O título deste blogue, Machina Speculatrix, aponta para um dos episódios mais interessantes da história das ciências do artificial no século XX: as tartarugas electrónicas do britânico Grey Walter. Encontra-se aí uma curiosa ligação entre a cibernética clássica, de implantação mais forte nos EUA do que em qualquer outra parte do mundo, e algumas das tendências mais interessantes da actual Nova Robótica. Clicando no título deste apontamento, o leitor será levado a uma pequena introdução a esse episódio.
Com a minha ida para o Instituto de Sistemas e Robótica (pólo do Instituto Superior Técnico) comecei a intensificar o trabalho interdisciplinar em torno das ciências do artificial. É nesse quadro que começo a organizar os ciclos de conferências "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais". A primeira edição foi em 2008, a segunda em 2009. Espera-se que a terceira seja em 2010. O texto deste apontamento é o rationale da primeira edição, permitindo compreender as questões de fundo desta investigação. O ponto de partida é o meu: a filosofia e a robótica.
Neste blogue assume-se uma posição filosófica sobre a forma de pensar as sociedades humanas, a política e a economia. Essa "posição filosófica" estará sempre em construção. Contudo, as elaborações que dela vamos fazendo partem sempre de uma inspiração institucionalista, em nome da qual recusamos qualquer visão totalizante da sociedade (qualquer neo-teologia), do mesmo modo que nos demarcamos de qualquer hiper-racionalismo acerca da natureza dos agentes. Clicando no título desta nota, o leitor será remetido para um texto programático deste esforço.
Se admitirmos a existência das instituições e que elas, e não apenas os indivíduos, desempenham um papel na ordem social, na vida dos colectivos – ainda podemos admitir que as instituições sejam, simplesmente, o produto emergente da interacção espontânea entre agentes individuais. Seguimos aqui, numa série de apontamentos, alguns passos de uma investigação desenvolvida no quadro da Economia com ferramentas da Inteligência Artificial: um conjunto de experiências com a hipótese da ordem social espontânea.
Em Maio 2009 apresentei em Offenbach-am-Main, na conferência anual da Sociedade para a História da Tecnologia, uma comunicação intitulada "Fabulous races of humanoid monsters and robots". Tratava aí de extrair algum significado do paralelo entre, por um lado, os usos feitos das noções de raças monstruosas até aos Descobrimentos e, por outro, o papel que têm os robots humanóides no imaginário dos nossos dias. Uma das próximas séries de apontamentos aqui no blogue será para retomar essa questão.
"Em termos concretos, os fundos de coesão são uma decisão dos Governos e podem ser realocados, mas os fundos de projetos prioritários não podem ser realocados. Então, se o projeto for cancelado, este dinheiro não poderá ser usado e regressará ao orçamento europeu", afirmou Siim Kallas.
Parece que José Manuel Barroso, perguntado, terá dito que o assunto iria ser estudado. Mentira, não vai nada ser estudado. Se Portugal não quer, não precisa,não pode - o dinheirinho volta para a caixa. Não era isso que o PSD andava a pedir há vários anos? Não se ouviu, cá dentro, várias vezes, o aviso de que era isto que ía acontecer? Sim, mas as campanhas de oposição cega têm muita força, não é Dra. Manuela? Não é, senhor PM?
O que Passos Coelho anunciou ontem NÃO é um aumento de impostos.
A picada extraordinária equivalente a uma fatia do subsídio de Natal NÃO é um aumento de impostos.
A promessa eleitoral de não aumentar os impostos NÃO foi quebrada.
A prioridade à punção do lado do consumo, em vez do lado do rendimento, NÃO foi esquecida.
Dizer que "isto" é por culpa da "herança" NÃO é justificar-se com o passado, logo, por aí não se quebra uma promessa eleitoral: até porque essa promessa foi feita já depois das eleições.
