Domingo, Julho 03, 2011

URBANO


Agora que o n.º 104 / Julho-Agosto está na rua, deixo aqui a crónica Urbano, publicada no n.º 103 na minha coluna da LER, Heterodoxias:


Um dos livros que me ofereceram no dia em que fiz 14 anos foi Bastardos do Sol (1959), de Urbano Tavares Rodrigues. Então com 40 anos, o autor era um escritor admirado e respeitado pela intelligentzia moçambicana. Lembro-me do orgulho com que Guilherme de Melo contou aos amigos que o seu primeiro romance, As Raízes do Ódio, ia ser publicado “na Metrópole” por intervenção sua. Assim aconteceu, embora a Pide, alertada para o conteúdo, tenha apreendido a segunda edição (a primeira esgotou assim que chegou às livrarias). O Guilherme escapou à cadeia porque, no Moçambique de 1965, não era fácil justificar a prisão de um jornalista que tratava o Poder por tu.

Isto para dizer que descobri Urbano Tavares Rodrigues em Agosto de 1963. Naquele tempo, era natural um adolescente deixar-se sugestionar por títulos fortes: A Porta dos Limites (1952), Vida Perigosa (1955), A Noite Roxa (1956), Uma Pedrada no Charco (1958), Nus e Suplicantes (1960), Os Insubmissos (1961), etc. No país do faz de conta, a nitidez do autor era um ónus. Nunca esqueci a Irisalva que cospe na sopa de beldroegas do irmão. Para o rapazinho que adormecia no universo algodoado de Enid Blyton, a prosa seca deste homem amável foi decisiva. À distância de quase meio século, vemos que não desistiu: ainda há poucas semanas surpreendeu com Os Terraços de Junho. O largo convívio com a cultura do Iluminismo mantém intacta a licenciosidade da obra.

Num país como a França ou mesmo em Espanha, Urbano seria uma lenda. Lutou contra a ditadura, esteve preso, viajou muito, ensinou em Montpellier (1949-52) e Paris (1952-55), foi marido de Maria Judite de Carvalho, construiu uma obra de proporções assinaláveis (noventa títulos), estudou como ninguém a obra de Manuel Teixeira-Gomes, traduziu o Decameron de Boccaccio e, em 1993, jubilou-se como professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Salazar, que não gostava dele, afastou-o do ensino em 1959. Nem o facto de ser assistente de Vitorino Nemésio demoveu o ditador. A todas estas, a omissão do jornalismo cultural transformou-o numa estátua.

Autor de uma extensa obra ficcional e ensaística, Urbano é o decano dos escritores portugueses. Sou capaz de perceber que os ensaios que escreveu sobre o neo-realismo, as vanguardas, o mito de Don Juan e o nouveau roman, atento o enfoque datado desses textos, estejam longe das prioridades dos editores em 2011. Mas os contos, novelas e romances, bem como os livros de viagens e crónicas, justificam outra atenção.

Os dez volumes das Obras Completas (Dom Quixote) coligem quarenta e dois títulos publicados entre 1952 e 2008, a que se juntam outros seis, autónomos do núcleo principal. Com Urbano não há desculpa.

Num dos últimos romances, Ao Contrário das Ondas (2006), o retrato da burguesia gauche desencantada com a revolução é feito em grande angular: dirigente de esquerda à frente da Justiça num governo de direita; envios a Vittorini, Bernhard e Zeca Afonso; vénia a Vasco Gonçalves; corrupção, narcotráfico e FARC; cinema independente iraniano; liturgia do Bloco de Esquerda (a Mitó, ninfomaníaca gótica); toxicodependência e HIV; adultério como pacto entre iguais.

É fácil imaginar Urbano discreteando com Beaumarchais. Quem como ele não precisou de abdicar da formação marxista para ser um liberal entre cosmopolitas radicais (o erotismo da obra ainda perturba, suponho mesmo que mais do que há cinquenta anos), merece reputação equivalente à do Fígaro.

Lembrar que em 2012 se celebram os 60 anos da sua estreia literária.

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LER 104


Como sempre acontece no Verão, a edição da LER ontem posta à venda respeita a Julho e Agosto. Ponto forte: um dossiê sobre 24 livros que não há desculpa para não ler. Inclui títulos de Laclos, Whitman, Sena, Durrell, Goethe, Mann, Lowry, Tocqueville, etc. (escrevo sobre os três primeiros). Maria Filomena Molder é a entrevistada de Carlos Vaz Marques: «O pós-modernismo é muito bom porque é uma noite em que todos os gatos são pardos, serve para muita coisa.» Henrique Raposo escreve sobre J. Rentes de Carvalho, o holandês. Um ensaio de João Magueijo (cosmólogo português que lecciona no Imperal College de Londres) sobre Ettore Majorana é um dos textos mais estimulantes deste n.º 104. A minha crónica, Cidadãos, tem como sujeito o historiador britânico Simon Schama, que noutro registo também ocupa Rui Bebiano.

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Sábado, Julho 02, 2011

DSK LIVRE


DSK foi ontem posto em liberdade. Recebeu de volta os milhões da fiança. Jantou com a mulher, Anne Sinclair, e um casal amigo, no Scalinatella do Upper East Side. A França ainda não desistiu de o ter como presidente: as primárias do PS francês terminam no próximo dia 13, mas o partido não exclui alargar o prazo.

