Freeport, a (in)competência e a (mais que) desejável revisão do Estatuto do MP

Ao cabo de seis anos de voltas e revoltas, e tendo o inquérito Freeport chegado ao seu término, cumprem algumas conclusões. Em primeiro lugar, a forma como se iniciou o inquérito penal revela como a Justiça Portuguesa se encontra, ainda, demasiado 'politizável' e, sobretudo, como sobrevivem implantadas no sistema técnicas e estrategemas de duvidosa democraticidade e transparência. Recorde-se que aquilo que, inicialmente, se afigurava ser uma carta anónima se veio a demonstrar ser, de facto, um curioso "arranjo" entre opositores socialistas, oriundos do PSD e próximos do gabinete do então primeiro ministro Santana Lopes, reunidos com um jornalista e um inspector da PJ para dar início a uma "investigação" penal. Ora, e face deste facto, dificilmente a credibilidade da dita inquérito não seria já, e à partida, seriamente duvidosa.

Ainda que assim seja, sempre se dirá que, com efeito, poderia dar-se o facto de, enfim, estarmos perante acontecimentos verdadeiros de uma gravidade assustadora para qualquer Democracia. Era pois, e em face disso, que cumpria aos senhores procuradores titulares do processo tão somente procurar responder a uma ou duas singelas questões: foram cobradas luvas? E tendo sido, foram as mesmas, de facto, a mando ou por sugestão de qualquer entidade político-administrativa portuguesa?

E foi isso que não conseguiram fazer.

E tiveram condições mais do que suficientes para o fazer. O processo Freeport, dispendioso como foi, atraiu recursos extraordinários do Ministério Público na proporção da atenção mediática que teve. Este não foi, pelo menos no seu passado recente, um qualquer processo de crime de dano, esquecido na secretária de um procurador afundado em trabalho de uma qualquer pequena comarca do interior português. Houve afectação de meios, canalização de recursos da Polícia Judiciária e dinheiro, muito dinheiro, gasto pelos contribuintes portugueses em tudo isto.

Dificilmente se compreende que uma investigação penal dure seis anos. Seis. Não há razões processuais de nota para tal e nem tão pouco se chega a representar qualquer razão técnica (incluindo, jurídica) para tanto. O processo penal não é concebido - nem pode ser tido! - como um instrumento de acusação a qualquer preço, prorrogável a bel-prazer do investigador para obter o inalcancável. Se não há provas suficientes, claras, suficientemente evidentes, obtidas em tempo razoável, mandam os princípios de legalidade e transparência democrática que, pura e simplesmente, se arquive.

Ora, não foi isso que os senhores procuradores do MP fizeram. E a forma como não o fizeram foi, aparentemente, tudo menos inocente.

Um processo penal pode ser - e maior das vezes é - uma mancha na rectidão e probidade de qualquer cidadão. É por isso que, não sendo obtidas provas bastantes para que as mesmas sejam postas em causa, deve o investigador assegurar a mais elevada isenção técnica, arquivando sem mais a investigação. Não deve deixar pontas soltas de interrogação, como que apelos a culpabilizações que, usando com seriedade a técnica jurídica, não foi capaz de provar. Trata-se, pois, de um comando basilar na defesa dos direitos do cidadão conta abusos de poder gratuitos.

Isso torna-se mais flagrante quando se trata de um Primeiro Ministro, seja ele qual for. Dizer-se que não se teve tempo para, em seis anos, colocar 27 perguntas choca pelo ridículo. E amedronta pelo constatar da duvidosa rectidão da dita investigação penal. Quando propositadamente (como, de forma óbvia, se evidencia neste caso...) dois procuradores deixam, em despacho de arquivamento parcial, "perguntas" que deveriam ter sido colocadas a uma testemunha, questões essas sabidas capazes de, na demagogia empolada mediaticamente, porem em causa a rectidão de uma figura cimeira do Estado, estamos perante, senão de um abuso de poder motivado por critérios insondáveis, pelo menos de uma irresponsabilidade atordoante.

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Justiça formalista?

Paulo Pinto de Albuquerque - Professor de Direito conhecido pela sua cátedra mas também por algumas opiniões algo mais políticas do que cientificas - assinou, passado dia 11 de Junho, o texto de opinião "Justiça formalista". Nele, PPA abordou o caso judicial amiúde referido pela Imprensa no qual um arguido foi absolvido pelo Tribunal de Gaia depois de ter confessado um Homicídio diante das autoridades policiais. O insigne académico considera este um exemplo do privilégio dado pela Justiça portuguesa ao formalismo em detrimento do materialismo, isto é, daquilo que verdadeiramente o caso é. E segue o seu argumentário explanando - e bem - as situações processuais em que as declarações de um arguido prestadas diante de autoridade que não um Juiz poderão ter relevância. Remata PPA relembrando a razão de ser histórica desta regra processual de não relevar o dito depoimento depoimento para fins probatórios. De facto, a solução jurídica adoptada pelo legislador tem por base um receio histórico de uma sociedade saída de uma Ditadura, onde as práticas de investigação penal passavam, inevitavelmente, pela obtenção coagida de confissões e testemunhos. No receio de que esse modus operandi se mantivesse, o legislador preveniu em lugar de remediar e proibiu qualquer relevância processual a confissões dadas diante de autoridades que não um Juiz. Mas é a partir daqui que PPA erra, flagrantemente. Diz-nos o cronista, também universitário, que «esta motivação não se justifica hoje numa democracia madura, em que os órgãos de perseguição criminal estão submetidos à lei e são controlados pelos tribunais». Seria uma afirmação correctíssima se a realidade não fosse, com efeito, flagrantemente diferente e capaz de jogar as palavras do Professor para o campo do mero wishfull thinking lírico. É óbvio que a investigação penal, e os seus agentes, estão teoricamente sujeitos ao Princípio da Legalidade. E que a sua actuação é sindicável, controlável e supostamente fiscalizada. Mas na prática, quem está no terreno e não num gabinete universitário, sabe que os seus constituintes e patrocinados já foram alvo de abusos - vários, demasiados! - de autoridade, alguns até bem graves. As ameaças, as coacções, as soqueiras escondidas reveladas a meio da noite em tantas esquadras e as pontas de cigarro apagadas contra tudo menos cinzeiros são bem mais frequentes do que se imagina. Assim como a incapacidade de o denunciar por parte das vítimas. É que, ao fim e ao cabo, o melhor espírito de protecção humanista aconselha a que não se fie na Virgem a prudência cautelar dos direitos dos acusados porque o país não está, de facto, assim tão diferente. Portugal é hoje, inegavelmente, uma Democracia madura e dotada de uma arsenal jurídico de protecção dos seus cidadãos. Mas a Lei não vale por si, como bem saberá PPA e, para tanto, precisará sempre dos homens, sua inspiração mas também seu limite. E muitos desses, em Portugal, vivem empenhadamente os piores ensinamentos do Salazarismo com a mais bizarra das actualidades.

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Direito Constitucional

(clicar para aumentar)
Um breve interregno na pausa para refundação deste blogue (sim, não morreu...). Isto porque há assuntos que valem a pena a chamada de atenção. O que se acima se juntou constitui, alegadamente, um teste da cadeira de Direito Constitucional II da Faculdade de Direito de Lisboa, actualmente sob regência do Professor Paulo Otero. Mais palavras para quê quando tão pouco basta para perceber como são formadas as elites da Justiça... A este propósito:

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cartoons: a definição de hierarquia

Mais um grande cartoon para , aqui chegado por cortesia de um também grande amigo.

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a expressão da liberdade de expressão

O activista (punhamos assim...) nacionalista Mário Machado foi hoje condenado a oito meses de prisão efectiva. Não fora as ensurdecedoras 'escutas', que dos ouvidos de alguns viajaram para as bocas de tantos, e também aqui se instalariam, hoje, os alarmes de uma alegada Liberdade confiscada. E nesse embalo que leva a sociedade portuguesa de arrepio sôfrego pelo confisco da Expressão, muita gente, dos mais diversos quadrantes, estaria disposta a prestar esse serviço aos senhores agora julgados culpados.

