A gruta é mais extensa do que a gruta

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    Sábado, Agosto 08, 2009

    Cof, cof

    Tinha planejado alguma bobagem sobre filmes não narrativos (Norman McLaren, Stan Brakhage, Michael Snow, essas coisas), mas vai ficar para uma outra vez _se não acabo não atualizando mais este site. Em vez disso, é bom selecionar e frisar o que de bom foi pra cabeça.

    O destaque absoluto é "Incompreso" (aqui rebatizado com o bobo título "Quando o Amor É Cruel"). Não sei se o filme de Comencini (o segundo dele que vi, até onde me lembro) foi um grande sucesso, mas como vi outros parecidos (mas não comparáveis), suponho que sim. E é impressionante como um filme sobre temas tão pesados pode ser tão leve, divertido, engraçado e envolvente _era muito fácil ser deprimente, mas esta armadilha é evitada em grande parte graças às atuações perfeitas das crianças, Stefano Colagrande e Simone Giannozzi, que nunca mais trabalharam no cinema. Ao mesmo tempo, também consegue a proeza de ser emocionante sem apelar para sentimentalismos (pelo contrário, a cena final traz os atores contidos a um
    ponto que parece impossível). Um remake com Gene Hackman foi feito nos EUA no início dos anos 80; dizem que é parecido com o original, mas difícil acreditar que seja tão bom quanto. Alguém viu? Também extasiante foi a revisão de "O Padre e a Moça", um filme muito especial e com uma carga erótica altíssima, da qual eu não me lembrava. Que acidente feliz! E por coincidência, em seu blog novo, o Francis publicou quadros de uma das sequências mais famosas.Outra revisão foi o "Persona" do Bergman (que vi pela primeira vez no Banco Real da Paulista, tomando vinho), que, apesar de datadíssimo (mas isto nem é defeito: marcou época), ainda fascina, em especial nos seus primeiros minutos.

    Em uma Mostra de alguns anos atrás, gostei bastante do "Offscreen", de Christoffer Boe. Mas vendo "David Holzman's Diary", feito quase 40 anos antes, o filme do dinamarquês ficou pequeno. A reflexão sobre a relação entre vida e registro audiovisual (martelada recentemente em filmes como o "Diário dos Mortos") já aparece bem madura no filme de estreia de Jim McBride. Falando nele, que carreira estranha a do rapaz: dirigiu pornochanchada, fez um remake de "Acossado", cinebiografias de Jerry Lee Lewis e Meat Loaf (!), participou do filme do Cakoff e dirigiu episódios de séries como "Além da Imaginação" (versão anos 80), "Anos Incríveis" e "Six Feet Under"... E cabe avançarmos até 2000 para citar "Camera", de David Cronenberg, cuja marca autoral é evidente em frases como "When you record the moment, you record the death of the moment", bem ditas por Leslie Carlson. É um tanto óbvio no final, quando ocorre a "sacadinha" típica de muitos curtas, mas antes disso não faltam bons momentos. O diretor disse que teve a ideia de fazer este filme inspirado em um sonho de sua infância: ele havia entrado criança em um cinema e, enquanto o filme passava, ele envelhecia rapidamente... Voltando a 1967. "Privilege" (do Peter Watkins de "The War Game"), já começa com uma mistura Beatlemania com desfile de imperador romano (ou de führer). A metralhadora giratória do diretor não perdoa Igreja (os monges a la Beatles cantando "Onward Christian Soldiers" são uma pérola da sátira), a publicidade, o showbiz, os políticos, a multidão que não gosta de pensar. Infelizmente e como de hábito, tudo continua muito atual. O ator principal é Paul Jones, que cantava na banda do Manfred Mann.

    1966 é o ano de três outros destaques. "The Naked Prey", talvez o filme mais famoso de Cornel Wilde como diretor (se não foi a referência máxima para "Apocalypto", então se trata de uma grande coincidência), traz um enredo mínimo e praticamente nada de diálogos; mas é impossível desgrudar os olhos da tela face o retorno do homem a seus instintos mais primitivos de sobrevivência, cercado do ambiente mais hostil que possa existir. É à flor da pele e ao mesmo tempo profundo. Também voltei a "Django". O filme mais famoso de Corbucci (que eu tinha visto quando criança na "Sessão das Dez" do SBT, depois do Silvio Santos) reprocessa uma série de clichês que por sua vez também foram reprocessados por uma porção de gente (por exemplo, o corte da orelha me lembra "Cães de Aluguel"). A mistureba vai de racismo a la KKK a revolução mexicana, de mulheres lutando na lama a um protagonista que vai de super-homem invencível a assassino sádico e a farrapo estropiado (mas ainda invencível), de sequências aventureiras com música animada a brigas em saloon (por sinal, também vi uma briga em saloon no delirante, musical e colorido "Tokyo Drifter", de Seijun Suzuki), sem falar na fantástica apresentação da personagem durante os créditos iniciais, sob uma canção que remete a Elvis _tudo sem vergonha de copiar aquele filme de Leone que copiava Kurosawa. Enfim, tem seu lado de grande "picaretagem", mas também é um triunfo e um filme extremamente divertido. E também conheci um "Operazione Paura" ("Kill Baby Kill" nos EUA), no qual Bava volta à forma com uma história de terror sobrenatural no início do século XX. Típico Bava, ou seja, é ótimo, com fotografia belíssima, movimentação de câmera sublime e uma série de ideias que também foram copiadas depois (inclusive não me surpreenderia se o Kubrick tivesse se inspirado neste filme para alguns momentos de "O Iluminado").

    A curiosidade foi "Meet the Feebles", de 1989, que Peter jackson fez em 16mm (ou seja, é "fullscreen" mesmo) entre "Bad Taste" e "Fome Animal" (ainda não vistos). É "Os Muppets" para adultos: o sapo é viciado em drogas e tem traumas do Vietnã; a hipopótama não consegue parar de comer, deprimida porque seu amante, a lontra, o trai com uma gata; a mosca é um repórter da imprensa marrom que se alimenta de merda; o elefante não quer assumir o filho que teve com uma galinha; o coelho teme ter contraído uma doença venérea fatal; o porco-espinho apaixona-se por uma cadela; e por aí vai. Os bonecos sangram, vomitam, têm mortes "gore" e tal. Divertido para quem gosta de nojeira. Mas suponho que é preciso ainda mais estômago para o novo filme do Heitor Dhalia...

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    O blog é, tem sido e deve ser sobre cinema, mas o assunto é tão relevante e tão comentado (embora o que tenho mais lido são impropérios proferidos pelos mais afetados) que é impossível não dizer algumas palavras sobre a lei do Vampeta (apelido mais condizente com nosso atual governador) que proíbe o fumo em locais fechados de SP. Por definição, odeio proibições. Sou a favor da liberdade com responsabilidade. O problema é que como falta esta última, a outra acaba sofrendo também. Fumantes estão reclamando do autoritarismo da coisa toda, entre muitos outros problemas. É verdade, concordo. Sou a favor do direito de fumar, mesmo não sendo fumante e, pior, sendo alérgico. Mas fumar em local fechado frequentado por não fumantes também é um ato grotescamente autoritário. O fumo passivo é uma realidade comprovada cientificamente, e vai ser um alívio gigantesco não ter mais de conviver com ele. Agora, o que me incomoda mesmo na questão do cigarro é que ele acaba com o sex appeal de qualquer mulher. É de uma tristeza mortal ver uma mulher bonita fumando. Lembram do desespero do protagonista de "Anything Else" ao se tocar de que tinha se apaixonado por uma fumante? E não me venham com Lauren Bacall ou similares...

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    Se eu já não recomendo a visita a este sítio pobre, desleixado, raramente atualizado e de interesse nulo, recomendo menos ainda que me sigam no Twitter, o qual uso para propósitos muito específicos e que não dizem exatamente respeito a outrem (exemplos acima, no "widget" tosco que é oferecido para o Blogger; o outro widget, o dos que acompanham este blog, foi movido para o pé da página, junto com o link do feed). Mais recomendável, e mesmo assim somente para pouquíssimos (já que gosto sempre é algo particular demais e assumo que o meu pode ter muito de duvidoso), é a minha página no Blip.fm, que tem me servido muito bem como um substituto à Last.fm, depois que sua rádio infelizmente se tornou um serviço pago (sem que por isso ele fosse melhorado). Curiosamente, está bem menos esculhambada do que se poderia esperar de alguém como eu. Abaixo, um exemplo do que tem rolado por lá:



    Minha impressão inicial sobre o Twitter é que ele pode valer a pena se você selecionar muito bem quem você acompanha; no meu caso, como não tenho o menor interesse na vida alheia (não por um site público na internet, pelo menos; com amigos e sobre coisas importantes não é assim que se fala), ninguém deve se melindrar se eu deixar de ser seu "seguidor" (a conotação religiosa do termo é asquerosa). Mais interessante é quem dispõe links legais ou mesmo os fakes com conteúdo inteligente ou engraçado (é o caso do Millôr Fernandes, infelizmente "RT" por tudo quanto é zé mané, ou do já clássico Vitor Fasano). O insuportável é que se fala DEMAIS de futebol.

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    Voltemos a Blaise Cendrars, que nos lembra que não é de hoje que a globalização ajuda o ser humano a ser ainda mais boçal:

    "Estávamos, (Wally) Westmore e eu, de pé sob um pórtico publicitário, protegidos da chuva que caía a cântaros, mas totalmente respingados. (...) Como seu carro continuava a não chegar, eu, pensando em diverti-lo, comecei a lhe contar que estivera no Brasil na época do lançamento de 'Loura e Sedutora' (filme de Frank Capra com Jean Harlow, de 1931) e que o filme fizera tamanho sucesso no Rio de Janeiro que, em menos de uma semana, todas as belas mulatas e as negras indolentes que saíam no fim da tarde para passear na avenida ou desfrutar a brisa à beira-mar, na praia do Flamengo, haviam descolorido o cabelo e todas se maquiavam de cor-de-rosa.

    _ Foi muito engraçado! _ concluí. Mas aquilo também era inquietante, porque todas tinham o ar de não passar do avesso delas mesmas, como os personagens que entrevemos na transparência, ao examinar um negativo a olho nu. Imagine esse cortejo de negras louras à luz do crepúsculo, vistas em sua silhueta, com a mancha clara do rosto maquiado e os cabelos mortos, mas brilhantes! Parecia um desfile de assombrações."

    P.S. A frase de hoje é do já linkado Inácio Araújo: "Quem não gosta de uma boa sessão da tarde não sabe o que é cinema."


    Quinta-feira, Junho 04, 2009

    Quando Hitchcock não era mestre

    Aproveitei uma rara folga e visita aos meus pais no interior para finalmente estrear a caixa de DVDs com quase todos os filmes da fase inicial inglesa do nosso amigo Alfred que ganhei do meu irmão. Deu para ver quatro filmes mudos que eu ainda não conhecia e também para ter mais claro que demorou anos e anos para o cineasta se tornar o propalado "mestre do suspense" _se ele tivesse nascido na época em que morreu, talvez nunca tivesse chegado a lugar algum. Esses seus filmes silenciosos compõem um conjunto de romances sem nada de muito especial, dentro daquele contexto de produção industrial da era dos estúdios _do qual o diretor nunca saiu.

    "Champagne" é uma comédia romântica bastante agradável, ingênua e previsível. É o mais bem-humorado desses filmes As graças se destacam, como o anel que não serve direito e vai parar em um dedão, as marcas de farinha num casaco após um abraço e a reentrada da protagonista (Betty Balfour, não muito bonita, mas muito expressiva) numa festa no estilo meio "A Moreninha"... O Ailton, que faz peregrinação pela fase inglesa do Hitch, não gostou muito e preferiu "The Farmer's Wife", adaptação de um texto teatral que nada mais é do que outra comédia romântica _e com muito pouco a ver com a obra madura do inglês. O enredo é imensamente raso e previsível (ainda mais do que em "Champagne" _sendo que aqui o capricho com a fotografia é bem menor), como se fosse a versão miniatura de uma novela. Os bons momentos se devem em especial à qualidade dos raros diálogos, com piadas que funcionam. Mas o filme é uma bobagenzinha esquecível,não se destaca entre outros filmes da época.

    "Easy Virtue" é outra adaptação teatral (desta vez de Noel Coward) e também uma história de amor, mas desta vez o humor fica de fora. Dos três filmes de 1928 do diretor, é o que mais se encaixaria com seus filmes posteriores, porque pelo menos há um assassinato e cenas em tribunais. Mas não demora muito a se tornar um drama, mais uma vez protagonizado por uma mulher, que vai ficando cada vez mais triste até desaguar num final de certa forma implacável. Mas é também pouco memorável _tanto que, em seu famoso livro de entrevistas, François Truffaut confessa que não o viu. E Monsieur Hitchcock sempre fez questão de reclamar da última fala do filme, que é bem melodramática.

    E "The Manxman", aqui chamado de "O Ilhéu", fecha o ciclo (dos filmes mudos dele que ainda existem, faltam apenas "The Pleasure Garden" e "Downhill", que não estão na caixa de DVDs). Mais uma vez, temos uma história de amor simples e de resolução não muito surpreendente. O conflito é bem folhetinesco, um triângulo amoroso envolvendo dois grandes amigos (um deles é Carl Brisson, o One Round Jack de "The Ring") e uma bela loira (a "polaquinha" Anny Ondra, de "Blackmail"). Apesar de tudo, o filme é bonito e vale a pena. Mas quem é fã de Hitchcock em sua fase áurea não vai necessariamente se interessar por estes filmes.

    Coincidentemente, fui convidado para escrever alguma bobagem sobre "The 39 Steps", no momento meu filme preferido do diretor nesta fase inglesa (alguns expressaram preferência por "The Lady Vanishes", que não é tão bom), no contexto do ranking dos anos 1930 da Liga. Cinco dos meus escolhidos entraram no top 20 e outros cinco de 21 a 50.

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    Falando em comédias românticas, que delícia é "Kiss Me Stupid", que Billy Wilder e seu parceiro de roteiro, I. A. L. Diamond, criaram também a partir de uma peça de teatro. É uma grande comédia de erros (que demora um pouco para engrenar, mas depois vai de vento em popa), extremamente sexual, cheia de trocadilhos ("If it weren't for Venetian blinds, it'd be curtains for us" é um dos muitos exemplos), ironias e frases de duplo sentido antológicas (o que me faz lembrar de "O Esporte Favorito dos Homens"). E também funciona, à moda de Frank Tashlin, como ótima crônica do seu tempo (a exemplo de seu "Crepúsculo dos Deuses", Wilder volta a ser inclemente com o mundo do show business e faz com Dean Martin algo muito parecido com o que ele tinha feito com Gloria Swanson), inclusive com umas três ou quatro piadas em cima dos Beatles. O elenco é excelente, com Dean Martin interpretando sua persona fílmica, Kim Novak em uma de suas melhores performances (sexy, engraçada e tocante ao mesmo tempo), Felicia Farr, bastante adequada em um papel originalmente escrito para Marilyn Monroe (que talvez ficasse melhor no papel de Polly The Pistol) e Ray Walston como o protagonista, que se sai bem num tremendo desafio, o de substituir o ator original, Peter Sellers, que teve de sair do projeto após um dos seus vários ataques cardíacos.

    E longe de ser tão bom, mas também gostoso de assistir, é "Sex and the Single Girl" _que me lembre, o único filme de Richard Quine que vi até o momento. A princípio parece que vai ser uma pouco memorável comédia romântica de erros sessentista, mas o filme cresce e traz vários momentos engraçados (além de uma longa e antológica sequência, a da perseguição na rodovia _com direito a contramão e pretzels). O elenco de primeira aproveita para relaxar e criar ótimos momentos, como Henry Fonda reconhecendo mulheres pelas pernas e Lauren Bacall alternando extremos como megera e mulher amorosa. Tony Curtis (quase numa espécie de versão cômica e romântica de sua personagem em "A Embriaguez do Sucesso") e Natalie Wood fazem várias referências engraçadas a Jack Lemmon, com quem trabalhariam poucos meses depois em "The Great Race".

    Mas a obra-prima vista desde o texto passado é mesmo "La Religieuse", de Rivette. Enquanto a Nouvelle Vague tinha seus anos de ouro, ele não filmava: levou seis anos até lançar o sucessor de "Paris Nous Appartient", adaptando um romance de Diderot que ele já havia levado ao teatro. Estrelado por Anna Karina, é rigoroso e sóbrio, de planos abertos e emoção contida. E cresce muito em um de seus últimos atos (com a participação marcante da sueca Liselotte Pulver), quando se torna provavelmente o mais belo "filme gay" já feito. Coroado com um final belo e impactante, mesmo sendo previsível.

    ***

    A esta altura, "Gran Torino" foi comentado à exaustão, então só vou citar duas ou três coisas: assim como "Million Dollar Baby" (que me parece superior), é bastante católico. São abordados temas como confissão, morte, racismo e armas, nada que dê para aprofundar sem "spoilers". Mas vale a pena citar a que provavelmente é a cena cômica do ano e que não vi comentada em nenhum outro texto: o velho vizinho ranzinza vai tentar ensinar seu pupilo descendente de asiáticos a "falar como um homem", levando-o a um barbeiro boca suja (John Carroll Lynch, ótimo). É o tipo de coisa que quem é pai ou é filho sabe reconhecer como muito especial.

    Sempre que eu vejo um filme adaptado de um livro que já li, é quase inevitável que me decepcione (e entendo que isso aconteça com quem leu o roteiro de "A Volta do Regresso" _um filme teimoso que deve passar de novo em São Paulo e no Rio, antes de estrear na TV_, embora também entenda que isso aconteça com quem também não o leu). No caso de "Entre les Murs", isso acontece, mas de uma forma distinta: o grande problema nem é do Cantet, mas do Bégaudeau, que não escreveu um romance e sim um roteiro (o livro é só rubrica e diálogos, bem chatinho; pede para ser filmado porque não é boa literatura, não é um texto admirável). Ah, e a tradução brasileira é nojenta (o que não é novidade; as editoras pagam uma merreca pornográfica e quem é suficientemente bom para o serviço normalmente trabalha com coisa melhor, então os parcos leitores neste pasto têm de se virar com essas versões revoltantes, estupidamente literais, como as dublagens de TV). O livro, embora obviamente resumido, é seguido bem de perto; dessa forma, como não há ousadia na adaptação, o filme cai no meu conceito. Mas pelo menos dá para destacar uma das últimas cenas, que alguns podem considerar talvez a mais óbvia e menos sutil do filme, como geradora de alguma emoção mais concentrada, ao mesmo tempo que faz um questionamento premente e aparentemente infrutífero.

    Já o piorzinho entre os filmes recentes que vi é "[Rec]", de Jaume Balagueró e Paco Plaza, que aparentemente fez sucesso suficiente para ser refilmado nos Estados Unidos (estrelado pela "Emily Rose" e irmã magrela do "Dexter", aparentemente fazendo carreira de "scream queen") e também deve ter agradado uma boa parte dos fãs de filmes de terror, mas comigo não funcionou. É tremendamente derivativo, mas sem chegar aos pés de qualquer filme do Romero ou de "A Bruxa de Blair" (para citar as obras-primas) ou mesmo do "Extermínio" do Danny Boyle (do qual não gostei) ou de "O Silêncio dos Inocentes" (dá para ver que ele chupa uma série de sucessos anteriores). O filme termina quando estava começando a ficar interessante (vem uma sequência por aí, mas não estou otimista), o que ajuda a deixá-lo ainda mais decepcionante. E também peca pela imensa falta de ritmo, o tédio se instala várias vezes... Para falar a verdade, a melhor parte mesmo do filme são seus primeiros dez minutos, quando há alguma graça (praticamente sustentada pela boa atriz Manuela Velasco).

    ***

    Falta-me tempo para escrever e, creio, falta saco a muita gente para ler os textos longos para o "padrão Twitter" que saem aqui (não que eu me importe, vejam bem). Então vou apenas citar o que andei vendo (filmes e séries de TV) recentemente e que deixei de comentar. Quem se interessar pode trocar ideias no nobre espaço para comentários: "Operazione Paura", "Terrore nello Spazio", "Sei Donne per l'Assassino" e "La Ragazza Che Sapeva Troppo", de Mario Bava; "Texas, Addio", de Ferdinando Baldi; "7 Women", de John Ford; "The Knack ...and How to Get It", de Richard Lester; "Bad Girls Go to Hell", de Doris Wishman; "Baby the Rain Must Fall", de Robert Mulligan; "Hatari!", de Howard Hawks, "Damages" (segunda temporada); "Putney Swope", de Robert Downey Sr., "The Velvet Underground and Nico", de Andy Warhol; "House M.D." (temporadas 4 e 5), "The Thin Red Line", de Andrew Marton; "The Wire" (primeira temporada); "Homicidal", de William Castle; "Lilith", de Robert Rossen; "X-Men Origins: Wolverine", de Gavin Hood; "The Mindscape of Alan Moore", de ??? (não anotei e não vou checar); "The Office" (temporadas 2 e 3); "Kiseichuu: kiraa pusshii", de Takao Nakano; "The Damned", de Joseph Losey; "Toute la Mémoire du Monde", de Alain Resnais, e "Les Statues Meurent Aussi", de Resnais e Chris Marker; "Nightmare", de Freddie Francis; "Rififí en la Ciudad" e "Gritos en la Noche", de Jesus Franco; "Dexter" (temporada 3); "För att inte tala om alla dessa kvinnor", de Ingmar Bergman; "Rabbits", de David Lynch.

    P.S. Internet é ferramenta. Não entro em sites da moda a não ser que descubra uma serventia para eles. Acabei de descobrir uma serventia para o Twitter (ou seja, defini o que dá para escrever em 140 toques) e acabei de entrar lá. É aqui.

    P.P.S. Mudaram a câmera de lugar, ufa. Alívio imenso de não mais aparecer na TV. Tristeza dos meus pais, que assistiam para matar a saudade.

    P.P.P.S. Assim como os textos no Estranho Encontro, vale a pena ler esta entrevista da Andrea Ormond feita pelo Marcelo Miranda.

    P.P.P.P.S. Se eu não me esquecer, nos próximos textos gostaria de citar alguns trechos do livro "Hollywood - A Meca do Cinema", de Blaise Cendrars. Ia começar pelo trabalho nos estúdios, mas esta notícia me fez escolher este outro:

    "Nunca tomo notas em viagem. Não quero cumular o espírito com uma multidão de detalhes contraditorios. Quero poder relatar somente o essencial das coisas vistas.

    Um repórter não é um simples caçador de imagens, deve saber captar as visões do espírito.

    Se seu olho deve ser tão rápido quanto a objetiva do fotógrafo, seu papel não é registrar passivamente as coisas. O espírito do autor deve reagir com agilidade, com seu temperamento de escritor, seu coração de homem.

    É nesse sentido, mas somente nesse sentido, que uma reportagem pode ser um documento sensacional, sem se perder em exageros.

    Nada é tão comovente para um jornalista que acaba de partir incógnito para o exterior quanto relatar esse mergulho numa atualidade viva, palpitante e recalcitrante, mas de significação geral, e que é o único testemunho real que podemos dar da vida do universo, esse desconhecido. É por isso que os jornais existem e são publicados a cada 24 horas.

    Não se trata de ser objetivo. É preciso tomar partido. Sem introduzir algo de seu, o jornalista jamais conseguirá transmitir essa vida atual, que é também uma visão do espírito.

    Por isso, quanto mais verdadeiro é um artigo, mais tem de parecer imaginário. De tanto se colar às coisas, o jornalista está fadado a influenciá-las, e não a decalcá-las. E é também por isso que a escrita não é uma mentira nem um sonho, mas a realidade, e talvez tudo o que jamais poderemos conhecer do real."

    P.P.P.P.P.S.

    R.I.P. Fritz

    Quinta-feira, Maio 14, 2009

    Um pouco de cinema nacional


    E começamos o oitavo ano deste absurdo ridículo tentando mudar de novo _mas sem essas viadagens de Twitter (que aqui ainda habitamos um mundo alfabetizado, onde há coisa melhor para fazer) ou de boicote à carne de porco (que aqui ainda habitamos um mundo onde não se dispensa um lombinho ou uma costelinha).

    Então, eu não sei se já disse isso por aqui, mas acho muito esquisito obras de arte competirem. É vulgar e estúpido, além de rebaixar os filmes (ou os livros, etc.), mas funciona perfeitamente na lógica do capitalismo, obcecado pela figura do "vencedor", do "número 1", essas coisas que até se aplicam ao esporte (embora aí também entrem variáveis "nada a ver" como patrocinador, estrutura, etc.), mas não às artes (onde, inclusive, fracassar pode ser "cool", "romântico", "charmosamente decadente", pff). Pois parece que agora (ou há alguns anos, não interessa) existe um prêmio de cinema brasileiro com nome de patrocinador (ridículo, ridículo; será este o mesmo que inventou o tal de prêmio para "product placement" e o deu pela primeira vez para um absorvente íntimo no primeiro "Seu Eu Fosse Você"?) e que inclusive, dizem, foi exibido pela TV (não sei em que canal ou horário, a divulgação foi aparentemente péssima), talvez por vontade de se igualar ao Oscar (não lembro quem foi o gênio _Inácio Araújo, para variar?_ que disse que o troféu, em vez de se chamar Grande Otelo, deveria se chamar Oscarito).

    Se premiaram o melhor filme ou não, é questão que não deixa de ter sua relevância, mas não é a que me interessa no momento. O interessante é que não se premiou uma bomba, mas "Estômago", a estreia de Marcos Jorge em longas de ficção. Até tem atores já cooptados pela TV, mas é claramente um filme de baixo orçamento (sem ser prejudicado por causa disso), com jogo de cintura. A história, narrada em vaivéns temporais, não tem frescura e não causa confusão _pelo contrário, o enredo é bastante previsível, sem que isso seja um defeito. O filme aposta quase tudo em seu protagonista e fica muito difícil imaginá-lo sem João Miguel, que o carrega nas costas, apoiado por bons coadjuvantes (destaque óbvio para Fabiula Nascimento); curiosamente, o que mais me incomodou foram algumas piadas infames mal integradas à narrativa (já os palavrões são ótimos, embora eles não combinem tanto com o dono do restaurante italiano _ficou parecido demais com o do boteco das coxinhas).