Dominique Strauss-Kahn, 62 anos, director-geral do Fundo Monetário Internacional, foi preso no aeroporto JFK de Nova Iorque dez minutos antes de embarcar para Paris. Aconteceu isto às 16:45h (21:45h em Lisboa) de 14 de Maio. DSK seria o grande opositor de Sarkozy nas presidenciais francesas de 2012. Rumores enfáticos nos círculos da alta-finança: os Estados Unidos queriam tirar DSK do Fundo Monetário Internacional. Pano de fundo: destino do Euro. DSK demitiu-se do FMI a 18 de Maio. Esteve preso em Rikers Island até 19 de Maio. A partir desse dia ficou em prisão domiciliária num duplex de Tribeca, um bairro trendy do sul de Manhattan

Nafissatou Diallo, a empregada do hotel que acusou DSK é uma muçulmana negra de 32 anos, natural da Guiné-Conacri. Segundo revelou a polícia, fabricou o depoimento de candidatura a asilo nos EUA, mentindo ao dizer que tinha sido violada e vítima de excisão no seu país de origem. Também falsificou a declaração de IRS, alegando ser mãe de duas filhas, tendo apenas uma. O que se terá passado na suite do hotel não corresponde ao depoimento inicial. Com os telefones sob escuta, a mulher combinou com o seu amante, um traficante de droga preso no Arizona, a melhor forma de espremer DSK: Don’t worry, this guy has a lot of money. I know what I’m doing. Esse telefonema deu-se 28 horas após a suruba, ou seja, menos de 24 horas após a prisão de DSK. Entre as várias coisas que a mulher não conseguiu explicar, estão vários depósitos em dinheiro na sua conta, nos últimos dois anos, totalizando cem mil dólares. Discurso directo da NYPD: «Tem estado a mentir desde o início, sobre o que aconteceu e sobre si própria.»

No próximo dia 18 o juíz decide se o caso é extinto.

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Sexta-feira, Julho 01, 2011

ASFIXIA DEMOCRÁTICA


Por causa da hipotética interferência de Sócrates no fim do Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes, o Parlamento abriu dois inquéritos parlamentares. A jornalista saiu da TVI. Pinto Balsemão acaba de lhe fechar a porta da SIC. Onde é que está a surpresa?

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RELVAS RECRUTA NA RUA DA PRATA


O pequeno Torquemada da direcção-geral de Finanças foi recrutado como assessor para a coterie de Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, a quem Gonçalves chamava pequeno Torquemada de Tomar. Não tem mal. Como diria o pequeno Gonçalves, a coerência é um cagalhão. E as pessoas precisam de ganhar a vida. Na Gomes Teixeira vai com certeza ganhar mais do que ganhava na rua da Prata como chefe de divisão de assuntos disciplinares. O que a gente fica a saber entre duas árias do Festival ao Largo.

Uma proeza, se nos lembrarmos da forma como o pequeno Gonçalves tratava Pedro Passos Coelho: de alforreca a vulgar cacique, chamou-lhe tudo, nos intervalos de, à boleia de Pedro Lomba, classificar o líder do PSD como pantomineiro. Não foi possível confirmar se a pasteleira foi convidada para secretária pessoal do pequeno Gonçalves.

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CONFIRA


Clique na imagem para avaliar o seu caso.

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A MENTIRA


Sejamos claros: Passos Coelho enganou os portugueses que votaram nele. Dito de outro modo, usando a linguagem da bloga avençada à São Caetano, mentiu. Mentiu com todos os dentes que tem na boca. Os alunos da escola de Vila Franca de Xira a quem Passos Coelho garantiu não tocar nos subsídios de Natal e de férias, porque isso seria um disparate, entraram com o pé direito na realpolitik. E não ficamos por aqui. Vítor Gaspar, o chanceler, promete mais. E vai ter de ser tudo muito rápido porque este governo não dura até à Páscoa.

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Quinta-feira, Junho 30, 2011

CURRÍCULOS


Fui ao sítio do governo espreitar o currículo do primeiro-ministro. Fiquei a saber que concluiu a licenciatura em Economia na Universidade Lusíada de Lisboa. Mas em que ano é que isso foi? Em 1976? Ou em 2001? Já sabemos que foi vereador na Câmara Municipal da Amadora entre 1997 e 2001. OK. Mas foi responsável por algum pelouro? Também ouvimos dizer ao tio Ângelo que foi gestor de empresas. OK. Só não sabemos em que estabelecimento de ensino exerceu docência de Economia. Isso o currículo oficial afirma mas não explica. Teria sido ao domingo?

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REINALDO MORAES


Hoje na Sábado escrevo sobre Pornopopeia do brasileiro Reinaldo Moraes (n. 1950) e Histórias vindas a conto de Filomena Marona Beja (n. 1944). O livro de Moraes, uma edição Quetzal, conta a história de Zeca, cineasta amoral sempre com Murnau na boca, dependente de sexo e drogas duras, obrigado a fazer um vídeo institucional sobre enchidos de frango: «Não é cinema, não é epopeia, não é arte. [...] É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco.» É um livro excessivo, culto, pícaro, mordaz, desregrado, muitíssimo bem construído e, ao mesmo tempo, imensamente divertido. A perfeita tessitura pop-erudita. Mete Cesário, fistfucking e surubrâmane. Você não vai esquecer a Sossô. Ao pé dele, Sade é Música no Coração. Os contos de Marona Beja fazem o retrato de um certo Portugal (em tom menor), geração à rasca incluída. Edição Sextante.

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ANA VIDIGAL NO MUSEU DO CHIADO


Diálogo com Praia das Maçãs (1918) de José Malhoa
Clique na imagem
Comissariado por Helena Barranha, Rui Afonso Santos
e Adelaide Ginga
Inaugura hoje às 19:00h

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Quarta-feira, Junho 29, 2011

OS DIAS DO FIM



Por 155 votos contra 138 (sete deputados não votaram), o Parlamento grego aprovou o quinto plano de austeridade. Mas agora não serve de nada. A Europa talvez já esteja disposta a tudo, por ter percebido tarde e a más horas que a bancarrota grega arrastará consigo dezenas de bancos europeus, com os alemães à cabeça. A senhora Merkel bem pode limpar as mãos à parede. Siga os acontecimentos aqui.

[Na foto de baixo vemos a deputada comunista Liana Kanelli a ser impedida de entrar no Parlamento.]

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GAFFE PALHAÇA


Michele Bachmann, 55 anos, membro da Câmara dos Representantes apoiada pelo Tea Party Caucus, mãe adoptiva de 23 adolescentes, está na corrida presidencial americana. Bachmann, uma versão sofisticada de Sarah Palin, nasceu em Waterloo (no Iowa) no seio de uma família originária de noruegueses luteranos.

