Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Pensamentos impensados

A Inquisição fez inúmeras vítimas por queimaduras; ainda não tinham inventado os bronzeadores.

Bactéria atrai bactéria na razão directa da infecção, e na inversa do antibiótico.

O Limbo foi uma invenção da Igreja para descongestionar o Purgatório.

Tales, de Mileto, foi o primeiro a tentar construir a linha de caminho de ferro; mas devido ao seu estrabismo apenas conseguiu um paralelismo convergente que esteve na origem do seu famoso teorema.
SdB (I)

Filmes dos dias que correm

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Pensamentos impensados

Eureka era uma estância balnear onde o Arquimedes ia amolecer os calos.

Pitágoras foi um grande promotor do triângulo Lisbo/Sintra/Cascais.

Atendendo a que o Conde de Andeiro foi morto na flor da idade poder-se-á dizer que foi desflorado?


SdB (I)

Cemitério de barcos

I.

Pudesse eu levar
Uma mão cheia de areia,
E outra cheia de mar,
Para que quando desaparecer
Para nunca mais voltar
Possa mais um dia cheirar
A praia que me viu nascer

II.

Há quem lhe chame cemitério. Aqui, os barcos não navegam. Ficam parados, a verem-se ao espelho da água. Não estão à espera de nada nem de ninguém. Estão só parados, mortos.

As redes foram arrumadas à cabeceira, os remos cruzados sobre as traves e os nós foram todos desatados das cordas. E é assim que ali ficam, para sempre.

Percebe-se que lhe dêem este nome. Estão lá as lápides com os nomes de quem ali conheceu a última casa terrena. Mas estas, ao contrário do mármore escuro e frio, são as madeiras dos barcos, ainda quentes do sol e roídas pelo sal, pintadas a cores de aguarela.

Não há flores, mas há conchas. Não há cheiro a árvores e a Outono, mas cheira a maresia. E, como em qualquer outro cemitério, o silêncio aqui é mais do que a simples ausência de barulho. Aqui, o silêncio é o som dos dias sem vento e sem sol. É a música das noites com estrelas e sem lua. Mesmo as ondas que embalam os barcos rebentam na costa sem qualquer som.

E naquelas rochas há um ponto que sobe mais alto do que os outros, e de onde se vê o mar até ao outro lado. Foi daí que se disse o último adeus aos barcos, e é aí que as gaivotas pousam e ficam paradas a ver o horizonte.

E cada vez que passo por aqui, ao olhar para este repouso, pergunto-me para onde vão os barcos quando são aqui sepultados. Porque o casco fica, mas o resto não...

SdB (III)

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

O homem do talho

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado Sábado no Porta do Vento

Domingo, 27 de Setembro de 2009

Só a verdade liberta

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Se bem que o comentário que segue, do Pe. Vitor Gonçalves, seja relativamente ao Domingo passado, não resisto a transcrever uma parte, pela sua actualidade.

É sempre a tentação de idealizar uma realidade assente sobre lógicas de poder e glória (que não estamos imunes de prolongar na sociedade, na família e na Igreja), fugindo do caminho da humildade e do serviço, do acolhimento dos mais insignificantes e desprezados. Só a verdade liberta. Só a alegria de servir pode mudar por dentro aquilo que está mal. Por isso, a mudança que Jesus quer fazer em nós, fortalece-nos para aquelas que é preciso fazer à nossa volta. Mas será que estamos dispostos a mudar o olhar, o pensar, e o agir segundo critérios de um amor sem medida, de uma verdade procurada e corajosamente praticada? Mesmo sabendo que isso tem a marca da cruz?

EVANGELHO – Mc 9,38-43.45-47-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
João disse a Jesus:
«Mestre,
nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais;
porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim.
Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim,
melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas por um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo,
deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Even so

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Depois esperou por mim e eu não vim.
Roubaram-me de si e você não disse nada.

O que se diz a quem vai e já não volta?
A quem passa do dia para a noite e esquece as horas?
E se deixa roubar vezes sem conta?

Eu pedi-lhe e você disse que sim.
Que fosse, que livrasse o coração de qualquer culpa.
Que aqui o que se faz é por amor.

Você esperou JdB e eu não vim.
Pela tarde mandou-me ir e eu lá fui.
Veio a noite JdB e eu segui.
Vi as estrelas desbotarem com a manhã.
Riscou-se o dia JdB, emudeci.
Só Deus sabe o que foi chegar aqui.
E só Deus sabe com que gosto eu sorri.

Tell me Jdb: – Do you still love me?


DaLheGas

Filmes dos dias que correm

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

lenga-lenga, lenga-lenta, lenta-lenta

na viragem do ano,
a formiga interroga-se:
a harpa ou as suas cordas?

na viragem do ano,
também a cigarra se pergunta:
tronco ou flauta?

a montanha condensada - diz a capa.
mão de criança hoje, pulso firme futuro.
ou será ao contrário?