    Por outro lado, é com certa tristeza que me deparo com "Não por Acaso", outra estreia em longa, mas de um diretor mais hypado no mundinho paulistano. Só vi dois dos seus elogiados curtas, um bem bom e outro bem fraco; o longa infelizmente pende para o lado mais fraco. Sem dúvida ele se encaixa na seara dos filmes "certinhos e bem feitos", cheio de planos bonitinhos (os bons mesmo são os que mostram panorâmicas da cidade), que tanto agradam a quem gosta apenas superficialmente de cinema (entre eles uma boa parte dos curadores e jurados de festivais) mas que não causam grande impacto em cinéfilos mais ou menos dignos do nome. E é este talvez o maior defeito do filme: não traz nenhuma surpresa (o roteiro é esquemático, mas claro que isso foi proposital), os momentos que deveriam ser mais emocionantes mal arranham a casca do espectador. E a trilha sonora é um horror _o filme ganharia muito se ela fosse eliminada. Caramba, se o diretor queria fazer um melodrama, que enfiasse o pé na jaca mole, pois ainda estamos fartos do lirismo comedido; se queria fazer um filme "cerebral", que deixasse totalmente de lado seus rasos ensaios folhetinescos e fosse mais severo, limando os planinhos bobinhos com musiquinha apelativa. Tá na hora de mais ousadia e mais coragem, sem vergonha de ser proscrito (inclusive do tal prêmio caipira). Promessas que não se cumprem só têm graça quando foram feitas para sacanear alguém.

    Padrinho do Philippe Barcinski, Fernando Meirelles também filma São Paulo (inclusive perto de casa _e alguns planos foram filmados do apê de uma amiga, que ganhou uns R$ 300) em "Blindness". Não li este livro de Saramago (autor que nunca me entusiasmou, com exceção daquela paráfrase bíblica), então não sei se a culpa é do Meirelles, mas a metáfora de uma epidemia de cegueira representando a cegueira moral da humanidade é bastante simplória, e o filme nunca vai por caminhos inesperados ou impressionantes. É uma pena que tal banalidade inunde o projeto, que nunca chega a ser muito pesado ou desagradável (o "Antes Que o Diabo...", do Lumet, vai muitíssimo mais fundo). As imagens são bem pouco interessantes (pensei que Meirelles ia ousar mais). E o fato de não ser um "filme de personagem" atrapalha: eles são muitos e pouco desenvolvidos (sequer têm nome, apenas a profissão), dificultando demais a empatia. Será que não foi um erro ter retirado a narração da personagem de Danny Glover? Foi o único momento no filme em que consegui entrar na cabeça de um dos personagens, já que o diretor falha (ou nem se preocupou) em nos mostrar isso visualmente.

    Melhor é "Cão sem Dono", embora seja o pior longa do Beto Brant que vi (só falta o "Ação entre Amigos"). Feito de sequências muito bem separadas, sem uma cronologia 100% linear, com os atores (nem todos profissionais) improvisando bastante (excelente o trabalho de Roberto Oliveira numa cena especialmente tocante; outro destaque é a conversa bêbada entre Marcos Contreras e Júlio Andrade), peca mesmo pelo protagonista (não pelo ator), que é muito, mas muito chato (provavelmente é culpa do autor do livro). Depois do ótimo "Crime Delicado", espera-se que Brant dê a volta por cima...

    Na favela dos clássicos, revisitei "Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos, só para confirmar o quanto o texto de Nelson Rodrigues é maravilhoso e como Jesse Valadão e Odete Lara eram excelentes. O resto do elenco também é ótimo (Daniel Filho, Ivan Cândido, Maria Lúcia Carneiro, Georgia Quental e Wilson Grey, entre outros), mas não tem jeito, o texto sempre se sobressai. E vi pela primeira vez "Os Fuzis" (alguma relação com o "Les Carabiniers" do Godard?), o segundo longa de Ruy Guerra, que mostra uma capacidade impressionante e infelizmente rara de movimento de câmera (na mão, praticamente o tempo todo). Também conta com um elenco fantástico (Átila Iório, Nelson Xavier, Maria Gladys, Hugo Carvana, Ivan Cândido, Pereio em seu primeiro filme, uma participação especial de Joel Barcellos e muitos outros). Representante bastante óbvio do Cinema Novo (especialmente do que se convencionou chamar de "estética da fome"), prefere criar um painel (revoltante, da humanidade) a contar uma história, embora dilemas apareçam aqui e ali. Mesmo muito datado (na época devia ser muito moderno), ainda conserva o brilho, daí merecendo a alcunha de "crááássico", como se diz por aí.

    E calhou também de eu ver o início de "Cinderela Baiana", se não me engano a última produção de Antonio Polo Galante. Digo que vi o início porque quando a protagonista cresce e vira a Carla Perez e fica amiga do Lázaro Ramos e aí aparece o Perry Salles de bigode, deu pra mim (com o bônus de perder o Alexandre Pires). Mas o impressionante é que o início do filme não é tão ruim _em especial aquelas cenas em que a mãe da protagonista vai para a beira da estrada com uma pá para tapar buracos no asfalto com terra e disputar com crianças moedas que os caminhoneiros atiram pela janela (eu mesmo não vi isso na viagem que fiz pela Bahia, o que tinha mesmo era vendedores de cacau e de bichos silvestres, estes ilegais). Curioso também que, embora o filme seja do final dos anos 90, ele parece muito mais antigo.

    ***
    Eu comecei a me interessar mesmo por música popular com o punk rock (antes, gostava de algumas coisas que chegavam a meus ouvidos, invariavelmente roqueiros, como Eramos Carlos _do Roberto, nem tanto_ e Raul Seixas. Também gostava do Ney Matogrosso, não pela música, mas pelo visual exuberante, parecia um super-herói). E descobri que existia punk no Brasil com o "Crucificados pelo Sistema", registro clássico do Ratos de Porão na fase puramente hardcore, com pouca influência de metal. Daí pra frente virei colecionador e ainda tem vários vinis de selos independentes em algum lugar da casa de meus pais, material de museu. Portanto, não ia perder por nada deste mundo uma das exibições de "Guidable - A Verdadeira História do Ratos de Porão", de Fernando Rick e Marcelo Appezzato. Fui gentilmente convidado para a pré-estreia, com a presença da banda, mas como era em dia de trabalho, fui à lotada sessão a R$ 1. Na fila, dominada por cheiro de sovaco de roqueiro, um pessoal atrás de mim comentou que o conjunto de pagantes lembrava um "asilo do rock" (a média da idade do público era mesmo de 30 pra cima). A sala lotou, o que me deixou contente _nem me lembrava mais de minha última sessão lotada, que provavelmente ocorreu também no Olido.

    O documentário é mais simples que uma canção dos Ramones. Entrevistas (aparentemente gravadas com cada um em apenas uma sessão _curiosamente, as dos ex-integrantes os mostram tomando umas Brahmas, será que foi proposital?) com todo mundo que passou pela banda, em ordem cronológica de entrada no grupo, e com colegas; fartíssimo material de arquivo (incluindo clips, aparições na TV, vídeos caseiros _o João Gordo parece adorar andar com uma câmera pra tudo quanto é lado nas turnês_, shows _alguns bem antigos_, fotos e até bastidores das gravações do "Carniceria Tropical") e aparentemente pouca coisa a mais gravada especialmente para o filme, como o show que precedeu uma operação de hérnia do Gordo e que registra o reencontro com os ex-RDP Spaghetti e Jabá. Quem já conhece os Ratos sabe que eles são divertidos e têm muita história pra contar; o resultado é que o filme, de 2 horas, passa voando e ainda assim deixa muita história de fora (senti falta especialmente de algumas coisas bem curiosas, como os gibis mensais feitos pelo Marcatti que mostravam os integrantes do grupo como ratões antropomorfizados e alguma menção sobre como a entrada do Gordo na MTV e seu consequente "emburguesamento" _lembremos que ele fez propaganda de carro, refrigerante e sei lá mais o quê, além de ter aparecido na capa da Ilustrada confessando que teve depressão e tomou "prozaquinho"_ afetou o grupo, o que certamente ocorreu). Independentemente disso, o filme vale a pena para os fãs e é um justo testemunho da rara qualidade do RDP, sem dúvida uma de minhas bandas brasileiras preferidas (se não for a preferida).

    Por coincidência, dias antes tinha visto o "Botinada: A História do Punk no Brasil", do ex-VJ da MTV Gastão Moreira, que é sobre o "movimento" punk (acima de tudo na Região Metropolitana de São Paulo, embora apareçam representantes de Brasília e Rio Grande do Sul). Este, por ser mais abrangente, dá uma versão interessante da história, que volta a ser resumida no início do filme do Ratos pelo Redson do Cólera: de maneira patética, a molecada roqueira da periferia paulistana recebeu uma versão distorcida (por uma mídia que sofria censura da ditadura ou que era tosca mesmo) do que seria o punk rock _ou seja, vômitos, brigas, cuspes, alfinetes na cara, um monte de bobagens. No filme de Gastão, mais uma revelação que chega a ser chocante: essa história de gangues na capital e no ABC surgiu porque um bando de cretinos viu o "Warriors", belo filme de Walter Hill, e achou que seria divertido se matarem de porrada (João Gordo resume bem quando compara com a cena do metal, que tinha "mais mulheres, mais shows e não tinha briga"). É deprimente tamanha ignorância, e infelizmente ainda estamos longe de ultrapassá-la, porque o nosso sistema educacional é ridículo e a mídia em geral continua a idiotizar o povo (soa ingênuo como uma letra de banda punk, mas é verdade). Mas não deixa de ser emocionante que jovens pobres da periferia (não tão pobres como seus sucessores, os rappers) tenham se esforçado para criar alguma coisa (no filme do Ratos, Jão fala da ingenuidade de suas boas intenções e que ganhou "só xingo e cuspida" do público que queria atingir). E sobrou a música, feia, suja, tosca e muito legal, melhor do que boa parte do que foi feito no mesmo período, muito mais pretensiosa, muito mais superficial.

    ***
    Também feios, sujos e toscos são alguns filmes com sexo explícito feitos no Brasil no início dos anos 80 e que prometi abordar aqui. Um deles teria sido um grande sucesso de bilheteria (estaria em alguma lista da Embrafilme? Duvido...), talvez o maior de José Mojica Marins: "24 Horas de Sexo Explícito", de 1985. E lembra as pornochanchadas dele: embora longe do melhor do diretor, é possível ver sua marca em alguns momentos. Lembro dele dizendo em entrevistas que a primeira imagem que viu no cinema em que seu pai trabalhava era um close de um órgão sexual feminino com gonorreia, daqueles filmes educativos sobre doenças venéreas: ele quase reproduz aqui o plano (sem a moléstia, claro), para horror (palavra invariavelmente ligada a Mojica) do personagem gay. Há outro plano que eu nunca tinha visto em nenhum outro filme do gênero: uma subjetiva da atriz mostra esperma caindo na lente. Também se destacam o papagaio comentarista e a fantástica "roda de bundas". O tão falado trecho do bestialismo é uma pérola da picaretagem: o cachorro não vai às vias de fato com a moça, cujo noivo, após pegá-la no flagra, decide "provar que é machão". E o que ele faz? É um primor de subversão da lógica... De resto, mulheres feias ("para desacreditar o cinema pornô", ele me disse em uma entrevista em 1995) e frases grosseiras e impagáveis _mas aí estamos no denominador comum do pornô nacional da era da película.

    Saindo radicalmente deste denominador comum, chegamos ao polêmico Sady Baby. Vi quatro de seus filmes (em parceria com Renato Alves), todos variações sobre o mesmo tema: em uma história meio sem pé nem cabeça e repleta de diálogos sem noção (exemplo: em "No Calor do Buraco", Sarampo, um velho barbudo e nojento que vive bebendo leite em uma mamadeira e tem a voz fininha, está pegando "de quatro no ato" uma sorridente mulher em um chiqueiro. Sady Baby e outro ator passam por ali carregando enxadas e param para comentar a bucólica cena: "Sarampo tá metendo", diz Sady; "É um viado, mesmo", responde o outro ator, meneando a cabeça em tom de censura; "É um filho da puta!", retruca Sady, completando o elaborado raciocínio), com o protagonista sempre querendo se vingar de alguém (exemplo: em "Emoções Sexuais de um Jegue" ele é um bandido soropositivo que se diverte infectando suas vítimas) e, no meio tempo, torturando, matando (com direito a "gore" que não faz vergonha a outros clássicos de baixo orçamento) e incendiando algum imóvel. E as cenas de sexo geralmente são ou ao ar livre, em belas locações na zona rural, ou em um lugar fechado e improvisado (com nomes do tipo "Mocó do Traficantes") com uma porção de gente (sem diferenciar héteros e gays, o que por um lado poderia ser democrático, mas acaba impedindo seus espectadores de entrarem no "clima" que a maioria das produções pornôs buscam). Por cima de tudo, uma trilha sonora pirateada que não segue lá grande lógica e pode misturar Abba e músicas caipiras do Rio Grande do Sul (com direito a barulhos de animais como galinha, vacas e cavalos nas cenas de sexo de "No Calor do Burado", o mais rural de seus filmes _o que em certos trechos faz lembrar uma versão hardcore dos filmes de Bethel Buckalew).

    Mas não é só isso: Sady também busca filmar o sexo de maneira diferente, como em "Emoções Sexuais de um Jegue", no qual ele simula o orgasmo de um cavalo (outro caso de picaretagem zoófila) e filma o que seria o sexo visto "de dentro" usando um pedação de carne que suponho ser bovina. Além da zoofilia, taras como incesto e necrofilia estão associadas a quebras da quarta parede: o ator/diretor Baby costuma fazer charme e dar umas piscadelas para o público quando comete algum ato revoltante, o que acontece com frequência. Mas é em "A Máfia Sexual" (filme que traz a participação especial de Pedro de Lara) que ele soa até profético em um desses momentos. Após mostrar recortes de jornal falando sobre ele mesmo (destacando a cena de zoofilia picareta de "Emoções Sexuais de um Jegue"), ele diz algo como: "Nesse país não dá pra fazer filme de putaria, que dá cadeia." Sábias palavras, sádico Baby.

    P.S. Vai aí o link para o blog do meu colega Rubens, proprietário da Rub Records, o selo de DVDs mais alternativo do Brasil.

    P.P.S. O homem que me ensinou a ler e a escrever morreu. Não tenho palavras.

    Terça-feira, Abril 14, 2009

    7 anos na tela


    A postagem de número 245 ocorre no dia em que esta publicação completa 7 anos. Já agradeci e expliquei do que este saloon de reputação duvidosa se trata nos outros aniversários, então vamos logo ao que também não interessa: uma seleção de alguns dos melhores filmes comentados no último ano (em ordem alfabética e com os títulos originais _a maioria se concentra nas décadas de 1950 e 1960, e é bom lembrar que as menções honrosas vão para filmes imperdíveis, enquanto que...).

    Obras-primas:
    I Tre Volti della Paura (Bava, 1963)
    Kiss Me Deadly (Aldrich, 1955)
    Le Testament d'Orphée, ou ne Me Demandez pas Pourquoi! (Cocteau, 1960)
    Matka Joanna od Aniolów (Kawalerowicz, 1961)
    Mr. Arkadin (Welles, 1955)
    Murder by Contract (Lerner, 1958)
    Run of the Arrow (Fuller, 1957)
    Sweet Smell of Success (Mackendrick, 1957)
    The Night of the Hunter (Laughton, 1955)
    The Savage Innocents (Ray, 1960)
    This Sporting Life (Anderson, 1963)
    Too Late Blues (Cassavetes, 1961)
    Warlock (Dmytryk, 1959)

    Menções honrosas:
    3:10 to Yuma (Daves, 1957)
    9 Dney Odnogo Goda (Romm, 1962)
    Advise & Consent (Preminger, 1962)
    Akibiyori (Ozu, 1960)
    A King in New York (Chaplin, 1957)
    Aparajito (Ray, 1956)
    Apur Sansar (Ray, 1959)
    Artists and Models (Tashlin, 1955)
    Au Hasard Balthazar (Bresson, 1966)
    Bad Day at Black Rock (Sturges, 1955)
    Bande à Part (Godard, 1964)
    Before the Devil Knows You're Dead (Lumet, 2007)
    Boca de Ouro (Santos, 1963)
    Bunny Lake Is Missing (Preminger, 1965)
    Cléo de 5 à 7 (Varda, 1962)
    Devi (Ray, 1960)
    Edipo Re (Pasolini, 1967)
    Forty Guns (Fuller, 1957)
    I Fidanzati (Olmi, 1963)
    Il Posto (Olmi, 1961)
    Il Tempo si È Fermato (Olmi, 1959)
    Invitation to a Gunfighter (Wilson, 1964)
    It's Always Fair Weather (Kelly & Donen, 1955)
    Knocked Up (Apatow, 2007)
    Kuchizuke (Masumura, 1957)
    La Frusta e Il Corpo (Bava, 1963)
    La Ricotta (Pasolini, 1963)
    Lawrence of Arabia (Lean, 1962)
    La Ragazza di Bube (Comencini, 1963)
    Le Salaire de la Peur (Clouzot, 1953)
    Les Bonnes Femmes (Chabrol, 1960)
    Man's Favorite Sport? (Hawks, 1964)
    Meghe Dhaka Tara (Ghatak, 1960)
    Nazarín (Buñuel, 1959)
    Nikutai no Mon (Suzuki, 1964)
    Nobi (Ichikawa, 1959)
    Pather Panchali (Ray, 1955)
    Per Qualche Dollaro in Più (Leone, 1965)
    Per un Pugno di Dollari (Leone, 1964)
    Salt of the Earth (Biberman, 1954)
    Sedmikrásky (Chytilová, 1966)
    Seven Men from Now (Boetticher, 1956)
    Shichinin no Samurai (Kurosawa, 1954)
    Simón del Desierto (Buñuel, 1965)
    Shin Heike Monogatari (Mizoguchi, 1955)
    Some Came Running (Minnelli, 1958)
    The Big Combo (Lewis, 1955)
    The Bravados (King, 1958)
    The Crimson Kimono (Fuller, 1959)
    The Girl Can't Help It (Tashlin, 1956)
    The Hustler (Rossen, 1961)
    The Incredible Shrinking Man (Arnold, 1957)
    The Innocents (Clayton, 1961)
    The Intruder (Corman, 1962)
    The Last Wagon (Daves, 1956)
    The Night of the Iguana (Huston, 1964)
    The Phenix City Story (Karlson, 1955)
    The Pumpkin Eater (Clayton, 1964)
    The Servant (Losey, 1963)
    The Tarnished Angels (Sirk, 1958)
    Un Condamné à Mort s'Est Échappé ou Le Vent Souffle où Il Veut (Bresson, 1956)
    Une Femme Mariée: Suite de Fragments d'Un Film Tourné en 1964 (Godard, 1964)
    What Ever Happened to Baby Jane? (Aldrich, 1962)
    Will Success Spoil Rock Hunter? (Tashlin, 1957)
    Yojimbo (Kurosawa, 1961)

    Menção horrorosa (ou a Tranqueira do Ano):
    Little Miss Sunshine (Dayton & Faris, 2006)

    P. S. Aproveitando a efeméride, voltemos às citações literárias (no caso, sobre outro aniversário em um dia 14 _mas que também poderia ser sobre o cinema, que nem existia). É da segunda versão de "Le Horla" (1887), de Guy de Maupassant (na tradução de José Thomaz Brum), conto que já foi adaptado para cinema/TV pelo menos duas vezes:

    "14 de julho - Festa da República. Passeei pelas ruas. Os petardos e as bandeiras me divertiam como se fosse uma criança. No entanto, é uma grande tolice ficar alegre em data fixa, por decreto do governo. O povo é um rebanho imbecil, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado. Dizem-lhe: 'Diverte-te.' Ele diverte-se. Dizem-lhe: 'Vai lutar com teu vizinho.' Ele vai. Dizem-lhe: 'Vota pelo Imperador.' Ele vota pelo Imperador. Depois, dizem: 'Vota pela República.' E ele vota pela República.

    Os que o dirigem são igualmente imbecis; mas, em vez de obedecerem a homens, eles obedecem a princípios, os quais só podem ser tolos, estéreis e falsos, pelo próprio fato de serem princípios, isto é, ideias consideradas certas e imutáveis, neste mundo onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o ruído é uma ilusão."

    Sábado, Março 28, 2009

    Na eterna vontade de mudar este sítio, sempre brigando com a falta de tempo aliada a coisas melhores a fazer, volto a tentar publicar textos mais curtos e frequentes. O porrilhão de filmes a comentar vai ser dividido nas entradas seguintes; enquanto isso, seguem algumas coisas que precisavam ser registradas.

    ***

    Francis veio falar comigo pelo MSN para fazer comentários iniciais e bem breves sobre "A Volta do Regresso" (que ele viu em DVD, ou seja, sem a fotografia finalizada, com correções de cor), que por puro azar não teve suas sessões frequentadas por críticos. Ainda esperamos poder falar mais a respeito ao vivo, mas as poucas palavras que trocamos ajuda a confirmar algumas coisas que eu já pensava e também ressalta uma referência que faz parte do filme mas que não o define completamente, acredito (assim como nenhuma outra mais específica parece resumi-lo). Como esse tipo de troca é muito importante para mim, peço licença para relatar aqui um pouco da conversa.

    Não me surpreendeu nem um pouco quando ele disse que só gostou do filme (com naturais ressalvas) ao vê-lo pela terceira vez (da primeira, não gostou; da segunda, teve dúvidas). Também o considero especialmente desagradável à primeira vista, quando os problemas de produção evidenciam demais o amadorismo da equipe e atrapalham a fruição da obra. É uma pena que júris em geral só vejam os filmes uma vez, o que me faz desconfiar de todas as premiações, especialmente as de filmes não lançados comercialmente. Vejo demais a "forma" ganhando do "conteúdo" (como se ambos não fosse entrelaçados a ponto de serem inseparáveis), ou seja, ganha o mais "bem feito" e não o "melhor"... É como diz o Inácio Araújo, fã do filme do Vebis: filmes não precisam ser bem feitos, precisam de boas ideias. E estas, acho que não faltam em "A Volta do Regresso" (aliás, o filme me parece saturado delas; talvez o caminho seja tentar fazer filmes mais simples).

    Gostei bastante quando ele disse achar interessante a "plasticidade esquisita" do filme. "Hoje, isso me parece ir a favor do filme, talvez mais do que o que eu havia imaginado quando li (o roteiro)", escreveu. Isso foi cuidadosamente pensado e acho que o filme transmite o que eu desejei, mas a impossibilidade de trabalhar melhor os enquadramentos e a falta de rigor nos movimentos de câmera (por causa de uma série de problemas que não merecem citação) é o que mais me incomoda quando o revejo. Mesmo assim, disse o Francis: "Aqueles ambientes, que soam reais, mas improvisados, plastificados e decadentes são mais fortes". Ele também diz que minhas escolhas de locações e de composições "foram um acerto" ao renegar um naturalismo "de rua" para gerar esta camada adicional de ironia: a de fazer um filme que fala insistentemente sobre o Brasil sem mostrá-lo _na própria sinopse, defino o espaço do filme como "um Brasil sem céu"; todo o tempo, quis trabalhar com "não lugares" e passei esta orientação ao diretor de arte.

    Já comentei por aqui que muita gente achava, por eu ter escalado o Carlo Mossy, que o filme se tratava de uma "homenagem à pornochanchada", o que não é nem nunca foi. Eis o que me disse o Francis: "O seu filme está mais para chanchada do que para pornochanchada: um filme de interiores, de estúdio que tem como princípio uma obra dentro da obra. Só que é um filme de hoje, inclusive porque espetáculo é mais memória que um fato (as chanchadas trabalhavam isso como fato). (...) Esse lado irônico, bufão e precário é mais da chanchada do que da pornochanchada". Também sempre sustentei que o filme não era nem um pouco nostálgico, e felizmente isso ficou bem claro para ele: "O resultado é um diálogo (com a chanchada), sem saudosismo, porque ele é bem resolvido como filme do século XXI". Ele ainda diz que o filme "lembra vagamente Watson Macedo", ao que respondi que esse espírito da chanchada me parece mais concentrado no filme dentro do filme, que é simplesmente "Rei Lear" ambientado no Carnaval (!), ou seja, um choque cultural que vemos nas chanchadas mais abertamente paródicas, como "Nem Sansão Nem Dalila" ou "Matar ou Correr".

    ***

    Há alguns dias, um amigo de infância, também jornalista, me ligou pedindo entrevista sobre "A Volta do Regresso" para uma matéria de capa e página 3 no caderno de variedades de domingo do diário para o qual trabalha. Não gosto muito de dar entrevistas (mas já dei muitas, sobre assuntos diversos, inclusive sobre este site), e esta foi a pior de todas, porque não tive mais do que dez minutos para as respostas. Até aí, uma pena, mas normal. Pelo menos as fotos ficaram bonitas, embora o enfoque da matéria tenha repetido essa história de ligá-lo somente à pornochanchada (parece que não vai ser fácil ele se livrar desta análise apressada). O problema é que o repórter (não por má-fé, disso tenho certeza) publicou algumas informações falsas, retiradas não imagino de onde (e um texto meu _muito ruim, por sinal_ retirado de um outro site também foi publicado sem minha autorização...). Ou seja, o excesso de imaginação (ou falha de memória) aliado à falta de checagem resultou na publicação de mentiras que podem me prejudicar, caso alguém que não me conheça pense que eu menti para o repórter... A pior de todas foi dizer que eu sou coautor (é, agora se escreve sem hífen), com o André Barcinski, do livro "Maldito", a biografia do Mojica (de quem eu fui ao aniversário de 73 anos, em plena sexta-feira 13 de março, num inferninho da Augusta, com direito a bolo em forma de cartola, a convite da Alê _mas essa história é para mesa de bar), enquanto todo mundo sabe (ou deveria saber) que o livro é do André e do Ivan Finotti (e eu conheci ambos quando trabalhei na Folha...). Então fica publicado aqui o meu desmentido.

