Tuesday, July 14, 2009

há momentos em que estou
no crepúsculo da sanidade

ou o fio parte
ou engulo o novelo

um dia destes encosto
um revólver à fonte

e espero para ver
de que lado sopra a brisa

do crepúsculo sobra
um fio de luz

ou o fio esvai-se
ou engulo o revólver

de qualquer modo
não me aborrece insistir

quando nada há cá dentro
acabar-se a sanidade

parece ser uma boa atitude
um excelente acto

qualquer dia cavalgo
o crepúsculo até ao outro lado

ou caio das alturas
ou degolo o meu cavalo

e vou finalmente
encontrar alguma paz

finalmente poderei
conhecer o meu mestre

Thursday, June 25, 2009

esta centelha
aninha-se numa combustão lenta

um decilitro de gasolina
apenas a apagaria

[na noite uivam os cães
anunciando a morte à solta]

e eu aqui grávido
de palavras vagarosas

e dos avanços e dos retrocessos
nos aforismos e nas conclusões

tudo é igual - e tudo opõe-se
no antes e no depois

desta centelha
não vem cinza nem carvão

um sopro de voz húmida
apenas a apagaria

Tuesday, April 28, 2009

e mais uma palavra
é simplesmente uma palavra a mais

inevitável uma solidão
- uma mais pura solidão
de olhos que queimam o
descanso em todas as cores -

há um tempo sonolento
nesta cidade de fuligem
queimada do carvão
dos meus olhos

resta o esforço
de aproximação inocente
às ruas e aos minutos

ou não resta nada

Friday, March 20, 2009

quem me dera ser um pulha
daquela raça adormecida

uns olhos de cão tinhoso
a afiar a navalha numa esquina da cidade

apanhar despercebido o outro
e fazê-lo cuspir-me de ódio e nojo

ir de sorrateiro e corpo mole
galopando o pardo da noite

deixar de mim memórias
e ter companheiros e fiéis de várias hordes
pedir uma criança carinho a um pai
será como rogar por água na terra ressequida

[não há enxada que sirva
quando o pó é esquivo]

um pai concede a camaradagem
quando surge a estação certa

bem avançados somos nós
na confusão que fazemos de tudo

à mãe a primavera e o verão
ao pai o outono e o inverno

à mãe o tempo árduo e o alarme
ao pai a brisa vaga e o descanso

Wednesday, March 11, 2009

ganhei a sabedoria atrevida dos velhos precoces
e enfim já não brotam os poemas

debito as palavras como de bengala na mão
o outro braço circunscrevendo arcos largos

não tenho rugas - já tenho rugas
[e mãos quentes e moles]
e já não sei calar as palavras ufanosas

tudo serve de rastilho
para o meu entumescimento

Saturday, February 21, 2009

aprovisionar os meus entusiasmos
e deixá-los amadurecer como um bom vinho
ou como um hidromel sofrível

julgo que isso sim seria relevante
ao invés de cevar-me com os meus despojos
acto de vermes a despontar na pele

esvaziar as mãos cheias de desejos
também não era uma má ideia

entender a procura como algo
importante mas adiável

afinal para quê entusiasmos
o fracasso e o ganho são da mesma cor

passar o tempo bebendo água

Monday, February 16, 2009

não vale a pena apressar o passo
há a incólume coluna de anseios
que respira-me ao pescoço

a importância de um minuto
é sentenciada pela turba
que ri-se do meu aspecto

vale mais a pena voltar-me
e encarar tudo
com um sorriso abdominal

e mandá-los todos
para o caralho