulam o mercado, a educação, os eventos, o branding, o ciberdesign, o design gráfico e, também, a opinião.
Para além do editor, Luís Carmelo, e do administrador da rede, Eng. Vítor Coelho da Silva, colaboram no PNETdesign, desde o seu primeiro dia, Sara Goldchmit, Mário Anastácio Santos, António Nunes Pereira, Helena Souto, Eduardo Côrte-Real, José Bártolo, Eduarda Margarido, Humberto Moreira, Márcia Novais, João Palla, Maria João Eloy, Martim Lapa, Ana Mestre, Pedro Marques, Sílvia Rosado, Miguel Fernandes e Diego A. Bartolomeu.
Além de desejar dar conta do meio do design, o site PNETdesign pretende promover um observatório do mercado do design (eventos, feiras, destaques), dar voz aos agentes e protagonistas do meio do design, destacar a actividade do design na rede (blogues e sites), sublinhar o papel das marcas de design em Portugal e acompanhar as modalidades contemporâneas da gestão do design.
As componentes do site PNETdesign são os seguintes: Ponto de fuga (notas editoriais), Brandestaque (espaço de realce para uma marca, com ênfase para os seus criadores, atributos, posicionamento, representação e oferta no mercado), MicroQues (entrevistas a designers, representantes de marcas, donos de lojas, curadores, críticos, gestores, industriais e estilistas; modelo sucinto e adequado à rede), EDesign (nota sobre casos interessantes ao nível do ensino e investigação projectuais do design), Design do design (Selecção crítica e comentada de sites e publicações sobre design), Breves (rubrica regular de informação), OpCron (espaço privilegiado de opinião e crónica), Ergomanias (relações corpo-design), Criadores (destaque de peças de design no Header do site) e Doodleday (secção projectual destinada à edição de desenhos).
UP (Revista da TAP)/ ESAD (Escola Superior de Design de Matosinhos)/ IADE- Creative University, Lisboa/ Alquimia da Cor (Escola De Design do Porto)/ UAL (Universidade Autónoma de Lisboa)/ SAAL (Alfena, Porto)/ Herdade da Matinha/ EXPONOR-CERANOR/Parli/ Viplanos/ChiadoDesign/EscritaCriativaOnline.com/ PNETliteratura
Segunda-feira, 29 de Março de 2010
Os alarmes do país literário
No dia em que Maria Helena da Rocha Pereira foi anunciada como a – aliás justíssima – vencedora do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, a jurada Teresa Martins Marques enalteceu a carreira da ensaísta, sublinhando a importância e a pertinência do prémio, devido, entre outros factores, ao facto de vivermos “…num tempo em que somos marcados pela literatura light”.
Terça-feira, 23 de Março de 2010
Guia de Conceitos Básicos de Nuno Júdice
A leitura desta paisagem acabou por revelar-se chã e cativante: uma linguagem do dia-a-dia que não perde nunca o resplendor do luar. Uma leitura criada pelo ritmo escorreito que procura a sua matéria própria. Uma leitura que se deixa povoar por figuras luminosas: Júpiter, Vénus, várias infantas, Orestes e até o “rosto escondido pela trepadeira/ que (…) ocupa a imaginação”. Uma leitura que sugere e deriva tal como avança: com vagar e com o olhar procurando sempre outro e outro olhar: “Os que vivem devagar desenham/os seus passos no chão para onde não olham”. Um olhar feito da matéria que o fio dos poemas procurará.
Percorrer a paisagem de um livro de poesia – que se lê pela primeira vez – é pressentir a silenciosa redenção que o terá originado. Porque a poesia nasce desse devir que não tem nome, nem forma, nem desígnio. Por vezes, basta o súbito fulgor de uma imagem para acender a razão de ser de toda essa paisagem. É o que acontece, como prefiguração, no final do poema “Ressaca”, quando há ímpetos e sombras que voam “nas paredes, num sopro de gestos, formando uma procissão/ que procura o altar e um desejo sonâmbulo”.