Antes de mais, e nunca é de mais dizê-lo, porque o que estava em julgamento não eram ideias (felizmente já condenadas pela História) mas sim actos, agora provados, e que revelam uma objectiva perigosidade para a comunidade.

Depois, porque perpassa na sociedade portuguesa uma notória dificuldade de compreensão transversal da Liberdade. Uma certa herança dos pós-25 de Abril, erradamente aproveitada de forma apenas e só interesseira por corporações, comunidades, partidos ou "singelos" agrupamentos de interesses, continua a encarar a Liberdade como sua (alguns capitães de Abril, por exemplo...) desconhecendo, ou evitando conhecer, a necessidade de essa Liberdade enxertar naquela dos demais.

A compreensão madura e desenvolta da Democracia radica na certeza de que o direito do indíviduo encontra limitações sérias e permanentes não originárias de Totalitarismos ou "meros" desvios ditatoriais, mas sim do exercício razoável dos divesos direitos. O reconhecimento dessa Razoabilidade não implica um "self restraint" político ou existencial, no sentido que Hannah Arendt identificava nos indíviduos entregues a regimes totalitários, mas no reconhecimento da pureza e dignidade do nosso semelhante. Daí que, no encontro constitucional dos Direitos, Liberdades e Garantias, quase todos admitam limitações, com a cristalina excepção colocada na Liberdade de Consciência.

É o que se passa, presentemente, com o apregoado ataque à Liberdade de Expressão. Confunde-se a crítica à expressão dessa Liberdade com a limitação a essa mesma Liberdade. Toma-se o desvalor pelas actos de Mário Machado por uma limitação à sua Liberdade de Expressão.

E é assim que corporações e agrupamentos de interesses tomam a sua Liberdade por única e sem limites, exclusiva, confiscando-a ao seus critérios.

O "Sol" afirmava há dias, em editorial, com soberba sobranceria, o seguinte

«Se o Sol tivesse aceite os termos da providência cautelar, abrir-se-ia uma assustadora caixa de Pandora. A qualquer pessoa que quisesse silenciar na imprensa referências a actos menos lícitos bastaria intentar uma providência cautelar e arranjar um juiz "amigo" que a validasse».

Das palavras acima descritas se retira que o Sol, e os seus jornalistas, se arrogam o curioso direito, ainda por cima exclusivo, de considerar lícita a publicação ou não de determinada peça jornalística, sendo, aos seus olhos, de desprezar instrumentos jurídicos concebidos para a protecção de direitos, liberdades e garantias dos demais cidadãos em tempo útil. Não há Tribunal, nem outro qualquer mecanismo democraticamente legitimado que obste ao seu direito. Tão simplesmente, porque é seu.

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os "Galvões" do presente

A não perder mais um excelente texto do Heliocoptero, no Devaneios LGBT: "O Galvão de ontem, os galvões de hoje..."

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08-01-2010

O que acontecer esta sexta-feira será, indubitavelmente, histórico. Não será a primeira vez que a Assembleia da República debate o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas será - esperemos - a primeira vez que que o aprovará. Trata-se, claramente, de um importante passo na luta pela Igualdade e na remoção de uma das injustiças mais flagrantes que subsistem na sociedade e no ordenamento jurídico português.

Mas o caminho é ainda, saibamos reconhecer, bastante sinuoso. Se um provável veto político seria relativamente ultrapassável, nenhum dos responsáveis políticos parece querer falar da possibilidade de vir a ser requerida a fiscalização preventiva pelo Presidente da República.

É que, de facto, a proibição de acesso à adopção, colocado nos termos em que o Executivo pretende, tem tudo para ser inconstitucional, dado que não se assume possível a exclusão de um individuo de procedimentos administrativos tendo como base critérios de orientação sexual . E claramente o será porquanto será apenas essa a diferença do seu casamento para os demais.

Seja como for, da nova lei resulta criado um imbróglio jurídico que, muito possivelmente, poderá chegar, por via da fiscalização preventiva, ao Tribunal Constitucional.

Se os Juízes do Palácio Ratton forem chamados a este assunto e se concluírem pela inconstitucionalidade da norma que proíbe a adopção, como me parece provável que o façam, a Assembleia da República terá, teoricamente, as seguintes possibilidades:

  1. Expurga a norma considerada inconstitucional pelo TC, mantendo o diploma original e abrindo concomitantemente portas à adopção;
  2. Confirma o diploma por maioria qualificada, muito pouco verosímil em face da sua prática política e da maioria que a compõe;
  3. Reformula o diploma, apresentando nova lei sendo que, no caso presente, isso seria difícil porque implicaria sempre a questão da adopção.

Existe ainda uma quarta possibilidade, provavelmente muito mais confortável: nada fazer. Tão simplesmente assim: nada fazer. Deixar tudo como dantes. Aqui chegados, e em face do ênfase que Sócrates coloca no facto de não ter legitimidade para impor a adopção, aceitaria Sócrates uma situação em que teria que ceder nesse ponto - o da adopção? Ou, em face de uma ameça eleitoral antecipada sempre presente, optaria por o deixar para novo programa eleitoral?

Por outras palavras e sem tibiezas: acaso terá o leitor razões para, neste assunto, confiar por inteiro no PS?

E não considere isto pessimismo. Nada disso. Trata-se, tão somente, de pragmatismo e de uma tentativa de antever possíveis cenários políticos. O que, por uma questão de estratégia, devemos todos ser capazes de fazer.

Assente isto, sempre se dirá que os caminhos da Liberdade foram e sempre serão tortuosos. Sinuosos. Difíceis e, por vezes, implacáveis. Mas é para lá que inevitavelmente todos nos encaminhamos, na busca incessante de uma Felicidade que afirmaremos à luz clara de um dia que também se fez para nós.

É por isso que amanhã também estarei lá.

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]

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2010

Feliz Ano 2010!

o buraco (mais outro)

A sucessiva abertura de telejornais começa a tornar o tema BPP demasiado preocupante para se deixar passar sem uma análise daquilo que todos os dias esta questão nos vai progressivamente revelando. E, para além do -admita-se sem tibiezas- sofrimento dos pequenos depositantes que enfrentam a quase certeza do desaparecimento de legítimas poupanças de vida, existem questões que talvez devessem merecer mais explicações das autoridades competentes.

Senão, vejamos: sabemos hoje que Tribunal de contas chumbou o aval do Estado ao empréstimo de 450 milhões ao BPP. Disse aquela cúria que o referido aval concedido pelo Estado ao Banco Privado Português no ano de 2008 não cumpriu as normas legais exigidas neste tipo de operações. Não existiu, pelos vistos, qualquer plano de recuperação da instituição. "Não existindo essa segurança, a garantia não poderia ter sido concedida" argumentou o Tribunal de Contas.

Mas foi.

A resposta da Direcção Geral do Tesouro e Finanças foi que "as contragarantias prestadas tinham valor contabilístico superior ao montante do financiamento".

Um ano depois, os auditores costumeiros nestas andanças (no caso, a Deloitte) dizem-nos que as ditas garantias valem 150 ou 200 Milhões de Euros. O que, deixe-se claro, não espanta dado, por um lado, os interesses de quem solicita este tipo de avaliações mas, também e por outro, o facto de ter o dito Tribunal notado que "dada a grande celeridade que revestiu o processo de concessão da garantia do Estado, esses bens foram, quando muito, objecto de uma análise superficial e aceites pelo valor indicado pelo BPP: 672 milhões de euros. Mas, logo na primeira análise efectuada pelo Banco de Portugal, o valor desses bens estava já reduzido para 439 milhões de euros".

Admitindo-se, como parece ser óbvio, que a expressão "análise superficial" aqui empregue não passa de um puro eufemismo para algo que não se arrisca afirmar, resta-nos a legítima questão: se o Ministério das Finanças nos garantiu que não havia risco sistémico, por que critérios insondáveis se guiou tão sumária decisão? E a questão não é de somenos importância: afinal de contas, trata-se "apenas" de mais um buraco, 400 Milhões de Euros mais coisa menos coisa, que todos pagaremos.

