11 de fevereiro, 2008

Mas comer gente é errado mesmo

Estou lendo um romance de John Irving, e logo nas primeiras páginas uma mulher acha a paisagem em volta da casa em que cresceu, nos Hamptons, cheia de sameness e flatness, o mar logo adiante cheio de sameness e extreme flatness, e o céu dull. Nada no livro parece indicar o menor prazer com simplesmente estar naquele lugar, que tenho certeza que me faria pateticamente feliz.

Uma coisa que sempre me espanta é a indiferença das pessoas que vivem em lugares bonitos em relação aos lugares bonitos em que vivem. Escritores são especialmente suscetíveis a esse horrendo mal, talvez porque achem que a descrição de uma insatisfação é mais artística que a descrição de um prazer intenso. Leio livros em que não há uma única menção à beleza do lugar ou ao prazer que os personagens sentem de viver lá, e daí coloco o nome da cidade no Google Images e acho que estou vendo o Reino de Logres. São invariavelmente lugares em que se eu não tivesse dor nas costas ficaria dando saltos mortais de alegria na areia sem parar. Para mim, se os cariocas vivem falando da beleza do Rio, essa é se calhar a única qualidade que têm.

Eu reclamo de muitas coisas, mas é porque gosto de reclamar; é por excesso de vitalidade, e não por anemia d'alma. Estenderei agora meu indicador solene e apontarei com desdém um defeito de muitos escritores, a falta daquilo que Chesterton chamava de "a fierce pleasure in things being themselves": meu Deus, algo simples, como gostar de que a praia seja praia e o céu céu. Tolstói sentia esse fierce pleasure aí, e não achava pouco artístico descrever isso: não me lembro de outro escritor que passasse tanto tempo descrevendo o prazer de estar dentro de um corpo jovem e saudável e forte, capaz de levantar pesos e cavalgar e dançar bem.

Mas escrevo para listar os cinco melhores títulos de livro:

5) Jujitsu for Christ (Jack Butler);
4) Hell!, Said the Duchess (Michael Arlen);
3) Aunts Aren't Gentlemen (P.G.Wodehouse);
2) Eating People is Wrong (Malcolm Bradbury);
1) My Family and Other Animals (Gerald Durrell).

No início da minha edição do livro de John Irving que estou lendo, A Widow for One Year, há uma lista dos livros que ele escreveu, e bati os olhos em SETTING FREE THE BEARS e li SETTING FIRE TO BEARS. Mas assim não conta.

Postado por Alexandre S. 7:38 PM | Comments (23)

8 de fevereiro, 2008

Mais Paulo Francis

É quinta-feira (bom, mais ou menos), então decidi postar um ensaio sobre literatura policial publicado num livro chamado "Paulo Francis, Uma Coletânea de Seus Melhores Textos Já Publicados" (Ed.Três, 1978).

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Postado por Alexandre S. 1:35 AM | Comments (15)

5 de fevereiro, 2008

Every movement she made in the dappled sun plucked at the most secret and sensitive chord of my abject body

Clique aqui para baixar a primeira parte de "Lolita", lida por Jeremy Irons. Aqui, a segunda; aqui, a terceira; e aqui, a quarta.

Postado por Alexandre S. 12:36 AM | Comments (13)

31 de janeiro, 2008

Gênio do Mal

Quinta, né? Eu tinha prometido que ia postar uma coluna do Paulo Francis todas as quintas, e vocês acreditaram.

Mas ok. Desta vez decidi postar um dos ensaios do livro "Paulo Francis Nu e Cru" (Editora Codecri, 1976), sobre Evelyn Waugh. Talvez escaneie uns outros depois.

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Postado por Alexandre S. 10:45 PM | Comments (124)

27 de janeiro, 2008

Kafka Schkafka

Ser chamado de elitista é sempre gostoso, mas quando penso nos autores que gosto percebo que prefiro os meros talentos aos gênios. Talvez porque eu não veja outra característica que diferencie os gênios dos meros talentos além da profundidade, e a idéia de profundidade me pareça boba.

Eu mesmo não sou muito profundo, nem valorizo a profundidade nos outros. O gosto pela profundidade aparece durante a adolescência e depois, se tudo der certo, some. Não dá pra dizer "É profundo" sem dizer "cara" depois. Profundidade é coisa de gente de dezessete anos, que é a idade quando você deve ler os gênios todos.

O que diabos é a tal profundidade na literatura? É mostrar que as pessoas são, sei lá, complicadas? É isso que as pessoas querem dizer quando falam de psicologia na literatura?

Era a isso que Nietzsche se referia quando disse que ninguém além de Dostoiévski ensinou alguma coisa de psicologia pra ele? Que as pessoas são meio contraditórias e tal? Que elas têm ataques epilépticos, impulsos masoquistas, essas coisas?