Ontem, discursando na sua cidade natal, regozijou-se pelo facto de ter nascido na terra de John Wayne. Esse! Azar dela, o John Wayne de Waterloo é um serial killer executado em 1994, conhecido como Palhaço Assassino por ter violado e assassinado em Waterloo 33 rapazes disfarçado de palhaço. (O actor a quem ela se queria referir nasceu em Winterset.) É o que se chama ter pontaria...

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DIA D



É hoje. Clique nas imagens.

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Terça-feira, Junho 28, 2011

O PRINCÍPIO DO FIM


Não vale a pena dourar a pílula: o destino da Europa joga-se neste momento nas ruas de Atenas, onde dezenas de milhares de pessoas estão em pé-de-guerra. Sem a aprovação (e execução) do plano de austeridade a votar amanhã, o qual inclui o despedimento de 150 mil funcionários públicos, Bruxelas não abre os cordões à bolsa. Mas na Grécia só os políticos estão interessados na ajuda. Contradição nos termos? Parece que sim. Num país à beira do default onde 40% da população com menos de 35 anos está desempregada, a ira popular não deixa margem para dúvidas. Num leilão montado no Hotel Claridge de Londres, o governo grego pôs à venda os 850 portos (entre eles o Pireu) do país, 39 aeroportos, as redes de caminhos-de-ferro e auto-estradas, as empresas distribuidoras de energia, etc. Mas não há compradores interessados. Isto vai acabar mal.

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CITAÇÃO, 358


José Pacheco Pereira, Nobre, os Acampados..., excerto, sublinhado meu:

«O comentário político está tão subserviente e balofo, salvo honrosas excepções, que funciona por simples moldes virais, mais ou menos formatados, entre a adesão ao poder sem disfarces, a propaganda pura e o wishfull thinking. Enquanto na era Sócrates esses moldes virais, frases, pseudo-argumentos, contra-argumentos, eram preparados profissionalmente, agora ainda dependem muito do entusiasmo entre o ingénuo e o servil que por aí anda entre blogues, jornais e televisões [...]  agora move a patrulha de amigos de Miguel Relvas, de quem ele foi e é fonte e patrocinador. É, aliás, muito pedagógico ver o movimento de jornalistas para os gabinetes governamentais, uma transumância que devia ter tanta transparência e exposição pública como a de ministros e secretários de Estado. Mas este escrutínio, de um modo geral, a comunicação social hesita em fazer. [...]»

[Na imagem, pintura de Xavier Vaz, 2003.]

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IGUALDADE?


Entre os secretários de Estado que tomam posse daqui a pouco encontra-se a deputada social-democrata Teresa Morais, 51 anos, notabilizada pelo ardor com que se opôs à aprovação de duas leis civilizacionais: identidade de género e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Convicções são convicções. O que não faz sentido é que tenha aceite a pasta da Igualdade, até porque há no PSD quem tenha apoiado essas leis.

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Segunda-feira, Junho 27, 2011

O DESCONVIDADO


Bernardo Bairrão, que vemos ao alto com Lili Caneças, demitiu-se de administrador da Media Capital por, alegadamente, ir tomar posse de secretário de Estado da Administração Interna. Convidado para o governo por Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, despediu-se do grupo a que pertencia desde 1998, comunicando o facto à CMVM. Marcelo Rebelo de Sousa deu a cacha em directo. Passos terá mandado Macedo desconvidar. Macedo desconvidou. E agora assobia para o lado.

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A SUCESSÃO


João Pombeiro, que vemos à direita da imagem, editor-executivo da LER, acumulará com a direcção da revista a partir de amanhã, dia em que Francisco José Viegas toma posse do cargo de secretário de Estado da Cultura do XIX governo constitucional. À frente da editora Quetzal fica Lúcia de Pinho e Melo, até aqui directora-adjunta de Viegas. Boa sorte aos três é o que desejo.

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ÁLVARO


De visita a uma feira, Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, Emprego e Obras Públicas, reagiu ao tratamento protocolar de Senhor Ministro. Contou um episódio passado em Oxford, onde os professores se tratam por Bill e Eddie, afirmando querer ser tratado simplesmente por Álvaro. Marcelo Rebelo de Sousa não deixou passar a oportunidade para (com razão) ironizar: Imagino o motorista: Álvaro, vamos para o ministério ou bebemos um café?

Portugal é o único país da Europa, sendo as excepções do vasto mundo o Brasil e Angola, em que toda a gente é tratada por doutor. Basta ir a um seminário para verificar que só os participantes portugueses têm a identificação antecedida de grau académico, motivo de anedotário entre pares estrangeiros. Cá dentro o ridículo atinge o paroxismo, com alguns a puxar em directo na televisão os galões à cátedra. Miguel Frasquilho tem sido vítima de um colega seu de partido que (ele o diz) até é prof e está sempre a invocar essa condição. O estado de Graça de que está a gozar o novo governo releva do brilho dos currículos académicos de alguns nomeados. Poucos se preocupam em saber se vão ter estaleca para nos tirar do buraco: são doutores, isso basta!

Num país em que colunistas generalistas assinam “Fulano, jurista” ou “Beltrano, historiador” (numa assunção clara de falta de autoridade do nome), Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, Emprego e Obras Públicas, tem pela frente um longo caminho. O país dos bachareis de Camilo deu lugar ao país dos doutores da mula ruça. Proponho que o senhor ministro Santos Pereira faça aprovar em Conselho de Ministros uma norma que, em matéria protocolar, nos equipare ao mundo civilizado.

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Sábado, Junho 25, 2011

NY EM FESTA



Por 33 votos contra 29, o Senado de Nova Iorque legalizou ontem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aprovada quatro vezes na Assembleia do Estado, a lei foi sempre chumbada no Senado. Ontem à tarde, quatro senadores republicanos votaram ao lado dos democratas e aprovaram-na. Todos os detalhes aqui. Dentro dos Estados Unidos, o Estado de Nova Iorque junta-se assim ao Connecticut, Iowa, Massachusetts, New Hampshire, Vermont, District of Columbia (Washington) e à tribo Coquille da Nação Navajo. No vasto mundo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal nos seguintes países: África do Sul, Argentina, Bélgica, Canadá, Espanha, Holanda, Islândia, Noruega, Portugal e Suécia. E ainda na Cidade do México. Na Alemanha, Dinamarca, França e Reino Unido não há casamento, mas as respectivas uniões civis entre pessoas do mesmo sexo consagram todos os direitos do casamento, direito sucessório incluído.