    ***

    O até então ótimo Last.fm fez uma grande presepada: resolveu começar a cobrar, a partir de abril, pelas suas rádios _que respondem por 90% da graça do site. Tudo bem que o ano é de crise (que afeta as empresas anunciantes), o serviço é honesto e não é barato, mas querer voltar ao modo de negócios do século XX quando existem serviços análogos gratuitos me parece suicídio comercial. E é falta de visão pensar que manter a gratuidade em três países (EUA, Reino Unido e Alemanha) não irá afetá-los; o site é uma comunidade mundial, as pessoas têm amigos em tudo quanto é país, a imensa maioria que não é trouxa não vai pagar (e quem em sã consciência começaria a pagar por um serviço que está degringolando?), e o resultado é que o conteúdo (construído pelos clientes que agora eles querem isolar) vai empobrecer imensamente. É uma pena _e o pior é que acredito que isto poderia ser evitado. Faltou ousadia e tino comercial para esse pessoal.

    E minha rádio até que estava boa, com mais de mil artistas diferentes em dois anos. Fui escutar ontem para me despedir, e tocou Beastie Boys, The Dave Brubeck Quartet, Fantômas, Roy Orbison, Gorillaz, Robert Gordon with Link Wray, Roberta Flack, Elvis Presley, Talking Heads, Robert Plant & Alison Krauss, The Slits, The Kinks, The Clash, Haydn, Andrew Lloyd Weber, Syd Barrett, Pearl Jam, Queens of the Stone Age, Gal Costa, Vivaldi, Young Marble Giants, MGMT, Beethoven e Stooges. Nesta ordem. E agora não vai ter mais (pelo menos até todo mundo migrar para outro site parecido, se a economia mundial deixar _de qualquer forma, a internet não parece mesmo ser um lugar para permanências... embora este site vá fazer 7 anos dentro de alguns dias).

    No texto que vem: aniversário de 7 anos ("Emoções Sexuais de um Jegue" e outros filmes fica para o próximo, por causa da efeméride).

    Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

    Ando tão ocupado que mal me dou conta da época do ano em que estamos _só quando a TV, que só fica ligada aqui ao meu lado no trabalho, me mostra coisas como Big Brother ou Globeleza eu me dou conta de que estamos em janeiro. E não é que o "ano da crise" (da qual espero escapar minimamente _so far so good... so what?) começou com notícia boa? Fui contatado pelo Canal Brasil, que tem interesse em "A Volta do Regresso" (um contrato de até 24 exibições em três anos). Como já passou mais de um ano desde a estreia no Festival de Brasília, está na hora de o danado passar na TV (a TV Câmara é outra que se interessou, mas ainda não o liberei), antes de finalmente chegar à internet, onde de fato poderá ser visto por um número maior de pessoas, embora em péssimas condições. O filme é antiquíssimo na minha memória, mas ainda não me afastei dele o suficiente para formar um juízo que me permita uma visão mais clara dos meus (os dos outros são mais fáceis de apontar) erros _para isto eu conto com a opinião dos colegas que porventura cruzarem com ele (a do Vebis não vale, porque ele gosta muito mais do filme do que eu).

    ***

    Obama assumiu (não nesse sentido que vocês estão pensando) e o mundo quer que esse pedaço de história chamado de "Era Bush" fique para trás logo. Pelo menos dois filmes recentes bateram forte nessa e em outras teclas: um é "Diário dos Mortos", no qual Romero volta muito mais pessimista do que no emocionante e esperançoso "Terra dos Mortos" a ponto de fazer uma ponte com o seu primeiro longa de zumbis. Algumas das ideias que o diretor martela é a de que o excesso de informação na era da internet é, no mínimo, uma faca de dois gumes (se bem me lembro, uma das falas é algo como "400 blogs, 400 mentiras") e de que a tecnologia abundante e barata provoca uma febre pelo registro ("se não acontece em frente às câmeras, não aconteceu", diz a protagonista mais de uma vez), além da capacidade para a maldade, a estupidez e o egoísmo desenfreado naturais ao ser humano. O curioso é que essa ideia de exibir um filme dentro de um filme (tirada do grande "A Bruxa de Blair") desta vez escancarou o artificialismo da representação, em vez de mascará-la _não que o filme seja ruim por causa disso; é mais um testemunho importante sobre o mundo em que vivemos, e Romero se firma ainda mais como um dos artistas mais engajados do nosso tempo. O outro é "Children of Men", de Alfonso Cuarón: um "retrato do presente no futuro" (como "Laranja Mecânica" ou "Os 12 Macacos") muito detalhado, centrando bastante na obscuridade que assola a humanidade neste momento (entre as mazelas, o fanatismo religioso, guerras movidas por ódio e intolerância, o sentimento de fim das utopias, etc.). Com ironia, traz algumas cenas soberbas, como a inacreditável fuga em um carro que se recusa a pegar. O grande uso de efeitos visuais é discreto e cria outras cenas memoráveis, como a do ataque ao carro (que dá um belo susto) e a do parto. Cuarón conseguiu erigir um universo simbólico bastante rico; deve envelhecer logo (certamente muito mais do que o filme de Romero) e se tornar documento.

    Bem pior é o "United 93" do Paul Greengrass, que reconstrói, em tempo real e usando várias pessoas interpretando a si mesmas, parte dos eventos daquela maldita manhã de 11/09/01. Por um lado, acertadamente faz um filme despretensioso e sem apelações; por outro, não diz muito a que veio, a não ser prestar tributo àquelas pessoas que perderam a vida na tragédia _o que ajuda a não colar a este filme a pecha de meramente oportunista. E o feriado natalino serviu também para ver a trilogia dedicada a Jason Bourne, personagem criada pelo escritor Robert Ludlum (quem leu diz que essas adaptações são bem distantes dos originais) que já havia sido encarnada nos anos 80 pelo Richard Chamberlain. O primeiro filme, o único que havia visto (e no qual Julia Stiles, em um papel pequeno, chuta a bunda de Franka Potente), é disparado o melhor, e o segundo, o pior (extremamente derivativo); o terceiro traz as cenas de ação mais intensas. E o que dizer do infantil "Transformers"? Além do colírio Megan Fox, só dá mesmo para destacar John Turturro, a quem muito provavelmente o diretor Michael Bay não conseguiu controlar: sua total falta de seriedade no papel é muito adequada, parefe que o ator está se divertindo muito com toda aquela bobajada.

    Finalmente vi "The Darjeeling Limited", outro belo filme de Wes Anderson, embora não seja o seu melhor. Mais uma vez temos relações familiares extremamente bem construídas em um roteiro idem. Mas se os planos em câmera lenta com clássicos do rock não cansam nunca, seus movimentos de câmera estão já bastante repetitivos. Como parece que o próximo filme dele será uma animação, espero que seja uma bem-vinda mudança. E "Senhores do Crime", embora não tão bom quanto "A History of Violence", traz outra fantástica atuação de Viggo Mortensen, em que um outro novamente habita a personagem. Cronenberg, ao contrário de uma possível maioria de diretores "respeitados", escolhe sempre mostrar o que o "bom tom" recomendaria esconder _é desagradável, mas sua assinatura é fortíssima _e ele parece saber que, como suas personagens, alguém tem de fazer o trabalho sujo.

    E "I'm Not There" deixa bem óbvio que foi inspirado por "No Direction Home", do qual várias cenas (por suas vez extraídas de filmes de D. A. Pennebaker e outros) documentais são reconstruídas por Cate Blanchett (numa atuação não tão boa quanto eu esperava) e Christian Bale (surpreendentemente bem). Muito mais interessantes são as partes em que a fantasia tem mais espaço, mas ainda apoiando-se em personagens reais, como Woody Guthrie, Arthur Rimbaud (outra atuação de destaque, de Ben Whishaw) e Billy the Kid. Há algo de "metido a besta" no projeto que o prejudica em certos momentos (além de sua pouca concisão), mas ao final, assim como o filme de Scorsese, passa uma sensação de amor pela obra do artista homenageado. E já que falamos no baixinho, impressiona em "Shine a Light" a captação de som do show dos Rolling Stones: como o som do instrumento de quem está em quadro tem sempre maior volume do que o resto da banda, funciona para delinear bem "quem faz o quê". A impressão que tive é de que é o show em que eles tocam melhor (sendo que a maior justiça é feita à guitarra de Ronnie Wood, que diz em entrevista que é melhor do que o Keef), de todos os que vi, mas creio que grande parte disso se deva a essa qualidade sonora. O show é bastante típico dos Stones, com aquelas cinco músicas que eles sempre tocam, a pausa para Richards cantar duas outras (normalmente um ponto morno do show, aqui tornou-se ponto alto), antes de Jagger voltar para "Sympathy...", um blues antigo desenterrado (com um excelente Buddy Guy) e curiosidades do vasto repertório (Hã? "She Was Hot"?). Diferentemente do esperado, Christina Aguillera mandou bem, enquanto Jack White foi constrangedor _assim como Scorsese, que desta vez não fez um trabalho tão bom interpretando a si mesmo.

    E já que estamos nos EUA de hoje, vamos desovar logo as séries vistas também no feriado: a segunda temporada de "Heroes", mesmo com apenas 11 episódios por causa da greve de roteiristas, gira em falso e dá óbvios sinais de desgaste. A estratégia para manter a qualidade da primeira leva infelizmente é a do repeteco: e dá-lhe outro futuro sombrio a ser evitado, mais pinturas que mostram esse possível futuro, etc. Nem todas as personagens progridem, indicando que o ciclo delas na série já acabou, ou seja, é preciso saber a hora de parar. Outra caixa vista é a da recente sitcom "The Big Bang Theory", cuja graça em grande parte está em reconhecer a nerdice dos personagens como algo muitíssimo comum na atualidade. E a versão americana da tão falada "The Office" finalmente passou em minha frente: é um humor baseado quase que somente no constrangimento (o protagonista de Steve Carell é detestável), o que a torna ao mesmo tempo engraçada e desagradável, embora esses primeiros seis episódios já mostram com clareza pelo menos uma subtrama folhetinesca. A câmera é absolutamente nojenta, porque há um documentário sendo feito sobre o tal escritório, o que cria uma camada de hipocrisia nas personagens que também serve de apoio para o humor.

    ***

    Demorou para chegarmos às velharias que não interessam a quase ninguém (embora os filmes do "especial terror", mais em baixo, devam ter seus fãs). Depois de muito tempo volto a um dos meus ídolos, Buñuel, com "Simão do Deserto", projeto que sofreu com falta de dinheiro e teve de ser reduzido. É o terceiro e último filme do diretor com Silvia Pinal (sexy como o Diabo), com um Claudio Brook (de "O Castelo da Pureza") excelente, assim como a música da cena final (sempre forte, praxe do diretor), com o grupo Los Sinners. Outro dos melhores filmes desse intervalo foi o tcheco "Sedmikrásky" (parece que a tradução do texto é "Margaridas"), de Vera Chytilová, ao mesmo tempo extremamente divertido e sério (e lindo, repleto de efeitos visuais impressionantes). As atrizes Ivana Karbanová e Jitka Cerhová (que aparentemente não tiveram longas carreiras no cinema) estão em estado de graça. Parece uma obra que só poderia surgir numa sociedade repressiva.

    "Flor Pálida", de Masahiro Shinoda, que, apesar de contemporâneo, num mundo que já corria a caminho da globalização, ainda nos surpreende com uma cultura alienígena: eu mesmo não entendi quase nada do estranho jogo de cartas (muito menos o motivo de os crupiês terem de ficar repetindo as orientações numa fascinante ladainha). Já o drama do casal protagonista é bastante compreensível e tocante. Há cenas antológicas, entre elas a do pesadelo e a do assassinato ao som de uma belíssima ária. Ainda no Japão, "Mulher Inseto" acompanha a vida de uma personagem do seu nascimento à meia-idade, da infância pobre na roça à queda e ascensão e novamente queda na prostituição, na qual será ironicamente seguida por sua filha. Imamura (ex-assistente de Ozu) faz uso constante de frames congelados sobre os quais dispõe pensamentos das personagens, que servem de guia à narrativa acelerada. É cruel justamente por ser tão naturalista e tão afastado do melodrama. E "Le Mystère Koumiko" seria uma espécie de preparação para o "Sans Soleil"? Neste média, Marker parte das Olimpíadas de Tóquio, em 1964, para chegar a uma jovem chinesa que mora no Japão desde os 10 anos e estuda numa escola franco-japonesa. A partir de entrevistas com Koumiko, o diretor dá vazão a algumas de suas famosas obsessões, como o Japão e os gatos _e não se furta a encarar aspectos menos glamourosos da sociedade japonesa, como o sadismo.

    Vendo "La Baie des Anges", estava estranhando este filme de Demy pela falta de uma forte personagem feminina, até que finalmente Jeanne Moreau entra em cena, quase irreconhecível com o cabelo platinado _parecendo mais velha, mais feia, mais sofrida e mais vagabunda. É dela a personagem que o filme circunda, embora não seja a protagonista, e é dela a grande cena, na qual explica porque o jogo é sua religião e porque ao adentrar um cassino ela sente a mesma emoção que em uma igreja. O final, forçado e inesperado, não combina com o diretor _mas os marinheiros ainda estão aqui. O tema de Michel Legrand é fantástico. Mas em "La Noire de...", média-metragem do senegalês Ousmane Sembene, traz como protagonista uma personagem que encarna uma etnia, uma nacionalidade, um sexo e uma posição social. E "What Ever Happened to Baby Jane?" (talvez o segundo melhor Aldrich, atrás apenas de "Kiss Me Deadly"?) é bem perturbador, com o duelo de duas grandes atrizes, ambas já caminhando para os 60 anos de idade. Talvez seja injusto dizer que Bette Davis saiu ganhando, pois sua personagem é a mais interessante e a que conduz a ação (além dela e de Joan Crawford, há outra atriz brilhante, a pequena Gina Gillespie, infelizmente em um de seus últimos trabalhos). É um primor de suspense e de tensão, antecipando quase sempre o que vai acontecer a seguir _o que não deixa de ser uma espécie de sadismo. Uma atriz mirim também se destaca em "A High Wind in Jamaica", penúltimo filme de Alexander Mackendrick: é Deborah Baxter, então com 11 anos, que, apesar deste papel inesquecível, não teve grande carreira como atriz. O filme é uma invulgar história de piratas (representados por ótimos Anthony Quinn e James Coburn) com crianças (uma delas é o escritor Martin Amis!) e um enredo bastante cruel. Há um quê de antiquado e uma trilha sonora exagerada, mas também uma grande fala de Quinn: "Você deve ser culpado de alguma coisa...".

    E antes de encarar o terror, mais dois exemplos de filmes que hoje soam típicos dos anos 60: em "Charade", Stanley Donen deixa a seara musical e faz uma intrigante e sem-vergonha mistura de thriller com comédia romântica que idealmente defenestra toda verossimilhança (a princípio parece bastante destrambelhada mas ao final o roteiro é adoravelmente bem amarrado). Apesar da diferença de idade, Cary Grant e Audrey Hepburn (belíssima, usando uns figurinos maravilhosos _fica fácil de entender porque ela foi votada no Reino Unido como a mais bela do cinema, deixando a Angelina Jolie em segundo) fazem um ótimo casal _os momentos graciosos não faltam, como a careta que Grant faz quando a verdadeira identidade de sua personagem é revelada. Walther Matthau, James Coburn, George Kennedy e Jacques Marin são os coadjuvantes. Mas o filme é mais famoso mesmo pelo inesquecível tema musical de Henry Mancini. E se em "No Direction Home" a rápida e caricata aparição dos Beatles pode até parecer ofensiva, "Help!" nos ajuda a lembrar que os Fab Four da fase terninho eram mesmo quatro cabeludos esquisitos que saíam pulando por aí murmurando interjeições. O filme é uma pérola do humor inglês, satirizando 007 com cenários (o que é aquele apartamento deles, com uma porta de cada cor para cada um e um quarto cavado no chão para Lennon?), locações (dos Alpes para as Bahamas), enredo e diálogos nonsense. Várias gags são fantásticas, como a do gongo em miniatura e a do tigre que fica manso quando se assobia a Nona de Beethoven. Mas é bem pior do que "A Hard Day's Night".

    E ainda um rubi: "9 Dney Odnogo Goda", de Mikhail Romm, cujo título em português desconheço (aparentemente a tradução seria algo como "Nove Dias em um Ano"). É ótimo, com um protagonista muito especial: um físico nuclear que faz uma importante descoberta mas paga um preço alto por ela, ao mesmo tempo em que vemos um triângulo amoroso se desenrolar. Além disso, o ambiente e a época em que se passa dão à obra dimensão maior: fomos tão aculturados pela visão norte-americana da Guerra Fria que é quase um choque vermos uma representação da vida russa no período (se verdadeira ou não são outros quinhentos rublos) com as pessoas trabalhando, se divertindo, casando, visitando a família, etc. Por um acaso os EUA da época admitiram tal retrado da vida no "Império do Mal" em seu cinema? Já imaginaram um mundo com 3 bilhões de Gusevs, negros, amarelos, brancos?

    E já vou logo dizendo que acho uma bobagem tremenda essa ideia papagaiada displicentemente por aí de que "sugerir é melhor do que mostrar". É claro que depende, gafanhoto. Em "The Haunting" ("Desafio ao Além" por aqui), que Robert Wise fez entre "Dois na Gangorra" e "A Noviça Rebelde", a estratégia oposta à de Cronenberg funcionou. Este filme de "mansão mal-assombrada" (com um início sensacional), apesar de não ser nenhuma maravilha, consegue criar uma dubiedade verossímil. Julie Harris é uma protagonista fraquíssima e é eclipsada pela mais bela e interessante Claire Bloom. "Paranoiac", o primeiro filme que Freddie Francis dirigiu para a Hammer (sem ser um típico exemplar da companhia), deixa maiores sutilezas de lado e traz uma história rocambolesca e exagerada, mas eficaz _muito provavelmente foi inspirado por "Psicose". A imensa presença de Oliver Reed é o natural destaque. E não sei de dá para chamar "Incubus" (que, eu não sabia, já tinha passado numa saudosa Sessão do Comodoro) de um filme de terror: um dos pouquíssimos dirigidos pelo roteirista e produtor Leslie Stevens, é mais conhecido por ser talvez o único filme norte-americano falado em esperanto. A temática é bastante cristã: demônios lutam para conseguir a alma de um homem justo e religioso. A estrela é William Shatner, mas quem se destaca são Allyson Ames (mulher do diretor) e dois atores que se suicidaram no ano seguinte ao lançamento (mas não juntos), a bela Ann Atmar e Milos Milos (que, além de ser a personagem-título, tem um nomes mais legais da história). É um dos primeiros filmes que o grande Conrad Hall fotografou, mas aqui ele ainda não apresenta um trabalho de mestre.

    Mas a obra-prima desse gênero vista por aqui é "I Tre Volti della Paura", que em inglês ganhou o picareta título "Black Sabbath": Bava demonstra mais uma vez que, além de um mestre da luz, também o é no quesito movimento de câmera (como Öphuls, Fuller, Ozu, Tarkovsky, Oliveira e outros pouquíssimos). E também um mestre do suspense: as três histórias deste filme são extremamente previsíveis, mas nem por isso deixam de ser envolventes e fascinantes. E aquele epílogo lindo e alegre, com Karloff celebrando a fantasia do cinema... Longe de ser tão bom é "X", aqui chamado de "O Homem dos Olhos de Raio-X" (que virou música de, argh, Lenine), mais um clássico de Corman, estrelado por um ótimo Ray Milland. Começa muito bem, mas descamba a partir do início da desgraça do protagonista. O final, embora dificilmente pudesse ser outro (a não ser pela famosa história, desmentida pelo diretor, de que havia uma fala a mais, ótima, terrível e infelizmente não filmada) é extremamente abrupto. Os efeitos visuais, assim como no filme da Chytilová, são ótimos. E a tranqueira da vez é "Blood Feast", o famoso precursor do "gore": digamos que eu gosto de "bons filmes ruins", como o "Glen or Glenda?" de Ed Wood. Mas este aqui, assim como o "Mondo Trasho" de John Waters, tem o defeito mortal de não ser divertido (embora haja uma ou duas falas engraçadas). Não dá para comentar as atuações porque simplesmente não há atores no filme; enquadramentos, cortes, diálogos, ritmo, tudo é horrível. Salvam-se mesmo a trilha sonora, de autoria do fotógrafo e diretor Herschell Gordon Lewis, e a maquiagem.

    E só para constar, caso alguém queira comentar algo, os outros filmes vistos no período: "O Dólar Furado", western spaghetti com Giuliano Gemma (assinando como Montgomery Wood) de Giorgio Ferroni; "Inauguration of the Pleasure Dome", de Kenneth Anger, com participação especial da Anaïs Nin; "The Miracle Worker", o segundo filme do Arthur Penn, com Anne Bancroft e Patty Duke; "Made in U.S.A.", um Godard menor, embora típico (curiosamente, é o primeiro filme a ter uma música dos Rolling Stones na trilha sonora _uma moça volta e meia aparece cantando "As Tears Go By", e só depois fiquei sabendo que se tratava de Marianne Faithfull); "Vaghe Stelle dell'Orsa...", um Visconti pequeno após o monumental "O Leopardo" com uma Claudia Cardinale que não precisa ficar nua para ser sexy; "When We Were Kings", famoso documentário de Leon Gast sobre a "Rumble in the Jungle", no qual nos identificamos bem mais com o futuro homem da grelha elétrica, e não por pena; e "The Bridge", documentário não tão famoso sobre aquela ponte que um dia já foi enquadrada pela minha janela e que, isso eu não sabia, é o local de onde mais gente se suicida no mundo (como fui muito feliz no meu período por lá... ainda estou aqui).

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    Trecho da entrevista de Felipe Bragança com Miguel Gomes (diretor do elogiado "Aquele Querido Mês de Agosto") publicado na Cinética:

    "Eu e o montador chamávamos a roteirista para a montagem e, ao invés, chamávamos o montador para a reescrita do roteiro. Tentávamos arranjar uma série de rimas entre tudo. Montagem e roteiro já não eram fases distintas."

    Nunca achei que montagem e roteiro fossem fases distintas (pelo menos em "A Volta do Regresso" não foram). Este é um dos poucos filmes unânimes que tenho vontade de ver (estou só aguardando que um santo fale muito mal para essa vontade se multiplicar por mil).

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    Há alguns dias, tive de apurar (sucursal do Rio não conseguia e os repórteres que normalmente teriam de fazer isso viajavam) a morte do crítico Antonio Moniz Vianna. Consegui o contato da família graças ao Evaldo Mocarzel (a quem agradeço). Não havia muito espaço para o texto, mas demos conta do recado. Dois dias depois, a Folha acorda e também publica a notícia... num flagrante exemplar de jornalismo "copy-and-paste"! Na minha época não era assim...

    No texto que vem: "Emoções Sexuais de um Jegue" e outros filmes.

    Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

    No dia e hora de uma coisa sem a menor importância (era a final de um campeonato de futebol), algo muito mais legal acontecia na sala BNDES da Cinemateca de São Paulo: a sessão com curadoria de Carlos Reichenbach que terminava com "Nas Duas Almas" (antecedido de trabalhos de Daniel Chaia, Inácio Araújo, do Carlão e de João Callegaro). Fico muito feliz ao me dar conta de que, a cada vez que vejo o vídeo do Vebis, ele me agrada mais. E como ele avisou nos comentários do texto anterior, Daniel Caetano escreveu sobre ele (segue um trecho): "Os atores são ótimos, a montagem tem movimento, as situações são boas e, sobretudo, Nas Duas Almas apresenta personagens de verdade mesmo: com aquelas figuras totalmente rockabillies, ele transparece um clima gostoso de cotidiano, de carinho por todas aquelas coisas que mostra. Por aí já dá pra entender por que o Inácio o comparou com o Sol Alaranjado, mas o filme do Vébis tem uma certa nonchalance, um jeito relax de ser, tem um humor sem melancolia, meio gozador mesmo: aqueles personagens são estranhos, mas são gente como a gente, oras." É muito bom ver o curta ser apreciado por quem entende do riscado e não está elogiando porque é amigo do diretor. E mesmo que não fosse um comentário positivo, esse feedback é essencial para repensarmos sempre nossos trabalhos.


    ***


    A obra-prima da vez é "This Sporting Life", de Lindsay Anderson (mais conhecido por "If...", do qual tenho ótimas lembranças, mas me parece menor do que este). Richard Harris, em um de seus primeiros fimes, como o durão jogador de rúgbi Frank Machin, está brilhante, numa atuação digna de um Brando; sua co-estrela Rachel Roberts também está ótima. A história, contada de maneira fragmentada, com muitos flashbacks e flashforwards (estilo que ainda hoje é considerado moderno e ousado), atinge picos de emoção em várias cenas, mas o filme passa longe do dramalhão. Uma gema do cinema inglês que merecia ser mais reverenciada, inclusive por este texto (não ter tempo para escrever comentários que prestem é uma pena).


    Outro dos melhores filmes desta leva também é feito na Inglaterra: "Bunny Lake Is Missing", de Preminger, não segue à risca o romance que adapta e combina preto-e-branco, cinemascope e planos longos com muita movimentação de câmera. A idéia foi reaproveitada de certa forma em pelo menos um filme, com a Jodie Foster, que ainda não vi. Olivier abre os créditos, mas a protagonista é mesmo Carol Lynley, ótima _Keir Dullea (mais famoso por seu papel em "2001: Uma Odisséia no Espaço") e Martita Hunt também se destacam, mas quem rouba todas as cenas em que aparece é Noel Coward, com uma personagem impagável, mas que não tem importância alguma para a história! Também não entendi o destaque dados aos Zombies, já que a banda aparece (até demais, é bem artificial) apenas pela TV em um pub e depois na trilha sonora.