Ê, Nietzsche, viu.

Eu lia Conan Doyle aos onze e Dostoiévski aos dezessete, e hoje relendo os dois, não posso dizer que seja maduro demais pra ler Conan Doyle. Ninguém pode, só uma besta. Já Dostoiévski, três pontinhos.

Oh, se você só quer saber de gênios, você está interessado em outras coisas, não em literatura: revelações sobre a alma humana, a sociedade, essas bobagens. Ninguém demonstra um verdadeiro amor pela literatura se não sair da península putrefata dos gênios por volta dos vinte anos para explorar o arquipélago dos talentos menores, de onde, com sorte, não vai sair com vida.

Eu vejo alguém muito empolgado falando de "gnosticismo em Joyce" e me dá vontade de perguntar, você tem o quê, dezesseis? Vai falar do quê agora, anarquismo?

A rigor pode-se dizer (bom, eu vou dizer) que o intelectual corresponde à faixa dos 16 aos 19 anos, o esteta dos 19 aos 25, e o hedonista dos 25 até a morte - se tudo der certo com a sua alma, pelo menos. E isso quer dizer que você deve ler os gênios dos 16 aos 19, os grandes mestres do estilo dos 19 aos 25, e que depois disso praticamente só vai querer ler Rex Stout até morrer.

Eu acharia embaraçoso ser profundo. Gênios, como disse Max Beerbohm, são "generally asinine". As pessoas mais inteligentes costumam funcionar exclusivamente na superfície, onde me mantenho e de onde vos faço uma vênia com o meu chapeuzinho côco.

Postado por Alexandre S. 2:13 AM | Comments (69)

17 de janeiro, 2008

O Sujeito que faz Boo-Hoo

Um dos tipos de comentaristas de blog que eu mais odeio é O Sujeito Que Faz Boo-Hoo. Você sabe, quando você escreve um post num tom reclamão, mas não necessariamente chorão, falando mal de um filme, digamos. O Sujeito que Faz Boo-Hoo acha que toda reclamação é um choro, e comenta algo do tipo Boo-Hoo, coitado de mim! Vi um filme ruim! Oh! VÊ SE CRESCE SEU BEBEZÃO!!!!!! O que faz esse tipo de comentarista ser particularmente irritante é que dói na alma ter que dizer que nem toda reclamação é um choramingo. E que, se for, a dele também é.

Postado por Alexandre S. 12:33 PM | Comments (12)

16 de janeiro, 2008

Mais uma parábola de Khalil Gibran

"VESTIMENTAS

Um dia numa praia, as roupas puseram-se a nadar. E a praia foi-se embora.

E, beleza, não encontrou suas roupas, vestiu a roupa de alguns homens.

Contudo, apesar da fealdade, as roupas não ocultam seus olhos."

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Postado por Alexandre S. 9:08 PM | Comments (7)

Khalil Gibran

Anthony Daniels escreveu este texto aqui falando mal de Khalil Gibran. Acho injusto. Khalil Gribran escreveu umas coisas muito bonitas, como esta parábola aqui:



AS SONÂMBULAS

Na cidade onde nasci, vivia uma mulher e ambas eram sonâmbulas.

Uma noite, a mulher encontraram-se no seu jardim. E falou:

"Minha inimiga egoísta! Quem dera estivesses morta!"

Nesse momento, um galo cantou ternamente: "Sim, querida."




Eu gosto bastante.

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Postado por Alexandre S. 8:13 PM | Comments (12)

Book art!

Quem escreveu o trecho abaixo?

"Belief in the importance of art never made much impression on Picasso. In a way, style was his mortal enemy. A prim, narrow-minded, pompous, Puritanical, humourless, spoilsport sort of character, he fought innocence till he was ninety, and fathered a dynasty of things that have faded from view."

Resposta na extended entry.

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Postado por Alexandre S. 6:29 PM | Comments (3)

Elegantly Dressed Wednesday

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A EDW parece já estar acabando nos blogs americanos que eu leio, mas eu sempre entro nessas coisas tarde demais. Enfim, olha o Wes Anderson. Às vezes eu queria me vestir que nem ele. Quando ele anda na rua deve ouvir as pessoas dizendo: "É o Gogol? É uma mulher?". É sempre bacana provocar essas dúvidas. Mas enfim, quarta que vem continuo com a EDW - talvez com mais fotos de Wes Anderson, porque gosto de ser repetitivo.

Postado por Alexandre S. 3:48 PM | Comments (3)

14 de janeiro, 2008

Eita, já amanheceu

Eu estava lendo o prefácio de The Napoleon of Notting Hill quando vi os nomes de Chesterton e Norman Mailer separados apenas por duas linhas, e levei um choque.