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GANDHI, O ENRUSTIDO


Sobre o Mahatma Gandhi (1869-1948) já se disse tudo mais um par de botas. O menino de Porbandar que leu o Bhagavad-Gita em inglês, estudou direito em Londres e trabalhou como advogado da firma Dada Abdulla & Co em Durban (1893-1915) antes de tornar-se o ideólogo da não-violência na Índia britânica, muitos anos depois de ter tomado parte na guerra dos boers. A posteridade pôs entre parênteses os 22 anos que viveu na África do Sul, em especial a sua condição de homossexual enrustido. Agora, Joseph Lelyveld põe tudo em pratos limpos: Great Soul. Mahatma Gandhi and His Struggle With India ilumina os anos sul-africanos:

«[...] Lelyveld assumes his readers are familiar with the basic outlines of Gandhi’s life, and while the book includes a bare-bones chronology and is helpfully divided into South African and Indian sections, it moves backward and forward so often, it’s sometimes harder than it should be to follow the shifting course of Gandhi’s thought. But Great Soul is a noteworthy book, nonetheless, vivid, nuanced and cleareyed. The two decades Gandhi spent in South Africa are too often seen merely as prelude. Lelyveld treats them with the seriousness they deserve. “I believe implicitly that all men are born equal,” Gandhi once wrote in the midst of one of his campaigns against untouchability. “I have fought this doctrine of superiority in South Africa inch by inch.” It actually took a long time for the Mahatma to turn that implicit belief into explicit action, Lelyveld reminds us. [...]»

Isto inclui a relação amorosa de Gandhi com Hermann Kallenbach, um fisioterapeuta alemão que deixou a mulher por causa dele (a relação acabou em 1915). Para quem não saiba, Joseph Lelyveld (n. 1937), Prémio Pulitzer em 1986, foi editor-chefe do NYT e escreve regularmente na New York Review of Books. Esta semana, o Wall Street Journal publicou excertos da correspondência entre Gandhi e Kallenbach.

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Sexta-feira, Junho 24, 2011

TÃO DIVERTIDO!


De que ri esta gente? Com a Grécia a desmoronar, ficava bem a Merkel e a Sarkozy (os outros contam pouco) um módico de pudor. Os sorrisos não começaram ontem, a gente sabe. Há anos que esta gente anda divertida com a importância que dá a si mesma. Sucede que tudo mudou muito depressa nos últimos dias. O default da Grécia não vai ser bonito de ver. Quando os bancos forem assaltados e as embaixadas em Atenas estiverem a arder, pode ser que deixem de rir.

Os ingleses, por exemplo, acham pouca graça à bagunça.

[Foto de Yves Herman para a Reuters, in Público.]

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ACTORES À RASCA


A revista do Diário de Notícias publica hoje um dossiê sobre as reformas de alguns actores portugueses. A imagem ao alto, roubada à capa do suplemento, é um retrato fiel do país. Eunice Muñoz (n. 1928), que trabalha desde 1941 (estreou-se aos 13 anos no Teatro Nacional D. Maria II, na peça Vendaval de Virgínia Vitorino), tem uma reforma de mil euros. Matéria de reflexão para todos, geração à rasca em particular. Clique na imagem para ver melhor.

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CITAÇÃO, 357


José Pacheco Pereira, E não se pode falar da maçonaria...?, revista Sábado, anteontem:

«Escrevo sem saber os resultados da eleição do Presidente da Assembleia da República. Uma coisa eu sei: a maçonaria está a mover-se a favor de Fernando Nobre. Interessante. Dito isto assim, claro e direitinho, porque ainda tenho na memória a enorme dificuldade com que Marcelo Rebelo de Sousa no passado domingo querendo dizer a mesma coisa, sabendo certamente o mesmo que eu, andou ali às voltas para o dizer, com mil rodeios. Mas qual é o problema de enunciar o papel que a maçonaria tem na vida pública? Por que razão ele tem de ser apenas sugerido ou ciciado? Não é crime ser da maçonaria, não é crime falar da maçonaria, nem ninguém tem de aceitar as regras de discrição que os maçons aceitam, quando se trata da vida pública. Por isso seria também importante que se soubesse mais sobre qual é a real influência da maçonaria no actual PS, onde se sabe alguma coisa, e no actual PSD, onde se sabe muito pouco.»

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Quinta-feira, Junho 23, 2011

CITAÇÃO, 356


Jorge Silva Melo, hoje no Público, sobre o actor Pedro Hestnes Ferreira, morto no passado dia 20 aos 49 anos de idade. Excerto:

«[...] Não há quintal que o possa abrigar, há gente que é assim, ave para sempre ferida, e nunca haveria pacificação, o Pedro foi sempre um rapaz. E são assim os rapazes, como nos livros, incuráveis, lindos, os rapazes têm febre. [...]»

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VEJAM COMO SOMOS AUSTEROS


Os media entraram em orgasmo colectivo: Passos e os seus quatro acompanhantes viajam hoje para Bruxelas em classe económica. Felgueiras, em transe: O primeiro-ministro mandou trocar as passagens de Primeira Classe por lugares em Classe Económica. Dando de barato que a jornalista confunde primeira classe (inexistente nos vôos dentro da Europa) com classe executiva, o que é que vai acontecer? O primeiro-ministro e acompanhantes vão ser convidados a passar para os lugares da frente. Nenhum avião descola sem que o comandante seja informado da presença de VIP's a bordo. Não confundir com pessoas que aparecem nas revistas do social.