Dar a ideia que as contas entretanto conhecidas eram esqueletos no armário NÃO é pretender que o FMI, o BCE e a Comissão Europeia não sabem analisar as contas de um país, nem é pretender ignorar que eles estiveram cá há meia dúzia de semanas a vasculhar tudo.
Tudo isto, bem vistas as coisas, é uma engenharia de almas. A sociedade é uma grande máquina; as almas dos cidadãos são as suas peças; se as almas se enfurecerem, os corpos produzem baforadas de gás tintadas de raiva; se a máquina for a vapor, os sopros de raiva fazem andar a máquina. É uma cibernética um bocado básica, mas é o que temos.
The sexual assault case against Dominique Strauss-Kahn is on the verge of collapse as investigators have uncovered major holes in the credibility of the housekeeper who charged that he attacked her in his Manhattan hotel suite in May, according to two well-placed law enforcement officials.(...)
Since her initial allegation on May 14, the accuser has repeatedly lied, one of the law enforcement officials said. Senior prosecutors met with lawyers for Mr. Strauss-Kahn on Thursday and provided details about their findings, and the parties are discussing whether to dismiss the felony charges. (...)
The investigators also learned that she was paying hundreds of dollars every month in phone charges to five companies. The woman had insisted she had only one phone and said she knew nothing about the deposits except that they were made by a man she described as her fiancé and his friends. (...)
Mr. Strauss-Kahn was such a pariah in the initial days after the arrest that neighbors of an Upper East Side apartment building objected when he and his wife tried to rent a unit there. He eventually rented a three-story town house on Franklin Street in TriBeCa.
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Porfirio Silva
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30.6.11
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Quando chegou a vez de Apolónia tive de desligar. Ouvira, até aí, o PM e uma voz por cada um dos partidos que têm deputados por se apresentarem ao eleitorado (que não é, exactamente, o caso dos melancias). As minhas impressões são, talvez por não ter ouvido Apolónia, um pouco difusas.
É cedo para saber quanto durará a simpatia de Passos Coelho, que até parece ter comovido Jerónimo de Sousa. Mas a simpatia não é exactamente a mesma coisa que capacidade negocial. A primeira dá um bom acepipe, sendo necessária a manter a mesa em atitude civilizada (o que não é coisa pouca); a segunda é extremamente necessária para cozinhar o prato principal. É bom, de todos os modos, que o PM tenha, finalmente, percebido que há uma crise internacional.
Maria de Belém Roseira fez, muito bem, um discurso difícil: sabemos bem quais são as nossas responsabilidades, não vamos fugir, mas estamos atentos. E, se o governo tem legitimidade para governar, o PS também tem a legitimidade dos votos que teve. E as perguntas que Maria de Belém fez estão muito para além daquilo que o PM queria, ou podia, responder no momento. São, pois, perguntas que vão "andar por aí".
O principal motivo de expectativa é, para mim, o facto de serem constantes as referências, vindas da maioria, à concertação social. Se for a sério, é importante. E positivo. A ver vamos.
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Porfirio Silva
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30.6.11
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Quanto a este meu post de ontem, quero acrescentar o seguinte.
Há uma maneira "racional" de tratar com os assuntos humanos que julga que a razão está fora/acima da história, pelo que o significado histórico e tradicional de certas práticas é desprezado e pode simplesmente ser rasurado pela "lei".
Há, por outro lado, uma maneira "comunitária" de lidar com a razão que toma a tradição como um critério absoluto, fechado, que não pode ser repensado - e, desse modo, despreza a possibilidade de raciocinar em conjunto com outras tradições, tendo em conta outros valores e outros aspectos das questões.
Os ortodoxos de certas convicções religiosas, que continuam a achar que não podem comer camarões por causa de uma frase do Livro, praticam esta última espécie de intolerância. Os iluministas - que, além de serem iluministas, acham que já foram eles mesmo pessoalmente iluminados - pertencem à primeira espécie de intolerância. Nenhuma destas espécies de intolerantes suporta indivíduos que não alinhem nessas intolerâncias. Qualquer uma destas espécies de intolerância é uma sobrevivência de tempos remotos em que cada "civilização" estava a milhares de quilómetros das outras, podendo fazer de conta que estava só no mundo.