à flor não se pergunta.
a verdade não se dilui,
chovam mil águas ou nenhuma.

o livro como a vida.
quantas páginas, mestre?
as que escreveres, rapaz.

escrever.
lavrar o campo.
esperar a estação certa.

sim, não, sim, não, sim, não..
lenga-lenga de inverno hoje.
escuta: já lá vem o verão.

gi

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Deixa-me rir...

"Imagine... a warm summer's evening, by a dark flowing river, under a magical moonlit sky. A stage bathed in purple light. The audience in hushed anticipation, some awaiting the return at last of a cherished hero, others curious to experience for the first time, like me... And then The Man appears, forever stylish in his tailored suit and tie and fedora hat. His band of musicians look equally chic.

This was the scene last summer by Lisbon's river Tejo. And I had the opportunity to re-live this experience once more this summer. No warm evening. No moon. Lots of rain. Well, this was England. But it did not matter.

He performs with the same grace and humility and charisma and humour, and respect for his audience and for his fellow musicians.

His band are exceptionally artistic instrumentalists, the arrangements rhythmic, spanish, cabaret, waltz...

Not everyone likes Leonard Cohen. At least, they think they don't, or they would not, happy to accept the stereotypical belief that his poetic music sounds and therefore must be depressing. Well, he is not a pop singer. But his deep and mellow voice carries the wisdom and sensibilities of a lifetime's experiences. When he speaks he is quiet, understated, the audience captivated in his presence, clinging to his every word, like a congregation to their bishop's sermon.

LC himself makes fun of his mournful image by skipping onto and off the stage and dancing during his band's instrumental solos. He jokes that it is 14 years since he last gave concerts, when he was 60 years old, just a kid with a crazy dream. In that time he tells us that he studied the religions and philosophies of the world, but cheerfulness, cheerfulness kept breaking through.

I think these worldwide concerts have opened the ears and eyes of some sceptical people. And of a new younger generation.

[If anyone is interested to discover more, I found a very good review with excellent pictures which expresses the whole concert experience much better than I can: http://www.lauraleanalle.com/Blog/leonard-cohen-review.html ]

If you are converted, or maybe you too were present, LC has released a new double cd, Live In London, which captures perfectly the aural magic of LC and his band. I hope there will one day be a dvd to capture the visual magic.

But if you still find his voice hard to listen to, I here offer you a compromise:

one of the most magical moments of all; one of the greatest in LC's Tower of Songs, introduced by The Man as a spoken prayer before taking heavenly flight on the wings of the angelic harmonies of his backing singers. Accompanied by a harp. Spell-binding. Sublime.



The Webb Sisters are just two of many wonderful backing singers employed through the years by LC. They are English; how LC discovered them I do not know; but I imagine and hope that they will find their own solo success. I suggest you find and listen also to one of their own compositions, Baroque Thoughts.

Until the next time...

po

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Pensamentos impensados

A problemática circunstancial dum paralelismo convergente obtém-se multiplicando o centrismo periférico pelo parafuso sem fim

Um organista é um anarquista organizado.

A temperança é um condimento ou um condicionamento?


SdB (I)

Filmes dos dias que correm...

Para quem já tem alguma idade (o filme é de 1971), para quem é fã dos Bee Gees e para quem não se importa de legendas em japonês.

É o meu caso...

JdB

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Memórias e Lembranças


Das memórias que fogem do tempo, a que seguro com mais afinco é a do olhar, que nunca uns olhos souberam dizer tanto como aqueles. Os anos foram rasgando afincadamente as rugas da idade, à força de muito sol e muito sorriso franco, do homem que, de entre todos os que nasceram naquele tempo difícil, se ergueria para caminhar sempre um passo à frente do mundo. Quase todas as vidas davam um livro, menos são, em verdade, as que dariam um bom livro, raras contudo, são as que não cabem em qualquer livro, por mais que se encolham as frases e se estreite o papel.Das mil e uma linhas que, escritas, não diriam tudo, escolho algumas que, pertinentes nesta altura, reproduzem o que outros, pegando no mesmo exemplo, o do meu avô, e procurando o mesmo fim que eu, já rabiscaram com contornos semelhantes.Defendo que a felicidade do Homem, na sua essência, reside num dos sentimentos mais corriqueiros e, sobretudo, mais desvalorizados dos dias que correm, o da utilidade. O Homem é feliz se sentir que é útil.

Levantar-se-ão, perante esta afirmação, vozes com acusações de ingenuidade, mas eu sei que os olhos bons do meu avô eram, com toda a certeza, rasgados pelo triunfo de se sentir útil. E desengane-se quem pensa que o reconhecimento é condição necessária, porque não o é, de todo.

Ficam estas linhas, para lembrar coisas que eu não gosto de esquecer.

ZdT

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Pensamentos impensados

O Adão foi a primeira pessoa a ser traumatizada pelo complexo de Édipo: gritou MAMÃ MAMÃ e apareceu-lhe um velho de barbas com um triangulo na cabeça.

A característica do improviso é o pensamento antecipado.

O peixe é um animal depauperado: não tem "pauperas".

SdB (I)

O Presidente da Junta

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente; lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento.