Os troikos apresentaram o velho programa do seu novo governo. Os baldroikos oscilaram entre a sensatez de Maria de Belém Roseira e a desfaçatez dos aspirantes a substituir o Coiso. O tiroliroliro Asiss fala de injustiça. O tiroliroló Seguro está chocado. Já deviam saber que o destino dos indignados é acampar. Se possível, para os lados da Subornne (o meu francês não está grande coisa). Em Paris. Diz-se que o Coiso vai para lá estudar com uma bolsa. A nossa. Enquanto os cães ladram, a caravana atasca-se. Voltando ao balde de água fria, o debate do velho programa do novo governo trouxe coisas realmente extraordinárias. O imposto arremessado sobre o subsídio de natal constitui um momento importante que importa sublinhar. Desde logo, diz que é único. Justiça lhe seja feita, que não engana ninguém. Em 2012 já não haverá subsídio de natal sobre o qual lançar imposto. Graças ao imposto e a outros carnavais, hoje é o dia em que a classe média portuguesa acaba e entra definitivamente nas trevas da idade média. Nestas coisas há sempre aspectos positivos. Na classe média, acabaram os casamentos por interesse. Estes recém-empobrecidos farão o que sempre fizeram os velhos pobres. Na falta de dinheiro, resta-lhes unirem-se por amor. Outro aspecto de relevo é consagração do princípio do pagador pagador. Pagaremos impostos como se não houvesse amanhã. E amanhã pagaremos taxas demolidoras por todos os serviços que o Estado nos for obrigado a emprestar. O debate revelou ainda que fizemos uma boa opção nas eleições de 5 de Junho. Esta gente é mais séria. Falo sem ponta de ironia. Estes serão capazes de dizer as mentiras necessárias olhos nos olhos. Já não é pouca coisa. E o ministro das finanças, com a sua voz compassada, é o homem ideal para fazer o elogio fúnebre do país. Sim, porque importa dizê-lo. O desfecho final de tudo isto será um de vários. É, temos alternativas. É escolher entre defaults, reestruturações de dívida, saída do Euro e desvalorização da moeda, corte drástico nos salários ou sermos adoptados e subsidiados eternamente pela mãe Europa (em alemão adopção diz-se eurobonds). Uma palavra ainda para a versão portuguesa do e-coli. É um Bacílio. Horta. E uma alusão incontornável ao par de botas. São de defunto. Mas, morremos sem as ditas calçadas. Já as tínhamos hipotecado ao BES.
Estais aflitos? Sem saber o que fazer? Onde cortar? Como poupar? Descansai que o irmão José António Saraiva tem a solução para tão grandes males. Por exemplo, eu que sou rapariga de grandes luxos vou imediatamente adaptar tão sábias considerações à minha vidinha de cortes e recortes e pôr em prática esta pérola: “A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4”. Ora aí está, logo agora que com o meu chorudo subsídio de Natal tencionava adquirir esse tal de Mercedes E, irei humilhar-me a um modestíssimo Mercedes C. Uma maçada. Já em relação aos hotéis em viagem deixar-me-ei de "escolher às cegas um de cinco" estrelas. Sim, a felicidade é possível num de três ou quatro estrelas. Imagine-se. Soubesse eu de tão preciosos conselhos e teria prescindido do Moët & Chandon no dia do meu aniversário há cerca de duas semanas, já para não falar da água Vittel, Vichy ou Voss com que costumo mandar a empregada dar banho às quatro gatas cá de casa. O meu problema está mesmo na depilação, já que a proposta é que em cada cinco visitas à esteticista ou lá como lhe chamam nesses sítios da moda se reduza uma. Contudo, obstarei a este busílis recorrendo a uma técnica que foi sugerida no Facebook a propósito destas pérolas: chamuscar-me-ei nessa vez, mas com o maçarico de queimar o leite-creme para não perder o estilo. Barato e eficaz. De chamuscada não passo.
Se já soube do imposto extraordinário sobre o subsídio de natal e a sua esmerada educação, tal como a minha, não lhe permite berrar palavrões e contar até dez também não ajuda, faça como eu. Experimente dizer o nome do novo reforço do Sporting várias vezes seguidas: Oguchialu Chijioke Goma Lambu Onyewu. Depois de algumas repetições, vai ver que não cura, mas alivia. Convenhamos que é uma merda de um nome difícil de pronunciar pra cara..cóis, não é?
O «abraço à beira-praia» que o Joshua já muito bem registou aqui no seu estimável Palavrossavrvs Rex é um abraço de suma importância, pelo cenário e pelo encontro. O cenário é a Madalena, região demarcada de Gaia, e o encontro é o de dois bloggers, que só se falavam de post em post.
Não há dúvida de que a blogosfera aperta. Foi um gosto, Joaquim.
Com o imposto extraordinário de 50% hoje anunciado por Passos Coelho, poderíamos ser levados a dizer que o copo do subsídio de natal fica meio-cheio ou meio-vazio. O problema é que já não temos copo.
Quando se passa meia vida no PSD e um dia se quer bater o pé, o melhor é pedir primeiro explicações ao Pacheco Pereira, que tem grande estaleca a trabalhar com os pés.
Sim, que andar a oferecer bombons ao adversário é uma ideia de que o Pacheco Pereira nunca se lembraria. Bate-se o pé, rompe-se uma sola, mas mais nada além disso. Menos ainda ensaiar aproximações ao adversário, que é atitude própria de um valentíssimo saloio.
Qualquer mimo oferecido ao adversário há-de sair caro e acabar mal. Tão caro e tão mal que depois é melhor nem ver o resultado.
por José Maria Gui Pimentel | 30.06.11
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A perda de expressão eleitoral do Bloco de Esquerda (BE) é, sem dúvida, um fenómeno intrigante. Os motivos invocados são variados, porém, creio, provêm de uma matriz única. Julgo que o principal problema do BE não deriva da natureza das posições tomadas, mas sim do simples facto de as ter tomado. O BE é, desde o início, um partido de protesto, mais do que o PCP e, contrariamente a este, com um eleitorado muito volátil. Os seus eleitores foram mal habituados desde o início – numa estratégia numa primeira fase muito proveitosa – a ouvir apenas críticas ao sistema, as quais, como se sabe, juntam. Das propostas e tomadas de posições, que, como se sabe, cindem, pouco se ouviu ao longo da primeira longa frase da vida do BE.
Nos últimos dois anos, Louçã – numa atitude inicial que elogio – tentou dar início a uma segunda fase no partido, sob uma legitima ambição de tornar o BE num partido normal. Louçã percebeu que um partido de protesto tinha um potencial de crescimento limitado. Porém, não compreendeu que a conduta passada do partido impossibilitava esse caminho. O apoio à candidatura de Manuel Alegre era – concorde-se ou não – perfeitamente racional dentro da lógica de um partido da “esquerda grande”, que almeja disputar a ala esquerda do PS. Todavia, sendo uma tomada de posição, divide o eleitorado. Foi o que sucedeu. Tivesse o percurso do BE sido distinto e o afastamento do eleitorado de protesto seria compensado pela atracção do eleitorado dito normal. Todavia, como se sabe, tal não se verificou. Posto isto, Louçã assustou-se, e aqui é caso para dizer que foi bem pior a emenda que o soneto. Numa tentativa de recuperar o eleitorado de protesto, o BE lançou uma patética moção de censura ao Governo e, não contente, juntou-se (num acto de ingenuidade espantosa) ao PCP recusando-se a reunir com a Troika (uma posição que nem a CGTP tomou). Este golpe de teatro, não só não logrou reconquistar o eleitorado perdido como afastou o eleitorado mais moderado, da ala esquerda socialista, que votava BE a pensar que poderia residir ali a verdadeira social-democracia. Esta triste história mostra que o BE se condenou conscientemente a nunca passar de um partido de protesto. De resto, este não é o primeiro episódio: veja-se o episódio Sá Fernandes na Câmara de Lisboa.
