2011/01/30

A Jaime Sabines




















no es nada de tu cuerpo
ni tu piel, ni tus ojos, ni tu vientre,
ni ese lugar secreto que los dos conocemos




- em silêncio, desenha-se
o voo das aves submersas
desinvaginando-se em asas
espalmadas, cerúleas,
extraordinariamente azuis.

é do fundo de ti
que me vem o mar aos pés.
é do teu porto
que zarpa um navio
que chegará jamais.
é nas tuas costas
que eu sou praia,
rocha, pedra, penedia
a boca cárdea de um peixe
cravada à vertical do dia.

vem de ti, de dentro de ti
este meu desejo aflito,
este coração onde ainda não moro
este querer morrer, lentamente,
nesse teu lugar secreto que ignoro.




Ilha Graciosa, Açores, Fuji Provia 400F

2011/01/24

Closed space

E o que é a noite?

É a escuridão que se aproxima lentíssima

- como se viesse de outra era geológica,

é a penumbra glauca a chegar sempre demasiadamente tarde para qualquer coisa, a comprimir-nos o peito numa ansiedade antecipada, os olhos perdidos no piscar intermitente de aviões que partem para qualquer sítio, na condição expressa desse qualquer lado ser mesmo qualquer lado que não aqui,

- nesta fila de automóveis,

de não ser aqui,

- neste aquário de meia dúzia de metros quadrados, de 2 por 3, em formato open space,

nesta cela de clausura onde ligamos o piloto automático, sem nunca olhar olhos nos olhos o nosso companheiro de viagem até ao quarto andar, de não ser aqui,nesta varanda em que, espectador casual, sinto saudades dos sargos que caçava

- e assava,

com um fio de limão e manteiga, sobre as brasas estivais de um verão todo ele particípio passado, a ressumar outros futuros,

- futuros mais que imperfeitos

que se fecham na gaveta para a eternidade que não temos.

2011/01/05

A Sophia
















O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.




marítima espuma
halo de solidão
ave navegando o céu

pudesse eu, como ela,
alar o corpo à tua altura.




Berlengas, Fuji Superia 400

2010/12/31



















siéntate en la popa del barco.

hoy, el viento te empuja,
el sol te calienta y el mar lo llena todo.

es un mar listo para ser navegado,
[un riesgo, casi una incertidumbre]
como si fuera una mujer sin hijos
marcada ya de mi mano blanda y desnuda
[una inmensidad de sangre por navegar]

yo, sin embargo, te digo:
si tuviera un perro le enseñaría a tus ojos,
[tus ojos viejos, abiertos y limpios como estrellas en la noche desamparada]

pero, hoy, estoy cansado:
tengo ganas de morirme, o de llorar en tu vientre.


2010/12/29

Alba




O céu anima-se, atravessam-no riscas laranja que anunciam para breve o nascer do sol. Ao longe, por sobre os campos ainda húmidos, a geada transmuta-se em fiapos de vapor, fímbrias etéreas que, se aparecem, logo se dissipam para não mais voltar.

Por entre as árvores, debicando aqui e ali, no restolho do chão, dois corvos negrissimos, meros resquícios crocitantes de uma noite que não tarda nada se esfumará no horizonte como se nunca tivesse acontecido.

As botas rangem, esmagando os grossos torrões de argila. Cansados da noite, os pés tropeçam, trôpegos de sono enquanto as mãos transidas procuram, bêbadas, o calor esparso dos bolsos. Piscam-se os olhos, o que era alba é orto, é dia.

Ergue-se finalmente o sol em lóquios por sobre a terra, debalde aquecendo bichos, homens e campos, sopra um rumor a aragem fria, um vento brando que dobra levemente à sua passagem as azinheiras, os ramos nus esgrimindo com o que resta da noite um adeus sem palavras.


Porto, Fuji Superia 400

2010/12/25

[lenta, mansamente]
teces com os dedos
frias redes de silêncio

e lança-las às águas
[escuras e profundas]
do nosso distanciamento.

.

2010/12/19

A Cesariny (reloaded)

















O navio de espelhos
não navega, cavalga
seu mar é a floresta
que lhe serve de nível




lanço a mão navegante
e os dedos marinheiros

esquadrinho-te de fio a pavio -
ignota derrota percorre este navio



Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

.

2010/12/16

A al berto


















cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais




habitas agora a memória
a memória de todas as coisas
esquecidas, de todas as coisas
não recordadas, das coisas
perdidas pelos cantos,
abandonadas, nómadas,
amargas, putrescíveis.

e não mais nos entregamos
não mais nascemos um no outro
não mais lembramos a pele
na pele incomensurável
o suor que nos cobria
e descobria os corpos
aflitos, quando todas as coisas
ainda eram esse mar azul e verde
que nos subia à boca, a salsugem
das coisas, de todas as coisas
agora desabitadas à beira-mar.


.

2010/11/02

à noite
[sonho com o deserto]

de dia
[mergulho nas tuas águas]

no teu corpo, cristalino
expiro, abro os olhos
[como os dos peixes, submarinos]
contemplo os naufrágios antigos
as vítimas esquecidas do sueste

os ossos brancos, dos mortos antigos,
de todos os homens que tu já tiveste.

.

2010/10/06





recordava o mar
[falésias, praias, esteiros]
os campos de ouro
[a florescência dos limoeiros]
o madrigal aberto
[o teu corpo frio]
o epitáfio na tua boca
[o seixo de um rio]

.



Paris. Kodak Tri-X 400.

2010/09/29

Praying mantis

escorregar nas tuas mãos
deslizar pelo teu peito
e mergulhar, ah!, mergulhar
no abismo do teu corpo

e correr, correr com o vento

.

2010/09/18

Venit nox, quando nemo potest operari

De noite, debruço-me à beira do abismo, meço-lhe o fundo escuro e nocturno. Pressinto um mundo em que cada som tem um sentido e uma textura, um mundo por onde deambula, ausente, o fio branco do tempo.

Imagino-lhe o silêncio como se fosse uma finíssima película de tempo suspenso, para além da qual nada mais há do que escuridão. De noite, morre-se sempre devagar, devagarinho, sem pressas ou medos. De noite.
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2010/09/14

Macaroons

des perce neige comme des mains
je rhabdomancie ton corps:
- sacré petit bateau
sous le gouvernail de mes lèvres.

2010/09/04

Prince, n'enquerez de sepmaine
Ou elles sont, ne de cest an,
Qu'a ce reffrain ne vous remaine:
Mais ou sont les neiges d'antan?

François Villon (c. 1431 - 1463)

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2010/09/02

eras a febre que te devorava
[sonora, malsã]
eras rios onde antes foras terra
[exausta, exangue]
eras porta onde antes eras muros
[fechados, escuros]
eras prado onde antes foras terra
[seca, nua]
eras flor, cravo, hibisco,
onde antes foras nada.


sou aquele que se despede de ti antes de partires
e o teu corpo morto diz-me:
fui o que és, serás o que sou

2010/08/30

Ode a Heráclito



Não se entra no mesmo rio duas vezes; se o fizermos pela segunda vez, nem o rio é o mesmo nem nós somos a mesma pessoa.

Heráclito de Éfeso, 500 a.C.



Hoje, a caminho de ir comprar o Público, apanhei, por entre duas pedras da calçada, um bilas.

É verdade: sem tirar nem pôr, um daqueles berlindes genuínos, de vidro, transparente, com uma espiral convoluta e bi-colorida lá dentro.

Nem sequer sabia que ainda se faziam e muito menos que ainda se usavam. Em todo o caso, o achado deixou-me nostálgico. Não que tenha sido um grande jogador de berlinde, longe disso. Jogava, quando muito, à carica, em pistas de corrida traçadas no saibro das casas em construção daquela rua sem saída, entalada entre a estrada nacional e os trigais.

Será talvez uma nostalgia sem sentido, um sentimento agridoce similar ao arrepio que se sente quando nos imergimos numa banheira de água a ferver, o vapor a desprender-se, em volutas, a pele arrepiada pelo calor.

A nostalgia por tudo o que vi e que experimentei. Pelos livros do Jules Verne, que devorei. Pelo Zx Spectrum que ligava à televisão agora anacrónica e ao gravador de cassetes, numa antevisão perfeitamente surreal dos progressos informáticos que ainda estariam por vir e que agora utilizo sem pestanejar, em tempos em que um mero processador de telemóvel faz mais cálculos por segundo do que os que o computador da NASA fazia quando o homem chegou à Lua.

Pelas séries que via, absorto, na televisão e que fizeram de mim muito daquilo que sou hoje (quem se atreve a dizer que a televisão não educa nem forma mentalidades e consciências?)

Pela estupidez de ceder alarvemente ao mercado da saudade e ficar novamente absorto em frente à televisão a rever os Pequenos Vagabunbos e as peripécias serôdias do Conan, o rapaz de um futuro que, o sendo na altura, já é passado neste momento em que escrevo.