Coloque os nomes "Chesterton" e "Norman Mailer" lado a lado, como nesta linha aqui. Alterne os olhos de um nome pro outro.

Se você não sentiu nada eu não tenho como explicar, mas a verdade é que eu não sei como é possível ver esses nomes lado a lado sem perceber imediatamente, sem intermédio da razão, de "opiniões" ou do que quer que seja, a diferença de espírito, inteligência, gosto.

Não, não se trata de opiniões, é mais imediato que isso. É o reconhecimento instantâneo por parte do seu espírito de que você está diante de um espírito da mesma família que o seu, e também diante de um espírito de uma família nauseantemente distante da sua.

Falando assim corro o risco de parecer muito democrático assumindo que tudo é uma questão de gosto, não de qualidade objetiva. Mas o meu gosto é uma qualidade objetiva. Quanto mais cedo você aceitar esse fato, melhor para todos nós.

Como existem pessoas que vêem esses nomes e não sentem nada disso (por exemplo o prefaciador, Martin Gardner), acho difícil explicar. Talvez fazendo assim:

1) Chesterton é uma pessoa que se interessa pelo fato de que dois homens de fraque andando na sua frente parecem dois dragões andando de costas.
2) Norman Mailer é uma pessoa que se interessa pela CIA, e que tem coisas relevantes para falar sobre a invasão da Baía dos Porcos.

Para mim, e para pessoas da mesma família espiritual da minha (digo isso com um pedantismo deliciosamente livre de qualquer ironia), isso basta. Para pessoas de outras famílias espirituais, não faz sentido nenhum; afinal não pode falar de política, é isso? Mas Chesterton não escreveu contra a Guerra dos Bôeres? Já pessoas de famílias espirituais completamente opostas à minha entenderão o que eu digo, mas terão a percepção inversa: simpatia pelo nome de Mailer e um nojinho ao ver o nome de Chesterton, embora eu não queira imaginar a mente capaz de sentir isso.

Outros nomes que me dão um choque quando postos lado a lado:

P.G.Wodehouse Clarice Lispector

Conan Doyle Houellebecq

Lovecraft Nadine Gordimer

Raymond Chandler Graciliano Ramos

Edith Nesbitt Bukowski,

etc. Como no caso de Chesterton/Norman Mailer, algumas pessoas percebem o que quero dizer, por intuição; outras por análise; outras de jeito nenhum. A vida toda tenho me associado a pessoas que percebiam essas coisas, e que tinham nojo de certos autores, dos autores certos, instintivamente; suponho que é o que se chama de "uma clique", e não é uma coisa ruim de modo algum.

A primeira pessoa que conheci que tinha isso em comum comigo era o meu irmão. Quando Gilberto Freyre morreu apontei a foto dele no jornal e disse que parecia Jung, ao que o meu irmão ficou com mais cor de tijolo do que de costume e respondeu que Jung nunca se rebaixaria a se interessar pela exploração da cana em Pernambuco ou seja lá o que for que interessava Gilberto Freyre. O que é verdade, e é justo. Acho que o meu irmão não cuspiu seu café com leite na foto do Gilberto Freyre recém falecido, mas teria sido justiça poética.

Minha vida é o contínuo choque de encontrar pessoas que não compreendem essas coisas, e o infrequente, mas intenso prazer de encontrar pessoas que compreendem - às vezes mais rápida e infalivelmente que eu.

E nunca consigo escrever uma crítica decente porque todas as minhas reações a livros e filmes são assim, instantâneas e não-intermediadas pelo meu cérebro desnecessariamente poderoso; e se perguntado o motivo de gostar disto ou de não gostar daquilo, só posso indicar o livro-ou-filme com as mãos abertas, palmas para cima, enquanto gaguejo e sinto o desgosto de estar diante de alguém que simplesmente não percebe.

Mas na verdade bastava ter feito isto:

nuff_said.JPG

O que, acredito, encerra o assunto.

Agora: tudo isso é justo e bom quando se trata de julgar uma obra de arte, mas o problema comigo (na verdade quero dizer "virtude", mas você é esperto, você percebeu) é que uso esse mesmo julgamento instantâneo em relação a filósofos também. Solenemente digo que há algo errado com o gosto de alguém que cita Foucault, Derrida, Barthes, Kristeva etc muito empolgado. Não é só a razão dele que está escangalhada, é o gosto.

E que há algo errado com o gosto de qualquer um que tenha se interessado por comunismo por mais do que três anos. E com a alma também.

Postado por Alexandre S. 6:02 AM | Comments (58)