URBANO
Agora que o n.º 104 / Julho-Agosto está na rua, deixo aqui a crónica Urbano, publicada no n.º 103 na minha coluna da LER, Heterodoxias:
Um dos livros que me ofereceram no dia em que fiz 14 anos foi Bastardos do Sol (1959), de Urbano Tavares Rodrigues. Então com 40 anos, o autor era um escritor admirado e respeitado pela intelligentzia moçambicana. Lembro-me do orgulho com que Guilherme de Melo contou aos amigos que o seu primeiro romance, As Raízes do Ódio, ia ser publicado “na Metrópole” por intervenção sua. Assim aconteceu, embora a Pide, alertada para o conteúdo, tenha apreendido a segunda edição (a primeira esgotou assim que chegou às livrarias). O Guilherme escapou à cadeia porque, no Moçambique de 1965, não era fácil justificar a prisão de um jornalista que tratava o Poder por tu.
Isto para dizer que descobri Urbano Tavares Rodrigues em Agosto de 1963. Naquele tempo, era natural um adolescente deixar-se sugestionar por títulos fortes: A Porta dos Limites (1952), Vida Perigosa (1955), A Noite Roxa (1956), Uma Pedrada no Charco (1958), Nus e Suplicantes (1960), Os Insubmissos (1961), etc. No país do faz de conta, a nitidez do autor era um ónus. Nunca esqueci a Irisalva que cospe na sopa de beldroegas do irmão. Para o rapazinho que adormecia no universo algodoado de Enid Blyton, a prosa seca deste homem amável foi decisiva. À distância de quase meio século, vemos que não desistiu: ainda há poucas semanas surpreendeu com Os Terraços de Junho. O largo convívio com a cultura do Iluminismo mantém intacta a licenciosidade da obra.
Num país como a França ou mesmo em Espanha, Urbano seria uma lenda. Lutou contra a ditadura, esteve preso, viajou muito, ensinou em Montpellier (1949-52) e Paris (1952-55), foi marido de Maria Judite de Carvalho, construiu uma obra de proporções assinaláveis (noventa títulos), estudou como ninguém a obra de Manuel Teixeira-Gomes, traduziu o Decameron de Boccaccio e, em 1993, jubilou-se como professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Salazar, que não gostava dele, afastou-o do ensino em 1959. Nem o facto de ser assistente de Vitorino Nemésio demoveu o ditador. A todas estas, a omissão do jornalismo cultural transformou-o numa estátua.
Autor de uma extensa obra ficcional e ensaística, Urbano é o decano dos escritores portugueses. Sou capaz de perceber que os ensaios que escreveu sobre o neo-realismo, as vanguardas, o mito de Don Juan e o nouveau roman, atento o enfoque datado desses textos, estejam longe das prioridades dos editores em 2011. Mas os contos, novelas e romances, bem como os livros de viagens e crónicas, justificam outra atenção.
Os dez volumes das Obras Completas (Dom Quixote) coligem quarenta e dois títulos publicados entre 1952 e 2008, a que se juntam outros seis, autónomos do núcleo principal. Com Urbano não há desculpa.
Num dos últimos romances, Ao Contrário das Ondas (2006), o retrato da burguesia gauche desencantada com a revolução é feito em grande angular: dirigente de esquerda à frente da Justiça num governo de direita; envios a Vittorini, Bernhard e Zeca Afonso; vénia a Vasco Gonçalves; corrupção, narcotráfico e FARC; cinema independente iraniano; liturgia do Bloco de Esquerda (a Mitó, ninfomaníaca gótica); toxicodependência e HIV; adultério como pacto entre iguais.
É fácil imaginar Urbano discreteando com Beaumarchais. Quem como ele não precisou de abdicar da formação marxista para ser um liberal entre cosmopolitas radicais (o erotismo da obra ainda perturba, suponho mesmo que mais do que há cinquenta anos), merece reputação equivalente à do Fígaro.
Lembrar que em 2012 se celebram os 60 anos da sua estreia literária.


















