Nostalgia porque a transitoriedade do mundo se faz também assim, de pequenos objectos que o tempo que passa torna inexoravelmente obsoletos. Já não há trigais, o tempo das kapa setes, do betamax e do VHS já lá vai, os berlindes perdem-se e permanecem perdidos, eu procuro-me e não me acho igual.

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2010/07/06

Tale of reticulate muscle

kissing blush of the twilight
[whitewashed fleshy birds]
star-strucked drowned pretenders
[ragingly wide-eyed day-dreaming]
with no more kings to obey
than your unsung crisscrossed heart

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2010/02/17

Weekend Workshop




"Vejo que ides a Alcobaça e Batalha. Bandidos! Miseráveis! Aproveitais a ocasião em que estou aqui, nas neves, para vos irdes refastelar de arqueologia, cavaqueira, aventuras de estalagens, bacalhoadas festivas e outras delícias. " Eça de Queiroz, em carta de 1890 a Ramalho Ortigão.


Não é bem na Batalha, mas sim em Torres Vedras - e que tal um fim de semana refastelado, a falar de tesouros (os venais e os culturais) perdidos ou nas costas de Portugal ou em sítios tão exóticos quanto as Turks and Caicos, Ningaloo Reef ou Orangemund, Namíbia? ;)


2010/02/11

A baleia dos 52 Hz


Durante a Guerra Fria, um dos segredos mais bem guardados pelos Estados Unidos da América era o da implantação e utilização de uma rede de hidrofones ao longo de todos os mares do mundo, nomeadamente no Atlântico Norte.

Denominado SOund SUrveillance System (SOSUS), este sistema captava as assinaturas sonoras dos submarinos soviéticos, por mais ténues que estas fossem, providenciando à Marinha americana um conhecimento quase que em tempo real das posições de cada uma das plataformas balísticas submersas do inimigo, efectivamente constituindo-se como mais um factor dissuassor no jogo do esconde-esconde nuclear que então estava em vigor.

Caído o Muro de Berlim, enferrujados os submarinos da Rodina, os hidrofones ultra-secretos foram colocados ao serviço de causas bem mais nobres e bem mais prosaicas. Com efeito, o mundo ao qual Costeau colou o epíteto de silêncio é tudo menos silencioso: quem mergulha sabe disso – desde peixes que se alimentam até ao estralejar do plâncton forforescente num mergulho nocturno, passando pelo silvo do nosso próprio respirar no primeiro andar do regulador - o mar tem de tudo menos o silêncio que tanto lhe apregoam os que nunca nele se submergiram.

Muitos são os sons captados - cargueiros lentos e monótonos nas suas travessias oceânicas, levando e trazendo contentores entre continentes, navios de guerra em conserva, de ritmo compassado e letal, sismos de maior ou menor intensidade, libertações em profundidade de gás metano, erupções vulcânicas e, para o caso que nos interessa agora, animais marinhos, entre os quais avultam os grandes cetáceos.

É precisamente na identificação e no controlo das migrações destes mamíferos aquáticos que o SOSUS e os demais sistemas subaquáticos, como os do projecto SIRENA, têm vindo a ser fundamentais para a biologia marinha.

Tal como no caso dos navios – em que os hélices são distintos de embarcação para embarcação, com as suas pequenas imperfeições permitindo por vezes até a identificação individual de um navio pelo som que emite – também as frequências utilizadas pelas baleias são características de cada espécie, variando até de zona para zona. Assim, por exemplo, enquanto que uma baleia azul do Pacífico Nordeste emite sempre sons numa frequência que pode alcançar os 60 Hz, uma baleia da mesma espécie, mas natural do Atlântico Norte emite sons cuja frequência apenas consegue atingir os 50 Hz.

Foi com base neste trabalho de identificação “vocal” que uma equipa de biólogos marinhos isolou, no Pacífico Norte e há doze anos atrás, um único eco, distinto de todos os outros. A operar na frequência dos 52 Hz, este chamado solitário tem vindo a ser seguido desde 1992, naquilo que bem poderá ser a única prova existente de uma espécie até agora desconhecida de baleia, da qual será o único individuo restante.

Sozinha, com o Oceano imenso como única companhia, esta baleia chama, chama e não obtém resposta.

Se soubesse que o faz em vão, calar-se-ia?

2010/02/07

Não há por aí alguém que queira organizar uma manifestação, em silêncio, de mãos brancas, ou coisa que o valhe, à porta de alguém?

Começo a pensar que está na hora de agir. Diplomática e civícamente, mas agir. E já.

2010/01/14



"I love deadlines. I like the whooshing sound they make as they fly by."

Douglas Adams






2009/12/28

Boas festas?

Há uma semana, a cabeça aberta, sangue cabonde, uma saga higio-sanitária por 2 centros de saúde e um hospital, 3 radiografias e 3 pontos bem dados no couro cabeludo.

Hoje, a caminho de tirar os pontos, abalroo num stop - aquaplanning rules! - um utilitário familiar com a respectiva família dentro, um charivari de chapa amolgada e vidros por todo o lado.

Boas festas? Dassss! O que me vale é que, como sói dizer-se, foi só chapa.

2009/12/17

SATA 530

Mais do que a história de um acidente, este documentário é - desde os entrevistados até aos entrevistadores, passando pela realização, pela montagem, pelo que se diz e pelo que se deixa por dizer - os Açores.



(Estava lá e conhecia dois dos mortos, um passageiro e um piloto)


2009/12/10

Violência doméstica à moda do século XII

Anda tudo por aí num grande arruído porque, de há uns tempos para cá, não há dia que não passe que marido mate a mulher ou que a esposa fulmine o esposo com duas pelouradas na arca do peito.

Ora eu, que ando a ler genealogias em doses nada homeopáticas (e sim, já descobri quem era o meu Francisco de Noronha da nau de 1533) não percebo qual o espanto - é que a história do entre marido em mulher que ninguém meta a colher é ditado mais velho que a sé de Braga.

Um exemplo, apenas, a descrição em 1667, feita pelo juiz de fora dos órfãos do Porto Cristóvão Alão de Moraes, do primeiro casamento, dito infeliz, do nobre Dom Rodrigo Gonçalves Pereira com Dona Ignes Sanches a qual estando no Castello de Lanhoso fes maldade de si com hum Frade de Bouro e achou D. Rº Glz. ser isto serto fichou as portas do Castello e queimou a ella, ao Frade, homens, e mulheres, Caes, e Gatos, e toda a couza viva que com elles morava, e perguntandoselhe porq fizera tal crueldade respondeo que aquella maldade avia dezaçete dias q se fazia e q não podia ser q tanto durase que senão soubesse ou ao menos q se não suspeitasse o q os da caza devião de descobrirlhe e pois q o não fizerão, que por isso lho fizera aquilo.

Ora, se nos finais do século XII isto era assim, porque haveria de melhorar quase mil anos depois? Esqueceram-se que este país não muda assim do pé para a mão?

(por outro lado, parece-me bem que a solução mais imediata para travar esta onda de assassinatos domésticos terá que passar, forçosamente, pela sua não publicitação na imprensa).
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2009/12/07


Criar filhos, e não caniches, e viver muitos anos com outra pessoa não é uma partitura compatível com a cultura sobre-capitalista e hiper-consumista dos nosso dias. É uma massa feita de tédio, trabalhos e dias, resistência, abdicação.

2009/11/27

Não há uma sem duas

Há trinta anos que andamos a fingir que pode haver direito e pluralismo onde quem fala corre o risco de ser castigado e onde para fazer negócios é preciso pôr dinheiro em envelopes. A democracia portuguesa vive com uma víbora sobre o peito. Só não nos morde se estivermos muito quietinhos e formos bem comportados. É assim que queremos viver, quietinhos e bem comportados?

2009/11/20

A tenaz chave inglesa

A tenaz tem dois braços: um chama-se descrédito dos políticos, o outro empobrecimento dos cidadãos. Agora está aberta. Quando apertar, veremos se o regime aguenta.



* um homem que é reverenciado pelo meu ex-professor de História de Portugal Moderno, António Camões Gouveia, só pode ser, por sua vez, reverenciado por mim.

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2009/11/13

O triunfo dos porcos

Os dias e as noites são balizados agora pelas temperaturas que, invariavelmente, oscilam entre os 38.5ºC e os 40,3ºC e por alguns episódios, ocasionais, de delírio febril.

E, para quem quer mesmo saber, o Tamiflu não é, definitivamente, uma panaceia universal.

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2009/10/28

O fim da linha



Vale a pena perder 8 minutos e ver este video. Ah, e assinar a petição, se concordarem.