Guia de conceitos básicos de Nuno Júdice fecha com o poema homónimo. Trata-se de uma ininterrupta injunção que descola com ironia e que ancora com cartografia certa: “Use o poema para elaborar uma estratégia/ de sobrevivência no mapa da sua vida”. Trata-se sobretudo de um remate certeiro ou de uma verdadeira cartilha “para que poema/ e vida coincidam”. Citemos duas passagens que, nesse “Guia”, intertextualizam fragmentos de linguagem ‘tech’: “Recorra/ aos dispositivos de imagem, sabendo que/ ela lhe dará um acesso rápido aos recursos/ da alma” e “Se precisar de/ substituir os sentimentos cansados/ da existência, reinstale o desejo/ no painel do corpo”.
Os termos deslizam com súbita intermitência: “dispositivos”, “painel”, “instalar”, programar ou tão-só reiniciar. De facto, a leitura que antes sugeria e derivava, no seu luar de língua viva e chã, acaba por despertar com um brilho que se anuncia paródico, reatando, apesar de tudo, as silhuetas do “desejo sonâmbulo”. E termina assim este interessantíssimo “Guia”, aclarando definitivamente as suas margens: “Escolha uma superfície/ plana: e deslize o seu olhar pelo/ estuário da estrofe” (…) “Verifique/ (…) se todas as opções estão disponíveis: e/ descubra a data e a hora em que o sonho/ se converte em realidade, para que poema/ e vida coincidam.”.
A história de uma conversão, numa palavra. Não necessariamente do sonho para a vida, porque o poema ao dizer “sonho” e ao dizer “vida”, está-nos sobretudo a dar conta da matéria da (sua) poiesis, ou seja: de uma linguagem que se reinventa a si mesma à imagem da (imperscrutável) matéria do olhar.
Terça-feira, 16 de Março de 2010
Mafra pós-Saramago
No passado fim-de-semana, nem Putin, nem Saramago, nem a sua diva voadora por lá se encontraram. Mas podiam ter ungido com as suas bênçãos o último remoque de Santana Lopes. De facto, quem não se sente não é filho de boa gente e Santana, ainda a tentar libertar-se do despedimento do primeiro de Dezembro de 2004, não podia deixar de fazer o que fez: como foi atacadíssimo pelos seus pares estando em S. Bento, jamais idêntico precipício se poderia vir a repetir.
Daí que, apesar das opiniões veementemente contrárias dos três actuais candidatos à liderança (foi o que expressaram às televisões após a conclusão do conclave), a reunião de Mafra tenha aprovado a inacreditável resolução da "rolha".
Ninguém poderá proclamar em vão o santo nome do PSD e do seu líder máximo 60 dias antes do voto. Agora imagine-se que o impropério acontece no sexagésimo primeiro dia? A questão e o debate possível em torno dela fazem lembrar o referendo do aborto (é "crime" ao fim de que... semana?).
Numerar os dias e as semanas para incendiar os ânimos e lançar coimas como se lançam dardos é sinal de delírio. No mínimo! Mesmo sem jogadores chineses na formação, Mafra cumpriu (copiosamente) esse fulgor único. Assinale-se a proeza.
Sábado, 13 de Março de 2010
Quando o risível procura bigode
A discussão em torno do desporto, em Portugal, é matéria que mereceria mais estudos. O futebol, por exemplo, foi criando ao longo dos anos um verdadeiro 'establishment' (paralelo ao da classe política) que se manifesta com grande impacto nos media, para além de desenvolver alteridades e rituais necessários à sua conservação e de municiar um abundante mercado (de que nunca se separa bem o que é invisível do que o não é).
O peso deste 'establishment' é hoje muito maior do que era há um quarto de século e é muitíssimo maior do que era no 'tempo da outra senhora'. A tendência é claramente crescente. Repita-se: não do espectáculo, do peso das camisolas ou dos afectos espontâneos pelo génio da bola, mas do 'establishment': essa amálgama de dirigentes, estruturas e vozes cruzadas que contracenam com um mercado (aparentemente) sem fundo e com uma aparição omnipresente nos media.
