Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

O livro / Manuel António Pina


.............................................................................
E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.
Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio

Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim, 2003


Terça-feira, 15 de Março de 2011



Pela mão de Cleopatra

Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

os comboios escrevem a vida

"Agora, já não há comboios como os de antigamente, mas quando os havia com wagons-lits e wagons-restaurants, nem muito lentos nem muito rápidos, lugar mágico para todos os encontros e todos os desencontros, que melhor podia haver para uma viagem do que comboio? Talvez um navio - e os primeiros comboios eram navios com rodas e sem mastros, obrigados aos carris e abrigados dos ventos."



"Nos comboios, cabe a vida inteira e ainda sobeja vida."

"Tal como se diz que há pessoas-gato e pessoas-cão, eu acho que há [...] pessoas-avião e pessoas-comboio."

as palavras são de Bénard da Costa



Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

A Neve Cai

















A neve cai.
Há uma mulher nua no meu quarto.
Os olhos pousados na carpete cor de vinho.
...
Tem dezoito anos.
E os seus cabelos são lisos.
Não fala o idioma de Montreal.
...
Não quer se sentar.
Não parece ter a pele arrepiada.
Ficamos os dois a ouvir a tempestade.
...

Acende depois um cigarro
no aquecedor a gás.
E deixa cair os seus cabelos longos para trás.


Leonard Cohen, in Filhos da Neve, tradução de Jorge Souza Braga e Carlos Tê,  Assírio & Alvim...

Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

Amantes


                                                                                                      uma flor

................................                 não longe da noite
...............................              meu corpo mudo
se abre
                                             à delicada urgência do sereno



AMANTES // una flor / no lejos de la noche / cuerpo mudo /se abre / a la delicada urgencia del rocío



Alexandra Pizarnic

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS



 












Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira silaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves 

Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

Elegia




















Já repeti o antigo encantamento
e só o cimento respondeu,
rastro de cinzas de maçã vencida,
desvestígio de gosto,
estanque julho que moeu vindimas
e deixou no espaço seu vinagre branco.
Onde havia um deus
os dias emboloram nuvens
de estrita agonia antepassada
que se olha no espelho
antes do adeus.
Inexiste, não soa, o que havia
fixou-se atrás da mente:
fim estalado de fotografia.
É agosto seco. É hoje e nunca houve.



Elizabeth Veiga






Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

Lapidar uma mulher




Há quem tente lapidar
uma mulher
como se lapida
jóia rara
e pedra bruta.

Com escalpelo
cinzel
buril
inscrevem nela uma figura, depois
a expõem nos salões
revistas e altares
apregoando quantos camelos
quantos colares
vale o dote
- da criatura.

Na Nigéria também
lapida-se mulher
mas de forma
inda mais dura.

Assim a mulher
que se nega a ser
por eles esculpida
deve morrer como viveu:
- petrificada.

Não bastassem
os muros em que viva
vive emparedada
é sob pedras
que a mulher viva
é pétrea e friamente
sepultada
quando não se conforma
com a forma
como desde sempre
é deformada.

Atiram-lhe
tantas pedras
até que não se veja
a forma e o sangue
da apedrejada,
até que a mulher -alvo
alvejada
desapareça numa maré de pedras
coaguladas.

Desta feita os escultores
foram mais perfeccionistas
deixaram a mãe
amamentar o filho
antes que o leite no seio
se petrificasse.
Assim o filho na fonte beberia
o pétreo ensinamento
antes que a fonte secasse.

Ao amante não lapidaram.

Ali o homem já nasce feito
é obra de arte que dispensa
qualquer lapidação.
A mulher, sim, carece
de acabamento
posto que imperfeita figura
na ordem da criação.

Affonso Romano Sant’anna

Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

le linge de nos mères




Le linge de nos mères
sent bon dans les armoires
la lavande et le grand air,
c'est beau juste de les voir...

Le linge de ma mère

est plus blanc plus blanc que blanc
Même quand nous étions enfants,
elle en faisait son affaire.

Et sous nos ventres ronds sera-t-on les filles de nos mères?

Qui menaient tout de front de manière exemplaire...

Dans les maisons de nos mères,

c'est classé irréprochable,
on boit dans de jolis verres,
y'a des bouquets sur les tables...

Dans les jardins de nos mères

y'a des fleurs qui dégoulinent,
y'a des roses, des primevères, du lin et de la glycine

Et sous nos ventres ronds sera-t-on les filles de nos mères?

Qui menaient tout de front de manière exemplaire


Dans les potagers de nos mères,

y'a toujours trop de légumes,
elles nous font des tupperwares
qu'on ramène c'est la coutume.

Dans les mains de nos mères

y'a des lignes et des histoires,
qui pour nous restent un mystère,
même si on voudrait savoir...

Et sous nos ventres ronds sera-t-on les filles de nos mères?

Qui menaient tout de front de manière exemplaire...Et sous nos ventres ronds sera-t-on les filles de nos mères?
Qui menaient tout de front...Je sais pas si...je saurais faire...

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Quand j'suis loin de toi, J'pense à toi



Y'a quelque chose de la vie
Dans tes yeux qui rient
Y'a cette petite flamme qui crie
Qui brûle et qui brille
Juste un regard pour comprendre
Que c'est dans tes yeux
Que j'me sens le mieux
Juste un sourire pour te dire
Que j'ai besoin de toi
Reste et regarde moi

Y'a quelque chose du bonheur

Dans ta voix qui vibre
La réponse de mon coeur
C'est qu'il se sent libre

Libre d'être moi quand

Tu m'serre dans tes bras
Libre de vivre un amour qui m'apprend tous les jours
Quand j'suis loin de toi, J'pense à toi
A ta p'tite flamme, à tes yeux
Et je me sens mieux

...et je me sens deux


Y'a quelque chose d'universelle

Dans notre histoire
Une petite étincelle
Pour bien plus qu'un soir

Est-ce que tu veux me donner ta main ?

Pour tout l'temps qu'on s'ra bien ?
Est-ce que tu veux partager mon chemin ?
Moi j'dis oui pour le tien