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2009/10/26

Quando a democracia é muito bonita

Vá, malta, vamos a votar a favor ou contra a construção do cais de cruzeiros em Angra, aqui.
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2009/10/23

Carta Aberta a Carlos César

Carta Aberta a Carlos César, Presidente do Governo Regional dos
Açores sobre a localização do Terminal de Cruzeiros da Ilha Terceira


Ponta Delgada, 22 Out (Lusa) - O presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, reafirmou hoje que o Terminal de Cruzeiros da Terceira será construído em Angra do Heroísmo, rejeitando a existência de qualquer polémica envolvendo o vizinho concelho da Praia da Vitória.
"A polémica não existe. A opção do Governo regional está tomada e a localização decidida, o Terminal de Cruzeiros da Terceira será construído junto ao Porto das Pipas, em Angra do Heroísmo", afirmou Carlos César.
O presidente do Executivo regional, que falava aos jornalistas em Ponta Delgada, frisou que "não há qualquer dúvida sobre esta matéria".



Ex.mo. Sr. Presidente do Governo Regional dos Açores

Tomo a liberdade de lhe escrever esta carta aberta que, aposto, o surpreenderá tanto quanto a mim me surpreende ter que a escrever – confesso que, quando cheguei a casa, esta tarde, estava muito longe de pensar que ainda aqui estaria, noite fora, a alinhavar estas linhas que se seguem.

Afinal, não poderia ficar em paz comigo mesmo, hoje, especialmente hoje, depois de ter lido na Lusa as declarações que fez sobre a localização do Terminal de Cruzeiros da Terceira. De acordo consigo, e a acreditar no que transcreve o jornal, “a opção do Governo regional está tomada e a localização decidida, o Terminal de Cruzeiros da Terceira será construído junto ao Porto das Pipas, em Angra do Heroísmo".

Ora, justamente, a baía de Angra do Heroísmo, serviu - e passo a citar um decreto regional da autoria do seu Governo (DRR nº 20/2005/A, de 20/10/2005) “durante mais de quatro séculos, como um dos principais portos dos Açores e como ponto de escala e apoio durante o período de descobertas do Oriente e Novo Mundo, sendo por isso considerada de grande importância histórica. Naturalmente abrigado de quase todos os quadrantes e quase desprovido de baixios perigosos, foi local de escala de navios provindos das Índias Orientais, da costa africana e do Brasil e de embarcações oriundas do Novo Mundo, que, a pedido da coroa de Castela, aqui procuravam protecção militar.

Dois dos maiores perigos deste porto e do seu ancoradouro eram o recife submerso localizado no prolongamento da ponta de São Sebastião e a ocorrência de ventos fortes do quadrante sul-sueste. A presença de navios à vela no interior desta baía fechada conduzia facilmente ao desastre sempre que os ventos não eram favoráveis. A restinga conhecida por Baixio das Águas foi responsável por cerca de uma quinzena de naufrágios, tendo todos sido ocasionados pelo denominado Vento Carpinteiro, assim chamado por fazer arrojar contra a costa madeira dos navios, que era posteriormente usada na construção de edifícios da cidade. 

As referências históricas dão conta que a invernia era fatal para os navios que escalavam Angra, uma vez que a força das tempestades era tão grande que, por mais resistentes que fossem os cabos de âncora das embarcações, estas rapidamente se transformavam em naufrágios. Também, de acordo com os dados históricos, se verifica a ocorrência de pelo menos 74 naufrágios desde 1552 até 1996.

A grande maioria destes naufrágios ainda não se encontra localizada, conhecendo-se, até à data, 13 sítios arqueológicos no interior da baía de Angra. Dois deles apresentam excelentes condições para ser explorados do ponto de vista turístico, uma vez que possuem características geoculturais de grande interesse do ponto de vista museográfico.“

Fim de citação.

Presumo que esta importância histórica e arqueológica da baía de Angra – a de ser “um conjunto de sítios arqueológicos de interesse regional e nacional, resultantes dos diversos naufrágios ocorridos ao longo da história, integrado num território envolvente marcado de forma significativa pela intervenção humana passada, território esse que integra e dá significado ao monumento, sítio ou conjunto de sítios, e cujo ordenamento e gestão devam ser determinados pela necessidade de garantir a preservação dos testemunhos arqueológicos aí existentes” (um nítido desenvolvimento da lei 107/2001, que estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural) - tenha sido o motivo pelo qual o seu Governo decretou, em 2005, a criação do Parque Arqueológico Subaquático da Baía de Angra.

Na altura, o seu Governo considerou que havia “a necessidade de garantir a preservação, o estudo e a fruição dos testemunhos arqueológicos aí existentes” e que a “promoção do turismo cultural poderia ampliar o conhecimento da história náutica e do turismo subaquático dos Açores”. Assim sendo, impôs como limites desse Parque “a linha de costa entre a Ponta do Farol, a sul do Monte Brasil e a baía das Águas, a leste do Forte de São Sebastião”.

Ora, lê-se e não se compreende – como é que se vai implantar um Terminal de Cruzeiros dentro de um Parque Arqueológico tanto mais que (ainda em desenvolvimento da lei 107/2001) o seu Governo fez alterar o Decreto Legislativo Regional n.º 27/2004/A, de 24 de Agosto, aditando (pelo DLR 8/2006/A) que são “proibidas nos parques arqueológicos as obras que possam ter efeitos intrusivos e perturbadores nos vestígios arqueológicos e ou do seu meio envolvente, que alterem a sua topografia, tais como obras de construção civil, ampliação ou demolição de edificações e muros, salvo em trabalhos de simples conservação e restauro ou limpeza, deposição de sedimentos, inertes ou quaisquer outros elementos, alterações do coberto vegetal, alterações da morfologia do solo; bem como escavações, dragagens e aterros, depósitos de sucata, areias ou outros resíduos sólidos que causem impacte visual negativo ou que poluam o solo, o ar ou a água”? 

Das duas, uma: ou o Terminal de Cruzeiro vai ficar fora dos limites do Parque Arqueológico (quiçá erigindo-se como uma ilha, ao largo, a emparelhar com o ilhéu das Cabras) ou então, sendo ilegais dentro do Parque quaisquer obras e dragagens, será o mesmo executado sob a forma de um insuflável, talvez ligado por amarras a terra, a alguns cabeçotes que se implantem no porto das Pipas… isto, claro, sou eu a divagar, eu, que nada percebo de engenharia hidráulica mas que falho em ver como se poderá conciliar este seu anúncio com os decretos que V. Exa. mandou – e muito bem – publicar em 2005 e 2006.

Em todo o caso, preocupo-me. E é por isso que lhe escrevo, na qualidade de cidadão. De cidadão que viveu, estudou e leccionou nos Açores durante onze anos da sua vida e que, veja lá como são as coisas, até contribuiu com o seu voto para a sua primeira eleição, para o cargo que ocupa ainda hoje. Mas, mais do que cidadão, escrevo-lhe como amigo dos Açores e dos açorianos e também como técnico de arqueologia, como primeiro autor da Carta Arqueológica Subaquática dos Açores e como um dos três co-coordenadores responsáveis pela implementação dos planos de prospecção e escavação arqueológica subaquática da baía de Angra do Heroísmo, no já longínquo ano de 1998.

Sim, eu sei que se passaram quase treze anos desde a última vez que nos encontrámos presencialmente num dos seus Conselhos de Governo, em Angra do Heroísmo, mas descanse – não lhe vou agora (embora devesse) cobrar a promessa que nos fez em como os dois naufrágios seiscentistas encontrados nessa baía aquando do processo de construção da marina da cidade seriam estudados e salvaguardados cientificamente. Nem sequer irei mencionar (outra vez) em público a forma vergonhosa como a Região Autónoma dos Açores deixa apodrecer há mais de onze anos um dos mais importantes e dos mais bem preservados (à altura) navios ibéricos até agora encontrados à escala mundial.

Nem sequer irei colocar em causa o porquê da construção de um terminal de cruzeiros no porto de Angra do Heroísmo, em total desconformidade com os princípios da economia, da eficiência e da eficácia, quando tem o porto oceânico da Praia da Vitória, de águas profundas, a menos de 20 km de distância. Nem lhe irei relembrar o quão acanhado e pouco profundo é o porto de Angra nem sequer a história do navio Run’Her que lá naufragou em 1864, exactamente por ter calado a mais para o fundo que demandava, numa sucessão de desaires que, a crer num jornal local, mais não foram do que “africanadas que custam caro aos donos dos navios e que podem desacreditar o porto”.

Não, não irei aqui discutir consigo a bondade técnica da solução que encontrou – julgo que estará na posse de muitos e variegados estudos, muito bem fundamentados do ponto de vista técnico, estudos esses que o ajudaram a tomar essa decisão.
Do que lhe venho falar aqui, senhor Presidente, é da minha profunda desilusão para com a sua política cultural, que tanto mal está a fazer a esse bem, único no mundo, que é o património cultural subaquático dos Açores e que o levou a apontar a mira a Angra para, novamente, lá se colocar betão no fundo do mar.