    Bem aquém destes estão alguns filmes de terror que reúnem grande elenco, tendo à frente Vincent Price. O primeiro é bom: "Tales of Terror", dirigido por Corman, traz três histórias baseadas em contos de Edgar Allan Poe (o próximo livro que lerei em casa _sempre leio outro fora de casa_ é justamente suas obras completas) num belo cinemascope colorido. É despretensioso, leve, bem-feito (com muitos efeitos criativos) e muito gostoso de assistir. Há um ótimo momento, o hilário duelo de degustação de vinhos entre Price (engraçadíssimo) e Peter Lorre. Também aparecem Basil Rathbone e Debra Paget (em seu penúltimo filme). O outro, "The Comedy of Terrors" , penúltimo filme do grande Jacques Tourneur (literalmente em fim de carreira), volta com Vincent Price, Peter Lorre e Basil Rathbone, com a adição de Boris Karloff e das beldades Joyce Jameson e Beverly Powers _assinando com o grande nome Beverly Hills_, além do gato Rhubarb. Mas o filme não é engraçado nem assusta _ou melhor, deslumbra. O terceiro filme de terror visto é de outra cepa (e também minha única visita ao Japão neste texto): "Kaidan", que Kobayashi fez entre seus dois filmes mais conhecidos, traz quatro histórias de espíritos. As duas primeiras são as mais simples e previsíveis (por terem sido muito imitadas?). A terceira, a mais longa, também tem ritmo lento como as antecedentes, mas é a mais grandiosa (a cena da batalha naval é fantástica). A última é a mais curta e enigmática. Todas adequadamente jogam o naturalismo para as cucuias, com aquele cuidado típico das grandes produções japonesas. Keiko Kishi (a mulher da neve) e Michiyo Aratama (a primeira esposa da primeira história) são os destaques do elenco, que também tem Tatsuya Nakadai e Takashi Shimura. Um grande filme, mas bem longe da maravilha que foi o anterior "Seppuku" (que disputa com "Meninos de Tóquio" o posto de melhor filme japonês em minha ronin opinião).


    Faroestes também pintaram por aqui: o melhor é "Invitation to a Gunfighter", um dos últimos dos menos de dez filmes dirigidos por Richard Wilson (que foi assistente de Orson Welles). De baixo orçamento, é do meu subgênero predileto, desses sem índios nem cavalaria, mas enfocando injustiças em uma pequena cidade. Yul Brynner (talvez em seu melhor papel? Nunca fui muito com a careca dele) e George Segal estão ótimos, mas quem se destaca é Janice Rule _Pat Hingle também faz um bom vilão. Cenas surpreendentes não faltam, assim como boas falas. O final não deixa de ser ótimo, mesmo sendo folhetinesco e um tanto convencional. Também encarei o "Cheyenne Autumn", cujo nome no Brasil, "Crepúsculo de uma Raça", fiquei sabendo graças ao Ailton. É o antepenúltimo filme de Ford, feito após o pândego "Donovan's Reef", e uma longa superprodução em 70mm com direito a "overture", "intermission" e "entr'acte". Aqueles planos abertos maravilhosos não são o suficiente para fazer deste um dos maiores do diretor, mas ainda assim é um grande filme, com um elenco estelar e um posicionamento simpático aos índios e crítico à obediência cega dos militares. Quando Richard Widmark começa a narrar o filme, a voz lembra demais John Wayne. Há uma seqüência bem-humorada e estranha na qual James Stewart interpreta um Wyatt Earp cômico, muitíssimo diferente do clássico e trágico Earp de Henry Fonda. "Minnesota Clay", se não me engano, é dos primeiros spaghetti de Corbucci, que já tinha dirigido uns 20 filmes (pepluns de Maciste e outros). Cameron Mitchell interpreta um pré-Django _mas em vez das mãos arrebentadas, o drama de Clay é a perda da visão _suas subjetivas com trucagens são uma delícia. Mas não é apenas isso que fazem deste filme uma diversão garantida para fãs do gênero. E Ethel Rojo é um destaque como a interesseira Estella. E aqui no Brasil, creio que podemos considerar um western "A Hora e a Vez de Augusto Matraga". Segundo filme de Roberto Santos, obviamente ambicioso ao adaptar o último e possivelmente o melhor conto de "Sagarana" (li há tanto tempo...). Leonardo Villar é absolutamente brilhante, e Joffre Soares também segura a peteca, assim como Flavio Migliaccio. A religiosidade estranha de Matraga é muito bem trabalhada, e há planos curiosos, como aquele em que ele olha uma mulher passando e, em vez de fazer um comentário mais comum ele manda: "Todos os anjos do céu tinham de ser mulher"; em outro plano, ele se dirige ao "capeta", mas olha para o céu! Santos filma bem cenas de ação e experimenta com subjetivas e outros posicionamentos de câmera inusitados. Tomara que seja restaurado _a cópia que vi, gravada do Canal Brasil, não estava nada boa.

    Outro dos melhores filmes da vez veio de um diretor que sempre acho interessante: Pasolini "Gaviões e passarinhos", que começa em um tom de comédia (com os créditos cantados) que nem sempre se manterá, une Totò em um de seus últimos filmes e Ninetto Davoli praticamente estreando (assim como a vestal Femi Benussi, que teria uma carreira farta em comédias eróticas e gialli). Não há propriamente uma história, mas uma série de referências a outros filmes do diretor, formando um painel bastante abrangente de suas obsessões. As cenas dos frades evangelizando os pássaros são fantásticas. Mesmo sem concordar com todas as idéias de Pasolini e sem me entusiasmar por todos os seus filmes, tenho por ele um respeito imenso: era um verdadeiro artista, corajoso e honesto. Falando em "viadage" (para irritar o Veloso e o Bento XVI), dá para dizer que "My Hustler" é um dos filmes menos chatos de Andy Warhol? Com pouco mais de uma hora, é composto por duas seqüências (estou me despedindo do trema) feitas de planos muito longos, de 15 minutos ou mais: a primeira, a melhor, traz a câmera girando sobre seu próprio eixo e enfocando um michê loiro na praia, enquanto, na casa de uma bicha ricaça e escrota, ela, uma amiga e outro michê disputam para ver quem vai ficar com o loiro, a quem observam; na segunda, os mesmos personagens dialogam num banheiro, e os três supracitados tentam convencer o loiro a ficar com eles. Não sei se o diálogo foi improvisado, mas é ótimo; os atores, aparentemente não-profissionais, estão todos muito bem.

    Outro destaque é novamente Godard, desta vez com "Masculin féminin: 15 faits précis". Feito logo após "Pierrot Le Fou", também escancara bastante o posicionamento político do diretor e é saturado de informação, ao mesmo tempo em que mantém acesa a chama da cinefilia, o bom humor, o erotismo e a ironia. Chantal Goya ilumina a tela com sua beleza e suas canções alegres, e Jean-Pierre Léaud traz seu carisma habitual de garoto abobalhado e pretensioso, esta figura tão comum e universal. Outro clássico, mas não tão bom, é "Um Dia, um Gato", do tcheco Jasny, é uma dessas fantasias infantis malucas e belas que acabam se tornando clássicos. Um gato mágico, quando tira seus óculos, faz as pessoas ficarem coloridas de acordo com suas personalidades ou estados de espírito: obviamente, trata-se de inventivo e caprichado espetáculo visual. Dá para dizer o mesmo do superior "Les Parapluies de Cherbourg": Após "Lola", do qual este não deixa de ser uma continuação (Marc Michel repete seu personagem), Demy retorna com outra história agridoce de amor, no qual não existem vilões (e abundam marinheiros numa cidadezinha). Mas desta vez o filme é em cores, os diálogos estão na forma de canções (música de Michel Legrand, não tem erro), há Catherine Deneuve com 20 aninhos e, novamente, muita grua, muito travelling etc. Demy ainda faria sua obra-prima a seguir: "Les Demoiselles de Rochefort".

    Ainda nos musicais, voltamos a George Sidney em "Bye Bye Birdie", chamado por aqui de "Adeus, Amor": adaptação de um espetáculo da Broadway, satiriza a histeria provocada pelos astros da música (aqui, o alvo é Elvis, com quem, Sidney trabalharia em breve em "Viva Las Vegas _mas ao ver Ed Sullivan e aquelas adolescentes loucas na platéia é impossível não lembrar do estrago que os Beatles fariam um ano depois). O filme praticamente lançou Ann-Margret e Dick Van Dyke (e Janet Leigh não faz feio dançando). As canções são clássicas. E sobrou, para finalizar a seção "ampliando o repertório", "Perdidos no Kalahari", o antepenúltimo filme de Cy Endfield: não empolga muito no início, mas, à medida em que a tensão entre as personagens, vítimas de um pouso forçado (após uma impressionante cena de vôo por entre uma nuvem de gafanhotos) em pleno deserto sul-africano cresce, o filme cresce junto _graças ao instinto de sobrevivência exacerbado da personagem de Stuart Whitman, que infelizmente parece ter razão ao afirmar que a maioria das pessoas é como ele. A beleza e sensualidade de Susannah York também ajuda. O final é bastante cruel e violento, como a natureza. Oscar de melhor ator coadjuvante para o babuíno.

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    De novo, volto à década atual. Acabei de ver um dos filmes mais badalados do ano, "WALL-E", de Andrew Stanton, projeto esboçado ainda no início dos anos 1990 _prefiro o seu anterior "Procurando Nemo" (gosto bastante de "Robôs", que não é da Pixar, mas este é melhor e muito diferente). Entre as inovações estão o longo tempo sem diálogos e o uso de trechos em "live action" (expressão que acho bem estranha), inclusive com cenas do "Hello, Dolly!" de Gene Kelly. A qualidade da animação é impressionante, especialmente nas cenas que se passam na Terra. O problema do filme é que seu início é de longe a melhor parte _quando EVE aparece, as coisas começam a degringolar, para piorarem bem mais quando WALL-E deixa o planeta. Não é estranho quando um dos melhores trechos do filme é não o seu final, mas os créditos finais? Uma animação bem mais humilde, mas também boa, é "Hoodwinked", chamado por aqui de "Deu a Louca na Chapeuzinho" (título bem anos 80). Eu me pergunto a partir de qual idade as crianças curtem essas animações irônicas que explodiram após o sucesso de "Shrek". Este, o primeiro longa em animação produzido pelos Weinstein, é bem escrito e tem algumas boas personagens, como o esquilinho pilhado e o bode caipira e hippie que tem 1.001 chifres para diferentes ocasiões. E o elenco tem Anne Hathaway, Glenn Close, Chazz Palminteri, Andy Dick, Jim Belushi e o rapper Xzibit. A animação 3-D está longe de ser das melhores _o que não é de estranhar, já que não é uma produção de grande orçamento.

    Outro filme que superou minhas parcas expectativas é "Kiss Kiss Bang Bang", o único filme dirigido por Shane Black, mais conhecido por ser o roteirista da série "Máquina Mortífera". É uma pequena pérola de humor negro ambientada na "freaky" L.A., embora a freqüente quebra da quarta parede encha um pouco o saco, interrompendo. Fazia tempo que um filme não me arrancava tão boas gargalhadas _os diálogos são excelentes. Michelle Monaghan, fantástica, rouba o filme de Robert Downey Jr. e Val Kilmer. Já Jason Reitman, filho de Ivan, começou a ser mais notado como diretor com "Obrigado por Fumar" (depois ele fez "Juno", que deve ter tido mais sucesso e deve ser pior), que também deu uma levantada na carreira do Aaron Eckhart. É mais ácido (mas não muito) do que engraçado (a não ser pelas cenas com Adam Brody e Rob Lowe, ótimos). Tem um grande elenco, mas o conjunto não passa muito de "pouco acima da média" (porque a média é baixa). E também pintou por aqui "Layer Cake", a estréia na direção de Matthew Vaughn, produtor dos dois primeiros longas de Guy Ritche, adaptando um romance. Ele faz um filme sério, sóbrio, sem muita frescura e sem muita grandeza. Diversão bastante esquecível, mas com um bom final. Daniel Craig, ironicamente, antecipa aqui algo de James Bond. É uma pena que Sienna Miller não apareça mais.

    Falando em mulher gostosa, "Matroesjka's" (chamado internacionalmente de "Matrioshki"), é uma série belga de 2005 que foi recomendada pelo Carlão. Não me animei tanto quanto ele _talvez a dublagem em espanhol tenha atrapalhado.

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    P.S. Vale a pena ver a seqüência que gerou a melhor foto de 2008 publicada no Estadão.


    P.P.S. Como os nobres freqüentadores desta bodega já perceberam, coloquei lá em cima a geringonça (minha tradução para "gadget") que permite seguir este blog (já que nunca aprendi a mexer com RSS). Como as atualizações são parcas e esporádicas devido à falta de tempo, pode ser uma boa para as duas ou três pessoas quem têm vontade de acompanhá-las.


    P.P.P.S. Feliz tender com pêssegos e molho de damasco para todos! Passarei a festa no noroeste selvagem, mergulhado numa piscina.

    No texto que vem: "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?" e outros filmes.

    Quinta-feira, Novembro 13, 2008

    Como havia avisado nos comentários do texto abaixo, "Nas Duas Almas" passou no Festival de Curtas do Rio. Segundo me diz o Vebis, gerou bastante discussão e elogios, o que me deixa muito feliz. Não sei se alguém mais escreveu sobre o filme, mas sempre fica essa vontade de discutir a obra, repensá-la, colocá-la em crise; o problema é que este estimulante diálogo é raríssimo... No caso de "A Volta do Regresso", um filme que dá muito pano para a manga, esse diálogo tem sido quase inexistente por puro azar: nos festivais mais importantes em que o filme entrou, não houve cobertura jornalística, e nos que houve e o filme era garantia de passar, eu não o inscrevi por motivos vários. Assim que eu tiver um tempo, vou colocar o DVD do filme para download no KaraGarga e quem quiser assistir e dar sua opinião finalmente terá a oportunidade.

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    Diferentemente do habitual, vi vários filmes recentes nos últimos dias (mas não o novo 007, sobre o qual Luis Fernando Verissimo escreveu: "Tiveram o bom senso de manter o título do original, 'Quantum of Solace', no Brasil. Ninguém sabe o que quer dizer, mas é a melhor coisa do filme".). O melhor foi o divertidíssimo "Planet Terror", o ponto alto de Rodríguez. Diante desta homenagem aos filmes que cresci vendo nos anos 80, pergunto: qual será a memória afetiva das próximas gerações, as megaproduções em série como "O Senhor dos Anéis" e "Harry Potter"? Mas o filme é de grande ironia: o roteiro, bem escrito (mas com cenas descartáveis, como todas as com a personagem de Tarantino), tem ótimos diálogos e aproveita bem todos aqueles clichês _mesmo a "queima" da película e a falta de um rolo que encobre um grande segredo de um dos protagonistas funcionam muito bem. E ainda traz dois pitéus, Rose McGowan e a Fergie. A outra beleza recente é "Ratatouille", que, se não é o melhor de Brad Bird nem da Pixar (pelo menos "Toy Story" e "Finding Nemo" me agradaram mais, assim como o "The Iron Giant"), não deixa de ser excelente. Sempre tive muito interesse (inversamente ao meu conhecimento) pela gastronomia e lamento que os filmes sobre o assunto não tenham cheiro... E fiquei o tempo inteiro sabendo que eu conhecia o ator que fazia a voz do melhor personagem, o crítico Anton Ego, mas não conseguia nomear aquela voz _depois vi que é de Peter O'Toole, claro. É ele que diz as melhores palavras do roteiro, antológicas, que é preciso reproduzir: "In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face, is that in the grand scheme of things, the average piece of junk is more meaningful than our criticism designating it so. But there are times when a critic truly risks something, and that is in the discovery and defense of the new. The world is often unkind to new talent, new creations, the new needs friends. Last night, I experienced something new, an extraordinary meal from a singularly unexpected source. To say that both the meal and its maker have challenged my preconceptions about fine cooking is a gross understatement. They have rocked me to my core. In the past, I have made no secret of my disdain for Chef Gusteau's famous motto: 'anyone can cook'. But I realize, only now do I truly understand what he meant. Not everyone can become a great artist, but a great artist can come from anywhere."

    É bastante curioso que "American Ganster", de Ridley Scott (visto na versão não-censurada, de quase três horas _20 minutos a mais do que a que foi para os cinemas), não alcance, em nenhum momento, o status de "épico", como "O Poderoso Chefão" ou o "Scarface" de De Palma, para citar duas referências óbvias. Parece muito mais um simples filme policial, como "Operação França", mas sem ser inesquecível como este ou loucamente divertido como um blaxpoitation como "Coffy". Mesmo Denzel Washington e Russell Crowe, ambos muito bons, não são tão marcantes como Pacino e De Niro em "Fogo contra Fogo", por exemplo. Enfim, é um filme que tinha tudo para ser grande e inesquecível, mas que não passa de agradáveis três horas que voam _o que também não é exatamente pouco. O que será que ficou faltando? Muita coisa falta num dos piores filmes que vi nos últimos tempos, o muito falado "Little Miss Sunshine". Jonathan Dayton e Valerie Faris (que, eu não sabia, já são cinquentões) dirigiram uma série de clipes legais (de bandas como Red Hot Chili Peppers, REM e Smashing Pumpkins) mas naufragaram fragorosamente ao chegarem ao longa-metragem. Este deprimente e mal escrito filme é um lamentável e previsível amontoado de clichês e uma enorme perda de tempo _tem apenas duas cenas boas, uma com Abigail Breslin (que estreou em "Sinais", do Shyamalan) e Alan Arkin, que passa alguma emoção, e a apresentação da menina no concurso de misses, a única que me arrancou uma risada. É incrível que um elenco tão fantástico (onde Breslin acaba se sobressaindo, vejam só) tenha embarcado numa roubada dessas _o final é revoltante e inacreditável de tão péssimo. Se querem ver um filme de família disfuncional com personagens caricatos, fujam deste aqui e vão ver qualquer um do Wes Anderson.

    A série da vez foi a primeira temporada de "Mad Men", uma das mais comentadas do ano passado. A reconstituição de época é impressionante (assim como a de "American Gangster") e todo o resto é muito bem feito, mas a série também "decola"; seu grande prestígio, infelizmente, parece ser fruto do baixo nível da maioria da concorrência... ou estou errado, já que também estou longe de acompanhar tudo o que anda passando? O grande destaque e a grande revelação é Christina Hendricks, extremamente sexy como Joan Holloway, personagem secundária, mas que dá o tempero à série: suas cenas são sempre luminosas. É o que me fará ver a segunda temporada, já completa.

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    E voltemos à época em que se passa "Mad Men", o comecinho dos anos 1960, que tem sido dominado por Itália, França e Japão (superioridade numérica do antigo Eixo, hmm). Voltei a encontrar um autor muito polêmico e irregular, mas do qual eu gosto muito (talvez também por ser polêmico e irregular?), Pier Paolo Pasolini. Vi, separado dos outros episódios que compõem "Ro.Go.Pa.G.", "La Ricotta", tido por alguns como seu melhor trabalho. Não concordo (fico com a obra-prima "O Evangelho Segundo S. Mateus", seguida de "Teorema", que certamente têm muito em comum com este média). Inspirado na paixão de Cristo (que o diretor diz considerar a mais bela história), traz planos coloridos que são verdadeiras pinturas, além do empolgante twist de Carlo Rustichelli e de Orson Welles, discreto (sente-se a falta de sua voz, já que ele foi dublado em italiano _apesar de a leitura labial indicar que ele disse o texto italiano). Na entrevista dada por seu personagem ele critica os italianos, elogia o marxismo e diz que Fellini "dança", enquanto lê "Mamma Roma" (ao fundo, toca uma versão do twist tema de "O Eclipse", de Antonioni). Apesar do tema, o filme é despretensioso, leve e bem-humorado. E vi também "Mamma Roma", seu segundo filme, que já traz várias das características vistas em suas obras futuras, como os planos frontais durante diálogos mais ou menos a la Ozu, muitos atores amadores (como as duas moças que namoram o filho da protagonista Anna Magnani _esta, em um de seus últimos filmes_, Silvana Corsini e Luisa Loiano) e um final extremamente poderoso e impactante, muitas notas acima do resto do filme. É bem mais cru que "Noites de Cabíria" _e é difícil dizer qual dos dois é melhor, embora eu costume balançar mais para o lado de Pasolini.

    Ainda na Itália, outra beleza é "La Frusta e Il Corpo", um dos filmes que Mario Bava assinou como John M. Old. É mais uma prova do extremo talento dele como diretor de fotografia: só mesmo um pintor para criar uma concepção não-naturalista em cores integrada à narrativa, sem parecer que está meramente se exibindo (isso vale também para a movimentação de câmera). A história, simplíssima, é contada lenta (mesmo o filme sendo curto) e silenciosamente (apesar da belíssima trilha sonora _de quem? Do grande Carlo Rustichelli, sob o pseudônimo de Jim Murphy). Christopher Lee (quando ainda era galã) e a bela e vampiresca Daliah Lavi estão ótimos. E vendo "I Fidanzati", fico mais convencido de que Ermanno Olmi é um injustiçado: por que ele não é tão comentado quanto Antonioni ou Scola (para citar dois italianos que não figuram entre os meus preferidos)? Este é mais um exemplo de que seu cinema é (ou foi, ainda não conheço sua obra mais recente) sofisticado e moderno. Já segue uma tendência bastante apreciada atualmente, a do fiapo de história sustentada por um distanciamento das personagens e pouquíssimos diálogos _particularmente, este estilo não me deixa me aproximar muito do filme, o que considero um defeito; muitos consideram uma qualidade, e é bom que seja assim. Então há profusão de elipses e flashbacks entremeados de retratos do ambiente e de seus habitantes. Mas abundam momentos belíssimos _a trilha sonora de Gianni Ferrio ajuda, assim como o carisma do casal protagonista, Carlo Cabrini (em seu primeiro e penúltimo filme) e Anna Canzi (também estreante de carreira curta).

    Já citei o danado do Antonioni duas vezes neste texto e vou ter de voltar a ele: juro de pés e mãos juntas que tenho a maior boa vontade do mundo com o diretor, mas ele não colabora. Vendo "Deserto Vermelho", sou imediatamente conquistado pela bela seqüência dos créditos iniciais, com imagens desfocadas e música eletrônica, além dos nomes de Monica Vitti e Richard Harris; o problema é que o filme não demorou muito para me perder _e perdeu mesmo, porque ocorreu algo raríssimo: caí no sono antes de sua metade (e era bem cedo, horas antes do meu horário normal de sono). No dia seguinte, voltei à carga e tentei desesperadamente me ligar ao sofrimento da personagem de Vitti e à beleza da fotografia... em vão (pelo menos consegui ficar acordado, embora também tenha tido um pesado ataque de sono). Detesto dizer que algo é "chato" porque a palavra, do jeito que é comumente empregada, indica que o problema é do espectador e não da obra; mas ela se aplica perfeitamente a "Deserto Vermelho" porque o filme é "flat", sem altos nem baixos, como a linha que indica que o coração de uma pessoa já não bate. Eu tentei, Antonioni, mas você me decepcionou de novo. Em sua homenagem, um spoiler: após anos longe dos quadrinhos, vai aí a primeira tirinha que fiz com o Stripgenerator, que é limitadíssimo, mas quebra o galho (eu prefiro desenhar, mas atualmente não tenho material adequado):

    Il Deserto Rosso

    Na França, o destaque é Jean-Luc Godard, com três filmes: "Les Carabiniers", "Bande à Part" e "Une Femme Mariée: Suite de Fragments d'Un Film Tourné en 1964". O primeiro é bastante irônico, divertido e até didático e despretensioso. O músico Patrice Moullet, que como ator assinava Albert Juross, está hilário, e Geneviève Galéa chama a atenção pela grande beleza (o que não é de surpreender, sabendo-se que é a mãe de Emmanuelle Béart). "Bande à Part", uma adaptação literária, é talvez seu filme mais bem-humorado (além das famosas cenas do Louvre e a da dança, temos uma narração bastante irônica do diretor, muitas brincadeiras com montagem, som e decupagem e claras declarações de amor ao cinema americano mais popular) e, dos que vi, o que mais se assemelha a "Acossado". É também o filme em que Anna Karina aparece menos glamourizada: está menos bonita, mas mais jovial. E há a bela música de Michel Legrand. "Une Femme Mariée", meu preferido entre os três, soa bastante moderno na forma e na temática feminista. Macha Méril, belíssima, é a jovem casada que encontra o amante, questiona-se sobre as diferenças entre amor e sexo, vê-se no meio de uma conjuntura que, fazendo das mulheres o alvo primordial do consumismo, as obriga a se adaptar a uma série de padrões um tanto esdrúxulos (o que não mudou até hoje). Suponho que Godard já estivesse brigado com Truffaut, pois há algumas claras citações a "La Peau Douce" (uma revista com uma reportagem sobre o filme é mostrada, assim como há uma espécie de reprise de uma homenagem a Jean Cocteau), um filme já tão longe de qualquer cinema supostamente "de vanguarda" que aparenta ter pouquíssima ou nenhuma relação com o que foi chamado de Nouvelle Vague. Jean Desailly, morto em julho passado, carrega o filme. Dois detalhes me chamaram a atenção: o apartamento do diretor é usado como locação, e aqui aparece o plano em que Françoise Dorléac coloca a bandeja de café da manhã na soleira do porta e vem um gato cheirar os recipientes _o making of dele nós vemos em "A Noite Americana", quase dez anos depois. Completam este parágrafo que não toma banho mas usa perfume "Muriel ou Le Temps d'un Retour", de Alain Resnais (com uma montagem elíptica e frenética a ponto de me fazer lembrar de, oh, Russ Meyer), e "Le Feu Follet" ("O Fogo Fátuo" seria um título mais bonito e mais chamativo do que "30 Anos Esta Noite"), mais um exemplo do ecletismo de Louis Malle (o que me faz perguntar se este diretor tem um estilo).

