julho 04, 2005
julho 03, 2005
Sonatina burocrática
Aqui há uns tempos, um blogue conservador, imaginativamente chamado "On Being Conservative", dedicou ao Barnabé um poema de Álvaro de Campos
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
[etc.]
A coisa ficou uns tempos no technorati; depois esvaiu-se.
A mim deu-me que pensar. E a conclusão a que cheguei, depois de umas equações que a guilhotina da meia-noite e o fim do Barnabé mesmo aqui em cima da nuca não permitem que refaça para melhor satisfação da clientela, e rabiscando num caderno de notas que agora procurei e não consegui achar – a conclusão a que cheguei, dizia eu, é de que a direita precisa de amor.
De amor. O sisudo José Manuel Fernandes; a severa Fátima Bonifácio, sempre saudosa de uma época sem pieguice; esse conquistador do oeste que é Paulo Portas mais os seus cowboys dos sobreiros; Pacheco Pereira, que não admite a ninguém que seja mais modesto do que ele; lord João Carlos Espada; Helena Matos e a newsletter do saudoso Banco Português do Atlântico; o axiomático João Miranda; esse grande pensador da contra-reforma que é João César das Neves; Filomena Mónica na busca incessante da empregada perfeita; os desleais orgânicos Pedro Lomba e Pedro Mexia; Cavaco Silva, também chamado de o rei do bolo; e João Pereira Coutinho que já está um homenzinho – todos eles precisam de carinho, de uma ternura cósmica, transbordante, ou de uns desvelos pequeninos – miminhos, afinal – de atenção, de qualquer coisa que os acalme, que lhes dê confiança, que os deixe regressar ao colo da mãe, esse mundo certinho, seguro, cheio de cavalheirismo, rapazes com a tabuada na ponta da língua, livros com intriga e personagens, torradas.
Eu estou de saída e não sei se volto. Vocês, que aqui ficam, dêem-lhes amor.
Era uma vez um arrastão
Estive até ao ultimo momento a pensar escrever um post de despedida. Mas não. Parece-me que o melhor tributo que se pode fazer ao Barnabé é, neste seu ultimo dia, continuar como se nada fosse, procurando sempre aquilo que o fez “diferente dos outros”. Um blogue que nunca se importou de ir contra a corrente do politicamente correcto, um blogue que nunca fugiu de uma polémica por medo da polémica.
Assim, e parafraseando o João Mac Donald, também eu estou grato à Diana Andringa pelo seu vídeo ”Era uma vez um arrastão".
Porque, como diz a sinopse do documentário, ”Era uma vez um arrastão" passa em revista um crime que nunca existiu, a atitude dos media perante uma história explosiva e as consequências políticas e sociais de uma notícia falsa”.
Último post
A man walks into a bar with a slab of asphalt under his arm and says: "A beer please, and one for the road".
Obrigado pela atenção. Abraços e até já.
A essência da matemática é a liberdade
A urgência, muitas vezes falsa, da imprensa tende para resumir em duas páginas e pouco mais a vida dos grandes homens. Foi assim com Emídio Guerreiro, desaparecido neste mês de Junho de 2005.
Por certo nem as páginas todas de um jornal servem para evocar a vida de um homem, muitíssimo menos a de Emídio Guerreiro. O futuro e os conscienciosos de que nada se faz bem com pressa tratarão de organizar dignamente a memória deste lutador pela Liberdade.
Entretanto, na tentativa de contrariar um pouco essa urgência mediática, e principalmente porque sei que alguns desses conscienciosos estão sempre activos, aproveito para deixar no Barnabé um pedaço de memória e de ciência referente ao também matemático que Emídio Guerreiro foi.
O que se pode ler mais abaixo é o prefácio que o matemático Paulo Almeida, professor do Instituto Superior Técnico, escreveu para Dois apontamentos matemáticos – dois textos de Emídio Guerreiro publicados pela Sociedade Portuguesa de Matemática (mas ainda sem edição comercial). Esta transcrição é apenas mais uma forma de homenagear Guerreiro, na certeza de que será útil aos apaixonados pela Matemática portuguesa.
(Este texto, como todos os outros, manter-se-á no arquivo do Barnabé.)
A posta restante

Quando um tipo chega à marisqueira do bairro onde vive e o empregado com um ar meio trocista meio cúmplice lhe pergunta:
o prego é com imperial, sr. Barnabé? - percebe que esta coisa de ter um blog com uns amigos excedeu todas as suas expectativas. A cena passou-se, e repetiu-se várias vezes, depois de eu e o Daniel termos ido ao Cabaret da Coxa promover o livro e é para mim o melhor emblema do sucesso deste blog. O Barnabé conseguiu ser provocador, falar de coisas complicadas numa linguagem simples e agitar algumas cabecinhas acomodadas, ao mesmo tempo que lhes oferecia um espaço para poderem espumar à vontade. Este é, aliás, um dos benefícios do aparecimento da blogosfera que o Barnabé tão bem capitalizou: renovar a linguagem no espaço público, fornecer-lhe uma ousadia no discurso que a maioria da imprensa, demasiado cristalizada geracionalmente, não evidencia.