Sim, eu sei que publicou o DLR nº 27/2004/A, de 24/08/04, regulamentando a arqueologia subaquática, “enquadrando-a numa filosofia de política de prevenção, salvamento, investigação e apoio à gestão do património cultural subaquático”e onde até identificou “a multiplicação dos grandes planos de ordenamento” como uma ameaça de destruição do património arqueológico. E que fez publicar os decretos regionais acima descritos, criando o Parque Arqueológico da Baía de Angra. Por tal clarividência, dou-lhe os parabéns. Atrasados, mas não menos merecidos.

No entanto, o quão mais gostaria eu de lhe poder escrever, a congratulá-lo por ter levado à letra a Constituição Portuguesa, que diz ser tarefa fundamental do Estado “proteger e valorizar o património cultural do povo português” de modo a “promover a salvaguarda e a valorização” desde mesmo património, de modo a torná-lo “elemento vivificador da identidade cultural comum.”

Ou de o apoiar, com grande entusiasmo, por verificar que os Açores tinham lido à letra o Livro Verde da Comissão das Comunidades Europeias para uma Futura Política Marítima da União e que estavam a “utilizar fundos comunitários“ de forma a erigir as instituições necessárias para a preservação do seu património marítimo” ou que continuavam com assinalável vigor o esforço, iniciado há mais de quinze anos atrás, para elaborar “um inventário dos sítios arqueológicos submarinos”.

Quereria até cumprimentá-lo por estar a cumprir com a Estratégia Nacional para o Mar (DR 1ª série, nº237, de 12/12/2006), por estar a levar a cabo uma das suas acções estratégicas, “a promoção da valorização e preservação do património cultural subaquático arqueológico e histórico, incentivando o estudo dos aspectos sócio-culturais das actividades relacionadas com o mar, bem como a preservação em museus da especialidade de testemunhos históricos, arqueológicos e culturais relevantes.”

Mas, debalde. Ambos sabemos, infelizmente, que, apesar de todo o fantástico potencial que as ilhas têm para ser um dos territórios de excelência, a nível mundial, no âmbito da investigação arqueológica subaquática, ainda muitos anos e governos regionais terão que passar antes que esse potencial se verifique e se concretize.

Longe vão os anos em que os Açores enfrentaram com êxito os interesses poderosos dos caçadores de tesouros, nomeadamente pela mão de Directores Regionais da Cultura tão interessados e eficazes quanto Manuel Duarte e Luiz Fagundes Duarte (não tão longe vai o ano em que enviei à vossa Direcção Regional de Cultura todo o meu acervo textual e fotográfico relativo à arqueologia subaquática dos Açores e que ainda hoje estou para saber se foi recebido, se ficou algures perdido, ou se foi “arquivado” até às calendas gregas).
Mas voltando ao que me trouxe aqui, hoje. Este anúncio – o de, mais uma vez, se ir alterar, modificar, dragar, enrocar e cimentar a frente marítima de uma cidade que é Património Mundial – é a prova provada de quão irrelevante é, para esse Governo, o facto de Portugal ter ratificado quer a Convenção Europeia para a Protecção do Património Arqueológico (revista), quer Convenção sobre a Protecção do Património Cultural Subaquático (aprovada pela UNESCO e que entrou em vigor em Janeiro passado para os Estados Parte, nos quais se inclui o nosso país).

Com efeito, sabendo-se que naquela área diminuta há comprovadamente dezenas de naufrágios históricos, nunca o Governo Regional procurou, quer neste processo, quer no da marina de Angra, conciliar e articular as necessidades respectivamente da arqueologia e do ordenamento do território, garantindo, assim, aos arqueólogos a possibilidade de participarem nas políticas de planeamento de modo a estabelecer estratégias equilibradas de protecção, de conservação e valorização destes locais, com interesse arqueológico. Quase nunca o Governo atribuiu tempo e meios suficientes para se efectuar um estudo científico conveniente destes sítios arqueológicos, com publicação dos resultados, nem garantiu que os estudos de impacte ambiental e as decisões deles resultantes tivessem em conta esses mesmos sítios e o respectivo contexto.

Na verdade, as acções que resultaram em actos arqueológicos de relevo fizeram-se sempre a contragosto e sempre de má vontade. Relembro que, depois de mais de um ano à espera que fosse aprovado pelo Governo de V. Exa. o plano de intervenção arqueológica que apresentei, com urgência, a seu pedido, foi preciso ao Ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, embargar a obra da marina – que começara “inopinadamente” - por três meses para que a arqueologia se fizesse, como era obrigação legal fazer-se, com todos os contratempos contratuais, financeiros e temporais (para não falar da criação, por parte da sociedade civil, de anticorpos contra a arqueologia subaquática açoriana) que tal acarretou.

Assim, sendo, e tendo ainda bem presente toda a “trapalhada” que foi o caso da marina – em que primeiro se dizia não haver naufrágios na zona; e que depois, quando encontrámos três naufrágios precisamente no alinhamento do futuro molhe, se veio dizer que eram traineiras da década de 50; e que ainda depois ficou toda a gente com as mãos na cabeça quando se apercebeu que havia legislação e que ela era para se cumprir – também neste caso, o deste Terminal sobre o qual V. Exa. não tem dúvidas vir a ser construído na baía de Angra, deixe-me recordá-lo de alguns factos.

Em primeiro lugar, preconiza o DL 107/2001 que “constituem particulares deveres da Administração Pública competente no domínio do licenciamento e autorização de operações urbanísticas, o certificar-se de que os trabalhos por si autorizados, que envolvam transformação de solos, revolvimento ou remoção de terreno no solo, subsolo ou nos meios subaquáticos, bem como a demolição ou modificação de construções, estão em conformidade com a legislação sobre a salvaguarda do património arqueológico”, devendo para tanto “dotar-se de meios humanos e técnicos necessários no domínio da arqueologia ou recorrer a eles sempre que necessário”.
Ainda de acordo com a mesma lei (que não existia, infelizmente, em 1998) “os serviços da administração do património cultural condicionarão a prossecução de quaisquer obras à adopção pelos respectivos promotores, junto das autoridades competentes, das alterações ao projecto aprovado capazes de garantir a conservação, total ou parcial, das estruturas arqueológicas descobertas no decurso dos trabalhos”, ficando os “promotores das obras obrigados a suportar, por meio das entidades competentes, os custos das operações de arqueologia preventiva e de salvamento tornadas necessárias pela realização dos seus projectos. No caso de grandes empreendimentos públicos ou privados que envolvam significativa transformação da topografia ou paisagem, bem como do leito ou subsolo de águas interiores ou territoriais, quaisquer intervenções arqueológicas necessárias deverão ser integralmente financiadas pelo respectivo promotor.”

Já a Convenção sobre a Protecção do Património Cultural Subaquático diz que os “Estados Partes deverão preservar o património cultural subaquático em benefício da humanidade”, com a preservação in situ a ser “considerada opção prioritária antes de ser autorizada ou iniciada qualquer intervenção sobre o património. Consequentemente, as intervenções sobre o património cultural subaquático só deverão ser autorizadas se o procedimento for compatível com a protecção desse património e só poderão ser autorizadas se, sujeitas a tal requisito, contribuírem igualmente, de forma significativa, para a protecção, o conhecimento ou a valorização desse património.”

Mais. Lendo o Plano Regional Anual para 2009 (DLR 7/2009/A), presumo que parte das verbas destinadas a este projecto de construção do Terminal de Cruzeiros do porto de Angra do Heroísmo bem como para o reforço do enrocamento de protecção exterior do porto das Pipas provenha da Comunidade Europeia, através do FEDER/Proconvergência (no qual, note-se de passagem, não considerou importante o Governo dos Açores inscrever qualquer acção no plano arqueológico num dos seus objectivos prioritários (a valorização do património cultural - O.E. 2.2 Eixo Prioritário II).

Ora, receber verbas comunitárias implica aceitar regras comunitárias – nomeadamente implica que as operações inscritas no FEDER, para efeitos de aceitação, devem não só cumprir os normativos nacionais e comunitários, em particular em matéria de ambiente, igualdade de oportunidades, concorrência e contratação pública, como também estar conformes com a legislação nacional e comunitária identificada e que lhes seja aplicável, podendo o contrato de financiamento ser objecto de rescisão unilateral em caso de não cumprimento das obrigações legais do beneficiário.

Parafraseando-o: eu não duvido que, promovendo V. Exa. o que deve promover legalmente – um estudo sério e rigoroso de avaliação de impacte ambiental que contemple a vertente arqueológica subaquática – saiam de debaixo daquela restinga meia dúzia de naufrágios históricos.  