Claro que, como não somos relativistas, não acreditamos que tudo se resolva pelo diálogo. Mas a alternativa ao relativismo não é o dogmatismo. Nenhum dogmatismo.
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Porfirio Silva
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30.6.11
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Vai começar daqui a muito poucas horas o debate do programa de governo no parlamento. Em qualquer democracia a sério, seria um momento importante. Espero que seja. Quer dizer: que o governo explique bem ao que vem; que a oposição faça as perguntas pertinentes para perceber o que significa o que está escrito no programa e, quanto ao seu oposicionismo futuro, prometa - para cumprir - que não vai deixar de fiscalizar, mas vai ter sentido da realidade. Sentido da realidade é perceber que nem tudo o que queremos em geral, para a vida de um país, pode ser feito num dado momento.
Entretanto, estou preocupado com a saúde, com a protecção social, com a equidade no mundo do trabalho, com a eventual venda ao desbarato de activos do Estado. Não estou preocupado agora, já estava antes, quando o governo era outro e o Memorando de Entendimento era o mesmo. Entretanto, não estou nada preocupado com o facto de o PM ter sido presidente da JSD, nem com o currículo da licenciatura do PM, nem com a escola em que ele foi docente.
Quero dizer: não abordo a actual governação no mesmo espírito que a governação anterior foi abordada pelos partidos agora no governo (PSD e CDS), de mão dada que nessa altura andavam, nisso, com o PCP e o BE. Quero dizer: se os socialistas se comportarem agora como o PSD e o CDS se comportaram antes - discurso dúplice, jurando com uma mão que apoiam o esforço e, com a outra mão, fazendo uma guerrilha permanente - o "povo", essa entidade mítica, é capaz de não apreciar. E com razão: precisam os socialistas, primeiro, de se encontrar: encontrar uma via que não seja a da ortodoxia dominante na Europa. E, convenhamos, que via é essa ainda está longe de ser claro.
Os iluministas rejubilarão com esta decisão. Os iluministas detestam "a tradição" e julgam que tudo na vida se rege pela "razão". Conseguindo articular um argumento racional a favor da diminuição do sofrimento dos animais, sentem-se automaticamente justificados para eliminar uma prática tradicional de certos grupos humanos. Alguns iluministas conseguem perceber que este raciocínio funciona mal na análise económica (por exemplo, quanto ao hiper-racionalismo de certas escolas económicas), mas já não se interessam pelo caso quando a tradição é religiosa.
A decisão acima noticiada suscita-me, pelo menos, duas ordens de questões. Primeira: sendo a religião uma prática humana, quer esta decisão significar que valem mais os animais do que os humanos? Será que, afinal, esta decisão não é mais do que uma forma de discriminar religiões minoritárias no país em causa? Segunda: estaria contra o essencial das religiões que elas modificassem as suas tradições à luz de novos valores que vão aparecendo, como seja o valor dos próprios animais como seres capazes de sofrimento?
Questões de civilização. Alguém quer bater na pedra?
[Aditamento. Ricardo, acho pouca piada a textos que argumentam como se salivassem. Mas isso é apenas uma questão de gosto. Quanto a eu ser reaccionário, admito que seja uma questão de opinião, embora ache um pouco triste essa mania de ler de forma simplista o que os outros escrevem. Já quanto a eu escrever coisas pós-modernas, aí acho que o delírio passa os limites da credibilidade que um autor deve exigir de si mesmo.]