Por maioria de razão, o vôo que levará Passos a Bruxelas será monitorizado com pinças. Admitindo que o primeiro-ministro, num gesto para tv registar, recusa mudar de lugar (e com ele o bando dos quatro), não é preciso ser bruxo para adivinhar que a tripulação zelará por estabelecer um cordão sanitário entre suas excelências e os outros passageiros. Afinal de contas, se suas excelências não tiverem lugares vagos ao lado, onde é que põem os dossiês que levam na mão? Tudo isto é uma pepineira. Em nome da austeridade, o PM obriga a companhia a mudar toda a logística de vôo, porventura a antecipar o overbook.

Estranho mesmo é ninguém ter-se lembrado de perguntar: E o Falcon do governo? Foi para a sucata?

[Na imagem, detalhe do interior de uma classe executiva. Não confundir com 1.ª Classe.]

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Quarta-feira, Junho 22, 2011

AL BERTO EM ITÁLIA


Com tradução de Giulia Lamoni e António Fournier, Edizioni dell’Orso deu agora à estampa L’angelo muto de Al Berto (1948-1997). A informada introdução é assinada por Fournier, docente de português na Universidade de Turim.

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ARAVIND ADIGA


Por causa dos feriados a Sábado saiu hoje. Esta semana escrevo sobre O Último Homem na Torre (ed. Presença) do indiano Aravind Adiga (n. 1974), romance sobre as contradições da Índia moderna com acção centrada em Bombaim, a partir do drama pessoal de Yogesh Anantha Murthy, aliás Masterji, 61 anos, viúvo, animal social, criatura viva que teima em ser livre, professor de física aposentado da Escola Secundária de Santa Catarina, alvo de um processo de despejo sumário da Cooperativa Vishram. Muito bom! E ainda sobre Catch-22 (ed. Dom Quixote), o clássico de Joseph Heller (1923-1999) em boa hora reeditado.

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GOVERNADORES CIVIS


Parece que a extinção dos governadores-civis pouparia ao Estado um balúrdio: cerca de 28 milhões de euros por ano, dos quais 7,2 milhões só em Lisboa. Passos meteu o tema no discurso de posse. Acto contínuo, António Galamba, governador-civil de Lisboa, demitiu-se: «Os governadores-civis em funções foram confrontados com uma campanha mediática populista, catalisada por partidos políticos como o PSD e o CDS-PP. [...] Do ponto de vista da forma como se está a realizar, acho um erro e quem vai pagar a factura são, directamente, os bombeiros voluntários e as forças de segurança e, indirectamente, os cidadãos.» Imprensa, blogues e redes sociais deram conta do facto. Até aqui, tudo bem.

Ao longo da tarde outros seguiram o exemplo de Galamba: Fernando Moreira (Porto), Fernando Moniz (Braga), Mónica Costa (Viseu), Manuel Monge (Beja), Sónia Sanfona (Santarém) e Lídia Gomes (Faro). Como diria La Palisse, 1+6 é igual a 7. Mas o Diário de Notícias insiste em que os dezoito se demitiram em bloco. Esclareçam isso depressa porque há boys & girls da coligação com elevado grau de ansiedade.

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Terça-feira, Junho 21, 2011

GOLPE DE ASA


Assunção Esteves, 54 anos, deputada do PSD, antiga eurodeputada e juíza do Tribunal Constitucional, deverá ser hoje eleita presidente da Assembleia da República. Parece ficar provado que, sob grande pressão, Passos é capaz de golpes de asa: face à recusa de Bento para as Finanças, tirou Gaspar da cartola; agora, após a dupla derrota de Nobre, põe uma mulher no topo da hierarquia do Estado. A eleição está marcada para as 16:00h. Tudo está bem quando acaba bem?

Adenda. Com 186 votos a favor, 41 nulos e dois em branco, Assunção Esteves foi eleita à 1.ª volta. Um deputado faltou à votação.

[Foto do Expresso.]

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NOTAS DA AJUDA


Dezasseis dias após as eleições, o XIX governo está empossado. Esta rapidez é o melhor de tudo. Sócrates e os ministros do governo cessante estiveram presentes, todos evidenciando boa disposição. Carrancudo, Cavaco falou durante 22 minutos. Repetiu as frioleiras do costume. Passos também falou 22 minutos, prometendo não mudar os governadores civis. Pedrito de Portugal, o toureiro, estava na sala. Não se sabe em representação de quem. Gabriela Canavilhas cheia de glamour. Laura Ferreira, mulher do primeiro-ministro, com um bonito sorriso e óptimo astral. Bagão Félix com ar de prisão de ventre. Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia e do Emprego, foi o único que após a assinatura do termo de posse não fez vénia a Cavaco. Surpresa na orgânica do executivo: Educação em penúltimo lugar; Solidariedade e Segurança Social em último. Portas muito bem disposto. Pedro Mota Soares (CDS-PP) chegou de mota e partiu de BMW. A coreografia geral não foi tão boa como era hábito, mas foi digna.

Adenda. O governador-civil de Lisboa, António Galamba, demitiu-se hoje.

[Foto do Diário de Notícias.]

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A HUMILHAÇÃO DE NOBRE


A humilhação de Fernando Nobre é especialmente significativa no interior do PSD. Era bom que Passos Coelho percebesse o recado. O líder do PSD contou com o ovo no cu da galinha e deu a eleição de Nobre por adquirida. Não precisava do CDS-PP para nada! Como é público, o presidente da AMI lembrou aos distraídos a sua ligação à Maçonaria: deu uma entrevista ao Correio da Manhã vincando a filiação maçónica. Diz quem sabe que também fez os telefonemas certos. A estratégia parece ter resultado: uma dúzia de deputados maçons do PS terá votado a favor da sua eleição. Passos contou até ao fim com essa muleta. Foram portanto (e muito bem) os seus pares do PSD que lhe cortaram as pernas. Capucho deve estar a rebolar de gozo. E Passos tem a obrigação de estar a reflectir.