Não duvido também que, fazendo o que tem a fazer no quadro da legislação comunitária, nacional e regional em vigor – promover o estudo atempado e bem financiado desses mesmos naufrágios – os custos financeiros, culturais e patrimoniais irão disparar (ou, como sói dizer-se nos nossos meios económicos, irão “derrapar” significativamente).

Dando de barato que é inconciliável a construção desse Terminal com a legislação que o seu próprio Governo publicou; sendo evidente que o estatuto de Angra enquanto cidade Património Mundial é mais uma vez ferido (de morte?) por outra obra em frente marítima, já que a descaracterizará ainda mais enquanto porto de escala dos Descobrimentos; assumindo que a obra decorrerá indubitavelmente por sobre jazidas arqueológicas subaquáticas, com a consequente colisão com as mais diversas normas do direito regional, nacional, comunitário e internacional que visam a protecção do património cultural, peço-lhe, senhor Presidente do Governo Regional dos Açores que, por favor, reconsidere - construa o seu Terminal de Cruzeiros onde quiser.

Só não o faça na já tão martirizada baía de Angra e à custa do seu tão maltratado património cultural subaquático.



Alexandre Monteiro

Arqueólogo Subaquático


23 de Outubro de 2009
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2009/10/07

E na playlist de hoje...

.. o que é que passa?

Air? Stockhausen? Black Lips? Fiery Furnaces?

Náá....

Yes I still remember, every whispered word
The touch of your skin, giving life from within
Like a love song that I'd heard
Slipping through your fingers, like the sands of time
Promises made, every memory saved
Has reflections in my mind


Yup, Spice Girls... está em repeat, este Viva Forever..

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2009/10/04

O 3º dia seguinte

- Estamos safos, disse o Soldado, e os seus olhos brilharam de alívio, Estamos vivos.
- Vivos? O Outro mal conseguiu esboçar um sorriso. Levantou-se e começou a apalpar o corpo em busca de feridas. Doiam-lhe os ossos, sentia os músculos tensos, a barriga apertada, uma náusea profunda. E agora? Reagir, pensou, tinha que reagir. Olhou em volta. A agitação começara mal o sol nascera. Era tempo de limpar as trincheiras. Contar mortos e feridos, enterrar os corpos, reunir os destroços. Preparar as armas para o próximo combate. As ordens vindas de cima diziam que é preciso estar a postos. Não se pode parar, diziam.
- A guerra acabou, disse o Soldado, safámo-nos. O Outro não lhe respondeu. Que ilusão. Se alguma lição se poderia tirar do dia de ontem é que nunca ninguém está safo. Na verdade, parecia-lhe que do outro lado da estrada os disparos já tinham recomeçado.
- Ouviste?
- Vamos, rastejemos para o abrigo, rasteja, Soldado, rasteja, é a única coisa que podemos fazer.


plagiado daqui.
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Peço deferimento

Já que internet é um repositório de petições para tudo e mais alguma coisa, acho por bem iniciar eu próprio o meu próprio requerimento a quem de direito - o de se nomear para próximo Ministro da Cultura um dos homens mais trabalhador, abrangente, esforçado, culto, terra-a-terra, pragmático e honesto que eu conheço: Luiz Fagundes Duarte, com quem tive o privilégio de trabalhar.


Ah, cereja no cimo do bolo, é um dos homens anti-acordo ortográfico.

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2009/10/02

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn?





dardo
punhal
ponta [de lança]
lâmina erecta

cravado [em ti]

o teu corpo [alvo]
o meu seta

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2009/10/01

no mundo extremo dos nomes,
existiam as raízes,
exteriores, genuínas,
e os minutos,
[e as horas]
que morriam em minutos,
[e as mãos]
que se cosiam umas nas outras,
e os dedos
difusos, lentíssimos,
sem palavras,
[aglossos]
e o meu corpo
cerzido no teu,
e o vento,
morrente
e a força,
inusitada,
de um Sol ardente,
e a terra
[calcinada]
dolorosa,
marcada a ferros
com a saudade de um futuro

como se não houvesse,
nas coisas,
[em todas as coisas]
o travo amargo do demasiado tarde,
o peso do homem antigo,
lastrado,
com o ferro da solidão
das coisas,
[de todas as coisas]
à deriva
no mundo extremo dos nomes



2009/09/30

The ten million dollar question


Depois das inanidades que o Presidente da República deles proferiu ontem (recuso-me a dizer nosso, é que se era para dizer aquilo mais valia ter enchido a boca de bolo-rei), fica no ar a pergunta: quem irá ele convidar para formar Governo?

A Sócrates não será, certamente, depois de ter dito dele o que Maomé não disse do toucinho.

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2009/09/29

Entretanto, na playlist desta madrugada...

Does anybody here remember Vera Lynn
Remember how she said that
We would meet again
Some sunny day?

Roger Waters (Vera, 1979)




We'll meet again
Don't know where
Don't know when
But I know we'll meet again
Some sunny day

Vera Lynn (We'll meet again, 1942)

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2009/09/25

The Cohen-ettes, you just gotta love' em



I'd really like to live beside you, baby
I love your body and your spirit and your clothes
But you see that line there moving through the station?
I told you I told you I told you I was one of those




Estou há dias como que embevecido com as Webb Sisters e a Sharon Robinson no First we Take Manhattan do Concerto de Londres do Cohen.

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2009/09/22

A vantagem de votar branco

Hoje, enquanto aparafusava estantes e dividia os livros lá de casa - Guia dos Arquivos da Alfândega de Lisboa para um lado, Percursos Pedestres em Portugal para o outro; o De Profundis aqui, os 12 primeiros livros do Terry Pratchet acoli - calhei a dar algum uso à televisão que estava ao canto. Durante uma hora, enquanto separava tudo o que tinha a ver com a Civilização Romana de tudo o resto, liguei o white noise do Goucha; e da sua aptidão para fazer crescer no quintal ervas aromáticas; e a tragédia sob a forma de toupeira que lhe assolara os tomates; e o porquê de uma arquitecta que era actriz resolver ser actriz ao invés de arquitecta (ou será que era ao contrário?).

Adiante. Passado com algum pundonor esse meu pequeno momento masoquista, sintonizei um canal de notícias (que, não posso precisar, ou era o da SIC-N ou o da TVI24). Por entre o charivari próprio de um noticiário dominado pela premência eleitoral, uma das peças alinhadas versava a propaganda distribuída pelas várias candidaturas. A palma era entregue ao PS e ao PSD - ele eram chapéus, canetas, aventais, o diabo a quatro.

Depois, surgiu na pantalha uma das novas pragas mediáticas, tão em moda hodiernamente, o auto-denominado politólogo e um outro gajo qualquer, o que aparece sempre de debaixo de uma pedra sempre que se conjura as palavras branding e marca.

Discutiram-se então as verbas dispendidas versus a sua eficácia traduzida em votos. Ou seja, tentou-se apurar mais ou menos isto: quantos votos compra, se é que compra, a oferta de cem canetas e de uma dúzia de chapéus logotipados?

Dando de barato o não se ter chegado a conclusão alguma - afinal, sempre era um politólogo a falar com um brander - proponho aqui o exercício inverso: quantas canetas compra um voto?

Vamos a contas.

Prescreve a LEI DO FINANCIAMENTO DOS PARTIDOS POLÍTICOS E DAS CAMPANHAS ELEITORAIS, de 20 de Junho de 2003, que a cada partido que haja concorrido a acto eleitoral, ainda que em coligação, e que obtenha representação na Assembleia da República é concedida uma subvenção anual, desde que este a requeira ao Presidente da Assembleia da República.

Ora, essa subvenção consiste numa quantia em dinheiro equivalente à fracção 1/135 do salário mínimo mensal nacional por cada voto obtido na mais recente eleição de deputados à Assembleia (mesmo que não eleja deputados, essa subvenção é também concedida aos partidos que, tendo concorrido à eleição para a Assembleia da República e não tendo conseguido representação parlamentar, obtenham um número de votos superior a 50000).

Sabendo que 1/135 do salário mínimo nacional eram, em 2005, 2.70 euros quanto nos custaram então, a nós, contribuintes, as eleições legislativas desse ano?



PS: 45,05% - 2.573.302 votos (vezes 2.70 euros são 6.947.915,40 euros ou seja, quase SETE milhões de euros)

PSD: 28,69% - 1.638.931 (vezes 2.70 euros são 4.425.113,70 euros ou seja, quase QUATRO milhões E MEIO de euros)

CDU: 7,57% - 432.139 (vezes 2.70 euros são 1.166.775,30 euros, mais de UM milhão de euros)

CDS-PP: 7,26% - 414.855 (vezes 2.70 euros são 1.120.108,50 euros, mais de UM milhão de euros);

BE: 6,38% - 364.296 (vezes 2.70 euros são 983599,20 euros, quase UM milhão de euros).

Ou seja, tudo somado, são 13.659.912,90 euros. TREZE MILHÕES E SEISCENTOS E CINQUENTA E NOVE MIL EUROS.