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Porfirio Silva
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28.6.11
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A blogosfera política, um mundo mais pequeno do que parece (vou a uma dúzia de blogues e vejo comentadores de serviço que circulam lestos, alguns mesmo trocando de pseudónimo como quem troca de luvas), mas ainda assim muito divertido, anda um bocado à nora com esta transição de ciclo político. Eu, por mim, com a quantidade de trabalho que tenho em mãos, agradeço este entre-tempo. Vejo, contudo, que outros não querem deixar enferrujar as espadas, nem por nada. E, por isso, contam ministros e secretários de estado, aparentemente impressionados com a falta de palavra do Primeiro-Ministro, quando, acho eu, deveríamos todos ter percebido que, se o homem disse umas coisas sem sentido na campanha eleitoral, terá de as corrigir. Ainda bem que as corrige. E não se deve ignorar a possibilidade de que ele saiba corrigir muita coisa tão bem como resolveu o assunto Fernando Nobre.
Entretanto, o dia de ontem foi de manifesta humilhação pública para blogueiros contadores de secretários de estado: qualquer diatribe exibida num blogue terá parecido muitíssimo decente se comparada com o desempenho do Público, que mudou não sei quantas vezes a contagem das cabeças na edição on line durante a tarde de ontem. Percebe-se: mudar de ramo (ou de galho, se quiserem) é coisa que dá trabalho a qualquer empresa.
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Porfirio Silva
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27.6.11
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Uma das "técnicas" do anterior ciclo político (técnica velha, mas levada ao paroxismo pela política do ódio) consistiu em, para não ter que ligar aos argumentos dos adversários, tratar de os desqualificar. Era uma espécie de "tratamento de substituição". No campo dos apoiantes do anterior governo na blogosfera, talvez o mais causticado por esse tipo de ataque tenha sido o Câmara Corporativa. Criou-se uma doutrina, do género informe, segunda a qual "os Abrantes" (um rótulo de ódio, cuja invocação tinha a mesma função dos sininhos que os leprosos eram obrigados a usar para prevenir as gentes de que deviam afastar-se) seriam, disfarçadamente, "assessores pagos pelo erário público para fazer propaganda governamental".
Não estou particularmente interessado na atitude de prolongar as novelas de um ciclo para outro, mas este caso interessa-me, por ser razoavelmente específico como nódulo da guerrilha política recente. Assim sendo, fico à espera para ver que explicação arranjam, agora, aqueles doutrinários, para o facto de "os Abrantes" continuarem a existir. Está em curso, portanto, uma experiência crucial da blogosfera política à portuguesa. Ou o Corporações desaparece rápida e cruelmente, ou aquele expediente devia começar a envergonhar os que a ele recorreram: qualquer dia começo a fazer a lista...
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Porfirio Silva
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27.6.11
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Pedro Lima, Professor no I. S. Técnico e investigador no Instituto de Sistemas e Robótica, publicou no passado sábado um texto muito actual, intitulado "Robôs Ensinam Políticos", no Robotizando, blogue da Sociedade Portuguesa de Robótica no Expresso. A questão de base é ilustrada pelos seguintes excertos:
Nos EUA, a investigação em robótica está no centro das atenções dos media: um senador republicano publicou um relatório onde considera 3 projectos de investigação na área da Robótica como desperdícios, e o Presidente Obama foi à Universidade de Carnegie-Mellon anunciar uma forte aposta na investigação em Robótica nos próximos anos. (...)
Estas duas visões da importância ou não de investir em investigação cujos resultados muitas vezes só se vêem num futuro relativamente distante (ou que nem se vêem de todo) dominam o debate internacional sobre o tema. Portugal não é excepção. (...)
Por exemplo, o leitor já se interrogou alguma vez sobre a utilidade dos enormes montantes gastos para levar um homem à Lua? Para além do aspecto poético da questão, o que ganhámos com isso? Mas a verdade é que muitos dos materiais e dispositivos que usamos agora no nosso dia a dia resultaram da investigação que foi necessária para atingir aquele objectivo.