    Na terra do sashimi de salmão, meu preferido foi "Nikutai no Mon", chamado por aqui de "Portal da Carne", que pode até ser visto como um precursor dos exploitation dos anos 70, por causa das cenas de tortura de mulheres nuas, mas é muito mais um filme político: passado no imediato pós-Guerra, com o Japão humilhado e ocupado por soldados americanos e protagonizado por mulheres que tiveram suas famílias destruídas e foram obrigadas a trabalhar como prostitutas, inicia e acaba com a imagem da bandeira dos EUA, sob palavras longe de gentis. Outro ponto interessante é o de que, apesar de um drama sociopolítico, o filme foge do naturalismo: não só tem aquela "cara de estúdio" (que está longe de ser uma coisa necessariamente ruim) como estiliza bastante as personagens por meio do figurino (cada prostituta tem sua cor e só se veste com ela durante todo o filme _o que facilita a identificá-las, por sinal). É também o filme de estréia de Yumiko Nogawa, na ativa até hoje (assim como o diretor, Seijun Suzuki). Em "Akai Satsui" (aqui, "Segredo de uma Esposa"), até onde me lembro o primeiro longa de Shohei Imamura que vejo, o drama familiar abandona a doçura de um Ozu para incluir violência e sexo, pratos típicos do erotismo japonês. Mas o filme está longe de ser um "exploitation" ou algo do tipo: é muito sério, complexo e bonito _mas também um tanto extenuante. No fundo, também soa como um filme feminista. E "Yukinojo Henge", de Kon Ichikawa, é bem menos impressionante que "Fogo na Planície". Mesmo assim, é bastante incomum: a encenação também foge do naturalismo (assim como os atores, cujas falas traduzem a história para o espectador sem sutileza), o enredo é exposto aos trancos e barrancos (as rupturas de tempo entre as cenas são grandes), e a fotografia é exuberante (lembra o "Gate of Hell" do Kinugasa, que dirigiu a versão original deste aqui em 1935 _o curioso é que Ichikawa usa o mesmo ator, o excelente Kazuo Hasegawa, que também estrela o "Gate of Hell" e que aqui interpreta dois personagens; este é seu penúltimo filme). Ayako Wakao está linda, e o Eiji Funakoshi de "Fogo..." também tem papel de destaque. É uma obra que se destaca mais por alguns momentos muito fortes do que pelo seu conjunto, que chega a ser dispersivo.

    Ainda na Europa, a Polônia trouxe "Nóz w Wodzie". É "A Faca na Água", primeiro longa de Polanski, escrito em parceria com Jerzy Skolimowski. Sem contar uma história complexa, arranha o comportamento de dois homens face a uma bela jovem (Jolanta Umecka, em seu primeiro filme, cuja carreira não se estendeu muito), mas introduzindo situações-limite. O diretor faria filmes bem mais empolgantes (embora por vezes entregasse bombas como "Fearless Vampire Killers". Melhor é o soviético "Tini Zabutykh Predkiv", que em inglês ganhou o título de "Shadows of Our Forgotten Ancestors". O clássico de Sergei Parajanov experimenta com cores, lentes, efeitos visuais, posições de câmera, velocidades, que contam uma deprimente história nos cafundós dos Cárpatos. É um cinema brincalhão, de celebração, mais divertido de fazer (a não ser por aquela neve toda) do que de ver. E no país de Hussein Obama, o Clinton "bronzeado" (segundo o "caimano"), fui do conjunto formado pelas cinco partes de "Dog Star Man": estava mesmo com vontade de ver um filme não-narrativo, e esta série de Stan Brakhage veio bem a calhar. É bom ser desafiado de vez em quando, embora o impacto não seja dos maiores.

    ***

    Uma das minhas muitas leituras atuais é uma biografia do Joe Strummer, "Redemption Song", de Chris Salewicz. A leitura me fez voltar a ouvir Clash (fico besta ao lembrar que já era fã da banda aos 11, 12 anos _como é que uma criança é capaz de tamanho bom gosto?) e derivados (101ers, Big Audio Dynamite, Havana 3 A.M., Latino Rockabilly War, The Mescaleros, Carbon/Silicon e até Ellen Foley e The Good, The Bad & The Queen, mas nada que chegue perto do original em seu auge _ou seja, "Sandinista!") obsessivamente. Como ter trabalhado com cobertura de shows e da indústria fonográfica acabou me afastando dessa área (basicamente, o que era curtição virou trabalho e perdeu a graça) e o universo é gigantesco, mesmo com ajuda de Last.fm e quetais não sei se atualmente há alguma banda comparável em produção e em qualidade (foram oito vinis em 5 anos, sendo que apenas um punhado de faixas não eram muito boas _estou desconsiderando o "Cut the Crap", é claro), o que é muito deprimente. O mundo bem que precisava. Update: está sendo lançado outro disco ao vivo deles, com o famoso show de abertura pra o Who no Shea Stadium, em 1982. Iupi!

    Falando em livro, vai aí um trecho bem interessante do "Conversas com Woody Allen: seus Filmes, o Cinema e a Filmagem", recém-lançado pela editora onde trabalha meu ex-colega de Ilustrada Cassiano Elek Machado (a pergunta foi feita há menos de quatro anos):

    "Eric Lax - Faça uma avaliação de sua carreira até hoje.

    Woody Allen - Minha sensação objetiva é que não atingi nada significativo artisticamente. Não digo isso com tristeza, apenas descrevo o que sinto como verdade. Sinto que não dei nenhuma real contribuição ao cinema. Em comparação com contemporâneos como o Scorsese, o Coppola ou o Spielberg, realmente não influenciei ninguém de forma significativa. Quer dizer, muitos dos meus contemporâneos influenciaram jovens diretores. O Stanley Kubrick é um exemplo primordial. Eu não sou nenhum tipo de influência. Por isso é que sempre me pareceu estranho que prestassem tanta atenção em mim ao longo dos anos. Nunca tive um grande público, nunca fiz muito dinheiro, nunca tratei de temas controvertidos nem prestei atenção nenhuma na moda. Os meus filmes não estimularam a opinião do país em temas sociais, políticos ou intelectuais. São filmes modestos, feitos com orçamentos modestos, que produzem lucros extremamente modestos e não abalam de forma alguma o mundo do show business. Não tem jovens diretores correndo para me imitar e fazer filmes do jeito que eu faço. Nunca tive domínio técnico suficiente ou suficiente profundidade de idéias para fazer ninguém pensar. Sou apenas um piadista de Brooklyn/Broadway que teve muita sorte. E eu não sou uma pessoa modesta demais. Quando sou bom, sei apreciar a mim mesmo. Não sou triste, nem confessadamente masoquista a esse respeito, mas sou inteligente o bastante para saber que explorei ao máximo meus dotes limitados, ganhei um bom dinheiro em comparação com o meu pai e, o mais importante, de longe preservei minha saúde. Quando eu era menino, sempre corria para o cinema em busca de um escape - às vezes doze ou catorze filmes por semana. E, adulto, consegui viver a minha vida de forma um tanto autocomplacente. Consigo fazer os filmes que quero, e então, durante um ano, posso viver naquele mundo irreal de mulheres bonitas e homens interessantes, situações dramáticas, figurinos, cenários e realidade manipulada. Sem falar em toda a maravilhosa música e em todos os lugares aonde me levou. [Ri] Ah, e às vezes eu consigo sair com uma das atrizes. O que poderia ser melhor? Escapei para uma vida no cinema do outro lado da câmera, mais que para o lado da platéia. É irônico eu fazer filmes escapistas, mas não é o público que escapa - sou eu."

    No texto que vem: "Um Dia, um Gato" e outros filmes.

    Sábado, Outubro 11, 2008

    Falei do chilique de Luiz Carlos Barreto a respeito dos festivais nos comentários do texto abaixo e não consigo deixar de comentar agora o "manifesto anti-nudez no cinema" (ou uma grande cena de ciúme em público?) de Pedro Cardoso. Entre as muitas posições discutíveis no texto dele, há exageros ("pornografia que percebo presente na quase totalidade da produção audiovisual mundial, e na brasileira especialmente") e limitações ("a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação"), além de acusações (que podem até ter fundamento, mas não servem para generalizar) e ofensas. Entre estas, a de que "diretores e roteiristas" sofrem de "voyeurismo" e "desfunção (sic) sexual" e "impingem cenas macabras" aos atores (mas os atores não lêem os roteiros antes? Não se discutem estes pontos com o diretor? Que vitimização do ator é essa?). Aliado a tudo isso, declarações estapafúrdias ("Quem quer a nudez do outro, é porque tem problemas com a sua própria"). Curiosamente, ao final ele toca em um ponto mais interessante e pertinente, a atuação das pessoas que ele chama de "amestradores de atores". Também concordo quando ele fala que os atores devem fazer apenas o que querem, dentro de seu ofício (é claro que nenhum ator deve ser vítima de assédio ou qualquer outro tipo de covardia, assim como nenhum profissional deve sofrer abusos no ambiente de trabalho _e olha que já vi muita gente sofrendo...). E não me oponho de forma alguma a ele ter exposto o que pensa e sente. O que temo é que tais palavras possam exercer sobre o audiovisual brasileiro e o seu público uma influência nefasta, que o infantilize e o "encareteie" ainda mais. Porque é este o grande câncer que carcome a arte atualmente (não é à toa que várias pessoas ficaram perturbadas com a carta de uma leitora do Guia da Folha na qual ela reclamava de ter visto o trailer do novo filme do Mojica). Aliás, recomendo a leitura dos parágrafos 2, 3 e 4 deste texto de Andrea Ormond e também o início do seu texto anterior, no qual ela cunha o perfeito neologismo "sociochanchada"." Update: dois dias depois de eu ter escrito este texto, a Ilustrada publicou matéria de capa sobre a polêmica. Inácio Araújo escreveu um belo texto, do qual peço licença para reproduzir o parágrafo final: "Toda essa história é tão cheia de elementos estranhos, incompreensíveis, truncados, entreditos, que parece uma ficção mal alinhavada, sombriamente retrógrada, destinada a funcionar como lance de marketing, a serviço não se sabe do que ou de quem." Update 2: Laerte, excelente como sempre, publicou um "anti-cartum" que aparentemente faz menção à polêmica.

    Enfim, eu não vejo nada de mais na nudez (sou simpático ao naturismo e acho bonitos os corpos _e não precisa necessariamente ser de gente "jovem e sarada") e mesmo na pornografia (que, sim, tem algo de muito triste _mas também não sou contra a tristeza), que já foi defendida por grandes artistas. Mas se alguns atores, que realmente ficam numa situação de grande vulnerabilidade e exposição quando trabalham (mas os roteiristas e diretores também ficam, embora não tenham seus corpos registrados), não se sentem à vontade com a nudez, bastaria recusar papéis que a exijam, não? Cardoso acusa diretores e roteiristas de "voyeurismo" _mas o que há de mal no voyeurismo? Todo espectador de cinema não é um voyeur?

    Como diretor, eu nunca gostaria de colocar nenhum ator ou atriz numa situação constrangedora ou que venha gerar arrependimento no futuro; mas também acho que o ator ou a atriz deva ter a capacidade de se despir (sem trocadilho) de seus pudores na hora em que for interpretar (e vocês já imaginaram "Falsa Loura" sem a nudez de Rosanne Mulholland ou "O Céu de Suely" sem a nudez de Hermila Guedes ou "A Dama do Lotação" sem a nudez de Sônia Braga ou "Rio Babilônia" sem a nudez do travesti na cena com o Jardel Filho, entre muitos outros exemplos? Pode haver algo gratuito, constrangedor e pornográfico em muitos filmes, mas não em exemplos como esses, e não acredito que todos devam pagar pelos pecados de poucos); e caso ele/ela (de novo, sem trocadilho) não seja capaz, caso seja limitado(a) neste aspecto, que não aceite o papel. Mas que não se inicie uma campanha nefasta pela pudicícia (não em seu belo sentido de "honra feminina") ainda maior do nosso cinema (ou do gosto do público médio _ou de 'classe média"?), que anda massacrado pelo "bom gosto" burguês (odeio esta palavra, mas aqui ela cabe direitinho), pelo politicamente correto e pela incapacidade da "geração Prozac" de lidar com a vida. Um pouquinho mais de maturidade, por favor! E, principalmente, um pouquinho menos de frescura! (E imaginem aqui um "porra!" dito de boca cheia pelo Pereio.)

    ***

    Depois desse intróito, parece até adequado começar por "Como Consolar Viúvas", pornochanchada (na recente entrevista que Carlo Mossy deu a Jô Soares, este _que também dirigiu uma, "O Pai do Povo"_ brincou que a pornochanchada não tinha nada de... chanchada) que José Mojica Marins assinou como J. Avelar em 1976. A assinatura sob pseudônimo dá a entender que ele não tinha muito orgulho da fita, e realmente ela está muitíssimo aquém de seus clássicos. Mesmo assim, dá para ver, em alguns momentos (nos planos que abordam o sobrenatural, com direito a distorções de imagem), a marca do autor. Outra comédia que tem a ver com sexo (o Pedro Cardoso provavelmente morderia os cotovelos do Selton Mello de tanta raiva ao saber do projeto de website dos heróis do filme) é "Ligeiramente Grávidos", o segundo longa de Judd Apatow (o anterior foi "O Virgem de 40 Anos"), produtor e roteirista de cinema e TV que deu uma força para gente do nível de Jim Carrey e Ben Stiller _ou seja, é um nome central na comédia norte-americana há pelo menos uns 15 anos. E é impressionante a evolução neste filme, que é muito engraçado, mas também muito sutil, cheio de emoção, com personagens de carne e osso e uma trilha sonora cheia de canções famosas. O filme tem 2h15, ou seja, é bem pouco conciso (como o anterior), mas não é nem um pouco cansativo. Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd e todos os amigos do protagonista (batizados com os nomes dos atores) estão ótimos. A cena em que o protagonista chama "Doze É Demais" (ou seria sua seqüência?) de um "filme doente", porque faz piada com uma grande responsabilidade, resume tudo.

    Mas vamos voltar para nossa linha do tempo, que está no início dos "revolucionários" anos 1960. À época ainda pipocavam obras que continuavam a seguir a linha dos filmes de gângsters que desembocaram no noir: é o caso de "Underworld U.S.A.", de Samuel Fuller, e de "The Rise and Fall of Legs Diamond", de Budd Boetticher. O primeiro, chamado por aqui de "A Lei dos Marginais", é uma história bastante simples de crime e vingança. O destaque é mesmo a crueza habitual de Fuller ao retratar a covardia e a violência: homens brutais não pensam duas vezes em ferir e matar _de preferência, mulheres e crianças primeiro. O segundo volta à Lei Seca e acaba parecendo uma homenagem a títulos como "Public Enemy", "Scarface" e, indo bem mais atrás no tempo, ao pioneiro "The Great Train Robbery", de Edwin S.Porter. Curiosamente, um texto no Imdb associa a interpretação de Ray Danton (que não me chamou muito a atenção, a não ser pelo fato de ele ser parecido com o David Schwimmer, o Ross de "Friends" _ele encerrou a carreira como diretor de TV, em séries como "O Incrível Hulk", "Mike Hammer" e "Magnum") ao padrão que logo seria adotado por Sean Connery como James Bond. É um dos primeiros filmes de Warren Oates, mas quem chama a atenção mesmo é Elaine Stewart, que parece até a encarnação da Jessica Rabbit, de tão gostosa _mas que não aparece pelada, para alívio de muitos atores.

    Outros filmes me lembraram as notícias da atualidade no país do Tio Sam. Foi curioso ver "Advise & Consent" (1962), de Preminger, em um momento em que o legislativo norte-americano está em evidência, devido à quebradeira dos bancos e esse aprova-não-aprova de uma lambança para consertar outra maior. Mas o filme, chamado por aqui de "Tempestade sobre Washington", é a adaptação de um romance que por sua vez se inspirou em uma série de personalidades políticas dos EUA em anos bastante turbulentos (e quais não são?) de Guerra Fria e mccarthismo. E o que a princípio parece apenas um filme que mostra algumas intrigas ao redor da nomeação de um secretário de Estado acaba adentrando por caminhos inesperados e bastante ousados. É estranho que Henry Fonda abra os créditos, já que ele praticamente faz uma ponta; do grande elenco (que tem Walter Pidgeon, Gene Tierney, Franchot Tone e até o crédito para a voz de Frank Sinatra), quem se destaca são Burgess Meredith e, especialmente, Charles Laughton, incrível _foi seu último filme, infelizmente; ele morreu em dezembro daquele ano. E "The Intruder" (1962), um impressionante filme de Roger Corman, considerado por muitos o seu melhor (não é de estranhar que tenha sido um dos seus poucos fracassos de bilheteria), entra de sola na "América profunda" para futucar a questão do racismo _não só muita gente está duvidando da eleição de Obama, à frente nas pesquisas, como já surgiram piadinhas mil a respeito do tempo de sobrevida dele caso adentre a Casa Branca (sem trocadilho); já o comparam tanto a Kennedy... Mas, no filme, William Shatner está absolutamente fantástico como o incitador do preconceito em uma pequena cidade sulista _é um dos vilões mais sórdidos, covardes e desprezíveis já filmados. A câmera é bastante ousada.

    E diante da sensacional história das boates de Buenos Aires que estavam sorteando próteses de silicone para suas freqüentadoras (por meio da qual fiquei sabendo que, lá, estas nobilíssimas partes do corpo feminino se chamam "lolas") me vem a lembrança de "Lola", o primeiro longa de Demy, dedicado a Max Öphuls (realmente, a câmera dança para lá e para cá, mas sem o mesmo rigor do homenageado). Anouk Aimée está exageradíssima, mas não tenho certeza se a culpa é dela ou se a sua personagem o exigia. O filme é todo luminoso (poucas vezes vi tanto branco, tanta luz estourando e tantos personagens na contra-luz como aqui), e o final agridoce em uma história sem vilões tem, ao mesmo tempo, um quê de crueldade e outro de alegria. Também da França veio uma grande e inesperada decepção: "Jules et Jim". O filme todo é, diferentemente do que eu esperava de Truffaut, muito gélido e distante de seus personagens: a primeira metade é frenética demais (dá a impressão de que o romance do qual o filme foi adaptado era tão ruim que ele correu com a história), e a segunda é morosa e repetitiva, sempre sem muita emoção. O melhor momento, de longe, é Moreau cantando "Le Tourbillion". Muito pouco para um filme tão comentado. Melhor é "Il Posto", de Ermanno Olmi, que mostra o percurso de um jovem que termina o ensino médio e, por necessidades familiares, tem de arranjar um emprego em Milão. Sua entrada no mundo corporativo, essa armadilha que até hoje captura muita gente (e não sai barato ser livre), é retratada com distância e sobriedade. Apesar de algum senso de humor, o filme é bastante deprimente _como tinha de ser. O destaque é a bela Loredana Detto, em seu único filme _ela acabou casando com o diretor, que deve tê-la guardado só para ele; vai que ele tinha medo de que ela acabasse trabalhando num filme do Ivan Cardoso ou do Selton Mello...

    Muitíssimo diferente de "Jules et Jim" nessa questão da emoção é "Too Late Blues", o segundo longa de Cassavetes (um filme "hollywoodiano", de estúdio, feito do outro lado do país _ou seja, uma porção de experiências novas para seu diretor. Impressionante a intensidade das personagens (o que certamente mina o naturalismo do filme _mas quem liga para o naturalismo no cinema? Para o naturismo, sabemos que o Pedro Cardoso liga) de Bobby Darin, Stella Stevens (que é incapaz de ficar feia, mesmo com o cabelo molhado ou a maquiagem borrada _além disso, é provavelmente sua melhor atuação), Everett Chambers (em seu único filme como ator _trabalhou principalmente como produtor) e até mesmo Cliff Carnell (que parece um Lee Marvin grandalhão e, assim como Seymour Cassel, trabalhava também na equipe de fotografia "da pesada"). E no Reino Unido temos outro filme de grande impacto: "The Innocents", de Jack Clayton.Considerada a melhor adaptação de "The Turn of the Screw", de Henry James (tenho o livro há mais de dez anos e só após ter visto este filme fiquei com vontade de lê-lo), é impressionante como a tensão é construída lentamente, até nos levar a um dos finais mais terríveis e desconcertantes. A fotografia de Freddie Francis em scope é primorosa, e Deborah Kerr está memorável _mas quem rouba a cena são as crianças, Pamela Franklin (em seu primeiro filme, de uma carreira que durou uns 20 anos _resolveu se aposentar) e Martin Stephens (em um de seus últimos trabalhos _ acabou se tornando arquiteto).

    Outro trabalho impactante é "Khaneh Siah Ast" (que pode ser traduzido como "A Casa É Preta"), único filme da poeta iraniana Forugh Farrokhzad, que morreu poucos anos depois, em um acidente, ainda jovem). É um documentário de 20 minutos sobre uma casa de leprosos, ou seja, não é difícil imaginar que as imagens sejam impressionantes (lembrou-me como Pasolini foi feliz em retratar o leproso em sua obra-prima, "O Evangelho Segundo São Mateus"). A montagem, também da diretora, é incrível. E finalmente chegamos à obra-prima do período: "Madre Joana dos Anjos", talvez o filme mais conhecido de Jerzy Kawalerowicz (morto em dezembro do ano passado). É uma história de possessão demoníaca na Polônia do século XVII _mas não se trata de um filme de terror, embora alguém possa até dizer que é uma espécie de precursor de "O Exorcista" (é inspirado numa história real, que Ken Russell também adaptaria em seu "The Devils", de 1971, que ainda não vi). A belíssima fotografia em preto-e-branco e a simplicidade dos cenários remetem ao anterior "A Paixão de Joana D'Arc" e ao posterior "Andrei Rublev", além dos filmes de Bergman; a decupagem, os enquadramentos e a montagem são próximos da perfeição, e o casal de protagonistas, Mieczyslaw Voit (fantasticamente "duplicado" em uma cena, sem que seus duplos ocupem o mesmo plano _trocam-se subjetivas) e Lucyna Winnicka (a mulher do diretor, belíssima _e a exemplo de Ingrid Bergman em "The Bells of St. Mary's", sequer mostra os cabelos), está brilhante em todos os planos. Certas cenas com as freiras endiabradas lembram uma espécie de musical distorcido. Entusiasmado por este trabalho, fui atrás do filme imediatamente anterior do diretor, "Pociag" (que ganhou em inglês o título "Night Train"), por ter lido que seria o seu melhor. Não é. É um "thriller de trem", mas a história da busca pelo assassino fica em segundo plano, já que mostrar as personagens é mais importante para o diretor. O resultado é um filme que fica um tanto em cima do muro, perdendo a oportunidade de ir até os limites _com exceção da cena de captura do assassino, que é ótima.

    E a série da vez foi a segunda temporada de "The Tudors", protagonizada por Henrique VIII (boa atuação de Jonathan Rhys Meyers). Esta é o inverso da anterior: se a primeira mostrava a ascensão de Ana Bolena, esta enfoca sua queda (com uma dignidade admirável). E com ela fecha-se um ciclo (embora uma terceira temporada esteja prevista para o ano que vem, que seria a última com Meyers). Como era de esperar, o clima fica mais pesado, há menos humor e muito menos sexo; a primeira metade é cansativa, porque o objetivo do protagonista é fixo, e sua obsessão torna-se difícil de suportar. Mas temos no esmero da produção e em um grande elenco de apoio (destaques para Natalie Dormer, Henry Cavill, Jeremy Northam e para a participação especial de Peter O'Toole, como o papa Paulo III) os grandes trunfos desta série _que, no entanto, fica distante de outra grande série de época, "Roma". Seria muito bom se a série, após a saída de Meyers, mantivesse a qualidade e enfocasse os reinados de "Bloody" Mary e Elisabeth _de preferência, com mais "pornografia", por que não?

    P. S.: Foi só eu ler o discurso do Pedro Cardoso para eu ter uma idéia para um curta erótico, inspirado em uma foto e em duas pinturas.

    P. P. S: Começou a Mostra! (...) E daí?

    Sábado, Setembro 20, 2008


    Milhem Cortaz e Vanessa Prieto em "Nas Duas Almas"

    Não posso deixar de comentar mais duas experiências recentes de exibição de trabalhos em que estou envolvido. O primeiro foi na Sessão do Comodoro passada, quando o segundo curta-metragem dirigido pelo Vebis que montei teve sua segunda exibição pública _mas agora na versão finalizada, mais curta (mas não tanto quanto eu gostaria _típico de montador). Eu tenho um nível extremo de autocrítica e é muito difícil eu gostar muito de algo que tenha feito, mas confesso que, apesar de alguma ou outra coisa no vídeo me incomodar (a não ser quando o incômodo é proposital, como na cena das meninas _ela realmente foi pensada pelo Vebis para ser irritante, e a montagem picotada foi feita para gerar este efeito), confesso que me emocionei com a cena no bar, na qual o Milhem Cortaz (excelente _e como disseram dois mestres, Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, que muito nos honraram com suas visões, é a primeira vez em que ele aparece glamourizado, como herói romântico, e funciona) conclui que "amar deixa a gente velho" _talvez a grande fala do filme. Também fiquei muito feliz com os vários elogios à minha cena preferida, a da briga no carro, justamente a que mais desafios me apresentou na montagem. Parabéns ao Vebis, e espero que essa nossa parceria renda outros frutos _já temos projetos em vista, vamos nessa.

    (Update: Leandro Caraça também escreveu sobre "Nas Duas Almas". Perdôo ele ter errado meu nome por ele ter pedido aplausos para minha montagem, hehehe.)


    Gustavo Engracia com a camiseta que cita Humberto Mauro

    A outra foi a exibição de "A Volta do Regresso" no 6º Curta Santos, numa sala clássica da cidade, o Roxy Gonzaga _que também seguiu a onda e se tornou um multiplex. A maioria das projeções do filme tem apresentado problemas diversos _desta vez, o que me incomodou foi o estado da cópia, já bastante deteriorada. O filme agradou e recebi muitos elogios durante o debate, mas eu gostei bem menos dele. Faz dez meses que ele foi finalizado e, com a poeira baixando, fica mais claro para mim que eu gosto bastante do elenco e da trilha sonora, acho o roteiro bom (embora eu quisesse ter feito melhor e não tenha conseguido, está infinitamente acima da média do que se faz para curtas) e todo o resto deixa a desejar (talvez eu esteja sendo um tanto cruel, mas é o que sinto no momento). Mas também sinto um certo orgulho ao não conseguir negar que, apesar de todos os seus problemas, este filme realmente cumpre o papel que eu queria que ele cumprisse: o de ir na contramão de tudo que é considerado aceitável, de "bom gosto", "correto", "na moda". Enfim, ele se nega a perpetuar os dogmas do stablishment e a manter o status quo deste nicho _que, como tudo, apresenta uma série de vícios revoltantes, que induzem ao conformismo e ao pensamento único, duas pragas que atacam a arte. Mesmo assim, nos deram um prêmio, o de Melhor Som (o que é curioso, pois o som da cópia, toda arranhada, estava péssimo, com mais chiado do que vinil velho); achei estranho não existir o prêmio para roteiro, que certamente mereceríamos (o que não quer dizer que levaríamos, muito pelo contrário). Também fiquei feliz com a merecida premiação do colega Milton do Prado pela montagem do filme "Odeon" _aliás, ele também deveria ter ganhado este prêmio em Brasília, mas a atuação do júri ali foi simplesmente vergonhosa.