Este ano, cada voto nosso num partido político com assento na Assembleia da República vai valer 3,33 euros.. ora, mais do que o descontentamento pela fraca alternativa que há nestas eleições, este outro argumento - o de que um voto nosso num qualquer partido retira automaticamente dos nossos bolsos €3.33 - é, definitivamente um argumento de peso.

Sinceramente, saber que milhões e milhões de votos vezes três euros e trinta e três cêntimos dá uma pipa de massa - massa essa que irá servir para pagar chapéus, porta-chaves, panfletos, congressos, e cartas ao eleitor, idiotas e inúteis, ao invés de contribuir para o avanço do país ou, vá lá, para colmatar parte do défice gigantesco que nos assola - faz-me pensar seriamente em votar em branco. Ao menos, não sustentaria vícios, sinecuras e demais alcavalas e mordomias, quer dos políticos, quer das agências de marketing e comunicação.

É que quinze milhões de euros compram muitas canetas.

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Up into the wild blue yonder

Ora aqui está uma das coisas que eu gostaria de ter feito.

Mais fotos, aqui.

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2009/09/21

Lá fora, ouve-se a gaita.

Onde a comprarão eles?

Será distribuída numa confraria secreta, passará de pais para filhos? Ou haverá dúzias, made in China, de plástico grosseiro, amarelas e vermelhas, à solta em caixas de papelão por essas feiras fora?

É um amolador. A bicicleta, uma pedaleira das antigas, a boina alentejana, a camisa de meia manga, um guarda-chuva pendurado de cada lado do guiador, a passada lenta mas metódica, um olho na estrada, outro nas janelas, portas e varandas, na senda do cliente que escasseia cada vez mais, na praia, no centro comercial, nas facas que já não se usam na cozinha, as pizzas que se encomendam, as tesouras que não se amolam porque os arranjos se mandam fazer nos shoppings, a gaita que ainda toca, por quanto tempo ainda, até que saia da estrada da história, até que se despiste e se perca no tempo que já não volta, um tempo de ardinas, de almocreves, de ganhões, de pescadores, de jornaleiros, um tempo feito de operários e camponeses e gente que se tornou obsoleta nestes tempos de pressas e correrias made in China.

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Ah e tal, sou tão esperta e tão culta.

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2009/09/20

Ein! Zwei! Die!




Eu sei que o Jorge gosta mais do filme da Kathryn Bigelow mas, aqui por casa, tenho andado - parafraseando-o - a curtir que nem um castor o Død snø, do Tommy Wirkola.

O Iraque anda muito visto e o que é demais, enjoa; já zombies nazis a ressuscitar da neve dos fiordes...

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A guerra das rosas

Eu não sei o que é que levou dois jornais, um centenário, já algo tablóide, e outro, mais recente mas que considerava de referência, a entrar neste tipo de guerra.

Se um perdeu o tino (e a vergonha) e o outro passa por um processo de despedimentos e reformulações (que, estupidamente, não é publicitado por si mas pelos outros) - ou se ambos são meros peões nos jogos de bastidor da miríade de agências de comunicação que pululam pela cena política - tal não é razão para que se assista aos despautérios que têm vindo a ser publicados ou que circulam pelos mentideros da comunicação social.


A continuar assim, esta situação só conduzirá a um único resultado: ao afastamento dos leitores (que são já bem poucos, até porque ambos têm vindo a querer a emular a internet quando um jornal impresso não é, nem queremos que seja, a internet), ao suicídio dos dois jornais e ao consequente desemprego dos guerreiros histéricos do quarto poder.

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2009/09/19

Crescei e multiplicai-vos

May, que cousa é casar?
Filha, fiar, parir e chorar


Sábias palavras, as deste provérbio medieval português. Antigas e vetustas, mas sempre na ordem do dia, especialmente desde a altura em que passou pela cabeça de alguns homens casar com outros homens e da de algumas mulheres em casar com outras mulheres.

Como em tudo na vida, há quem seja a favor e há quem seja contra. Diz-se que se é contra ou que se é a favor do casamento, da família, da procriação, da geração, de tudo ou de nada. Ruído, quase tudo ruído e muitas noções e concepções erradas. Comecemos pelo bê-à-bá: afinal, de que se fala quando se fala de procriação humana? É aqui que reside o busílis da questão.


O sexo

Recordemos as nossas noções básicas de biologia reprodutiva: ocorre procriação sempre que um espermatozóide viável com n cromossomas fecunda um óvulo também ele viável, com n cromossomas, dando origem a um ovo com 2n cromossomas. Subsequentemente, ocorre uma gravidez viável quando esse mesmo ovo se desenvolve em sucessivas mitoses e organogeneses, culminando num processo de parto, findas as quarenta semanas lunares do período de gestação.

O que é mais interessante, neste fenómeno, é o facto de ele ocorrer independentemente da escolha, da vontade, da orientação sexual ou da inclinação moral dos progenitores envolvidos. Não interessa ao espermatozóide saber se quem o originou e ejaculou é homossexual, ou se o óvulo pertence a uma menina católica e casta que teve o azar de brincar, com os dedos sujos de esperma do namorado ejaculador precoce, perto demais do orifício vaginal, ou se a mãe é lésbica e o progenitor masculino é transgender – o que nos interessa para esta história é que a biologia se cumpre, sempre, sem grandes pruridos filosóficos ou sociológicos que a entravem.

E isso é bom. Se eu estou para aqui a escrever isto, e vocês estão aí, desse lado, a ler-me, é porque somos o resultado de um encadeamento contínuo de actos sexuais bem sucedidos, entre fêmeas e machos primatas, ao longo de milhões de anos.

Uma outra conclusão colateral, mas não menos importante, a que podemos chegar é a de que todos os indivíduos que nasceram mas não geraram descendência – porque não eram viáveis, porque não quiseram, não os deixaram, ou não puderam – não têm qualquer representação entre nós. São património genético perdido, para todos os efeitos morto, enterrado e esquecido.

Resumindo, a espécie humana evolui porque procria e procria porque para tal tem esse instinto.

Estão, então, definidos os termos procriação, geração e reprodução sexuada.


A família

Passemos agora à definição de família. Desde a noite dos tempos, qualquer primata digno dessa definição foi beber à sua raiz mamífera a necessidade de viver em sociedade, não só para suprir as suas inatas carências afectivas como para também colmatar outras necessidades básicas - de que dou como exemplo a protecção mútua contra os outros predadores, a desparasitação assistida ou o simples convívio social como antídoto contra a síndrome do elefante solitário.

Com a progressiva antropomorfização do primata e a consequente complexidade crescente do seu relacionamento inter-individual, assim se adensaram as relações sociais dentro dos grupos que foram sendo criados.

Dos bandos básicos, formados por um macho alfa, dominante, por várias fêmeas e por jovens crias ainda não maturas sexualmente surgiu - com o passar dos séculos, com o retrocesso do nomadismo, o aparecimento da agricultura sedentária e o consequente surgimento da noção de propriedade de terras agrícolas, de gado e casas – um outro tipo de grupos, no que respeita à convivência em sociedade.

Em primeiro lugar, o clã, que agrupa a comunidade de pessoas provenientes de um mesmo antepassado, resultando a sua identidade própria de vínculos religiosos ou de propriedades comuns ao trabalho colectivo, tendo parentesco entre elas, não por serem irmãos, mas porque se identificam todos com um animal ou uma planta ou outra coisa qualquer como, por exemplo, um determinado tipo de tartan escocês. ´

Uma ramificação do clã é a tribo que se agrupa de acordo com um totem qualquer - um animal, planta ou objecto considerado sagrado e que essas tribos respeitam, evitando matá-lo, comê-lo ou destruí-lo, constituindo uma sociedade formada por pessoas que se consideram procedentes da mesma origem, mas distinguindo-se das outras sociedades desta natureza pelo facto do seu parentesco se fundar na comunidade do totem e não em relações de consanguinidade definidas.

Em segundo lugar, surge a evolução natural do bando animal, a família patriarcal. Esta associação é fundada na autoridade do Chefe, o tão afamado bonus pater familiae dos Romanos, que agrega à sua volta e sob a sua autoridade um grupo de pessoas. Neste caso, o Direito Romano contempla já uma normalização jurídica da família, estabelecendo as regras da agnação – o parentesco de consanguinidade por varonia – e da cognação – o parentesco pelo lado das mulheres - produzindo importantes consequências, nomeadamente a nível dos domínios da sucessão hereditária e da tutela dos bens do patriarca.

Em todo o caso, é na Antiguidade Clássica que surgem os institutos familiares, enquadrados por normas ou complexos normativos, dos quais resultam laços civis de parentesco produtores de importantes consequências jurídicas e sociais na esfera humana e patrimonial dos sujeitos, adquirindo a família relevância política como factor fundamental de organização social e princípio de defesa e conservação das pessoas e bens de uma comunidade.