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Porfirio Silva
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27.6.11
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Resumo:
Neste ensaio tentamos uma resposta à seguinte questão: tem a intencionalidade de poder ser reduzida a alguma coisa? Propomos que é possível reduzir qualquer variedade de intencionalidade a uma especificação de mecanismos (organização interna dos itens intervenientes num fenómeno intencional) e um esquema histórico de interacção (estrutura das relações mútuas significativas adquiridas historicamente pelos vários itens intervenientes no mesmo processo intencional). Começamos por esclarecemos o sentido desta proposta a partir da abordagem teleosemântica de Ruth Millikan. Depois procuramos avaliar o interesse e a viabilidade da proposta considerando, sucessivamente, o caso do mundo animal e o caso dos humanos; o caso das máquinas; o caso dos colectivos sofisticados especificamente humanos. Terminamos expondo e defendendo o carácter heurístico da redução proposta.
Integral (ficheiro pdf): Porfírio Silva, "Intencionalidade: mecanismo e interacção", in Principia, 14(2), pp. 255-278
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Porfirio Silva
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22.6.11
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O fascínio de alguns comentadores-ou-jornalistas-ou-opinadores-ou com o facto de o novo ministro da educação ser matemático, formação que, no entender de alguns, lhe daria uma especial clarividência, não revela nada sobre o ministro, que suponho isento de qualquer responsabilidade nessa fantasia, mas revela muito sobre os autores dessa linha de magnífica admiração. Revela iliteracia matemática: a admiração tola dos ignaros. Quando eu andava nos primeiros anos de escolaridade já havia esse fenómeno: os meninos que suavam horrores só de pensar na aritmética elementar julgavam que os que sabiam multiplicar 9 por 6 sem gaguejar eram uns génios. Mais tarde, a luz que irradiava de quem resolvia um sistema de equações sem necessidade de aspersão com água benta, era uma luz inexistente - mas visível para os que começavam a tremer como varas verdes duas horas antes de uma aula de matemática, que eram os mesmos que se sentavam atrás do mais matulão a ver se passavam longe da vista do setôr de matemática. Esses desterrados das delícias das ciências formais parecem ser legião agora no jornalismo-comentarismo, onde prosseguem a narrativa dos seus medos, agora definitivamente convencidos de que quem sabe matemática é um génio.
Não é necessariamente um génio. E aviso, desde já, os ditos jornalisto-comentadores, para irem meditando no assunto: mesmo que Nuno Crato venha a revelar-se um génio como ministro (os santos o protejam, se já o perdoaram dos radicalismos juvenis), isso não será prova de que ser matemático implique ser um génio.
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Porfirio Silva
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22.6.11
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Daniel Cohn-Bendit no Parlamento Europeu em Maio do ano passado.
Não é a primeira vez que se coloca aqui este vídeo. Vale, contudo, a pena, repetir - e acrescentar qualquer coisa.
Desde logo, que não são só os medinas carreiras deste mundo que sabem fazer previsões. Cohn-Bendit foi - sem grande esforço, aliás - mais profeta do que muitos que para aí andam. E, como se sabe, Cohn-Bendit não foi o único a ver (não é, sequer, prever) que assim se passariam as coisas: como elas se estão a passar. A vantagem para Cohn-Bendit é que ele indica soluções dentro da UE.
Depois, que a hipocrisia dos "ricos" da UE continua a ser tão grande como era ao tempo - e isso pode ferir mortalmente esta Europa, mesmo que isso para já não se note por causa das solidariedades partidárias (o Partido Popular Europeu, com a sua hegemonia nos governos, ajuda a garantir que ninguém morda as canelas da senhora Merkel, por mais disparates que ela faça - e faz).
Incidentalmente, Barroso faz, neste vídeo, aquilo que passa a vida a fazer: o que lhe interessa é recontar a sua própria narrativa pessoal (empertiga-se para dizer que nunca perdeu as eleições, mas não diz que isso foi por se ter posto a mexer antes de chegar o seu tempo). Nunca antes de Barroso um presidente da Comissão Europeia tinha andado tão aos papéis, barata tonta num terreiro onde tem de fazer de conta que existe quando ninguém lhe liga. Os "grandes da UE" já nem se dão ao trabalho de fazer de conta que o ouvem, que esperam uma iniciativa sua - sequer de lhe arranjar um lugar de figurante na peça. Barroso limita-se a correr atrás das canas para poder dizer que viu os foguetes: provavelmente, já estará a pensar para onde fugir a seguir, talvez mais alto, talvez venha de férias cá para dentro.
