iLL FARES THE LAND, TO HASTENING ILLS A PREY, WHERE WEALTH ACCUMULATES, AND MEN DECAY

Oliver Goldsmith

Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Não há plano B?

Há plano B, C, D, E... o alfabeto todo. Mas só o plano A convém a quem convém. Os manifestantes gregos sabem que assim é - e se o alfabeto latino não chegar, eles têm outro.

Desgostoso e levemente enojado

Ando a escrever este texto na minha cabeça há muitas semanas. Um texto que se vai escrevendo na cabeça melhora até certo ponto; a partir desse ponto, piora.

Mas isso não me preocupou, porque não sabia se o viria a publicar; nem estava certo, sequer, de alguma vez voltar a escrever neste blogue ou na caixa de comentários de qualquer outro. De repente pareceu-me que tinha deixado de valer a pena. Não se tratava já de ser contra certas alternativas e a favor de outras - o que permite, e até exige, que se intervenha - mas de algo muito mais profundo: um desgosto generalizado com o tempo em que vivo.

Quem assim sente tende a tornar-se num reaccionário; mas para tal é preciso encontrar no passado um tempo melhor que o presente, e a mim parecem-me todos ainda piores. Não houve Idade de Ouro; nem é previsível que alguma vez a haja.

Resta a decência. Pervasiva no melhor dos casos, isolada em pequenas ilhas no pior. Decência, ao menos.

Ligeiramente indecente, além de completamente equivocado, foi o gáudio com que grande parte da blogosfera docente recebeu os resultados eleitorais. Muitos colegas nossos deslumbraram-se tanto com a derrota de José Sócrates que ficaram cegos à vitória de Passos Coelho. Temos hoje um governo com o mesmo universo mental do anterior. Um universo mental que não lhe permite sequer conceber um sistema de avaliação que não radique no neotaylorismo em vigor - na educação, mas também na saúde, na justiça, na segurança e sobretudo, com efeitos particularmente perniciosos, no sector privado. Um governo que fala sem pudor, tal como o precedente, em 'recursos humanos'; e que não conhece nem pode imaginar qualquer forma de organização social que não tenha no centro, sob mais ou menos camadas de verniz politicamente correcto, a escravatura pura e simples. Um governo que fala de mudança mas teme a alternativa. Um governo europeu, enfim; e não é preciso dizer mais.

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

Siglas da austeridade

CLA: Código Laboral Assassino
CTS: Code Du Travail Scélérat
MLC: Murderous Labour Code
MAG: Mörderisches Arbeitsgesetzbuch

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Dar os bons-dias

Por vezes tenho saudades do grützi. Esta palavra condensa, em alemão suíço, o que em alemão padrão seria toda uma frase: Ich grüsse Sie, eu cumprimento-o. Grützi serve tanto para quando entramos numa loja como para quando nos cruzamos com um desconhecido na rua ou no circuito de manutenção. Dizem as más línguas que o propósito do grützi não é tanto cumprimentar como averiguar, através do sotaque, de que cantão é originária a outra pessoa - ou até de que parte do cantão, já que o Schwytzertütch tem tantas variantes quantas autarquias há na parte germanófona do país.

Nós, latinos, damos os bons dias logo pela manhã: bonjour, buongiorno, bom dia. É uma saudação bonita: mais bonita que a dos suíços e mais generosa que a dos ingleses e alemães, que só desejam bom dia uns aos outros quando o dia já vai a meio. Ou melhor, no caso português: seria uma saudação bonita e generosa se a usássemos.

De modo que, quando comecei a usar regularmente o circuito de manutenção do Parque Maia, fiz questão de dar um sonoro bom-dia a toda a gente com quem me cruzasse. 

A primeira coisa que descobri foi que dizer bom dia a um desconhecido e ouvir bom dia em troca ajuda realmente a que o dia seja melhor. Ou pelo menos a que comece melhor, o que já não é mau. A segunda foi que as respostas se podem classificar nuns poucos tipos. Há quem amarre a cara e não responda, talvez por estar decidido a ter o pior dia possível. Há pessoas assim. Há quem, por surpresa ou acanhamento, enrole uma resposta indistinta. E há quem responda com um bom-dia igualmente sonoro, por vezes com o bónus dum sorriso. Aí, o meu dia melhora.

Só não encontrei ainda quem me desse os bons-dias por iniciativa própria. Ainda não perdi a esperança. E lembro-me dos estudos que indicam o povo português como um dos mais tristonhos e macambúzios da OCDE. Pudera: sem bons dias não pode haver bons anos, e sem bons anos não pode haver vidas felizes.