É em resultado dessa maior protecção jurídica que surge a família conjugal, assente na institucionalização da relação dos cônjuges, com efeitos típicos e imediatos estendidos apenas a graus limitados de parentesco.

É a família conjugal que irá, através da sua articulação com todas as outras instituições políticas e sociais, estruturar a maior parte das comunidades europeias a partir da queda do Império Romano.


O contrato de compra e venda

E como é que se formava uma família conjugal?

Bom, existia em primeiro lugar os esponsais - cerimónias ante-nupciais consistindo numa promessa recíproca de casamento a celebrar entre os futuros cônjuges ou entre quem os representasse legalmente.

Os esponsais eram, no fundo, um contrato com vínculo legal que, na tradição visigoda, constituía de facto, uma primeira etapa no processo de casamento – um processo que mais não era do que a transmissão da mulher da sua família de origem para o domínio familiar do marido, naquilo a que se chamou tradição (a traditione latina, o acto de transmitir ou entregar). Lá dizia o também medieval provérbio filha desposada, filha apartada

Como todo e qualquer contrato legal, convinha que os esponsais se celebrassem de forma pública. No direito visigótico, e posteriormente nos tempos da Reconquista cristã, a publicidade do acto assegurava-se pela sua escritura perante testemunhas. Como penhor do cumprimento da promessa, era entregue o anel esponsalício. Se o contrato fosse quebrado por qualquer das partes, haveria direito a multa, se fosse o noivo a faltar ao comprometido, e à punição da mulher como adúltera, caso esta não guardasse fidelidade ao seu prometido.

Associadas à entrega do anel esponsalício, havia ainda outras formalidades a cumprir, entre as quais a mais importante era a lei do ósculo - um costume em que, com um beijo dado perante as testemunhas, o noivo celebrava publicamente o noivado e a consequente entrega das arras. E o que são as arras?

As arras derivam etimologicamente do latim arrhabo - penhor ou refém - sendo mais propriamente o dinheiro dado como sinal e princípio de pagamento em garantia de um contrato ou, neste caso dos esponsais, constituindo os bens de natureza dotal assegurados pelo noivo à noiva através de escritura pública.

E pública porquê? Porque a questão do dote era importante. Com efeito, num tempo em que a virgindade de uma mulher era o seu passaporte de acesso à vida estável do casamento, as arras serviam não só para garantir que o noivo não voltava atrás com a palavra dada, depois de eventualmente ter já encetado a mercadoria, como servia também para, numa época em que a esperança de vida era bem curta, garantir a sobrevivência da viúva no caso de falecimento do promitente - fundamentalmente, as arras eram a segurança no cumprimento da promessa do casamento.

Pelo que acima fica exposto, claro se torna que a constituição de uma família conjugal só toma força de lei através da celebração pública de um contrato legal, na presença de testemunhas.


Deus não gosta de concubinatos

Como ficou acima exposto, tudo isto se passava na Europa pós-queda do Império Romano. É apenas aquando da Reconquista da Península Ibérica que surge em força em Portugal um novo jogador: a Igreja Católica.

Ora, se hoje a Igreja Católica considera que o matrimónio é um sacramento, um “sinal da união de Cristo e da Igreja, que confere aos esposos a graça de se amarem com o amor com que Cristo amou a sua Igreja; aperfeiçoando assim o amor humano dos esposos, dando firmeza à sua unidade indissolúvel e santificando-os no caminho da vida eterna”, a verdade é que nem sempre foi assim. Com efeito, é só com o Concílio de Trento (1545-1563) que o Matrimónio é assumido e reconhecido pela Igreja como Sacramento (entre os sete existentes).

Na Idade Média, a barbárie dos povos, a licenciosidade das mulheres, a luxúria dos homens, bem como a falta de controlo do Poder civil e militar, escasso para supervisionar territórios imensos, escassamente povoados e de difícil acesso, levou a que a norma fosse a união de facto e a explosão de filhos bastardos ou de pais desconhecidos. Tanto era assim que, no século IV, um dos mais famosos Doutores da Igreja, Santo Agostinho, olhava para o casamento com pessimismo, vendo-o mais como uma espécie de remédio moral para a libertinagem que então grassava do que como um contrato jurídico.

Aproveitando a boleia dada pelo facto de o casamento ser um contrato público, cuja celebração se revestia de alguma solenidade, bem como o enfraquecimento do poder civil no decurso da baixa Idade Média, a Igreja irá associar a esse contrato um determinado número de solenidades religiosas tendentes a realçar a importância, a significação moral desse acto e a ideia de liberdade de casamento, colocando na esfera do sagrado aquilo que até então sempre fora considerado como um acto privado entre duas partes, primeiro entre duas famílias, depois entre os próprios nubentes - e que encontrava sempre a sua expressão jurídica, primeiro na ideia de uma compra e venda, e mais tarde, na própria ideia geral de contrato.

Nessa primeira etapa de consolidação do seu poder enquanto autoridade religiosa, o direito canónico considerava os esponsais como uma primeira fase do casamento, em que a expressão do consenso nupcial já era patente. Gregorio IX, pai da Inquisição e Papa entre 1227 e 1241, decretou que, se à troca mútua da promessa de casamento sobreviesse a cópula carnal entre os promitentes, estaria automaticamente verificada a existência de matrimónio. Estava inventado o casamento presumido.

De resto, pouco mais havia de simbólico ou sagrado no casamento comum nos finais do Império Romano. Dividida entre as dores de crescimento, a luta contra os infiéis e descrentes e a luta sempiterna contra os costumes pagãos, a Igreja Católica via o casamento ainda como um simples contrato consensual, que poderia, ou não, ser abençoado por um sacerdote.

A partir da existência, ou não, do consenso – pormenor da maior importância num direito canónico que se considerava moldado pelo humanismo cristão - casamentos havia muitos: o casamento por rapto, por exemplo, que acontecia sempre que se ia contra a vontade de alguém (se os noivos se entendiam contra a vontade expressa dos pais da nova, existia o chamado casamento de palavra presente porque, embora sendo consensual, existia apenas pela celebração do negócio jurídico; ou seja, não bastava haver o acordo de vontades, era precisa a tradição).

Em todo o caso, a Igreja Católica e a sociedade cristã em geral, reconheciam três formas de casamento:

1) o casamento por bênção ou ad benedictionem, celebrado à face da Igreja in conspectu eccleside que envolveria, idealmente as seguintes fases: o petitio (o pedido da noiva pelos pais do noivo); o desponsatio (o entendimento das famílias sobre a ligação dos seus filhos); o dotatio (o entendimento sobre o dote), a traditio (a entrega da mulher ao noivo pelos pais da noiva); as publicae nuptiae (a cerimónia do casamento, propriamente dita) e, finalmente, a copula carnalis (união carnal do noivo com a expectável virgem).

2) o chamado casamento clandestino (designação canónica) ou casamento a furto, de juras ou de juras in manu clerici (designações civis e populares): uma união que não se celebrava na igreja nem se revestia das formalidades rituais do verdadeiro matrimónio religioso, embora contasse com a presença de testemunhas e de um clérigo. Quem se casava por juras - ou seja, se juntava um com o outro - vivia numa união que tinha uma validade meramente civil;

3) e, finalmente, o casamento de publica fama ou de conhoçudos, que resultava de uma união conjugal contraída de forma clandestina, possuindo no entanto a qualidade de matrimónio pela fama em que eram tidos os cônjuges, como tais, pela comunidade em que se inseriam.

Em todo caso e para todos os efeitos, o único casamento perfeitamente legítimo aos olhos da igreja era o casamento por bênção, revestindo-se a união da dignidade de um sacramento - os outros dois, embora válidos aos olhos da sociedade, eram ilegítimos aos olhos da Igreja, já que não gozavam dos efeitos de ordem sobrenatural que a bênção produzia.

A nível civil, poucas diferenças havia já que tanto os casados com a bênção da igreja, como os casados de juras, tinham igual obrigação de viver juntos e de guardar mútua fidelidade. A comunhão universal de bens e a comunhão geral de adquiridos, ocorria igualmente tanto nos casamentos celebrados com a intervenção da benção sacerdotal, como nos casamentos a furto, e em todos os casamentos clandestinos presumidos em que aquela intervenção não existia. De igual modo, quer o marido casado à face da Igreja, quer o casado clandestinamente podiam impunemente matar a mulher adúltera e o seu putativo amante, sem que por esse facto incorressem na inimizade ou na vingança da família da assassinada.

Conta Fernão Lopes na sua Crónica de Dom Fernando (provavelmente redigida por volta de 1436) que Dom João, filho de Pedro o Cru e de Inês, a Galega, se casou em segredo, por palavras, com Dona Maria Teles, irmã da Rainha Leonor Teles e viúva de Dom Álvaro, exilado para Espanha pelo pai do dito Dom João, por este andar metido com uma outra dona com quem o Rei andava igualmente concubinado. Ora, casamento poderia ser, público é que não convinha que fosse a Dom João.

