Quem sai da autoestrada em Tournus e segue na direcção de Taizé, ao fim de alguns quilómetros encontra à sua direita Brancion, uma bela aldeia medieval no cimo de um monte.Queríamos passar alguns dias no hotel "Au Vieux Brancion" - e se lhe chamar hotel de charme peco por defeito. Instalado em casas medievais, servido por um casal já de certa idade que assegura o funcionamento do hotel e do restaurante: madame atende os clientes, monsieur está na cozinha e faz, tarte sim tarte não, uma tarte aux pommes deliciosa. "Tarte não" é quando se esquece dela no forno, e a oferece depois como spécialité du Sénégal. Diz isto com um sorriso milagroso: que nos faz fechar os olhos e o palato, e achar que até a mais requeimada é a melhor do mundo.
Como ia dizendo: queríamos passar uns dias em Brancion, mas não havia maneira de conseguir fazer a reserva. Fartei-me de deixar mensagens no telefone, tentei até os serviços de turismo e da autarquia, mas era como se todo aquele lugar tivesse deixado de existir.
Em desespero de causa, arranjámos um hotel em Cluny, e no domingo de Páscoa fomos averiguar o que se passava em Brancion. Surpresa: hotel e restaurante estavam abertos. Tudo como sempre, incluindo (e sobretudo) a tarde de maçã, pousada na mesa da entrada, ainda fumegante.Madame explicou-nos que tinham feito quatro meses de férias, e não se dera ao trabalho de ouvir as mensagens no telefone, porque eram milhentas. Informei-a logo que bastava ter ouvido a primeira, porque eram todas minhas. E sentámo-nos para almoçar.
O casal francês na mesa ao lado meteu conversa connosco. Contámos que vínhamos de Berlim de propósito para comer aquela tarte - o que era ligeiramente exagerado, mas, se nos limitássemos a falar do tempo, a conversa acabava num instante - e eles concordaram que sim, que era motivo mais que suficiente para fazer 1000 km.
Daí a pouco entrou uma grande família para a mesa reservada a um canto. O último deixou a porta aberta, o que me fez pensar coisas feias sobre os franceses, mas não digo o quê, que era o que me faltava permitir preconceitos neste blogue.
O casal francês ao nosso lado revelou-nos, por meias palavras e olhares carregados de subentendidos, que era a família do François Miterrand. Olhámos muito discretamente todos ao mesmo tempo, e sim, era mesmo a Danielle Miterrand acompanhada por algumas gerações subsequentes.
Ora bem: tenho uma memória visual desgraçada. É mesmo um prodígio. Às vezes até parece que faço de propósito, mas podem crer que não é. De modo que a certa altura, quando vi entrar na sala um homem de idade avançada, disse aos outros "olhem, o cozinheiro!", e já me ia dirigir a ele para louvar a sua carne cada vez melhor de tão tenra, quando o Joachim me salvou in extremis da palermice do ano - era o filho do Miterrand.
O resto do almoço decorreu sem mais peripécias, quando chegámos à sobremesa calhou-nos a tarte africana, despedimo-nos com muita pena de monsieur e madame, que vão vender o hotel, o restaurante e a receita de tarte aux pommes, porque já têm mais de 70 anos e não têm paciência para aquilo, e fomos passear pela aldeia como gatos preguiçosos de sol.



(Isto sim, é currículo: "igreja edificada pelos sires deste nome aparentados com os condes da Flandres e os imperadores do Oriente")