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

As Minhas Pinturas: work in progress

Ao fim de uns meses de trabalho muito intermitente, ganhei balanço. Mas ainda falta uma semana ou duas para o retrato da Lena ficar pronto.

E se definíssemos como objectivo construir o melhor sistema de ensino do mundo?

Começo a estar um bocado farto de as médias serem termo de comparação, tanto no discurso dos politicos. Os resultados dos alunos portugueses aproximam-se da média da OCDE? Triunfo! Os salários de (alguns) professores ultrapassam a média da OCDE? Escândalo!

Ninguém vai aos jogos olímpicos para ficar nos lugares intermédios. Todos querem ficar pelo menos no pódio, e se possível no primeiro lugar. A isto, chama-se ambição. Mas na linguagem dos políticos e dos tecnocratas a  «ambição» é chegar à média  - quando não, como é o caso nas políticas austeritaristas em vigor, de mudar para pior. Em politiquês técnico, o empobrecimento de um povo é um objectivo «ambicioso».

Suponhamos que visávamos, em vez disto, o topo. O objectivo não seria um sistema de ensino quase tão bom, ou mesmo tão bom, como o da Finlândia, da Coreia do Sul ou de Singapura: seria um sistema de ensino melhor do que estes.

Por onde começar? Desde logo pela inventariação dos meios: temos uma classe docente que até há poucos anos esteve motivada para a transmissão do conhecimento entre a geração anterior e a próxima; e em que alguns resistentes ainda o estão. Temos um «parque escolar» com edifícios de altíssima qualidade arquitectónica mas conforto zero, e outros confortáveis mas de qualidade baixíssima em termos de arquitectura, engenharia e construção. Uma enorme e caríssima burocracia educativa a nível central e regional. Um sistema de administração política na tradição napoleónica - não a melhor das tradições, mas que tem funcionado razoavelmente na Europa do Sul.

O que nos falta? Para começar - e esta carência pode vir a revelar-se um obstáculo intransponível - falta-nos uma sociedade que valorize as letras, as artes e as ciências; que procure preservar o conhecimento antigo e criar o novo, prestigiando por extensão os transmissores do primeiro e os autores do segundo. Faltam-nos ainda um substrato de várias gerações letradas; a cultura corporativa da aprendizagem, ofício e mestria que ainda hoje informa os sistemas de ensino da Europa Central; hábitos de disciplina e auto-disciplina; a noção da gratificação diferida; e a vontade política de afirmar o País por via da competição cultural.

No entanto, se compararmos o sistema de ensino finlandês com o coreano, verificaremos que partem de filosofias e radicam em culturas que nada têm de comum entre si. Na Finlândia, é ponto assente que há vida para além da escola - alunos e professores têm férias longas e a semana escolar tem poucas horas; na Ásia os alunos vivem na ou para a escola. Na Ásia promove-se a competição, na Finlândia desencoraja-se. Na Ásia, o que conta é ser o melhor; na Finlândia conta o ser hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje.

E desta diferença se deduz a primeira condição para que o sistema de ensino português possa vir a ser o melhor do mundo: a consciência de que não somos nem finlandeses, nem coreanos; e que o nossos sistema terá que radicar na nossa cultura, na nossa História, nas nossas circunstâncias e na nossa idiossincrasia. Até porque a cópia quase nunca é melhor que o original. Da segunda condição - a valorização dos professores - tratarei noutro artigo.

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Em quem votar?

Votar PS é votar na troika. Votar PSD é votar na troika. Votar CDS é votar na troika. Votar branco ou nulo é votar na troika. Abster-se é votar na troika.

Resta votar na CDU ou no Bloco. Para muitos, este é um voto por defeito, posto na urna com a mão no nariz. Para mim, não.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Declaração de voto

Este resgate?
COM O MEU VOTO NÃO!
Esta austeridade?
COM O MEU VOTO NÃO!
Tributo aos bancos alemães?
COM O MEU VOTO NÃO!
Mais desigualdade?
COM O MEU VOTO NÃO!
Salários mais baixos?
COM O MEU VOTO NÃO!
Corruptos impunes?
COM O MEU VOTO NÃO! 
Vidas mais inseguras? 
COM O MEU VOTO NÃO!
Recessão económica?
COM O MEU VOTO NÃO!
Arco governativo?
COM O MEU VOTO NÃO!
Bloco central?
COM O MEU VOTO NÃO!
Fascismo de empresa?
COM O MEU VOTO NÃO!
Capitalismo de compinchas?
COM O MEU VOTO NÃO!
Capitalismo de choque?
COM O MEU VOTO NÃO!
Desemprego planeado?
COM O MEU VOTO NÃO!
Pobreza planeada?
COM O MEU VOTO NÃO!
Cedência a ultimatos?
COM O MEU VOTO NÃO!
Derrota sem luta?
COM O MEU VOTO NÃO!

Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Doutrinas com cem anos para a política monetária europeia

 A tradução segue-se quando me for possível. A não ser que entretanto apareça por aqui algum economista que saiba alemão e me queira ajudar - coisa que eu muito agradeceria.

Hundert Jahre alte Lehren für Europas Geldpolitik

Erstellt am von hkaspar


Ein Gastbeitrag von Henry Kaspar 

1998 publizierte Economic Policy – eine prominente Fachzeitschrift – eine Serie von Artikeln, die sich mit der damals unmittelbar bevorstehenden Einführung des Euro beschäftigten. Der vielleicht bemerkenswerteste Aufsatz war von Marc Flandreau, Jacques Le Chacheux und Frederic Zumer „Stability without a pact? Lessons from the European gold standard 1880-1914″. Die Autoren zogen Parallelen zwischen dem Euro und dem klassischen Goldstandard des späten 19. und frühen 20. Jahrhunderts, als viele Länder in- und außerhalb Europas ihre Währungen an Gold koppelten, und damit einer de-facto Währungsunion angehörten (P.S.: Flandreau ist ein weltweit führender Wirtschaftshistoriker).


13 Jahre später liest sich ihre Zusammenfassung wie eine Prophezeihung, und es ist wert sie vollständig zu zitieren:
The gold standard was a system of fixed exchange rates that offered little opportunity for carrying out monetary policies, short of suspending gold convertibility. Trade integration and capital mobility were very high. It is worthwhile asking whether there are useful lessons to draw for EMU from European experience during that period. One clear lesson is that debts matter. Another basic finding is that the stability of the European gold standard depended on the underlying price trend. Deflation prior to 1895 resulted in rising public debt burdens, which forced some countries to leave the system. Once gold was discovered and deflation gave way to inflation, real interest service fell, debts grew more slowly and a high degree of convergence allowed most countries to return to gold. For EMU, this result implies that stability will hinge on the ECB’s policy not being too restrictive. Other lessons concern the fragility of institutions in the face of deep public finance difficulties, the risks for the single market of leaving out countries that have not fully converged, and the existence of a virtuous cycle including low real interest rates, fast growth and debt decumulation.
Der klassische Goldstandard lässt sich grob in zwei Phasen unterteilen: eine moderat deflationäre Phase von 1873 (als Deutschland dem Goldstandard beitrat) bis ca. 1895, und eine moderat inflationäre Phase von 1895 bis zum Ausbruch des ersten Weltkriegs. In der deflationären Phase stagnierte die weltweite Goldproduktion, d.h. die Geldmenge wuchs langsamer als das Sozialprodukt, und in Deutschland z.B. sanken die Preise im Durchschnitt um 1.7 Prozent pro Jahr. Die inflationäre Phase folgte auf Goldfunde in Südafrika und Australien, und kam mit durchschnittlicher Inflation von rund 2.5 Prozent pro Jahr (die Inflationsziffern sind zitiert nach Cooper).

Hier ist kein Platz die Geschichte des Goldstandards nachzuerzählen, aber sicher ist dass die moderat inflationären Jahre die erfolgreicheren waren. Die Volkswirtschaften wuchsen schneller und genossen größere soziale Stabilität, mit rascheren Lohnsteigerungen und geringeren Schwierigkeiten traditionell verschuldeter Sektoren wie der (damals schon politisch gut organisierten) Landwirtschaft.


Aber auch das Währungsarrangement selbst – der Goldstandard – war stabiler in der inflationären Phase ab 1895. Zuvor meisterte nur ein harter Kern—darunter Deutschland, Frankreich, die Niederlande, Belgien, Skandinavien, aber auch die USA oder Großbritannien—die makroökonomische Disziplin, welche der Goldstandard in einem deflatorischen Umfeld erzwang: d.h. Stagnation der Löhne und strikte fiskalische Haushaltsführung. Andere Länder, darunter Italien, Spanien, Portugal und Griechenland (P.S.: kein Witz. Irland war damals übrigens noch kein souveräner Staat) hielten die Goldbindung nicht durch – u.a. weil Deflation ihre Schulden aufwertete, und die prozyklische Fiskalanpassung, welche dies erzwang, politisch nicht durchzuhalten war. In den Worten von Flandreau et al.:
Deflation forced a difficult choice between deteriorating borrowing conditions and painful adjustments. Countries starting with relatively low debt levels could compromise, letting their debt drift slightly and making only partial fiscal adjustments. But for those that already had fairly high debt levels, such as the southern European countries, the adjustment cost required for continued participation in the gold standard could be very large, especially since the market mechanism implied that a sustained deterioration in public debts meant accelerating premia for new loans. The opportunity cost of being part of the gold standard was becoming very substantial, increasing the pressure to switch to seignorage finance, and go on inconvertible paper to escape gold deflation.