Foi esse aliás o argumento a que recorreu o fidalgo para a matar em Coimbra. Endemoninhado pelas intrigas da Rainha, irmã da futura vítima, Dom João irrompe uma noite pelas casas onde dormia Dona Maria, acusando-a em altas vozes de tornar público o contrato nupcial e de outros factos um pouco mais gravosos: “E, se minha mulher sois, ainda mais me mereceis a morte, por me pordes as cornas dormindo com outrem”. E deu-lhe com o punhal entre o ombro e os peitos, perto do coração, efectivamente dando-lhe liberdade à alma que se despediu, bufando muito sangue (morte violenta, como violentos eram os mimos trocados em guerra, nesses tempos. Basta lembrar os insultos feitos aos sitiados de Torres Vedras pelos fidalgos do Mestre de Aviz - de fideputa a vassalos do Diabo alfenado, passando por cornudos e outros vernáculos semelhantes – ou as farpas trocadas entre castelhanos e portugueses, na batalha da Salga em 1581, em que os espanhóis desembarcados na Ilha Terceira atazanavam os defensores lusitanos gritando-lhes das trincheiras que ainda aquela noite os haveriam de fazer cabrões).

Esta noção de adultério, de traição sexual, é fundamental para o que aqui se discute, agora. Enquanto que, se em todas as espécies há apenas duas estratégias de dispersão de genes - optando umas pela estratégia r (produzem um elevado número de descendentes, investindo neles muito pouca energia na sua defesa e protecção após o nascimento, caso dos peixes e dos insectos, por exemplo) e outras pela estratégia k (produzem um, dois ou três descendentes, investindo uma grande quantidade de tempo e energia no seu acompanhamento pós-parto, caso dos mamíferos) – há uma diferença entre todas as outras espécies e a humana numa questão fundamental: enquanto que, para os demais animais, o desejo sexual é uma estratégia encontrada para a propagação dos genes, entre homens e mulheres o desejo sexual é uma estratégia utilizada para se obter prazer sexual - e é esse prazer que se encontra a verdadeira estratégia dos genes humanos para se autopropagar.

Por aí se vê o quanto somos diferentes dos restantes animais. A mulher tem, até, algo único no reino animal: uma ovulação oculta. Enquanto uma égua, por exemplo, apresenta sinais bem evidentes de que se encontra no seu período fértil - essa janela temporal óptima para se poder engravidar e que dá pelo nome de cio – evidenciando uma vulva entumescida, brilhante e molhada, tudo sinais por demais evidentes para qualquer garanhão que por lá passe, já os homens, e quase sempre as próprias mulheres, não sabem quando elas estão férteis.

E porquê? Porque, se nos primórdios da humanidade, os machos poderiam ser tentados a matar as crias geradas por outros machos, de modo a suspender a lactação da fêmea para a poder fecundar de novo e garantir que os seus genes, e não os do concorrente, seriam os sobreviventes, já com uma ovulação oculta fica difícil dizer quem é o verdadeiro pai – logo, eliminar a cria deixa de ser uma opção racional, porque ela poderá bem ser a nossa (e sim, os testes de paternidade vieram inviabilizar esta artimanha da Natureza).

Por outro lado, à medida que o homem se foi transformando num animal social e politicamente organizado, a ovulação oculta começou a ter uma outra utilidade: a de manter o parceiro interessado - já que, se ele nunca souber se a última cópula levou à fecundação, mais vale permanecer junto da fêmea até que esta engravide e dê à luz, para que não haja dúvida alguma sobre a sua paternidade.

Isto era, e é, válido especialmente para populações excedentárias, com grande competição entre machos. O caso pode mudar de figura quando falamos de pequenas comunidades geneticamente isoladas, em que a consanguinidade pode ser um verdadeiro perigo à viabilidade dos indivíduos. Em 1307, Marco Pólo contava que vivia na província asiática de Camul um povo entalado entre desertos que para além de bem disposto, tinha um costume curioso – se algum estrangeiro aí se alberga, ficam muito contentes e mandam às mulheres que lhe sirvam tudo aquilo de que tiver necessidade; e o marido sai de casa e vai para outro lugar dois ou três dias. E o estrangeiro fica com a mulher, faz com ela o que quiser, como se fosse sua mulher, e estão com grande tranquilidade: e todos os daquela província são cornudos mas não se envergonham por isso. As suas mulheres são muito belas e têm grande alegria com esse costume.

Na província do Tibete, o costume era semelhante. Quando os comerciantes passam por esta região, conta ainda Marco Pólo, as velhas levam as suas filhas para as estradas e para os albergues e para as suas tendas, em grupos de dez e de vinte e de trinta; e fazem-nas deitar com estes comerciantes e depois as casam. E quando o comerciante acabou à sua vontade, é conveniente que ele lhe dê alguma jóia, para que ela possa mostrar que outros já tiveram relações consigo. E aquela que mais jóias tem, é sinal que mais homens dormiram com ela e por isso mais rapidamente se casa. Na província de Gaindu existe igualmente um lindo costume, segundo o qual não se envergonham se um estrangeiro ou outra pessoa dorme com a mulher ou com a filha ou alguma mulher que tenham em casa. E consideram isto como uma coisa boa e dizem que os seu ídolos lhes dão muitos bens temporais e ordena à mulher e demais família que façam ao estrangeiro tudo aquilo que ele quiser como se o estivessem a fazer a si próprio; e sai para fora e permanece na vila ou noutro local, enquanto o estrangeiro se demora três dias na sua casa.

Infelizmente para os homens da altura, nenhum destes “lindos costumes” era possível de se verificar na Europa Medieval. Não só a pressão populacional levava a que houvesse uma grande competição pela possibilidade de transmitir os seus genes às gerações futuras, como também a sociedade então vigente era de origem patriarcal, fundada que fora nas estruturas de nómadas e pastores da Galileia e da Jerusalém de antanho – não é à toa que, para os judeus, filho de mãe judia é sempre judeu mas filho de pai judeu nunca é judeu; afinal, a mãe sabe sempre que foi mãe; já o putativo pai, nem por isso.

Sinal dos tempos, esta possessividade - apesar da tradição romana, cristã, canónica e civil fixar certas palavras como "recebo-te por meu; recebo-te por minha" – nunca se expressava para o lado da mulher: lá dizia o ditado digna é de nome e fama, a molher que nam tem fama. Se não podia ter fama, havia que ter definitivamente moral. Moral, discreção, modéstia e invisibilidade.

Se a Bíblia diz Não cometerás adultério (Ex 20,14), prometendo a morte aos prevaricadores – se um homem cometer adultério com a mulher do seu próximo, o homem adúltero e a mulher adúltera serão punidos com a morte (Lev 20,10) – afirma também que a culpa nunca era do homem, mas sim da mulher, essa pérfida serpente, provocadora e insolente -porventura pode um homem esconder fogo no seu seio, sem que as suas vestes se inflamem? Ou pode alguém caminhar sobre brasas, sem que os seus pés se queimem? Assim é quem se aproxima da mulher do seu próximo; se lhe tocar, não ficará impune (Pr 7, 1-21).

É precisamente deste espírito patriarcal, no seio do qual se originaram os textos que hoje compõem a Bíblia da Vulgata, que surge a imagem do matrimónio como uma Aliança exclusivista, uma aliança entre um homem e uma mulher, a que corresponde na Bíblia a imagem da Aliança de Deus com os homens (Os 1-3; Is 34 e Ef 5,21-33) - o seu amor mútuo transforma-se em serviço à vida já que, pela sua sexualidade, o Homem pode participar no poder criador de Deus - ou seja, o dom da sexualidade faz com que pessoas diferentes, mas complementares, vivam em comunhão tal que essa vida partilhada se prolonga nos filhos.

Este casamento - ou melhor, esta ideia de casamento - manteve-se praticamente intocada até meados do século passado na nossa sociedade branca, ocidental, judaico-cristã. Tudo o mais que aconteceu nestes últimos 6o anos mais não é do que espuma dos dias.

2009/09/18

Da série só ouço o que é nosso

Já vi tantas vezes (mais de 100, certamente) a versão portuguesa do Cars, da Disney/Pixar, que já acho bem melhores que as originais as vozes da Sally/Vera Kolodzig e do Faísca Mcqueen/Pedro Granger.
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Da série eu bebo o que é nosso






Ando viciado no Galão Alentejano, da Serraleite.

Trompe-l'œil

Afinal, quem é que raio acha que o Slumdog Millionaire é um feel good movie?

Vi-o, finalmente, e acho que fiquei deprimido até ao final do ano.
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2009/09/16


Ainda a Namíbia. O texto já está em linha, aqui e há fotografias, também, aqui.

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