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Segunda-feira, Junho 20, 2011

O TIRO, A GALINHA, O PADRINHO E O FLOP


Fazendo prova de uma teimosia que não augura nada de bom, o líder do PSD impôs Fernando Nobre como candidato à presidência da Assembleia da República. Foi avisado por toda a gente para a iniquidade do gesto. Convenceu-se que levava a melhor, e perdeu. Ainda não tomou posse do cargo de primeiro-ministro e já a bancada do PSD faz gato sapato das suas recomendações. Patético. Logo de manhã, Paulo Portas disse com ênfase: «O dr. Fernando Nobre não tem condições para ocupar o segundo lugar da hierarquia do Estado.» O deputado João Almeida repetiu a bula com convicção. Entretanto, Nobre vagueava sozinho, ignorado pela generalidade dos seus pares. As duas derrotas foram exemplares. Passos, que não entrava no Parlamento desde 1999, é um outsider. Portas teve hoje a sua primeira vitória. Passos tem da honestidade uma concepção de porteira.

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CITAÇÃO, 355


José Medeiros Ferreira, Quanto vale o partido mais votado?, sublinhado meu:

«Os “institucionalistas” inventaram que o PSD tinha o direito a indicar o nome do Presidente da Assembleia da República. É uma posição simples que os deputados da maioria não seguiram para além de um número insuficiente. É tudo muito institucional, mas o que está em causa é se se vai formar rapidamente uma nova oligarquia indicada pelo “chefe”, ou se os deputados da maioria vão marcar pontos, mesmo que a lógica seja meramente parlamentar. Que é como quem diz “institucional”, mas não no sentido de uma disciplina concertada por “coteries”. Uma maçada para futuras negociações “entre poucos”, como diria um fundador da democracia moderna, Madison...»

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OUT


Esta tarde, em duas voltas sucessivas, os deputados rejeitaram Fernando Nobre como Presidente da Assembeia da República. 1.ª volta: 106 a favor / 101 brancos / 21 nulos. Dois deputados não votaram. 2.ª volta: 105 a favor / 101 brancos / 22 nulos. Dois deputados não votaram. Ver quem é o senhor que se segue.

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15M VS DEOLINDOS


Os mesmos jornais que contaram 200 mil manifestantes na manif da geração à rasca em Lisboa, dizem hoje, sem um sobressalto, que os manifestantes que ontem invadiram Madrid foram 40 mil. A imprensa espanhola realça que a manif de ontem foi a maior de todas. No centro de Madrid vivem 3,6 milhões de pessoas, ou seja, mais três milhões do que em Lisboa. Na área metropolitana de Madrid vivem 6,5 milhões de pessoas, quase o triplo da população da área metropolitana de Lisboa. Os espanhóis têm uma tradição contestatária superior à portuguesa. Em Espanha, os confrontos entre esquerda e direita são feitos à bruta. Em Portugal, bloquistas encartados socializam à mesa de sociais-democratas conspícuos. Contudo, o Movimento 15M só juntou 40 mil pessoas. Um arraialzito, comparado com os nossos 200 mil!

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Domingo, Junho 19, 2011

CITAÇÃO, 354


Vasco Pulido Valente, Os sábios no governo, hoje no Público. Excertos:

«O conselheiro e o académico fazem bons ministros? Ou a política tem de se aprender no partido, no Parlamento e no governo, fazendo e não estudando, ou, pelo menos, fazendo mais do que estudando, como profissão prática que é? [...] O conselheiro e o académico em geral não encontram nenhuma resistência, excepto naturalmente aquela que deriva da sua ignorância ou da estreiteza da sua cabeça. O ministro ou secretário de Estado, para além destas fronteiras, por assim dizer, “naturais”, encontram fatalmente a resistência da sociedade em que se propõem intervir: interesses, direitos, costumes, sentimentos, que, sob várias formas, não querem e não aceitam passivamente a maneira como o poder político os decide tratar. [...] Esperemos que os ministros que o PSD e o CDS foram buscar à sua tranquilidade intelectual não se deixem devorar pela criatura. Para bem deles, com certeza, e para nosso bem

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Sábado, Junho 18, 2011

PRETO NO BRANCO


Amigos e leitores parecem surpreendidos com a minha complacência face ao próximo governo. É muito simples. Passos podia feito feito um governo de trauliteiros mas, em vez disso, fez um governo normal. Isso marca a diferença. Deixando de fora o Senhor Pintelhos (Catroga) e a infindável troupe de treinadores de bancada de que Mestre Cantiga (o Esteves) é o paradigma encrespado, Passos decepcionou os Clubes, perdão, os blogues mata-e-esfola.

Verdade que não é o governo ideal. Mas nada nos garante que o fosse caso as luminárias que andam a vender à imprensa (as suas) putativas negas tivessem aceite o desafio. Verdade que Miguel Relvas e Paula Teixeira da Cruz, dois comentadores de Crespo, desequilibram o conjunto. Sinais: Relvas fica com rédea curta; o lobby da Justiça pode dormir em paz. Tudo é preferível a ver o Senhor Pintelhos (Catroga) a fazer o anedotário dos corredores de Bruxelas.

Vítor Gaspar à frente das Finanças, como n.º 2 do governo, é uma boa escolha. Conhece bem os cantos à Comissão Europeia, Banco Central Europeu (onde foi director) e Banco de Portugal. Ninguém o conhece nos Clubes, perdão, nos blogues? E quem é que conhecia Cavaco quando em Janeiro de 1980 Sá-Carneiro fez dele ministro das Finanças e do Plano do VI governo constitucional?

Nuno Crato na Educação é um factor de irritação para Mário Nogueira. Isso já é ganho. Crato vem do marxismo-leninismo puro e duro: foi dirigente do PCP (M-L) e, a seguir do PC (R). A rapaziada pensa que ele é um liberal à moda antiga, mas engana-se. Foi capaz de trocar o cargo muito bem remunerado de CEO da Taguspark pelo de ministro. Deu uma lição aos patriotas de água benta.

Paulo Macedo na Saúde também me agrada. Tem a obrigação de não deixar afundar o SNS. Capacidade técnica não lhe falta. Antes da posse devia explicar (ou desmentir) alegadas ligações à Médis.

Álvaro Santos Pereira terá de provar na real as teses dos livros que escreveu (e li com agrado). Gerir a Economia, o Emprego e as Obras Públicas vai ser equivalente a neutralizar os hooligans que puseram Vancouver a ferro e fogo há dois dias. Esperar para ver.