Mit der Ankunft moderater Inflation änderte sich das. Italien z.B. trat zwar 1891 notgedrungen aus dem Goldstandard aus, aber schon 1902 wieder ein. Und am Vorabend des ersten Weltkriegs war selbst das ökonomisch rückständige Russland auf Gold.Was folgt aus alledem für heute? Die EZB kann die Lösung der Euro-Krise leichter oder schwieriger machen, je nachdem wie akkommodierend oder restriktiv ihre Geldpolitik ist. Nun bin ich sicher nicht dafür das Inflationsmandat der EZB aufzukündigen (und z.B. durch so etwas wie NGDP-Targeting zu ersetzen, wie mein Gastgeber Kantoos). Und ganz generell bin ich EZB-Fan: in meinen Augen war ihr Kurs vor der Krise im Wesentlichen richtig, im Gegensatz zum viel zu losen Kurs der Fed. Auch in der Krise schlägt sich die EZB tapfer, in einem schwierigen und zum Teil dysfunktionalen Umfeld.

Aber: bei durchschnittlicher Eurozonen-Inflation von 2.5 Prozent (dem Inflationsziel der Bank of England entsprechend) würden Lohn-Nullrunden in Griechenland, Irland und Portugal eine fast doppelt so schnelle reale Abwertung erlauben wie bei 1.5 Prozent—d.h. diese Länder könnten ihre Wettbewerbsfähigkeit doppelt so schnell wiederherstellen. Außerdem würde etwas höhere Inflation die Dynamik der Altschulden verbessern. Ganz generell mag ein ambitioniertes Inflationsziel angemessen sein für eine homogene Volkswirtschaft wie (Voreinheits-) Deutschland, aber nicht für eine heterogene Währungsunion, in der immer wieder Länder interne (sprich: Lohn-) Abwertungsprozesse bewältigen werden müssen. Auch Deutschlands interne Abwertung in den frühen und mittleren 2000er Jahren wäre weniger schmerzhaft gewesen mit ein wenig mehr Inflation.


Ferner sollte die EZB auf steigende Rohstoffpreise allein nicht mit Zinserhöhungen reagieren. Der Rohstoff-Preisschock ist vor allem das Ergebnis starken Wachstums rohstoffintensiv produzierender Schwellenländer. D.h. er ist importiert und hat nichts mit Lohn- und Preissetzungsverhalten innerhalb der Euro-Zone zu tun. Wer diesen Preisanstieg importierter Güter ausgleichen will indem er heimisch erzeugte Preise drückt, der muss das durchschnittliche Lohnwachstum der Eurozone auf null oder gar in den negativen Bereich drücken. Iren oder Portugiesen müssten dann nominal massive Lohneinbußen verkraften, um ihre Wettbewerbsfähigkeit wiederherzustellen. Keine Gewerkschaft der Welt macht so etwas freiwillig mit, d.h. die Lohnkürzungen wären wohl nur erreichbar über den Umweg von Massenarbeitslosigkeit. Zugleich ist Lohndeflation völlig unnötig: solange Löhne und Kernpreise im Durchschnitt gleichmäßig und moderat steigen sind die Preiserwartungen verankert. Nichts anderes ist das Ziel von Inflation-Targeting (wie auch jeder anderen regelgebundenen Geldpolitik).

Das Minimum: solange die Eurozonen Krise andauert sollte die EZB im Zweifelsfall einen lockereren, nicht restriktiveren Kurs fahren. „Im Zweifelsfall“ bedeutet „solange sich kein merklicher Anstieg der Kerninflation abzeichnet“. Andernfalls wäre ein Scheitern des Euro zumindest teilweise selbstverschuldet.

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

O medo de ouvir dizer não

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

Alexandre O'Neill





Os poderosos têm medo. Porque têm mais a perder, diz uma amiga minha, sem dúvida com razão; mas as raízes do seu medo são certamente muito mais diversas do que isto, ao ponto talvez de ninguém as conhecer todas.

Do medo em si, podemos aperceber-nos com maior ou menor facilidade. Por mim, tive esta percepção já perto da meia-idade, e lamento não a ter tido mais novo. De repente, perante alguém que tinha poder sobre mim, apercebi-me: este tipo está com medo! Desde então, desde que aprendi a reconhecer o cheiro do medo, a experiência foi-se repetindo amiúde: «eles» têm medo de nós. Medo de quê, não sei bem. Acho que têm medo, sobretudo, de não ser obedecidos. De ouvir dizer «não». Porque sabem que contra o «não» não têm defesa.

