
[Temporariamente, fica a tocar uma música que faz parte de uma outra banda sonora, do filme
High Fidelity, já que não encontro o tema "Squares", dos The Beta Band, que faz parte da banda sonora desta série de televisão e que é o meu preferido.]
E
assim foi: a Britney Spears, quer dizer, a Celeste lá "papou" o Keith... Tanto melhor para ele, que se viu livre da
pop star mimada, que o despediu na manhã seguinte. O episódio de ontem foi muito bom, como todos os outros. Sobre isso, não vale a pena dizer mais nada. Deixo os
comentários para os especialistas.
A única coisa que poderei acrescentar decorre da minha (curta, mas intensa) experiência de legendagem. Já fiz esse trabalho para cinema, e não para televisão, mas a única diferença substancial que me parece existir entre os dois suportes é que, salvo os
blockbusters, as legendas que aparecem na "caixinha mágica" são lidas por um número muito mais elevado de espectadores. O que torna mais grave qualquer deslize do tradutor. Eu detectei dois, que me pareceram especialmente graves, desde que comecei a acompanhar esta nova série de
Six Feet Under.
A primeira imprecisão foi no episódio traumático, chamemos-lhe assim, em que David foi torturado até à exaustão - e daí os actuais ataques de pânico e acessos de loucura - por um rapazinho com cara de inocente, mas tarado e armado, a quem deu uma maldita boleia na auto-estrada. Enquanto isso acontecia, na casa funerária dos Fisher, Rico, homem casado e com filhos, até então marido e pai exemplar, fica bastante atrapalhado quando Nate o surpreende a conversar com a
stripper, que entretanto passou de "coitadinha" a grandessíssima cabra, ingrata e desfazedora de lares alheios. Nate, dizia eu, apesar da estranheza da situação, finge ignorar o que se passa e segue o seu propósito: «I'm going to play Doom.» Ora, isto foi traduzido como: «Vou ouvir
Doom». Como é evidente, a tradução correcta seria: «Vou jogar
Doom», o que é completamente diferente.
Doom não é uma banda nem uma música, mas sim um jogo de computador, cujo nome se pode traduzir por "Perdição" e que por sua vez pode ser uma bela metáfora daquilo que está prestes a acontecer com Rico.
O outro erro que detectei foi no episódio de ontem. (Estupidamente, perdi o da semana passada.) Ocorre precisamente quando Celeste, em desafio programado, prepara o terreno para seduzir Keith, que é homossexual. Keith diz-lhe que o namorado dele, David, não se encontra bem porque foi raptado. Ela diz-lhe que tem medo que lhe aconteça algo de semelhante, com um "caçador de autógrafos". Não me lembro exactamente da maneira como Keith lhe responde, mas era algo do género: «You sing. I'll worry about that.» Ora, da legenda constava: «Tu cantas, preocupo-me com isso.» Errado, porque assim foi introduzida uma intenção que Keith não tinha, ou que pelo menos não transparecia de forma evidente. O trabalho dela é cantar e dar o espectáculo, o dele, que é segurança pessoal e bastante profissional, é protegê-la. Aquela frase, na minha opinião, surge apenas para ela se sentir segura. Penso que a tradução correcta - ou uma das - seria: «Tu cantas. Eu preocupo-me com o resto.»
São deslizes de legendagem que acontecem facilmente, sem que os tradutores se apercebam. Falo por experiência própria. A mim, por exemplo, aconteceu-me, quando trabalhava num filme argentino, traduzir: «Sole... Te quiero», como «Sole... Quero-te». Era um adolescente que dizia isto à namorada - que se chamava Soledad e por quem se tinha apaixonado há pouco tempo -, depois de um arrufo, enquanto carinhosamente se abraçava às pernas dela. Acho que fiz bem em alterar a legenda na última revisão que fiz dos diálogos, antes do filme ser exibido em sala. Ficou: «Sole... Gosto de ti.»
Adenda: Está bem,
Luís. Se não gosta que me refira a si, à minha maneira, porque aprecio algo que tem vindo a fazer habitualmente, então tal não voltará a acontecer. Seja como for, continuarei a ler os seus "comentários especializados" com agrado.