No entanto, creio ter havido dois factores suplementares responsáveis pela perda de expressão eleitoral do BE.
O voto no BE, talvez mais do que um protesto contra as condições económicas, representou sempre um protesto social, muito ligado às questões de costumes. Ora, neste aspecto, Sócrates conseguiu inutilizar duas das principais bandeiras do BE: o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa manobra, associada à crise económica, fez os dirigentes do BE, provavelmente sem consciência de que o faziam, centrar o seu discurso nas questões económicas, tornando-se num partido bastante menos cool e, sobretudo, muito parecido com o PCP. Este factor, juntamente com o radicalismo pós presidenciais, terá ditado a fuga de muitos eleitores para o PS.
O segundo factor a considerar é bastante menos óbvio: o BE deverá ter perdido algum (se bem que pouco) eleitorado para o PSD. Esta interessante entrevista do Pedro Magalhães (PM) tem uma frase inesperada que o justifica: “(…) quando perguntamos às pessoas sobre o peso específico do Estado na economia. Qual é o eleitorado mais liberal? Espantosamente, é o do Bloco de Esquerda (…). É uma coisa muito curiosa porque mostra que, quando Louçã fala de economia, pura e simplesmente nem estão a ouvir o que ele diz.”. As posições economicamente liberais tomadas pelo PSD, associadas à substituição de uma Manuela Ferreira Leite conservadora por um Pedro Passos Coelho progressista (embora essa faceta possa ter sido posta em causa pelo episódio do aborto durante a campanha) terão, assim, atraído algum eleitorado do BE para o PSD.
O Mónaco é patético a diversos níveis. É desde logo, com duas ou três excepções (o «Rochedo» e a praça do Casino e do Hotel de Paris, por exemplo), feio. É, depois, um sítio de ostentação muito para lá da fronteira do ridículo. E, lamento, não são as pessoas que têm muito dinheiro as mais ridículas. As que se aperaltam para ficar junto à porta do casino vendo outras entrar ou as que alugam Ferraris ou Porsches descapotáveis (interessados podem dirigir-se aqui ou aqui) para dar voltas ao principado a quarenta à hora, acelerando apenas ligeiramente à entrada do túnel sob o hotel Fairmont porque os Fórmula 1 também o fazem e o eco torna o ruído dos motores mais impressionante, estas sim, são dignas de pena ou então de servirem de inspiração a um conjunto de contos mostrando as fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano.
Mas o Mónaco é ridículo precisamente por viver das fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano. O Mónaco depende da imagem de glamour. Para a manter, atrai os muito ricos com um sistema fiscal que não taxa o rendimento (excepto o dos franceses residentes no principado há menos de cinco anos e o das empresas que obtenham os seus proveitos a partir de patentes e direitos intelectuais). Mas será eticamente aceitável permitir que os muito ricos fujam a um mínimo de responsabilidade para com a comunidade? Desde logo, a comunidade local, do próprio Mónaco: um sistema fiscal que não taxa os rendimentos é um sistema que não redistribui ou, para ser mais preciso, que o faz apenas na medida em que, ao consumirem produtos mais caros, os muito ricos pagam mais IVA. O Mónaco tem assim um sistema fiscal que não se preocupa com a redistribuição (e valerá a pena salientar que nem toda a gente no Mónaco é rica mas provavelmente também não convém que seja: afinal, nos hotéis alguém tem que estacionar os Ferraris e limpar os quartos). Mas pior: trata-se de um sistema fiscal que, ao sugar recursos de outros países, também nestes prejudica a redistribuição de rendimentos. Para quem como eu considera que o IRS é o único imposto verdadeiramente justo (além de, por norma, ser progressivo, tudo o resto – incluindo outros impostos – é pago com o que resta depois de retirar o IRS), este sistema é obsceno. Mas para o Mónaco é fundamental: sem a publicidade gratuita que os meios de comunicação social lhe fazem ao referir que o actor X e a tenista Y vivem lá e ao mostrar imagens do casino (onde as pessoas parecem estar sempre à espera de ver Bond, esse ícone do prazer, do bom gosto e até da cultura geral, apesar de nunca se ver a ler um livro), dos carros de alta cilindrada e da vida dos príncipes (não se esqueçam de que o casamento é este fim-de-semana!), o Mónaco correria o risco de perder o encanto. As pessoas 'normais' poderiam aperceber-se da fealdade dos prédios. Poderiam deixar de ir para a frente do casino na esperança de ver gente rica e famosa. Poderiam reparar que a relação preço-qualidade de muitos restaurantes e hotéis é discutível. Poderiam chegar à conclusão de que quase todas as povoações das redondezas são mais interessantes (Nice, por exemplo, a meros vinte quilómetros, é, na sua mistura de beleza arquitectónica e paisagística, zonas históricas e modernas, vida normal e turismo, incomparavelmente mais agradável). Felizmente para o Mónaco, gente com muito dinheiro quererá sempre fugir aos impostos e gente com algum dinheiro desejará sempre visitar o sítio onde as pessoas famosas vivem (pelo menos oficialmente) e o luxo parece imperar. Ainda que alguns Bentleys e Aston Martins possam estar estacionados junto aos hotéis porque os próprios hotéis lá os colocaram.
Só agora vi a tomada de posse dos secretários de Estado. Cerimónia um bocado cinzenta, vagamente Estado Novo. Vários boys, ao contrário do prometido. Lista a dar a ideia de que foi completada mesmo sobre a hora. E a estrutura nalguns casos incompreensível, a parecer desenhada por um bêbado.
por José Maria Gui Pimentel | 29.06.11
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Os dirigentes das duas televisões privadas (quem diria) queixam-se da entrada da RTP 1 no mercado, sob o argumento de que “não há espaço” para um terceiro canal privado, o qual fará repartir o bolo das receitas publicitárias, já de si diminuto, por mais um conviva. Isto porque a RTP 1 não compete livremente com os outros canais, uma vez que está limitada pelas regras a intervalos de 7 minutos.
Não o manifestando abertamente, estes dirigentes estão, se bem percebo, a defender que a RTP 1 permaneça na esfera estatal não porque o considerem do interesse público, mas sim por interesse próprio, porque não querem perder espaço no mercado. Trocado por miúdos, o argumento é o seguinte: os senhores não querem ter de repartir o mercado com a RTP 1 e, por conseguinte, defendem que o contribuinte deverá continuar a financiar os prejuízos da televisão pública. Mas, claro, dito assim não soava tão bem nas televisões.
O facto de ser necessário recorrer a este argumento falacioso demonstra, já de si, um reconhecimento implícito da bondade da medida. Com efeito, nada na programação da RTP 1 justifica que o canal continue a ser financiado pelos contribuintes (ao contrário do que sucede com a RTP 2).