Tudo isto foi divertido e deu muito trabalho, sobretudo ao Daniel e ao Rui Tavares que com voluntarismo e inteligência foram quem mais contribuiu cá para a chafarica. A eles, ao André, ao Pedro e aos que a nós se juntaram depois, quero agradecer o facto de me terem deixado fazer parte do clube.
Uma palavra sobre a crise dos últimos tempos. Não usemos de paninhos quentes: o Barnabé acaba minado pelo sectarismo, mas não é essa a prova última e definitiva de que este é um blog verdadeiramente de esquerda e genuinamente português?
Estou certo de que pioneiros como o Rui e o Daniel não andarão muito tempo afastados da bloga e o mesmo pode valer para os outros. Quanto a mim, pode ser que haja novidades em Setembro, depois de umas férias retemperantes.
Até lá, queria agradecer àqueles que tiveram paciência para nos aturar e desejar a todos, como faria o Pacheco,
Saúde e bichas.
Mais quatro quadras ao mesmo assunto
Quem levas tu, ó blogueiro?
nesse caixão tão furado
é aí que vai deitado
o barnabé tão ligeiro?
meu amigo tão atento
não é nada do que you think
barnabé já virou link
tal qual pôs no testamento
meu amigo mais que tudo
tira daí o bedelho
neste caixão tão vermelho
quem vai dentro é o entrudo
inda antes que alguém saia
bebamos a derradeira
que esta cena tá porreira
pra dar parabéns à praia
Contra-décima ao enterro do Barnabé no dia 3 de Julho
Se fora eu a enterrá-lo
Esse, entre os blogues diferente
Acabara-o de repente
Sem dar azo a mais badalo
Desta morte só não calo
Contra maldizentes tantos
Que não causar deve espantos,
Nem é sucesso admirado
Quem não morre endiabrado
Fica a postar pelos cantos
Ao enterro do Barnabé no dia 3 de Julho
Aqui vai com muito abalo
Um blogue dos mais diferente
(Pois o lia tanta gente)
Vem a morte terminá-lo
Eu de pasmo já não falo
Entre os fúnebres espantos
Mas digo o que dizem tantos,
Fica o mundo admirado,
Que um blogue já finado
Queiram tantos enterrá-lo
[Saiu em contraposição desta décima outra pelos mesmos consoantes — aliás mais correcta — que se publicará no post que vem]
julho 02, 2005
Arrumar os móveis, depressa! depressa!
O Pedro Vieira do magnífico Vida Agridoce e o João Pedro da Costa d'As Ruinas Circulares (que gosta de bandas de que eu também gosto – e gostaria de assinalar isto publicamente) reenviaram-me aqui há tempos aquele inquérito agora passado de moda sobre livros (foi aqui e aqui). Não me esqueci deles; mas não tive ocasião de responder. Agora, antes que as portas giratórias (da vida!) fechem e eu fique com o casaco preso, cá vai disto:
Continue a ler "Arrumar os móveis, depressa! depressa!"Um dia a gente chega lá
"...estava pensando que para Portugal ter uma situação de desemprego parecida com o Brasil vai precisar de pelo menos dez anos de investimento na irresponsabilidade."
Tom Zé, em reportagem de João Bonifácio, ao suplemento Y do Público.
Onde começa a escravatura
O físico Freeman Dyson publica no último número da New York Review of Books um bom artigo sobre o matemático Norbert Wiener, "ex-criança prodígio" (estudante universitário aos onze anos, licenciado aos quatorze, doutorado aos dezassete), "pai da cibernética" durante a maior parte da sua vida, e "consciência moral da ciência" na terceira idade, quando decidiu anunciar a sua recusa em colaborar com o governo dos EUA após o lançamento das bombas de Hiroxima e Nagasaki. Vale a pena ler todo o artigo, mas fica aqui uma frase para mastigar com calma.
...qualquer tipo trabalho que aceite as condições de uma competição com trabalho escravo aceita as próprias condições do trabalho escravo e é, na essência, trabalho escravo...
[any labor that accepts the conditions of competition with slave labor accepts the conditions of slave labor, and is essentially slave labor]
Concorrência com a China, trabalho infantil, falsos recibos verdes? Não. Wiener reflectia sobre a competição entre humanos e máquinas. Mas não está mal achado.
julho 01, 2005
A Beatriz apresenta-se ao mundo puxando dos seus galões
A Beatriz é a miúda mais querida do sanquiéme árrondissemã. O sanquiéme é ali na rive gôche.
Mais querida que a Beatriz só mesmo a mãe da Beatriz, que era o sorriso mais querido da Casa de Portugal (ganda nome, ganda claustrofobia) no final dos anos 90. Ela está muito bem, vê-se pelas fotos.
O pai da Beatriz também é querido, mas isso não se pode dizer (que isto aqui ainda é um blogue de homens, moribundos mas homens). Ele está muito bem, vê-se pela voz.
A Beatriz tinha esta madrugada 3 quilos 170 gramas (hoje terá um bocadinho menos, como é normal) e foi, aí pelas 4h25, a mais jovem moça do mundo.
Foi ali à Salpétrriérre. Que já fica no trréziéme arrondissemã.
(um dia acho que vou fundar um blogue chamado gárdelest)
E amanhã ou depois vou lá vê-la, porque ela já é da família. Viva a Beatriz.