Miguel Macedo, um homem cordato, vai mandar na polícia. Aguiar-Branco passará a ser tratado (na Foz Velha) por Almirante. Assunção Cristas não vai ter tempo para a missa. Pedro Mota Soares é capaz de não levantar muita poeira na Segurança Social. Luís Marques Guedes e Carlos Moedas, ambos no inner circle do primeiro-ministro, são o exacto oposto de ter nos mesmos lugares criaturas como Rui Crull Tabosa e Carlos Abreu Amorim. Passos percebeu que tem de governar com gente educada e agiu.

Por último mas não em último, a Cultura. Não me impressiona o downgrade de ministério para secretaria de Estado. Escrevi muitas vezes que não deve existir ministério da Cultura, opinião que mantenho. A escolha de Francisco José Viegas (sim, somos amigos há mais de 20 anos) é um sinal inequívoco de abertura de espírito.

Sobre Paulo Portas, nada a acrescentar. O presidente do CDS vai chefiar os Negócios Estrangeiros e será o n.º 3 do governo. Dureza por dureza, tudo indica que Passos levou a melhor no ring.

Na noite em que o PSD ganhou as eleições, o pesadelo era imaginar um governo com o Senhor Pintelhos (Catroga), Mestre Cantiga (o Esteves), João Duque (o encrespado), Fernando Nogueira, Marques Mendes, Rui Ramos, Nogueira Leite, Santana Castilho e outros assim. Se virem a coisa por este lado...


[Imagem roubada ao Diário de Notícias. Clique.]

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Sexta-feira, Junho 17, 2011

XIX GOVERNO


O governo de Pedro Passos Coelho. A parte boa: pintelhos e radicais do twitter fora do elenco. A parte má: Passos desistiu da Justiça. Vejamos:

Vítor Gaspar
, que vemos na imagem, ministro de Estado e das Finanças. Director do Gabinete de Conselheiros da União Europeia, professor catedrático da Universidade Católica e consultor do Banco de Portugal. Sem filiação. Positivo.

Paulo Portas, líder do CDS, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Positivo.

Álvaro Santos Pereira, professor associado da Simon Fraser University (Vancouver), sem filiação, ministro da Economia, Emprego e Obras Públicas. Positivo.

Paulo Macedo, antigo director-geral dos Impostos (2004-08) e administrador do Millennium-BCP, ministro da Saúde. Sem filiação. Positivo. (Sem ironia: o SNS precisa de um bom gestor.)

Pedro Mota Soares, deputado e dirigente do CDS, ministro da Solidariedade e Segurança Social. Positivo.

Nuno Crato, presidente do Taguspark e professor catedrático do ISEG, ministro da Educação, Ensino Superior e Ciência. Sem filiação. A ver vamos.

Assunção Cristas, deputada e dirigente do CDS, advogada, ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território. A ver vamos.

José Pedro Aguiar-Branco, deputado do PSD, antigo ministro da Justiça (2004-05), advogado, ministro da Defesa Nacional. Podia ser pior.

Paula Teixeira da Cruz, deputada e vice-presidente do PSD, advogada, comentadeira do Crespo, ministra da Justiça. Flop.

Miguel Macedo, deputado e líder parlamentar do PSD, antigo secretário de Estado da Juventude e Desporto, autarca em Braga (1993-97), ministro da Administração Interna. A ver vamos.

Miguel Relvas, deputado e secretário-geral do PSD (com Barroso e agora com Passos), antigo secretário de Estado da Administração Local (2002-04), licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais desde 2007, comentador do Crespo, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Autarquias e Desporto. Sem comentários.

Carlos Moedas, engenheiro civil sem experiência política, participou nas negociações com a troika. Secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. Positivo.

Luís Marques Guedes, deputado, autarca em Cascais, antigo líder parlamentar do PSD. Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Positivo.

Francisco José Viegas, escritor e editor, deputado eleito nas listas do PSD. Secretário de Estado da Cultura. Positivo.

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HABITUEM-SE


Resultados finais, já com os mandatos da emigração. Direita com 132 deputados. Esquerda com 98. Agradecer a Francisco Louçã e Mário Nogueira. Clique na imagem.

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O NOVO SENHOR DAS FINANÇAS?


O independente Carlos Costa, actual governador do Banco de Portugal, pode vir a ser o ministro das Finanças do próximo governo. Antigo administrador da Caixa Geral de Depósitos e vice-presidente do Banco Europeu de Investimento (2006-2010), é membro da direcção da Euro Banking Association. Assinou, em nome do Estado português, o Memorando da troika. A ver vamos.

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MÁRIO DE CARVALHO


Hoje no Público:


Numa época em que os idiomas parecem reduzidos às convenções da criptografia ‘sms’, é bom ler Mário de Carvalho (n. 1944), que não cede, não desiste, nem abre mão de espeques e escorrências. O autor de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994) acaba de dar à estampa uma nova colectânea de contos: O Homem do Turbante Verde. Carvalho maneja o género como poucos. Fasquia possível na língua comum, Machado de Assis.

Economia narrativa («Isto é uma faca de mato. É para triturar as entranhas...») e gozo óbvio com o divertissement são traços distintivos, mesmo nas histórias de recorte sombrio. A intromissão do narrador faz-se de viés, omitindo quase sempre o tempo e a geografia da intriga. O zumbido rouco do “drone” é a única certeza que temos de que o Mussa do primeiro conto não é um nómada da Serra dos Candeeiros.

Dividido em quatro núcleos (2+3+2+3), O Homem do Turbante Verde dedica um deles à ditadura de Salazar: A Rua dos Remolares, com enfoque na guerra colonial; A secção de campo, parodiando os malefícios da Cultura e, a fechar, Bildung, sobre os desencontros da clandestinidade. Três contos enxutos de retórica que dão a ver a vulnerabilidade e as incertezas da geração que hipotecou o futuro à guerra. Nem epifania, nem ajuste de contas com o passado. Do melhor que tem sido escrito sobre o tema, incluindo prestações do autor, como (entre outras) é o caso da novela Era uma vez um Alferes, publicada em 1984.