Por que será que os nossos séculos XVI acabam sempre cedo demais?
Gosto do simbolismo.
Assunção Esteves estará, como qualquer homem estaria, sujeita ao escrutínio do exercício efectivo das suas funções. Não obstante, gosto de ver mulheres lá no alto. Só haverá verdadeira igualdade de género quando houver tantas mulheres incompetentes no altos cargos como homens incompetentes por lá andam.
Valeu, pois, a pena ter votado contra Nobre. O simbolismo do independentismo de pacotilha era uma tolice, mal servida por um vaidoso em difícil equilíbrio no processo de emigrar para a política dos altos voos para que se não tinha preparado.
Passos Coelho, pelo seu lado, continua a falhar tiros mas a encontrar, por vezes, boas correcções de rumo. Se compararmos com os primeiros tempos de Cavaco, Passos Coelho até está muito bem. Toca a trabalhar, portanto.
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Porfirio Silva
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21.6.11
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"Viagem a Portugal", de Sérgio Tréfaut, pinta-nos de forma terrivelmente injusta. Portugal é, de todos os países do mundo, um dos que melhor tratam os seus imigrantes. Este filme pisa essa realidade, construída passo a passo com cuidado e labor, apresentando-nos como um país atroz para os estrangeiros que nos chegam. Para quem, como Sérgio Tréfaut, parece ter a pretensão de fazer um certo cinema social, este filme, estética à parte, é uma bofetada em quantos ajudaram a fazer de Portugal um país mais justos para os imigrantes. Confesso que fiquei revoltado ao ver este filme: parece-me pornográfico tratar de "temas de sociedade" de forma tão insensível ao contexto verdadeiro desses temas.
O fenómeno dos "indignados" contém sinais contraditórios (espero um destes dias ter tempo e inspiração para escrever sobre isso). Sem rebuços, considero claramente detestável, em tais movimentos, o ataque às instituições representativas, como aconteceu na Catalunha com a ameaça de bloqueio ao parlamento. Sei bem, entretanto, que essas derivas não esgotam a "indignação", nem representam o movimento no seu conjunto.
De qualquer modo, espero que os que se escandalizam com o ataque dos indignados às instituições democráticas se escandalizem, pelo menos com a mesma força, pelo ataque das agências de rating às mesmas instituições democráticas. Defendo que devem ser sentados nos bancos dos réus (já não há réus, apenas arguidos, mas ainda lá têm o banco dos réus, certamente, porque um banco é sempre um banco) devem ser sentados nos bancos dos réus os que atacam os representantes do povo enquanto representantes do povo; defendo que devem ser sentados no banco dos réus os que, escorados em "instituições do mercado", atacam a organização democrática, dos países e das regiões, apenas com critérios de batalha. Financeira. Batalha financeira. Ou, mais precisamente: terrorismo. Terrorismo financeiro.
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Porfirio Silva
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21.6.11
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Hoje às sete da manhã ouvi Alberto João Jardim a dizer que ele merecia (corrigiu: "nós merecemos") o prémio de ter o Presidente do Parlamento, pela interposta pessoa de Guilherme Silva. Se Guilherme Silva vier a ser proposto (se for proposto, será eleito), Alberto João Jardim começa este ciclo político com mais um desenvolvimento da sua saga, intitulada "um ditador nesta democracia pode safar-se muito bem". Nesse caso - e não estou a fazer nenhum juízo sobre Guilherme Silva propriamente dito -, Nobre vinga-se muito bem: para substituir o mais descarado equilibrista do ano, o PSD só teria encontrado um embaixador da nódoa do Atlântico.