O modo como estes factos se revelam noutros países europeus não será muito diferente, mas creio que há especificidades portuguesas. Uma delas é o número de jornais e de programas de televisão por habitante (a contrastar com o esvaziamento da larga maioria dos estádios); outra é a proporção com que as abordagens do futebol - à imagem da Grécia, de alguma Espanha ou Itália - se propagam no espaço público. Haverá neste gáudio que as pessoas adoram (bem sentadinhas nos seus sofás) alguma psicanálise que 'serve' de modo profícuo a filosofia pátria.
Não gosto de dar lições de 'dever ser' ou de "ética", como agora se diz nas "Comissões" de redundância parlamentar, e não sou admirador das doutrinas políticas que o fazem. As pessoas devem ter o que gostam, desde que não ameacem as liberdades de terceiros. E por vezes chega a ser delicioso auscultar os filósofos que se entretêm com a filosofia do futebol, de que Rui Santos é Wittgenstein e de que Rui Moreira é uma espécie de pragmático William James.
De todos os programas de televisão que se dedicam ao "fenómeno do futebol" há um que se destaca em meu entender: o "Mais Futebol" que vai para o ar no serão das sextas-feiras na TVI24. É o único que carbura o tema com humor - desde logo pela apresentação cativante de Cláudia Lopes -, é o único que não faz esquematicamente coincidir o painel com partidos/clubes e é ainda o único que tem rubricas de sadia dessacralização da coisa futebolística (a "Bola na barra", por exemplo). Além do mais, foi apenas neste programa que ouvi argumentos de compreensão do que se passou no recente Portugal-China, realizado em Coimbra.
Este jogo de treino da selecção teve ingredientes novos a que o 'establishment' reagiu do mesmo modo que os políticos reagem a contratempos terríveis (estilo... "Afinal o PM não falou verdade no parlamento!"). O facto de parte razoável da assistência ter proposto uma interacção menos estadista/clubista com o desenrolar do jogo feriu realmente grande parte do 'establishment' (os dirigentes lamentaram-se ao nível de uma quase 'traição nacional'). No fundo, os cartazes pediam uma selecção com bigode e os Olés celebravam, ao modo dos dadaístas, uma castiça China que atrapalhava os heróis nacionais (ainda sem bigode). Este modo irónico e sadio de ver futebol e de apelar à diversão com o futebol constituiu um sintoma novo.
A Coimbra que filtrou, em 1969, o Maio de 68 parecia ter voltado a acordar da sua letargia. Não para o velho Tomás, mas para a nova carcaça da nossa vida pública: o 'establishment' do futebol. É bom que haja um "Mais Futebol" e é bom que haja a Coimbra que soube tirar partido do que, também, deve ser a performance do futebol!
Quinta-feira, 11 de Março de 2010
Mau hálito político ou má sina?
O nosso 09/11 foi prenunciado pelo pântano de Guterres que, depois, mergulharia nas águas paradas do Caso Casa Pia. Era a primeira vez que o país se via (massificada e mediaticamente) ao espelho, como se o precipício se abrisse e concordasse em género e número com a governação. Um apocalipse lento. Em 2004, Sampaio cortou a direito e, fora da formatação dos media clássicos, os blogues desenhavam uma nova contracorrente da afirmação pública. Provavelmente, foi esse o esteio mais sadio e livre da década.
A segunda metade destes últimos dez anos trouxe até nós o hábito socrático. A "História" tornou-se repentinamente num dia-a-dia conhecido, a que não faltou a maioria absoluta de 2005 - em muito esculpida pela deserção de Durão e pelo animatógrafo de Santana - e a psicanálise tecnológica. Mas o "Subprime" e a crise dos mercados acabariam por fragilizar e fazer ruir o trabalho de casa desse governo (em 2007, o défice descera realmente abaixo dos 3%). Os muitos falsetes e sombras da personalidade de Sócrates (licenciatura, projectos, Freeport, etc.) contracenaram, de repente, com casos como os do BCP e BPN. À esquerda e à direita, passe a ligeireza do esquematismo, o dedo acusador cruzou direcções e sulcou destinos pouco saudáveis. Era a entrada em cena da fase em que estamos a viver e que é caracterizada pelo profundo "mau hálito político".