    ***
    Vi menos filmes do que de costume no último mês, a falta de tempo anda apertando cada vez mais. Ainda assim, vou avançando devagar e sempre nessa constante luta pela formação de repertório, infelizmente desacompanhada de uma reflexão mais aprofundada, novamente por falta de tempo. Dentre as várias belezas que vi no período, talvez a que mais tenha me impressionado é "The Savage Innocents", de Nicholas Ray, visto pela primeira vez em sua janela original. O filme se equilibra entre o didatismo para tornar palatável ao civilizado a selvageria e o registro da natureza no que ela tem de bela e terrível, sem grandes arroubos moralizantes _vemos imagens que podem ou podiam ser tabu (justamente um dos temas do filme), como um urso sendo arpoado (que abre o filme) ou a nudez da atriz francesa (sim, parisiense) Yoko Tani (que, segundo o Imdb, trabalhou no primeiro filme de Juan Bajon!). Findo este primeiro ato, temos cenas maravilhosas, como as que mostram os choques de cultura entre os esquimós idealizados do filme (em grande comunhão com a natureza, com direito a narração explicando o ciclo alimentar) com o homem branco, claramente criticado ("suas leis se tornaram maiores do que eles" é uma das frases ditas no filme) _e um final previsível e sublime. Um dos primeiros papéis de Peter O'Toole, que pediu para ter seu nome retirado dos créditos, por ter sido dublado por outro ator. Outro filme que vai fundo na crueza é "Nobi" (aqui, se não me engano, é "Fogo na Planície"), de Kon Ichikawa (que trabalhou por mais de 70 anos e viveu quase 100 _morreu em fevereiro deste ano). É impressionante não apenas por retratar a miséria da guerra (a Segunda Guerra Mundial, no front das Filipinas) ou por ser belissimamente realizado: o que me chamou a atenção foi o retrato nada heróico dos japoneses _muito diferente do registrado recentemente por Clint Eastwood em seu "Cartas de Iwo Jima" (cujo DVD está aqui em casa, sei lá quando vou revê-lo). Aqui, o que importa é sobreviver a qualquer custo: as personagens não se furtam de matar, pilhar cadáveres e partir para o canibalismo. Eiji Funakoshi (que tem um semblante bastante ocidental) está absolutamente fantástico como o malfadado Tamura; a transformação física pela qual ele passa durante o filme é impressionante. E como já fomos para o Japão, vamos emendar direto com "Akibiyori", antepenúltimo filme de Ozu. Assim como "Bom Dia" era uma variação de "Meninos de Tóquio", "Dia de Outono" está obviamente relacionado a "Pai e Filha", feito 11 anos antes (até mesmo a tradução dos títulos para o inglês ressalta o parentesco: se o primeiro era "Late Spring", este é "Late Autumn"). Naquele, Setsuko Hara era a filha que não queria casar para não deixar o pai sozinho; desta vez, ela é a mãe cuja filha (Yôko Tsukasa) reluta em abandonar, apesar de estar na idade de casar. O estilo único e brilhante do diretor volta a se manifestar com clareza, em um de seus filmes mais simples (no qual o conflito se apresenta bem cedo); a maneira como ele dá vida a espaços vazios, que servem de transição de tempo e espaço, é única.

    Como, na cronologia que estou seguindo (da qual me desvio algumas vezes, como fiz também neste mês, ao ver dois curtas de Man Ray, "Emak-Bakia", de 1926, e "Les Mystères du Château de Dé", de 1929, sempre muito divertidos _também vi o "Orphée" do Cocteau, de1950, para finalizar a trilogia), estou no início dos anos 1960, a França está bombando. Os maiores destaques foram "Les Bonnes Femmes" (1960), de Chabrol, e "Cléo de 5 à 7" (1962), de Varda. O primeiro, um breve acompanhamento da vida de algumas garotas que trabalham em uma loja, é grandemente dedicado a registrar a boçalidade das pessoas, em algumas cenas longas (como a da piscina), outras desconcertantes de tão ridículas (a do restaurante), outras mais irônicas (a do zoológico). Há um personagem misterioso com o qual Chabrol vai do macabro ao bizarro. Há também alguns momentos simplesmente bonitos (mas com uma atmosfera kitsch), mas nada supera a beleza das atrizes, em especial de Bernadette Lafont (lançada por Truffaut em "Les Mistons" e na ativa até hoje, mais de 150 trabalhos depois), Stéphane Audran (mulher do diretor) e Clotilde Joano (ironicamente, a que morreu jovem). O segundo é famoso por mostrar a história em tempo real (na verdade, das 17h às 18h30 _mas com momentos em que a montagem brinca com o tempo, inclusive com uma série de planos que servem como um pequeno flashback) de uma cantora que aguarda um resultado de um exame médico que pode comprovar uma grave doença. O filme abrange uma gama variada de emoções, do desespero ao humor (com um ponto alto na seqüência que homenageia os filmes mudos), passando pelo romance, pelo erotismo, pelo elogio à arte e o comentário político _e, claro, dando um bom espaço às chansons. Corinne Marchand está absolutamente maravilhosa como a protagonista, e Jean-Luc Godard aparece numa ponta como ator (há muitas outras participações especiais). Godard (além de Chabrol e Demy, mas a estes não reconheci) também aparece em "Paris Nous Appartient", de Rivette, que arma uma trama razoavelmente complexa (que envolve, basicamente, arte, política e romance), mas não a "mastiga" nem a desenvolve de maneira convencional _o que não enfraquece necessariamente o filme, mas pode afastar quem se apega mais ao enredo do que às personagens. O menos memorável dentre estes contemporâneos é "Tirez sur le Pianiste", de Truffaut, que é rápido a ponto de ser vertiginoso, confuso e entediante (apesar de curto), mas tremendamente irônico, bem-feito e cheio de mulheres bonitas (com destaque para Michèle Mercier). Algumas cenas impagáveis tornaram-se clássicas, como aquela em que Boby Lapointe canta "Framboise" (uma canção sobre um nobre tema).

    Ainda fora da língua inglesa, parei para ver, com certa tristeza, o último filme de Fritz Lang, "Die 1000 Augen des Dr. Mabuse": apesar de dar sinais de ser antiquado, é um avanço em relação a seu díptico indiano. Em ritmo muito rápido, traz uma série de clichês de filmes de espionagem (da qual Lang é mesmo pioneiro) e, novamente, um mestre do crime com uma trama maligna (cortesia do falecido Dr. Mabuse _mas é uma pena que Rudolf Klein-Rogge também já estivesse morto). E novamente voltei à Índia, para mais um filme de Satyajit Ray, "Devi": a vida de uma família se transforma após um homem sonhar que sua nora é a reencarnação da deusa Kali. Sharmila Tagore, linda, encarna divinamente a personagem. Ray registra imagens e sons (a música parece ser muito importante na cultura indiana) com invulgar beleza, é um desses grandes estetas do cinema.

    De volta aos EUA, o grande destaque mesmo é "The Hustler, o penúltimo e mais conhecido dos dez filmes que Robert Rossen dirigiu. É incrivelmente "cool" quando Paul Newman está em evidência (e sua personagem faz o que faz melhor ou pelo menos fala sobre o assunto) e fica mais pesado e desequilibrado quando Piper Laurie ganha mais destaque. Longo e desigual, ainda assim é um belo filme, com boas montagem e trilha sonora e um elenco espetacular: George C. Scott e Jackie Gleason arrebentam _a curiosidade é Jake LaMotta, o "Touro Indomável", fazendo uma ponta como bartender. Quanto a "Imitation of Life", eu queria antes ter visto a versão anterior, de Stahl, mas na falta desta fui de Sirk (seu último filme nos EUA). Embora não seja seu melhor, novamente é um poderoso melodrama focado em personagens femininas _os homens quase sempre aparecem como meros acessórios, o que não chega a incomodar, já que o oposto acontece bastante em filmes "de macho". Além do óbvio tema da maternidade, estão também colocados aqui a questão da carreira (no caso da personagem de Lana Turner) e do racismo (com uma bela atuação de Juanita Moore). Sandra Dee e Susan Kohner (outro destaque; pena que não teve longa carreira) completam o elenco principal.

    Quem também pintou de novo por aqui foi John Ford, com "The Horse Soldiers" e "Sergeant Rutledge", ambos enfocando mais uma vez o exército norte-americano no final do século XIX. O primeiro retrata ao mesmo tempo uma missão ousada do exército do Norte na Guerra de Secessão, uma discórdia entre um coronel durão (John Wayne, claro) e um médico (William Holden) e os naturais problemas causados pela presença de uma mulher (sulista) em meio à tropa. O segundo, mais cruel e político, mistura o western de cavalaria (com direito a matança de índios apaches) e o drama de tribunal, acrescido da discussão racial: Woody Strode é o sargento acusado de estupro e assassinato, e Jeffrey Hunter (o Jesus de "Reis dos Reis") é o seu defensor na corte marcial. A música e o senso de humor um tanto machista voltam a dar as caras.E também fui de Cukor, com "Let's Make Love", o penúltimo filme completo de Marilyn Monroe. O início dá a entender que vem por aí uma grande comédia, mas as coisas esfriam muito quando Yves Montand assume o papel principal. Marilyn, ótima em seu registro habitual, é a co-estrela, mas aparece bem menos do que ele e faz muita falta (parece que houve uma briga do Arthur Miller para aumentar o papel dela _não foi o suficiente). O enredo é uma bobagem completa e só vale para que vejamos alguns números musicais _mais uma vez, ambientados no teatro_ e tenhamos algumas participações especiais de estrelas como Milton Berle, Bing Crosby e Gene Kelly, interpretando a si mesmos. Mesmo assim, temos um momento antológico: a primeira cena de Marilyn, "My Heart Belongs to Daddy". E, finalmente, visto na mesma Sessão do Comodoro que apresentou o "Nas Duas Almas", "The Thief", o segundo filme de Russel Rouse, que trabalhou mais como roteirista. A proposta dele aqui é fazer um filme completamente desprovido de diálogos _ou seja, é diferente do que fazer simplesmente um filme "mudo". Inspirando-se em Fritz Lang e Hitchcock para filmar uma história de espionagem estrelada por Ray Milland (que está a cara do Gary Cooper), acaba cometendo alguns pecados, como o de ter de apelar para atuações exageradas (ou seja, voltando mesmo no tempo) e de ser um tanto desgastante _o final meio besta, mas talvez típico de uma produção já em plena paranóia da Guerra Fria, também joga um balde de água... fria. Vale destacar a belíssima Rita Gam, em seu primeiro filme, e a maravilhosa trilha sonora de Herschel Burke Gilbert.

    As séries da vez são a segunda temporada de "That '70s Show" (na qual os grandes desenvolvimentos são a perda da virgindade de Eric e Donna e o rompimento de Jackie e Kelso) e a terceira de "Prison Break", a mais curta, por causa da greve dos roteiristas. Não é de surpreender que seja a pior (até porque o plano de fuga _que já não é mais o original_ é obviamente muito menos complexo do que o primeiro). A verdade é que a série já esgotou seu potencial, e fica difícil se reinventar. O curioso é que a prisão panamenha onde a temporada se passa foi claramente inspirada no Carandiru.

    Quinta-feira, Agosto 28, 2008

    Vocês estão percebendo que o layout do site está diferente (piorou...); fui obrigado a atualizar o template no Blogger para poder instalar um outro sistema de comentários (por hora, o do próprio Blogger), já que o antigo (o Yaccs, que usei por mais de 6 anos) está encerrando as atividades. Alem disso, também tive de mudar de tracker (acabei de conseguir instalar o Google Analytics, o único que funcionou _estão dando uma de Microsoft, agora?) e até de fonte (já que o template antigo também não é mais aceito). E o logotipo do site agora está somente como imagem (os links não mais funcionam), que não fica centralizada direito, dependendo do tamanho do monitor e da resolução usada por cada visitante. São pequenas chateações, mas pelo menos o site continua a funcionar minimamente, e vocês já podem voltar a comentar no texto abaixo _e nos anteriores. Grato, abraços e até já.

    Sexta-feira, Agosto 08, 2008

    Estou começando a escrever este texto em 08/08/08, dia da estréia de "Encarnação do Demônio", o aguardadíssimo filme de José Mojica Marins (eu precisava achar a transcrição da entrevista de quatro horas que fiz com ele em 1995, na qual ele me ensinou a como fazer uma mulher trepar com uma tartaruga, para reproduzi-la aqui). Li uma declaração sobre o filme (não lembro se do próprio Mojica; provavelmente é do roteirista e diretor-assistente Dennison Ramalho), falando que a modernização do gênero passa pela questão da desintegração do corpo, vista em filmes como "Saw" (que tentei ver duas vezes e não consegui, achei os primeiros dez minutos muito ruins), "O Albergue" (do qual gostei), filmes de Takashi Miike (que adoro _dos que vi, o único que não me entusiasmou foi o "Sukiaki"). Daí que há poucos dias aconteceu um assassinato grotesco em Goiânia, que vem excitando a morbidez do povo e fazendo lembrar do Crime da Mala, de Chico Picadinho etc. Bem, gente que mata e depois esquarteja o corpo da vítima para melhor se desfazer dele não é nenhuma novidade (quantas HQs de "Cripta do Terror" não foram feitas sobre o assunto?). O que me chama a atenção nesse caso é que o assassino fotografou o cadáver para mostrar aos amigos e parentes... Isso dá um pano pra manga gigantesco (até me lembrou de "Peeping Tom").

    ***

    Escrevo agora no final de 11/08, tendo visto ontem o filme do Mojica, num Cinemark do Shopping D (por onde entrei pelo elevador de carga) com uma poltrona que mais parecia um instrumento de tortura (pena que não deu para aceitar o convite à queima-roupa do Vebis, no sábado), após um bom tempo longe das salas de cinema. Apesar de ter gostado bastante de vários trechos, é impossível conter uma certa decepção. É perfeitamente compreensível o grande problema decorrente da trágica morte de Jece Valadão (a costura com a personagem de Adriano Stuart é bem-feita, mas o filme não deixa de ser prejudicado). Criticar o trabalho de Mojica como ator também me parece chover no molhado _curiosamente, ele perde ao não ser dublado (e não é uma questão de preconceito lingüístico). Mas o encadeamento do roteiro de uma forma geral acabou deixando muito a desejar e é especialmente problemático no que tange a longa busca de Zé do Caixão pela mulher-superior-que-vai-gerar-o-filho-perfeito. A inserção da personagem na metrópole moderna poderia ter sido melhor explorada _boas sugestões não faltaram, como os encontros com travestis, crianças cheirando cola, a polícia violenta, mas não são aprofundadas (outras soluções mais ousadas e criativas poderiam ter encontrado a tela). Algumas questões fantásticas (em mais de um sentido) são apresentadas mas nunca muito bem resolvidas, como as aparições fantasmagóricas das vítimas que Zé fez nos outros dois filmes (a primeira delas, num cemitério, é minha cena preferida). E, pelo que li na Folha, foi desperdiçado um flashback maravilhoso, que mostrava como Josefel Zanatas passou de herói de guerra a sádico (tudo por causa de uma mulher, é claro), que fazia grande justiça ao personagem. Mas obviamente o filme vale a pena, não apenas por dar continuidade a uma obra tão importante do cinema brasileiro (e do gênero terror, em todos os tempos), mas por trazer interpretações antológicas, ainda que curtas, do já citado Valadão (sua primeira cena é excelente), de Luís Melo, que abre o filme (pena que desaparece _provavelmente será o meu coadjuvante do ano), e de Helena Ignez, perfeita como a bruxa cega (que poderia ter saído de "Macbeth"). Também me agrada muito o uso de planos que mostram o interior dos corpos (como o do coração de Zé, o rato na vagina, as imagens do início). Mas o grande serviço que o filme presta (lembrando que estas são apenas primeiras impressões, pretendo revê-lo assim que possível e repensar tudo isso) é o de recuperação do Mojica e de Zé do Caixão: o uso de cenas de filmes anteriores são sem dúvida os momentos mais emocionantes (sou suspeito para falar, meu envolvimento emocional com a personagem é muito grande), e a retomada do final de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (meu preferido) é excelente. Resumindo, fico muito feliz que este filme tenha sido feito (e muito triste com os resultados preliminares da bilheteria), mas fica o gosto de que poderia ter sido muito, muito melhor _o que é uma constatação muitíssimo comum.

    Se o filme do Mojica me causava uma expectativa e uma ansiedade gigantescas, eu não esperava absolutamente nada de "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia _cujo filme anterior, "Nina", tinha um erro de concepção muito sério: o de nos querer fazer acreditar que uma personagem absolutamente ordinária fosse extraordinária (esqueçamos que é uma adaptação de "Crime e Castigo", isso é ridículo). E realmente não estava gostando do filme em seus primeiros minutos, com aqueles planos de conjunto que pareciam querer emular, sem conseguir, o Paul Thomas Anderson de "Punch-Drunk Love"; mas o filme acaba engrenando, graças à atuação de Selton Mello (acima de sua média, embora, por breves momentos, ceda aos cacoetes do ator), e às boas montagem e trilha sonora. Novamente, o roteiro deixa um pouco a desejar (um final pungente e catártico foi infelizmente desperdiçado _coisa semelhante acontece com "O Céu de Suely" e "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias"; será que os diretores não sabem mais a hora de terminar seus filmes?), mas fiquei positivamente surpreendido por esta obra, que acertou ao deixar a pretensão desmedida do filme anterior de lado e criar algo que parece estar bem mais próximo do diretor. E já que estamos falando em Selton Mello, comecei a ver "Meu Nome Não É Johnny" (o adiantado da hora me fez interrompê-lo) e acho que os 70% do filme que vi até o momento (agora é dia 18/08) me permitem dizer que é muito fraco; o elenco é bom, alguns diálogos são engraçados, mas o resto...

    ***

    Falei da Índia no texto anterior e há pouco me deparei com outro cineasta de lá, Ritwik Ghatak (que morreu jovem, mas fez mais de 20 filmes). Já havia procurado por "Ajantrik", sem sucesso, mas encontrei "Meghe Dhaka Tara": um belo drama familiar, calcado na um tanto folhetinesca figura da mulher (interpretada pela birmanesa Supriya Choudhury) que se sacrifica pelo bem-estar da família. Se não fosse propenso à um maior derramamento emocional (nada muito chantagista), seria até comparável a Ozu (não na forma, claro). Toda a família é composta de tipos bem específicos, que juntos funcionam muito bem, e a música tem um papel muito importante (tanto que inicia e termina o filme). Também de lá, claro, é Satyajit Ray, de quem vi o "O Mundo de Apu", último episódio de sua trilogia e seu quinto filme. A história é simples e poderosa, mas o destaque é a decupagem: planos belíssimos _em especial aqueles em que ele fala da obra que está escrevendo e a que mostra o destino final da mesma. É também o filme de estréia de Soumitra Chatterjee, que interpreta o protagonista na idade adulta e acabou se tornando ator profissional: trabalhou em quase metade dos filmes de Ray e segue na ativa.

    Mas vamos direto para o melhor filme que vi no período: "Le Testament d'Orphée, ou Ne Me Demandez Pas Pourquoi!". É o último filme de Jean Cocteau, no qual ele depura seu estilo (visto em filmes como "Le Sang d'un Poète"), usando de uma série de trucagens simples, e se coloca na tela (junto a uma série de amigos ilustres) para criar cenas de grande beleza _e o que é mais difícil: ser poético sem ser afetado. Também da França, foram conferidos o recente "Le Scaphandre et le Papillon" (Julian Schnabel de novo com uma cinebiografia; é bem melhor do que seu filme anterior e menos deprimente do que pensei que seria; o primeiro ato lembra "Dark Passage", belo noir de Delmer Daves; ainda assim, acho que está sendo superestimado), "O Sol por Testemunha" (muito mais conciso do que "O Talentoso Ripley" _o que, neste caso, é um defeito: sinto especialmente falta de testemunhar uma ligação maior entre as personagens de Alain Delon e Maurice Ronet; o filme de Minghella inclusive resvalava no homoerotismo) e "Tangos, l'Exil de Gardel" (feito em Paris pelo argentino Fernando Solanas e visto no encerramento do 3º Festival Latino-Americano de São Paulo, com a presença do diretor; também menos deprimente do que pensava, é um belo musical _que me fez voltar a ouvur Piazzola_, cheio de humor e sem ficar preso ao naturalismo _além de algumas atrizes bonitinhas, o que sempre ajuda). E, apesar de não ser falado em francês, cabe colocar aqui também o "Bonjour Tristesse" de Preminger (um dos raros que ele dizia gostar), que, durante boa parte do tempo, parece estar envolto em uma névoa de inverossimilhança _o que é reforçado pelas transições entre o presente (em preto-e-branco) e o passado (em cores), além da narração da protagonista. O hedonismo exagerado é retratado como algo bem desagradável, e o choque de realidade que acontece ao final estremece o filme e dá ao mesmo uma força que até então ele não mostra _mas não o suficiente para levantá-lo.

    Também passeei pelas obras de alguns nomes clássicos, inclusive aqueles dois que morreram há pouco, Antonioni e Bergman. Do primeiro, fui de "L'Avventura", um romance muito mais linear do que esperava, com um grande cuidado em cada plano e uma Monica Vitti brilhante. Do sueco, toda aquela trupe de sempre (Max von Sydow, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand, Bibi Andersson, Erland Josephson etc.) volta em "O Rosto", seu último filme nos anos 50; é mais uma história tragicômica e com toques de erotismo, e novamente a influência do teatro é bem evidente _talvez seu filme mais leve? Dois amigões da vizinhança não poderiam faltar: Fritz Lang, de volta ao idioma alemão, trouxe seu díptico "O Tigre de Bengala" e "Sepulcro Indiano", que têm cara de filme antigo _no sentido de cinema de espetáculo e também de um olhar típico de "colonizador sobre o colonizado", além da "cara" de estúdio, com efeitos especiais bem pouco convincentes; não à toa, têm seus melhores momentos quando o diálogo desaparece. O óbvio destaque é Debra Paget; nas duas cenas em que ela dança longamente em frente a uma peituda estátua de Shiva, fica claro que Lang sabia filmar mulher (lembra a também sensual dança em "Moonfleet", um filme bastante parecido com estes); o figurino da atriz também é escandaloso (no bom sentido) nessas cenas: a primeira traz um rubi de formato sugestivo em um local mais sugestivo ainda; na segunda, ela provavelmente inspirou gerações de rainhas de bateria do Carnaval com seu tapa-sexo, deixando a cobra louquinha (a canção do Jorge Mautner seria uma boa opção de trilha sonora). E Buñuel, notoriamente anticlerical, trouxe "Nazarín", feito no ultracatólico México. A história demora a decolar, mas os dois últimos terços do filme são sublimes. Francisco Rabal está ótimo como o padre que, por decidir seguir à risca os ensinamentos de Cristo, passa a ser desprezado por todos os outros que se dizem cristãos. Muito irônico, o filme também critica a postura pouco humana de seu protagonista, que tem como discípulas uma prostituta e uma quase-suicida romântica. Um dos momentos mais intensos é quando o padre se depara com um bandido, e este conclui: "Você é todo bom, e eu, todo mau. Ambos não valemos nada". A Bíblia e todo o seu imaginário são parodiados durante boa parte do tempo, e o final é simplesmente maravilhoso. Tenho a impressão de que exerceu influência sobre o cinema brasileiro. E falando nele, quem diria, vi "Rio Zona Norte", o segundo longa de Nelson Pereira dos Santos. Claro que seu protagonista, Espírito da Luz (Grande Otelo), rouba o filme (mesmo com Jece Valadão, Paulo Goulart e até mesmo Ângela Maria). Inevitavelmente datado (especialmente nas cenas mais melodramáticas e dialogadas), alterna vaivéns no tempo, planos com e sem som e documenta a periferia carioca. É muito interessante analisar este filme como um contraponto (nem tão "contra" assim) das chanchadas.

    Fechando com o o país de Hussein Obama, vamos logo para os dois westerns do período: "Man of the West", apesar da cor e do scope, é talvez o filmes mais feio (e também o mais violento e sujo) de Anthony Mann. Não consegui deixar de implicar com o fato de Gary Cooper ser meio velho para interpretar o herói e Lee J. Cobb, muito jovem para o vilão _Julie London está em idade satisfatória. Muito melhor é "The Bravados", um dos últimos filmes de Henry King. Distinto, traz Gregory Peck num papel à primeira vista pouco simpático _o de vingador, cujos propósitos vão sendo elucidados bem aos poucos, garantindo uma aura de mistério durante boa parte da obra. O filme cresce e ao final, deixa marcada sua moral. De Mann, também vi "O Pequeno Rincão de Deus", que mais uma vez traz Robert Ryan e Aldo Ray. Começa como comédia e muda bastante de tom lá pelo final. Chama muito a atenção o erotismo do filme (ajudado pela presença das beldades Tina Louise e Fay Spain _e de seus generosos decotes); lembra até uma espécie de versão mais leve de "Mudhoney", do grande Russ Meyer. Falando em "sexploitation", "The Naked Venus", que Edgar G. Ulmer dirigiu sob pseudônimo em 1958, é um caso interessante de um filão criado para driblar a censura: inserir em uma trama cenas em campos de nudismo _é ótimo ficar mostrando um bando de gente pelada e depois fazer a defesa da prática como parte do "american way of life". Curiosamente (ou não), os planos com gente nua são o que há de melhor neste filme: a história é meio boboca (com exceção do fato de a heroína ser não apenas uma modelo artístico, mas também nudista), e o elenco é péssimo _mas a filha do diretor, Arianne, é bem bonita e tem "presença".