Convencionou-se de tal maneira a "ponte" que liga os feriados mais convenientes ao fim-de-semana que, pelos vistos, ideias destas não fazem confusão a ninguém. Enfim, é uma medida para inglês ver - ou melhor, para alemão ver (alguém actualize o ditado, se faz favor). De uma penada, faz-se de conta que quando os feriados calham à terça ou à quinta o Governo é "obrigado" a dar a ponte de segunda ou de sexta, e coloca-se de lado a lógica subjacente ao próprio conceito de feriado. O que não deixa de ser interessante: por um lado, e com esta medida em prática, o Natal passa de facto a ser quando o Homem quiser (desde que queira entre 23 e 27 de Dezembro); por outro, vai ser divertido ver o velho slogan "25 de Abril, sempre!" quando o feriado for encostado a 24 ou a 26.
Faz-nos falta mais gente sábia a escrever em jornais, gente que consiga ultrapassar a espuma dos dias. Gente como Victor Cunha Rego, que partiu demasiado cedo e deixou um lugar insubstituível. Releio, um pouco ao acaso, a coluna que publicou no DN de 3 de Setembro de 1998. Rematava assim: «Se os dividendos fossem mais bem vistos e apreciados do que as mais-valias - de Chicago a Lisboa -, esse facto também ajudaria a sustentar as bolsas, embora não as inchasse de lucro fácil."
Repito a data: 3 de Setembro de 1998. Olhar para além da espuma dos dias é isto: um texto escrito há 13 anos e mais actual do que muitos de hoje.
Jorge Jesus declarou em comunicado que pagou ao fisco 119.000€ (cento e dezanove mil euros) que não devia. As razões que invoca são o reconhecimento ao Vitória de Setúbal, a relação emocional do pai com o clube e a possibilidade de delongas processuais afectarem o seu bom nome. Este é um assunto sobre o qual ninguém lhe perguntou nada, pelo que não era sequer necessário apresentar explicações. E, convenhamos, para dizer o que disse, mais valia estar calado. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que se pague tal valor quando nada se deve e que se assuma tal decisão pelas razões invocadas? Eu, por mim, já sei como vou financiar as próximas férias, o automóvel novo e o apartamento na praia. Uma acçãozinha judicial contra Jorge Jesus, com algum motivo estapafúrdio (a cor do cabelo parece-me um bom começo), e resta esperar que o instinto de preservação do bom nome do JJ faça o resto. Depois, mando notícias a partir do meu novo Ipad, está bem?
José Blanco é o Ministro Espanhol do Fomento. Para simplificar, pode dizer-se que é o irresponsável local pelas obras públicas faraónicas e pelas parcerias impúdico-privadas de nuestros hermanos. Mal comparado, um maluquinho dos comboios como o nosso Mendonça. Ao que parece, ficou muito incomodado com a suspensão do TGV. Pelo visto, o Ministro Blanco também estava entusiasmado com a possibilidade de utilizar o TGV para ir a banhos na Caparica. É claro que talvez não fosse pior que o Ministro Blanco se entretivesse com questões como o número de passageiros de alguns troços do TGV em Espanha. A utilização média diária atingiu os 9 passageiros, circunstância que, naturalmente, obrigou ao encerramento do serviço. Ou com o aeroporto de Castellon que, à falta de aviões, será utilizado como ponto de partida de uma etapa da Volta a Espanha. É que nós por cá já temos com que nos entreter com os estádios do Euro, os 7 passageiros semanais do aeroporto de Beja e os 150 milhões de euros que o consórcio ELOS se prepara para pedir ao Estado como indemnização pela suspensão do TGV. Entre outros legados da mesma espécie. Por isso, e atendendo a que estamos no início da época estival, penso que José Blanco devia ir passear. À falta de TGV que o leve à Caparica, sugiro-lhe uma outra praia, bem mais próxima de Madrid. E, na falta de comboio de alta velocidade, recomendo uma voltinha no teleférico da Penha, em Guimarães. É uma espécie de TGV. Suspenso.
Numa altura em que o actual presidente e um ex-presidente comentaram a situação da Grécia recorda-se, sem qualquer intenção de concordância ou discordância, o que dizia Eça de Queiroz em 1872:
"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa –citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."
Ou então, Adolfo, os livros podiam referir logo no início as condições ideais para serem lidos. Como Parece Mesmo o Paraíso, de John Cheever, que folheei numa livraria mas devolvi à estante após ler a primeira frase: «Esta é uma história para se ler na cama, numa casa velha, numa noite de chuva.»
Estou de volta (estejam à vontade para festejar porque, por muito que goste de vocês – especialmente de ti; sim, tu, com o Toshiba cor-de-rosa –, não serei eu a fazê-lo). Tendo rabiscado umas quantas notas que não cheguei a publicar, vou desfazer-me delas durante os próximos dias. Depois talvez comece a prestar atenção ao novo governo. Ou não: estados de graça não combinam comigo.
Não me perguntem porquê mas o Matterhorn fascina-me. Há um ano passei uma semana e tal na Suíça mas não tive oportunidade de chegar tão a Sul. Por isso este ano conduzi de Milão até Zermatt, passando pelo lago Como, pelo Ticino e pelo vale de Domodossola, em grande medida para o ver. A minha opinião sobre a Suíça continua a ser extremamente positiva e não, o Federer nada tem a ver com o assunto – ou talvez apenas um pouco mas não mais do que o chocolate. A circunstância de ter nascido junto ao sopé da Serra da Estrela poderá ser mais relevante (acredito que há uma espécie de genética do local de nascença) mas, acima de tudo, gosto na Suíça da mistura de natureza agreste com civilização. E do facto de as temperaturas raramente atingirem valores excessivos (o meu cérebro entra em default quando os termómetros sobem dos vinte e cinco graus). Claro que em férias também não convém que esteja muito frio nem que chova nem que a paisagem se encontre por trás de um manto de neblina. Felizmente, apanhei um tempo espectacular. Tão espectacular que apenas o topo do Matterhorn se manteve permanentemente encoberto. Juro que aprecio a ironia. Seja como for, o resto mais do que justificou a deslocação. E sempre posso fazer novo desvio para o ver quando for, sei lá, à Sicília.
Em Zermatt não circulam veículos com motor de combustão interna. Os automóveis têm de ser deixados em Täsch, a cerca de cinco quilómetros e meio. A partir daí, usa-se o comboio. Os hotéis de Zermatt enviam pequenos veículos eléctricos à estação recolher hóspedes e bagagem. São veículos curiosos, paralelepípedos toscos com rodas. O condutor do veículo do hotel Mirabeau (o buffet de pequeno-almoço tem pães e bolos sublimes) usa uma plaquinha com o nome “Jorge”. É português. Explica que se encontra em Zermatt há cerca de quatro anos e que está longe de ser o único português ali. Ouviu dizer – não sabe se é verdade – que são perto de três mil ou quarenta por cento da população. Sei que há muitos portugueses na Suíça mas ainda assim fico surpreendido. Rapidamente constato que os números de Jorge não devem andar longe da realidade. No hotel, um Avelino leva a bagagem até ao quarto. Mal regressado à rua, cruzo-me com um homem vestindo uma camisola do Futebol Clube do Porto. Grupos passam a falar em português. Crianças com trotinetes gritam em português. No dia seguinte, a funcionária de uma loja, rapariga louríssima, explica em português que, não sendo portuguesa, como tem amigas que o são já consegue falar a língua. Digo-lhe que a fala muito bem (é verdade). Torna-se simultaneamente gratificante e desconfortável estar rodeado de tantos portugueses. Gratificante porque, apesar de me encontrar no coração dos Alpes, é como se não se estivesse verdadeiramente num lugar estranho. Desconfortável porque sinto ter usurpado um poder que não condiz comigo: tão português como os restantes, por que diabo gozo do privilégio de ser turista? Mas ei – isto sou eu. Felizmente muitas pessoas não têm pruridos deste género (desconfio que algumas até gostarão de poder sentir-se superiores) e, de qualquer modo, questões existenciais não devem dissuadir quem quer que seja de ir até Zermatt ou qualquer outro ponto da Suíça. Aliás, vai-se a ver e é por serem confeccionados por portugueses que os pães e os bolos são tão bons.
Miss Pearls lança-me este desafio, a que respondo com gosto. Até porque detesto a pose snob e enjoada de alguns bloguistas que odeiam ser maçados com inquéritos deste género lá do alto das suas níveas torres de marfim.
Aqui vai:
1. Existe um livro que relerias várias vezes? Há vários. O Aleph, de Borges. O Processo, de Kafka. O Estrangeiro, de Camus. Já reli estes e outros.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? O Livro Verde, do Kadhafi.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria? Naturalmente, o Livro do Desassossego.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste? By-Line, que reúne os textos jornalísticos de Hemingway.
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer? Os Maias, quando Carlos e João da Ega concluem que "não vale a pena correr para nada". Tão português e tão actual que até dói.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura? Os Cinco, os Sete. O Tintim. Blake & Mortimer. Buddy Longway. Ivanhoe, do Walter Scott. As biografias de 'heróis nacionais' escritas por Adolfo Simões Müller. As histórias da Dona Redonda, de Virgínia de Castro Almeida (alguém ainda se lembrará dela?). Os Três Mosqueteiros, Robinson Crusoe. Depois passei a devorar policiais: até os do A. A. Fair marcharam. Sem esquecer os contos e as novelas do Jack London, a que regresso ainda hoje com o deslumbramento de sempre. E o Verne, claro: O Farol do Cabo do Mundo, A Mulher do Capitão Branican, O Náufrago do Cynthia. Só de escrever estes títulos sinto vontade de partir novamente de aventura em aventura. Da Viagem ao Centro da Terra às Vinte Mil Léguas Submarinas.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê? O Fim da História e o Último Homem, do Fukuyama: maçudo, inócuo, rebarbativo. A meio ficou A Caverna (Saramago). E não passei das primeiras doze páginas de Rumor Branco (Almeida Faria). Nem das primeiras quatro páginas de Quartos Imperiais, de Brest Easton Ellis.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos. Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry) - o livro da minha vida. O Fim da Aventura (Graham Greene). O Zero e o Infinito (Arthur Koestler). Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar). Adeus às Armas (Ernest Hemingway). A Condição Humana (André Malraux). Moby Dick (Herman Melville). O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde). O Pavilhão dos Cancerosos (Alexandre Soljenitsine), 1984 (George Orwell). Os Nus e os Mortos (Norman Mailer). Até à Eternidade (James Jones). O Céu que nos Protege (Paul Bowles). Não Matem a Cotovia (Harper Lee). As Vinhas da Ira (John Steinbeck - para quando uma boa tradução em português desta obra-prima da literatura universal?)
9. Que livro estás a ler? Nestas férias em Cabanas leio um romance divertidíssimo: Viagens com a Minha Tia, de Greene. Um sobrinho chato e sedentário é arrastado para vários países pela tia, uma velha gaiteira em tudo o oposto dele. Um livrinho que comprei há semanas, por quatro euros, na fascinante Livraria Galileu, em Cascais - "um relicário de livros antigos", como bem lhe chama a Anamar.
Um dos nossos companheiros de blogue, talvez o mais jovem de espírito, acaba de festejar "cinquenta primaveras". Com ele é assim: o bom humor que o caracteriza, mesmo nos tempos mais difíceis, torna-o definitivamente incapaz de ultrapassar o meio século. Amigos e colegas, do Porto a Macau, fizeram questão de o abraçar nesta data festiva. A foto – já publicada, e muito bem, no Pau Para Toda a Obra – testemunha um dos momentos altos do 'conbíbio', numa bela varanda virada para o mar, a escassos metros da praia da Madalena, em Gaia. Às tantas, sabe-se lá porquê, este grupo pôs-se a cantar "O Vento Mudou", no mesmíssimo local, em versão de fazer corar o Eduardo Nascimento e arrepiar alguns vizinhos mais sensíveis. Malhas que a maresia tece...
Durante muitos anos tentei gostar de requeijão. Provava-o quando podia, misturava-o com coisas, comprava embalagens que apodreciam no frigorífico intocadas ou debicadas, logo abandonadas. Não tenho má vontade contra o requeijão. Nem aquela matéria branca, esponjosa, insonsa, popular tem culpa de que eu não a aprecie. Há alturas em que o mundo deve seguir o seu caminho, e nós o nosso, sem ressentimentos.
Segundo um comunicado da direção da APE, o júri do Grande Prémio de Romance e Novela APE/MC, constituído por José Correia Tavares, Cristina Robalo Cordeiro, Fernando Dacosta, Isabel Cristina Rodrigues, José Manuel de Vasconcelos e Violante Magalhães, tomou a decisão de distinguir Gonçalo M. Tavares "por maioria" e "ao reunir pela terceira vez". Isabel Cristina Rodrigues e José Manuel de Vasconcelos votaram em "A Cidade do Homem", de Amadeu Lopes Sabino (Sextante).
De acordo com a APE, foram admitidas a concurso este ano 99 obras, "mais 14 do que no ano passado" - correspondendo a "99 escritores, 74 homens, 25 mulheres, tendo a chancela de 43 editoras".
O Grande Prémio de Romance e Novela, no montante de 15 mil euros, já distinguiu 25 autores, de 16 editoras, quatro dos quais bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís e Maria Gabriela Llansol.
por Ana Margarida Craveiro | 27.06.11
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O Bruno resolveu aqui perguntar pelas minhas leituras. Aqui está a resposta:
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existem vários que já li e reli. A qualidade dos livros e o orçamento apertado a tanto obrigam. Assim de repente lembro-me de A Luz em Agosto, do Faulkner, que reli no Verão passado.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? Houve um tempo em que me obrigava a ler os livros até ao fim. Depois, felizmente, cresci e percebi que o tempo não estica. E que aquela quarta ou quinta página do Exortação aos Crocodilos não significava assim tanto.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele? Não sou assim tão obsessiva.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste? Ainda sou muito nova para esse género de arrependimentos.
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer? Não sou muito de finais, mas de começos.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura? Sim. É um verdadeiro milagre da natureza só ter precisado de óculos aos 27 anos. Lia tudo o que me aparecesse à frente. Se por algum motivo me parecesse desapropriado para a idade, metia debaixo da cama e lia de lanterna.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O livro que mais me entediou até hoje é O Pêndulo de Foucault, do Umberto Eco. A dada altura, apetecia-me atirá-lo contra as paredes. Don’t ask.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Mais que livros, tenho autores. Alice Munro, Iris Murdoch, Vergílio Ferreira, John Updike, Gore Vidal, Colm Toibin, Ali Smith, Rentes de Carvalho, Halldór Laxness, Knut Hamsun, Lars Saabye Christensen, Somerset Maugham. E mais, e mais. Mas o critério é mesmo esse, de autores.
9. Que livro estás a ler neste momento? Ali Smith, A Primeira Pessoa. A Quetzal achou por bem publicá-la em português, e eu agradeço.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Deixo o questionário aberto aos leitores. Partilhem na caixa de comentários, se vos apetecer.
por Sérgio de Almeida Correia | 27.06.11
| 2 denúncia(s)
Eu quase que jurava que desde as eleições de Novembro de 2001 que a Dinamarca era governada por coligações entre conservadores e liberais e que crises como a que afectam Portugal eram da exclusiva incompetência de socialistas e quejandos.
Bem sei, também, que a Grécia não serve de exemplo e que o estado a que chegou, numa altura em que era governada pela Nova Democracia, não sendo da responsabilidade do Pasok, será seguramente de todos os gregos.
Mas ao ler o que continua a passar-se na Dinamarca fiquei a pensar se os nossos novos ministros das Finanças e da Economia nos poderão explicar o que está a acontecer por aquelas bandas e se isso tem alguma coisa que ver com os desmandos socialistas, com a falta de supervisão, com a dimensão do Estado social ou com o bagunça típica dos europeus do Sul.
Pode ser que esteja enganado, mas não tendo Teixeira dos Santos ou José Sócrates passado por ali, e sendo a Dinamarca uma monarquia constitucional, quer-me parecer que começam a ser falências a mais e que a coisa não deverá ser apenas um problema da má governação socialista.
Aqui há uns anos, um mestre-escola do pensamento político nacional espalhou o rótulo "populista" a propósito fosse do que fosse. Como tais coisas entre nós costumam pegar de estaca, foi exactamente isso que sucedeu neste caso: a partir daí, não houve aprendiz de comentador político que não usasse a expressão, banalizando-a e esvaziando-a de tal maneira que passou a equivaler quase ao clássico "isto só lá vai com dez salazares" bramido por taxistas.
Ei-lo já de volta, este qualificativo que em vez de enriquecer o debate político apenas o empobrece, reduzindo-o a coisa nenhuma. É "populismo" pôr fim aos inúteis governos civis, tal como seria "populista" mantê-los em funções. É "populismo" designar um governo mais jovem do que o anterior, tal como seria "populista" formar um governo mais maduro. É "populismo" passar a viajar em classe económica nas deslocações aéreas no continente europeu, aliás como o mais elementar bom senso recomenda num país em crise. E - sei lá - talvez até seja "populismo" ter passado a pôr de lado as gravatinhas monocromáticas muito em voga no consulado Sócrates, substituindo-as por gravatas com padrão, como já notou o nosso arguto jornalismo político.
Por mim, gostaria que não se abusasse desta expressão. Se algum dia surgir por aí um Pim Fortuyn, um Jörg Haider, uma Marine Le Pen ou algo como o Partido dos Verdadeiros Finlandeses, perceberão que este é um termo que convém usar com rigor, propriedade e parcimónia. Para não meter tudo no mesmo saco. E para não baralharmos as ideias e os conceitos mais ainda do que já estão.
O líder do PSD quis um independente a comandar a Assembleia da República. Mário Soares e os candidatos do PS desejam a refundação do partido que há bem poucos meses cabia no bolso do senhor noventa e oito por cento. Miguel Portas propõe a saída dos quatrofundadores. Depois da longa anestesia, chega a mensagem: venham outros. O regime nunca tinha confessado com esta clareza a sua impotência.
"Viu a baía de Lourenço Marques pela última vez, viu os coqueiros da marginal pela última vez, viu os aluviões sujos da Costa do Sol pela última vez, mesmo sabendo, anos depois, que aquela não tinha sido a última vez, porque aquela luz não lhe saíra dos olhos, não o abandonara nunca, não poderia abandoná-lo porque o ferira para sempre." (Francisco José Viegas)
«É pena que a maioria das pessoas veja tudo na política em termos de derrotas e vitórias. É um cliché tremendo, fruto do discurso balofo e redondo dos comentadores de televisão (e de muitos políticos, verdade seja dita), e que reduz a política a um jogo simples e inútil. No caso em questão havia um compromisso entre o líder de um partido e um "convidado" pouco consensual para as listas. De facto, pela sua trajectória, não era a pessoa indicada para "abrir" o parlamento à sociedade. Era esse o objectivo definido por PPC, como afirmou desde o início. A ideia não pegou. De facto, a ideia de aproximar o parlamento dos cidadãos também é um cliché difícil de operacionalizar e também se pode questionar a sua utilidade prática. Propuseram então outra pessoa (a meu ver bem mais interessante do que a primeira), com uma estratégia diferente: dignificar o parlamento com a sua nata, escolhendo uma pessoa que tem um percurso institucional do mais alto nível. Como se viu, é a opção mais adequada - porque, queiramos quer não, o que as pessoas (deputados incluídos) querem ver no parlamento é integridade e discursos elevados, que motivem e orientem a acção política. No final, ficamos todos mais bem servidos e isso é a contabilidade que interessa fazer.»
Do nosso leitor Javali. A propósito deste texto da Laura Ramos.
O meu blogue da semana tem tudo o que considero imprescindível: uma construção gráfica sedutora, belíssimas imagens e cogitações soltas, cheias de densidade, mas sem cairem no risco do pretensiosismo tolo (a erudição forçada devia pagar imposto).
Da conjugação de tudo isso nasce o Ponteiros Parados. E começa logo aqui - no nome - o apelo irresistível desta proposta subversiva.
Vou lá muitas vezes: - experimentem, asseguro que vale a pena.
Estilista incomparável no romance, José Cardoso Pires foi também um excelente cultor da narrativa curta, atingindo a expressão máxima da sua arte de ficcionista num dos melhores volumes de contos de toda a literatura portuguesa: Jogos deAzar (1963). São oito histórias com raízes muito diferentes: umas tinham sido originalmente publicadas no livro de estreia do autor, O Caminheiro e Outros Contos (1949), de temática tradicional, embora inovadores e arrojados na escrita; outros constam da obra Histórias de Amor (1952), de cunho mais urbano e até político, que acabaria por ser apreendida pela PIDE. Exigente ao extremo, o autor viria a expurgar vários deles ao lançar esta colectânea. Foi mau juiz em causa própria, o que aliás é frequente em literatura. Jogos de Azar é, na definição do escritor, um conjunto de "histórias de desocupados, de criaturas privadas de meios de realização", num país de horizontes estreitos e ansiedade à flor da pele, pastoreado por um ditador quase invísivel. Um país ainda acentuadamente rural e cheio de marcas campestres transplantadas para as malhas citadinas. É nesse terreno de inadaptados, verdadeiros apátridas, que circulam as personagens de um filme como Verdes Anos, de Paulo Rocha (estreado no mesmo ano de Jogos de Azar), e também as que José Cardoso Pires introduz nestes contos. Um deles, o que me traz aqui, chama-se Week End: história de um amor fugaz que se dissolve na espuma dos dias, por imposição das circunstâncias. Uma história banal como as ondas do mar a rebentar na praia, mas também como elas de uma beleza indescritível. Cardoso Pires revigorou a técnica narrativa então vigente em Portugal, muito adjectivada e cheia de inúteis preciosismos literários, impondo um ritmo quase cinematográfico às suas histórias, assente num discurso directo credível por influência dos melhores autores americanos - Hemingway, desde logo. É um estilo despojado, directo "ao osso" da intriga (para usar uma expressão a que JCP recorria com frequência), que nos apresenta as duas figuras centrais deste enredo: ele apaixonado e disponível, ela casada e incapaz de tornear o espartilho das convenções sociais. Despedem-se num quarto de hotel à beira da praia, numa tarde ardente de sol. Não podia ser mais acentuado o contraste entre a atmosfera exuberante de calor meteorológico e o gelo afectivo subitamente instalado naquele aposento, entre os "banhistas sentados na esplanada, perdidos no tempo", e os dois jovens desamparados que contam os minutos para o último capítulo de um romance chegado ao fim. "Nada disto faz sentido. O pior é estarmos cercados por coisas sem sentido e termos de aceitar o cerco", diz-lhe ela, resignada. Nesta admirável teia de metáforas, oculta em diálogos só na aparência banais, o cerco expandia-se das paredes daquele quarto, atingindo a dimensão do País submerso na ditadura. Linhas paralelas de uma linguagem afinal só tornada eficaz pelo talento sem medida de um escritor como Cardoso Pires.
Se Assunção Esteves não foi estudanta da Faculdade de Direito, custa-me aceitar que possa ter sido concorrenta ao cargo de Presidenta da Assembleia da República. Todavia, nada tenho a opor ao facto de ser ex-juíza do Tribunal Constitucional. Em todo o caso, depois do discurso que fez, por mim Assunção pode ser o que ela quiser. E se fizer questão disso, até direi que é uma excelente (ou deverei dizer excelenta, Excelência?) Presidenta. Agora, estou certo de que, sendo Assunção jurista, não me obrigará a reconhecer que eu próprio sou um juristo. Da mesma forma que nunca me ouvirão tratar Cavaco Silva por Seu Excelêncio.
«Na Europa Ocidental e na América, largas franjas da intelligentsia literária passaram pelas fileiras do Partido Comunista ou são [1945] fervorosos simpatizantes do comunismo, mas este movimento generalizado em direcção à esquerda produziu um número extraordinariamente reduzido de livros dignos de ser lidos. Também o catolicismo ortodoxo parece ter um efeito deletério sobre certas formas literárias, mormente sobre o romance. Ao longo de um período de trezentos anos, quantos indivíduos foram a um tempo bons romancistas e bons católicos? A verdade é que certos temas não podem ser glorificados pela palavra, e a tirania é um deles. Nunca ninguém escreveu um bom livro a louvar a Inquisição.»
O meu amigo Fernando é um excelente rapaz. Mas, cá para nós que ninguém nos ouve, é um bocado imbecil. Está casado com a Ana Pinto. Um amor de rapariga. Pena ser um bocado aérea. Há uns tempos, fundaram uma companhia. Produzem cadeiras. Um destes dias, lançaram uma linha com cento e cinquenta unidades. É o modelo Bruxelas. Destas cento e cinquenta cadeiras, há vinte que são mais confortáveis. O tecido custou o mesmo, mas torna o encosto dorsal mais agradável. Por isso, o Fernando Pinto decidiu que o preço dessas vinte cadeiras Bruxelas (tipo A) é o dobro do das outras cento e trinta cadeiras Bruxelas (tipo B). Por ser algo imbecil, o Fernando Pinto andou envolvido com más companhias e teve alguns "azares". Para saldar essas contas, o Fernando Pinto fez um acordo com um credor. Vai entregar-lhe quatro cadeiras modelo Bruxelas. O credor é que vai decidir se prefere levar quatro cadeiras tipo A ou quatro cadeiras tipo B. O Fernado Pinto, que é um bocado imbecil, vai tentar que o credor escolha as de tipo B, uma vez que assim poderá tentar vender as de tipo A aos clientes, recebendo o respectivo preço. A mim não me parece mal visto, mas não tenho a certeza. Afinal de contas, o Fernando Pinto é algo imbecil.
Vai fazer um ano, publiquei no DELITO um texto intitulado "A direita amiga de Sócrates". Agora, talvez por voltar a estar muito calor, apeteceu-me trazer esse texto novamente aqui. O tempo passa, mas há cenários que se repetem. A tal ponto que por vezes nem é preciso alterar uma vírgula.
Leio no Expresso de hoje que a ex-Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, recusou reunir-se com o novo Secretário de Estado da Cultura para a protocolar passagem de testemunho, com o argumento de que "ministro não passa pasta a secretário de estado". Para além da arrogância expressa nesta atitude (tiques do governo anterior, aprendidos com o mestre?), pergunto que direito tem um ministro demissionário de decidir isto assim, de ânimo leve. Concorde ou não com a nova fórmula encontrada para a cultura pelo actual governo, o acto da passagem de pasta não é opcional. Gabriela Canavilhas tem de cumpri-lo, porque a isso a obrigam, para além da mais elementar educação, a natureza das funções que aceitou. E, convenhamos, tanta superioridade não corresponde sequer à realidade: que me lembre, a ex-ministra não deu à cultura portuguesa, para além de uma imagem gráfica pessoal notável (que não é mérito seu), nada de relevante. O importante não é o nome do cargo, mas o que se faz com ele.
Bem-vindo à cultura, Francisco José Viegas, seja com que título for. Mudanças precisam-se, urgentemente. A começar na atitude.
(Obrigada, Woody, pelo empréstimo do título deste post)
Mas por que motivo "é prática corrente" (garante o Jornal de Negócios) os membros do Governo - primeiro-ministro, ministro e secretários de Estado - "serem dispensados do pagamento de bilhete nas deslocações oficiais em que utilizam os serviços da companhia aérea portuguesa"?
As estatísticas do aeroporto de Beja não enganam. O tráfego aéreo concentra-se com particular intensidade no domingo de manhã. Como é normal, estas coisas percebem-se melhor com um gráfico. O que se segue representa o nº de voos registado em cada dia da semana passada. Ao leitor mais atento não passará despercebido que no Domingo ocorre um pico de dimensão assinalável:
E o mesmo acontece, caro leitor, quando consultamos o nº de passageiros por dia (dados também relativos à última semana):
Compreende-se assim o entusiasmo do Director do Aeroporto que, de acordo com a capa do Expresso de hoje, "faz uma avaliação muito positiva da nova pista de aterragem alentejana". Não é caso para menos.
Uma das imagens mais iconográficas da história da ficção televisiva é a de um indivíduo mal vestido, com uma gabardina suja, de andar trôpego e um eterno charuto apagado ao canto da boca. Se o víssemos por aí na rua nada daríamos por ele. Mas este indivíduo de ar insignificante era afinal um dos mais inesquecíveis detectives da televisão:Columbo, magistral criação de Peter Falk, marcou todos os telespectadores da década de 70. Produzida pela NBC entre 1971 e 1978, esta série americana dessacralizou a figura do detective, equiparando-o a um homem comum. Columbo tinha um verdadeiro achado como chave de argumento: desde o início, o espectador sabia quem cometia os crimes. O suspense jogava-se todo na observação da insólita actuação deste detective sem garbo, que quase até ao fim parecia baralhado com o labirinto de indícios que lhe surgia pela frente. Cada episódio terminava com Columbo partindo na noite, sempre de gabardina surrada e charuto sem chama. Cumpria o dever de polícia como se fosse o primeiro a espantar-se afinal com as suas espantosas capacidade dedutivas. Um perfeito exemplo de anti-herói.
Peter Michael Falk teve muitos papéis no cinema, mas a minha geração (e não só) há-de continuar a lembrar-se dele com simpatia, por ter sido o impagável protagonista da premiada série televisiva norte-americana Columbo.
Como Columbo, fica a figura do peculiar inspector que conduzia um velho Peugeot 403 cabriolet dos anos 50 e do seu companheiro Dog, um inseparável Basset. Como Peter Falk, fica a memória de um homem que sofria de Alzheimer há cerca de dez anos e que morreu ontem, 23 de Junho, com 83 anos. Muito estimados entre nós, Columbo e Falk.
Pergunto-me quando será possível consultar um site de notícias sem ver uma publicidade disforme cobrir quase por completo - quando não por completo - os conteúdos. Eu percebo que os media online necessitem muito de publicidade, mas não é preciso exagerar. Para o leitor - pelo menos para este leitor - é extremamente irritante abrir um site para ler notícias e, de repente, ver o ecrã coberto por publicidades, por vezes com botões de "fechar" bastante dissimulados e esquivos. Isto num computador rápido, atenção. Num computador mais lento, a experiência é quase tortura: ver uma publicidade a abrir lentamente, aos soluços, cobrindo as notícias (e abrandando o browser até quase ao ponto do desespero) até estar completamente carregada e podermos, então, fechá-la (quando acertarmos na cruzinha, claro). Banners laterais, estrategicamente colocados entre os conteúdos e as barras de scroll, que, quando o cursor passa sobre eles, abrem e "empurram" os conteúdos para fora do ecrã também são tudo menos simpáticos (o Público Online gosta muito destes banners armadilhados). Pior ainda: usar, por algum motivo, um browser mais antigo, que não consiga carregar anúncios em Flash - o que não impede o site de carregar uma janela em branco, impedindo porém que a dita janela seja encerrada.
Nada contra a publicidade - é um mal necessário em qualquer meio. Mas creio que seria bom que os meios online se lembrassem de que os seus leitores não frequentam os sites para ver anúncios, mas para aceder aos conteúdos - e quando aqueles se tornam num estorvo, estes perdem um pouco do seu interesse. Um pouco como os intermináveis intervalos dos canais privados na televisão.
“Nem as actividades nem os sucessos são apreciados por toda a parte segundo o mesmo critério. No seio da mesma sociedade não existe apenas um só tipo de homem exemplar” – Raymond Aron, Memórias
O pensamento que estimula é aquele que muitos anos ou séculos depois permanece actual, aberto à discussão, que mantém a susceptibilidade para perturbar, que questiona as nossas aparentes verdades e instila a dúvida nos faz crescer. Não sei até que ponto Aron terá razão. Sou incapaz de concluir, como ele, que não existe apenas um tipo de homem exemplar. Para mim, a exemplaridade é una, unívoca, não admite tonalidades. Ou se é ou não se é. Poderá é haver várias maneiras de encará-la.
Hoje reli o artigo que Pedro Lomba escreveu para o Público sobre a formação de magistrados no CEJ. Concordo com muito do que ele ali escreveu, porque há questões que nos transcendem e em relação às quais as diferenças ideológicas não relevam. De qualquer modo, em termos éticos, dentro do seio de uma mesma sociedade, a formação do espírito de autodefesa e de corporação não é só o resultado de uma aprendizagem deficiente ou que se escora em teses viciadas. Isso ainda é uma consequência do desregramento ético, da subversão do espírito e da sensibilidade em relação ao que é verdadeiramente importante e capaz de determinar o futuro. Individual e colectivo.
Aqui há dias dias sucedeu com uma notícia do Público que passou despercebida. Repetiu-se na edição desta manhã do Correio da Manhã. O título da primeira página explica a falta de razoabilidade do novo Acordo Ortográfico em relação a algumas questões práticas. A eliminação do acento agudo na terceira pessoa do singular do verbo “parar” torna-a igual à preposição. Mas se no Público o acento foi eliminado de vez, o Correio da Manhã voltou a acentuá-la. E só assim faz sentido: “Falta de dinheiro pára 237 carros da PSP” não é nem nunca será o mesmo que “Falta dinheiro para 237 carros da PSP”. Por muito que custe aos defensores do acordo e a todos os que não distinguem um grave de um agudo. E na manchete de um jornal ainda faz mais diferença.
O Bloco de Esquerda continua a dar que falar. Foi Fernanda Câncio no DN. Ela fala em “harakiri”. Eu em 23 de Janeiro pp. sentenciei a morte do partido (“O BE como alternativa acabou hoje”) e riram-se. Reafirmei-o em 15 de Fevereiro, ao referir-me a Francisco Louçã quando escrevi que “um líder temido e respeitado que se transforma tão rapidamente em bicha-de-rabear devia ter a lucidez de se ver ao espelho. E rir-se. Ou ir-se. Qualquer uma das decisões seria sinal de sensatez”. Os acontecimentos dos últimos dias, para desgosto de alguns leitores deste blogue, só o vieram confirmar. O BE extinguir-se-á sozinho no processo autofágico que encetou.
Francisco Assis fala em “ruptura com o passado” e já diz que “a pior coisa que o PS tem é que está muito dominado por pequenos e minúsculos interesses políticos”. São estas coisas que me perturbam. Bastaram duas semanas e ele já descobre no PS aquilo que nunca vislumbrou nem sequer remotamente em seis anos. Gostaria de o ter ouvido dizer isso quando a situação se começou a degradar, há quatro anos atrás, quando começaram a “dar corda” a esses pequenos e minúsculos interesses que se apoderaram das estruturas do partido e que desde o dia 5 de Junho correm em massas compactas de um lado para o outro do estábulo, balindo sem parar, por não saberem por onde entrará o lobo que uiva. A forma como esta gente já se posicionou e está pronta a esquecer a herança que ajudaram a deixar é tenebrosa.
António Barreto não perde tempo e esta manhã já passava pelos microfones e pelos jornais alertando para os perigos que aí vêm quando a nova clientela substituir a velha. Esse será um momento decisivo para Passos Coelho mostrar a diferença, antes dos “Marcos Antónios” começarem a distribuir os biscoitos pela tribo. Poderá ser mais um sinal, como foi o das viagens em económica. Um bom sinal. Não o confundo com populismo nem com demagogia porque entendo, como sempre disse e escrevi, que há sinais que têm de vir de cima. E esse é importante para que aqueles que perderam o abono de família percebam que estamos todos no mesmo barco. Também espero que seja para durar e que não aconteça o que se passou em Macau, no tempo de Rocha Vieira, quando a poupança pública virou pelintrice. E depois esbanjamento oculto com os nepotes. Não será agora o caso, mas antes que alguém se lembre de mandar comprar bilhetes de executiva para depois trocá-los pelos de económica para receber a diferença em dinheiro, pedindo depois às secretárias que telefonem para as agências solicitando “ofertas” de “upgrades”, que é uma outra forma de corrupção, o melhor mesmo é Passos Coelho deixar estas coisas claras desde o início. E de preferência por escrito, sem deixar, contudo, de salvaguardar que nos voos para fora da Europa ou nas visitas oficiais o primeiro-ministro e a sua comitiva não viajarão em turística. Aí é a representação de todos que é posta em causa e há ridículos evitáveis.
A noção de ridículo é algo que a meu ver se me afigura desconhecida para os lados dos CTT. Desde que se começou a falar em privatização e desataram a mudar logótipos, a comprar e a vender imóveis, livros, canetas, telemóveis, bilhetes para espectáculos e até cromos da bola, despedindo pessoal para logo a seguir contratarem os mesmos a termo certo, enquanto nomeavam amigalhaços sem qualificações e transformavam uma empresa respeitável e respeitada numa sucursal das trapalhadas onde estão metidas as clientelas partidárias, com inevitáveis consequências no aumento dos preços e na degradação da qualidade do serviço prestado, era previsível que acontecessem situações como a que os jornais relataram. É a nomeação de gente deste calibre e de episódios como o que sucedeu com Mata da Costa que Passos Coelho terá de evitar se quiser conquistar o respeito dos portugueses. A confiança já obteve. Agora é preciso que não faça como outros e não abuse dela.