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cartoons: Sérvia candidata à UE

o deputado Carlos Peixoto

As declarações do insigne deputado Carlos Peixoto devem, ao contrário do que alguns parecem fazer querer, merecer comentário.

Primeiro, e numa tonalidade mais genérica, o reparo que se impõe à qualidade intelectual e brio profissional de alguns dos deputados que vimos escolhendo para nos representar: é que o medo ainda colhe apoio - e muito, pelos vistos -como modo de fazer política e na ausência de ideias, de argumentos propriamente racionais e razoáveis, a demagogia será sempre um instrumento portátil e eficiente na captação de votos, sobretudo se o disparate, o desatino e o absurdo forem ditos com uma certa sobranceria de quem é...deputado.

Depois, no caso em particular da consagração do casamento civil entre pessoas do mesmo genéro, porque nos lembra a todos das razões desta luta. E da sua continuidade, mesmo depois de obtida a vitória final, algures no dia em que a alteração legislativa for dada à estampa oficial em Diário da República. É que agora como daqui por muito tempo, subsistirão muitos "Peixotos" - de uma banca de um qualquer Mercado às bancadas daquela Assembleia pátria - interessados em confundir, generalizar, deturpar, discriminar e em, sobretudo, arranjar razões aparentemente lógicas para o fazer.

É importante que, na sensação ilusória de uma verdade que nos parece auto-evidente, não o esqueçamos. Sobretudo agora que o adversário parece empenhado em cerrar fileiras na costumeira e historicamente popular simbiose de ódio e ignorância.

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT ]

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a evidência na face oculta

E eis que as escutas chegam - outra vez! - ao debate público. A sociedade portuguesa tem sido amiúde bombardeada por este tema. O presidente que suspeita. A oposição que "não se pronuncia" mas que se vai pronunciado. Os jornais e as televisões que acusam. O "revela" e o "não revela". O "despacha" e o "não despacha". O "destrói" e o "não destrói". O PGR, o Supremo...e o Governo.

Tudo temas perigosíssimos, na ténue linha que separa a Democracia da Ditadura, a Liberdade da Escravidão e a Privacidade da Devassa. E - pior ainda - quando se tornam móbil de todas as demagogias em face da politiquice irresponsável que ousa cavalgar as desventuras da res pública com o ar solene e pesaroso de quem sofre com este estado das coisas.

Mas vejamos por partes.

Em primeiro plano - o da questão jurídica -, com a devida humildade técnica me coloco entre aqueles que pensam que a actuação do presidente do STJ foi juridicamente correcta.

O artigo 11º do Código Processo Penal estabelece a competência do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça para autorizar a intercepção, gravação e transcrição de conversações em que intervenham o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República e o Primeiro Ministro.

Ora, conforme todos sabemos, o grande problema jurídico porquanto não explicitamente previsto pela lei é justamente saber qual a solução a dar para os casos em que tais figuras de soberania sejam escutadas de forma fortuita quando os escutados/suspeitos/arguidos eram outros. Por outras palavras, saber se a lei - nas palavras do legislador - quis abranger estes casos de puro e simples mero acaso em que figuras de Estado são interlocutores de suspeitos.

Mas pelo facto de não estar explicíto não quer dizer que não se possa retirar a norma aplicável.

Para que o compreendamos é necessário, antes de mais, que procuremos entender qual a razão de ser da norma constante do artigo 11º do CPC. Ao contrário daquilo que o raciocínio mais simplista - e porventura, demagógico- defenderia, não se trata de um privilégio de uma qualquer elite directiva que reservou para si o direito de só ser escutada quando os seus pares de elite assim o entenderem.

O Estado de Direito Democrático segue um ténue equilíbrio político institucional que assegura (ou procura assegurar) a co-existência de todos os poderes, embora devidamente separados entre si. Legislativo, Executivo e Judicial. E seria até formalmente possível manter essa coexistência se um qualquer juiz pudesse autorizar uma escuta ao Presidente da República ou Primeiro Ministro.

Contudo, mais do que a coexistência formal entre os poderes, o equilíbrio entre eles estaria irremediavelmente posto em causa. E, com ele, a subsistência do Estado de Direito Democrático. Razões de cautela institucional e protecção de um determinado adquirido civilizacional assim o aconselham sem que outra solução se mostre realmente mais razoável.

E - insisto - não se trata de um privilégio. Trata-se, isso sim, da necessidade perfeitamente razoável de ter de ser o mais alto dos magistrados judiciais a decidir a imposição de uma limitação à privacidade de um indivíduo, cidadão como qualquer outro, sim, mas titular de um cargo soberano.

Mais do que um entendimento meu, parece-me ser este o critério especial que resulta da interpretação da norma acima dita. E que, como tal, deverá ser oposto a todas as normas gerais.

E não se diga que a ratio da norma se aplicaria apenas a situações em que antecipadamente se deveria suscitar a autorização do Presidente do STJ e nunca àquelas situações - como a do caso face oculta - em que estaria em causa o conhecimento fortuito de alegados crimes por parte de um interlocutor do escutado, por mero acaso, titular de um órgão de soberania. O facto de a escuta ter sido "por acaso" não quer dizer que o mesmo princípio não se deva aplicar. E outra opinião, pura e simplesmente, será irrazoável. Assim, a escuta, ainda que inadvertida, há-de sempre recair na competência do presidente do STJ que pode e deve ordenar a sua transcrição ou destruição.

Ora, assim sendo mais não se pode senão concluir pela nulidade da prova, tendo por base o artigo125 do Código Processo Penal quando se refere que são nulas as provas obtidas com violação de direitos do indivíduo.

E isto é assim, tão-simplesmente, porque tem que ser. Mal estaríamos se uma prova ilegal pudesse servir para abrir suspeitas sobre um cidadão. Seja ele qual fôr. Mais: o artigo 187º CPP estabelece, no seu nº 7, que a gravação de conversações ou comunicações só pode ser utilizada em outro processo, em curso ou a instaurar (como seria o caso), se houver razões para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil. Ora, parece notório não ser este o caso presente.

Razão expostas, muito se espanta o posicionamento de alguns doutrinários penalistas como o Prof. Paulo Pinto de Albuquerque quando vem defendendo que as escutas em causa deveriam ser exibidas - por razões de transparência - e que juridicamente não seria admíssivel o despacho do Presidente do STJ(!?!?). Resguarda-se, para tanto e aparentemente, no interesse social e público que se traduziria na exposição das conversas de Sócrates.

O douto professor coloca, deste modo, em clara oposição interesse da investigação criminal e interesse social e público.

O que é, convenhamos, extremamente perigoso e contraproducente. Primeiramente, porque confunde deliberadamente interesse popular com interesse social, travestindo a devassa de transparência.

Depois, porque ignora intencionalmente que compete ao Poder Judicial levar a cabo a síntese daquilo que é, do ponto de vista judicial, a necessidade social. O que é diferente de necessidade popular. E que, nessa competência exclusiva, assiste aos órgãos do Poder Judicial sua exclusiva decisão sob pena de se colocar em crise um enorme adquirido civilizacional democrático. A devassa das conversas privadas tidas por judicialmente irrelevantes justificada por um alegado "interesse público" trará consigo um critério que servirá amanhã para qualquer outro cidadão.

Mais, também não pode colher a tese absolutamente demagógica e popularesca que existiria uma "suspeita" por parte do procurador e Juiz de Instrução de Aveiro. Desde logo, porque à suspeita do primeiro se sobrepõe a consideração do PGR, órgão máximo da Magistratura do MP, que não existe qualquer fundamento para semelhante suspeita. E, num Estado de Direito Democrático, isso tem de valer por si, sem mais.