    Ainda nos EUA, mas nas mãos de um alemão, Douglas Sirk (seu nome verdadeiro era Hans), temos "A Time to Love and a Time to Die", outra adaptação de Erich Maria Remarque (que faz aqui sua única aparição como ator), que novamente enfoca a guerra _desta vez, a Segunda, mas com um final razoavelmente semelhante ao de sua obra mais famosa, "Nada de Novo no Front". Claro que o melodrama se impõe, na história do jovem soldado (John Gavin, uma espécie de Rock Hudson menos corpulento) que volta para casa de licença e encontra seu mundo destruído (Klaus Kinski, bem jovem, participa de uma cena). Mas muito melhor é "The Tarnished Angels", também é adaptação de um romance (William Faulkner) e, até onde me lembro, é seu primeiro filme em preto-e-branco que vejo. Rock Hudson, novamente acompanhado de Dorothy Malone, volta em um filme sensibilíssimo e eficiente nas cenas de ação envolvendo os aviões. É também um primor de roteiro e de construção de personagens, mas chama especialmente a atenção o brilho da mise-en-scène: os planos são de uma beleza rara. Belíssimo também (e retratando o pós-guerra) é "Some Came Running" ("Deus Sabe o Quanto Amei"), de Vincente Minnelli. Shirley MacLaine é o grande motivo para vê-lo, embora Frank Sinatra e Dean Martin não sejam de jogar fora. Também estrelado por um trio é "The Crimson Kimono", mais uma gema de Samuel Fuller _mesmo não sendo um de seus melhores. Começa como um policial bem sórdido (a primeira cena é um strip-tease) e aos poucos vai crescendo ao se tornar um inesperado romance (com uma cema belíssima que envolve um piano). Há também uma discussão sobre o racismo e a mistura entre o Ocidente e o Oriente e, bem mais sutil, sobre o papel da arte. Completa o pacote uma porção de planos que exploram uma variedade bem grande de signos _mas tudo sem frescura, é claro, porque Fuller era bad muthafucka.

    Falando em bad muthafuckas, os melhores momentos da segunda temporada de "Roma" são quando Lucius Vorenus (Kevin McKidd) e Titus Pullo (Ray Stevenson) resolvem as coisas com derramamento de sangue, muito sangue. Há também uma cena muito bonita com o Brutus de Tobias Menzies. James Purefoy, como Marco Antônio é outro grande destaque, assim como Lyndsey Marshal (Cleópatra), Zuleikha Robinson (Gaia) e Simon Woods (Otávio adulto) _e, claro, Polly Walker (Atia) e Lindsay Duncan (Servilia). Novamente, a HBO chutou bundas _desta vez, calçando sandálias.

    ***

    Para finalizar, curtas (não metragens): Recebi um gentil convite de Ailton Monteiro para entrar no Karagarga, onde é possível achar uma porção de filmes (e discos e livros) que não dão as caras no E-Mule, que eu insisto em usar. Creio que vai demorar um bom tempo até eu puder fazer uploads por lá, mas, assim que rolar, devo colocar ali o DVD de "A Volta do Regresso". Enquanto o dia não chega, o filme continua circulando por aí: passou, no mês passado, em uma mostra no Centro Cultural São Paulo (da qual eu só fiquei sabendo depois que rolou), e estará em Santos no mês que vem.

    David Lynch veio ao Brasil. Não pude ir ao encontro do topetudo meditabundo, mas uma galera foi, furou a fila simulando uma gravidez e tiraram fotos e pediram autógrafos ao figura. Recebi algumas, mas não reproduzo aqui porque não são minhas. O mais legal foi a pergunta feita pelo Vebis: "Do you like rockabilly?". Óbvio que o diretor de "Wild at Heart" respondeu (repetindo várias vezes, como um mantra): "I love rockabilly!".

    Outro que está por aqui é Win Wenders. Não vou ao encontro dele com o Walter Salles e o Alcino Leite Neto (para quem fiz uns frilas quando ele era o editor do "Mais!"), mas uma coisa me chamou a atenção: o seu próximo projeto é uma adaptação de um livro do Murakami, a ser filmada em Tóquio. Será que vai ficar boa?

    Morreu Dorival Caymmi. Sou muito mais fã das letras do que das músicas, mas sem dúvida foi um gigante. Agora, não me esqueço mesmo daquela tira do Angeli em que um casal está na praia e, de repente, o home começa a cantar: "O mar, quando quebra na praia, é bonito...". A mulher, injuriada: "Credo, que coisa brega!". O homem, mais puto ainda: "É do Caymmi, porra!". E ela, não sei se irônica ou apaziguada: "Ah! Então é lindo!".

    Trabalhar em uma empresa centenária sem dúvida dá no que pensar. Vejam este parágrafo que saiu há mais de 100 anos, em 17 de julho de 1908 _uma sexta-feira: "Existe, na rua Direita, um cinematographo gratuito de réclame. Há, todas as noites, grande agglomeração de gente alli, e alguns garotos, occultando-se atraz de um andaime das immediações, divertem-se a atirar pedras nas pessoas que por ali passam. À polícia compete impedir a continuação desses abusos da garotagem."

    Mas deixei para terminar com a frase do século, proferida pelo efelentífimo sr. presidente da República: "Nossos filhos já não querem mais o carro e, sim, o computador novo. É a paixão deles, para passar a noite namorando sem ver a mulher, coisa que a nossa geração não fazia".

    Terça-feira, Julho 01, 2008

    Voltando ao Rio, mais de dois anos depois, duas coisas me chamam a atenção (além de o frio, o trânsito e a quantidade de gente parecendo formiguinha andando pra lá e pra cá serem equivalentes aos de São Paulo). Uma delas é a quantidade gigantesca de outdoors (em especial, de evangélicos _levei até um susto quando li um "Esta cidade pertence a Jesus!"); voltei a me dar conta do impacto da Lei Cidade Limpa (pena que o Kassab não é igualmente corajoso quando se trata de enfrentar o trânsito _essa restrição aos caminhões é ridícula; aliás, o país todo está vivendo uma escalada de leis restritivas entrando em vigor, até quando ou aonde isto vai?). Mas o que mais me interessou mesmo (algo que eu nunca tinha observado antes) foram as particularidades das pichações cariocas. Diferentemente das paulistanas, que parecem querer se destacar, como um anúncio, as cariocas têm um perfil um tanto obssessivo-compulsivo: pequeninas, são repetidas ad nauseum, tentando preencher o espaço. E as letras também são muito diferentes: em São Paulo popularizou-se um estilo mais duro, pontiagudo, agressivo; no Rio, as assinaturas (que lembram mesmo assinaturas, dessas que se costumava fazer em cheques, também à beira da extinção) são mais graciosas, curvas, leves. É muito engraçado que as diferenças, tão discutidas, entre as duas cidades, também aflorem nesses detalhes. Claro, algumas coisas nunca mudam na capital fluminense _em especial, cariocas brigando na rua aos gritos e começando todas as frases, por mais curtas que sejam, com "olha só" (exemplo: "Olha só: vai se foder!").


    ***
    Antes de me reencontrar, após mais de dois anos da filmagem de "A Volta do Regresso", com Carlo Mossy, aproveitei para ver dois dos muitos filmes em que ele atuou, dos quais conhecia apenas alguns trechos. "A Penúltima Donzela" (1969), um dos três dirigidos por Fernando Amaral (segundo o Mossy, ele morreu ainda nos anos 70, o que eu não sabia) e produzido por Roberto Farias e Paulo Porto, é uma pérola da crônica de costumes, retratando o conflito de gerações no Rio de Janeiro no final dos anos 60: estão lá a resistência à ditadura (bem sutilmente), a revolução sexual (hilária a cena na praia em que um conquistador tenta passar uma conversa numa caipira de Minas citando um texto no qual a Simone de Beauvoir criticaria o casamento, e a moça responde: "Mas ela não é casada com o Sartre?"), o moralismo da família e da igreja católica etc., num mosaico leve, jovem, bem-humorado e com sofisticação acima da média (em alguns momentos soa até pretensioso). Adriana Prieto e Mossy têm uma química tão grande (eles trabalharam também no raro "Soninha Toda Pura", que o próprio Mossy não vê há mais de 30 anos) que o filme esfria quando Paulo Porto entra. Merece uma revisão e um texto mais detalhado _algum dia, talvez. O outro filme visitado é "O Seqüestro" (1981), adaptação de livro de José Louzeiro que apresenta uma teoria inusitada sobre o famoso caso Carlinhos. Assim como o belo tema de Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle, o elenco (Jorge Dória, Milton Moraes, Carlo Mossy, Helena Ramos, Adriano Reys e Otávio Augusto) é ótimo, mas o Victor di Mello me parece um diretor bem canhestro e pouco ousado. Ainda assim, o filme guarda uma cena ótima, bastante tensa e que quebra as expectativas, no final. Mas não é um grande exemplar do cinema policial brasileiro (a curiosidade é a dedicatória a Serpico).

    ***

    Com exceção do "B", de todos os países da tal sigla BRIC, o que eu mais vi retratado no cinema deve ser a Índia _em clássicos como "O Rio Sagrado", "Narciso Negro" e muitos outros até o recente "Viagem a Darjeeling" (este ainda não vi, mas certamente deve ser influenciado pelos antecessores), todos dirigidos por ocidentais. Mas é curioso que eu não me lembre de ter visto algum filme da produção local (Bollywood nunca me chamou a atenção) até chegar a Satyajit Ray. As duas primeiras partes da "Trilogia de Apu" (a terceira eu verei em breve), "Pather Panchali" e "Aparajito" (se não estou errado, os títulos foram traduzidos como "A Canção do Pequeno Caminho" e "O Invencível", respectivamente) me mostraram, pela primeira vez, uma noção da pobreza que havia (e certamente ainda há) naquele país (com o qual o Brasil tem muito em comum, pelo menos neste aspecto). Eu prefiro o primeiro, datado de 1955, mas é interessante notar que o segundo, apesar de conter talvez mais tragédias, é menos deprimente, porque o protagonista passa a tomar as rédeas de sua vida. Em ambos, planos e cenas de muita beleza e simplicidade (destaco a da chuva no primeiro e a dos vaga-lumes, no segundo). Nem mesmo o "India: Matri Bhumi", do Rossellini, tinha me mostrado tão bem o país.

    De volta ao Ocidente, mas ainda com Ray (Nicholas), finalmente consegui ver "Bigger than Life" (1956) _uma sessão interrompida por um problema de som impediu que eu o tivesse visto por inteiro. A semi-revisão desta produção de James Mason estrelada pelo próprio foi decepcionante, embora o filme, que parece convencional na superfície, reflita bem a sociedade norte-americana da época (além de bastante irônico). E me agradou menos ainda o drama de guerra "Bitter Victory", apesar de Richard Burton estar excelente. A sublime trilha sonora de Maurice Leroux engrandece imensamente cenas que, sustentadas apenas pelas imagens, teriam impacto muito menor. O último filme do diretor visto no péríodo foi "Party Girl", no qual a recém-falecida Cyd Charisse não deixa de dançar (otimamente, como de costume, embora os números não sejam tão criativos quanto em outros filmes _mas creio que esta nem era a intenção). Trata-se de um "conto de fadas sujo", esta esta mistura de romance com filme de gângsters. Robert Taylor, mais de 20 anos depois de ser o ótimo galã em "A Dama das Camélias", faz um bom protagonista digno, e Lee J. Cobb, o "bom" vilão de sempre.

    A guerra também foi retratada em várias outras obras do período que passaram à minha frente. Uma delas é "Men in War" (1957), de Anthony Mann, que se passa na recentíssima Guerra da Coréia e é estrelada por Robert Ryan (ótimo, como de costume) e um irreconhecível (velho e gordo) Aldo Ray. Não é nenhum Fuller (o tom é um pouco melodramático demais, chegando a lembrar "Soldado Ryan" aqui e ali), mas tem um início e um final especialmente fortes. Também tem "war" no título a adaptação de King Vidor para "Guerra e Paz", que, apesar de se deixar ver numa boa, é obviamente muito pálido em comparação ao grande romance de Tolstói (embora eu prefira "Ana Karênina"). Falando em Fuller, olha ele aí: "Run of the Arrow", um de seus filmes de que mais gostei (bem, a maioria das obras dele entra nesta categoria) é outro que mereceria um artigo mais substancioso, se eu tivesse tempo (ou seja, se fosse pago para fazê-lo). A Guerra de Secessão deixou um trauma tão grande no protagonista interpretado por Rod Steiger que ele, descendente de irlandeses, praticamente muda de pátria. O filme está repleto de símbolos (mas sem um pingo de frescura), e a ação impactante e de qualidade, típica do diretor, está lá. Tive a clara impressão de que este filme deve bastante a John Ford e a Delmer Daves, e que Peckinpah e, bem, Kevin Costner devem muito a ele. E, antes de fazer a ligação direta com os westerns, vale citar, neste parágrafo dedicado a guerras, "Um Condenado à Morte Escapou", no qual Bresson se vale da mesma prisão em que André Devigny esteve e das mesmas cordas e ganchos usadas na fuga real para, como diz uma inscrição no início, contar uma história sem ornamentos _com exceção da música de Mozart, que confere mais beleza e pretensão à obra.

    Seguindo com Fuller, "Forty Guns" traz algumas idéias já usadas antes em westerns (uma mulher _Barbara Stanwyck_ liderando um bando de foras-da-lei, o trio de irmãos), mas também cria algumas cenas originais e inesquecíveis (como a do tufão e a característica cena de violência do diretor, quando a baderna explode na cidadezinha _um dos momentos de destaque de John Ericson, como Brockie Drummond). As canções (e as fusões) são ótimas. O já citado Anthony Mann contribui com "The Tin Star", outro de seus grandes exemplares do gênero _desta vez, sem James Stewart, mas com Henry Fonda, Anthony Perkins, Lee Van Cleef, John McIntire e Neville Brand. Curioso que este filme é tão bem-construído que acabou ficando mais "certinho" do que o necessário, além de bastante previsível _mas não deixa de ser ótimo por causa disso. Outro que já foi citado, Delmer Daves, traz "3:10 to Yuma", um western mais cerebral do que a média, que consegue não forçar muito a barra ao contar uma incomum história de heroísmo. Van Heflin, um ator muito criticado, está bem como protagonista, e Glenn Ford arrasa como um antagonista "cool", inteligente e simpático _não à toa, o título brasileiro é "Galante e Sanguinário". Henry Jones, Richard Jaeckel e Felicia Farr também se destacam como o bêbado da cidade, o fiel capanga do vilão e o interesse romântico do mesmo (o remake de James Mangold, do ano passado, tem sido bastante elogiado). Fechando este parágrafo, talvez o melhor deles (o páreo é bem duro), "Seven Men from Now", de Budd Boetticher. A canção que o abre diz o que precisamos saber: sete homens têm um destino, o de morrer pelos crimes que cometeram, hohoho. Randolph Scott e Lee Marvin (este em um grande momento, com um personagem fantástico) chutam bundas. Tecnicamente, o filme é perfeito _com destaque para o figurino pouco naturalista. Uma aula de concisão em apenas 78 minutos (especialmente no primeiro e no último duelos a bala), não mostra o que não precisamos ver.

    Ainda nesta linha de concisão, uma outra pequena obra-prima: "Murder by Contract", de Irving Lerner. Curto, simples e sofisticadíssimo _caso de cenas fantásticas em si mesmas (o primeiro ato daria um excelente curta-metragem) belissimamente encadeadas. A personagem de Vince Edwards é incrível. A trilha sonora é excelente. Feito em sete dias, com baixo orçamento, é um desses milagres que acontecem de vez em quando. Mas "While the City Sleeps", de um de meus diretores favoritos (Fritz Lang), não me pegou de jeito e provavelmente precisa ser revisto: após um início empolgante, quebra as expectativas de ser um suspense concentrado e tenso (afinal, ele já tinha feito "M" e não precisava se repetir) e se espalha por vários personagens envolvidos na caça a um serial killer de mulheres _mas, em vez de policiais, são jornalistas. À primeira vista, achei que a complexidade das relações e dos conflitos mina um pouco a força do filme, que parece não ter muito foco. Outra relativa decepção vinda de um mestre é "The Wrong Man", o único filme que Hitchcock fez após a Segunda Guerra que eu ainda não tinha visto. É uma obra estranha, porque, por um lado, concentra várias obsessões temáticas do diretor (o inocente falsamente acusado, o medo da polícia, o cristianismo), mas também adota um estilo muito diverso para retratá-las: é um filme lento, pesado, praticamente kafkiano, e o fato de ser baseado em uma história real (com uma inédita introdução com a voz do diretor) prejudicou razoavelmente a construção de um "filme de Hitchcock". Saem a diversão, as peripécias, o romance, o senso de humor, um certo glamour e mesmo o suspense, e ficam somente a tensão e o clima sombrio de um mundo ruim desabando sobre todos. Certamente é seu filme mais naturalista, daí a falta de espetáculo _que quase vira falta de personalidade. Mais desconcertante é "Ascensor para o Cadafalso", o primeiro filme de ficção de Louis Malle: começa como um romance, depois se torna um thriller de ação e desemboca numa "tragédia de erros". E não tem um ar pretensioso, o que é ótimo. Divertido, pungente e belo _e tem Jeanne Moreau, mas quem rouba a cena mesmo é a estreante Yori Bertin. E, finalmente, um filmaço de Alexander Mackendrick, "Sweet Smell of Success". Um roteiro fenomenal e complexo de Ernest Lehman e Clifford Odets, com diálogos praticamente perfeitos e duas personagens inesquecíveis (além de vários coadjuvantes _com destaque absoluto para Barbara Nichols, a vendedora de cigarros), interpretadas com brilho por Tony Curtis (canalha, desses que vendem a mãe sem remorso) e Burt Lancaster (assustador: parece que ele vai quebrar o seu pescoço com um olhar), como o assessor de imprensa e o colunista de celebridades (uma pragra que infelizmente existe há muito tempo) que tentam separar um jovem casal. Chico Hamilton e seu quinteto fazem uma bela participação.

    Partindo para um tema mais leve (sem trocadilho), revi, com a mesma fascinação de quando o conheci numa das antigas madrugadas da Globo, "O Incrível Homem Que Encolheu". A revisão confirma que se trata de um filme especial. Já seria ótimo se fosse apenas pela originalidade da história, pelo carisma das personagens principais (em especial das belas April Kent e Randy Stuart) e pela gigantesca (sem trocadilho, de novo) qualidade dos efeitos visuais. Mas os minutos finais, com aquele monólogo surpreendente e maravilhoso, de fazer chorar e perder o fôlego, carimbaram esta obra de Jack Arnold para sempre como uma pequena obra-prima da ficção científica. Vale até reproduzir aqui as palavras finais (quem ainda não viu, não leia): "So close - the infinitesimal and the infinite. But suddenly, I knew they were really the two ends of the same concept. The unbelievably small and the unbelievably vast eventually meet - like the closing of a gigantic circle. I looked up, as if somehow I would grasp the heavens. The universe, worlds beyond number, God's silver tapestry spread across the night. And in that moment, I knew the answer to the riddle of the infinite. I had thought in terms of man's own limited dimension. I had presumed upon nature. That existence begins and ends in man's conception, not nature's. And I felt my body dwindling, melting, becoming nothing. My fears melted away. And in their place came acceptance. All this vast majesty of creation, it had to mean something. And then I meant something, too. Yes, smaller than the smallest, I meant something, too. To God, there is no zero. I still exist!"

    Assim como este texto: faltou registrar um famoso episódio feito por Orson Welles para a TV, "The Fountain of Youth" (curioso que acabei de jogar mais um episódio da hilária série "Sam & Max" na qual a mesma aparece). É uma fascinante mistura de narração e imagens estáticas (anos antes de "La Jetée") com o drama mais tradicional (mas com a cenografia despojada da televisão). O enredo, bem previsível, é menos interessante (e mais tradicional) do que a forma, mas é pena que a TV de hoje é ainda muito mais arcaica do que esta obra de 50 anos atrás. Mas como desta vez não vou falar mais de série televisivas (estou terminando a segunda temporada de "Roma" aos poucos), lembro de três comédias: a menos importante é "Silk Stockings", refilmagem musical de Ninotchka. É curioso que Mamoulian (em seu último filme _é também o último musical de Astaire em mais de dez anos), nascido na Rússia, tenha feito este filme em pleno auge da paranóia da Guerra Fria. Não chega aos pés da versão de Lubitsch (na verdade, sequer podemos chamar este filme de comédia _mesmo Peter Lorre não é muito eficiente no gênero; a participação dele em "The Patsy", de Jerry Lewis, também é fraca), mas se torna grande cinema justamente quando registra Fred Astaire e, principalmente, Cyd Charisse (e eu ter visto este filme logo após sua morte foi mera coincidência) fazendo o que faziam melhor: beleza. Palavra que era fundamental para Chaplin, mas que em seu penúltimo filme como diretor e o último em que atua como protagonista, está mais para cronista do que para poeta (a beleza se concentra mais em Dawn Addams). "A King in Nova York" é bastante autobiográfico e (mais) um manifesto político _Chaplin, significativamente, coloca seu discurso humanista e democrático na boca de seu filho Michael. O mundo girou, a Lusitana rodou, e as liberdades individuais na "terra dos bravos e lar dos homens livres" voltam a ser colocadas em segundo plano por medo de (mais) um inimigo. Há também algo da velha comédia física (uma apresentação teatral revive o pastelão e parece homenagear Stan & Ollie), mas os destaques são os ataques à indústria cultural da época: a música, o cinema, a televisão. Chaplin, à beira dos 70 anos, ainda em forma. Mas um grande cronista foi Frank Tashlin, que, em "Will Success Spoil Rock Hunter?" volta a trabalhar com Jayne Mansfield, embora aqui ela esteja em um papel bem mais caricatural do que em "The Girl Can't Help It" (que, no momento, eu prefiro). Os momentos mais engraçados são os irônicos (a destacar as propagandas nos créditos iniciais e o interlúdio para os "fãs da TV"), já que Tony Randall é muito limitado como comediante (mas Mansfield é ótima e compensa) _há também uma participação tão inacreditável e sem-vergonha de Groucho Marx (à época, uma personalidade televisiva) que a princípio eu pensei que fosse um sósia dele!

    E, antes do único filme visto nos cinemas em um tempo (algo que anda quase impossível), aquela parada obrigatória no Japão me trouxe o filme de estréia de Masumura, "Kuchizuke" (cujo título nos EUA é "Kisses"). Curiosamente, ele me lembrou um pouco de "Il Sorpasso", feito alguns anos depois por Dino Risi, que também morreu há pouco, por mostrar a vida jovem no Japão contemporâneo, o que não é muito visto em filmes clássicos do período (Ozu, por exemplo, se fixou mais nos extremos, crianças e idosos, e seus jovens parecem um tanto tradicionalistas). A diferença é que, aqui, um casal se forma, e a maneira como se encontram e o principal dos muitos conflitos que têm de resolver são originais e ricos, com um final satisfatório, bonito e óbvio. Hitomi Nozoe, belíssima, não teve carreira longa no cinema, embora tenha participado de 30 filmes. E, finalmente, "A Questão Humana", de Nicolas Klotz, foi uma decepção: uma história que parecia bem mais interessante acaba tomando um rumo banal, talvez tão banal quando o mal ou a covardia. A princípio, parece quase um musical (a trilha sonora é excelente), mas ele vai se silenciando...

    Quinta-feira, Maio 22, 2008

    Façam um favor a si mesmos e pulem o desabafo que segue (melhor ainda, o texto todo): normalmente, quando vou a um festival ou mostra de curtas (especialmente os brasileiros), acabo mezzo deprimido mezzo revoltado. O nível invariavelmente costuma ser muito baixo, mas as coisas parecem piorar a cada ano. Antigamente, os problemas técnicos (causados em sua maioria pelo baixo orçamento ou pela inexperiência da equipe _que também afetam "A Volta do Regresso") saltavam à vista. Hoje, está cheio de filmes "bem-feitos" (alguns, inclusive, de amigos meus) por aí que são lamentáveis. Por um lado, alguns caem na esparrela de que "o roteiro é supervalorizado" (e aí dá no que dá), enquanto outros se limitam a fazer a novelinha mais safada, toscas tentativas de chantagem emocional para semi-analfabetos _desgraçadamente, ambos os tipos de filmes costumam se dar bem em festivais e com a crítica mais despreparada ou preguiçosa, que insistem em ver "sensibilidade" nessa choradeira toda ou "audácia" nessa regurgitação mal-ajambrada de velhas idéias. Estou simplesmente de saco cheio desse cineminha pouco ambicioso, careta, covarde e bunda-mole. E o pior é que é gente jovem que está cometendo essas aberrações (não sejamos ingênuos: eles querem é grana). Êta geraçãozinha conformada e feliz. Como bem resumiu um personagem de "Senta no Meu, que Eu Entro na Sua", do recém-homenageado Ody Fraga: "Puta que pariu! Estamos fodidos!".

    Sintomático de parte dessa cena horrenda é essa modinha altamente em voga entre os pretensos cineastas de hoje: se os anos 1960 incluiu o que se convencionou chamar de Cinema Novo, os anos 2000 vão acabar marcados como a década que implementou o Cinema Geriátrico (ou Cinema Alzheimer, Cinema Reumatismo, Cinema Osteoporose, não sei qual rótulo vai emplacar). Eu vou acabar dando um tiro nos tímpanos (mas não sei de quem) na próxima vez em que eu vir um filme de velhinho deprimido feito por alguém com 20 e poucos anos! Se eu fosse oportunista, entraria nessa onda lucrativa de fazer festivais mequetrefes com temas politicamente corretos e lançava o "Festival da Melhor Idade". O tema da edição de estréia poderia ser "Incontinência Urinária", com patrocínio da Johnson & Johnson.

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    Recebi um e-mail muito simpático da Cibele Amaral, cujo filme "Enciclopédia do Inusitado e do Irracional" deu o merecido prêmio de melhor ator a Wolney de Assis no 40º Festival de Brasília. Ela escreveu do Recife, onde rolou o Cine-PE, e contou que os curtas estão chatíssimos. Não me surpreende.

    Quem também me escreve é Carlo Mossy, que já passou dos 60 anos, mas está com um projeto muito mais tesudo do que essa molecada mórbida, que nem leu Proust (e talvez nem tenha visto os filmes recentes do Stallone). O título? "Relações MUITO Perversas".

    Ênio Gonçalves, que está em um vídeo bem legal chamado "O Micarias" (um dos raros que vão na contramão da tendência de "filme com velhinho doente e deprimido" _este, sim, poderia ser chamado de "um retrato sensível da terceira idade"), também manda um alô. Mal posso esperar para vê-lo no próximo filme do Carlão.