O medo é a emoção base dos poderosos. É o substrato sobre o qual constroem todas as outras emoções de que são capazes. E sobre o qual constroem as suas virtudes, mesmo a coragem. (O medo vai ter heróis!), espanta-se O'Neill no poema de que tirei a epígrafe deste artigo. Previu bem, o O´Neill: o medo até já tem heróis, ébrios de suicídio e sacrifício.

De todos os poderosos, os que têm mais medo são os comissários políticos. Como entender doutro modo a reacção malcriada de Olli Rehn a uma declaração inócua de Cavaco Silva? A declaração inócua foi esta, se bem me lembro: «precisamos de encontrar soluções imaginativas». Inócua, porque tão geral que na prática não significa nada. Mas tanto bastou para irritar o Sr. Rehn, que pelos vistos não quer a imaginação no poder em Portugal, como já não está na Finlândia. Compreende-se: a «ajuda» que nos querem «dar» consiste em impor-nos a ortodoxia, e para mais uma ortodoxia que está por todo o mundo a cair aos bocados; e a imaginação tem uma lamentável tendência a desviar-se da «linha justa».

Os comissários políticos do neoliberalismo têm medo de nos ouvir o mesmo «não» que já ouviram à Islândia. Portugal não é a Islândia: é trinta vezes maior em população. O «não» deles provocou um terramoto; um «não» nosso provocaria um terramoto muito maior, e na sequência deste um tsunami que varreria toda a Europa, como varreu todo o mundo o que comemoramos hoje.

Este «não» não virá dos nossos políticos, que têm tanto medo do Sr Rehn como o Sr. Rehn tem de nós. A vir, virá da arraia miúda, como em 1385 e tantas vezes depois disso. Para o dizer, basta que votemos BE ou PC, nem que seja com a mão no nariz. Quem julgar que isto não serve de nada, olhe para o medo do Sr. Rehn, para a sua pressa em criar factos consumados antes que o eleitorado português vá a votos: ficará elucidado sobre a utilidade ou inutilidade deste voto.

Basta que não aceitemos o que «tem que ser»; que não nos verguemos ao «inevitável»; que saiamos à rua e defenestremos o Bloco Central - os Condes de Andeiro que infestam os palácios - antes que «matem o Meestre». Basta, em suma, que não sejamos ratos.

Sábado, 16 de Abril de 2011

Convergência nacional em torno do emprego e da coesão social

O que transcrevo a seguir é o comentário dum jovem leitor a este documento publicado pelo economista João Rodrigues no blogue LADRÕES DE BICICLETAS e assinado por várias personalidades idóneas. O documento é merecedor em si mesmo duma leitura atenta, mas para já limito-me a divulgar o comentário, corrigindo apenas uma gralha que o próprio assinala.

Fábio Rodrigues disse...
Sou um jovem preocupado com os resultados das politicas que nos querem impor a partir de instituições sem legitimidade democrática. Por tudo o que se tem visto e lido sobre os efeitos dessas mesmas politicas na Grécia e na Irlanda, o resultado não pode ser bom. Por isso, sendo neste momento "inevitável" que vamos receber ajuda externa, acho também absolutamente inevitável que o caminho para conseguirmos pagar essa ajuda (e para crescermos)tem que ser trilhado por nós! Estruturas organizadas em verdadeiros think tanks de soluções válidas (como esta) não podem ficar circunscritas à Internet e a uma primeira página de jornal. As suas ideias, estas ideias, têm que chegar ao debate de grande publico, que convenhamos não será pela mão PS/PSD que será feito. Como pretendem veicular estas propostas no sentido de interferir na consciência colectiva portuguesa, sendo que qualquer acção apartidária será inconsequente? Objectivamente, como acham possível que algumas destas (indispensáveis) "guidelines" possa ser tida como necessária pelo comum Português, em vez do roteiro para o abismo que o FMI/BCE/CE/PS/PSD nos propõem à partida?

Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Está decidido

Na semana que vem peço a aposentação. E a três de Julho, se tudo correr bem, embarco em Moscovo no Transiberiano para chegar a Pequim duas semanas depois. Vou ocupar sozinho uma cabina de duas camas, por isso ainda há lugar para alguém que queira ir comigo. Ah, e ando a tentar descobrir se poderei, por um qualquer bambúrrio de sorte, ir à ópera em Ulan-Bator.