E, depois, porque essa alegada suspeita que o JIC de Aveiro também teria parece ser nada mais do que uma produção mediática. O Juiz de Instrução limitou-se a autorizar a emissão de uma certidão, daqui não podendo resultar qualquer adesão a qualquer teoria de suspeição. Tal despacho não encerra em si qualquer implicação material, sendo de natureza meramente formal.

Assim sendo, teorizações nesta linha mais não farão do que apelar à Justiça de índole popular, politizando-a e prestando um péssimo serviço à Democracia e à realização do Estado de Direito.

Depois, num segundo plano de análise e que não deve ser descurado no caso presente caso - a questão política.

E, nesse sentido, talvez seja pertinente compreender que na matriz ocidental contemporânea tanto a Justiça tem sido politizada como a vida da polis tem sido judicializada. No embate entre os 3 poderes por um certo reconhecimento social de hegemonia de facto, todos os 3 poderes procuram instrumentalizar, na medida do possível, os seus "concorrentes". E facto é que da obsessão jornalística por processos judiciais (porventura com um grande primórdio contemporâneo no Processo Dreyfus) nasceu a compreensão genérica por parte do poder judicial contemporâneo da sua capacidade de influenciar os demais poderes da Polis.

E, talvez também por essa razão, a imprensa e o Poder Judicial vêm mantendo uma relação de parasitagem mútua. E, nesse sentido, é natural que informações sejam amiúde "deixadas sair" à luz de critérios aparentemente insondáveis. Esta observação, se relativamente válida para todos os países, assume-se, creio eu, certeira na matriz portuguesa. Surge, então, uma particular noção de "Jornalismo interventivo" que, podendo ser tanto certeiro como absolutamente matreiro, chamará à sua defesa uma Opinião Pública sequiosa de conspirações e arranjos contra si. E, talvez pelo caminho, não perceba esta que, como aquele, foi instrumentalizada.

Por outras palavras: não estará na altura de VERDADEIRAMENTE se pôr ordem no segredo de Justiça? Afinal de contas, quem são os titulares do Inquérito em Processo Penal?

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novas de itália # a podridão que grassa

«(...) Brenda estava no centro das atenções depois de aparecer num vídeo com Piero Marrazzo, o presidente da região de Lazio, onde fica a capital italiana. Chantageado por quatro polícias que lhe tentaram extorquir dinheiro em troca de não revelarem as imagens comprometedoras, o antigo jornalista da televisão RAI 3 e importante figura da oposição de esquerda ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi acabou por se demitir em Outubro. (...) O corpo de Brenda foi descoberto pelos bombeiros que arrombaram a porta da cave. A transexual estava no chão, ao lado da cama, com duas malas prontas, três garrafas vazias de whisky Ballantine's, o computador no lavatório cheio de água. Espalhado pelas paredes e pelo chão havia vestígios de líquido inflamável. Dias antes, Brenda fora interrogada pelos magistrados, juntamente com Natali, outra transexual que recolhia a preferência de Marrazzo. Ambas responderam a perguntas sobre a chantagem de quatro agentes da polícia que surpreenderam o presidente da região de Lazio com as transexuais e exigiam avultadas somas de dinheiro para guardar silêncio e entregar o vídeo. Este é o segundo crime ligado ao caso Marrazzo. O primeiro foi o do traficante de droga Gianguarino Cafasso, morto na noite de 11 para 12 de Setembro. Este, além de fornecer cocaína para as festas, fazia os contactos entre transexuais e políticos que frequentavam a Via Gradoli, a zona residencial de Roma onde vivem muitos agentes dos serviços secretos italianos.»

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Mais dois insignes...

...não obstante irrelevantes políticos para se juntarem a outro que já lá estava. Simpáticos, obedientes e mediaticamente pouco fotogénicos. Mas enfatizemos o lado lado positivo desta escolha: pelo menos não foi Blair.

Cartoon de Schneider.

[A não perder no Presseurop.eu: "Herman e Catherine quê?!"]

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Eh pá...já que dás a ideia, assim de repente...porque não?!?

"Concorda com a proposta de proibição de minaretes?"

E por falar em referendos, é esta a questão que eu e demais cidadãos suíços teremos que responder no final deste mês de Novembro. As vossas opiniões são bem-vindas...

[a propósito: "Os suíços têm medo dos minaretes e não são os únicos na Europa"]

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referendos #2

Há quase dois anos atrás, aqui neste Devaneios, dediquei, a propósito do Tratado de Lisboa, algumas palavras ao tema dos referendos. Embarcando, então como hoje, no grupo dos que tinham e têm muitas dúvidas sobre o assunto, divergia, no entanto, dos meus "colegas" cépticos de Lisboa, porque opondo-me às ditas consultas populares discordei, em absoluto e naturalmente, da ideia de referendar o Tratado.

Mantendo o que disse, mais não posso senão discordar da ideia de um referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desde logo, porque semelhante ideia ignora propositadamente a natureza contra-maioritária da consagração dos direitos cívicos. É um facto por mais evidente que, historicamente, terão sido muito poucas, senão nenhumas, as garantias cívicas dadas a minorias por avalanches de maiorias subitamente animadas por um qualquer espírito de protecção dos minoritários.

Depois, e reafirmando o que aqui se disse a propósito do Tratado de Lisboa, o referendo tem sido usado em Portugal como instrumento político "à la carte" que se invoca, com um implícito, às vezes bem explícito, fito de bloqueio, e, sejamos claros, quando dá jeito. O problema é que o mesmo é sempre feito "em nome de uma legitimidade popular" que, na verdade, pouco ou nada importa a quem aparece nestas alturas investido de súbitas vontades de defesa da vontade popular e democrática. À Esquerda e à Direita.

E é por isso que, nestes termos, o Referendo não serve para absolutamente nada.

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do apelo às "prioridades"

Nick Griffin no question time da BBC

Nick Griffin, líder de um dos mais perigosos e extremistas partidos de Extrema Direita da política europeia - o British National Party - pode parecer pouco mais do que um idiota candidatando-se a eleições. Mas das fileiras do seu partido são regularmente ouvidas declarações políticas como a necessidade de o Reino Unido dever voltar a ser 99.9% geneticamente branco, a SIDA ser uma boa doença porque "só atinge pretos e gays", o Holocausto não ter existido ou ainda defesa recorrente da reintrodução dos castigos corporais no Direito Penal e da Pena de Morte para terroristas, homicidas e pedófilos.

E, verdadeiramente pior nesta lista de horrores, é já contar com mais de um milhão de votos e apoiantes em território britânico.

Nesse sentido, muito espantou a opinião pública britânica que a paradigmática e algo tradicionalista BBC tivesse convidado Nick Griffin para um dos seus programas/debate de maior audiência.

Enquanto esteve no ar passado dia 22 de Outubro, Griffin afirmou que os homossexuais são “arrepiantes”, considerou o Ku Klux Klan norte-americano como "não-violento", e disse acreditar que as populações “indígenas” brancas do Reino Unido são oprimidas pela imigração islâmica que causa um "genocídio comparável ao dos aborígenes da Austrália".

A BBC tem sido imensamente criticada por alguma imprensa por ter gratuitamente proporcionado exposição mediática ao British National Party. No entanto, este tipo de iniciativas - nos moldes em que a BBC o fez - devem ser seguidas e repetidas.

O question time da BBC evidenciou, em plenitude, a união da política mainstream contra o extremismo mais abjecto, desmontando racionalmente cada um dos argumentos do BNP. Trata-se de um exercício pedagógico absolutamente necessário que deve buscar a exposição do ódio gratuito e das consquências da aplicação daquilo que não passa de um cabaz de ideiais racistas e xenófobos.

O pior que os a política mainstream pode fazer é ignorá-los.

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liberdade de expressão PSD

"Eurodeputado do PSD exorta Saramago a renunciar à cidadania portuguesa" na sequência das suas recentes declarações. Interessante, quando vindo do partido que ainda há pouco falava em "asfixias" na Democracia.

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o casamento, o Bloco e o PS

Diz-se, por aí, que o projecto de alteração do Código Civil no tocante ao casamento entre indivíduos do mesmo sexo, apresentado há poucos dias pelo Bloco de Esquerda, não passa de chicana política e de uma tentativa de encostar o PS e o novo governo à parede em face de uma promessa sua. Refere-se, em tantas linhas de tantos blogues, que o calculismo imperou e que o xadrez se faz à custa dos homossexuais que esperam e anseiam pelos seus direitos.

De certo modo, acredito que sim, que o assunto possa estar a ser usado como arma política. E que, de algum modo, não me é particularmente simpático que direitos cívicos sejam algo instrumentalizados como forma de mapear estratégias políticas.

Mas, por outro lado, dificilmente se compreende a insistência de que terão que ser construídas pontes e lançados diálogos. Que pontes? Que diálogos? Se acabar com a discriminação é prioritário para o PS (nas palavras do seu próprio programa eleitoral) então a igualdade de acesso ao casamento civil deverá ser obtida o mais rapidamente possível. O que há, então e verdadeiramente, a recear no avanço do BE? Parece que apenas protagonismo...E, aqui chegados, parece algo óbvio que o BE tem todo o direito a fazê-lo, sobretudo se consigo tiver o passado de único, inequívoco e claro defensor dos direitos dos homossexuais.

É estratégia? Talvez seja. Mas a Democracia também é feita disto. Saiba o PS lidar com isso e sobretudo com quem não está disposto a aceitar tibiezas ou "ponderações de última hora" naquilo que é, tão somente, a mera consagração de direitos humanos.

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

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uma "mulher" que resistiu a Berlusconi

Passado 8 de Outubro, o Tribunal Constitucional italiano considerou contrária à Constituição a Lei Alfano, a tal intuito personae que vinha concedendo imunidade às quatro mais importantes funções do Estado, entre as quais a do chefe do Governo, Silvio .

Trata-se, saibamos reconhecer, de uma excelente notícia, não apenas para italianos, mas para todos aqueles que pugnem pela primazia da Democracia na definição da Igualdade de todos, sem excepção, perante a Lei. Sobretudo quando os sinais de salubridade democrática que emanam de Itália se revelam extremamente preocupantes, com a natureza sistémica de perigosíssimas tensões sociais exposta à claridade do dia sem que se venha assistindo a particular ou notória reacção de recusa ou expurgo por parte da sociedade italiana.

Assente isto, diga-se que a imprensa internacional aplaudiu - e bem! - a batalha perdida para Berlusconi que foi a derrota no Tribunal Constitucional Italiano e a concomitante vitória da empenhada e persistente Magistratura de Milão que vem, aliás, travando um duelo vigoroso com o actual presidente do Conselho de há muitos anos para cá.

Mas existe, porventura, um problema, ou melhor, uma característica persistente nos observadores políticos não italianos que é patente nas diversas crónicas que se leram por estes dias no jornalismo europeu: A inteligentsia europeia, com o seu xadrez valorativo norte-europeu, olhou com os seus próprios olhos para escândalos sexuais do Verão italiano, com "garotas de programa" transportadas em aviões da força aérea para festas de vícios "privados" de políticos da direita do leste europeu bem como para a pressão exercida por Silvio Berlusconi sobre os meios de comunicação social, para os silenciar, como delírios de um playboy aos comandos de um país que pouco mais tem sido do que pão e circo, corrupção, deboche e regabofe desregrado.

Há, pois, uma redução do problema a uma espécie de folclore transitório supostamente tipicamente italiano que inevitavelmente passará se e quando os italianos se livrarem de Berlusconi.

Mas, na verdade, é muito mais do que isso. Com efeito, a questão italiana passa pela concreta noção de que Berlusconi não é, por si só, a causa e consequência de todo o circo montado. Il Cavalieri é aquilo que é porque o povo que o suporta assim o quis. Porque a rua italiana acha piada ao gingão que ludibria o sistema em obtenção de proveitos próprios, que desvia aviões luxuosos para transformar voos de Estado em charters de raparigas, por assim dizer, pouco católicas; que trata o governo da coisa pública como se uma claque de futebol fosse, apelando a clubismos e vendo inimigos comunistas em todo o lado; Porque, na verdade, a rua italiana adere acriticamente ao princípio "Quem está contra mim é anti-italiano" que Berlusconi popularizou, logo de seguida aceitando, sem questionar, que médicos denunciem imigrantes ilegais, que as "rondas" de cidadãos sejam possíveis em Itália e que a separação dos seus pais e adopção forçada dos filhos de imigrantes ilegais seja nova prática do Estado.

E é por isto mesmo que decretar a morte política de Berlusconi - como tanta vezes fizeram editoriais por essa Europa fora - parece profundamente precipitado. O presidente do Conselho de Ministros italiano vem seguindo uma lógica de permanente teorização da cabala, sugerindo recorrentemente a existência de "forças ocultas de Esquerda" que trabalham contra ele. Aos olhos razoáveis que a distância impõe, qualquer observador diria ser este um exemplo de desespero político.

Mas pode também ser, tão simplesmente, a janela de sobrevivência política. A teorização da cabala, da união "do oculto" contra os desígnios do Poder, não obstante aparentemente ridícula, tem como característica alimentar-se a si mesma. Sobretudo, se propagada num país em que o sistema de Justiça se encontra profundamente desacreditado junto das populações, que não lhe reconhecem qualquer crédito que não o da gestão dos assuntos das corporações e interesses que dele fazem uso.

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o princípio do fim de Bretton Woods

(The Independent, Londres)

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res publica (ou o meu exercício de wishful thinking)

Lembrar os valores republicanos é pugnar pela consagração de um espírito de vigência plena da Igualdade e Liberdade. É denunciar opressões e atavismos cujas amarras enclausuram uma sociedade inteira no seu atraso. É compreender que a discriminação, o abuso de poder, o triunfo do mais forte e a inequidade por si mais não fazem do que criar níveis diferenciados de cidadania, eclipsando o adquirido civilizacional que é a absoluta e inegável dignidade de todo e qualquer ser humano.

Saiba, pois, a Assembleia da República, aproveitando a maioria de Esquerda que nela tem assento, aproveitar isso mesmo para, no centenário da República que se avizinha, afirmar em plenos pulmões o seu espírito.

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insano

Belém ultrapassou hoje o limite entre o razoável e o irrazoável, a ténue fronteira onde a responsabilidade vira orgulho e o autismo confirma a insanidade. Absolutamente surreal. E a bem descrevê-lo está José Costa e Silva, no "Lóbi do Chá":

«Imaginar que o Presidente da República ensandeceu é elementar. Na sua declaração, disse que nunca disse que suspeitava das suspeitas, mas que se pode suspeitar, que qualquer pessoa pode suspeitar, mas que ele nunca o escreveu, mas é grave escutarem, mas ele não disse que alguém escuta, mas chamou peritos, que dizem que pode acontecer, mas ele nunca disse isso, mas o Governo escutou, mas não é ele que diz, disse alguém que não podia ter dito, mas disse, mas pelo menos não foi ele, foi o outro, que ele já arrumou, mas não foi crime o que ele disse, e ainda bem que disse, porque há mesmo escutas, mas ele nunca o escreveu, e também não teve assessores a escrever o programa do PSD, mas podia ter tido porque outros tiveram, mas ele não teve, e como é que se sabia que os assessores dele estavam mesmo a escrever o programa?, deviam estar à escuta, pelo menos é o que diz o outro, mas ele não, nem escreve, os socialistas é que o queriam colar ao PSD, mas ele é particularmente rigoroso nisso, isso já escreveu e escreve, mas que há escutas não, nunca disse, diz o outro, e tem razão, os peritos confirmaram que se pode ler e-mails de outras pessoas, embora ele não o diga… só diz o outro e os peritos. »

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É hoje!

Hoje decide-se o que será Portugal nos próximos tempos. E talvez possamos afirmar que é a primeira vez em muitos anos que as hipóteses em cima da mesa são tão claras e distintas. Por isso, não deixe de hoje mostrar o que quer. Vá votar!