E assim chegámos, no ano passado, a um novo parlamento a clamar por equilíbrio num país que o havia, entretanto, perdido. De repente, aquilo que o caso Casa Pia significara para o pasmo dos portugueses passou a ser revestido pelo tom judicioso (e de alguma vingança mútua) das comissões de inquérito do nosso Parlamento. Ética, TVI e outros tópicos congregam hoje grande parte do que se diz e do que se fala. Tal como aconteceu em 2003-2004, regressámos agora às águas paradas dos novos casos Casa Pia e às governações liofilizadas que folgam - fazem questão disso! - em acompanhá-las. Será esta a nossa sina?
Terça-feira, 9 de Março de 2010
Benfica: a marca, o mito e o mais
Sem que necessite de saudosismos ou de um ininterrupto apelo da história, a identidade do Benfica reactualiza-se no dia-a-dia de modo perene, mesmo durante os ciclos desportivamente menos rentáveis. Ao fim e ao cabo, o Benfica corresponde - como dirão os teóricos da publicidade e do "branding" - a um caso singularíssimo de marca, edificado entre o imaginário comunitário do "core" e a autenticidade do património. Um caso em que a marca e o mito confluem.
Creio que a especificidade deste factor dita um outro que acaba por marcar, de modo indelével, o desporto entre nós: em Portugal, existe o Benfica de um lado e, do outro lado, todos os outros clubes. Mesmo os outros grandes clubes. Esta é uma realidade muitas vezes metaforizada (ou parodiada) pela famosa galáxia dos "seis milhões". Mas as metáforas, até no campo dos provérbios e dos ditados populares, falam sempre verdade. Daí as fricções, os afectos, as emoções superlativas, as euforias e os muitos contrapontos que a marca e o mito Benfica inelutavelmente criam. No seu território e nos alheios.
Vejamos: o Sporting é um grande clube e o Porto um clube grande. O segundo mais circunscrito do que o primeiro. Sociologicamente, o SCP tem uma índole bem mais nacional do que o FCP, apesar de, nas últimas décadas, os sucessos desportivos terem sido mais azuis do que verdes.
Mas o que diferencia estes dois clubes do Benfica é que o Benfica, sendo um clube, não é, de facto, apenas um clube. Aliás o SCP e o FCP são - e foram sempre - os primeiros a confirmarem esse facto, mesmo durante os tempos em que o devir desportivo do Benfica não foi o melhor. E isso porque as identidades do SCP e do FCP, sobretudo deste último, se têm construído, ao longo dos anos, como referência ao Benfica. Uma referência essencialmente antinómica.
Pinto da Costa inventou, desde os anos setenta, esse registo que passa pela afirmação da identidade através de um discurso "Contra". Não uma afirmação genuína e positiva, mas antes a enunciação de um processo de crescimento feito a pensar no Benfica e nele obsessivamente referenciado. Também o SCP não tem conseguido, ao longo dos anos, dissociar-se do chamado princípio dos vasos comunicantes da Segunda Circular. Daí que as crises verde e brancas contenham sempre algo que poderíamos designar por 'imagem contrastante'. O discurso do cirurgião Eduardo Barroso é das melhores psicanálises a este respeito.
FCP e SCP sempre enfatizaram e valorizaram, a seu modo, o Benfica. E assim o fizeram e fazem, porque a realidade a tal os condiciona. Um pouco como a luta centenária da Pepsi contra a Coca.
O Benfica tem com o país um pacto profundo. Uma panóplia vastíssima de reconhecimento, uma dimensão - rara entre nós até pela escala - que une o pragmatismo da marca à transparência do mito. Para o melhor e para o pior assim é. Benfiquistas e não benfiquistas partilham esta espécie de "coração independente" a que apenas os artistas e os poetas - eventualmente - saberão dar forma.
Segunda-feira, 8 de Março de 2010
Marcelo conventual
Filomena Mónica tem toda a razão nesta 'Questão Marcelo'. Com efeito, mesmo para quem vive afastado da televisão, o "professor" é uma verdadeira ilha nas condicionadas e previsíveis verves da nossa praça.
