há momentos em que estou
no crepúsculo da sanidade
ou o fio parte
ou engulo o novelo
um dia destes encosto
um revólver à fonte
e espero para ver
de que lado sopra a brisa
do crepúsculo sobra
um fio de luz
ou o fio esvai-se
ou engulo o revólver
de qualquer modo
não me aborrece insistir
quando nada há cá dentro
acabar-se a sanidade
parece ser uma boa atitude
um excelente acto
qualquer dia cavalgo
o crepúsculo até ao outro lado
ou caio das alturas
ou degolo o meu cavalo
e vou finalmente
encontrar alguma paz
finalmente poderei
conhecer o meu mestre
Tuesday, July 14, 2009
Thursday, June 25, 2009
esta centelha
aninha-se numa combustão lenta
um decilitro de gasolina
apenas a apagaria
[na noite uivam os cães
anunciando a morte à solta]
e eu aqui grávido
de palavras vagarosas
e dos avanços e dos retrocessos
nos aforismos e nas conclusões
tudo é igual - e tudo opõe-se
no antes e no depois
desta centelha
não vem cinza nem carvão
um sopro de voz húmida
apenas a apagaria
aninha-se numa combustão lenta
um decilitro de gasolina
apenas a apagaria
[na noite uivam os cães
anunciando a morte à solta]
e eu aqui grávido
de palavras vagarosas
e dos avanços e dos retrocessos
nos aforismos e nas conclusões
tudo é igual - e tudo opõe-se
no antes e no depois
desta centelha
não vem cinza nem carvão
um sopro de voz húmida
apenas a apagaria
Tuesday, April 28, 2009
e mais uma palavra
é simplesmente uma palavra a mais
inevitável uma solidão
- uma mais pura solidão
de olhos que queimam o
descanso em todas as cores -
há um tempo sonolento
nesta cidade de fuligem
queimada do carvão
dos meus olhos
resta o esforço
de aproximação inocente
às ruas e aos minutos
ou não resta nada
é simplesmente uma palavra a mais
inevitável uma solidão
- uma mais pura solidão
de olhos que queimam o
descanso em todas as cores -
há um tempo sonolento
nesta cidade de fuligem
queimada do carvão
dos meus olhos
resta o esforço
de aproximação inocente
às ruas e aos minutos
ou não resta nada
Friday, March 20, 2009
quem me dera ser um pulha
daquela raça adormecida
uns olhos de cão tinhoso
a afiar a navalha numa esquina da cidade
apanhar despercebido o outro
e fazê-lo cuspir-me de ódio e nojo
ir de sorrateiro e corpo mole
galopando o pardo da noite
deixar de mim memórias
e ter companheiros e fiéis de várias hordes
daquela raça adormecida
uns olhos de cão tinhoso
a afiar a navalha numa esquina da cidade
apanhar despercebido o outro
e fazê-lo cuspir-me de ódio e nojo
ir de sorrateiro e corpo mole
galopando o pardo da noite
deixar de mim memórias
e ter companheiros e fiéis de várias hordes
pedir uma criança carinho a um pai
será como rogar por água na terra ressequida
[não há enxada que sirva
quando o pó é esquivo]
um pai concede a camaradagem
quando surge a estação certa
bem avançados somos nós
na confusão que fazemos de tudo
à mãe a primavera e o verão
ao pai o outono e o inverno
à mãe o tempo árduo e o alarme
ao pai a brisa vaga e o descanso
será como rogar por água na terra ressequida
[não há enxada que sirva
quando o pó é esquivo]
um pai concede a camaradagem
quando surge a estação certa
bem avançados somos nós
na confusão que fazemos de tudo
à mãe a primavera e o verão
ao pai o outono e o inverno
à mãe o tempo árduo e o alarme
ao pai a brisa vaga e o descanso
Wednesday, March 11, 2009
ganhei a sabedoria atrevida dos velhos precoces
e enfim já não brotam os poemas
debito as palavras como de bengala na mão
o outro braço circunscrevendo arcos largos
não tenho rugas - já tenho rugas
[e mãos quentes e moles]
e já não sei calar as palavras ufanosas
tudo serve de rastilho
para o meu entumescimento
e enfim já não brotam os poemas
debito as palavras como de bengala na mão
o outro braço circunscrevendo arcos largos
não tenho rugas - já tenho rugas
[e mãos quentes e moles]
e já não sei calar as palavras ufanosas
tudo serve de rastilho
para o meu entumescimento
Saturday, February 21, 2009
aprovisionar os meus entusiasmos
e deixá-los amadurecer como um bom vinho
ou como um hidromel sofrível
julgo que isso sim seria relevante
ao invés de cevar-me com os meus despojos
acto de vermes a despontar na pele
esvaziar as mãos cheias de desejos
também não era uma má ideia
entender a procura como algo
importante mas adiável
afinal para quê entusiasmos
o fracasso e o ganho são da mesma cor
passar o tempo bebendo água
e deixá-los amadurecer como um bom vinho
ou como um hidromel sofrível
julgo que isso sim seria relevante
ao invés de cevar-me com os meus despojos
acto de vermes a despontar na pele
esvaziar as mãos cheias de desejos
também não era uma má ideia
entender a procura como algo
importante mas adiável
afinal para quê entusiasmos
o fracasso e o ganho são da mesma cor
passar o tempo bebendo água
Monday, February 16, 2009
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