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BELGRADO: o cancelamento da Parada Pride.

Há cerca de um ano, eu e o Max participamos numa Conferência em Belgrado, na Sérvia, sobre segurança humana na região dos Balcãs Ocidentais (ou seja, antiga Jugoslávia e Albânia). Eu apresentei uma investigação sobre os grupos de jovens de extrema-direira na Sérvia, enquanto o Max fez uma apresentação sobre a situação de vulnerabilidade da minoria LGTB no contexto de sociedades dominadas pelo nacionalismo.

Foi pois com consternação que recebemos a notícia de que a Parada Pride de Belgrado foi cancelada devido a sérias ameaças da extrema-direita sérvia.

A Parada Pride foi organizada pela primeira vez em 2001, alguns meses depois da queda do regime nacionalista e autoritário liderado por Slobodan Milosevic. A Parada foi violentamente atacada por elementos de extrema-direita, que a polícia, mal preparada, foi incapaz de conter. A liderar o ataque estava o recém criado Movimento Patriótico 'Obraz', um grupo classificado como clero-fascista inspirado nas correntes mais nacionalistas da Igreja Ortodoxa Sérvia. O ataque à Parada representou, então, o início da reacção nacionalista ao processo de liberalização da Sérvia.

Desde então, o ambiente político e social na Sérvia nunca mais tinha proporcionado a possibilidade de semelhante evento, mas, com a chegada de um novo governo em 2008, a Sérvia demonstrou um novo empenho na construção de uma sociedade aberta, motivado pelo desejo de uma rápida integração na União Europeia. A mudança de comportamento. Um sinal claro de mudança foi, desde logo, a detenção e deportação de Radovan Karadzic, que durante anos viveu placidamente em Belgrado sob falsa identidade. Outro foi a aprovação, em Março deste ano, de uma nova lei anti-discriminação que veio proíbir qualquer forma de discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de género.

O ambiente revelava-se pois, pela primeira vez desde 2001, favorável à realização de uma Parada Pride, à imagem do que acontece um pouco por todas as grandes cidades ocidentais. Importa aqui realçar a situação da comunidade LGTB na Sérvia. O clima de homofobia Prevalece na sociedade um clima de homofobia que condena a quase totalidade dos gays e lésbicas a viver numa quase total clandestinidade. Mesmo aqueles que estão dispostos a enfrentar o preconceito assumindo as suas preferências sexuais, se veem condenados a um estatuto de semi-clandestinidade, uma vez que são sistematicamente alvo de ameaças à sua integridade física, e frequentemente agredidos.

A realização da Parada Pride representaria, pois, um importante sinal de evolução rumo a uma sociedade aberta. Obviamente que os seus inimigos não deixariam de se mobilizar para impedir tal acontecimento, o que por si só atesta da sua importância. Perante o apoio do governo, que assumiu a responsabilidade de garantir a segurança do evento, em nome da liberdade de expressão, os partidos nacionalistas actualmente na oposição realçaram o seu desconforto com o argumento do costume de que os homosexuais não têm nada de andar a exibir-se. Já a Igreja Ortodoxa Sérvia foi bastante mais directa, considerando que a Parada iria transformar a cidade de Belgrado numa espécie de Sodoma e Gomorra .

Nas semanas que antecederam o dia da Parada, as ruas de Belgrado foram inundadas de graffitis e cartazes com ameaças contra o evento, de que a mais reveladora era a frase 'Estamos à vossa espera', pintada nas paredes ou impressa em cartazes da organização Obraz. Os líderes de várias organizações de extrema-direita chegaram mesmo a dar entrevistas onde assumiam claramente a intenção de recorrer à violência para impedir a realização da Parada:

"Estaremos lá todos- declarou Misa Vasic, o líder do grupo '1389', que diariamente organiza manifestações em Belgrado em solidariedade com esse grande patriota chamado Radovan Karadzic- nos, outros movimentos patrióticos como o Obraz, os Delije do Estrela Vermelha, os Grobari do Partizan (grupos de holligans dos ditos clubes), até aos apoiantes das equipas mais pequenas e insignificantes da cidade. Não contarão as diferenças de cores da equipa do coração, faremos uma frente dos 'sãos e normais' decididos a impedir a parada gay na Sérvia".

Apesar das promessas de garantir a segurança, na véspera o governo recuou, propondo aos organizadores deslocar a marcha do centro da cidade para um descampado na periferia. A ameaça de violência era bem real. Grupos extremistas planeavam criar o caos na cidade, tencionando não se restringir a atacar a Parada, mas também outros locais, incluindo as Embaixadas de vários países ocidentais que haviam declarado o seu apoio à Parada Pride.

Ao forçar o cancelamento da Parada, o governo sérvio assumiu a sua incapacidade em lidar com a ameaça que representam os grupúsculos de extrema-direita na sociedade sérvia. Desde então, uma série de acções policiais levou à detenção de cerca de três dezenas de membros destes grupos, incluindo o supra-citado Misa Vasic, enquanto surgem diversas vozes a reclamar a ilegalização dos grupos de extrema-direita.

A Sérvia está dotada de serviços de informações eficientes e de uma polícia bem treinada e experiente em lidar com situações de grande violência. Não se tratou, pois, de falta de meios ou de conhecimento para lidar com este tipo de ameaças. Tratou-se de falta de vontade de assumir o apoio à Parada.

Não tendo agido de forma preventiva e, mais do que isso, tendo-se revelado indiferente ou complacente em relação ao compostamento sistemático destes grupos, o governo sérvio perdeu pois uma excelente oportunidade de demonstrar o seu empenho na defesa dos valores cívicos.

Para quem quiser, aqui está o post em inglês que escrevi para o meu blog Café Turco (não se trata de uma tradução do presente texto mas sim de textos independentes).

A palestra do Max, onde ele reaça a correlação entre nacionalismo e homofobia no contexto sérvio pode ser lida aqui, enquanto o meu trabalho, entitulado "Nationalist violence in Post-Milosevic Serbia", será editado em breve como capítulo de uma obra sobre segurança humana.

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Não basta!

Não basta mesmo. O 'Expresso' chamou-lhe Sillygate quando apareceu este Verão. E, de facto, tinha tudo para ser mais uma idiotice tipicamente lusa de assessores papistas e jornalistas com lições decoradas. Bastava, para tanto, que o Presidente tivesse tido em Agosto passado a dignidade e responsabilidade mínimas para imediatamente solucionar o caso, encerrando-o com as explicações que se impunham. E esta "imposição" não é uma mera declaração de vontade. Da Esquerda à Direita, saibamos todos reconhecer a gravidade - possivelmente, sem precedentes - deste assunto: em muitos países sérios, o Presidente ou o Governo já teriam deixado de o ser.

A contradição que hoje aconteceu torna o assunto insuportável, intolerável e inconcebível: da Presidência saíram ordens para que fosse sugerido em pleno período eleitoral que o Governo de um partido candidato manipula o aparelho policial do Estado para controlar órgãos de Soberania.

Ora, e porque os portugueses não são ingénuos -como bem sabe o Senhor Presidente-, merecemos a mais imediata das explicações. De Belém mas também de José Manuel Fernandes e sua equipa editorial do Público, altamente suspeitos de terem prestado um péssimo serviço à Democracia.

PS: E estas também não chegam.

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O Tratado de Lisboa, a Irlanda, a Ryanair e Sócrates

Próximo dia 2 de Outubro, os cidadãos irlandeses serão chamados novamente a pronunciarem-se sobre o Tratado de Lisboa, já rejeitado pelos mesmos cidadãos em Junho passado. Pelas ruas das cidades irlandesas ecoam já os slogans favoráveis a Lisboa, sugerindo que so assim se acautelará a Irlanda e a Europa.

As alterações introduzidas pelo Tratado de Lisboa, recordemos, foram concebidas com o fito de agilizar a máquina burocrática e institucional europeia em face do alargamento rápido que a União testemunhou nos últimos anos. Deste modo, foram aumentadas as competências do Parlamento Europeu, atribuídos direitos de consulta prévia aos parlamentos nacionais de cada estado membro e criada a figura do presidente do pouquíssimo democrático e transparente Conselho Europeu, até agora entregue às presidências rotativas de seis meses a cargo de cada Estado Membro. Mais, o mesmo Conselho que tanta legislação relevantíssima pode aprovar, passa a ter acesso a um largo espectro de políticas passíveis de serem aprovadas por maioria qualificada sem que nada possa ser feito a nível dos Estados Membros.

O essencial da campanha pelo SIM feita por estes dias na Irlanda passa pelo noção de que sem a Europa de Lisboa, o emprego não é possível. Que a qualidade vida dos irlandeses não será a mesma. E que os mesmos serão, em face disso, coercivamente isolados. Trata-se da mesma estratégia (saibamos reconhecer) maniqueísta que tem sido utilizada por todos os políticos europeus de Lisboa a Varsóvia, de Estocolmo a La Valetta, bem capaz de irritar o mais convicto europeísta bastando para tal que este tenha um mínimo de Ética Democrática entre os seus valores.

E aqui chegados, dever-se-á dizer que quem compreenda a urgência de uma Europa diferente não poderá ser menos europeísta do que aqueles que apoiam Lisboa e o seu modelo.

Basta, para tanto, que se atente nos defensores desta Europa.

Há alguns dias atrás, o polémico Michael O' Leary - presidente da multinacional irlandesa da aviação de baixo custo Ryanair - veio a Portugal anunciar a criação de uma base de operações no Aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Numa mise en scéne que juntou a vontade de comer de O'Leary à fome de Sócrates, cada um puxou pela brasa á sua sardinha: Sócrates sublinhou a importância de semelhante investimento e O'Leary fez campanha interna para Irlandês ver para aprovação do Tratado de Lisboa no referendo que se adivinha.

É que se por um lado o facto da abertura de uma base Ryanair ter contado com a presença de um governante de primeira linha causou estranheza na imprensa internacional especializada em aviação, por outro a Ryanair deu início à sua campanha política pelo SIM ao Tratado de Lisboa. Com o beneplácito, naturalmente interessado, de José Sócrates.

Ora, diz a empresa que sem esta União Europeia, nunca teria existido porque o mercado continuaria sempre entregue a regulação e à corporações de empresários e sindicatos de trabalhadores. E, por isso mesmo, investe a empresa meio milhão de euros em propaganda política.

Assim sendo, saibamos reconhecer que O'Leary tem a seus pés um império de 200 aviões que faz já primeiros ministros contactarem directamente com ele apenas e só porque a UE lhe permitiu. E sim, viajamos hoje todos muito mais e mais barato.

Mas há o outro lado, o tal que este modelo também permite. E permite-o, desde logo, a nível doméstico onde no acórdão Ryanair vs Impact o Supremo Tribunal Irlandês negou direito de participação na contratação colectiva aos sindicatos do pessoal navegante. Michael O'Leary impõe, assim e com apoio da Justiça irlandesa, uma importantíssima limitação porquanto admite apenas comissões internas de negociação colectiva.

Um relatório de 2006 da Federação Internacional dos Trabalhadores da Indústria Aeronáutica, por exemplo, acusava a Ryanair de ser uma das piores companhias aéreas para os seus trabalhadores, cobrando-lhes até a àgua que bebem durante o voo e nivelando os seus salários pela média dos salários das suas bases operacionais localizadas em países com salários mais baixos. De modo a escapar a silenciamento dos trabalhadores e à facilidade com que podem e são aparentemente despedidos em caso de contenda, os sindicatos europeus montaram o sítio Ryanair be Fair onde os trabalhadores podem, a coberto do anonimato, denunciar situações de exploração do seu trabalho.

Junte-se ainda, por exemplo,a típica chantagem usada em resposta a qualquer tentativa de uma autoridade ou tribunal em impor a legislação de um Estado Membro. Foi assim, quando ameaçou o despedimento de 2500 pessoas se as autoridades alemãs não voltassem atrás na sua decisão de fechar o aeroporto de Weeze à noite por razões de descanso dos habitantes e foi assim, também, quando a empresa voluntariamente desobedeceu ao Tribunal italiano de Velletri quando este ordenou que a companhia desligasse as câmaras de controlo televisionado instaladas nas salas de pessoal trabalhador.

Esta União permitiu tudo isto à Ryanair e a tantas outras empresas. Não espanta, pois, que esteja tão apostada na aprovação do Tratado de Lisboa.

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agenda #51

Queer Lisboa - Festival de Cinema LGBT de Lisboa, de 18 a 26 de Setembro no Cinema São Jorge.

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"Ódios de Deus"

Um excelente texto de alerta para a realidade pouco noticiada (salvo raras excepções) da única coisa que parece unir as milícias islâmicas no Iraque: a perseguição, tortura e execução de homossexuais. A ler com atenção mais um dos "ódios de Deus".

[publicado simultaneamente no Devaneios LGBT]

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da "ingovernabilidade"

Nota-se, por estes dias e sobretudo com a sucessão da publicação de novas sondagens, a dramatização do factor "governabilidade". Dado os interesses em "jogo" é absolutamente natural que o façam ou não fossem semelhantes alertas, na sua larguíssima maioria, oriundos do arco governamentalizável da política portuguesa. Se, por um lado, existe, de facto, um factor de instabilidade política em potência - observável, aliás, nas recentes experiências governativas da Democracia portuguesa, não será menos alheia a esta "dramatização" um determinada noção de voto útil que os centros, às Esquerda e à Direita, procuram cativar.

Contudo, não se deverá exagerar nesse anúncio da "desgraça vindoura" nem se permitir que cenários ad metum, destinados implicitamente a co-responsabilizar o indíviduo no ocaso pátrio que se adivinha, caso "ignore" (nas palavras do socialista António Vitorino) o factor "governabilidade". É uma tentativa, sejamos práticos, de pelo Medo obter a confiança de quem outra forma dificilmente lhe daria.

E independentemente de essa poder ser, nos compêndios do marketing político, uma fórmula legítima de captar votos, sempre se deveria dizer, num porventura esforço de pedagogia política e a bem da salubridade do sistema democrático, que o país não só pode ser como é governável por um governo assente numa maioria relativa na Assembleia da República. Basta, para tanto, que exista disponibilidade no Executivo, na maioria que o apoia e na Oposição para o diálogo na procura pontual de entendimentos políticos para a aprovação de cada diploma. E não se diga que tudo o atrás exposto pouco mais será do que "wishful thinking" - basta, para tanto, que exista cultura de exigência e responsabilização política na sociedade portuguesa.

É certo que a experiência histórica recente nos lança fundadas dúvidas dessa possibilidade. Contudo, dever-se-á ter presente as razões de tal apregoada e suposta inviabilidade, algumas delas notoriamente radicadas numa demasiado assente noção de propriedade do aparelho do Estado que a elites de centrismo político português parecem ter, associada ao pulsar revanchista dessas mesmas elites dos partidos do arco governamentalizável e ao recorrente e evidente repúdio popular pela sucessão política e a diferenciação dogmática, numa memória histórica das instabilidades da I República, aliás tão bem explorados pelo Salazarismo durante décadas.

Mas não é nem tem de ser assim.

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Deus não existe*

* - ou pelo menos, se existe, não sabe jogar na Bolsa.

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a razoabilidade da dúvida

É a notícia que confirmava o que se esperava: o advento de uma campanha muito dura para as próximas eleições. Manuela Moura Guedes não deixa muitas saudades e, de facto, prestava um péssimo serviço ao Jornalismo e à salubridade do sistema democrático. Mas a densidade do opaco manto factual que cobre este assunto deixa mais dúvidas que certezas: afinal de contas, seria o PS tão pouco sapiente ao ponto de agora e neste momento exercer semelhante influência? A quem aproveita esta decisão? Terá sido o timing desta decisão estrangeira (?) um mero acaso? Perante tudo isto, a melhor razoabilidade está indiscutivelmente na absoluta incerteza da dúvida.