Saiu a sorte grande ao PSD.
Passos Coelho fez o papel de homem de palavra e levou Nobre à votação; até insistiu, levando-o à segunda votação; mas o homem não passou. Aliás, dá a impressão que o chumbo de Nobre foi devidamente preparado nas hostes da maioria: o CDS nunca deixou de falar claro contra ele; em nenhuma das duas votações Nobre teve sequer todos os votos da sua bancada (os faltosos à votação eram do PS); da primeira para a segunda votação, Nobre perdeu um voto: parece que da própria bancada do PSD saíram desertores, talvez para compensar aqueles que nas insistências amolecem e tendem a deixar resolver o problema.
Nobre não foi eleito e, com isso, o PSD, se talvez passou hoje uma pequena vergonha, poupou provavelmente muitas vergonhas futuras. (Se calhar era por tudo isto que António Costa achava que o PS devia votar Nobre.) E, diga-se, o PSD tem lá grandes presidentes do parlamento para apresentar e vencer.
Nobre, esse, como fez duas promessas contraditórias (sair se não fosse presidente, ficar mesmo não sendo presidente), acabará por cumprir uma.
Tudo está bem quando acaba bem.
Post Scriptum: Já agora, o título do Público: o homem não desistiu de ser presidente, desistiu de tentar. Quanto a ser presidente, não desistiu - foi desistido.
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Porfirio Silva
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20.6.11
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Quando o PS estava no governo, eu defendia que o país precisava de uma oposição forte. Agora que a direita está no governo, defendo que o país precisa de uma oposição forte, quer dizer, que ofereça ao país alternativas, credíveis e realizáveis, ao que vai fazendo quem está no governo. E acrescento que o PS terá de ser pedra fundamental nesse serviço ao país.
É por isso que estou pasmado com o que já se viu do processo de “renovação interna” do PS. Aparentemente, Carlos César é o único líder regional que ainda não tomou posição por Seguro ou por Assis. O que quer isso dizer? Quer dizer que toda a gente dentro do PS sabe muito bem o que valem e o que pensam Assis e Seguro, mas César é um negociador e está a falar com um e com outro só para aferir o preço que cada um está disposto a pagar? Se isso for assim, não será grande novidade, mas fica um bocado pior do que o costume na fotografia, já que parece que todos os outros líderes regionais se inclinaram expedita e mui informadamente. Ou a dita especificidade de César quererá dizer, pelo contrário, que o líder do PS nos Açores é o único dentro desse partido que tem consciência de quanto soa ridículo, aos olhos do país, que toda a gente corra a lançar-se nos braços de Assis ou de Seguro mesmo antes de Assis ou Seguro, generalidades à parte, dizerem minimamente ao país ao que vêm?
Que Assis e Seguro vêm ao cargo de secretário-geral do PS, já se percebeu. É até honroso: querer exercer essa responsabilidade neste momento difícil é uma disposição louvável. Que, certamente, cada um deles sabe muito bem o que quer fazer do PS, quero crer que sim: é o mínimo que tenho de acreditar para crer que os socialistas – pelo menos esses dois – não ensandeceram. Que os militantes do PS saibam bem o que pensam Seguro e Assis, e tenham na ponta da língua para os enunciar quais os critérios para os distinguir e preferir um ao outro, tenho de admitir que seja verdade. Só que, do ponto de vista do país – os partidos fazem sentido para o país, para os que não estão por dentro, para os que esperam perceber como se preparam as alternativas – do ponto de vista do país parece-me bizarro que se dê a entender que toda a gente dentro do PS já está a ser arregimentada em exércitos diversos sem que, de qualquer forma entendível para os não iniciados, se perceba quais as diferenças políticas que justificam essa correria aos apoios aos candidatos em presença.
Ou, então, sou eu que estou (ou sou) distraído.
«O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.»
Álvaro Cunhal, discurso ao VII Congresso do PCP, Outubro de 1974 ____________________________________________