Mostrar mensagens com a etiqueta da morte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta da morte. Mostrar todas as mensagens

Sexta-feira, Setembro 09, 2011

a glimpse of happiness

alterno raul brandão e ruy belo
transporte no tempo com el-rei junot
a melhor poesia em grande prosa 
grande poesia que toda a prosa deveria ter

morte e mais morte entre 
tanta vertigem de fim é
possível um frémito de 
felicidade em tanta morte 

só no meio da melhor prosa
e de tão grande poesia

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

parte-se-me o coração quando passo pelas minhas casas da infância

por isso espero sempre que a casa onde estou seja a última, e, se afortunado, nela morrer; por isso gosto tanto disto que escreve o quase centenário Sabato*:
«Avanço para a minha casa por entre as magnólias e as palmeiras, entre os jasmins e as imensas araucárias e detenho-me a observar a trama que as trepadeiras esculpiram sobre a fachada desta casa que é já uma ruína querida, com persianas apodrecidas ou desengonçadas; no entanto, ou precisamente pela sua velhice parecida com a minha, compreendo que não a trocaria por nenhuma mansão do mundo.»

*Resistir, tradução de carlos Aboim de Brito, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005, p. 28.

Quinta-feira, Junho 15, 2006

Espera

A noite fechada trouxe-me cá fora, ao alto portão de ferro. Agarro-me às grades como um escravo da luz de breu. Passo o portão e em dois passos estou na abadia que parecia distar léguas. Um cheiro fétido a suor e burel revelam-me um monge que me fita silencioso. Trespassa-me uma ventania de claustro e o piso, antes terroso, é agora de pedra. Não consigo articular uma palavra, apenas sons abafados pelos sinos que me ensurdecem. Os olhos, de dentro do capuz, indicam-me agora um rectângulo na laje. Gravado está o meu nome, o dia do meu nascimento, e o desta noite.
Agosto de 2000
Seis Composições Outonais

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Prece

Viver até ao próximo Natal é, desde criança, o pedido que sempre faço ao Deus em que não creio.

Quarta-feira, Abril 26, 2006

Quem não faz bem a uma pessoa, faz-lhe mal...
Gorki
Que ficará duma vida tão plenamente cumprida, prolongada nos filhos e nos netos, da bondade para além das vazias palavras de circunstância, praticada cada dia sem olhar a quem? Que ficará, senão a memória do terno riso sofrido da minha Mãe? Bondade e eternidade, imperfeitíssima rima.

Segunda-feira, Abril 10, 2006

Dos meus mortos não fica a memória senão em mim e que em mim morrerá. Justiça do Tempo para os que alegadamente viram a vida passar? Alguns não deixaram rasto -- e toda a sua vida fez sentido.

Quinta-feira, Abril 06, 2006

A vida até me correria bem,
não fora a morte às vezes pairar.

Quinta-feira, Março 30, 2006

Vem

Já somos nada
quando a morte nos persegue.
Esperamo-la, implacável,
com o anúncio dos primeiros sinais.

Seis Composições Outonais
2001

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

os dias passam por ele
sem que ele dê pelo passar dos dias por ele
adoece e não sabe que é o fim
abana a cauda e sucumbe
ao tiro no crânio
sem espanto
à injecção letal
em paz
27-I-2003

Quarta-feira, Junho 01, 2005

Sol de Junho

O sol de Junho irradia,
sem se extinguir a moinha
a chover-nos dentro.

Somos atravessados pela melancolia,
choro intenso de lágrimas secas.

Trazemos em nós o próprio feto,
que continuamente violentamos.

VI-2001

Quinta-feira, Maio 19, 2005

E de repente dois eufemismos

Idosa, em vez de velha; faleceu, em vez de morreu.