Longe de divertido, o absurdo desses anos de chumbo dá azo a histórias hilariantes. Por exemplo, A secção de campo, relato do cineclubismo vigiado anterior a 1974. Mobilizados para a educação de camponeses, um grupo de jovens comunistas tenta exibir no salão paroquial de uma aldeia uma cópia de Couraçado Potemkin de Eisenstein introduzida ilegalmente no país. (A deficiente revisão de texto deixou passar o título do filme grafado de formas diferentes.) Mas o presidente da Junta de Freguesia local exige autorização escrita: «Eu, por mim, pessoalmente, nada a opor. Mas a verdade é que preciso de arquivar a folha. Com o respectivo selo branco. Ou carimbo.» Desconfiadas, as mulheres da terra suspeitam de pornografia: «Coisas de homens. Querem passar coisas de homens. [...] E até mete marinheiros!» Só a inesperada intervenção de um cabo da GNR os salva da ira popular.

De ordinário associado ao pícaro e ao fantástico, Carvalho é capaz do um hiper-realismo sem mácula. Leia-se A contaminação, retrato em grande angular da cidade do Porto a partir do microcosmo de Campanhã. O mesmo se diga de O celacanto, paródia mordaz sobre classes emergentes (construtores civis ligados ao futebol, galeristas pós-modernos, etc.), ou mesmo A longa marcha, em cujo epílogo ecoam ecos remotos do Passeio Nocturno de Rubem Fonseca.

Exímio contador de histórias numa geração obediente ao catecismo de Robbe-Grillet  —  abaixo o plot e as personagens  —, Carvalho brinca com a tradição, os tiques e as coteries literárias: surrealismo, por interpostos Raymond Roussel e António Pedro; Verne na pessoa de Phileas Fogg; certo realismo fantástico: «a única vez que vi um bicho a voar sem ter com quê foi uma cobra num livro de Lídia Jorge. Mas isso era ficção...» E homenagem discreta aos amanhãs que cantam (em clave de descrença tranquila) num verso de Daniel Filipe: «Uma palavra antiga, mais nada. Eh, amiga, camarada.» Trinta anos separam Contos da Sétima Esfera (1981) da presente colectânea. Denominador comum: atenção ao real. A desenvoltura da linguagem faz o resto. Verdade que O Homem do Turbante Verde não tem a ambição de obras precedentes acima citadas, às quais devemos juntar A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983). Mas não deixa por isso de ser um pequeno Grande Livro que resgata a ficção portuguesa dos tradicionais impasses escolásticos.


Era uma vez um país, in Ípsilon, 17-6-2011, p. 35. Quatro estrelas e meia.

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Quinta-feira, Junho 16, 2011

O ACORDO, 2


Quando finalmente assinou o acordo com o CDS-PP, hora e meia mais tarde do que estava anunciado, Passos Coelho disse aos jornalistas que não facultava o documento porque, tendo de fazer convites para o governo, não faria sentido dar a conhecer o seu conteúdo antes de o fazer aos futuros governantes. Como, entretanto, o documento foi disponibilizado há pouco mais de duas horas, temos de concluir que o primeiro-ministro indigitado fez os convites entre as 13:00h e as 16:00h. Leia aqui na íntegra. Muito interessante a parte que diz respeito à eleição do futuro presidente da Assembleia da República: cada um dos signatários cumprirá acordos prévios. Ou seja: o PSD mantém a candidatura de Nobre; o CDS-PP vota contra.

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ENTRETANTO, EM ATENAS


Sem comentários. Foto de Yiorgos Karahalis para a Reuters, hoje na capa do i. Clique na imagem.

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O ACORDO


O PSD e o CDS-PP escolheram um hotel de Lisboa, o CS Vintage, para a assinatura do acordo que sustentará o próximo governo. Faria mais sentido que o fizessem numa sala da Assembleia da República, mas enfim. O que não faz sentido nenhum é o directo que mostra chusmas de operadores de câmera, e só eles, submergindo Passos e Portas, omissos das imagens. Pode ser que, mais tarde, se veja alguma coisa. Para já, a SICN e a TVI24, ambas em directo, dão a ver os profissionais da informação. Muito emocionante.

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PATTI SMITH


Hoje, na Sábado, escrevo sobre Apenas Miúdos, as memórias de Patti Smith (n. 1946) durante os anos Mapplethorpe (ed. Quetzal); e também sobre o romance de estreia de Paulo Bugalho (n. 1975), que com A Cabeça de Séneca (ed. Gradiva) venceu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís. Cantora rock e poeta, Commandeur da Ordem das Artes e Letras de França, Patti Smith faz a crónica da geração que moldou a cultura americana da segunda metade do século XX. O livro é excelente e a tradução de Jorge Pereirinha Pires preserva a pulsão lírica da autora de Auguries of Innocence (2005). Paulo Bugalho tem uma escrita limpa e bem calibrada, mas o livro merecia o edit que, aparentemente, não teve.

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Quarta-feira, Junho 15, 2011

ATENAS JÁ ESTÁ A ARDER?


George Papandreou, primeiro-ministro grego e líder do PASOK (orientação socialista, detentor de 156 dos 300 lugares do Parlamento), propôs aos conservadores da oposição demitir-se do cargo para dar espaço à constituição de um governo de salvação. Com Atenas a ferro e fogo e 40 mil pessoas reunidas na Praça Syntagma dispostas a impedir o acessso dos deputados ao Parlamento onde iam ser votadas novas medidas de austeridade, Papandreou foi informado que 16 deputados do seu partido vão votar ao lado da oposição.

Com excepção do aeroporto e de algumas urgências hospitalares, que têm estado a funcionar, Atenas está paralisada: transportes, serviços públicos, bancos, creches, comércio, correios, etc. Atento o comportamento da UE face ao imbróglio grego, admira-me que não esteja já tudo a arder.

[Imagem: confrontos em Atenas, hoje. Foto do El País. Clique.]

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