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«Mas alguém se convence com um cartaz?»

Diz Paulo Portas. E muito bem. Resta saber porque gastou dinheiro nos dele.

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ainda a festa do Pontal: a Política e as raparigas

o espaço de todas as dúvidas

A bússola eleitoral sugerida por MVA não traz grandes surpresas (em rigor, não traz nenhuma) ao autor destas linhas. O "espaço intermédio", aliás graficamente tão bem representado no meu resultado, irá, muito provavelmente, ter um papel essencial na decisão das . Fica, pois, assente esta única certeza: o autor deste blog é um "libertário cosmopolita de Esquerda" (sic). Resta, apenas, saber quem arranjou esta cómica expressão...

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Da fraternidade em plena U.E...

O Presidente da Hungria, estado membro da UE, foi impedido de entrar na Eslováquia, outro estado membro da UE. Notícia que, diga-se, apenas deverá colher de espanto os mais incautos ou não se tratasse de mais um passo no extremismo nacionalista do leste europeu:

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cartoons: da capitulação da Democracia

Em Julho de 2008, Hannibal Kadhafi, filho do coronel Khadafi, ditador da Líbia, e sua esposa Aline Khadafi, foram detidos por 20 operacionais da polícia criminal helvética em Genebra. Corria, então, inquérito criminal por suspeitas de ofensas à integridade física a duas empregadas domésticas do casal, trabalhadoras na moradia suíça de Khadafi filho. Tendo sido ouvidos por um juiz, o casal foi libertado tendo que pagar uma caução de 300000 euros.

Com Khadafi pai enfurecido, o Governo de Tripoli suspendeu, como forma de represália, as remessas de petróleo para a Suíça, retirou cinco milhões de euros dos bancos helvéticos e passou a recorrentemente paralisar, impedir ou combater os negócios suíços na Líbia e em países africanos onde o Governo da Líbia conseguisse fazer mover as suas influências.

Com a situação de bloqueio a assumir níveis incomportáveis para a Diplomacia económica alpina, Hans-Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, regressou ontem da sua visita surpresa a Tripoli onde ajustou um acordo com o governo líbio: a Suíça abdica do seu direito soberano a julgar crimes alegadamente ocorridos em seu território a favor de um Tribunal arbitral, baseado em Londres e tendo também juízes líbios, que julgará os actos do filho...do ditador líbio. E, como se a humilhação aos cidadãos suíços não fosse já bastante, o Presidente helvético, antes de deixar Tripoli passada sexta-feira, apresentou, ainda e formalmente, as «desculpas do Estado e Povo suíços» pelos actos «desproporcionais e incompreensíveis» dos órgãos de Justiça do país.

Razão tem Burki, no seu cartoon para o diário suíço 24 heures, quando coloca Hans-Rudolf Merz entre tantos dos camelos que se vergam perante ditadores...

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devaneios CityBreak: Porto

Porto! Desde 10 euros (taxas incluídas), à partida de Faro, em voos Ryanair.

Para outras sugestões do Devaneios, consultar a coluna "devaneios CityBreak" deste blog ou este site.

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a agitprop e os radicais da Lapa

O marketing blogoesférico atingiu o hoje o seu auge com a destemida e intrépida proto-acção terrorista do Blogue 31 da Armada. Foi "giro" e fez-nos sorrir no boçal entretenimento dos dias quentes da silly season à portuguesa. Mas pequeno, anedótico e suficientemente autista para que não lhe devamos dar mais do que a importância relativa que merece. Nada mais do que agitprop para Lapa ver...

ADENDA: Vale a pena ler "Os comunicados do CDS? A indignação dos bloggers de direita? Os comícios de Mário Crespo?", de Daniel Oliveira.

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autarcas, acusações e presunções

Com a condenação de Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, a sete anos de prisão e a perda de mandato‎ ressurgiu na arena pública a discussão de um alegado projecto lei posto na gaveta que prevê a inelegibilidade de cidadãos acusados da prática de crimes como corrupção ou o peculato. Trata-se de uma sugestão muito perigosa, potencialmente inconstitucional, que não deveria ser posta nos termos em que alguns sectores políticos a estão a colocar.

Mas vejamos por partes.

Parece por mais óbvio que a legitimidade política de um cidadão acusado ou pronunciado por crimes especialmente graves estará notoriamente posta em causa na sua percepção pública de autoridade, credibilidade e isenção e nas condições para o exercício do cargo político a que se candidata. E sim, a credibilidade das instituições e da vida política sai afectada por isso.

Mas trata-se, antes de mais, de um problema político. E, porque político, na sua resolução devem ser exigidas medidas de natureza estritamente política.

Esteve bem, por exemplo, Marques Mendes quando, sem necessidade de qualquer medida legislativa, afastou das listas das autárquicas de 2005 Isaltino Morais e Valentim Loureiro, entre outros. A coragem e uma determinada compreensão daquilo que deve ser a salubridade política são, nesta temática, claramente identificáveis nessa sua decisão. E, aqui chegados, é por isso que a questão é assaz simples: ou se tem coragem de reconhecer a falta de credibilidade política, assumindo-se decisão conforme, ou não se tem. Marques Mendes teve-a. Manuela Ferreira Leite não.

Assim sendo, é por isto mesmo que a decisão de alterar a lei no sentido acima descrito me parece tudo menos uma questão de arrojo ou coragem política. Antes pelo contrário, os seus objectivos denunciam um facilitismo evidente por parte de quem, por imprudência ou incúria, parece negligenciar princípios basilares do Estado de Direito Democrático a bem de uma solução onde, muito simplesmente, se possa resguardar numa impossibilidade jurídica ao invés de assumir a escolha política de de facto excluir das suas listas eleitorais quem manifestamente se encontrar em estado de duvidosa legitimidade política.

Enveredar pelo trilho traçado significa dar de barato a presunção constitucional de inocência, impondo-se uma limitação evidente de um direito, liberdade e garantia (a de um cidadão se candidatar a um cargo político) por uma mera acusação da prática de um crime de onde poderá a jusante sair inocente. E - nunca demais enfatizar! - essa presunção não existe por distracção ou mero formalismo anacrónico. Trata-se de um reduto essencial da Democracia e do seu Estado de Direito: um indíviduo é havido por culpado uma vez esgotadas e esclarecidas todas as questões que sobre a sua causa. E só então, sim, será admissível que o mesmo seja responsabilizado, sofrendo as consequências que se mostrarem devidas. Mal vamos neste país quando até alguma magistratura judicial mediática parece não perceber isso.

Permitir semelhante orientação legislativa seria conceder um privilégio exorbitante a órgãos potencialmente instrumentalizáveis de impedirem que determinado cidadão se candidatasse a uma cargo público, sem qualquer culpa provada ou assente, assim se corrompendo flagrantemente o ideal democrático. Até porque sempre se dirá que, no enquadramento jurídico actual, um determinado autarca suspeito poderá ver ser-lhe imposta a suspensão do exercício de funções públicas mas como medida coactiva em sede de instrução criminal.

A Demagogia, especialmente quando travestida de honra e asseio político, pode render muitos votos em Época eleitoral. Mas, aos políticos o que é da Política. E à Justiça o que é dela.

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da revolução em curso: 50,01% dos votos = 85,4% dos mandatos

"Por exemplo, num cenário polarizado em que só tenham intervenção dois partidos políticos, se uma das formações tiver 50,01% dos votos será beneficiada com 85,37% dos mandatos. (...) Utilizando os resultados das eleições regionais de passado dia 23 de Novembro (chavismo 52,96% e Oposição 47,06%), redistribuindo-os pelos circuitos eleitorais, o PSUV capitalizaria 84% dos mandatos (136 deputados), ficando a Oposição com apenas 28 lugares no Parlamento."

Eis a a nova Lei Orgânica dos Processos Eleitorais prestes a ser aprovada na Venezuela.

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