Marcelo conhece a capoeira toda e, ainda que não seja totalmente livre, sabe que palavras suas a mais ou a menos não lhe causarão aquelas feridas que são próprias de um pequeno mundo onde tudo e todos se conhecem.
Há quem diga que o Marcelo segrega maldade com tons amenos de baunilha. Há quem diga que Marcelo concatena ideias e imagens com mais chama do que um processador Fujitsu.
E o que dizer da intensidade das suas leituras e das associações rápidas de nomes, atributos e notas? ~
as eleições para a liderança do PSD, há, neste momento, uma evidência geral: todos os três candidatos parecem integrar o argumento de O Homem Invisível. Não o original de H. G. Wells, mas um outro que possibilita que o público consiga ver, através da invisibilidade de Aguiar Branco, Passos Coelho e Rangel, o único protagonista real na eleição: Marcelo Rebelo de Sousa.
Se Marcelo avança ou não avança, ninguém sabe.
Ao longo desta semana, ir-se-á desvendar o clímax do novo argumento do O Homem Invisível. Jardim e Menezes - olha quem! - já anteviram uma parte significativa das filmagens. Mas a rodagem de um filme é sempre um caminho tortuoso e cheio de potenciais contratempos.
Marcelo é um doce. Um típico doce português, algo conventual. Há anos e anos que respira nas nossas casas. Há anos e anos que sopra a lenta fogueira da nossa labareda política. Há anos e anos que todos lhe auguram o altar maior do poder.
Mas ninguém se esquece que Marcelo conta já duas derrotas políticas de fundo no seu CV: já claudicou como líder do PSD e já claudicou como candidato à mais importante autarquia do país. A penumbra convive com a luz, mas também convive - e de que modo - com a sombra.
Sábado, 6 de Março de 2010
Sacralização do livro
O clímax ressoou nas quase mitológicas palavras de Gabriela Canavilhas, quando referiu que a "importância do livro ultrapassa a noção de mercadoria". É um facto que herdamos culturalmente uma visão sagrada do livro. A ministra terá, pois, toda a razão. Confessemo-lo.
Em Ezequiel (3,1), o profeta ingere um rolo escrito que é imune aos sentidos e à impureza dos humanos e recebe depois ordens para comunicar o sentido dessas letras junto à "Casa de Israel" (3,4). O Apocalipse canónico do Novo Testamento apresenta-se como o duplo terreno de um Livro celeste, recebido por João através de um anjo intermediário (Ap 5,1). Na variante islâmica, a revelação é traduzida pelo "Tanzíl" (5,52) que remete para a ideia de 'descida do céu' do Livro eterno e único (a raiz do verbo "descer" é precisamente /NZL/).
Enfim, uma mercadoria não tem alma mas o livro, esse, seguramente tem. Aliás, basta ir ao grande banco do estado para aferirmos dos resultados de uma recente campanha de recuperação de livros usados. Eles ali estão a dormir nos seus escaparates, entregues ao desinteresse e à impaciência dos clientes e aforradores, muitas vezes carregadinhos e pó e de irremediável solidão. Não era melhor fazer aquilo por que, hoje em dia, mais se clama que é... a reciclagem? Sim, ser-se íntimo das causas do ambiente. E ser-se, em primeiro lugar, racional.
Num mercado em que a produção de livro é a todos os títulos irracional, quase um livro por hora, o que se poderia esperar? Que as empresas se endividassem com milhares de metros quadrados de armazéns apenas por causa de Ezequiel, João ou Maomé? Creio que não. Quem tem uma empresa sabe o que significa a palavra despesa. O que acontece bem menos nos corredores do estado e sobretudo na arejada brisa das mentes que herdam, desde finais de setecentos, o impoluto selo de "intelectual".
As pessoas lêem se lhes apetece, quando precisam e se gostam. A liberdade vive por cima e nos antípodas das cinzas das inquisições. De qualquer modo, o consumo de livros é, hoje em dia, desproporcionado face aos níveis de leitura. Ao mercado cabe resolver os desajustes e irracionalidades por si criados. De paternalismo e 'descidas do céu' - sem força da gravidade a animar a parada - está o inferno cheio.
Por LC |


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