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    "A Volta do Regresso" vai fazer sua estréia no Rio. Vai passar no Cinesul, mas não na mostra competitiva. Por um lado é bom, porque eu tenho ojeriza a competições desde sempre e não acho que filmes (ou qualquer obra de arte) sejam cavalos de corrida. Por outro, é revoltante (embora esperado) que filmes que eu já vi e que são muito piores (ingênuos e caretas _premiados, entretanto) tenham sido priorizados. A mostra rola daqui a um mês, até lá informo data e local. Mossy não vai perder por nada deste mundo, e Gustavo Engracia, que estará em Belo Horizonte filmando com Luiz Villaça, também falou que vai. Eu farei um esforço.

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    "There's too many of them. I can't kill the world", diz a Deus um brilhante Robert Mitchum, falso moralista em uma "casa de burlesco". Imperfeito, vivo e único, como o filme de Charles Laughton. Datado, porém fundamentado em arquétipos que fazem dele um clássico. A história, em alta velocidade, segue por caminhos nunca óbvios, e toda a ambientação e as interpretações fogem do naturalismo como o diabo da cruz. Falas fantásticas, canções poderosíssimas. Preciso revê-lo para falar mais a respeito, mas posso dizer sem medo de errar (embora entenda que muitos possam estranhar, o que não tem importância alguma) que achei bastante parecido com "A Volta do Regresso". Outra pérola finalmente vista é "Mr. Arkadin", na "comprehensive version" da Criterion: complexo, lotado de personagens interessantes, com um ritmo alucinante e muito senso de humor. As imagens do início são soberbas: uma mulher nua numa praia (a deliciosa Patricia Medina) e um avião voando sem ninguém dão todo sentido a uma narrativa que passa até por uma desesperada busca por um prato de foie gras. A atuação de Orson Welles, como uma personagem "larger than life" e mefistotélica (a cara dele, afinal?), é o óbvio destaque, mas também temos momentos preciosos de Katina Paxinou, Akim Tamiroff e Tamara Shayne.

    Também me impressionou bastante "Kiss Me Deadly", cinema de altíssimo impacto, repleto de personagens secundários muito fortes (como o grego Nick, interpretado pelo grego Nick Dennis, além de um monte de mulheres interessantes: Cloris Leachman, Marian Carr, Gaby Rodgers _pena que não acharam uma Velda mais bonita, Maxine Cooper não está à sua altura). O final, recuperado, é incrível. Outro destaque é "Bad Day at Black Rock", um western comtemporâneo, curto e certeiro. Ambientado no meio do nada e estrelado por um durão Spencer Tracy (Robert Ryan, Lee Marvin e Ernest Borgnine estão entre os vilões _Walter Brennan está quase irreconhecível) é também uma pérola do suspense, desenrolando o novelo dos acontecimentos com sutileza e excelente ritmo. O CinemaScope faz com que planos fechados sejam praticamente abandonados, o que nos distancia das personagens, desinflando o filme _que, mesmo assim, não fica "pequeno". E outro filme de impacto, embora longe de ser tão bom quanto estes, é "The Phenix City Story", de Phil Karlson. Cheio de imperfeições e problemas (com pelo menos um momento digno de filme trash _mas há uma fantástica caricatura de "Gilda"), ainda assim é marcante: apesar de moral, é violentíssimo (a ponto de ser quase insuportável _uma sucessão revoltante de morte, destruição e impunidade) e corretamente pessimista. Infelizmente, não perdeu um pingo da atualidade, pois o que retrata é exatamente o que vivemos hoje, bem aqui no Brasil e, provavelmente, em todos os lugares habitados por humanos: uma sociedade dominada pelo crime e pela brutalidade. Não consigo me lembrar de nenhum filme de terror que seja tão assustador quanto este aqui. A não ser que vocês considerem "Nuit e Brouillard" um filme de terror: a lembrança de toda aquela mortandade é terrível e sempre necessária. Finalizando este bloco meio noir, só falta citar o invulgar e violento "The Big Combo", do grande Joseph H. Lewis, que me fez lembrar da máxima de Hitchcock de que "quanto melhor é o vilão, melhor é o filme": o Mr. Brown de Richard Conte é absolutamente fantástico e protagoniza cenas bastante originais (curiosamente ligadas à audição). Jean Wallace está lindíssima, parece saída de uma HQ de "Spirit" _e ainda temos Lee Van Cleef num papel curioso, o de capanga gay.

    Finalmente coloquei meus olhos diante de "Le Salaire de la Peur", que alguns dizem ser "o melhor filme francês de todos os tempos". Muito longe disso; mesmo assim, não deixa de ser interessante, pela variedade: o início é maravilhoso, apresentando um logradouro na América Latina e seus desocupados habitantes, entre eles Yves Montand (mas com destaque absoluto para a brasileira casada com o diretor, Véra Clouzot, que era filha do Gilberto Amado). Depois da crítica ao capitalismo, ao fim de sua primeira hora, se torna mais convencional e bastante tenso. Curioso que dois personagens se chamam Mario e Luigi, sendo que o Luigi é a cara do Super Mario! Outro clássico que gerou mais admiração do que entusiasmo (talvez porque tenha sido muito imitado) é "Os Sete Samurais" (prefiro "Os 47 Ronin" _não vou nem citar os do Kobayashi, que é covardia). Poderia ser mais curto e menos dispersivo, mas claro que é muito melhor do que o remake do John Sturges. Takashi Shimura volta a segurar bem as pontas como protagonista de um filme de Kurosawa (embora ele esteja bem melhor em "Viver" _um filme também superior), e Toshirô Mifune entra com o contraponto cômico. É interessante como é bastante didático em relação a estratégia militar, mas ao mesmo tempo conclui de modo antibélico _o que é o mínimo que se espera de qualquer filme de guerra.

    Voltei também a "On the Waterfront", que eu tinha visto na Globo, quando criança (e gostado mais). História de redenção claramente de inspiração católica, de um moralismo não-disfarçado, com diálogos muito bons, embora didáticos, que deu a Marlon Brando um de seus papéis mais famosos (John Garfield, Montgomery Clift, Frank Sinatra e até Paul Newman foram considerados). Estréia no cinema de Eva Marie Saint, que há anos trabalhava na TV _o papel tinha sido oferecido antes a Grace Kelly, que felizmente preferiu fazer "Janela Indiscreta", e a Elizabeth Montgomery, que ficaria famosa como "A Feiticeira". Lee J. Cobb e Karl Malden, ótimos, como de costume _a dupla Kazan e Malden voltaria em "Baby Doll", adaptação de duas peças curtas de Tennessee Williams que marca a estréia de Eli Wallach no cinema; mas este é inferior e muito limitado às convenções teatrais, e, embora Carroll Baker esteja bem, o diretor marcou bobeira em não seguir o conselho do dramaturgo e escalar Marilyn Monroe, que hoje conferiria ao filme muito mais interesse. Também moral, sobre o labo bom e o ruim das corporações capitalistas, é "Executive Suite", sustentado pela direção elegante de Robert Wise (embora alguns cortes sejam muito estranhos, e alguns movimentos de câmera, desnecessários) e por um elenco fantástico (Henry Fonda recusou o papel principal), tendo William Holden e Fredric March entre os homens e Barbara Stanwyck e Shelley Winters entre as mulheres (e muitos outros coadjuvantes de renome). A falta de música funciona. E "Crime Wave", de Andre de Toth, pequeno e ótimo policial de baixo orçamento, filmado em menos de duas semanas, em Los Angeles (com muito uso de locações nas externas), e lançado dois anos após ter ficado pronto. Estrelam Sterling Hayden, Gene Nelson (mais conhecido como ator em musicais; também era diretor) e Charles Bronson em um papel pequeno _mas já com falas. O roteiro é muito bom.

    Um filme único que, contra todas as previsões, se destaca no período é "Salt of the Earth", que, em resumo, eu chamaria de "um dos filmes preferidos de Ken Loach" ou algo que o valha _e não apenas porque retrata uma greve. Dirigido por um dos célebres "Dez de Hollywood", Herbert Biberman (que foi preso), e proibido por 11 anos nos EUA (é o único filme americano a entrar na lista negra), foi feito, contra tudo e contra todos (o negativo inclusive teve de ser revelado escondido), com muito sacrifício (como a história, real, que relata) e com dinheiro do sindicato dos mineiros, além de contar com a participação dos mesmos como atores e figurantes (os atores profissionais são poucos, entre eles Rosaura Revueltas _que foi deportada, por causa deste trabalho, como imigrante ilegal, embora seus papéis estivessem em ordem, e nunca mais trabalhou nos EUA_ e Will Geer). Um aspecto bem interessante é a questão sexual colocada no filme: seja de esquerda, de direita ou de centro, o machismo sempre encontra seu espaço.

    Depois de muitos anos, revejo "Artists and Models" e me deparo com um filme extremamente diversificado (e bom em quase tudo a que se propõe): vai de musical, comédia, romance e surpreendentemente desemboca na paranóia da Guerra Fria (não deixa de ser um belo documento de sua época _sobra até para a condenação das histórias em quadrinhos como estimulantes da delinqüência juvenil). Lewis já era um comediante maduro, em pleno domínio de seu corpo e voz. Há uma cena que satiriza "Janela Indiscreta"! Mais fantasioso é "It's Always Fair Weather", o terceiro filme de Stanley Donen e Gene Kelly. Não é tão bom quanto seu antecessor, "Cantando na Chuva", mas não deixa de ser ótimo (apesar de, a princípio, parecer uma bela bobagem), não apenas pela boa história, mas principalmente pela inventividade visual _em especial nos planos em que a tela é dividida em três e nos mostra a passagem dos anos dos três protagonistas ou quando eles, em espaços diferentes, realizam a mesma coreografia e cantam juntos. Como musical em si, não é memorável _quem acaba se destacando é Dolores Gray, que não fez muito cinema. E embora Kelly e outro gênio do musical, Cyd Charisse, não sejam tão bem aproveitados, eles não deixam de brilhar _como é de esperar. Voltando a Tashlin, "The Girl Can't help It", um dos filmes preferidos dos Beatles, está longe de ser seu trabalho mais inspirado (embora traga algumas gags fantásticas, como as das garrafas de leite); mas, como outros do diretor/produtor/roteirista, é exemplarmente contemporâneo ao registrar a mania do rock'n'roll. Jayne Mansfield (que, como no filme, teve 5 filhos _ em três casamentos, antes de morrer jovem, num acidente de carro; ela também falava 5 línguas e tocava piano e violino) está bem melhor (e menos vulgar) do que eu poderia imaginar, e Edmond O'Brien, para variar, arrebenta. Claro que o destaque são as cenas musicais, especialmente as com Little Richard, Eddie Cochran e Julie London (mas Mansfield também não faz feio cantando, embora ela nunca tenha deixado de ser uma sub-Marilyn).

    E como o período é pródigo em westerns, vi uma cacetada deles, tanto que só vou citar os destaques: em "The Far Country", Anthony Mann vai para o norte gelado e abusa dos planos gerais, enquanto James Stewart interpreta o herói antipático e relutante, John McIntire rouba a cena como o vilão (sempre a personagem mais interessante, nos filmes de Mann) e Walter Brennan curiosamente passa em branco (sem trocadilho). "The Indian Fighter", também dirigido por De Toth, é uma produção caprichada de Kirk Douglas, filmada em CinemaScope em belas locações no Oregon, que segue a tendência de não relegar os índios ao papel de cadáveres a cavalo. Walther Matthau e Elsa Martinelli, ambos em início de carreira no cinema, são respectivamente o vilão-ambicioso-e-zé-mané-que-causa-encrenca e a típica índia-gostosíssima-que-não-tem-cara-de-índia; Lon Chaney Jr., Elisha Cook Jr. e Hank Worden também marcam presença. E o scope também brilhantemente usado por Delmer Daves em "The Last Wagon", repleto de planos abertos belíssimos (lembram pinturas luministas), e os movimentos de câmera são pertinentes e elegantes (só implico mesmo com as noites americanas). Richard Widmark (que está a cara do Klaus Kinski) não apenas estrela, como carrega o filme nas costas, que passa voando, longe de clichês. Outro destaque é Stephanie Griffin, lindíssima.

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    Deixar os anos 1950 para trás (como isto aqui está grande demais, estou deixando de citar filmes de George Sidney, Howard Hawks, George Cukor, Fritz Lang, Nicholas Ray e Michelangelo Antonioni) e vir para a atualidade é como ir do guaraná para o suor de um lutador de sumô: os únicos filmes recentes que vi foram os três "Piratas do Caribe", já que a caixa de DVDs apareceu em casa. No geral, é uma grande bobagem, o que não significa necessariamente uma coisa ruim. O segredo está no senso de humor, basicamente concentrado em Johnny Depp (no geral, o elenco é bom); a apresentação de sua personagem no primeiro filme é brilhante _mas, também, copiando Buster Keaton, é difícil não sair algo minimamente bom. Muitos trechos, especialmente dos dois primeiros filmes, me lembram dos Trapalhões da safra J. B. Tanko (e isto é um tremendo elogio). A atuação de Geoffrey Rush no primeiro filme talvez seja a melhor de sua carreira (pelo menos, até onde eu vi). O segundo filme, em especial, ganha muito com o nonsense: é justamente nos momentos de mais palhaçada que o filme fica interessante, a destacar as cenas da jaula de ossos, a da roda do moinho e a de Jack Sparrow fugindo dos canibais amarrado a um pau _em suma, quanto mais ridículo, melhor. Outro destaque novamente vai para o vilão: Bill Nighy está excelente como Davy Jones, cuja animação por computador é impressionante (as cenas com o kraken também funcionam); outra adição interessantíssima é Naomie Harris, como Tia Dalma. O terceiro filme é de longe o pior, o que não surpreende: após a palhaçada, algo mais "sério" e sombrio teria de vir, com a morte de vários personagens e a mais do que manjada guerra (com direito a discurso e tudo). É o mais confuso dos três filmes, o que menos dá vontade de seguir a história _como se não bastasse, é o mais longo. E o final é razoavelmente previsível, com uma exceção. O grande ponto alto (já que a participação de Keith Richards, embora não seja ruim, não é excepcional) é mesmo a criação de planos visualmente bastante complexos, do ponto de vista da computação gráfica. Em resumo, é a recuperação de um gênero rico e que deu uma boa sumida e claramente um projeto infantil (não à toda traz a marca da Disney), que deve funcionar muito bem para meninos de 8 a 10 anos.

    Séries: por causa de uma caixa de DVDs picareta, tive de iniciar a segunda de "Prison Break" sem ter visto os oito últimos episódios da primeira (ou seja, não sei exatamente como eles escaparam); também demorou um bom tempo até eu me lembrar de várias personagens que não haviam sido tão marcantes. Tirando estes problemas, o show é bom no que se propõe: ação e tensão quase ininterrupta, com ganchos espalhados praticamente por qualquer pausa para os comerciais. Um belo elenco, personagens cativantes (minhas preferidas são o T-Bag de Robert Knepper, o Mahone de William Fichtner, o Patoshik de Silas Weir Mitchell e o Paul Kellerman de Paul Adelstein) e não muito maniqueístas e uma história que não tem muito peso garantem a viagem. E depois de muitos anos voltei às sitcoms, revendo a primeira temporada de "That 70's Show" (difícil acreditar que já se passaram dez anos). Dada a distância no tempo, tinha tudo para parecer uma bobagem, mas é muito acima da média _praticamente todas as personagens são perfeitas, porque arquetípicas; mas faz falta o Leo de Tommy Chong (embora as divertidíssimas cenas de roda de fumo estejam lá desde o começo _só demora um pouco para o Red Forman de Kurtwood Smith começar a chamar o Eric de Topher Grace de "dumb ass"). Também é impressionante como ela lançou vários jovens atores hoje famosos _e a deliciosa Laura Prepon, por quem eu tinha a maior tara há dez anos (mas, também, o meu fraco por ruivas é notório).

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    "O verdadeiro perdedor é aquele que, na última hora, olhando para trás, vai ter a impressão de que desperdiçou a sua corrida. O que ele acumulou, tudo isso me parece bastante acessório. Para mim, o perdedor é aquele que não conseguiu viver sua vida com toda a intensidade que ela merece. O que não tem nada a ver com felicidade. O projeto de sermos felizes é profundamente errado, concebido para nos manter na insatisfação, o que é absolutamente necessário na sociedade de consumo. O ganhador é quem teve uma alta qualidade de experiência, seja qual for, que tenha sido intensamente. A felicidade, eu sou contra. Sexo não é felicidade, é alegria."

    Uma das coisas que eu menos gostava de fazer, quando trabalhava na Ilustrada, era editar os textos do Contardo Calligaris (preferia os do Marcelo Coelho, os únicos que vinham sem título _e eu sempre colocava os de maior impacto possível_, e os do Cony _que, infelizmente, tinha os palavrões censurados). Nada contra os textos em si, o problema era o excesso de erros _compreensíveis, já que se trata de um estrangeiro. Eram tantos (dezenas) que eu trapaceava e levava para a consultora de português, Thaís Nicoleti de Camargo (a quem eu assitia no "Vestibulando", quando estava naquela parte chata da vida), corrigir para mim. Mas este trecho de uma entrevista dele corrobora o que penso há muito tempo; é a minha atitude diante da vida.

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    Last, but not least ou "fechando com chave de ouro": estava devendo aqui uma pequena homenagem a Plácido de Campos Junior. Além de me incentivar muito a filmar um outro roteiro que escrevi, chamado "Gato Preto" (do qual ele gostava mais do que eu), foi ele quem fez a melhor crítica de "A Volta do Regresso", resumindo o filme a uma palavra que, também na minha opinião, lhe cai como uma luva: "humano". Ele faz uma pequena participação (na verdade, é a primeira pessoa que aparece), declamando um trecho de "Hamlet", usando uma coroa de papel e um manto feito com um saco de café (abaixo, uma foto de "making of"). Ficam registrados aqui minha gratidão, meu carinho e minha admiração por ele, além da honra de tê-lo para sempre em meu pequeno filme.


    Segunda-feira, Abril 14, 2008

    6 anos na tela

    Lembram do que um tobogã disse para o outro? Pois é. Quanto eu tinha a idade deste blog, eu começava a escrever (dois anos depois, publicava meu primeiro texto em livro). E escrever (embora sem preocupação com a qualidade do texto) para este espaço, por mais esporadicamente que isto ocorra, devido a muitos outros compromissos, tem sido interessante não apenas pelo estímulo a uma crescente formação de repertório, mas principalmente pelo convívio com colegas; poder trocar experiências e aprender é fundamental, e é esta a razão pela qual esta página tem sido atualizada, desde 14 de abril de 2002 (talvez seja o primeiro blog em língua portuguesa a tratar exclusivamente de cinema _pelo menos, nunca ouvi falar de algum mais antigo; se alguém conhece, por favor, me avise). Agradeço a todos os que participaram e participam.

    Falando em formação de repertório (e também para não deixar a data passar muito em branco), a seguir faço algo que detesto, mas que é muito popular entre blogueiros: uma lista. Minha encrenca com as listas é não gostar de fazê-las (não vejo prazer algum neste exercício) e sempre ficar insatisfeito com o resultado, efêmero demais. Mas as listas alheias são sempre interessantes, especialmente se trazem filmes ainda desconhecidos _é sempre um estímulo. E eu sempre esperei que este site fosse justamente isso: um estímulo para que outras pessoas descobrissem filmes e aumentassem o seu amor pelo cinema (há quem reclame que eu só fale agora de filmes antigos e de diretores "desconhecidos"; não entendo o motivo da reclamação).

    A lista a seguir é apenas uma relação solta (mas em ordem cronológica, concentrada especialmente entre as décadas de 1910 e o início da de 1950) de alguns dos melhores filmes (as menções honrosas vão para filmes excelentes e imperdíveis; as obras-primas...) que andei vendo (ou revendo) nos últimos meses; não são os "melhores filmes de todos os tempos" nem necessariamente os meus preferidos (e muitos poderiam entrar ou sair da lista, em caso de revisão _e deixei muita coisa muito boa de fora, além de ter colocado alguns que devem ser considerados, oh, "polêmicos"). É apenas um modo de recordar o que tenho visto de bom ultimamente (e para quem quiser saber os títulos em português, recomendo o Google). "A Volta do Regresso" é hors-concours, claro.

    Obras-primas:
    Die Puppe (Lubitsch, 1919)
    Der Müde Tod (Lang, 1921)
    Sherlock Jr. (Keaton, 1924)
    The Iron Horse (Ford, 1924)
    Dura Lex (Kulechov, 1926)
    Napoléon (Gance, 1927)
    Arsenal (Dovzhenko, 1928)
    The Crowd (Vidor, 1928)
    Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Mamoulian, 1931)
    M (Lang, 1931)
    Otona no Miru Ehon - Umarete wa Mita Keredo (Ozu, 1932)
    Design for Living (Lubitsch, 1933)
    The 39 Steps (Hitchcock,1935)
    Modern Times (Chaplin, 1936)
    The Shop Around the Corner (Lubitsch, 1940)
    Saboteur (Hitchcock, 1942)
    Meshes of the Afternoon (Deren, 1943)
    The Seventh Victim (Robson, 1943)
    Vredens Dag (Dreyer, 1943)
    Phantom Lady (Siodmak, 1944)
    A Matter of Life and Death (Powell & Pressburger, 1946)
    Fort Apache (Ford, 1948)
    Begone Dull Care (McLaren, 1949)
    Francesco, Giullare di Dio (Rossellini, 1950)
    Europa '51 (Rossellini, 1952)
    Pickup on South Street (Fuller, 1953)
    The Searchers (Ford, 1956)
    Popiól i Diament (Wajda, 1958)
    Shadows (Cassavetes, 1959)
    La Jetée (Marker, 1962)
    Ride the High Country (Peckinpah,1962)
    Il Gattopardo (Visconti, 1963)
    The Nutty Professor (Lewis, 1963)
    Yûkoku (Mishima, 1966)
    Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (Marins, 1967)
    Os Deuses e os Mortos (Guerra, 1970)
    El Espíritu de la Colmena (Erice, 1973)
    Pat Garrett & Billy the Kid (Peckinpah, 1973)
    Scener ur ett Äktenskap (Bergman, 1973)
    Bring Me the Head of Alfredo Garcia (Peckinpah, 1974)
    The Killing of a Chinese Bookie (Cassavetes, 1976)
    Os Canibais (Oliveira, 1988)
    Olhos de Vampa (Rogério, 1996)
    The Blair Witch Project (Myrick & Sánchez, 1999)
    Belle Toujours (Oliveira, 2006)

    Menções honrosas:
    The Musketeers of Pig Alley (Griffith, 1912)
    Prästänkan (Dreyer, 1920)
    Cops (Keaton, 1922)
    The Thief of Bagdad (Walsh, 1924)
    Shakhmatnaya Goryachka (Pudovkin, 1925)
    It (Badger,1927)
    Wings (Wellman, 1927)
    La Petite Marchande d'Allumettes (Renoir, 1928)
    The Wind (Sjöström,1928)
    Hallelujah! (Vidor, 1929)
    The Love Parade (Lubitsch, 1929)
    Dishonored (Sternberg, 1931)
    La Chienne (Renoir, 1931)
    The Public Enemy (Wellman, 1931)
    Love Me Tonight (Mamoulian, 1932)
    Zéro de Conduite: Jeunes Diables au Collège (Vigo, 1933)
    The Lost Patrol (Ford, 1934)
    Camille (Cukor, 1936)
    Man Hunt (Lang, 1941)
    The Strawberry Blonde (Walsh, 1941)
    The Leopard Man (Tourneur, 1943)
    The Ox-Bow Incident (Wellman, 1943)
    This Land Is Mine (Renoir, 1943)
    At Land (Deren, 1944)
    The Woman in the Window (Lang, 1944)
    Scarlet Street (Lang, 1945)
    Duel in the Sun (Vidor, 1946)
    My Darling Clementine (Ford, 1946)
    The Big Sleep (Hawks, 1946)
    L'École des Facteurs (Tati, 1947)
    Odd Man Out (Reed, 1947)
    Force of Evil (Polonsky, 1948)
    Portrait of Jennie (Dieterle, 1948)
    She Wore a Yellow Ribbon (Ford, 1949)
    Thieves' Highway (Dassin, 1949)
    White Heat (Walsh, 1949)
    Stage Fright (Hitchcock, 1950)
    Stars in My Crown (Tourneur, 1950)
    Wagon Master (Ford, 1950)
    Miracolo a Milano (De Sica, 1951)
    The River (Renoir, 1951)
    Angel Face (Preminger, 1952)
    The Marrying Kind (Cukor, 1952)
    The Big Heat (Lang, 1953)
    A Star Is Born (Cukor, 1954)
    Track of the Cat (Wellman, 1954)
    Les Yeaux Sans Visage (Franju, 1960)
    The Bellboy (Lewis, 1960)
    The Deadly Companions (Peckinpah, 1961)
    Shock Corridor (Fuller, 1963)
    Lorna (Meyer, 1964)
    The Naked Kiss (Fuller, 1964)
    Jôi-uchi: Hairyô Tsuma Shimatsu (Kobayashi, 1967)
    Jag Är Nyfiken - En Film i Blått (Sjöman, 1968)
    Ritual dos Sádicos (O Despertar da Besta) (Marins, 1970)
    Finis Hominis (Marins, 1971)
    Ludwig (Visconti, 1972)
    Up! (Meyer, 1976)
    Opening Night (Cassavetes, 1977)
    Beneath the Valley of the Ultra-Vixens (Meyer, 1979)
    Out of the Blue (Hopper, 1980)
    Superman III (Lester, 1983)
    Phenomena (Argento, 1985)
    Superstar - The Karen Carpenter Story (Haynes, 1987)
    Topâzu (Murakami, 1992)
    Heat (Mann, 1995)
    Rushmore (Anderson, 1998)
    Ôdishon (Miike, 1999)
    La Ciénaga (Martel, 2001)
    The Brown Bunny (2003)
    A History of Violence (Cronenberg, 2005)
    Mary (Ferrara, 2005)
    Ne Touchez Pas la Hache (Rivette, 2007)

    Na platéia