A canícula traz consigo a inércia. Os corpos torna-se mais pesados, incham, têm dificuldade em se mover. Esperemos que as coisas se mantenham assim por mais algum tempo. Há inadiáveis para cumprir. E o que terá de ser esclarecido poderá ficar para mais tarde. Esclarecer o peso das maçonarias neste Governo não é uma urgência. O País e os seus compromissos estão primeiro. Cada coisa a seu tempo.
por Adolfo Mesquita Nunes | 24.06.11
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Gosto muito de idiomas que nos arranham a pele, feitos de violência, nem sempre triste, que sugerem uma caminhada cheia de paragens pelas bermas. A realidade é melhor carregada por idiomas que não a disfarçam melodiosamente, como o hebraico. Quando tiver tempo, e um dia vou ter, vou tentar aprendê-lo. Até lá, a música.
De acordo com informação que recolhi aqui, na natureza e ao ar livre, os produtos que constam da tabela seguinte teriam os tempos de degradação aproximados ali indicados:
Material
Tempo de Degradação
Aço
10 a 100 anos
Alumínio
Mais de 500 anos
Cerâmica
indeterminado
Chicletes
5 anos
Cordas de nylon
30 anos
Esponjas
indeterminado
Filtros de cigarros
1 a 5 anos
Isopor
indeterminado
Madeira
6 meses
Borracha
indeterminado
Papel e papelão
3 a 6 meses
Plásticos
50 a 450 anos
Restos orgânicos
6 a 12 meses
Vidros
Mais de 4000 anos
Pano
6 meses a 1 ano
Fraldas descartáveis
Mais de 450 anos
Entretanto, neste mesmo assunto da degradação, Basílio Horta afirma que "Sócrates nunca desaparecerá". Trata-se, portanto, de um recorde. Agora, só me falta saber quanto tempo demorou a coluna vertebral de certas pessoas a degradar-se.
Um dos assuntos que nos vai entretendo neste país à beira da reestruturação da dívida plantado é o das viagens em classe económica do Primeiro-Ministro. Símbolo, clamam alguns. Populismo, contrapõem outros tantos. Parto do princípio que a medida, considerada isoladamente, não terá efeitos por aí além. Positivos ou negativos. E, a benefício da análise, estou até disposto a aceitar que se trata de uma decisão populista. Nesse caso, será tão populista como a construção de auto-estradas inúteis. Mas, mesmo que seja assim, temos que distinguir uma situação da outra. O eventual populismo concretizado em viagens em classe económica não endivida o Estado de forma absurda e insustentável. As obras sumptuárias e inúteis comprometem (comprometeram) o nosso futuro. No primeiro caso, estaremos, no pior cenário, perante popupoupismo. No segundo, trata-se de popudespesismo. Em qualquer circunstância, prefiro o primeiro.
por Adolfo Mesquita Nunes | 23.06.11
| 2 denúncia(s)
Para o calor tropical a Ana Margarida recomenda um livro que nos transporta para o gelo nórdico. Fiquei a pensar nisto. Se um livro tem a faculdade de nos transportar para outro lugar ou contexto ou, neste caso, temperatura, porque não aproveitar a boleia para moderar a tortura solar?
Mas depois lembrei-me de uma das mais interessantes experiências de leitura que tive, talvez determinante para ter gostado tanto do livro: a leitura d' O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, nos dois ou três dias mais quentes (os jornais gostam muito do campeonato das temperaturas) de um Verão qualquer.
Se o tivesse lido numa noite de Inverno talvez não tivesse compreendido tão bem, ou não tivesse quase sentido, aquela solitária e angustiante espera ao Sol.
Não, Ana. Se o livro nos pode transportar para outro lugar, talvez seja preferível evitar que a realidade dificulte a tarefa.
Todos os dias há quem entre e saia de blogues: nada mais normal. Jorge Palinhos fez o que entendeu: desvinculou-se do 5 Dias por já estar farto de ver alguém por lá chamar "carrasco do povo líbio" ao eurodeputado Rui Tavares, aliás antigo membro do mesmo blogue. Levou logo ali o troco, desta forma elegantíssima, da parte de um dos fãs assumidos do verdadeiro carrasco do povo líbio: Muammar Kadhafi, que prometeu entrar em Bengazi como Franco fez em Madrid no fim da guerra civil 1936/39. Com a prestimosa ajuda do 'Comité de Não-Intervenção', cuja passividade funcionou como estímulo adicional ao ditador espanhol na sua ofensiva bélica.
Não consigo dissociar Kadhafi de Franco enquanto verifico a forma entusiástica como o coronel é acolhido e as operações da NATO na Líbia, a coberto do direito internacional, recebem ferozes críticas naquele mesmo blogue. Talvez por lá preferissem um novo 'Comité de Não-Intervenção' para facilitar o esmagamento dos líbios pelo tirano pró-nazi que há 42 anos oprime o seu povo, tal como pormenoriza a Amnistia Internacional.
Diz-me que modelo tomas, dir-te-ei quem és. Se no 5 Dias há quem ponha em dúvida a existência de um regime democrático em Espanha e associe com beata reverência Fidel Castro à miraculosa descoberta da "vacina contra o cancro do pulmão", nada mais natural que também ali se considere a Líbia um modelo de liberdade. Isto enquanto os patriotas anti-Kadhafi resistem em Misrata e outras cidades expostas à fúria demente do carniceiro. Entretanto, Jorge Palinhos pode considerar-se um indivíduo com sorte. Noutros tempos, noutro local, arriscava-se a ser brindado com algo mais do que palavras insultuosas: era também capaz de receber um golpe de picareta.
Ao que parece, a morte tem sido, para muitos compatriotas, uma experiência traumatizante. De tal modo que, chegados ao Além, têm necessidade imperiosa de medicamentos para uso psiquiátrico cujo preço varia entre os 199€ e os 299€. Pois é. A vida no Além também está pela hora da morte. Com estes preços, e não fosse o caso de os doentes já estarem mortos, ainda acabavam por morrer de susto. Menos mal que existem médicos também já mortos que não se esqueceram de levar as vinhetas na viagem para a eternidade. Assim, mesmo depois de mortos, podem receitar o medicamento aos fiéis pacientes defuntos. É claro que a morte, tal como a vida, não é igual para todos. É fácil perceber que os juízes falecidos que continuam a receber subsídio de compensação terão mais facilidade em suportar os custos da medicação. Outros não terão essa sorte. Se comprarem os medicamentos acabam por não ter dinheiro para comer e arriscam-se a ficar mortos de fome. Talvez por isso, alguns aviam-se em vida. Parece ser esse o caso de Luís Silveira e de outros membros da Comissão Nacional de Protecção de Dados. Eles bem sabem que o seguro morreu de velho. E que Portugal está de morte.
Presidir ao Parlamento constitui a maior honra da minha vida. Porque o Parlamento é a liberdade que se fez instituição, consequência da razão moderna, do pensamento das Luzes, da coragem dos Justos. Nós, os deputados, somos portadores de um mandato que se gera na igualdade e na liberdade. Damos corpo a um poder que se forma na moral universal, que dita os critérios da justiça. - Que orgulho, senhores deputados, e que responsabilidade que é estarmos aqui.
Assunção Esteves (discurso da tomada de posse como Presidente da Assembleia da República)